{"id":24587,"date":"2018-08-10T17:00:51","date_gmt":"2018-08-10T20:00:51","guid":{"rendered":"http:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=24587"},"modified":"2018-08-06T15:00:00","modified_gmt":"2018-08-06T18:00:00","slug":"crise-do-clima-portugal-tempestades-de-fogo-mataram-115-portugueses-em-2017","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/crise-do-clima-portugal-tempestades-de-fogo-mataram-115-portugueses-em-2017\/","title":{"rendered":"Crise do clima &#8211; Portugal &#8211; Tempestades de fogo mataram 115 portugueses em 2017"},"content":{"rendered":"<p><em>Casas queimadas em Alma\u00e7a, regi\u00e3o no centro de Portugal que foi atingida por inc\u00eandios florestais em junho de 2017 &#8211;\u00a0<span class=\"caption__credit caption__credit_white\">Lalo de Almeida\/Folhapress<\/span><\/em><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/XeqRvw2Jil8\" width=\"600\" height=\"400\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n<p><span class=\"origin\">CERDEIRA<\/span>O &#8211; agricultor Ant\u00f3nio Marques da Costa, 74, anda todos os dias por um caminho de terra batida at\u00e9 uma fonte pr\u00f3xima para recolher a \u00e1gua com que abastece seus animais. Em seu percurso, na aldeia de Cerdeira, no centro de Portugal, contempla aquilo que foi destru\u00eddo em 16 de outubro de 2017.<\/p>\n<p>Naquela noite anormalmente quente de outono teve in\u00edcio o pior inc\u00eandio florestal do ano, um dos maiores da hist\u00f3ria em Portugal. \u201cJ\u00e1 vi outros fogos, mas n\u00e3o como esse. Os outros arderam e apagaram-se bem.\u201d<\/p>\n<p>Foram 49 mortes, que se somaram \u00e0s 66 v\u00edtimas de outro inc\u00eandio quatro meses antes. Muitos em Portugal associam os fogos \u00e0 mudan\u00e7a clim\u00e1tica causada pelo aquecimento global, mas, antes de tudo, criticam o despreparo das autoridades para lidar com a emerg\u00eancia.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2018\/04\/23\/15245091605ade29e829148_1524509160_3x2_rt.jpg\" \/><em>O agricultor Ant\u00f3nio Marques da Costa, 74, caminha com um garraf\u00e3o de \u00e1gua em meio a oliveiras em Cerdeira, na regi\u00e3o central de Portugal &#8211;\u00a0Lalo de Almeida\/Folhapress<\/em><\/p>\n<p>\u00c0 beira da estradinha, uma oliveira centen\u00e1ria consumida pelas chamas ainda carrega dezenas de azeitonas. Os frutos, que j\u00e1 estavam pr\u00f3ximos da colheita, pendem murchos dos galhos. A paisagem se repete at\u00e9 onde os olhos alcan\u00e7am.<\/p>\n<p>Marques da Costa presenciou algo que se torna mais e mais comum em Portugal e noutras partes do mundo, como a Calif\u00f3rnia, nos Estados Unidos. S\u00e3o as chamadas tempestades de fogo, inc\u00eandios florestais poderosos que realimentam as chamas com as pr\u00f3prias correntes de ar que criam, desde que hajam as condi\u00e7\u00f5es meteorol\u00f3gicas adequadas e material combust\u00edvel abundante.<\/p>\n<p>\u201cO pior foi ver a arder tudo o que n\u00f3s criamos aqui. And\u00e1vamos a\u00ed para tr\u00e1s e para frente para salvar uma casa em que eu fui criado e que eu dei aos filhos.\u201d Al\u00e9m de mais de uma centena de oliveiras, o agricultor perdeu planta\u00e7\u00f5es, uma \u00e1rea com castanheiras e uma casa usada para guardar material de trabalho. Diz que n\u00e3o tem esperan\u00e7a de recuperar o que foi perdido no inc\u00eandio.<\/p>\n<p>\u201cO que tiver, guarda-se. As casas eu j\u00e1 n\u00e3o recupero. Dinheiro [para reconstruir a casa e as planta\u00e7\u00f5es] eu n\u00e3o tenho. Minha aposentadoria \u00e9 s\u00f3 de 300 euros, n\u00e3o d\u00e1 para nada.\u201d<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2018\/04\/23\/15245093815ade2ac5e24ee_1524509381_3x2_rt.jpg\" \/><em>Vegeta\u00e7\u00e3o e casas queimadas em \u00e1rea rural de Oliveira do Hospital, que foi atingida por inc\u00eandios florestais em 2017 &#8211;\u00a0Lalo de Almeida\/Folhapress<\/em><\/p>\n<p>Embora os inc\u00eandios florestais sejam bastante comuns no ver\u00e3o de Portugal, a extens\u00e3o e a gravidade dos danos em 2017 foram in\u00e9ditas: 115 mortos e ao menos 5.000 km\u00b2 atingidos, mais que o triplo da superf\u00edcie do munic\u00edpio de S\u00e3o Paulo. Causou surpresa que os dois principais inc\u00eandios tenham acontecido no outono e na primavera.<\/p>\n<p>A trag\u00e9dia anterior se dera em 17 de junho, um s\u00e1bado de sol a quatro dias do in\u00edcio do ver\u00e3o. Deixou 66 mortos, incluindo nove crian\u00e7as e adolescentes, e mais de 250 feridos na regi\u00e3o de Pedr\u00f3g\u00e3o Grande e G\u00f3is, no centro do pa\u00eds.<\/p>\n<p>No dia 16 de outubro, outro inc\u00eandio florestal, desta vez na regi\u00e3o de Oliveira do Hospital, Castelo Branco e adjac\u00eancias, tamb\u00e9m na \u00e1rea central do pa\u00eds, matou 49 pessoas e deixou mais de 70 feridos.<\/p>\n<p>Os preju\u00edzos materiais foram de cerca de 1 bilh\u00e3o de euros (cerca de R$\u00a04 bilh\u00f5es), segundo o secret\u00e1rio de Estado do Desenvolvimento e Coes\u00e3o, Nelson de Souza. E tudo indica que esse tipo de cat\u00e1strofe pode se tornar mais frequente.<\/p>\n<p>Compare o passado recente de Espanha e Portugal, pa\u00edses lim\u00edtrofes com clima semelhante e resultados distintos no que respeita a inc\u00eandios: enquanto na Espanha, a partir de meados da d\u00e9cada de 1980, houve redu\u00e7\u00e3o consider\u00e1vel da \u00e1rea queimada, em Portugal quase n\u00e3o houve varia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/c1.staticflickr.com\/1\/918\/29342699628_5d3008b3e4_o.jpg\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/c1.staticflickr.com\/1\/918\/29342699628_5d3008b3e4_o.jpg\" \/><\/a><\/p>\n<p>Ainda n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel afirmar de forma taxativa que o aumento dos inc\u00eandios florestais em Portugal seja resultado do aquecimento global. Mas h\u00e1 ind\u00edcios consistentes disso, aponta o climatologista Pedro Miranda, diretor do Instituto Dom Luiz \u2013institui\u00e7\u00e3o dedicada \u00e0 pesquisa de meteorologia, clima, geof\u00edsica e ci\u00eancias da Terra\u2013 da Universidade de Lisboa.<\/p>\n<p>\u201cPara haver fogo, \u00e9 preciso ter floresta. E esta floresta deve ter condi\u00e7\u00f5es favor\u00e1veis para arder. Isto \u00e9, tem de estar seca e em temperaturas elevadas.\u201d<\/p>\n<p>Em Portugal, a diminui\u00e7\u00e3o das chuvas, com per\u00edodos prolongados de seca em v\u00e1rios anos, \u00e9 uma das principais manifesta\u00e7\u00f5es das altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas. E viria da\u00ed o maior fator a contribuir para a ocorr\u00eancia de inc\u00eandios.<\/p>\n<p>\u201cNesses \u00faltimos anos, temos tido v\u00e1rias secas: em 2003, 2005, 2017. E elas v\u00eam coincidir com per\u00edodos de mais fogos\u201d, afirma Miranda.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/UHjH-LKOd9U?ecver=1\" width=\"600\" height=\"400\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n<p>O climatologista afirma que j\u00e1 existem estudos refor\u00e7ando a correla\u00e7\u00e3o entre as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e a ocorr\u00eancia de inc\u00eandios. Para confirm\u00e1-la de vez, entretanto, seria preciso um volume maior de dados.<\/p>\n<p>Os n\u00fameros do IPMA (Instituto Portugu\u00eas do Mar e da Atmosfera), \u00f3rg\u00e3o vinculado ao governo, v\u00e3o nessa dire\u00e7\u00e3o. O ano de 2017 foi mesmo extremamente quente e seco: a temperatura m\u00e9dia do ar ficou cerca de 1,1\u00baC acima do normal, fazendo dele o segundo ano mais quente desde 1931, atr\u00e1s apenas de 1997.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/c2.staticflickr.com\/2\/1788\/43164499852_0bca707e38_o.jpg\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/c2.staticflickr.com\/2\/1788\/43164499852_0bca707e38_o.jpg\" \/><\/a><\/p>\n<p>Propriet\u00e1ria de uma empresa de obras e servi\u00e7os ligados \u00e0 constru\u00e7\u00e3o civil, a empres\u00e1ria Ver\u00f3nica Fonseca diz viver na pele aquilo que os cientistas descrevem em n\u00fameros. As instala\u00e7\u00f5es de sua f\u00e1brica foram destru\u00eddas no grande inc\u00eandio de outubro, que extrapolou a floresta e chegou \u00e0 zona industrial de Oliveira do Hospital. Mais de 70 empresas queimaram na localidade.<\/p>\n<p>\u201cAqui eu noto muito: cada vez tem chovido menos\u201d, relata. \u201cNesta regi\u00e3o n\u00e3o \u00e9 nada normal, n\u00f3s pass\u00e1vamos semanas e semanas com chuva, e agora n\u00e3o tem acontecido isso. Eu acho que o tempo tem andado um bocadinho para frente. N\u00e3o sei se h\u00e1 aqui algumas altera\u00e7\u00f5es climat\u00e9ricas, mas todos os anos se prolonga mais o tempo de calor e de seca\u201d, conta a empres\u00e1ria, nascida e criada na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Ela fita com tristeza o amontoado de ferro retorcido no qual se transformou a f\u00e1brica fundada por seu pai h\u00e1 40 anos. Uma dezena de funcion\u00e1rios escava os escombros e as cinzas em busca de materiais aproveit\u00e1veis. Caminhonetes de servi\u00e7o s\u00e3o reconhecidas apenas por seus esqueletos.<\/p>\n<p>\u201cEra como se o fogo voasse\u201d, diz, relembrando os ventos fortes que ajudaram a propagar as chamas pelo ar seco. \u201cGeralmente os fogos florestais aconteciam, mas nunca tiveram uma dimens\u00e3o completamente catastr\u00f3fica\u201d, conta.<\/p>\n<p>Ela estima que seu preju\u00edzo seja de pelo menos 1 milh\u00e3o de euros (aproximadamente R$\u00a04 milh\u00f5es). Reclama de pouca aten\u00e7\u00e3o do Estado portugu\u00eas e mesmo da comunidade internacional.<\/p>\n<p>\u201cQuando houve a situa\u00e7\u00e3o em Pedr\u00f3g\u00e3o [o inc\u00eandio de junho que matou 66 pessoas], houve muita divulga\u00e7\u00e3o. Aqui foi bem menos\u201d, compara. \u201cTalvez porque l\u00e1 houve mais perdas humanas.\u201d<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2018\/05\/04\/15254446575aec70319b376_1525444657_3x2_rt.jpg\" \/><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2018\/04\/23\/15245102385ade2e1e33d04_1524510238_3x2_rt.jpg\" \/><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2018\/04\/23\/15245102685ade2e3cd597a_1524510268_3x2_rt.jpg\" \/><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2018\/04\/23\/15245103025ade2e5e2b00c_1524510302_3x2_rt.jpg\" \/><em>Empresa de obras e servi\u00e7os ligados \u00e0 constru\u00e7\u00e3o civil que foi destru\u00edda por inc\u00eandio florestal em 2017; abaixo, a empres\u00e1ria e propriet\u00e1ria do local Ver\u00f3nica Fonseca observa interior do estabelecimento &#8211;\u00a0Lalo de Almeida\/Folhapress<\/em><\/p>\n<p>Os inc\u00eandios de 17 de junho ficaram marcados sobretudo pelas imagens do trecho de rodovia que concentrou a maioria das v\u00edtimas fatais das chamas. No dia do inc\u00eandio, havia muitos visitantes na regi\u00e3o de Pedr\u00f3g\u00e3o Grande, conhecida pelo turismo em suas praias fluviais. \u00c9 um destino popular para quem viaja de \u00c9vora a Coimbra, duas das cidades hist\u00f3ricas mais visitadas de Portugal.<\/p>\n<p>Quase seis meses ap\u00f3s a trag\u00e9dia, quando a reportagem da\u00a0<b>Folha<\/b>esteve no local, as \u00e1rvores queimadas e as placas de tr\u00e2nsito destru\u00eddas testemunhavam de modo sutil o que aconteceu na via nacional 236, que passou a ser conhecida como estrada da morte.<\/p>\n<p>A rodovia, assim como outras do interior de Portugal, \u00e9 estreita e serpenteia por entre uma vegeta\u00e7\u00e3o densa de pinheiros e eucaliptos, duas esp\u00e9cies com alto poder combust\u00edvel.<\/p>\n<p>Segundo o relat\u00f3rio da comiss\u00e3o independente que investiga o inc\u00eandio, o local do sinistro tem ainda uma inclina\u00e7\u00e3o que aumenta em 67% a velocidade de propaga\u00e7\u00e3o das chamas em compara\u00e7\u00e3o ao terreno plano. Quanto maior \u00e9 a inclina\u00e7\u00e3o, maior \u00e9 o efeito das colunas de convec\u00e7\u00e3o que aquecem a vegeta\u00e7\u00e3o, o que ajuda a espalhar as chamas no sentido ascendente.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/1TBbEjS7IEQ\" width=\"600\" height=\"400\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n<p>As v\u00edtimas tentavam usar a via como rota de fuga do inc\u00eandio, mas acabaram morrendo ao ficarem encurraladas em um trecho de menos de 500 metros que foi engolido pelo fogo.<\/p>\n<p>Um ponto bastante criticado foi a falta de resposta das autoridades, especialmente o n\u00famero insuficiente de bombeiros, que em Portugal s\u00e3o em sua maior parte volunt\u00e1rios (os profissionais normalmente se restringem \u00e0s cidades maiores).<\/p>\n<p>A quantidade de bombeiros vem caindo em Portugal, segundo dados do INE (Instituto Nacional de Estat\u00edstica). Em 2015, o efetivo era de pouco menos de 29 mil bombeiros. Dez anos atr\u00e1s, eram 42 mil. Um dos principais motivos \u00e9 demogr\u00e1fico: h\u00e1 cada vez menos pessoas \u2013especialmente jovens\u2013 vivendo no interior do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Os eventos derrubaram dois nomes da c\u00fapula pol\u00edtica: a ministra da Administra\u00e7\u00e3o Interna, Constan\u00e7a Urbano de Sousa, e o chefe da Prote\u00e7\u00e3o Civil, Joaquim Leit\u00e3o, criticados pela atua\u00e7\u00e3o no primeiro grande inc\u00eandio e pelo fato de n\u00e3o terem evitado o segundo, quatro meses depois.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2018\/05\/04\/15254442725aec6eb023216_1525444272_3x2_rt.jpg\" \/><em>Flores colocadas na beira de estrada pr\u00f3xima a Pedr\u00f3g\u00e3o Grande em homenagem \u00e0s v\u00edtimas dos inc\u00eandios florestais que atingiram a regi\u00e3o central de Portugal em 2017 &#8211;\u00a0Lalo de Almeida\/Folhapress<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o faltam relatos de tentativas, em v\u00e3o, de conseguir aux\u00edlio. \u201cEu tentei pedir ajuda, mas n\u00f3s n\u00e3o t\u00ednhamos comunica\u00e7\u00f5es em lado nenhum. As \u00fanicas autoridades que a gente viu foi muita pol\u00edcia, a tentar coordenar, mas a certa altura at\u00e9 eles pr\u00f3prios j\u00e1 estavam preocupados com as pr\u00f3prias vidas deles. \u00c9 mesmo assim: cada um estava por si\u201d, conta a empres\u00e1ria Ver\u00f3nica Fonseca, sobre a noite do inc\u00eandio em sua f\u00e1brica.<\/p>\n<p>S\u00f3cio da f\u00e1brica Azeites do Cobral, o empres\u00e1rio Lu\u00eds Miguel Brito tamb\u00e9m se viu sem apoio para combater as chamas naquela noite. Propriet\u00e1rio de caminh\u00f5es, tratores e alguns equipamentos que dispersam \u00e1gua, ele precisou escolher entre salvar sua planta\u00e7\u00e3o de azeitonas ou as casas de seus vizinhos. Optou pelos vizinhos.<\/p>\n<p>\u201cEu tenho 30 hectares de olival, e ele foi destru\u00eddo na totalidade. Tanto o olival tradicional, quanto os antigos, centen\u00e1rios. Perdeu-se para sempre a qualidade do azeite produzido pelas oliveiras centen\u00e1rias.\u201d<\/p>\n<p>Ele aposta em uma redu\u00e7\u00e3o significativa no volume de azeite produzido em toda a regi\u00e3o. O movimento fraco do lagar \u2013local de processamento das azeitonas para obter azeite\u2013 em pleno per\u00edodo de colheita indica que os agricultores tiveram perdas significativas.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2018\/04\/23\/15245189095ade4ffdd61f8_1524518909_3x2_rt.jpg\" \/><em>Morador caminha em frente \u00e0 casa destru\u00edda por inc\u00eandio florestal em Cerdeira, centro de Portugal &#8211;\u00a0Lalo de Almeida\/Folhapress<\/em><\/p>\n<p>A regi\u00e3o de Oliveira do Hospital, onde fica a Azeites do Cobral, passou anos sem grandes sobressaltos por causa de inc\u00eandios. Um feito atribu\u00eddo, entre outros fatores, ao bom manejo das florestas, como a limpeza constante das \u00e1reas de mata, diminuindo o material seco que alimenta as chamas.<\/p>\n<p>A realidade n\u00e3o se repete no restante do pa\u00eds, segundo especialistas, que classificaram as regras de ordenamento florestal de Portugal como insuficientes. \u00c1reas com esp\u00e9cies nativas, como carvalhos e castanheiras, v\u00eam sendo replantadas com pinheiros e eucaliptos, que oferecem retorno financeiro mais r\u00e1pido, mas s\u00e3o mais propensas ao fogo por formarem bosques homog\u00eaneos de \u00e1rvores resinosas que acumulam biomassa seca sobre o solo.<\/p>\n<p>De acordo com o Invent\u00e1rio Florestal Nacional, houve um aumento de 13% na quantidade de eucaliptos em Portugal entre 1995 e 2010. Hoje a \u00e1rvore origin\u00e1ria da Austr\u00e1lia \u00e9 dominante nas florestas portuguesas.<\/p>\n<p>\u201cOs inc\u00eandios dependem muito da ocupa\u00e7\u00e3o dos terrenos e da maneira como ela \u00e9 gerida\u201d, diz o climatologista Pedro Miranda. \u201cSe a nossa floresta n\u00e3o tivesse uma grande quantidade de \u00e1rvores muito f\u00e1ceis de entrar em combust\u00e3o, ela seria mais resistente.\u201d<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/c2.staticflickr.com\/2\/1787\/42495735614_70fd939c66_b.jpg\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/c2.staticflickr.com\/2\/1787\/42495735614_70fd939c66_b.jpg\" \/><\/a><\/p>\n<p>No relat\u00f3rio do estado do ambiente de Portugal em 2017, a Ag\u00eancia Portuguesa do Ambiente indica que os eventos ambientais extremos que marcaram o ano devem ser encarados como um pren\u00fancio do que est\u00e1 por vir.<\/p>\n<p>\u201cA seca grave, as temperaturas acima da m\u00e9dia, a intensifica\u00e7\u00e3o de fen\u00f4menos meteorol\u00f3gicos extremos que vivemos neste ano ser\u00e3o, de acordo com grande parte da comunidade cient\u00edfica, a nova realidade\u201d, alertam.<\/p>\n<p>Coordenador do Plano Intermunicipal de Adapta\u00e7\u00e3o \u00e0s Altera\u00e7\u00f5es Clim\u00e1ticas da Regi\u00e3o de Coimbra, a maior do pa\u00eds, com 19 munic\u00edpios, Jo\u00e3o Carlos Mano Castro Loureiro, professor da Universidade de Coimbra, destaca que algumas caracter\u00edsticas da floresta portuguesa, como a concentra\u00e7\u00e3o nas m\u00e3os de pequenos propriet\u00e1rios privados, tornam necess\u00e1ria a cria\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas de est\u00edmulo \u00e0 preserva\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cies aut\u00f3ctones.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2018\/05\/04\/15254445175aec6fa5c1034_1525444517_3x2_rt.jpg\" \/><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2018\/04\/26\/15247547925ae1e9688633d_1524754792_3x2_rt.jpg\" \/><em>Acima, oliveiras destru\u00eddas por inc\u00eandios florestais em Travanca dos Lagos; abaixo, o empres\u00e1rio Lu\u00eds Brito que precisou escolher entre salvar sua planta\u00e7\u00e3o de azeitonas ou as casas de seus vizinhos &#8211;\u00a0Lalo de Almeida\/Folhapress<\/em><\/p>\n<p>Suas proje\u00e7\u00f5es indicam que a pr\u00f3pria viabilidade do eucalipto pode ficar comprometida diante do aumento das temperaturas e das mudan\u00e7as que v\u00eam com ele. \u201cPode haver oportunidade para esp\u00e9cies nossas, aut\u00f3ctones, muito mais bem-adaptadas a este clima.\u201d<\/p>\n<p>O governo prometeu ainda para 2018 apresentar altera\u00e7\u00f5es na legisla\u00e7\u00e3o florestal, inclusive na regulamenta\u00e7\u00e3o do eucalipto e de outras esp\u00e9cies estrangeiras.<\/p>\n<p>Para os pesquisadores, \u00e9 preciso tamb\u00e9m insistir na conscientiza\u00e7\u00e3o das popula\u00e7\u00f5es para a nova realidade florestal no contexto da mudan\u00e7a clim\u00e1tica. Em Portugal, assim como no Brasil, existe uma cultura de fazer queimadas para \u201climpar\u201d o terreno.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/LeQ-hPirAlA?ecver=1\" width=\"600\" height=\"400\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n<p>\u201cAs pessoas t\u00eam isso como sua rotina anual, um bocadinho insens\u00edveis \u00e0s condi\u00e7\u00f5es [meteorol\u00f3gicas] daquele momento\u201d, avalia o pesquisador. \u201cInfelizmente, na trag\u00e9dia que houve em outubro \u00faltimo, [foi] uma das principais raz\u00f5es para as pessoas terem feito queimadas.\u201d<\/p>\n<p>O relat\u00f3rio interdisciplinar contou ainda com t\u00e9cnicos no terreno, que fizeram perguntas \u00e0 popula\u00e7\u00e3o sobre as altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas. A soci\u00f3loga F\u00e1tima Alves, pesquisadora da Universidade de Coimbra, destaca que s\u00e3o poucos os que n\u00e3o acreditam no aquecimento global e em suas consequ\u00eancias.<\/p>\n<p>\u201cDe um modo geral, j\u00e1 ouviram falar das altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas, conseguem identificar onde \u00e9 que elas se manifestam em seu dia a dia\u201d, avalia. Mas isso n\u00e3o basta: \u201cAs pessoas sabem o que se passa, mas n\u00e3o est\u00e3o, digamos, igualmente comprometidas com a mudan\u00e7a do seu pr\u00f3prio comportamento\u201d.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/wkVMR8-uDxM?ecver=1\" width=\"600\" height=\"400\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n<p><b>Texto:<\/b>\u00a0Giuliana Miranda e Lalo de Almeida \/<b>\u00a0Imagens:<\/b>\u00a0Lalo de Almeida \/<b>\u00a0Infografia:<\/b>\u00a0Simon Ducroquet \/<b>\u00a0Edi\u00e7\u00e3o de v\u00eddeo:<\/b>\u00a0Victor Parolin \/<b>\u00a0Edi\u00e7\u00e3o de fotografia:<\/b>\u00a0Daigo Oliva \/<b>\u00a0Edi\u00e7\u00e3o e revis\u00e3o de texto:<\/b>\u00a0Marcelo Leite, Mariana Versolato e Renan Marra \/<b>\u00a0Tratamento de fotografia:<\/b>\u00a0Edson Sales \/<b>\u00a0Design e desenvolvimento:<\/b>\u00a0Angelo Dias, Pilker, Rubens Alencar e Thiago Almeida \/<b>\u00a0Coordena\u00e7\u00e3o de arte:<\/b>\u00a0Kleber Bonjoan, Thea Severino e Daigo Oliva \/<b>\u00a0Coordena\u00e7\u00e3o geral:<\/b>\u00a0Jos\u00e9 Henrique Mariante e Roberto Dias \/<b>\u00a0Idealiza\u00e7\u00e3o:<\/b>\u00a0Lalo de Almeida e Marcelo Leite<\/p>\n<p>Fonte &#8211; Giuliana Miranda, Lalo de Almeida,\u00a0<a href=\"https:\/\/arte.folha.uol.com.br\/ciencia\/2018\/crise-do-clima\/portugal\/tempestades-de-fogo-mataram-115-portugueses-em-2017\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">O Estado de S. 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