{"id":24877,"date":"2018-06-27T10:00:26","date_gmt":"2018-06-27T13:00:26","guid":{"rendered":"http:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=24877"},"modified":"2018-06-25T11:33:33","modified_gmt":"2018-06-25T14:33:33","slug":"agrotoxico-com-novo-nome-mas-batizado-pelos-de-sempre","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/agrotoxico-com-novo-nome-mas-batizado-pelos-de-sempre\/","title":{"rendered":"Agrot\u00f3xico com novo nome, mas batizado pelos de sempre"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/outraspalavras.net\/ojoioeotrigo\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/fi-fon-fu-1.jpg\" \/><\/p>\n<p><strong><em>Aben\u00e7oados pela bancada ruralista, agrot\u00f3xicos podem ser rebatizados por deputados para enganar agricultores e consumidores<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Em uma repeti\u00e7\u00e3o da toada dos \u00faltimos anos, a semana come\u00e7a sombria no Congresso Nacional. Como prova de que na atual legislatura tudo o que \u00e9 ruim pode piorar, deputados da bancada ruralista querem impulsionar uma manipula\u00e7\u00e3o de imagem que beneficia apenas a elite do agroneg\u00f3cio e as megacorpora\u00e7\u00f5es fabricantes de agrot\u00f3xicos.<\/p>\n<p>Projetos de lei embutidos no \u201cPacote do Veneno\u201d \u2013 apelido dado\u00a0ao conjunto de medidas\u00a0por ativistas pela alimenta\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel e ambientalistas\u00a0\u2013 preveem altera\u00e7\u00f5es na Lei de Agrot\u00f3xicos (lei 7802\/89). Entre elas, a renomea\u00e7\u00e3o dos produtos qu\u00edmicos, que passariam a se chamar \u201cdefensivos fitossanit\u00e1rios\u201d, caso o pacote seja aprovado pela Comiss\u00e3o Especial da C\u00e2mara. A vota\u00e7\u00e3o pode ocorrer a partir desta ter\u00e7a-feira, 15 de maio, e, depois, seguir ao plen\u00e1rio.<\/p>\n<p>O\u00a0<em>greenwashing<\/em>\u00a0(em portugu\u00eas, \u201clavagem verde\u201d) defendido pelos deputados da Frente Parlamentar da Agropecu\u00e1ria (nome que \u00e9 um eufemismo para bancada ruralista) faz parte do jogo de marketing e rela\u00e7\u00f5es p\u00fablicas que quer ocultar os impactos negativos dos agrot\u00f3xicos \u00e0 sa\u00fade e ao meio ambiente.<\/p>\n<p>Isso, num pa\u00eds que h\u00e1 dez anos mant\u00e9m a inc\u00f4moda posi\u00e7\u00e3o de l\u00edder mundial do uso de pesticidas, com uma legisla\u00e7\u00e3o j\u00e1 permissiva, que autoriza a aplica\u00e7\u00e3o de subst\u00e2ncias altamente t\u00f3xicas, como o glifosato, em quantidades at\u00e9 cinco mil vezes maiores do que o permitido na Uni\u00e3o Europeia, por exemplo.\u00a0Resultado: em alimentos como hortali\u00e7as, frutas e leguminosas, s\u00e3o 7,3 litros de agrot\u00f3xicos consumidos por habitante anualmente e 11 intoxica\u00e7\u00f5es humanas por dia em solo brasileiro, totalizando mais de quatro mil s\u00f3 em 2017, segundo\u00a0<a href=\"https:\/\/www.abrasco.org.br\/site\/publicacoes\/24127\/24127\/\">dados<\/a>\u00a0da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Sa\u00fade Coletiva (Abrasco).<\/p>\n<p>Ainda assim, atendendo ao\u00a0<em>lobby<\/em>\u00a0das gigantes do setor agroqu\u00edmico, como Bayer, Monsanto (a primeira adquiriu a segunda recentemente), Syngenta e Bunge, quem est\u00e1 com a bola agora s\u00e3o legisladores historicamente ligados aos interesses de grandes propriet\u00e1rios de terra (latifundi\u00e1rios), que possuem fichas recheadas de crimes ambientais e de trabalho escravo. Todos s\u00e3o representantes da bancada ruralista, considerada pelo Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap) a maior da C\u00e2mara, com 120 dos 513 deputados. A maioria, 51, \u00e9 do Partido Progressista (PP), legenda campe\u00e3 no n\u00famero de pol\u00edticos investigados por corrup\u00e7\u00e3o: 32.<\/p>\n<p>Majorit\u00e1rios na Comiss\u00e3o Especial, os ruralistas mencionam 18 projetos que podem alterar a Lei de Agrot\u00f3xicos. O principal deles, o PL 3.200\/2015, \u00e9 de autoria do deputado Covatti Filho, do PP do Rio Grande do Sul. O texto simplifica procedimentos para o registro de novos pesticidas, facilita o uso de gen\u00e9ricos, cria um novo \u00f3rg\u00e3o federal para acompanhar o tema \u2013 retirando poder da Ag\u00eancia Nacional de Vigil\u00e2ncia Sanit\u00e1ria (Anvisa)\u00a0\u2013 e reduz o papel dos estados na fiscaliza\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, \u00e9 essa a proposta que suaviza o nome dos agrot\u00f3xicos.<\/p>\n<p>O hist\u00f3rico do autor do projeto o liga diretamente a interesses patronais. Covatti Filho recebeu o total de R$ 737.510 mil de doadores declarados na campanha de 2014, sendo R$ 326 mil do agroneg\u00f3cio. O parlamentar ga\u00facho \u00e9 integrante da pouco conhecida, mas, muito atuante, \u201cbancada do fumo\u201d, um conjunto de deputados da regi\u00e3o Sul do Pa\u00eds que \u00e9 parte da bancada ruralista e defende os interesses da ind\u00fastria do cigarro, denunciada pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico do Trabalho (MPT) por viola\u00e7\u00f5es de direitos, incluindo trabalho infantil.\u00a0O deputado obteve doa\u00e7\u00e3o da transnacional do tabaco Phillip Morris.<\/p>\n<p>Na reforma trabalhista proposta por Michel Temer ano passado, votou pela aprova\u00e7\u00e3o, ajudando a precarizar ainda mais a situa\u00e7\u00e3o dos trabalhadores no Brasil, permitindo a terceiriza\u00e7\u00e3o de atividades-fim, inclusive em contrata\u00e7\u00f5es do servi\u00e7o p\u00fablico, e a amplia\u00e7\u00e3o de tr\u00eas para seis meses dos contratos tempor\u00e1rios de trabalho.<\/p>\n<p>Luiz Nishimori, do PR do Paran\u00e1, \u00e9 o relator do projeto. Autodeclarado agricultor e comerciante, ele \u00e9 conhecido como homem do agroneg\u00f3cio. Da totalidade dos polpudos R$ 2,4 milh\u00f5es que somou na disputa eleitoral de quatro anos atr\u00e1s, R$ 880 mil foram captados junto a empreendedores do setor.<\/p>\n<p>Quase 10% do que arrecadou, R$ 245 mil, partiram de empresas flagradas por trabalho escravo ou autuadas por viola\u00e7\u00f5es ambientais. Deputado estadual paranaense at\u00e9 2011, foi acusado por forma\u00e7\u00e3o de quadrilha, estelionato e crimes contra a f\u00e9 p\u00fablica. Foi denunciado por participar de esquema de nomea\u00e7\u00e3o de funcion\u00e1rios-fantasma e desvio de dinheiro p\u00fablico na Assembleia Legislativa. A a\u00e7\u00e3o est\u00e1 no Supremo Tribunal Federal (STF), em segredo de Justi\u00e7a.<\/p>\n<p>A\u00a0presidente da comiss\u00e3o \u00e9 Tereza Cristina, do DEM de Mato Grosso do Sul. Da lista de parlamentares que formam o \u00f3rg\u00e3o que analisa o \u201cPacote do Veneno\u201d, ela foi a mais favorecida por doadores declarados na corrida eleitoral, com o valor de R$ 4.298.808 milh\u00f5es, dos quais R$ 2,563 milh\u00f5es chegaram via agroneg\u00f3cio. A deputada n\u00e3o escapou \u00e0s doa\u00e7\u00f5es feitas por empresas que praticaram crimes ambientais ou de trabalho escravo. Dessas, recebeu R$ 100 mil. O Banco BTG Pactual, do banqueiro Andr\u00e9 Esteves, investigado pela Opera\u00e7\u00e3o Lava Jato, tamb\u00e9m foi doador da parlamentar, repassando R$ 300 mil \u00e0 campanha em 6 de agosto de 2014.<\/p>\n<p><strong>O padrinho e o compadrio<\/strong><\/p>\n<p>A pr\u00f3pria bancada ruralista nos lembra de quem est\u00e1 por tr\u00e1s da articula\u00e7\u00e3o, mexendo as pe\u00e7as. Durante a \u00faltima sess\u00e3o que tentou (e n\u00e3o conseguiu) votar a proposta, no dia 8 de maio, v\u00e1rios deputados ressaltaram que o texto original foi apresentado em 2002, pelo ent\u00e3o senador Blairo Maggi (PP), hoje ministro da Agricultura e Pecu\u00e1ria. Um dos maiores concentradores de terra do Brasil, ele \u00e9 dono de gigantescas planta\u00e7\u00f5es de monoculturas de soja e milho, al\u00e9m de cria\u00e7\u00e3o de gado, especialmente em Mato Grosso.<\/p>\n<p>Maggi tem muita influ\u00eancia no contexto do agroneg\u00f3cio. Na \u00faltima elei\u00e7\u00e3o, apadrinhou Adilton Sachetti, do PRB de Mato Grosso. Considerado \u201ccompadre\u201d do ministro, Sachetti acumulou fartas doa\u00e7\u00f5es contabilizadas, somando R$ 3,8 milh\u00f5es. Desse montante, R$ 2,4 milh\u00f5es sa\u00edram do agroneg\u00f3cio e R$ 50 mil da ind\u00fastria de agrot\u00f3xicos. Entre os principais doadores aparecem a Amaggi (empresa do agroneg\u00f3cio da fam\u00edlia do ministro), que doou R$ 400 mil, e o pr\u00f3prio Blairo, que desembolsou R$ 250 mil como pessoa f\u00edsica. Pior: R$ 1 milh\u00e3o foi arrecadado de empresas que usavam trabalho escravo ou respons\u00e1veis por crimes ambientais.<\/p>\n<p>\u201cO ministro Blairo Maggi \u00e9 um dos maiores concentradores de terras monocultoras do Brasil e tem grande interesse pessoal em ver o \u2018Pacote do Veneno\u2019 aprovado\u201d<\/p>\n<p>Adilton se declarou arquiteto ao TSE, mas \u00e9 conhecido como empres\u00e1rio do agroneg\u00f3cio em Rondon\u00f3polis (MT), onde presidiu o Sindicato Rural e a Associa\u00e7\u00e3o Mato-Grossense de Produtores de Algod\u00e3o, da qual \u00e9 o fundador. L\u00e1, tamb\u00e9m foi prefeito e se tornou r\u00e9u em a\u00e7\u00e3o penal por crimes de responsabilidade. De acordo com a den\u00fancia, hoje no STF, ele teria usado irregularmente repasses de um conv\u00eanio firmado com o estado \u00e0 \u00e9poca em que era chefe do Executivo municipal.<\/p>\n<p>Outras figuras que chamam a aten\u00e7\u00e3o na composi\u00e7\u00e3o da comiss\u00e3o e est\u00e3o sob a batuta de Maggi s\u00e3o Luiz Carlos Heinze, do PP ga\u00facho, e Valdir Colatto, do MDB de Santa Catarina. O primeiro \u00e9 empres\u00e1rio do agroneg\u00f3cio \u2013 embora se declare como \u201cprodutor rural\u201d \u2013 e engenheiro agr\u00f4nomo de forma\u00e7\u00e3o. No \u00faltimo pleito, elegeu-se deputado com R$ 1,8 milh\u00e3o do agroneg\u00f3cio e R$ 80 mil da ind\u00fastria qu\u00edmica. \u00c9 conhecido pelas falas preconceituosas, a exemplo da que fez num\u00a0<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=PjcUOQbuvXU\">discurso<\/a>\u00a0de fevereiro de 2014, quando se referiu a \u00edndios, quilombolas, gays e l\u00e9sbicas como \u201ctudo que n\u00e3o presta\u201d. E recebeu R$ 548 mil de empresas flagradas por trabalho escravo ou viola\u00e7\u00f5es ambientais.<\/p>\n<p>J\u00e1 Valdir Colatto, que tem sido um dos mais exaltados defensores do \u201cPacote do Veneno\u201d, captou R$ 619.891 mil na campanha para a C\u00e2mara, sendo mais da metade das doa\u00e7\u00f5es declaradas oriundas do agroneg\u00f3cio, numa quantia de R$ 328,6 mil. Dos cofres de empresas flagradas por viola\u00e7\u00f5es ambientais ou trabalho escravo, R$ 40 mil foram destinados ao parlamentar.<\/p>\n<p>Em comum, todos esses nomes defendem a substitui\u00e7\u00e3o da Lei dos Agrot\u00f3xicos de 1989, principalmente a mudan\u00e7a de nome para \u201cdefensivos fitossanit\u00e1rios\u201d, com o argumento raso de que \u201ca atual legisla\u00e7\u00e3o \u00e9 defasada e imp\u00f5e muita burocracia ao setor\u201d.<\/p>\n<p>A reportagem de\u00a0<em><strong>O Joio e o Trigo<\/strong><\/em>\u00a0organizou duas tabelas com os nomes de todos os deputados integrantes da Comiss\u00e3o Especial que t\u00eam financiamento por empresas do agroneg\u00f3cio, incluindo o total de doa\u00e7\u00f5es de campanha de cada um e os valores espec\u00edficos recebidos do agroneg\u00f3cio ou da ind\u00fastria qu\u00edmica. Tamb\u00e9m utilizamos informa\u00e7\u00f5es do\u00a0<a href=\"https:\/\/ruralometro.reporterbrasil.org.br\/\">Rural\u00f4metro<\/a>, projeto da\u00a0<em>Rep\u00f3rter Brasil<\/em>\u00a0que mede a \u201cfebre\u201d dos parlamentares de acordo com crit\u00e9rios que levam em conta o financiamento eleitoral feito por\u00a0<a href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/ojoioeotrigo\/2017\/12\/com-quem-andas-acucar\/\">empresas<\/a>\u00a0que cometeram viola\u00e7\u00f5es trabalhistas e\/ou ambientais.<\/p>\n<p>Como se ver\u00e1, h\u00e1 parlamentares que receberam investimentos das corpora\u00e7\u00f5es do setor em 2014, mas se posicionam contra esses interesses. S\u00e3o os casos de Alessandro Molon (PSB-RJ) e Patrus Ananias (PT-MG).<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/outraspalavras.net\/ojoioeotrigo\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/tabela1.jpg\" \/><\/p>\n<p><strong>Rea\u00e7\u00e3o\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>O subprocurador-geral da Rep\u00fablica N\u00edvio de Freitas Silva Filho discorda dos pol\u00edticos da bancada ruralista. Sobre os motivos defendidos no relat\u00f3rio de Luiz Nishimori, um parecer do representante do MPF aponta que nenhum considera os efeitos dos agrot\u00f3xicos sobre a sa\u00fade ou o meio ambiente, al\u00e9m de haver inconstitucionalidades no \u201cPacote do Veneno\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 o caso da extin\u00e7\u00e3o de regras que hoje garantem algum controle sobre os pesticidas. A proposta apresentada \u00e0 comiss\u00e3o acabaria com a compet\u00eancia dos munic\u00edpios de legislar sobre o uso e o armazenamento local dos agrot\u00f3xicos; o dever de pol\u00edticas sociais e econ\u00f4micas que visem \u00e0 redu\u00e7\u00e3o dos riscos de doen\u00e7as; a proibi\u00e7\u00e3o de registros de produtos compostos por subst\u00e2ncias causadoras de malforma\u00e7\u00f5es cong\u00eanitas, c\u00e2ncer, ou que provoquem dist\u00farbios hormonais ou danos ao sistema reprodutivo (o registro de subst\u00e2ncias com tais caracter\u00edsticas fica legalizado se o pacote for aprovado).<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" src=\"http:\/\/outraspalavras.net\/ojoioeotrigo\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/tabela2.jpg\" width=\"851\" height=\"1002\" \/><\/p>\n<p>Organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil e movimentos sociais tamb\u00e9m se mobilizam. Na semana passada, um\u00a0<a href=\"http:\/\/www.chegadeagrotoxicos.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/MANIFESTO_PACOTE_VENENO.pdf\">manifesto\u00a0<\/a>assinado por 271 entidades que atuam em promo\u00e7\u00e3o da sa\u00fade, meio ambiente e defesa do consumidor se posicionou contra o \u201cPacote do Veneno\u201d e foi enviado \u00e0 Comiss\u00e3o Especial da C\u00e2mara dos Deputados.<\/p>\n<p><strong>Marketing contaminante<\/strong><\/p>\n<p>O uso do termo latifundi\u00e1rios no terceiro par\u00e1grafo desta reportagem tem causa: se falamos de\u00a0<em>greenwashing<\/em>\u00a0ou lavagem de marcas e produtos, n\u00e3o podemos esquecer que grandes propriet\u00e1rios de terra no Brasil (muitos, improdutivos) conseguiram praticamente eliminar os latif\u00fandios (extens\u00f5es quilom\u00e9tricas de terras monocultoras com a produ\u00e7\u00e3o voltada \u00e0 exporta\u00e7\u00e3o) do debate p\u00fablico.<\/p>\n<p>A motiva\u00e7\u00e3o de fazer sumir a terminologia do vocabul\u00e1rio \u00e9 a carga simb\u00f3lica que a acompanha: uma das ra\u00edzes da desigualdade social no pa\u00eds, representa a concentra\u00e7\u00e3o de \u00e1reas rurais nas m\u00e3os de poucas fam\u00edlias ou empresas e chama aten\u00e7\u00e3o para a necessidade da reforma agr\u00e1ria, assim como da redu\u00e7\u00e3o da desigualdade socioecon\u00f4mica.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e0 toa, todo um trabalho de marketing foi feito ap\u00f3s o fim da ditadura (1964-1985) para reposicionar os latifundi\u00e1rios. Desde meados dos anos 1980, eles passaram a se autodenominar \u201cempres\u00e1rios do agroneg\u00f3cio\u201d, no intuito de modernizar o discurso sem, necessariamente, mudar as pr\u00e1ticas. Para a constru\u00e7\u00e3o desse novo significado, o grupo foi amparado por ag\u00eancias de publicidade, assessorias de imprensa e pol\u00edticos eleitos com dinheiro de monoculturas regadas a pesticidas.<\/p>\n<p>O professor Bernardo Man\u00e7ano, livre-docente do Departamento de Geografia da Universidade Estadual Paulista (Unesp), diz que os propriet\u00e1rios de grandes extens\u00f5es rurais passaram a vincular-se \u00e0 imagem de modernas empresas agr\u00edcolas lucrativas que, em teoria, seriam as maiores respons\u00e1veis por impulsionar a economia brasileira.<\/p>\n<p>\u201cO agroneg\u00f3cio foi constru\u00eddo para renovar a imagem, para \u2018moderniz\u00e1-lo\u2019, para ocultar o car\u00e1ter concentrador, predador, expropriat\u00f3rio e excludente, para revelar somente o car\u00e1ter produtivista. Houve o aperfei\u00e7oamento do processo, mas n\u00e3o a solu\u00e7\u00e3o dos problemas: o latif\u00fandio efetua a exclus\u00e3o pela improdutividade, o agroneg\u00f3cio promove a exclus\u00e3o (dos pequenos agricultores) pela intensa produtividade\u201d, argumenta Man\u00e7ano, no artigo \u201c<a href=\"http:\/\/www.unesp.br\/aci\/jornal\/211\/supled.php\">Um nome para modernizar o sistema de latif\u00fandio\u201d.<\/a><\/p>\n<p>Anos depois, em 1995, a at\u00e9 ent\u00e3o chamada \u201cbancada do boi\u201d passou a se autodenominar bancada ruralista. Era um novo movimento de reposicionamento de imagem. O nome generalizante assegurava a identifica\u00e7\u00e3o do grupo com o meio rural, fazendo com que se misturasse a agricultores e pecuaristas de variadas faixas socioecon\u00f4micas.<\/p>\n<p>Mudar nomes para conquistar reposicionamentos que acomodem interesses da elite latifundi\u00e1ria e das corpora\u00e7\u00f5es do veneno, portanto, n\u00e3o \u00e9 novidade. O pretendido apagamento do termo agrot\u00f3xico \u00e9 apenas uma nova tentativa de lavagem. Dessa vez, para sumir com a sujeira de quem espalha veneno pelo pa\u00eds.<\/p>\n<p>Fonte &#8211; Moriti Neto, O Joio e o Trigo de 14 de maio de 2018<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aben\u00e7oados pela bancada ruralista, agrot\u00f3xicos podem ser rebatizados por deputados para enganar agricultores e consumidores Em uma repeti\u00e7\u00e3o da toada dos \u00faltimos anos, a semana come\u00e7a sombria no Congresso Nacional. 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