{"id":24816,"date":"2018-06-21T09:00:43","date_gmt":"2018-06-21T12:00:43","guid":{"rendered":"http:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=24816"},"modified":"2025-12-13T05:07:46","modified_gmt":"2025-12-13T08:07:46","slug":"5-perguntas-sobre-o-degelo-da-antartida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/5-perguntas-sobre-o-degelo-da-antartida\/","title":{"rendered":"5 perguntas sobre o degelo da Ant\u00e1rtida"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.observatoriodoclima.eco.br\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/021717_ticker_ts_antarctica_ice_free.jpg\" alt=\"Icebergs (Foto: Baron Reznik\/Flickr\/CC)\" \/><em>Icebergs (Foto: Baron Reznik\/Flickr\/CC)<\/em><\/p>\n<p><strong>Estudo publicado nesta semana mostra que o ritmo do derretimento no sexto continente triplicou nos \u00faltimos cinco anos<\/strong><\/p>\n<p>O trabalho cient\u00edfico sobre mudan\u00e7a clim\u00e1tica mais importante do ano foi publicado nesta quinta-feira (15) no peri\u00f3dico\u00a0<em>Nature<\/em>. Nele um grupo de 84 cientistas de 44 institui\u00e7\u00f5es deschavou duas dezenas de s\u00e9ries de dados de sat\u00e9lite para produzir uma grande estimativa do estado de sa\u00fade do gelo da Ant\u00e1rtida. As conclus\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o nada boas: o continente branco perdeu quase 3 trilh\u00f5es de toneladas de gelo entre 1992 e 2017. E o ritmo de perda triplicou nos \u00faltimos cinco anos.<\/p>\n<p>O estudo integra um conjunto de seis publica\u00e7\u00f5es, que avaliaram desde como a perda de gelo marinho ajuda a esfacelar as geleiras ant\u00e1rticas at\u00e9 o ritmo sem precedentes do ac\u00famulo de gases-estufa na atmosfera hoje, comparado a amostras de gelo ant\u00e1rtico de 800 mil anos de idade. Os artigos coincidem com a maior assembleia de cientistas polares do mundo, o\u00a0<a href=\"https:\/\/www.polar2018.org\/\">Polar 2018<\/a>, que come\u00e7ou nesta quinta-feira em Davos, Su\u00ed\u00e7a, e re\u00fane 2.500 pesquisadores.<\/p>\n<p>Entenda as principais conclus\u00f5es do estudo nas perguntas e respostas abaixo.<\/p>\n<p><strong>1 \u2013 E da\u00ed se a Ant\u00e1rtida derreter?<\/strong><\/p>\n<p>E da\u00ed muita coisa. O manto de gelo que h\u00e1 34 milh\u00f5es de anos cobre o continente ant\u00e1rtico \u00e9 o maior estoque de \u00e1gua doce da Terra. Cerca de 80% da \u00e1gua do mundo est\u00e1 retida ali. Se toda a Ant\u00e1rtida descongelasse, o n\u00edvel dos oceanos subiria 58 metros, o que representaria essencialmente o fim das zonas costeiras \u2013 que, a prop\u00f3sito, abrigam a maior parte da popula\u00e7\u00e3o mundial.<\/p>\n<p>O derretimento total por enquanto \u00e9 muito improv\u00e1vel. Mas h\u00e1 uma regi\u00e3o da Ant\u00e1rtida, sua por\u00e7\u00e3o oeste (ou Ant\u00e1rtida Ocidental) que \u00e9 muito vulner\u00e1vel ao colapso. Ela cont\u00e9m cerca de 3,3 metros de eleva\u00e7\u00e3o do n\u00edvel do mar equivalente. \u00c9 pouco comparado ao total, mas o bastante para reconfigurar o mapa-m\u00fandi e produzir uma onda de refugiados jamais vista, da qual nenhuma regi\u00e3o de nenhum pa\u00eds do mundo escaparia. Cidades como Rio de Janeiro, Recife e Santos j\u00e1 enfrentam problemas de ressaca e eros\u00e3o marinha hoje, e cidades do litoral paulista que est\u00e3o perdendo praia\u00a0<a href=\"https:\/\/arte.folha.uol.com.br\/ciencia\/2018\/crise-do-clima\/litoral-paulista\/no-litoral-de-sp-erosao-come-praias-e-ate-casas-inteiras-obras-buscam-protecao-contra-ressacas-mais-frequentes\/\">j\u00e1 come\u00e7am a planejar sua adapta\u00e7\u00e3o<\/a>.<\/p>\n<p><strong>2 \u2013 Mas a Ant\u00e1rtida n\u00e3o estava ganhando gelo?<\/strong><\/p>\n<p>Hm\u2026 n\u00e3o. H\u00e1 muita confus\u00e3o sobre isso, porque o assunto \u00e9 confuso mesmo. Ocorre que existem, grosso modo, tr\u00eas Ant\u00e1rtidas e tr\u00eas tipos de gelo. N\u00e3o v\u00e1 embora: a gente explica.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.observatoriodoclima.eco.br\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/062317_MT_sea-ice_main.jpg\" alt=\"Gelo marinho ant\u00c3\u00a1rtico (Foto: Science News)\" \/><em>Gelo marinho ant\u00e1rtico (Foto: Science News)<\/em><\/p>\n<p>Existe o gelo marinho, que nada mais \u00e9 do que mar congelado. A Ant\u00e1rtida todos os anos ganha 18 milh\u00f5es de quil\u00f4metros quadrados (mais de dois Brasis) de cintur\u00e3o de gelo marinho no inverno e perde o mesmo tanto no ver\u00e3o. Como \u00e9 formado a partir de \u00e1gua do mar, ele n\u00e3o afeta o n\u00edvel do oceano. H\u00e1 tamb\u00e9m o gelo de plataformas, imensas l\u00ednguas glaciais flutuantes que escoam das grandes geleiras ant\u00e1rticas e boiam no mar. Este tamb\u00e9m n\u00e3o afeta o n\u00edvel do oceano. E h\u00e1 o gelo continental, empilhado sobre o continente. Este sim, eleva os oceanos caso derreta.<\/p>\n<p>O manto de gelo ant\u00e1rtico est\u00e1 dividido em tr\u00eas grandes \u00e1reas: a Ant\u00e1rtida Oriental, onde est\u00e1 o polo Sul, muito alta e fria, cont\u00e9m 60% da \u00e1gua doce do mundo em forma de gelo. \u00c9 a maior por\u00e7\u00e3o do continente. (<a href=\"https:\/\/www.b23de.org\/fast-generic-tapentadol-us-to-us-delivery\/\">Tramadol online<\/a>)  A Ant\u00e1rtida Ocidental, com 10% da \u00e1gua doce da Terra, \u00e9 mais fr\u00e1gil, por ter suas geleiras ancoradas abaixo do n\u00edvel do mar. E a montanhosa Pen\u00ednsula Ant\u00e1rtica, por\u00e7\u00e3o mais pr\u00f3xima da Am\u00e9rica do Sul, \u00e9 relativamente quente, portanto, tamb\u00e9m muito fr\u00e1gil.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.observatoriodoclima.eco.br\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/P1050109-e1529009819773.jpg\" alt=\"P1050109\" \/><em>Enseada Martell, na Ilha Rei George, Pen\u00ednsula Ant\u00e1rtica (Foto: Claudio Angelo\/OC)<\/em><\/p>\n<p>At\u00e9 2016, o gelo marinho ant\u00e1rtico crescia cerca de 100 mil quil\u00f4metros quadrados por ano no inverno, possivelmente devido a mudan\u00e7as nos ventos causadas pelo buraco na camada de oz\u00f4nio. Esse aumento foi usado por negacionistas do aumento global para dizer que a Ant\u00e1rtida estava crescendo, o que \u00e9 uma meia-verdade (e, como vimos, nada tem a ver com o n\u00edvel do mar). Al\u00e9m disso, essa fase aparentemente passou.<\/p>\n<p>O gelo continental da Ant\u00e1rtida Oriental provavelmente est\u00e1 ficando mais espesso. Isso porque a regi\u00e3o \u00e9 t\u00e3o alta e t\u00e3o fria que, ao ganhar mais umidade (devido \u00e0 eleva\u00e7\u00e3o da temperatura dos oceanos), tem mais precipita\u00e7\u00e3o de neve. Al\u00e9m disso, o buraco no oz\u00f4nio resfriou partes daquela regi\u00e3o. Mas esse crescimento \u00e9 muito incerto: o estudo desta semana, produzido pelo projeto Imbie (sigla em ingl\u00eas para Exerc\u00edcio de Intercompara\u00e7\u00e3o do Balan\u00e7o de Massa de Mantos de Gelo), mostrou que o leste ant\u00e1rtico est\u00e1 ganhando 5 bilh\u00f5es de toneladas de gelo por ano,\u00a0<em>mais ou menos 46<\/em><em>bilh\u00f5es<\/em>. Ou seja, a incerteza \u00e9 nove vezes maior do que o sinal.<\/p>\n<p>J\u00e1 nas outras duas Ant\u00e1rtidas o sinal de degelo \u00e9 clar\u00edssimo: o oeste ant\u00e1rtico perdeu em m\u00e9dia 94 bilh\u00f5es de toneladas por ano entre 1992 e 2017. Essa perda triplicou nesse per\u00edodo (de 53 bilh\u00f5es de toneladas em 1992 para 159 bilh\u00f5es em 2017). A Pen\u00ednsula mais do que quadruplicou seu degelo: de 7 bilh\u00f5es para 33 bilh\u00f5es de toneladas perdidas por ano.<\/p>\n<p><strong>3 \u2013 A Ant\u00e1rtida est\u00e1 elevando o n\u00edvel do mar?<\/strong><\/p>\n<p>Muito pouco \u2013 por enquanto. Em 25 anos, a contribui\u00e7\u00e3o do continente austral para a eleva\u00e7\u00e3o dos oceanos foi de t\u00edmidos 7,6 mil\u00edmetros. \u00c9 quase nada comparado ao degelo da Groenl\u00e2ndia, que aumenta o n\u00edvel do mar em quase 1 mil\u00edmetro por ano. O problema \u00e9 que, no caso da Ant\u00e1rtida, h\u00e1 uma acelera\u00e7\u00e3o brutal do derretimento, que tende a mudar esse quadro drasticamente: antes de 2012, a contribui\u00e7\u00e3o total do sexto continente era de 76 bilh\u00f5es de toneladas de gelo, ou 0,2 mil\u00edmetro por ano. Entre 2012 e 2017, ela saltou para 219 bilh\u00f5es de toneladas, segundo o Imbie \u2013 ou 0,6 mil\u00edmetro por ano. Um dos estudos publicados nesta semana na\u00a0<em>Nature<\/em>\u00a0afirma que, a persistir o ritmo atual de emiss\u00f5es de gases de efeito estufa, a Ant\u00e1rtida ter\u00e1 contribu\u00eddo com 27 cent\u00edmetros para a eleva\u00e7\u00e3o do n\u00edvel do mar em 2070.<br \/>\n<iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/LPp4J5-IZzk\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/p>\n<p>Isso, claro, se o manto de gelo ocidental n\u00e3o colapsar de repente. As grandes geleiras daquela regi\u00e3o, como a Pine Island e a Thwaites (s\u00f3 a Pine Island tem o tamanho do Amap\u00e1 e mede 50 km de uma ponta a outra de sua foz), est\u00e3o aparentemente em modo de derretimento descontrolado devido ao aquecimento do Oceano Austral abaixo da superf\u00edcie. O v\u00eddeo acima mostra a perda de eleva\u00e7\u00e3o nessas duas geleiras, que traduz seu derretimento acelerado. \u00c9 poss\u00edvel, embora pouco prov\u00e1vel por ora, que elas sofram esfacelamento repentino neste s\u00e9culo, o que causaria um aumento quase instant\u00e2neo de 3,3 metros no n\u00edvel do mar.<\/p>\n<p><strong>4 \u2013 Como os cientistas sabem que isso \u00e9 real?<\/strong><\/p>\n<p>Medindo. O Imbie comparou 24 s\u00e9ries de dados de sat\u00e9lite, que usam tr\u00eas abordagens diferentes: uma \u00e9 a altimetria a laser, que consiste em lan\u00e7ar pulsos de luz sobre o gelo e medir com grande precis\u00e3o a sua altitude. Repetindo as medi\u00e7\u00f5es ano a ano, \u00e9 poss\u00edvel detectar varia\u00e7\u00f5es na eleva\u00e7\u00e3o causadas pelo degelo. Outra forma de medir a massa do gelo \u00e9 por meio de gravimetria: os sat\u00e9lites g\u00eameos Grace voam perfeitamente alinhados sobre a Terra; em lugares onde h\u00e1 menos gelo o pux\u00e3o gravitacional \u00e9 menor, e um deles sofre um ligeiro desalinhamento, que pode ser convertido em toneladas. Uma terceira forma \u00e9 usando radares que medem a espessura e a velocidade do gelo.<\/p>\n<p>Igualmente forte \u00e9 a liga\u00e7\u00e3o entre aumento de temperatura e a concentra\u00e7\u00e3o de gases de efeito estufa. As concentra\u00e7\u00f5es de g\u00e1s carb\u00f4nico (CO2), metano (CH4) e \u00f3xido nitroso (N2O) s\u00e3o maiores hoje do que as medidas no gelo ant\u00e1rtico nos \u00faltimos 800 mil anos. Hoje h\u00e1 17 lugares na Ant\u00e1rtida de onde s\u00e3o extra\u00eddas amostras antigas de gelo \u2013 e todas contam exatamente a mesma hist\u00f3ria sobre a composi\u00e7\u00e3o da atmosfera no passado.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o apenas isso: um dos estudos publicados na Nature mostra tamb\u00e9m que a taxa de crescimento da concentra\u00e7\u00e3o de CO2 na atmosfera hoje \u00e9 20 vezes maior do que em qualquer per\u00edodo nos \u00faltimos 800 mil anos \u2013 quando varia\u00e7\u00f5es na \u00f3rbita da Terra iniciaram e terminaram eras do gelo.<\/p>\n<p><strong>5 \u2013 E o que ser\u00e1 dos pinguins?<\/strong><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-7913\" src=\"http:\/\/www.observatoriodoclima.eco.br\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/penguin-decline-antarctica_34457_600x450.jpeg\" alt=\"Pinguins-de-barbicha (\" width=\"600\" height=\"450\" \/><em>Pinguins-de-barbicha (\u201cPygoscelis antarctica\u201d) (Foto: Penguin Place Post)<\/em><\/p>\n<p>V\u00e3o se dar mal, coitados. E n\u00e3o apenas eles. Um dos estudos desta semana, liderado pelo australiano Steve Rintoul, aponta que duas esp\u00e9cies de pinguim, o pinguim-de-ad\u00e9lia e o pinguim-de-barbicha, ter\u00e3o redu\u00e7\u00f5es dram\u00e1ticas em suas popula\u00e7\u00f5es em 2070 a persistirem as emiss\u00f5es atuais. Uma terceira esp\u00e9cie, o pinguim-de-papua, vai prosperar num primeiro momento e depois declinar.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o s\u00e3o apenas eles: o krill, camar\u00e3o que \u00e9 a base da cadeia alimentar ant\u00e1rtica, vai colapsar devido \u00e0 perda progressiva do gelo marinho, que pode chegar a 43% de redu\u00e7\u00e3o; caranguejos subpolares invadir\u00e3o o Oceano Austral; e grama nascer\u00e1 onde hoje s\u00f3 existe rocha e gelo. O n\u00famero de invas\u00f5es biol\u00f3gicas ser\u00e1 dez vezes maior do que hoje, desestabilizando um dos ecossistemas mais fr\u00e1geis da Terra.<\/p>\n<p>Fonte &#8211; Claudio Angelo, Observat\u00f3rio do Clima de 14 de junho de 2018<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Icebergs (Foto: Baron Reznik\/Flickr\/CC) Estudo publicado nesta semana mostra que o ritmo do derretimento no sexto continente triplicou nos \u00faltimos cinco anos O trabalho cient\u00edfico sobre mudan\u00e7a clim\u00e1tica mais importante do ano foi publicado nesta quinta-feira (15) no peri\u00f3dico\u00a0Nature. 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