{"id":25044,"date":"2018-08-16T17:00:13","date_gmt":"2018-08-16T20:00:13","guid":{"rendered":"http:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=25044"},"modified":"2018-08-06T15:01:28","modified_gmt":"2018-08-06T18:01:28","slug":"crise-do-clima-cidade-do-cabo-estiagem-e-heranca-do-apartheid-criam-panico-com-torneiras-secas-no-dia-zero-crise-do-clima","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/crise-do-clima-cidade-do-cabo-estiagem-e-heranca-do-apartheid-criam-panico-com-torneiras-secas-no-dia-zero-crise-do-clima\/","title":{"rendered":"Crise do clima &#8211; Cidade do Cabo &#8211; Estiagem e heran\u00e7a do apartheid criam p\u00e2nico com torneiras secas no Dia Zero  crise do clima"},"content":{"rendered":"<p><em>Ventania levanta areia do leito seco da represa Theewaterskloof, respons\u00e1vel por grande parte do abastecimento de \u00e1gua da Cidade do Cabo, na \u00c1frica do Sul &#8211;\u00a0<span class=\"caption__credit caption__credit_white\">Lalo de Almeida\/Folhapress<\/span><\/em><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/iDjQpuoqess\" width=\"600\" height=\"400\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n<p><span class=\"origin\">PROV\u00cdNCIA DO CABO OCIDENTAL &#8211;\u00a0<\/span>No primeiro domingo de maio (6), uma centena de moradores da Cidade do Cabo aguardava em duas filas ordeiras a vez de encher gal\u00f5es de \u00e1gua na cervejaria SAB. Naquela manh\u00e3 ensolarada, pessoas de todas as cores pareciam pouco convencidas de que o fantasma do Dia Zero tivesse sido exorcizado em definitivo com a chegada da esta\u00e7\u00e3o de chuvas.<\/p>\n<p>A empresa instalara v\u00e1rias torneiras na fonte tradicional, localizada no bairro abastado de Newlands. Mesmo com \u00e1gua em casa, era como se todos quisessem manter-se em forma para as medidas dr\u00e1sticas que o governo municipal decretaria no Dia Z: corte do fornecimento para domic\u00edlios, obrigando os \u201ccapetonians\u201d a buscar sua ra\u00e7\u00e3o di\u00e1ria de 25 litros (contra 50 l hoje) em um dos 200 pontos de coleta espalhados pela \u00e1rea metropolitana.<\/p>\n<p>Essa situa\u00e7\u00e3o limite, que frequentara os pesadelos da popula\u00e7\u00e3o nos seis meses anteriores, j\u00e1 havia sido afastada pela prefeitura. Ap\u00f3s adiar sucessivamente a data das torneiras secas, para maio e depois julho e agosto, o vice-prefeito Ian Neilson declarou no in\u00edcio de abril que o armaged\u00e3o h\u00eddrico n\u00e3o viria antes de 2019.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/QYt71DO_78s\" width=\"600\" height=\"40\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n<p>Naquela altura, os moradores j\u00e1 tinham perdido a confian\u00e7a na quantidade e na qualidade da \u00e1gua distribu\u00edda pelo munic\u00edpio. E tamb\u00e9m no governo, com a prefeita Patricia de Lille lutando nos tribunais contra seu afastamento sob uma tempestade de acusa\u00e7\u00f5es de corrup\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Sem contar que o consumo individual continua, ainda hoje, limitado a 50 litros di\u00e1rios por pessoa e que as contas d\u2019\u00e1gua n\u00e3o param de subir.<\/p>\n<p>Patricia Kazaka, gerente de uma empresa de comunica\u00e7\u00e3o, enfrenta seus 15 minutos de fila no p\u00e1tio da cervejaria segurando seus dois filhos pequenos pelas m\u00e3os enquanto outro, mais velho, ajuda com os cinco vasilhames de 5 l cada. Ela faz a peregrina\u00e7\u00e3o \u00e0 fonte todos os domingos depois da igreja, desde fevereiro, para garantir \u00e1gua de qualidade para a fam\u00edlia.<\/p>\n<p>\u201cHouve alguns incidentes em que pessoas beberam \u00e1gua da torneira de casa e ficaram doentes\u201d, diz a gerente. A prefeitura soltou um comunicado dizendo que a \u00e1gua era segura, mas anunciou tamb\u00e9m que estava conduzindo alguns testes, conta.<\/p>\n<p>\u201cIsso nos assustou um pouco. Talvez a gente devesse come\u00e7ar a comprar \u00e1gua, mas a\u00ed cada garrafa custa um pouco mais de dinheiro, e percebemos que poder\u00edamos conseguir nossa \u00e1gua de gra\u00e7a [na fonte].\u201d<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2018\/06\/04\/15281441135b15a0f16fc04_1528144113_3x2_rt.jpg\" \/><em>Popula\u00e7\u00e3o enfrenta fila para abastecer seus gal\u00f5es vazios na fonte p\u00fablica de Springsway, na Cidade do Cabo, \u00c1frica do Sul; local atrai muitos mu\u00e7ulmanos &#8211;\u00a0Lalo de Almeida\/Folhapress<\/em><\/p>\n<p>Sua fam\u00edlia mora numa casa com jardim, mas n\u00e3o pode mais reg\u00e1-lo. A conta mensal, que ficava entre 800 e 1.200 rands (cerca de R$\u00a0240 a R$\u00a0360), dobrou.<\/p>\n<p>\u201cAcho que a campanha do Dia Zero foi necess\u00e1ria, porque, se n\u00e3o fosse por ela, muitos de n\u00f3s provavelmente n\u00e3o come\u00e7ar\u00edamos a nos dar conta de como \u00e9 importante economizar \u00e1gua, ensinar \u00e0s nossas crian\u00e7as quando dar a descarga.\u201d<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/c1.staticflickr.com\/1\/837\/42495850614_2f362ace77_o.jpg\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/c1.staticflickr.com\/1\/837\/42495850614_2f362ace77_o.jpg\" \/><\/a><\/p>\n<p>V\u00e1rios metros atr\u00e1s dela, a antrop\u00f3loga e professora de ioga Kate Ferguson afirma que pretende continuar a vir at\u00e9 a fonte mesmo que as autoridades anunciem que as represas se encheram de novo. Ela buscava apenas 15 l, mas diz que vem com frequ\u00eancia e tem sempre recipientes no carro para manter altos os estoques de \u00e1gua confi\u00e1vel.<\/p>\n<p>\u201cQueremos tirar a press\u00e3o do abastecimento da cidade. Quanto mais pessoas vierem para pegar \u00e1gua de beber e de cozinhar, melhor.\u201d Ferguson considera positiva a campanha do Dia Zero: \u201cDe certa maneira, foi muito esperta. Trouxe consci\u00eancia para as pessoas de como a \u00e1gua \u00e9 um recurso escasso, especialmente aqui no Cabo Ocidental\u201d.<\/p>\n<p>Por outro lado, ela acha que \u00e1gua \u00e9 um direito humano b\u00e1sico, e se queixa de n\u00e3o haver muita press\u00e3o sobre setores como a ind\u00fastria da carne, que a consome muito. \u201cA moralidade de como nossos l\u00edderes lidam com as coisas fica em quest\u00e3o. Eles instilam medo [nas pessoas] sobre um direito b\u00e1sico do cidad\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2018\/05\/29\/15276152775b0d8f2d4523b_1527615277_3x2_rt.jpg\" \/><em>Morador da Cidade do Cabo caminha em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 fonte p\u00fablica no bairro de classe m\u00e9dia alta de Newlands para abastecer com \u00e1gua seus gal\u00f5es vazios &#8211;\u00a0Lalo de Almeida\/Folhapress<\/em><\/p>\n<p>A regi\u00e3o da Cidade do Cabo n\u00e3o chega a ser \u00e1rida, mas tem distribui\u00e7\u00e3o muito variada de chuvas num raio de 100 km. Certas partes da \u00e1rea metropolitana recebem menos de 400 mm por ano, compar\u00e1vel \u00e0s piores situa\u00e7\u00f5es do semi\u00e1rido do Nordeste brasileiro, e no ver\u00e3o dependem das reservas mantidas em seis grandes represas.<\/p>\n<p>Os reservat\u00f3rios recebem \u00e1gua das montanhas a leste, onde a precipita\u00e7\u00e3o pode chegar a 2.000 mm\/ano. Mas as chuvas orogr\u00e1ficas (quando o relevo for\u00e7a a condensa\u00e7\u00e3o da umidade) ocorrem s\u00f3 no inverno, mais abundantes em julho e agosto.<\/p>\n<p>De outubro a maio grassa a estiagem t\u00edpica do clima mediterr\u00e2neo. Trata-se de uma exce\u00e7\u00e3o na \u00c1frica do Sul, o que favoreceu a implanta\u00e7\u00e3o de vinhedos no Cabo Ocidental, como nas imedia\u00e7\u00f5es de Stellenbosch e Franschhoek, e tamb\u00e9m de \u00e1rvores frut\u00edferas, em particular ma\u00e7\u00e3s e peras \u2013culturas agora sob amea\u00e7a.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/c2.staticflickr.com\/2\/1784\/42310245795_6ff6e13279_b.jpg\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/c2.staticflickr.com\/2\/1784\/42310245795_6ff6e13279_b.jpg\" \/><\/a><\/p>\n<p>Houve secas severas no passado, separadas por intervalos de mais ou menos quatro d\u00e9cadas, mas nenhuma que se compare \u00e0 dos \u00faltimos tr\u00eas anos. Pelos c\u00e1lculos do hidroclimatologista Piotr Wolski, da Universidade da Cidade do Cabo, um tal evento s\u00f3 se repetiria de 300 em 300 anos, ou mais.<\/p>\n<p>O especialista n\u00e3o est\u00e1 seguro de que a estiagem sem precedentes seja fruto de impacto direto da mudan\u00e7a do clima pelo aquecimento global. Ele v\u00ea \u201cum desvio forte\u201d das condi\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas normais, que parece refor\u00e7ar uma tend\u00eancia de decl\u00ednio na precipita\u00e7\u00e3o observada nos \u00faltimos 40 anos.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/4qNZ00m2bjM\" width=\"600\" height=\"400\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n<figure id=\"photo-1-14\" class=\"text--photo \"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2018\/05\/29\/15276153115b0d8f4fc3e0a_1527615311_3x2_rt.jpg\" alt=\"\" data-src=\"{&quot;img940&quot;:&quot;https:\/\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2018\/05\/29\/15276153115b0d8f4fc3e0a_1527615311_3x2_rt.jpg&quot;,&quot;img620&quot;:&quot;https:\/\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2018\/05\/29\/15276153115b0d8f4fc3e0a_1527615311_3x2_sm.jpg&quot;}\" \/><figcaption><em>Filete de \u00e1gua contrasta com paisagem seca da represa Theewaterskloof, a principal da prov\u00edncia do Cabo Ocidental &#8211;\u00a0Lalo de Almeida\/Folhapress<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>Quando se consideram os dados de 100 anos, por\u00e9m, nenhuma tend\u00eancia clara pode ser identificada. \u201cOs resultados n\u00e3o s\u00e3o robustos, nesta altura. Talvez num par de meses n\u00f3s tenhamos melhores resultados\u201d, prev\u00ea Wolski.<\/p>\n<p>Seu palpite \u00e9 que a mudan\u00e7a clim\u00e1tica contribuiu para a seca extrema, mas que for\u00e7a prim\u00e1ria \u00e0 qual se somou ainda seria a variabilidade natural do clima no Cabo Ocidental. \u201c\u00c9 uma mensagem [vaga] muito dif\u00edcil de oferecer, porque o mundo todo est\u00e1 olhando para a Cidade do Cabo, cientistas do clima e negacionistas [da mudan\u00e7a] do clima\u201d, lamenta.<\/p>\n<p>No in\u00edcio de 2017, quando a seca j\u00e1 era evidente, pesquisadores se reuniram para fazer uma recomenda\u00e7\u00e3o ao governo municipal, mas n\u00e3o conseguiram chegar a uma previs\u00e3o segura para a esta\u00e7\u00e3o chuvosa. Limitaram-se a aconselhar uma conduta conservadora, de avers\u00e3o ao risco.<\/p>\n<p>Na incerteza, a prefeitura n\u00e3o fez muita coisa. No final do ano passado o estado periclitante dos reservat\u00f3rios mostrou que os cientistas estavam certos em recomendar o m\u00e1ximo de prud\u00eancia. Foi quando se come\u00e7ou a falar em Dia Zero.<\/p>\n<figure id=\"photo-1-4\" class=\"text--photo \"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2018\/05\/29\/15276153825b0d8f9688ae7_1527615382_3x2_rt.jpg\" alt=\"\" data-src=\"{&quot;img940&quot;:&quot;https:\/\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2018\/05\/29\/15276153825b0d8f9688ae7_1527615382_3x2_rt.jpg&quot;,&quot;img620&quot;:&quot;https:\/\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2018\/05\/29\/15276153825b0d8f9688ae7_1527615382_3x2_sm.jpg&quot;}\" \/><figcaption><em>Ponte sobre o leito da represa Theewaterskloof, uma das seis respons\u00e1veis pelo abastecimento da Cidade do Cabo; munic\u00edpio n\u00e3o est\u00e1 totalmente livre de um Dia Zero &#8211;\u00a0Lalo de Almeida\/Folhapress<\/em><\/figcaption><figcaption><\/figcaption><\/figure>\n<p>No ver\u00e3o 2016\/17, o n\u00edvel das represas despencava \u00e0 taxa de 1,5% por semana. A prefeitura estabeleceu o limiar de 13,5% de reserva\u00e7\u00e3o como gatilho para declarar o Dia Zero, e seus primeiros c\u00e1lculos indicavam que ele cairia em abril.<\/p>\n<p>Uma cidade que consumia 1,2 bilh\u00e3o de litros por dia (l\/d) viu sua aloca\u00e7\u00e3o reduzida para 480 milh\u00f5es de l\/d pelo governo nacional. Com a campanha alarmista, um aumento de tarifas e a amea\u00e7a das torneiras secas, conseguiu cortar o uso para 505 milh\u00f5es de l\/d, ainda acima da meta de chegar a 450 milh\u00f5es.<\/p>\n<p>Fixou-se a cota de 50 litros di\u00e1rios por pessoa (menos de um ter\u00e7o do que consumia um paulista em 2016, 166 l\/d, ap\u00f3s a crise h\u00eddrica na regi\u00e3o metropolitana de S\u00e3o Paulo). Cartazes recomendavam dar menos descargas nos vasos sanit\u00e1rios, reservando-as para dejetos s\u00f3lidos, tomar banho com esponja ou at\u00e9 suspend\u00ea-lo uma vez por semana, e assim por diante.<\/p>\n<p>Come\u00e7ou tamb\u00e9m o corre-corre para ampliar a capta\u00e7\u00e3o de \u00e1gua, com a perfura\u00e7\u00e3o de po\u00e7os artesianos e a constru\u00e7\u00e3o de quatro usinas de dessaliniza\u00e7\u00e3o, mas estas s\u00f3 ficam prontas agora, em junho. De todo modo, elas agregariam, quando muito, 20 milh\u00f5es de l\/d, contra 150 milh\u00f5es de l\/d dos aqu\u00edferos.<\/p>\n<figure id=\"photo-1-5\" class=\"text--photo \"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2018\/05\/31\/15278072965b107d4028caf_1527807296_3x2_rt.jpg\" alt=\"\" data-src=\"{&quot;img940&quot;:&quot;https:\/\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2018\/05\/31\/15278072965b107d4028caf_1527807296_3x2_rt.jpg&quot;,&quot;img620&quot;:&quot;https:\/\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2018\/05\/31\/15278072965b107d4028caf_1527807296_3x2_sm.jpg&quot;}\" \/><figcaption><em>Crian\u00e7a brinca com tubo para captar \u00e1gua do mar da usina dessalinizadora de Monwabisi, pr\u00f3xima \u00e0 Cidade do Cabo, na \u00c1frica do Sul &#8211;\u00a0Lalo de Almeida\/Folhapress<\/em><\/figcaption><figcaption><\/figcaption><\/figure>\n<p>Ian Neilson, vice-prefeito encarregado de domar a crise, repele a acusa\u00e7\u00e3o de que o governo teria falhado em preveni-la. At\u00e9 aqui, justifica, a Cidade do Cabo vinha se valendo das \u00e1guas de superf\u00edcie e isso funcionou bem, mesmo com secas graves no passado \u2013as represas sempre se enchiam de novo.<\/p>\n<p>\u201cEntend\u00edamos de maneira geral que uma mudan\u00e7a [clim\u00e1tica] estava ocorrendo e que seria necess\u00e1ria uma adapta\u00e7\u00e3o\u201d, afirma. \u201cO que n\u00e3o previmos foi qu\u00e3o rapidamente ela viria.\u201d<\/p>\n<p>Todas as proje\u00e7\u00f5es, alega Neilson, indicavam que a amplia\u00e7\u00e3o das fontes de capta\u00e7\u00e3o seria necess\u00e1ria s\u00f3 na d\u00e9cada de 2020. Agora, ap\u00f3s tr\u00eas anos de estiagem, dois dos quais os piores j\u00e1 registrados, ele se convenceu de que a cidade est\u00e1 diante de uma nova realidade.<\/p>\n<p>\u201cEsta \u00e9 a mensagem que as cidades mundo afora precisam entender: quando a mudan\u00e7a acontece, ela pode vir de modo muito r\u00e1pido e severo. H\u00e1 que se preparar previamente, e n\u00e3o presumir um ritmo lento de adapta\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<figure id=\"photo-1-6\" class=\"text--photo \"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2018\/05\/29\/15276154735b0d8ff140168_1527615473_3x2_rt.jpg\" alt=\"\" data-src=\"{&quot;img940&quot;:&quot;https:\/\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2018\/05\/29\/15276154735b0d8ff140168_1527615473_3x2_rt.jpg&quot;,&quot;img620&quot;:&quot;https:\/\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2018\/05\/29\/15276154735b0d8ff140168_1527615473_3x2_sm.jpg&quot;}\" \/><figcaption><em>Trabalhadores colhem ma\u00e7\u00e3s na fazenda Bre\u00ebvlei, no vale Elgin, regi\u00e3o pr\u00f3xima \u00e0 Cidade do Cabo, na \u00c1frica do Sul; agora, a cultura est\u00e1 sob amea\u00e7a devido \u00e0 falta de \u00e1gua &#8211;\u00a0Lalo de Almeida\/Folhapress<\/em><\/figcaption><figcaption><\/figcaption><\/figure>\n<p>O vice-prefeito se queixa de que o Departamento Nacional de \u00c1gua e Saneamento demorou a reduzir a cota de \u00e1gua para irriga\u00e7\u00e3o. A cr\u00edtica tem um fundo pol\u00edtico: a prefeitura est\u00e1 nas m\u00e3os do partido Alian\u00e7a Democr\u00e1tica, de oposi\u00e7\u00e3o ao Congresso Nacional Africano, que ocupa o governo nacional desde 1994, com o fim do apartheid.<\/p>\n<p>A disputa teria atrasado verbas para ampliar a capacidade das represas Vo\u00eblvlei e Berg River, acusa Neilson (o departamento n\u00e3o respondeu ao pedido de entrevista). Por outro lado, o governo nacional imp\u00f4s ao setor agr\u00edcola um corte na aloca\u00e7\u00e3o de \u00e1gua para irriga\u00e7\u00e3o de 60%, ainda mais dr\u00e1stico que o determinado para consumo urbano.<\/p>\n<p>\u201cTemo que o impacto na agricultura tenha sido enorme, e n\u00f3s reconhecemos isso. Ouvi que a ind\u00fastria vin\u00edcola teve algo entre 20% e 40% de redu\u00e7\u00e3o no volume, e isso significou perdas de empregos, como no caso de apanhadores de frutas\u201d, ressalva.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/c1.staticflickr.com\/1\/917\/41404256770_87a95d70e1_o.jpg\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/c1.staticflickr.com\/1\/917\/41404256770_87a95d70e1_o.jpg\" \/><\/a><\/p>\n<p>Danie Loubser, da fazenda Bre\u00ebvlei no vale de Elgin, tem 50 hectares plantados com macieiras. Na primeira semana de maio ele finalizava a colheita da variedade Pink Lady, uma das melhores para exporta\u00e7\u00e3o, que sofreu uma quebra de 15% a 20% com a seca.<\/p>\n<p>A propriedade de Loubser fica no vale banhado pelo rio Palmiet, bem aquinhoado com chuvas. O Palmiet alimenta a represa privada Eikenhof, que contribuiu para adiar em quase tr\u00eas semanas o Dia Zero. As comportas foram abertas para deixar passar 10 bilh\u00f5es de litros al\u00e9m dos 9 a 23 bilh\u00f5es de litros que ela carreia para o sistema p\u00fablico de abastecimento a cada ano.<\/p>\n<p>\u201cFechamos um bom acordo\u201d, avalia Stuart Maxwell, presidente da Associa\u00e7\u00e3o de Usu\u00e1rios de \u00c1gua de Groenland (GWUA, em ingl\u00eas), que construiu Einkenhof. Em contrapartida, o corte para os associados baixou de 60% para 10%.<\/p>\n<figure id=\"photo-1-7\" class=\"text--photo \"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2018\/05\/29\/15276155275b0d9027459fa_1527615527_3x2_rt.jpg\" alt=\"\" data-src=\"{&quot;img940&quot;:&quot;https:\/\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2018\/05\/29\/15276155275b0d9027459fa_1527615527_3x2_rt.jpg&quot;,&quot;img620&quot;:&quot;https:\/\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2018\/05\/29\/15276155275b0d9027459fa_1527615527_3x2_sm.jpg&quot;}\" \/><figcaption><em>Passarela sobre reservat\u00f3rio Eikenhof, controlado por associa\u00e7\u00e3o de fazendeiros e usado para irrigar suas planta\u00e7\u00f5es; em 2018, parte da \u00e1gua da represa foi enviada para abastecer a Cidade do Cabo &#8211;\u00a0Lalo de Almeida\/Folhapress<\/em><\/figcaption><figcaption><\/figcaption><\/figure>\n<p>Em um vale mais adiante, na regi\u00e3o de Worcester, n\u00e3o h\u00e1 uma grande represa como Eikenhof. Vinhedos e frut\u00edferas s\u00e3o arrancados para o plantio de trigo e pastagens destinadas a ovelhas.<\/p>\n<p>A estiagem e a crise agr\u00edcola deixam suas marcas tamb\u00e9m na vila vizinha de Villiersdorp. Na \u201ctownship\u201d (favela habitada por maioria de negros) Station 11, os barracos se multiplicam pela encosta para abrigar desempregados de v\u00e1rias partes.<\/p>\n<p>Esgotos correm por valas abertas. O riacho que desce da montanha est\u00e1 cheio de lixo. A maioria dos moradores tem de buscar \u00e1gua em torneiras comunit\u00e1rias, que podem estar a v\u00e1rias ladeiras de dist\u00e2ncia.<\/p>\n<p>No caminho de volta para a Cidade do Cabo, a rua principal de Franschhoek exibe uma fileira de cartazes em ingl\u00eas, afrikans e xhosa, um deles recomendando o \u201cdomingo sem banho\u201d. A equipe da\u00a0<b>Folha<\/b>estaciona para tirar fotografias das mensagens ao lado de oper\u00e1rios negros que instalam um port\u00e3o, sob a vigil\u00e2ncia de um homem ruivo.<\/p>\n<p>\u201cAproveite a \u00c1frica do Sul antes que ela acabe\u201d, diz o propriet\u00e1rio \u00e0 reportagem. Ele n\u00e3o se refere \u00e0 seca, mas \u00e0 tomada do poder pela maioria negra com o fim do apartheid, \u00e0 qual atribui saques e inc\u00eandios de fazendas, estupros e assassinatos cru\u00e9is.<\/p>\n<p>A maior parte dos produtos agr\u00edcolas s\u00e3o embarcados para o exterior, e n\u00e3o consumidos domesticamente, aponta Richard Pfaff, gerente do programa de \u00e1gua da organiza\u00e7\u00e3o ambientalista EMG (Environment Monitoring Group). Os empregos criados s\u00e3o prec\u00e1rios, e a irriga\u00e7\u00e3o consome \u00e1gua demais diante do escasso benef\u00edcio social.<\/p>\n<p>\u201cExiste hoje um debate pol\u00edtico sobre como a \u00e1gua deveria ser alocada de maneira justa, dado que a maioria da popula\u00e7\u00e3o, que \u00e9 de pessoas negras, est\u00e1 percebendo que h\u00e1 uma distribui\u00e7\u00e3o desigual de \u00e1gua quando se trata de negros e brancos.\u201d<\/p>\n<figure id=\"photo-1-8\" class=\"text--photo \"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2018\/05\/31\/15278071585b107cb614c93_1527807158_3x2_rt.jpg\" alt=\"\" data-src=\"{&quot;img940&quot;:&quot;https:\/\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2018\/05\/31\/15278071585b107cb614c93_1527807158_3x2_rt.jpg&quot;,&quot;img620&quot;:&quot;https:\/\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2018\/05\/31\/15278071585b107cb614c93_1527807158_3x2_sm.jpg&quot;}\" \/><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2018\/05\/31\/15278074045b107dac27bdb_1527807404_3x2_rt.jpg\" alt=\"\" data-src=\"{&quot;img940&quot;:&quot;https:\/\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2018\/05\/31\/15278074045b107dac27bdb_1527807404_3x2_rt.jpg&quot;,&quot;img620&quot;:&quot;https:\/\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2018\/05\/31\/15278074045b107dac27bdb_1527807404_3x2_sm.jpg&quot;}\" \/><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2018\/05\/31\/15278073575b107d7d8dad9_1527807357_3x2_rt.jpg\" alt=\"\" data-src=\"{&quot;img940&quot;:&quot;https:\/\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2018\/05\/31\/15278073575b107d7d8dad9_1527807357_3x2_rt.jpg&quot;,&quot;img620&quot;:&quot;https:\/\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2018\/05\/31\/15278073575b107d7d8dad9_1527807357_3x2_sm.jpg&quot;}\" \/><em>Acima, mulher lava a roupa em torneira comunit\u00e1ria na Station 11, em Villiersdorp; no meio e abaixo, a &#8220;township&#8221; (favela) vista de cima &#8211;\u00a0Lalo de Almeida\/Folhapress<\/em><\/p>\n<p>Pfaff enxerga pontos negativos e positivos na campanha do Dia Zero. O aspecto ruim, diz, foi a manipula\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o, como o adiamento sucessivo da data em que as torneiras secariam, sem maiores explica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Por outro lado, na sua opini\u00e3o, a mensagem dr\u00e1stica teve o poder de elevar a consci\u00eancia da popula\u00e7\u00e3o sobre a mudan\u00e7a do clima, oferecendo-lhes uma imagem muito concreta do que ela pode acarretar.<\/p>\n<p>\u201cO segundo aspecto [positivo] da campanha foi que, numa cidade dividida como a do Cabo, ela representou uma oportunidade para as pessoas se encontrarem e conversarem, para tentar resolver esse problema para al\u00e9m das divis\u00f5es de ra\u00e7a, de classe e de g\u00eanero.\u201d<\/p>\n<p>N\u00e3o muito longe das torneiras da cervejaria SAB, no mesmo bairro Newlands, outra fonte atrai um grupo menor \u00e0 Springsway, uma rua sem sa\u00edda. H\u00e1 um bom n\u00famero de mulheres com os cabelos cobertos e homens com barbas e barretes.<\/p>\n<p>Carregadores se oferecem para arrastar gal\u00f5es de at\u00e9 50 litros em carrinhos, por uns poucos rands. Alguns guardam lugar na fila para poss\u00edveis clientes e burlam a regra de 25 litros por pessoa.<\/p>\n<p>Um mu\u00e7ulmano se irrita e chama a policial que aguarda em um carro de patrulha no in\u00edcio da viela. Pistola no cinto, a agente obriga um rapaz negro a se afastar com os v\u00e1rios gal\u00f5es vazios de uma senhora branca, que volta ao fim da fila.<\/p>\n<p>J\u00e1 se preparando para ir embora, Judy Molokon, mulher negra que vem \u00e0 fonte quinzenalmente, reclama de sua conta d\u2019\u00e1gua, que subiu para 1.400 rands mensais (cerca de R$\u00a0400) numa casa de quatro pessoas.<\/p>\n<p>\u201cTento tanto quanto poss\u00edvel evitar usar \u00e1gua da torneira [em casa]. N\u00e3o podemos arcar com essas tarifas altas\u201d, protesta. \u201cE nem foi culpa nossa. Estamos rezando para a chuva voltar.\u201d<\/p>\n<figure id=\"photo-1-11\" class=\"text--photo \"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2018\/05\/29\/15276157195b0d90e7c8a5a_1527615719_3x2_rt.jpg\" alt=\"\" data-src=\"{&quot;img940&quot;:&quot;https:\/\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2018\/05\/29\/15276157195b0d90e7c8a5a_1527615719_3x2_rt.jpg&quot;,&quot;img620&quot;:&quot;https:\/\/f.i.uol.com.br\/fotografia\/2018\/05\/29\/15276157195b0d90e7c8a5a_1527615719_3x2_sm.jpg&quot;}\" \/><figcaption><em>\u00c1rvores mortas no antigo leito da represa Theewaterskloof, um dos seis grandes reservat\u00f3rios para abastecimento de \u00e1gua da Cidade do Cabo &#8211;\u00a0Lalo de Almeida\/Folhapress<\/em><\/figcaption><figcaption><\/figcaption><\/figure>\n<p><b>Cantareira est\u00e1 com n\u00edvel de \u00e1gua mais baixo do que em maio pr\u00e9-crise de 2014<\/b><\/p>\n<p>O sistema Cantareira se prepara para entrar no per\u00edodo mais seco do ano em situa\u00e7\u00e3o pior do que se encontrava antes da crise da \u00e1gua de 2014. A recomenda\u00e7\u00e3o \u00e9 para que a popula\u00e7\u00e3o evite desperd\u00edcio.<\/p>\n<p>No \u00faltimo dia 31, restavam 453 bilh\u00f5es de litros de \u00e1gua. Em maio de 2013, antes do in\u00edcio da crise, havia 581 bilh\u00f5es de litros para enfrentar o inverno e parte da primavera at\u00e9 a chegada das chuvas.<\/p>\n<p>Como compara\u00e7\u00e3o, no mesmo dia em 2017, o sistema tinha 664 bilh\u00f5es de litros.<\/p>\n<p>Em maio, a chuva acumulada foi de 13,7 mm, um sexto do que costuma chover neste m\u00eas segundo m\u00e9dia hist\u00f3rica.<\/p>\n<p>O Cantareira tem recebido 13,7 metros c\u00fabicos de \u00e1gua por segundo, enquanto a Sabesp distribui 24,4 metros c\u00fabicos por segundo para a popula\u00e7\u00e3o. Ao inv\u00e9s de encher, \u00e9 como se perdesse quase 11 metros c\u00fabicos por segundo, \u00e1gua suficiente para abastecer a zona leste da capital.<\/p>\n<p>Os demais reservat\u00f3rios tamb\u00e9m est\u00e3o com menos \u00e1gua do que estavam em maio de 2013.<\/p>\n<p>A Sabesp afirma que possui um sistema mais robusto, com mais interliga\u00e7\u00f5es e maior capacidade de tratamento de \u00e1gua do que antes da crise h\u00eddrica. Cita a interliga\u00e7\u00e3o Jaguari-Atibainha, que permite transferir \u00e1gua entre duas bacias distintas, e diz que, no sentido do Cantareira, pode enviar at\u00e9 162 bilh\u00f5es de litros de \u00e1gua por ano, volume equivalente a uma represa Guarapiranga cheia.<\/p>\n<p><b>Texto:<\/b>\u00a0Marcelo Leite e Lalo de Almeida \/<b>\u00a0Imagens:<\/b>\u00a0Lalo de Almeida \/<b>\u00a0Infografia:<\/b>\u00a0Simon Ducroquet \/<b>\u00a0Edi\u00e7\u00e3o de v\u00eddeo:<\/b>\u00a0Victor Parolin \/<b>\u00a0Edi\u00e7\u00e3o de fotografia:<\/b>\u00a0Daigo Oliva \/<b>\u00a0Edi\u00e7\u00e3o e revis\u00e3o de texto:<\/b>\u00a0Marcelo Leite, Mariana Versolato e Renan Marra \/<b>\u00a0Tratamento de fotografia:<\/b>\u00a0Edson Sales \/<b>Design e desenvolvimento:<\/b>\u00a0Angelo Dias, Pilker, Rubens Alencar e Thiago Almeida \/<b>\u00a0Coordena\u00e7\u00e3o de arte:<\/b>\u00a0Kleber Bonjoan, Thea Severino e Daigo Oliva \/<b>\u00a0Coordena\u00e7\u00e3o geral:<\/b>\u00a0Jos\u00e9 Henrique Mariante e Roberto Dias \/<b>\u00a0Idealiza\u00e7\u00e3o:<\/b>\u00a0Lalo de Almeida e Marcelo Leite<\/p>\n<p>Fonte &#8211; Folha de S. 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