{"id":24539,"date":"2018-06-07T15:00:18","date_gmt":"2018-06-07T18:00:18","guid":{"rendered":"http:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=24539"},"modified":"2018-06-04T13:21:37","modified_gmt":"2018-06-04T16:21:37","slug":"o-povo-que-fez-do-pinhao-uma-floresta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/o-povo-que-fez-do-pinhao-uma-floresta\/","title":{"rendered":"O povo que fez do pinh\u00e3o uma floresta"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/d133mo2u8ekg8z.cloudfront.net\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/01jun_interna.jpg\" \/><em>Divulga\u00e7\u00e3o \/ Je Landscapes Project \/ Universidade de Exeter<\/em><\/p>\n<p><strong>Pesquisa in\u00e9dita revela que as matas de arauc\u00e1ria do sul do Brasil foram plantadas por tribos J\u00eas h\u00e1 mil anos; esp\u00e9cie est\u00e1 amea\u00e7ada de extin\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Quando os europeus come\u00e7aram a chegar \u00e0s \u00e1reas montanhosas da regi\u00e3o Sul do Brasil, encontraram majestosas florestas nas quais predominava a arauc\u00e1ria ou pinheiro-do-paran\u00e1 (<i>Araucaria angustifolia<\/i>), esp\u00e9cie dizimada nos s\u00e9culos seguintes por causa da excel\u00eancia de sua madeira, e ainda hoje sob risco de extin\u00e7\u00e3o. Uma nova an\u00e1lise arqueol\u00f3gica fortalece a ideia de que a vastid\u00e3o das matas de arauc\u00e1ria do sul pr\u00e9-cabralino tamb\u00e9m foi, em grande parte, causada pela a\u00e7\u00e3o humana: a floresta se expandiu justamente numa \u00e9poca em que o clima era desfavor\u00e1vel ao seu crescimento e tem associa\u00e7\u00e3o estreita com os assentamentos das principais sociedades ind\u00edgenas dos planaltos sulinos.<\/p>\n<p>A descoberta faz parte de um grande esfor\u00e7o de arque\u00f3logos do Brasil e do Reino Unido para mudar a compreens\u00e3o sobre o passado ind\u00edgena dessas regi\u00f5es. Tais \u00e1reas elevadas eram o dom\u00ednio de grupos conhecidos coletivamente como Proto-J\u00ea, cujos descendentes atuais s\u00e3o as etnias Kaingang e Xokleng. Em tempos recentes, eles eram vistos como grupos relativamente pouco organizados e sem grande produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola. Mas os dados arqueol\u00f3gicos levantados nos \u00faltimos anos sugerem a exist\u00eancia de sociedades populosas, produtivas, dedicadas \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de monumentos funer\u00e1rios com terra batida e em processo de consolida\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, com a forma\u00e7\u00e3o das chamadas chefias de escala regional, nas quais v\u00e1rias aldeias ficavam sob a hegemonia de um \u00fanico l\u00edder.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que eles tinham absoluta consci\u00eancia do que estavam fazendo [<i>ao estimular a expans\u00e3o das arauc\u00e1rias<\/i>]\u201d, disse o arque\u00f3logo brasileiro Jonas Gregorio de Souza, da Universidade de Exeter (oeste da Inglaterra), um dos autores do\u00a0<a href=\"https:\/\/www.sciencedaily.com\/releases\/2018\/05\/180517081817.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">novo estudo<\/a>\u00a0na revista especializada\u00a0<i>Scientific Reports<\/i>. Souza citou o conceito de \u201clandesque capital\u201d, usado para definir a cria\u00e7\u00e3o, pela m\u00e3o humana, de ambientes de larga escala que favorecem a subsist\u00eancia de uma sociedade no longo prazo. \u201cVoc\u00ea modifica a paisagem n\u00e3o s\u00f3 para o seu benef\u00edcio, mas tamb\u00e9m para o de v\u00e1rias gera\u00e7\u00f5es seguintes. No caso da arauc\u00e1ria, uma \u00e1rvore que demora uns quarenta anos para chegar \u00e0 maturidade, isso \u00e9 muito claro, porque voc\u00ea n\u00e3o vai ter um aproveitamento imediato daquilo.\u201d<\/p>\n<p><span class=\"capitalize\">O<\/span>primeiro passo da equipe, que inclui tamb\u00e9m pesquisadores da USP e da Universidade Federal de Pelotas, foi examinar a distribui\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica moderna das matas de arauc\u00e1ria e compar\u00e1-la com os dados paleoclim\u00e1ticos e paleoecol\u00f3gicos, ou seja, como teriam variado o clima e os ambientes sulinos ao longo dos \u00faltimos mil\u00eanios.<\/p>\n<p>Eles verificaram, em primeiro lugar, que esse tipo de floresta, que abriga ainda esp\u00e9cies como a\u00a0<i>Ilex paraguariensis<\/i>, a c\u00e9lebre erva-mate, passou por uma fase inicial de expans\u00e3o entre 4 500 e 3 000 anos atr\u00e1s, \u00e9poca em que ainda havia poucos sinais de atividade agr\u00edcola e sedentarismo na regi\u00e3o. Nessa fase, o crescimento das arauc\u00e1rias se concentrou principalmente \u00e0 beira de rios do planalto. Depois disso, h\u00e1 um longo per\u00edodo de estagna\u00e7\u00e3o desse avan\u00e7o, que retorna, de modo r\u00e1pido e amplo, entre 1 500 e 1 000 anos atr\u00e1s, coincidindo com uma fase de expans\u00e3o e aumento da complexidade e tamanho dos assentamentos Proto-J\u00ea.<\/p>\n<p>Mas, como sabe qualquer um que conhe\u00e7a os rudimentos da metodologia cient\u00edfica, correla\u00e7\u00e3o n\u00e3o significa causa \u2013 mesmo que o crescimento dos Proto-J\u00ea e o das matas de arauc\u00e1ria coincidam, isso n\u00e3o significa, necessariamente, que o primeiro teria causado o segundo (ou vice-versa). Um primeiro elemento que ajuda a quebrar esse impasse vem dos dados paleoclim\u00e1ticos. Arauc\u00e1rias se d\u00e3o melhor em ambientes mais \u00famidos e, de fato, a regi\u00e3o Sul passou por um aumento da umidade na primeira fase de expans\u00e3o das matas, por volta de 4 000 anos atr\u00e1s \u2013 mas n\u00e3o na segunda fase. Ali\u00e1s, enquanto assentamentos ind\u00edgenas e florestas cresciam cerca de 1 000 anos atr\u00e1s, a regi\u00e3o estava ficando mais seca. Ou seja, se dependessem apenas de causas naturais, as arauc\u00e1rias deveriam ter se retra\u00eddo, sendo substitu\u00eddas por gram\u00edneas.<\/p>\n<p>O passo seguinte foi tentar comparar o que acontecia com a mata em regi\u00f5es com alta concentra\u00e7\u00e3o de s\u00edtios arqueol\u00f3gicos e outras em que n\u00e3o existiam assentamentos pr\u00e9-cabralinos. A ideia era produzir um modelo do habitat \u201c100% natural\u201d das arauc\u00e1rias e ver se ele batia com a distribui\u00e7\u00e3o das \u00e1rvores em todos os lugares. Para isso, os pesquisadores compararam Campo Belo do Sul, em Santa Catarina, habitado pelos Proto-J\u00ea, com Lages, 60 quil\u00f4metros a leste, sem a presen\u00e7a de aldeias pr\u00e9-hist\u00f3ricas. Para minimizar a poss\u00edvel influ\u00eancia das derrubadas mais recentes na interpreta\u00e7\u00e3o dos dados, a equipe teve ainda o cuidado de usar imagens de sat\u00e9lite dos anos 60 na an\u00e1lise.<\/p>\n<p>Resultado: os dois cen\u00e1rios simplesmente n\u00e3o batem. A distribui\u00e7\u00e3o da floresta em Lages, teoricamente mais \u201cnatural\u201d, concentra-se em \u00e1reas um pouco mais baixas e encostas voltadas para o sul, enquanto as arauc\u00e1rias de Campo Belo do Sul s\u00e3o comuns tamb\u00e9m em \u00e1reas mais altas e encostas voltadas para o norte. \u201cEssa prefer\u00eancia pelo sul das arauc\u00e1rias \u00e9 bem conhecida na literatura bot\u00e2nica\u201d, conta Souza. \u201cParece ter a ver com a dire\u00e7\u00e3o predominante dos ventos e com a ilumina\u00e7\u00e3o que as plantas recebem, o que favorece seu crescimento.\u201d Ent\u00e3o, como elas chegaram \u00e0s encostas ao norte?<\/p>\n<p>A \u00faltima pe\u00e7a do quebra-cabe\u00e7a veio da an\u00e1lise e da data\u00e7\u00e3o dos solos onde as \u00e1rvores crescem. Ocorre que diferentes tipos de vegetais incorporam propor\u00e7\u00f5es ligeiramente distintas de is\u00f3topos (variantes) do elemento qu\u00edmico carbono em seu organismo conforme fazem fotoss\u00edntese e crescem. Desse ponto de vista, \u00e1rvores como as arauc\u00e1rias s\u00e3o classificadas como plantas C3 e usam menos o is\u00f3topo chamado de carbono-13 em seu metabolismo do que as gram\u00edneas tropicais, chamadas de plantas C4. Conforme as plantas v\u00e3o morrendo, essas diferentes propor\u00e7\u00f5es de carbono-13 v\u00e3o sendo incorporadas ao solo, deixando um registro das mudan\u00e7as de vegeta\u00e7\u00e3o em cada lugar. De quebra, \u00e9 poss\u00edvel datar essa varia\u00e7\u00e3o ao longo do tempo.<\/p>\n<p>O que os pesquisadores viram \u00e9 que, enquanto locais desabitados como Lages possuem um perfil est\u00e1vel de is\u00f3topos de carbono ao longo de mil\u00eanios, \u00e1reas com s\u00edtios arqueol\u00f3gicos que antes tinham gram\u00edneas passam por uma mudan\u00e7a nas variantes do elemento qu\u00edmico em seu solo que s\u00f3 podem significar a chegada de arauc\u00e1rias em massa \u00e0 paisagem \u2013 e isso justamente no per\u00edodo que coincide com a ocupa\u00e7\u00e3o ind\u00edgena. Os ancestrais dos Kaingang e Xokleng, portanto, de alguma forma estavam atuando como semeadores da floresta, levando-a para locais onde n\u00e3o cresceria naturalmente e usufruindo dos muitos recursos que ela oferece, como os saborosos e nutritivos pinh\u00f5es.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/d133mo2u8ekg8z.cloudfront.net\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/01jun-semente_interna.jpg\" \/><i>Pinh\u00e3o analisado pelos pesquisadores em Santa Catarina<\/i><\/p>\n<p>\u00c9 importante frisar a express\u00e3o \u201cde alguma forma\u201d porque n\u00e3o h\u00e1 ind\u00edcios claros de plantio em grande escala de arauc\u00e1rias nos dados etnogr\u00e1ficos sobre essas popula\u00e7\u00f5es. O processo pode ter sido mais passivo, pondera Souza: coletando grandes quantidades de pinh\u00e3o e carregando-as consigo quando fundavam novos assentamentos, os ind\u00edgenas fatalmente deixariam de consumir algumas das sementes, que acabariam germinando. Processos desse tipo continuam acontecendo ainda hoje em comunidades tradicionais da regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Seja como for, a simbiose com as arauc\u00e1rias, bem como lavouras de mandioca, feij\u00e3o e ab\u00f3bora, levou \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de grandes aldeias com centenas de casas semissubterr\u00e2neas e monumentos funer\u00e1rios como mont\u00edculos de terra no alto dos morros ou grandes an\u00e9is de terra batida, com dezenas de metros de di\u00e2metro e at\u00e9 1 metro de altura. Nesses montes podiam ser depositados os ossos de defuntos da \u201cnobreza\u201d Proto-J\u00ea depois de cerim\u00f4nias de crema\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A grandiosidade desses monumentos, ali\u00e1s, fica mais marcada com o aparecimento dos grupos Guarani na regi\u00e3o, vindos do oeste e do norte, talvez como sinaliza\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica dos chefes dos grupos Proto-J\u00ea contra a amea\u00e7a representada pelos forasteiros. Desse ponto de vista, as matas de arauc\u00e1ria e as aldeias ligadas a elas podem ser consideradas fortalezas desse povo nos planaltos sulinos.<\/p>\n<p>Fonte &#8211; Reinaldo Jos\u00e9 Lopes, Folha de S. Paulo de 01 de junho de 2018<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Divulga\u00e7\u00e3o \/ Je Landscapes Project \/ Universidade de Exeter Pesquisa in\u00e9dita revela que as matas de arauc\u00e1ria do sul do Brasil foram plantadas por tribos J\u00eas h\u00e1 mil anos; esp\u00e9cie est\u00e1 amea\u00e7ada de extin\u00e7\u00e3o Quando os europeus come\u00e7aram a chegar \u00e0s \u00e1reas montanhosas da regi\u00e3o Sul do Brasil, encontraram majestosas florestas nas quais predominava a&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"post_series":[],"class_list":["post-24539","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-geral","entry","no-media"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v25.2 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>O povo que fez do pinh\u00e3o uma floresta - 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