{"id":24883,"date":"2018-07-04T10:00:54","date_gmt":"2018-07-04T13:00:54","guid":{"rendered":"http:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=24883"},"modified":"2018-06-25T11:35:36","modified_gmt":"2018-06-25T14:35:36","slug":"um-guia-sobre-a-necessidade-de-criar-regras-para-a-publicidade-infantil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/um-guia-sobre-a-necessidade-de-criar-regras-para-a-publicidade-infantil\/","title":{"rendered":"Um guia sobre a necessidade de criar regras para a publicidade infantil"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/outraspalavras.net\/ojoioeotrigo\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/televisao_crianca-1024x789.jpg\" \/><\/p>\n<p class=\"post-title\"><strong>Um guia sobre a necessidade de criar regras para a publicidade infantil<\/strong><\/p>\n<p>&#8220;<em>Apesar de haver uma tonelada de evid\u00eancias cient\u00edficas, os Estados vacilam na a\u00e7\u00e3o e as empresas avan\u00e7am em novas estrat\u00e9gias&#8221;<\/em><\/p>\n<p>O mundo vive uma situa\u00e7\u00e3o contradit\u00f3ria. Nunca houve tantas evid\u00eancias cient\u00edficas sobre a necessidade de criar regras para a publicidade infantil. E, no entanto, nunca houve estrat\u00e9gias t\u00e3o bem-sucedidas e onipresentes de comunica\u00e7\u00e3o mercadol\u00f3gica voltada \u00e0s crian\u00e7as.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos meses conversamos com pesquisadores e lemos uma tonelada de artigos cient\u00edficos \u2013 ficamos surpresos, na verdade, com a quantidade e a antiguidade de estudos existentes. Apresentamos a seguir uma pequena amostra, um roteiro poss\u00edvel entre tantos para entender melhor o assunto.<\/p>\n<p>Decidimos ficar apenas com as evid\u00eancias mais recentes, as que lidam com um mundo em r\u00e1pida transforma\u00e7\u00e3o. Mas com liberdade de iniciar por um livro menos novo.\u00a0<em>Nascidos para comprar<\/em>, de Juliet Schor, professora de Sociologia na Universidade de Boston, \u00e9 deliciosamente desatualizado. Lan\u00e7ado no Brasil em 2009, o trabalho analisa o boom de estrat\u00e9gias de marketing voltadas aos menores.<\/p>\n<p>O advento de tantas outras formas no mundo digital faz\u00a0<em>Nascidos para comprar<\/em>\u00a0perder atualidade em termos de t\u00e1ticas e cifras, mas ganhar em termos de sentido: \u00e9 o estudo sobre a g\u00eanese da exposi\u00e7\u00e3o incessante a marcas e produtos.<\/p>\n<p><strong>Arcabou\u00e7o legal<\/strong><\/p>\n<p>No Brasil, a Constitui\u00e7\u00e3o admite um papel compartilhado entre fam\u00edlia, sociedade e Estado na \u201cabsoluta prioridade\u201d da prote\u00e7\u00e3o dos direitos da crian\u00e7a, colocando-a a salvo de \u201ctoda forma de neglig\u00eancia, discrimina\u00e7\u00e3o, explora\u00e7\u00e3o, viol\u00eancia, crueldade e opress\u00e3o\u201d. O C\u00f3digo de Defesa do Consumidor veda qualquer publicidade abusiva.<\/p>\n<p>E est\u00e1 bem assentada a ideia de que as crian\u00e7as at\u00e9 por volta de 12 anos n\u00e3o t\u00eam total compreens\u00e3o sobre os objetivos da publicidade e do marketing \u2013 embora os mais crescidos tenham uma capacidade de entendimento diferente dos menores. Um dos estudos para entender melhor essa correla\u00e7\u00e3o \u00e9 o\u00a0<a href=\"https:\/\/site.cfp.org.br\/wp-content\/uploads\/2008\/10\/cartilha_publicidade_infantil.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">parecer escrito<\/a>\u00a0por Yves de La Talle, do Instituto de Psicologia da USP, para o Conselho Federal de Psicologia.<\/p>\n<p>Apesar disso, as empresas continuam direcionando publicidade \u00e0s crian\u00e7as, e ganharam na internet todo um novo terreno para explorar t\u00e1ticas mais eficazes.<\/p>\n<p>A discuss\u00e3o n\u00e3o vem de hoje. \u00c9 de 2001 o Projeto de Lei 5.921, que veda a publicidade voltada a crian\u00e7as. O autor, Luiz Carlos Hauly (PSDB\/PR), afirma nunca ter visto lobby t\u00e3o forte no Congresso. E o texto segue parado.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o do Brasil poderia ser diferente com a\u00a0<a href=\"http:\/\/portal.anvisa.gov.br\/documents\/33864\/284972\/RDC24_10_Publicidade%2Bde%2Balimentos.pdf\/c406d0df-e88b-407a-9c0f-30da652f4a44\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Resolu\u00e7\u00e3o 24<\/a>, editada em 2010 pela Anvisa. O texto legal previa restri\u00e7\u00f5es \u00e0 publicidade de alimentos com excesso de a\u00e7\u00facar, sal e gordura saturada. Entre a primeira vers\u00e3o do texto, constru\u00edda em 2006, e aquela aprovada em definitivo, a press\u00e3o do setor privado conseguiu muitos recuos. Que, ainda assim, foram alvo de contesta\u00e7\u00e3o judicial, com vit\u00f3ria para as empresas.<\/p>\n<p>Em 2011, o Grupo de Trabalho de Comunica\u00e7\u00e3o Social do Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal divulgou\u00a0<a href=\"http:\/\/pfdc.pgr.mpf.mp.br\/institucional\/grupos-de-trabalho\/comunicao-social\/temas-trabalhados\/propaganda-dirigida-publico-infantil\/atuacao-do-mpf-1\/nota-tecnica-merchandising\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">uma nota t\u00e9cnica<\/a>\u00a0na qual considera que a publicidade direcionada a crian\u00e7as \u00e9 enganosa e abusiva. Os procuradores partem da premissa de que a falta de compreens\u00e3o sobre os objetivos da comunica\u00e7\u00e3o mercadol\u00f3gica \u00e9, por si, motivo para proibir esse tipo de conte\u00fado.<\/p>\n<p>Em 2014 o Conselho Nacional dos Direitos da Crian\u00e7a e do Adolescente (Conanda) publicou a\u00a0<a href=\"https:\/\/www.legisweb.com.br\/legislacao\/?id=268725\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Resolu\u00e7\u00e3o 163<\/a>, que considera abusiva a pr\u00e1tica do direcionamento de publicidade e comunica\u00e7\u00e3o mercadol\u00f3gica \u00e0 crian\u00e7a com a inten\u00e7\u00e3o de persuadi-la para o consumo de qualquer produto ou servi\u00e7o\u201d.<\/p>\n<p>O documento declara ilegal o uso de linguagem infantil, efeitos especiais e excesso de cores; trilhas sonoras de m\u00fasicas infantis ou cantadas por vozes de crian\u00e7a; representa\u00e7\u00e3o de crian\u00e7a; pessoas ou celebridades com apelo ao p\u00fablico infantil; personagens ou apresentadores infantis; desenho animado ou de anima\u00e7\u00e3o; bonecos ou similares; promo\u00e7\u00e3o com distribui\u00e7\u00e3o de pr\u00eamios ou de brindes colecion\u00e1veis ou com apelos ao p\u00fablico infantil; e promo\u00e7\u00e3o com competi\u00e7\u00f5es ou jogos com apelo ao p\u00fablico infantil.<\/p>\n<p>No entendimento das empresas, uma resolu\u00e7\u00e3o do Conanda n\u00e3o tem valor impositivo. E \u00e9 essa interpreta\u00e7\u00e3o que as permite seguir direcionando publicidade \u00e0s crian\u00e7as, sob o argumento da liberdade de express\u00e3o e da necessidade de n\u00e3o colocar os pequenos numa \u201cbolha\u201d.<\/p>\n<p>Na vis\u00e3o de um dos estudos mais importantes feitos no Brasil, o que se faz hoje \u00e9 deixar as crian\u00e7as na bolha do consumismo. \u201c<a href=\"http:\/\/www.defesadoconsumidor.gov.br\/images\/manuais\/publicidade_infantil.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Publicidade Infantil em tempos de converg\u00eancia<\/a>\u201d foi conduzido pelo Grupo de Pesquisa da Rela\u00e7\u00e3o Inf\u00e2ncia, Juventude e M\u00eddia da Universidade Federal do Cear\u00e1 a pedido do Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a.<\/p>\n<p>Foi realizado um levantamento qualitativo com crian\u00e7as entre 9 e 11 anos de S\u00e3o Paulo, Rio Branco, Bras\u00edlia, Porto Alegre e Fortaleza. O relat\u00f3rio re\u00fane uma s\u00e9rie de falas que deixam clara a dificuldade de entender a publicidade. E como essa publicidade se transforma em um efeito amola\u00e7\u00e3o para que os pais comprem produtos. O trabalho sugere ainda uma s\u00e9rie de medidas a serem adotadas por governos e empresas.<\/p>\n<p><strong>Exposi\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais\u00a0est\u00e3o tentando entender o impacto dessa publicidade. Um\u00a0<a href=\"http:\/\/www.scielo.br\/scielo.php?pid=S0102-311X2017000405009&amp;script=sci_abstract&amp;tlng=pt\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">primeiro levantamento<\/a>\u00a0analisou dois dias de programa\u00e7\u00e3o das quatro emissoras de maior audi\u00eancia do pa\u00eds. Do total de 2.732 comerciais, 10,2% eram alimentos. Desses, 60,7% eram ultraprocessados e 31,9% eram bebidas alco\u00f3licas.<\/p>\n<p>As an\u00e1lises feitas em outros pa\u00edses s\u00e3o bem parecidas. Mudam apenas os produtos.\u00a0<a href=\"https:\/\/idl-bnc-idrc.dspacedirect.org\/bitstream\/handle\/10625\/56533\/IDL-56533.pdf?sequence=2\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Na Argentina<\/a>, em 1.440 horas de grava\u00e7\u00e3o foram encontradas 21.085 propagandas. Dessas, 3.576 eram alimentos. Durante os programas infantis, 98,9% dos produtos eram processados ou ultraprocessados. Bebidas ado\u00e7adas (35,3%), l\u00e1cteos (12,2%) e sobremesas (8,2%) comandavam a lista.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/bmcpublichealth.biomedcentral.com\/articles\/10.1186\/s12889-016-3298-0\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">No M\u00e9xico<\/a>, os 2.546 an\u00fancios de alimentos e bebidas corresponderam a 20,7% do total. Bebidas (24,6%), chocolates e doces (19,7%), bolos e biscoitos (12%), salgadinhos (9%) e cereais (7,1%) foram os itens mais divulgados. Durante os desenhos eram exibidos os an\u00fancios de produtos com os piores \u00edndices de calorias e a\u00e7\u00facar. 83,1% dos produtos n\u00e3o cumpriram o m\u00ednimo aceit\u00e1vel nos crit\u00e9rios da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade.<\/p>\n<p><strong>Custo-benef\u00edcio<\/strong><\/p>\n<p>Um\u00a0<a href=\"http:\/\/criancaeconsumo.org.br\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/Relatorio_TheEconomist_.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">estudo publicado<\/a>\u00a0em agosto de 2017 pela\u00a0<em>The Economist<\/em>, a pedido do Instituto Alana, mostra que a proibi\u00e7\u00e3o da publicidade infantil traz mais ganhos do que perdas. O mercado publicit\u00e1rio teria preju\u00edzo, e as vendas de brinquedos e fast-food seriam as mais afetadas.<\/p>\n<p>Mas a redu\u00e7\u00e3o dos custos do sistema de sa\u00fade com obesidade infantil e os ganhos em termos de vida produtiva compensariam as perdas, nos c\u00e1lculos da Unidade de Intelig\u00eancia da\u00a0<em>The Economist<\/em>. No cen\u00e1rio mais otimista, o pa\u00eds ganharia R$ 76 bilh\u00f5es em 15 anos. A aus\u00eancia de alguns dados faz com que as estimativas n\u00e3o sejam plenamente precisas. Mas o importante \u00e9 a mensagem de que o custo-benef\u00edcio compensa.<\/p>\n<p>Para refor\u00e7ar esse aspecto, um grupo de pesquisadores australianos acaba de publicar um\u00a0<a href=\"http:\/\/www.mdpi.com\/2072-6643\/10\/5\/622\/htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">estudo sobre a efetividade<\/a>de restri\u00e7\u00f5es na publicidade de bebidas e comida-tranqueira at\u00e9 21h30 nos canais abertos. A conclus\u00e3o \u00e9 de que a medida custaria o equivalente a R$ 15,9 milh\u00f5es, e traria benef\u00edcios de R$ 2 bilh\u00f5es. Seriam poupados quase 90 mil anos de vida, com ganhos maiores entre os mais pobres, justamente os mais atingidos pela publicidade.<\/p>\n<p><strong>Correla\u00e7\u00f5es<\/strong><\/p>\n<p>Mas como \u00e9 poss\u00edvel calcular anos de vida? Em parte porque v\u00eam de longa data os estudos que tentam determinar a influ\u00eancia da televis\u00e3o sobre o ganho de peso e as doen\u00e7as cr\u00f4nicas. De 2010, um\u00a0<a href=\"https:\/\/www.cambridge.org\/core\/services\/aop-cambridge-core\/content\/view\/63EB08C93D239AE99000371692BF4742\/S1368980009992850a.pdf\/television_food_advertising_and_the_prevalence_of_childhood_overweight_and_obesity_a_multicountry_comparison.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">artigo na\u00a0<em>Public Health Nutrition<\/em><\/a>condensa os dados para v\u00e1rios pa\u00edses. Nos Estados Unidos, poderia haver 40% menos crian\u00e7as obesas se n\u00e3o fosse a exposi\u00e7\u00e3o a an\u00fancios na TV, segundo um dos m\u00e9todos estudados.<\/p>\n<p>Uma\u00a0<a href=\"http:\/\/ajcn.nutrition.org\/content\/103\/2\/519.long\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">revis\u00e3o sistem\u00e1tica<\/a>\u00a0publicada em 2016 no\u00a0<em>American Journal of Clinical Nutrition<\/em>\u00a0aborda a correla\u00e7\u00e3o entre exposi\u00e7\u00e3o a publicidade e consumo imediato de refrigerantes. Tanto internet como televis\u00e3o mostraram um efeito significativo sobre as crian\u00e7as, e menos significativo sobre os adultos, refor\u00e7ando a necessidade de prote\u00e7\u00e3o infantil. Os autores constataram que os an\u00fancios levam a um pequeno aumento do consumo individual. E que \u00e9 justamente esse pequeno aumento que, no longo prazo, causa sobrepeso e obesidade.<\/p>\n<p><strong>Autorregula\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>O setor privado defende a autorregula\u00e7\u00e3o como forma mais eficaz de controle. As regras criadas pelas pr\u00f3prias empresas teriam aplica\u00e7\u00e3o mais r\u00e1pida, estariam sob a fiscaliza\u00e7\u00e3o de \u00f3rg\u00e3os especializados e preservariam o dinheiro p\u00fablico.<\/p>\n<p>Mas as evid\u00eancias cient\u00edficas v\u00e3o para o lado oposto. Voc\u00ea pode ler o livro rec\u00e9m-lan\u00e7ado pelo Instituto Alana,\u00a0<em>Autorregula\u00e7\u00e3o da Publicidade Infantil no Brasil e no Mundo<\/em>.<\/p>\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m artigos interessantes. Em 2010, a OMS alertou os pa\u00edses sobre a necessidade de restringir a comunica\u00e7\u00e3o mercadol\u00f3gica voltada a crian\u00e7as. Um\u00a0<a href=\"https:\/\/academic.oup.com\/ajcn\/article\/103\/2\/519\/4662876\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">artigo revisou<\/a>\u00a0o que foi feito desde ent\u00e3o. A maior parte dos pa\u00edses deixou a cargo da autorregula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Algumas empresas de alimentos prometeram direcionar aos menores apenas o marketing de produtos que atendessem a certos crit\u00e9rios nutricionais, mas, no geral, esses crit\u00e9rios s\u00e3o muito frouxos.<\/p>\n<p>O resultado: at\u00e9 2016, nenhuma marca havia deixado de se comunicar com crian\u00e7as de menos de doze anos. E, como sempre, parcerias p\u00fablico-privadas foram buscadas ativamente em \u00e1reas correlatas numa tentativa de demonstrar boa vontade e retardar a a\u00e7\u00e3o do Estado.<\/p>\n<p>Uma\u00a0<a href=\"https:\/\/cspinet.org\/sites\/default\/files\/attachment\/coke-kids-report.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">investiga\u00e7\u00e3o feita pelo Center for Science in The Public Interest<\/a>\u00a0mostrou que a Coca-Cola foi capaz de violar o pr\u00f3prio acordo. A fabricante continuou a direcionar an\u00fancios a canais infantis e a se valer de celebridades e personagens (quem a\u00ed n\u00e3o conhece o Urso Polar da Coca?). \u201cO que quer que a Coca prometa, sua meta evidente \u00e9 implantar seus produtos profundamente na cultura infantil\u201d, disse o presidente da organiza\u00e7\u00e3o, Michael Jacobson.<\/p>\n<p>Um\u00a0<a href=\"https:\/\/www.cambridge.org\/core\/services\/aop-cambridge-core\/content\/view\/7E560F0E1E37DA6194E112424B75C3C9\/S1368980009991339a.pdf\/marketing_foods_to_children_and_adolescents_licensed_characters_and_other_promotions_on_packaged_foods_in_the_supermarket.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">artigo mais antigo<\/a>, de 2010 na\u00a0<em>Public Health Nutrition<\/em>, analisou as prateleiras de supermercado ap\u00f3s o acordo de autorregula\u00e7\u00e3o firmado pelo setor privado nos Estados Unidos em 2006. Os autores compararam a evolu\u00e7\u00e3o dos produtos oferecidos em venda casada, ou seja, quando h\u00e1 uma promo\u00e7\u00e3o com a entrega de um brinde.<\/p>\n<p>A ideia era verificar se, com restri\u00e7\u00f5es na TV, as g\u00f4ndolas haviam se tornado um espa\u00e7o preferencial de promo\u00e7\u00e3o de tranqueiras. E a resposta \u00e9\u2026 sim. A composi\u00e7\u00e3o nutricional desses produtos piorou ao longo dos anos e o n\u00famero de itens ofertados aumentou. A seguir nessa toada, dizem os pesquisadores, o Estado deveria agir.<\/p>\n<p>Um\u00a0<a href=\"https:\/\/www.ncbi.nlm.nih.gov\/pmc\/articles\/PMC3674770\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">trabalho publicado no ano seguinte<\/a>\u00a0chega a conclus\u00f5es parecidas. Embora o n\u00edvel nutricional dos produtos anunciados na TV tivesse apresentado alguma melhora, estava longe do razo\u00e1vel: 86% dos produtos eram excessivos em sal, gordura e a\u00e7\u00facar.<\/p>\n<p>Para Belinda Reeve e Roger Magnusson, da Escola de Direito da Universidade de Sidney, isso mostra que a fixa\u00e7\u00e3o de perfis nutricionais pelo setor privado tende a ser frouxa. E cria a ideia de que o que est\u00e1 sendo publicizado \u00e9 bom, quando n\u00e3o \u00e9.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/outraspalavras.net\/ojoioeotrigo\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/Games03_000001-880x587.jpg\" \/><em>Os games casados a marcas t\u00eam se mostrado uma particular amea\u00e7a para as crian\u00e7as (Foto: Daniel Castellano. Prefeitura de Curitiba)<\/em><\/p>\n<p>Em\u00a0<a href=\"https:\/\/papers.ssrn.com\/sol3\/papers.cfm?abstract_id=3131414\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">um artigo publicado este ano<\/a>, eles fazem uma extensa revis\u00e3o. E concluem que a autorregula\u00e7\u00e3o carece de transpar\u00eancia: a sociedade e os Estados n\u00e3o conseguem fiscalizar o que est\u00e1 sendo feito pelas empresas. Em todos os casos estudados, sequer foram chamados a participar da defini\u00e7\u00e3o das metas. A puni\u00e7\u00e3o, al\u00e9m de improv\u00e1vel, \u00e9 branda. O que fica claro para os autores, que s\u00e3o da Faculdade de Direito de Sidney, na Austr\u00e1lia, \u00e9 que embora a regula\u00e7\u00e3o tenha problemas, sempre funciona melhor.<\/p>\n<p><strong>Cen\u00e1rio digital<\/strong><\/p>\n<p>Chegamos ao admir\u00e1vel mundo novo, do qual j\u00e1 tratamos em outras reportagens. O universo digital tem revelado formas de marketing antes impens\u00e1veis. Um bom ponto de partida para encontrar uma linha de racioc\u00ednio \u00e9 o artigo \u201c<a href=\"https:\/\/www.ncbi.nlm.nih.gov\/pubmed\/26627088\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Nova m\u00eddia, mas os mesmos velhos truques: marketing de alimentos para crian\u00e7as na era digital<\/a>\u201c, de 2015, quando essas estrat\u00e9gias explodiram.<\/p>\n<p>A professora Bridget Kelly, da Universidade de Wollongong, na Austr\u00e1lia, tem tentado encontrar m\u00e9todos para lidar com as novas formas de marketing. Recentemente, o<a href=\"http:\/\/www.mdpi.com\/2072-6643\/10\/2\/148\/htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">\u00a0grupo dela revisou as evid\u00eancias acumuladas em rela\u00e7\u00e3o ao p\u00fablico jovem<\/a>. No geral, ficou claro que o marketing pode levar inclusive pessoas mais velhas a mudan\u00e7as de comportamento.<\/p>\n<p>E que muitas n\u00e3o se d\u00e3o conta de que foram envolvidas por algum tipo de propaganda no cen\u00e1rio digital. Duas das sugest\u00f5es: o Facebook deveria banir an\u00fancios de certos tipos de produtos e deveria haver mecanismos claros de bloqueio de publicidade para crian\u00e7as.<\/p>\n<p>No Brasil, al\u00e9m do estudo mencionado l\u00e1 no come\u00e7o, com grupos focais, h\u00e1 alguns outros que valem o tempo investido. \u201c<a href=\"http:\/\/pesquisasmedialab.espm.br\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/Media-Lab_Luciana_Correa_2016.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Gera\u00e7\u00e3o YouTube: um mapeamento sobre o consumo e a produ\u00e7\u00e3o infantil de v\u00eddeos para crian\u00e7as de zero a 12 anos (2005-2015)<\/a>\u201c, de Luciana Corr\u00eaa, do Media Lab da ESPM, foi um dos primeiros a sacar a influ\u00eancia que a plataforma de v\u00eddeos estava conquistando. Ela vem atualizando os dados, de modo que vale a pena ficar ligado na\u00a0<a href=\"http:\/\/www2.espm.br\/pesquisa\/laboratorios\/espm-media-lab\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">p\u00e1gina do Media Lab<\/a>.<\/p>\n<p>J\u00e1 a\u00a0<a href=\"http:\/\/cetic.br\/pesquisa\/kids-online\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">TIC Kids Online<\/a>\u00a0tem edi\u00e7\u00f5es anuais sob a coordena\u00e7\u00e3o do Comit\u00ea Gestor da Internet. \u00c9 o estudo quantitativo mais completo sobre o uso da rede pelas crian\u00e7as. Em linhas gerais, exp\u00f5e um crescimento r\u00e1pido do uso de celulares e a exposi\u00e7\u00e3o dos menores tanto a publicidade como a discrimina\u00e7\u00e3o e atos de viol\u00eancia. Em 2016, 43% declararam ter pedido algum produto aos pais ap\u00f3s contato com marcas na internet, contra 30% em 2014.<\/p>\n<p>E tudo indica que, dentre as formas de publicidade virtual, os\u00a0<em>advergames<\/em>\u00a0funcionam melhor do que tudo ao misturar joguinhos com marcas. Um\u00a0<a href=\"https:\/\/www.ncbi.nlm.nih.gov\/pubmed\/29650023\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">artigo rec\u00e9m-publicado<\/a>\u00a0pelo grupo de Bridget Kelly analisou o comportamento de crian\u00e7as expostas a publicidade tanto na TV como no computador. Primeiro, assistia-se a publicidades. Depois, comia-se. Os games conduziram a uma maior ingest\u00e3o cal\u00f3rica.<\/p>\n<p>No estudo feito pela Federal do Cear\u00e1, as crian\u00e7as relatavam gostar dos\u00a0<em>advergames<\/em>\u00a0porque n\u00e3o eram interrompidas por an\u00fancios, \u00e0 diferen\u00e7a do que ocorre no YouTube. \u201cTudo indica que as crian\u00e7as s\u00e3o levadas a se divertirem com as marcas e personagens sem se dar conta, muitas vezes, de que ali est\u00e1 sendo constru\u00eddo um processo de fideliza\u00e7\u00e3o de marcas e de promo\u00e7\u00e3o das pr\u00e1ticas de consumo.\u201d<\/p>\n<p>Fonte &#8211; Jo\u00e3o Peres, O Joio e o Trigo de 30 de maio de 2018<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um guia sobre a necessidade de criar regras para a publicidade infantil &#8220;Apesar de haver uma tonelada de evid\u00eancias cient\u00edficas, os Estados vacilam na a\u00e7\u00e3o e as empresas avan\u00e7am em novas estrat\u00e9gias&#8221; O mundo vive uma situa\u00e7\u00e3o contradit\u00f3ria. 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