{"id":25035,"date":"2018-08-17T17:00:21","date_gmt":"2018-08-17T20:00:21","guid":{"rendered":"http:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=25035"},"modified":"2018-08-06T15:01:51","modified_gmt":"2018-08-06T18:01:51","slug":"crise-do-clima-litoral-paulista-erosao-come-praias-e-ate-casas-inteiras-obras-tentam-conter-as-ressacas-frequentes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/crise-do-clima-litoral-paulista-erosao-come-praias-e-ate-casas-inteiras-obras-tentam-conter-as-ressacas-frequentes\/","title":{"rendered":"Crise do clima &#8211; Litoral paulista &#8211; Eros\u00e3o come praias e at\u00e9 casas inteiras; obras tentam conter as ressacas frequentes"},"content":{"rendered":"<p><em>Menino anda sobre escombros de casas destru\u00eddas na Praia do Leste, em Iguape, no litoral sul de S\u00e3o Paulo; local sofre efeitos da eros\u00e3o marinha, intensificada por ressacas &#8211;\u00a0<span class=\"caption__credit caption__credit_white\">Lalo de Almeida\/Folhapress<\/span><\/em><\/p>\n<p><span class=\"origin\">SANTOS, IGUAPE E ILHA COMPRIDA (SP) &#8211;\u00a0<\/span>Quando a \u00e1gua invade as casas de palafitas da favela do Mangue Seco, na zona noroeste de Santos (SP), \u201c\u00e9 hora de se mandar\u201d. Quem avisa \u00e9 Dyennifer Aparecida da Silva, 35, auxiliar de limpeza que est\u00e1 desempregada.<\/p>\n<p>\u201cEla chega no tornozelo, \u00e0s vezes at\u00e9 no joelho. A\u00ed entra rato, barata, aqueles mosquitos que tu n\u00e3o te aguenta mais. Voc\u00ea pode ser limp\u00edssima, mas o rato come a sua comida.\u201d<\/p>\n<p>A zona noroeste de Santos se expandiu sobre uma \u00e1rea de manguezal que fica apenas 1,4 metro acima do n\u00edvel do mar. Na d\u00e9cada de 1950, um sistema de drenagem por canais foi instalado na regi\u00e3o para permitir a agricultura. \u00c9 por meio deles que, mesmo a cerca de 15 km da Ponta da Praia, o Mangue Seco se v\u00ea invadido por enchentes quando o n\u00edvel do mar est\u00e1 alto ou a ressaca \u00e9 forte.<\/p>\n<p>\u201cO que chamam de minirressaca l\u00e1 na praia \u00e0s vezes \u00e9 um tsunami aqui\u201d, diz Dyennifer.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2018\/06\/03\/15280619065b145fd20aa41_1528061906_3x2_rt.jpg\" \/><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2018\/06\/03\/15280620095b1460396baaf_1528062009_3x2_rt.jpg\" \/><em>Acima, favela do Mangue Seco, na zona noroeste de Santos, que foi alvo de estudos sobre adapta\u00e7\u00e3o a mudan\u00e7as clim\u00e1ticas; abaixo, Dyennifer Silva em frente ao seu barraco &#8211;\u00a0Lalo de Almeida\/Folhapress<\/em><\/p>\n<p>Enquanto anda pelas ruelas da comunidade, equilibrando-se em t\u00e1buas de madeira com v\u00e3os grandes o bastante para se ver o esgoto que corre abaixo, ela cumprimenta vizinhos e familiares \u2013s\u00e3o cinco filhos biol\u00f3gicos e uns 12 ou 13 \u201cde cora\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Ela, sua irm\u00e3 Jane Maria Vieira, 50, e outras dez mulheres s\u00e3o l\u00edderes da associa\u00e7\u00e3o de moradores da comunidade, que pressiona a Prefeitura de Santos por casas populares.<\/p>\n<p>Enquanto a morada de alvenaria n\u00e3o vem, a vizinhan\u00e7a toda vai elevando as casas e adaptando-as \u00e0s enchentes mais frequentes e mais altas.<\/p>\n<p>Para fugir da \u00e1gua, furam o piso para fixar atrav\u00e9s deles novos pilares que sustentam as casas com peda\u00e7os de madeira mais compridos. Fincam o novo suporte do barraco no meio de pneus velhos de caminh\u00f5es que jogam sobre o lodo na mar\u00e9 baixa e enchem com entulho, areia e brita, na tentativa de estabiliz\u00e1-los. Uma engenharia \u201cdigna da Nasa\u201d, diz Jane.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/c1.staticflickr.com\/1\/835\/42496897054_9939caafdd_o.jpg\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/c1.staticflickr.com\/1\/835\/42496897054_8a07dd4384_b.jpg\" \/><\/a><\/p>\n<p>\u201cA gente quer um lugar bom pra n\u00e3o se preocupar com ressaca, mar\u00e9 alta, vento, inc\u00eandio. Tem gente que olha com pena, acham que a gente est\u00e1 aqui porque quer. Mas s\u00e3o muitos desempregados que n\u00e3o t\u00eam como pagar aluguel.\u201d<\/p>\n<p>\u00c9 o caso de Ant\u00f4nio Roberto da Silva, 65, o Seu Toninho, e tamb\u00e9m de Bruno da Silva Ara\u00fajo, 28. Vizinhos, est\u00e3o sem emprego e ganham a vida fazendo bicos. As duas casas, no fim da ruela, j\u00e1 \u00e0 beira de um largo, chamam a aten\u00e7\u00e3o. A de Seu Toninho est\u00e1 inclinada, com a parte de tr\u00e1s afundada. A de Bruno, muito mais baixa que as outras, quase encosta na \u00e1gua.<\/p>\n<p>\u201cJ\u00e1 subi um metro e meio, depois mais uns 90 cent\u00edmetros, mas vou ter de subir de novo. Quando der ressaca a \u00e1gua vai entrar com tudo\u201d, diz Bruno.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2018\/06\/03\/15280620595b14606bf3176_1528062059_3x2_rt.jpg\" \/><em>Ant\u00f4nio Silva, conhecido como Seu Toninho, aponta para a \u00e1gua do mar da janela de sua palafita que est\u00e1 inclinada na favela do Mangue Seco, em Santos &#8211;\u00a0Lalo de Almeida\/Folhapress<\/em><\/p>\n<p>A temporada de ressacas vai de abril a setembro. \u00c9 nesse per\u00edodo que os ciclones extratropicais formados entre a Argentina e o Rio Grande do Sul avan\u00e7am para o Sudeste do Brasil, gerando ondas de muita energia e grande eleva\u00e7\u00e3o do n\u00edvel do mar.<\/p>\n<p>Ressacas s\u00e3o um fen\u00f4meno natural, ressalta o f\u00edsico e meteorologista Jos\u00e9 Marengo, coordenador-geral de pesquisa e desenvolvimento do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden).<\/p>\n<p>Mas, com o aquecimento global, elas ficam mais frequentes e intensas. O calor da \u00e1gua do mar aumenta a for\u00e7a dos ventos que, por sua vez, geram ondas maiores que batem mais alto na infraestrutura da cidade. Essas ondas tamb\u00e9m chegam mais longe com o aumento do n\u00edvel do mar, causado pelo derretimento de geleiras e a expans\u00e3o de volume de \u00e1guas aquecidas.<\/p>\n<p>No mundo todo, o n\u00edvel do mar subiu 1,7 mm ao ano no s\u00e9culo passado, segundo o IPCC (painel de mudan\u00e7as clim\u00e1ticas da ONU). Em Santos, dados do mar\u00e9grafo do porto apontam uma alta de 1,2 mm ao ano nas \u00faltimas tr\u00eas d\u00e9cadas, totalizando 3,6 cm, com tend\u00eancia de alta na \u00faltima d\u00e9cada. Fatores como padr\u00f5es de circula\u00e7\u00e3o oce\u00e2nica e a subsid\u00eancia do solo, ou seja, o quanto ele afunda, influenciam na medi\u00e7\u00e3o do n\u00edvel do mar e ajudam a explicar a taxa menor que a m\u00e9dia mundial.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/SO0-9INY8Go\" width=\"600\" height=\"400\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n<p>No futuro, por\u00e9m, esse aumento pode ser de 18 a 23 cent\u00edmetros at\u00e9 2050 e de 36 a 45 cent\u00edmetros at\u00e9 2100, como concluiu o Projeto Metr\u00f3pole.<\/p>\n<p>Coordenado por Marengo e apoiado pela Fapesp (Funda\u00e7\u00e3o de Amparo \u00e0 Pesquisa do Estado de S\u00e3o Paulo), o projeto avaliou, de 2013 a 2017, a capacidade de adapta\u00e7\u00e3o \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas de tr\u00eas cidades costeiras: Broward, na Fl\u00f3rida (EUA), Selsey, no Reino Unido, e Santos.<\/p>\n<p>Na cidade brasileira, os alvos dos estudos foram a tur\u00edstica Ponta da Praia, a \u00faltima para quem vai do centro da cidade ao porto, e a empobrecida zona noroeste, onde fica o Mangue Seco. Os dois bairros, apesar das realidades sociais contrastantes, s\u00e3o fisicamente vulner\u00e1veis ao aumento de n\u00edvel do mar e a eventos extremos, como ressacas fortes, e j\u00e1 sofrem os impactos da mudan\u00e7a clim\u00e1tica, diz Marengo.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/c2.staticflickr.com\/2\/1782\/43215795331_2e7dc2f321_b.jpg\" \/><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/c2.staticflickr.com\/2\/1789\/42311186405_3b964214c9_o.jpg\" \/><\/p>\n<p>De frente para o mar, o edif\u00edcio Enseada, obra do arquiteto Jo\u00e3o Artacho Jurado (1907-1983), \u00e9 um dos alvos preferidos das ressacas na Ponta da Praia. Na pior j\u00e1 registrada na cidade, em 2005, o carro da microempres\u00e1ria Patricia Castaldino Amado, 41, ficou totalmente debaixo d\u2019\u00e1gua no estacionamento subterr\u00e2neo, junto com outros oito ve\u00edculos.<\/p>\n<p>Depois do epis\u00f3dio, o pr\u00e9dio instalou um alarme antirressaca, que \u00e9 acionado pelo porteiro de servi\u00e7o. Todas as sextas-feiras, \u00e0s 11h, o aviso sonoro, alt\u00edssimo, passa por um teste.<\/p>\n<p>Numa madrugada de abril de 2016, veio uma ressaca brava e o alarme funcionou como esperado. Patricia, por\u00e9m, n\u00e3o acordou de imediato. Foi uma das \u00faltimas a tirar o carro da garagem. Com a \u00e1gua j\u00e1 alta na avenida, o motor pifou.<\/p>\n<p>\u201cAgora n\u00e3o tenho mais carro, s\u00f3 ando de Uber. Quem mora na beira do mar tem que se adaptar, n\u00e9?\u201d<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2018\/06\/11\/15287506435b1ee2334f0e4_1528750643_3x2_rt.jpg\" \/><em>Morador pesca em barreira de pedras na Ponta da Praia, em Santos, em frente ao edif\u00edcio Enseada, projeto do arquiteto Artacho Jurado &#8211;\u00a0Lalo de Almeida\/Folhapress<\/em><\/p>\n<p>Celia Regina de Gouveia Souza, pesquisadora do Instituto Geol\u00f3gico do Estado de S\u00e3o Paulo e participante do Projeto Metr\u00f3pole, mant\u00e9m um banco de dados de ressacas em Santos e observou um salto a partir do final da d\u00e9cada de 1990.<\/p>\n<p>\u201cAs d\u00e9cadas de 2000 e 2010 j\u00e1 tiveram mais ressacas do que o \u00faltimo s\u00e9culo todo\u201d, diz ela. Em 2010, foram registrados 15 eventos do tipo, contra um m\u00e1ximo de 4 por ano entre 1960 e in\u00edcio dos anos de 1990.<\/p>\n<p>Adaptar a Ponta da Praia e a zona noroeste de Santos \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas custaria, no m\u00ednimo, R$\u00a0300 milh\u00f5es, segundo o Projeto Metr\u00f3pole. O valor inclui obras sugeridas pela popula\u00e7\u00e3o, como recupera\u00e7\u00e3o do manguezal da zona noroeste, constru\u00e7\u00e3o de muros antirressaca na Ponta da Praia e melhorias no sistema de comportas e esta\u00e7\u00f5es de bombeamento.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/c2.staticflickr.com\/2\/1781\/42496897314_670d86d582_b.jpg\" \/><\/p>\n<p>N\u00e3o fazer nada, por\u00e9m, pode consumir pelo menos R$\u00a01,2 bilh\u00e3o. A cifra \u00e9 conservadora porque leva em conta, no c\u00e1lculo de perdas, apenas o valor venal de im\u00f3veis valorizados, de frente para o mar.<\/p>\n<p>\u201cUma parte importante do projeto \u00e9 a percep\u00e7\u00e3o de que h\u00e1 um problema e o que pode ser feito para resolv\u00ea-lo. A pesquisa n\u00e3o descobriu a p\u00f3lvora, mas deu o chute inicial para a popula\u00e7\u00e3o pensar em adapta\u00e7\u00e3o\u201d, diz Marengo.<\/p>\n<p>\u201cO pior que poderia ter acontecido era aparecer algu\u00e9m dizendo que mudan\u00e7a clim\u00e1tica era mentira, coisa de cientista louco, ou a prefeitura dizer que n\u00e3o tinha nada a ver com isso. Pelo contr\u00e1rio, tivemos total apoio e n\u00e3o ter\u00edamos conseguido fazer os estudos de outra forma. Agora \u00e9 com eles.\u201d<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/uQaRDsNNdYY\" width=\"600\" height=\"400\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2018\/06\/03\/15280621675b1460d73abda_1528062167_3x2_rt.jpg\" \/><em>Acima, barcos de mergulhadores pr\u00f3ximos de barreira submersa com sacos de areia em Santos, para conter a eros\u00e3o marinha; abaixo, profissional trabalha no local &#8211;\u00a0Lalo de Almeida\/Folhapress<\/em><\/p>\n<p>A instala\u00e7\u00e3o de uma fileira de 49 sacos gigantescos de areia dentro do mar na Ponta da Praia, como forma de minimizar a for\u00e7a das ressacas e conter a eros\u00e3o costeira grave na regi\u00e3o, j\u00e1 \u00e9 uma resposta, diz Marengo.<\/p>\n<p>Esse trecho est\u00e1 desaparecendo e perdendo faixa de areia. Trampolins, campos de futebol e postes de luz de d\u00e9cadas atr\u00e1s j\u00e1 n\u00e3o existem mais.<\/p>\n<p>Com menos areia, as ondas atingem a praia e a avenida com mais viol\u00eancia. As ressacas, por sua vez, levam embora a pouca areia que sobrou na orla j\u00e1 fragilizada.<\/p>\n<p>As causas da eros\u00e3o da Ponta da Praia tamb\u00e9m resultam de obras humanas. Segundo Celia Souza, do Instituto Geol\u00f3gico, o problema se agrava desde a d\u00e9cada de 1930, quando a avenida \u00e0 beira-mar foi constru\u00edda em cima da praia. O emiss\u00e1rio submarino de esgotos e as estruturas de apoio n\u00e1utico tamb\u00e9m tiveram impacto.<\/p>\n<div class=\"mosaic\"><\/div>\n<div class=\"mosaic\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2018\/06\/11\/15287631645b1f131cebad2_1528763164_3x2_rt.jpg\" alt=\"\u00c3\u0080 esquerda, embarca\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o auxilia constru\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o de barreira submersa em Santos para evitar a eros\u00c3\u00a3o marinha\" \/><\/div>\n<div class=\"mosaic\"><\/div>\n<div class=\"mosaic\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2018\/06\/11\/15287631165b1f12ecca567_1528763116_3x2_rt.jpg\" alt=\"\u00c3\u00a0 direita, caminh\u00c3\u00a3o descarrega areia para a obra\" \/>\u00a0<em>\u00c0 esquerda, embarca\u00e7\u00e3o auxilia constru\u00e7\u00e3o de barreira submersa em Santos para evitar a eros\u00e3o marinha; \u00e0 direita, caminh\u00e3o descarrega areia para a obra\u00a0&#8211; Lalo de Almeida\/Folhapress<\/em><\/div>\n<div class=\"mosaic\"><\/div>\n<div class=\"mosaic\">\n<p>A Ponta da Praia s\u00f3 n\u00e3o sumiu de vez por algumas raz\u00f5es. Em primeiro lugar, h\u00e1 d\u00e9cadas a prefeitura a recomp\u00f5e com areia que as correntes mar\u00edtimas levam, no sentido oeste, para os canais 1, 2 e 3, onde a praia \u00e9 mais larga. Al\u00e9m disso, a cidade \u00e9 uma esp\u00e9cie de armadilha de areia que vem de Praia Grande, Peru\u00edbe e Itanha\u00e9m e acaba parando na ba\u00eda de Santos. A \u00e1gua que sai do emiss\u00e1rio submarino e do canal de drenagem n\u00famero 6 tamb\u00e9m atrapalha a a\u00e7\u00e3o das correntes que levam a areia da praia para alto mar. E, por fim, destro\u00e7os de um navio que encalhou h\u00e1 d\u00e9cadas na Ponta da Praia tamb\u00e9m ajudam a fixar a areia por ali.<\/p>\n<p>Desde 2010, a eros\u00e3o piorou ainda mais por causa do alargamento e aprofundamento do canal de navega\u00e7\u00e3o do porto. A dragagem teria contribu\u00eddo para o aumento da energia das ondas, segundo admitiu a Codesp (Companhia Docas do Estado de S\u00e3o Paulo) em acordo assinado com o Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal em dezembro de 2017.<\/p>\n<p>A Codesp se comprometeu a adotar medidas para recupera\u00e7\u00e3o, mitiga\u00e7\u00e3o e preven\u00e7\u00e3o dos efeitos da eros\u00e3o costeira nas praias da ba\u00eda de Santos. O acordo explicita que a obra n\u00e3o poderia ser r\u00edgida, permitindo f\u00e1cil revers\u00e3o ou adapta\u00e7\u00e3o em caso de falha, e cita os grandes sacos de areia, chamados de \u201cgeobags\u201d, como op\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/c2.staticflickr.com\/2\/1767\/42311186665_027b1b0dd4_o.jpg\" \/><\/p>\n<p>A estrutura, in\u00e9dita no pa\u00eds, j\u00e1 tinha sido testada na Austr\u00e1lia, no M\u00e9xico e na Coreia do Sul. Foi sugerida por Tiago Zanker Girelli, professor da Unicamp que trabalha com engenharia costeira, e seus colegas, como contraproposta a uma ideia da prefeitura de construir um quebra-mar com pelo menos 4 m ou 5 m acima do mar, do canal do porto ao canal 4.<\/p>\n<p>\u201cAchamos o pared\u00e3o muito impactante. Poderia acabar com o problema de ressacas, mas ia acabar tamb\u00e9m com a praia como o santista a conhece.\u201d<\/p>\n<p>A implanta\u00e7\u00e3o desse recife artificial constru\u00eddo com \u201cgeobags\u201d terminou em abril, bem a tempo da temporada de ressacas. Custou cerca de R$\u00a03 milh\u00f5es, dinheiro todo do acordo entre Codesp e Procuradoria. \u201cSe der certo, a gente amplia. Se der errado, \u00e9 s\u00f3 rasgar os bags e devolver a areia que est\u00e1 neles para a praia\u201d, diz Girelli.<\/p>\n<p>J\u00e1 h\u00e1 ind\u00edcios de que n\u00e3o ser\u00e1 preciso. A interven\u00e7\u00e3o est\u00e1 acumulando areia, um \u00f3timo sinal, segundo Girelli. Mas ainda n\u00e3o \u00e9 hora de comemorar: \u201cPrecisamos ver se a estrutura vai sobreviver \u00e0 temporada de ressacas. Pode ser que venha uma grande como a de 2016 e leve tudo\u201d.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2018\/06\/03\/15280623105b1461660c817_1528062310_3x2_rt.jpg\" \/><em>Os pesquisadores Tiago Girelli (\u00e0 esq.) e Ricardo Campos fazem medi\u00e7\u00f5es para estudar impactos da constru\u00e7\u00e3o de uma barreira cujo objetivo \u00e9 conter a eros\u00e3o marinha em Santos &#8211;\u00a0Lalo de Almeida\/Folhapress<\/em><\/p>\n<p>S\u00f3 em fevereiro do ano que vem ser\u00e1 poss\u00edvel responder \u00e0s seguintes quest\u00f5es: os bags conseguir\u00e3o reter a areia e engordar a praia, especialmente quando houver ressacas? Ou as ressacas v\u00e3o seguir roubando areia para o canal do porto sem nunca mais voltar?<\/p>\n<p>A equipe de Girelli segue monitorando n\u00e3o s\u00f3 a Ponta da Praia, mas tamb\u00e9m as faixas de areia vizinhas. \u201cN\u00e3o adianta cobrir um santo e descobrir o outro\u201d, diz. Eles tamb\u00e9m tentam projetar como se dar\u00e1 o uso dos bags no futuro, diante da tend\u00eancia de alta nas ressacas. \u201cSer\u00e1 que continuar\u00e3o funcionando com ondas mais altas? Precisaremos ench\u00ea-los com mais areia?\u201d<\/p>\n<p>A microempres\u00e1ria Patricia Amado, que mora em frente \u00e0 obra, conta que j\u00e1 ouviu muita gente dizer que at\u00e9 2020 o mar j\u00e1 teria tomado toda a praia. \u201cAt\u00e9 agora n\u00e3o tomou, mas a praia aonde eu levava o meu filho para brincar h\u00e1 15 anos j\u00e1 n\u00e3o existe mais. N\u00e3o sei se daqui a 40 anos ainda vai ter praia em Santos.\u201d<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2018\/06\/03\/15280623515b14618f687b8_1528062351_3x2_rt.jpg\" \/><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2018\/06\/03\/15280624195b1461d3a47c8_1528062419_3x2_rt.jpg\" \/><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2018\/06\/03\/15280624615b1461fde495e_1528062461_3x2_rt.jpg\" \/><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2018\/06\/03\/15280626525b1462bc26c1d_1528062652_3x2_rt.jpg\" \/><em>Entulhos de constru\u00e7\u00f5es que foram destru\u00eddas pelo mar e parcialmente cobertos pela areia em Ilha Comprida, no litoral sul de S\u00e3o Paulo; abaixo, morador caminha no local &#8211;\u00a0Lalo de Almeida\/Folhapress<\/em><\/p>\n<p>Desde 1992, a ge\u00f3loga Celia Souza monitora a eros\u00e3o das praias do litoral de S\u00e3o Paulo. A cada cinco anos, atualiza um mapa din\u00e2mico de risco.<\/p>\n<p>As praias urbanas com risco muito alto de eros\u00e3o t\u00eam grande chance de sumir, diz ela. Ainda mais com eleva\u00e7\u00e3o de n\u00edvel do mar, com mais eventos extremos e com obras de urbaniza\u00e7\u00e3o inadequadas que invadem as praias e roubam areia.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/c2.staticflickr.com\/2\/1783\/42496897544_e82907d81a_o.jpg\" \/><\/p>\n<p>\u201cCada vez que visito essas \u00e1reas vejo uma imagem diferente. Sempre uma imagem de destrui\u00e7\u00e3o, mas sempre diferente\u201d, diz. Em cada uma delas, busca as causas da eros\u00e3o cr\u00f4nica para poder avaliar as melhores medidas de recupera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em Ilha Comprida e na Praia do Leste, em Iguape, no litoral sul de S\u00e3o Paulo, restos de casas est\u00e3o espalhadas por grande parte das orlas, como se por ali tivesse passado um furac\u00e3o. Foram constru\u00eddas a quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia da \u00e1gua, mas o mar as alcan\u00e7ou.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2018\/06\/03\/15280625535b146259e8ae1_1528062553_3x2_rt.jpg\" \/><em>Pescadores recolhem barco ao lado de \u00e1rvore que fazia parte de um jardim de uma casa que foi engolida pelo mar em Ilha Comprida (SP) &#8211;\u00a0Lalo de Almeida\/Folhapress<\/em><\/p>\n<p>O processo na regi\u00e3o, diz Souza, \u00e9 diferente do de Santos. O cen\u00e1rio \u00e9 natural, pouco modificado pelo homem. \u201cH\u00e1 um jogo de empurra-empurra de din\u00e2micas costeiras inst\u00e1veis e imprevis\u00edveis, com muita coisa em jogo. \u00c9 mar, rio, laguna, chuva, onda, eventos extremos\u201d, diz. \u201cQuando cresce areia, todo mundo cresce os olhos e faz casa. Quando erode, vai tudo embora.\u201d<\/p>\n<p>O contador aposentado Albino Souza, 70, comprou uma casa na Praia do Leste em 1998. \u201cFiquei uns anos sem vir. Quando cheguei em 2010, ela estava ali, dentro do mar\u201d, diz ele, apontando para um ponto 50 metros adiante, ao redor de destro\u00e7os de casas na areia.<\/p>\n<p>Em dezembro, comprou outra casa na Praia do Leste e se mudou de vez, a contragosto dos filhos. \u201cDizem que sou louco, mas aqui n\u00e3o vem ningu\u00e9m e eu gosto do sil\u00eancio. Pra mim, foi um desastre bom.\u201d<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2018\/06\/03\/15280626085b1462904c48c_1528062608_3x2_rt.jpg\" \/><em>Sonia Santos caminha por escombros de sua casa que foi destru\u00edda pelo mar em Ilha Comprida (SP) &#8211;\u00a0Lalo de Almeida\/Folhapress<\/em><\/p>\n<p>A caseira Sonia Maria Santos Carvalho, 57, tamb\u00e9m perdeu moradia para a eros\u00e3o. Foram duas casas \u00e0 beira do mar, das quais ainda se veem os restos.<\/p>\n<p>Na primeira, viveu 12 anos. \u201cN\u00e3o era segura, era s\u00f3 de telha. Quando dava o vento sul, trepidava e a gente sentia um medinho. J\u00e1 tinha hist\u00f3rico [de outras casas arrasadas], mas a minha estava muito longe do mar quando eu vim. Precisei ver pra crer. E a\u00ed aconteceu.\u201d<\/p>\n<p>Na segunda, morou por quatro anos. \u201cEssa deu d\u00f3 de ver cair. Tr\u00eas quartos bons, tudo de laje, uma casa maravilhosa. Quando o mar bateu e estourou os canos, n\u00e3o tinha mais o que fazer.\u201d<\/p>\n<p>Ficou tr\u00eas meses morando de ajuda na casa de conhecidos. Depois foi sorteada para ganhar uma casa popular, dessa vez bem longe do mar.<\/p>\n<p>\u201cAcho que estou protegida por um bom tempo. Dizem que o mar est\u00e1 fechando, que a Ilha Comprida vai sair do mapa. Acho que d\u00e1 tempo de eu subir [aponta pro c\u00e9u] antes que isso aconte\u00e7a. Espero que d\u00ea.\u201d<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2018\/06\/11\/15287507605b1ee2a8621a6_1528750760_3x2_rt.jpg\" \/><em>Homem caminha em meio a ru\u00ednas de uma casa engolida pelo mar na Praia do Leste, em Iguape &#8211;\u00a0Lalo de Almeida\/Folhapress<\/em><\/p>\n<p><b>Texto:<\/b>\u00a0Mariana Versolato e Lalo de Almeida \/<b>\u00a0Imagens:<\/b>\u00a0Lalo de Almeida \/<b>\u00a0Infografia:<\/b>\u00a0Simon Ducroquet \/<b>\u00a0Edi\u00e7\u00e3o de v\u00eddeo:<\/b>\u00a0Victor Parolin \/<b>Edi\u00e7\u00e3o de fotografia:<\/b>\u00a0Daigo Oliva \/<b>\u00a0Edi\u00e7\u00e3o e revis\u00e3o de texto:<\/b>\u00a0Marcelo Leite, Mariana Versolato e Renan Marra \/<b>\u00a0Tratamento de fotografia:<\/b>Edson Sales \/<b>\u00a0Design e desenvolvimento:<\/b>\u00a0Angelo Dias, Pilker, Rubens Alencar e Thiago Almeida \/<b>\u00a0Coordena\u00e7\u00e3o de arte:<\/b>\u00a0Kleber Bonjoan, Thea Severino e Daigo Oliva \/<b>\u00a0Coordena\u00e7\u00e3o geral:<\/b>\u00a0Jos\u00e9 Henrique Mariante e Roberto Dias \/<b>\u00a0Idealiza\u00e7\u00e3o:<\/b>\u00a0Lalo de Almeida e Marcelo Leite<\/p>\n<p>Fonte &#8211;\u00a0Mariana Versolato e\u00a0Lalo de Almeida, <a href=\"https:\/\/arte.folha.uol.com.br\/ciencia\/2018\/crise-do-clima\/litoral-paulista\/no-litoral-de-sp-erosao-come-praias-e-ate-casas-inteiras-obras-buscam-protecao-contra-ressacas-mais-frequentes\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Folha de S. 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