{"id":24567,"date":"2018-08-22T10:00:07","date_gmt":"2018-08-22T13:00:07","guid":{"rendered":"http:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=24567"},"modified":"2018-08-22T09:58:26","modified_gmt":"2018-08-22T12:58:26","slug":"crise-do-clima-porto-rico-meio-milhao-de-pessoas-devem-deixar-a-ilha-devastada-pelo-furacao-maria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/crise-do-clima-porto-rico-meio-milhao-de-pessoas-devem-deixar-a-ilha-devastada-pelo-furacao-maria\/","title":{"rendered":"Crise do clima &#8211; Porto Rico &#8211; Meio milh\u00e3o de pessoas devem deixar a ilha devastada pelo furac\u00e3o Maria"},"content":{"rendered":"<p><em>Dois meses ap\u00f3s o furac\u00e3o Maria, que devastou Porto Rico em setembro, Alfonso Col\u00f3n ainda retirava escombros de sua casa semidestru\u00edda em Punta Santiago<\/em><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/33l7LEmjVcQ\" width=\"600\" height=\"400\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n<p>SAN JUAN &#8211; As p\u00e1s decepadas das turbinas e\u00f3licas da empresa Gestamp em Naguabo, leste de Porto Rico, n\u00e3o deixam d\u00favida sobre a energia dos ventos. N\u00e3o tanto a da fonte alternativa que promete amenizar o aquecimento global, mas a for\u00e7a destruidora com que uma atmosfera desequilibrada pela mudan\u00e7a clim\u00e1tica lan\u00e7ou a f\u00faria do furac\u00e3o Maria sobre a ilha, em 20 de setembro de 2017.<\/p>\n<div class=\"video js-video-player yt-video \" data-video=\"33l7LEmjVcQ\">\n<p>A cerca de 15 km do parque e\u00f3lico destro\u00e7ado em Naguabo, outra fonte de energia limpa sofreu o impacto do ac\u00famulo de gases do efeito estufa na atmosfera. Em Humacao, uma fazenda de pain\u00e9is fotovoltaicos da empresa Reden Solar teve destru\u00edda a monotonia de suas fileiras de placas.<\/p>\n<p>A ilha caribenha foi assolada por ventos de at\u00e9 250 km\/h do ciclone de for\u00e7a 4 ao tocar Porto Rico (sobre o mar, Maria chegou \u00e0 intensidade 5 e foi um dos furac\u00f5es mais potentes de 2017). Maria deixou um rastro de US$ 90 bilh\u00f5es em preju\u00edzos e um Estado norte-americano \u2013se bem que de segunda classe, apenas \u201cassociado\u201d\u2013 em completo desamparo.<\/p>\n<p><button class=\"loop\" type=\"menu\"><\/button>\u00a0<iframe loading=\"lazy\" id=\"playerWZeT1OYGzYo\" class=\"show\" title=\"YouTube video player\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/WZeT1OYGzYo?autoplay=0&amp;controls=0&amp;showinfo=0&amp;rel=0&amp;loop=1&amp;modestbranding=1&amp;enablejsapi=1&amp;playsinline=1&amp;html5=1&amp;playlist=WZeT1OYGzYo&amp;cc_load_policy&amp;cc_lang_pref&amp;hl&amp;events=%5Bobject%20Object%5D&amp;origin=https%3A%2F%2Farte.folha.uol.com.br&amp;widgetid=2\" width=\"640\" height=\"360\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/p>\n<figure id=\"photo-1-6\" class=\"text--photo \"><\/figure>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2018\/05\/10\/15259858945af4b2660c215_1525985894_3x2_rt.jpg\" \/><em>Acima, p\u00e1s quebradas de turbinas e\u00f3licas em parque de Naguabo, Porto Rico, ap\u00f3s passagem do furac\u00e3o Maria; abaixo, usina de energia solar em Humacao, tamb\u00e9m destru\u00edda pela tempestade &#8211;\u00a0Lalo de Almeida\/Folhapress<\/em><\/p>\n<p>Foi uma temporada inesquec\u00edvel de furac\u00f5es. Harvey inundou 100 mil im\u00f3veis em Houston, no Texas. Irma foi o mais forte j\u00e1 registrado, com 37 horas na categoria 5. Maria completou a tr\u00edade causadora de US$ 265 bilh\u00f5es de perdas em territ\u00f3rio norte-americano. Ainda se debate, todavia, se tanta destrui\u00e7\u00e3o j\u00e1 seria produto da mudan\u00e7a clim\u00e1tica global.<\/p>\n<p>Furac\u00f5es crescem com o calor da \u00e1gua do mar, e sua temperatura est\u00e1 subindo com o aquecimento global. S\u00e3o fen\u00f4menos raros, por\u00e9m, e as estat\u00edsticas sobre intensidade e frequ\u00eancias dessas tormentas n\u00e3o d\u00e3o seguran\u00e7a plena de que a ligeira tend\u00eancia de alta registrada no s\u00e9culo 20 resulte de perturba\u00e7\u00f5es na atmosfera.<\/p>\n<div class=\"video js-video-player yt-video video-autoplay \" data-video=\"1uO6zMxBimQ\">\n<div class=\"hide-video\"><\/div>\n<p><iframe loading=\"lazy\" id=\"player1uO6zMxBimQ\" class=\"show\" title=\"YouTube video player\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/1uO6zMxBimQ?autoplay=0&amp;controls=0&amp;showinfo=0&amp;rel=0&amp;loop=1&amp;modestbranding=1&amp;enablejsapi=1&amp;playsinline=1&amp;html5=1&amp;playlist=1uO6zMxBimQ&amp;cc_load_policy&amp;cc_lang_pref&amp;hl&amp;events=%5Bobject%20Object%5D&amp;origin=https%3A%2F%2Farte.folha.uol.com.br&amp;widgetid=3\" width=\"640\" height=\"360\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/p>\n<\/div>\n<p>A temperatura da superf\u00edcie marinha j\u00e1 subiu 1,5\u00baC no Atl\u00e2ntico Norte, e algumas proje\u00e7\u00f5es indicam que se elevar\u00e1 pelo menos mais 1\u00baC na regi\u00e3o, que engloba o mar do Caribe. Modelos de computador que simulam o clima do futuro projetam que furac\u00f5es de categoria 4 e 5 poder\u00e3o tornar-se mais comuns, que a intensidade m\u00e9dia dos ciclones caribenhos subiria 4% neste s\u00e9culo e que a quantidade de chuva despejada aumentaria de 10% a 15%.<\/p>\n<p>O aeroporto inundou. O pr\u00f3prio governo entrou em colapso, acompanhando a infraestrutura. Pelo menos 90 mil postes ca\u00edram. A maioria da popula\u00e7\u00e3o \u201cboricua\u201d, como se chamam os habitantes de Porto Rico, ficou sem energia el\u00e9trica, telefonia celular, combust\u00edvel e internet por semanas.<\/p>\n<p>Quase oito meses depois, em 18 de abril, a seis semanas de iniciar-se nova temporada de furac\u00f5es, a ilha voltou a sofrer apag\u00e3o generalizado. E isso poucas horas depois de o governo anunciar que tudo voltara ao normal e que s\u00f3 3% da popula\u00e7\u00e3o ainda estava sem luz.<\/p>\n<p>O olho do furac\u00e3o Maria entrou na ilha pelo sudeste, em Yabucoa. Cortou-a de ponta a ponta, saindo por Isabela, no noroeste, num percurso aproximado de 190 km. As rajadas mais intensas varreram a por\u00e7\u00e3o leste do territ\u00f3rio, incluindo a capital San Juan.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2018\/05\/14\/15263310255af9f691ec96c_1526331025_3x2_rt.jpg\" \/><em>Mulher recolhe suas cabras ao lado de casa destru\u00edda pelo furac\u00e3o Maria na comunidade Caonillas, em Utuado, regi\u00e3o central de Porto Rico &#8211;\u00a0Lalo de Almeida\/Folhapress<\/em><\/p>\n<p>\u201cRugia como um le\u00e3o, inexplic\u00e1vel\u201d, conta Janet Gonz\u00e1lez, l\u00edder comunit\u00e1ria em Punta Santiago, perto de onde irrompeu o olho do furac\u00e3o. O mar adentrou 300 m de terreno, fazendo emergir \u00e1guas negras de fossas e esgotos. \u201cO telhado se foi, caiu parte do forro. J\u00e1 experimentei outros furac\u00f5es, como Hugo em 1989, mas nem chegam aos p\u00e9s [de Maria].\u201d<\/p>\n<p>Janet aguardava o in\u00edcio da distribui\u00e7\u00e3o de \u00e1gua e alimentos por um grupo de volunt\u00e1rios do bairro Camarones, na vizinha Guaynabo. Todos vestiam camisetas cor de laranja com os dizeres \u201cNo te quites. Lev\u00e1ntate. Unidos somos fuertes\u201d (N\u00e3o v\u00e1 embora. Levante-se. Unidos somos fortes), alus\u00e3o aos compatriotas que abandonaram o pa\u00eds depois do furac\u00e3o, a maioria para a parte continental dos EUA.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2018\/05\/14\/15263309895af9f66d7cff0_1526330989_3x2_rt.jpg\" \/><em>Pessoas atravessam o rio Esp\u00edrito Santo, em Porto Rico, ap\u00f3s a passagem do furac\u00e3o Maria &#8211;\u00a0Mario Tama &#8211; 8.out.17\/Getty Images<\/em><\/p>\n<p>Sob o sol forte da uma da tarde, a carreata para na casa de madeira semidestru\u00edda de Alfonso Lugo Col\u00f3n. A sala desapareceu. \u201cCa\u00eda \u00e1gua salgada do telhado\u201d, diz. \u201cN\u00e3o se respeita a palavra de Deus. Aconteceu porque tinha de acontecer.\u201d<\/p>\n<p>A casa que dividiu por 48 anos com a mulher, morta h\u00e1 dois, est\u00e1 coberta por uma de milhares de lonas pl\u00e1stica azuis distribu\u00eddas em Porto Rico pela Ag\u00eancia Federal de Administra\u00e7\u00e3o de Emerg\u00eancias dos EUA (Fema, na abrevia\u00e7\u00e3o em ingl\u00eas). A sua fora esticada por bombeiros de um pa\u00eds cujo nome Lugo n\u00e3o recorda mais.<\/p>\n<div class=\"video fullscreen js-video-player yt-video video-autoplay \" data-video=\"WLCXzsnpNRk\"><iframe loading=\"lazy\" id=\"playerWLCXzsnpNRk\" class=\"show\" title=\"YouTube video player\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/WLCXzsnpNRk?autoplay=0&amp;controls=0&amp;showinfo=0&amp;rel=0&amp;loop=1&amp;modestbranding=1&amp;enablejsapi=1&amp;playsinline=1&amp;html5=1&amp;playlist=WLCXzsnpNRk&amp;cc_load_policy&amp;cc_lang_pref&amp;hl&amp;events=%5Bobject%20Object%5D&amp;origin=https%3A%2F%2Farte.folha.uol.com.br&amp;widgetid=4\" width=\"640\" height=\"360\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Sem luz havia dois meses, portanto sem geladeira, o aposentado sobrevive com as doa\u00e7\u00f5es. Guarda na cozinha dezenas de fardos de \u00e1gua mineral e latas de alimentos em conserva. \u201cAjuda do governo, nada. S\u00f3 das pessoas que trazem comida e rem\u00e9dios.\u201d Lugo j\u00e1 tinha preenchido o formul\u00e1rio da Fema descrevendo suas perdas e aguardava uma decis\u00e3o da ag\u00eancia sobre uma indeniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 que ter paci\u00eancia e toler\u00e2ncia\u201d, conforma-se. \u201cPelo menos tenho a vida.\u201d<\/p>\n<p>Maria n\u00e3o poupou nem mesmo os moradores do centro hist\u00f3rico de San Juan, conhecido como Casco Viejo. A capital fica a cerca de 100 km de Punta Santiago, ao norte da trajet\u00f3ria do olho de Maria, na \u00e1rea em que os ventos foram mais devastadores.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2018\/05\/10\/15259819775af4a319b2767_1525981977_3x2_rt.jpg\" \/><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2018\/05\/10\/15259855185af4b0eeac603_1525985518_3x2_rt.jpg\" \/><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2018\/05\/10\/15259881865af4bb5a86978_1525988186_3x2_rt.jpg\" \/><em>Acima e no meio, moradores de San Juan sofrem com falta de ilumina\u00e7\u00e3o desde a passagem do Maria; abaixo, homem caminha em Casco Viejo, regi\u00e3o da capital iluminada com a ajuda de geradores &#8211;\u00a0Lalo de Almeida\/Folhapress<\/em><\/p>\n<p>O escritor H\u00e9ctor Feliciano mora na Calle Sol, a poucos metros do pal\u00e1cio que abrigou o conquistador espanhol Juan Ponce de Le\u00f3n (1474-1521). Sua casa do s\u00e9culo 18 resistiu bem, \u00e0 parte alguns trechos de reboco ca\u00eddo, mas tremeu por horas seguidas \u2013s\u00f3 a mangueira do p\u00e1tio sofreu dano grave, perdendo folhas e frutos.<\/p>\n<p>\u201cFoi como o rugido de um drag\u00e3o somado ao estrondo de um Concorde\u201d, narra o escritor, referindo-se ao avi\u00e3o supers\u00f4nico popular na Fran\u00e7a durante as duas d\u00e9cadas em que l\u00e1 viveu. Escolheu voltar a Porto Rico para criar as duas filhas.<\/p>\n<p>Ele diz que furac\u00f5es s\u00e3o como um rito de passagem para crian\u00e7as do Caribe, at\u00e9 mesmo um dia de festa. A fam\u00edlia se mant\u00e9m unida em torno de um caldeir\u00e3o enorme de sopa. Maria foi exce\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/c2.staticflickr.com\/2\/1748\/42511099612_ccf1efc67a_b.jpg\" \/><\/p>\n<p>As meninas choraram a noite inteira, de medo. O vento arrasou a rede mambembe de cabos el\u00e9tricos que passava de casa em casa, num bairro quase desprovido de postes. Os dias e semanas seguintes foram de isolamento quase completo \u2013sem telefone, sem internet, sem poder tirar dinheiro do banco, levantando \u00e0s 4h da manh\u00e3 para tentar conseguir gasolina.<\/p>\n<p>Os \u00fanicos contatos eram com vizinhos, que se organizavam para limpar as ruas de escombros. Aficionados de corridas de cavalos, os raros donos de radinhos de pilha, tornaram-se subitamente populares.<\/p>\n<p>\u201cPorto Rico possu\u00eda uma penetra\u00e7\u00e3o digital de 70% e a arrog\u00e2ncia em a\u00e7o inoxid\u00e1vel dos pa\u00edses digitalizados\u201d, escreveu Feliciano numa cr\u00f4nica. \u201cEm poucas horas, Maria arrasou a arrog\u00e2ncia e a falsa abund\u00e2ncia que a sustentava.\u201d<\/p>\n<p>De pouco valeu aos boricuas habitar um Estado associado dos EUA. Sem meios de honrar uma d\u00edvida p\u00fablica de US$ 73 bilh\u00f5es (cerca de R$\u00a0230 bilh\u00f5es) j\u00e1 antes do desastre, os 3,4 milh\u00f5es de habitantes da ilha viram o presidente Donald Trump dizer, tr\u00eas semanas depois, que teriam de arcar com o peso maior da recupera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2018\/05\/10\/15259979315af4e16b83a98_1525997931_3x2_rt.jpg\" \/><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2018\/05\/10\/15259980755af4e1fb88cc9_1525998075_3x2_rt.jpg\" \/><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2018\/05\/10\/15259982315af4e29774026_1525998231_3x2_rt.jpg\" \/><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2018\/05\/10\/15259981745af4e25e11b65_1525998174_3x2_rt.jpg\" \/><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2018\/05\/10\/15259928445af4cd8c7f4af_1525992844_3x2_rt.jpg\" \/><em>Entulho em frente de casas atingidas pelo furac\u00e3o Maria em Porto Rico; abaixo, caminh\u00f5es despejam escombros em aterro sanit\u00e1rio de Toa Baja, tamb\u00e9m na ilha caribenha &#8211;\u00a0Lalo de Almeida\/Folhapress<\/em><\/p>\n<p>O republicano tamb\u00e9m os congratulou pelo n\u00famero baixo de mortos (a cifra oficial era 16, naquela altura), em compara\u00e7\u00e3o com as v\u00edtimas do furac\u00e3o Katrina em Nova Orleans (1.833), em 2005. Ap\u00f3s a visita de Trump, o n\u00famero de mortos reconhecido pelo governo de Porto Rico continuou subindo, at\u00e9 alcan\u00e7ar 64 em novembro, mas mesmo essa cifra foi posta em d\u00favida.<\/p>\n<p>Sob press\u00e3o, o governador Ricardo Rossell\u00f3 designou uma comiss\u00e3o para revisar o n\u00famero. Embora a contagem oficial supostamente inclua as chamadas v\u00edtimas indiretas, aos poucos tornou-se claro que n\u00e3o estavam sendo consideradas as mortes de pessoas por falta de ambul\u00e2ncias ou de energia para realizar di\u00e1lise, por exemplo.<\/p>\n<p>Estimativas independentes indicam que haveria pelo menos mil v\u00edtimas n\u00e3o contabilizadas. Investiga\u00e7\u00e3o do jornal \u201cThe New York Times\u201d com registros de \u00f3bitos de setembro e outubro em 2016 e 2017 apontou excedente de 1.052 mortes ap\u00f3s o furac\u00e3o. Estudo do dem\u00f3grafo Alexis Santos, da Universidade do Estado da Pensilv\u00e2nia (EUA), e do colaborador Jeffrey Howard chegou a quantidade semelhante: 1.085.<\/p>\n<p>\u201cNenhuma estrutura est\u00e1 preparada para um evento dessa magnitude. Jamais imaginei que seria poss\u00edvel\u201d, disse \u00e0\u00a0<b>Folha<\/b>\u00a0a advogada Tania V\u00e1squez, secret\u00e1ria de Recursos Naturais e Ambientais de Porto Rico. \u201cOs rios sa\u00edram de seus leitos por at\u00e9 tr\u00eas milhas [quase 5 km]\u2026 Nem nas previs\u00f5es para 500 anos.\u201d<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 que mudar toda nossa maneira de ver as coisas\u201d, afirma a advogada, o que inclui proteger os recifes de coral que amenizam o impacto das ressacas cicl\u00f4nicas. \u201cMas, se seguirmos aquecendo o planeta, n\u00e3o sei, n\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2018\/05\/10\/15259899375af4c231d5dfd_1525989937_3x2_rt.jpg\" \/><em>Interior de casa em Toa Baja que ficou alagada com a passagem do furac\u00e3o Maria em Porto Rico &#8211;\u00a0Lalo de Almeida\/Folhapress<\/em><\/p>\n<p>Jos\u00e9 Molinelli, geomorf\u00f3logo da Universidade de Porto Rico, diz que a vulnerabilidade da ilha n\u00e3o diz respeito s\u00f3 a furac\u00f5es, mas tamb\u00e9m a terremotos e tsunamis. Se os oceanos subirem um metro, algo que pode ocorrer at\u00e9 o final do s\u00e9culo em consequ\u00eancia da mudan\u00e7a clim\u00e1tica global, a infraestrutura hoteleira da ilha estaria amea\u00e7ada, pois foi constru\u00edda a n\u00e3o mais que 100 m da linha de mar\u00e9.<\/p>\n<p>\u201cA vis\u00e3o inteligente, resiliente, \u00e9 respeitar os locais da natureza, sair das \u00e1reas inund\u00e1veis\u201d, defende. \u201cH\u00e1 que pensar em como redesenhar o pa\u00eds.\u201d<\/p>\n<p>A ge\u00f3loga Maritza Barreto, da mesma universidade, investiga a eros\u00e3o marinha, amea\u00e7a mais constante a rondar a Ilha Encantada (frase constante em placas de autom\u00f3veis). Levantamento seu amostrou 60% dos 580 km de costa e constatou que pelo menos um quinto das praias j\u00e1 sofreu eros\u00e3o grave, sob a\u00e7\u00e3o de ressacas causadas por frentes frias que entram de novembro a mar\u00e7o e se tornam cada vez mais frequentes.<\/p>\n<p>No bairro de classe m\u00e9dia Ocean Park, orla mar\u00edtima de San Juan, o mar retoma 1,2 m de terreno por ano. Em Loiza, uma faixa de manguezais, lagunas e dunas habitadas na maioria por descendentes de escravos africanos, o avan\u00e7o do oceano alcan\u00e7a 1,8 m\/ano.<\/p>\n<p>Na comunidade de Pi\u00f1ones moram cerca de 2.000 pessoas. Apenas 15 casas se perderam \u2013segundo Maricruz Rivera Clemente, l\u00edder comunit\u00e1ria, porque as dunas e o mangue oferecem prote\u00e7\u00e3o contra as ressacas. Ela reclama que a ajuda do governo mal chega ao local, o que atribui ao racismo n\u00e3o declarado em Porto Rico.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2018\/05\/10\/15259873575af4b81d245ef_1525987357_3x2_rt.jpg\" \/><em>O artes\u00e3o David Morales, veterano da Guerra do Iraque, teve sua oficina na parte de tr\u00e1s da casa destru\u00eddas pelo furac\u00e3o Maria em Loiza, Porto Rico &#8211;\u00a0Lalo de Almeida\/Folhapress<\/em><\/p>\n<p>Perto dali o artes\u00e3o negro David Tejada Morales, veterano de tr\u00eas temporadas de combate no Iraque, \u00e9 o retrato do desamparo: perdeu parte da perna, n\u00e3o na guerra, mas depois de pisar num prego, e aos 69 anos mora sozinho na metade da casa que n\u00e3o foi derrubada por Maria. Caiu a oficina na parte de tr\u00e1s, onde fazia artesanato com metal. Agora passa os dias na cadeira de rodas, \u00e0 espera.<\/p>\n<p>Uma funcion\u00e1ria da Fema tinha visitado a casa dois dias antes para tirar fotos do estrago. Morales animou-se quando viu da varandinha mais indiv\u00edduos brancos tirando fotos na rua, pensando que a Fema retornava com boas not\u00edcias sobre indeniza\u00e7\u00e3o \u2013mas era s\u00f3 a reportagem da\u00a0<b>Folha<\/b>.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2018\/05\/10\/15259995585af4e7c6a97b2_1525999558_3x2_rt.jpg\" \/><em>\u00c1rvores come\u00e7avam a recuperar umas poucas folhas em novembro, dois meses ap\u00f3s a passagem do furac\u00e3o Maria em Utuado, Porto Rico &#8211;\u00a0Lalo de Almeida\/Folhapress<\/em><\/p>\n<p>Estima-se que cerca de 20% das \u00e1rvores de Porto Rico jamais se recuperar\u00e3o. Nas que sobreviveram, folhas brotam diretamente dos troncos e cotos de galhos, o que as deixa parecidas com grandes cotonetes verdes. H\u00e1 relatos de borboletas diurnas circulando \u00e0 noite em busca de flores inexistentes e morcegos desorientados pela falta de frutos.<\/p>\n<p>As estradas que levam a Utuado \u2013cidade das mais afetadas\u2013 ainda compunham em novembro um cen\u00e1rio de bombardeio, com crateras e montes de terra por todos os lados. Poucos carros circulam por elas, n\u00e3o raro ve\u00edculos de empreiteiras e companhias el\u00e9tricas envolvidas em reparos, ou camionetes de excurs\u00f5es que combinam caridade com selfies.<\/p>\n<p>Diante da casa de Yessica Matos Torres, um SUV novo, vidros tingidos de preto, estaciona para o desembarque de um jovem loiro com o letreiro #yonomequito (eu n\u00e3o vou embora) na camiseta justa. Os olhos da jovem m\u00e3e se enchem de l\u00e1grimas ao receber um fardo de \u00e1gua mineral Cristalia e o cart\u00e3o Visa no valor de US$ 300.<\/p>\n<p>Da morada de Carlos Soto L\u00f3pez sobrou s\u00f3 o port\u00e3ozinho pendurado num peda\u00e7o de mureta, onde se l\u00ea que a fam\u00edlia est\u00e1 na pr\u00f3xima casa, estrada acima. A sua deslizou pelo barranco \u00e0s 2h20 da madrugada, solapada por uma bica d\u2019\u00e1gua que virou riacho. Ainda pode ser visto 20 m abaixo um carro amarrotado na garagem destru\u00edda.<\/p>\n<p>Sem condu\u00e7\u00e3o para chegar ao trabalho a 20 km de dist\u00e2ncia, numa ilha em que quase n\u00e3o v\u00ea transporte p\u00fablico, Soto perdeu o emprego de motorista de caminh\u00e3o de lixo. Ele sustenta agora os dois filhos pequenos fazendo bicos como mec\u00e2nico na casa em que ocupou, do amigo Manolo, que se mudou para os EUA.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2018\/05\/10\/15259871895af4b7755d105_1525987189_3x2_rt.jpg\" \/><em>Casa de Carlos Lopez na comunidade de Caonillas que foi arrastada pela enxurrada durante passagem do furac\u00e3o Maria pela regi\u00e3o &#8211;\u00a0Lalo de Almeida\/Folhapress<\/em><\/p>\n<p>Porto Rico j\u00e1 vinha perdendo popula\u00e7\u00e3o para o continente, em especial para o a Fl\u00f3rida, \u00e0 taxa de meio milh\u00e3o de pessoas por d\u00e9cada, empurradas pela estagna\u00e7\u00e3o do emprego. Nos dois meses ap\u00f3s o furac\u00e3o, o abandono se acentuou, com quase 200 mil bor\u00edcuas embarcados em voos para os EUA.<\/p>\n<p>Edwin Mel\u00e9ndez e Jennifer Hinojosa, dem\u00f3grafos do Centro de Estudos Porto-Riquenhos da Universidade da Cidade de Nova York (Cuny, na sigla em ingl\u00eas), estimaram que at\u00e9 470 mil nativos, ou 14% da popula\u00e7\u00e3o da ilha, poder\u00e3o emigrar em definitivo para o continente nos dois anos ap\u00f3s o furac\u00e3o.<\/p>\n<p>As v\u00edtimas de Maria fogem de um futuro turvado pela necessidade de reconstruir um pa\u00eds fisicamente devastado e financeiramente falido. S\u00f3 a tarefa de recolher os escombros das ruas e estradas \u2013um volume projetado em 6 milh\u00f5es de metros c\u00fabicos, ou o equivalente a 2.400 piscinas ol\u00edmpicas\u2013 deve consumir seis meses.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o sabemos mais em que pa\u00eds estamos\u201d, lamenta Jorge B\u00e1ez, ambientalista da ONG Para La Naturaleza.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2018\/05\/11\/15260551925af5c1184d493_1526055192_3x2_rt.jpg\" \/><em>Banheiro que restou de casa destru\u00edda na comunidade La Perla, uma das \u00e1reas mais atingidas pelo furac\u00e3o Maria em San Juan &#8211;\u00a0Lalo de Almeida\/Folhapress<\/em><\/p>\n<p>Fonte &#8211;\u00a0Marcelo Leite,\u00a0Lalo de Almeida,\u00a0<a href=\"https:\/\/arte.folha.uol.com.br\/ciencia\/2018\/crise-do-clima\/porto-rico\/meio-milhao-de-pessoas-devem-deixar-a-ilha-devastada-pelo-furacao-maria\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Folha de S. 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