{"id":25072,"date":"2018-07-06T15:00:36","date_gmt":"2018-07-06T18:00:36","guid":{"rendered":"http:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=25072"},"modified":"2018-07-05T17:49:34","modified_gmt":"2018-07-05T20:49:34","slug":"as-sequelas-dos-agrotoxicos-para-trabalhadores-rurais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/as-sequelas-dos-agrotoxicos-para-trabalhadores-rurais\/","title":{"rendered":"As sequelas dos agrot\u00f3xicos para trabalhadores rurais"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.dw.com\/image\/17714460_303.jpg\" alt=\"Estudo constatou que casos de m\u00c3\u00a1s-forma\u00c3\u00a7\u00c3\u00b5es cong\u00c3\u00aanitas e puberdade precoce t\u00c3\u00aam rela\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o com a exposi\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o aos agrot\u00c3\u00b3xicos \" \/><em>Estudo constatou que casos de m\u00e1s-forma\u00e7\u00f5es cong\u00eanitas t\u00eam rela\u00e7\u00e3o com a intensa exposi\u00e7\u00e3o aos agrot\u00f3xicos<\/em><\/p>\n<p><strong>Ap\u00f3s chegada de agrot\u00f3xicos, zonas rurais registram aumento de casos de c\u00e2ncer, beb\u00eas com m\u00e1-forma\u00e7\u00e3o e puberdade precoce. Nova lei pode relaxar an\u00e1lise sobre impacto de agroqu\u00edmicos na sa\u00fade.<\/strong><\/p>\n<p>Para entender o aparecimento de doen\u00e7as at\u00e9 ent\u00e3o desconhecidas na pequena comunidade de Tom\u00e9, regi\u00e3o da Chapada do Apodi, Cear\u00e1, os moradores pediram ajuda da ci\u00eancia. A desconfian\u00e7a aumentou depois do nascimento de beb\u00eas com malforma\u00e7\u00e3o e de sinais da puberdade em crian\u00e7as de um\u00a0ano de idade.<\/p>\n<p>Com 2.500 habitantes, a maioria das fam\u00edlias em Tom\u00e9 trabalha em fazendas que se instalaram na regi\u00e3o a partir dos anos 2000, estimuladas por projetos de irriga\u00e7\u00e3o. Com os extensos cultivos de mel\u00e3o, melancia e banana, que tamb\u00e9m seguem para a Europa, chegaram os agrot\u00f3xicos \u2013 pulverizados por avi\u00f5es e tratores.<\/p>\n<p>&#8220;Os achados s\u00e3o alarmantes&#8221;, afirma Ada Pontes Aguiar, m\u00e9dica e pesquisadora da Universidade Federal do Cear\u00e1 (UFC). &#8220;No nosso estudo, constatamos que os casos de malforma\u00e7\u00f5es cong\u00eanitas e puberdade precoce t\u00eam rela\u00e7\u00e3o com a intensa exposi\u00e7\u00e3o dessas crian\u00e7as e suas fam\u00edlias aos agrot\u00f3xicos na regi\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>H\u00e1 pouco mais de um m\u00eas, Aguiar retornou \u00e0 comunidade para apresentar as conclus\u00f5es do trabalho cient\u00edfico. Para Luci, professora e m\u00e3e de uma das crian\u00e7as estudadas, n\u00e3o foi uma surpresa.<\/p>\n<p>&#8220;Muitas coisas ruins aconteceram na minha comunidade desde a intensifica\u00e7\u00e3o do uso de agrot\u00f3xicos&#8221;, respondeu \u00e0 DW Brasil. O marido de Luci, que trabalhou com pulveriza\u00e7\u00e3o em planta\u00e7\u00e3o de mel\u00e3o por mais de sete anos, abandonou a atividade.<\/p>\n<p>Reginaldo Ferreira de Ara\u00fajo tamb\u00e9m recorreu aos cientistas depois do aumento consider\u00e1vel de casos de c\u00e2ncer entre os trabalhadores rurais. Atendendo ao chamado, o grupo de pesquisa liderado por Raquel Rigotto, da UFC, constatou que o \u00edndice era 38% maior que em outras cidades vizinhas.<\/p>\n<p>&#8220;Com a ajuda da ci\u00eancia, dos pesquisadores, o que o Z\u00e9 Maria apontava empiricamente pela viv\u00eancia dele ficou comprovado cientificamente&#8221;, explica Ara\u00fajo.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Maria Filho, conhecido como Z\u00e9 Maria do Tom\u00e9, mobilizou comunidades contra pulveriza\u00e7\u00e3o a\u00e9rea de pesticidas. Dizia que crian\u00e7as adoeceriam, pessoas morreriam de c\u00e2ncer com o uso abusivo do produto. Foi assassinado em 2010, com mais de 20 tiros \u2013 17 pelas costas.<\/p>\n<p>Acusados de executar o crime, tr\u00eas envolvidos no caso foram mortos nos anos seguintes. Os apontados como mandantes pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico viraram r\u00e9us e aguardam o julgamento h\u00e1 oito anos, em liberdade.<\/p>\n<p><strong>Projeto de Lei para novos\u00a0agroqu\u00edmicos<\/strong><\/p>\n<p>Em Bras\u00edlia, o projeto de lei 6.299\/2002, que facilita a libera\u00e7\u00e3o de agrot\u00f3xicos,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.dw.com\/pt-br\/em-meio-%C3%A0-copa-deputados-aprovam-mudan%C3%A7a-na-lei-de-agrot%C3%B3xicos\/a-44383674\">foi aprovado em uma comiss\u00e3o especial da C\u00e2mara dos Deputados<\/a>\u00a0e aguarda vota\u00e7\u00e3o em plen\u00e1rio. A proposta em discuss\u00e3o reduz o poder de decis\u00e3o de quem analisa os riscos ambientais e \u00e0 sa\u00fade humana \u2013 Ibama e Anvisa \u2013 e d\u00e1 ao Minist\u00e9rio da Agricultura a palavra final sobre a aprova\u00e7\u00e3o de novos defensivos agr\u00edcolas.<\/p>\n<p>A medida preocupa a diretora de Qualidade Ambiental do Ibama, Jacimara Guerra Machado. &#8220;Ser\u00e1 que o Minist\u00e9rio da Agricultura vai seguir uma decis\u00e3o do Minist\u00e9rio do Meio Ambiente e da Anvisa quando o produto n\u00e3o for recomendado?&#8221;, questiona.<\/p>\n<p>O ministro da Agricultura, Blairo Maggi, \u00e9 um dos maiores produtores de soja do mundo, e a soja \u00e9 cultura que mais consome agroqu\u00edmicos\u00a0no Brasil. Foi ele o autor do PL 6.299, em 2002, quando era senador.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.dw.com\/image\/44489027_7.png\" alt=\"Infografik Prinzipielle Kulturen Brasilien Agrotoxicos PT\" \/><\/p>\n<p>O setor que produz pesticidas e herbicidas est\u00e1 satisfeito com o andamento da mat\u00e9ria no Congresso. &#8220;Todas as mudan\u00e7as pretendidas pela ind\u00fastria est\u00e3o no projeto de lei&#8221;, afirma S\u00edlvia Fagnani, diretora executiva do Sindicato Nacional da Ind\u00fastria de Produtos para Defesa Vegetal (Sindiveg), que re\u00fane 35 ind\u00fastrias e representa 98% do mercado nacional.<\/p>\n<p>Ela considera que a lei &#8220;moderniza a an\u00e1lise, com ado\u00e7\u00e3o de avalia\u00e7\u00e3o de risco&#8221;. Segundo esse conceito, o perigo n\u00e3o est\u00e1 necessariamente no uso do produto, mas na dosagem. A lei atual \u00e9 mais restritiva e veta produtos que\u00a0ofere\u00e7am perigo \u00e0s pessoas e ao meio ambiente, independentemente da dosagem.<\/p>\n<p>Para Fagnani, as mudan\u00e7as permitem que defensivos agr\u00edcolas mais modernos sejam registrados com rapidez. &#8220;Novos produtos levam at\u00e9 10 anos para serem registrados&#8221;, critica.<\/p>\n<p><strong>Fila de prioridades<\/strong><\/p>\n<p>Machado reconhece a demora, mas nega que a lentid\u00e3o seja por falta de efici\u00eancia no Ibama. &#8220;A falta de recursos humanos \u00e9 um problema. Mas quando o pedido chega na m\u00e3o do analista, o prazo de 120 dias \u00e9 atendido&#8221;, diz ela, referindo-se \u00e0 legisla\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A diretora de Qualidade Ambiental do Ibama alega ainda que, na fila de pedidos que se acumulam, a prioridade \u00e9 estabelecida pelo Minist\u00e9rio da Agricultura: quando h\u00e1 necessidade de que um determinado produto seja liberado com urg\u00eancia, ele passa na frente dos demais na an\u00e1lise.<\/p>\n<p>&#8220;Quando as empresas alegam que estamos atrapalhando a tecnologia, a moderniza\u00e7\u00e3o, isso n\u00e3o \u00e9 verdade. Porque os produtos na lista de prioridades s\u00e3o analisados dentro de 3 a 4 meses&#8221;, rebate Machado.<\/p>\n<p>Atualmente, 1.338 processos para novos registros de agrot\u00f3xicos aguardam a avalia\u00e7\u00e3o do Ibama. Desses, 15 s\u00e3o de mol\u00e9culas novas, os demais s\u00e3o equivalentes a produtos j\u00e1 liberados para uso.<\/p>\n<p>Segundo o Ibama, a lista do Minist\u00e9rio da Agricultura tem dado prioridade a produtos que j\u00e1 t\u00eam v\u00e1rios tipos liberados no mercado. &#8220;Como o\u00a0<a href=\"https:\/\/www.dw.com\/pt-br\/zeitgeist-glifosato-transg%C3%AAnicos-e-a-ascens%C3%A3o-da-monsanto\/a-19562462\">glifosato<\/a>, que est\u00e1 sempre na lista. Hoje a gente j\u00e1 tem mais de 200 marcas registradas. Eles alegam que colocam mais produtos na lista para que haja mais competitividade no pre\u00e7o. Mas ser\u00e1 que precisam de 200?&#8221;, questiona Machado.<\/p>\n<p>Entre os produtos liberados pelo \u00f3rg\u00e3o nos \u00faltimos 20 anos, apenas 50% foram de fato colocados \u00e0 venda no mercado brasileiro.<\/p>\n<p><strong>Poder e isen\u00e7\u00e3o fiscal<\/strong><\/p>\n<p>Seja como for, os especialistas apostam que o PL 6.299 ser\u00e1 aprovado sem problemas. &#8220;A discuss\u00e3o \u00e9 mediada por uma classe que ocupa muitas cadeiras na C\u00e2mara dos Deputados, num pa\u00eds que tem uma das maiores concentra\u00e7\u00f5es de terra do mundo&#8221;, diz Larissa Bombardi, pesquisadora da Universidade de S\u00e3o Paulo e autora de um atlas sobre uso de agrot\u00f3xico no pa\u00eds. &#8220;Eles est\u00e3o viabilizando interesses dos propriet\u00e1rios de terra e da ind\u00fastria agroqu\u00edmica&#8221;, adiciona Bombardi.<\/p>\n<p>Em 2017, foram comercializados 8,8 bilh\u00f5es de d\u00f3lares em defensivos agr\u00edcolas no Brasil, segundo dados do setor. Um dossi\u00ea da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Sa\u00fade Coletiva (Abrasco) estima que, de 2000 a 2012, o mercado de agrot\u00f3xicos cresceu 288,41% em faturamento e 162,32% na quantidade de toneladas vendidas, com apoio de incentivos estatais.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.dw.com\/image\/44491064_7.png\" alt=\"Infografik Nutzung von Agrotoxico PT\" \/><\/p>\n<p>Segundo estimativas levantadas pelo defensor p\u00fablico Marcelo Novaes, que atua no estado de S\u00e3o Paulo, o setor do agroneg\u00f3cio contribui com apenas 0,1% dos tributos recolhidos no estado. Por outro lado, a isen\u00e7\u00e3o fiscal em 2015 foi de 1,2 bilh\u00e3o de reais apenas para agroqu\u00edmicos.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 um mercado cheio de privil\u00e9gios&#8221;, critica Novaes. &#8220;A farra da tributa\u00e7\u00e3o do agrot\u00f3xico n\u00e3o est\u00e1 isolada, est\u00e1 num contexto pol\u00edtico. Se voc\u00ea quiser analisar quem manda no pa\u00eds, tem que ver a legisla\u00e7\u00e3o tribut\u00e1ria &#8220;, avalia.<\/p>\n<p><strong>A influ\u00eancia da China<\/strong><\/p>\n<p>A isen\u00e7\u00e3o garantida pelo governo h\u00e1 algumas d\u00e9cadas \u00e9 destinada a insumos usados na produ\u00e7\u00e3o de alimentos: defensivos agr\u00edcolas, ra\u00e7\u00e3o, maquin\u00e1rio, medicamentos para animais, entre outros.<\/p>\n<p>Os principais beneficiados, por\u00e9m, acabam sendo os produtores de commodities. Dentre os cultivos que mais usam agrot\u00f3xicos, soja, cana e milho est\u00e3o no topo da lista no total de vendas em 2017.<\/p>\n<p>Na avalia\u00e7\u00e3o de Victor Pelaez, pesquisador da Universidade Federal do Paran\u00e1, a nova lei vai favorecer tamb\u00e9m a China, l\u00edder mundial do setor de agrot\u00f3xicos, com 25% do mercado. &#8220;A importa\u00e7\u00e3o \u00e9 muito grande da China, que tem grande capacidade de s\u00edntese de mol\u00e9cula de patente vencida\u201d, pontua Pelaez.<\/p>\n<p>O pa\u00eds tamb\u00e9m \u00e9 origem dos qu\u00edmicos clandestinos que chegam ao Brasil \u2013 o Sindiveg estima que 20% do mercado nacional seja ocupado por agrot\u00f3xicos ilegais.<\/p>\n<p>&#8220;Tamb\u00e9m h\u00e1 a possibilidade de as empresas chinesas venderem para o Brasil coisas que, na Europa, eles n\u00e3o vendem&#8221;, prev\u00ea Bombardi. Com a flexibiliza\u00e7\u00e3o da legisla\u00e7\u00e3o brasileira, comenta a pesquisadora, o controle de qualidade ser\u00e1 determinado na China.<\/p>\n<p>Fonte &#8211; N\u00e1dia Pontes, DW de 05 de julho de 2018<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estudo constatou que casos de m\u00e1s-forma\u00e7\u00f5es cong\u00eanitas t\u00eam rela\u00e7\u00e3o com a intensa exposi\u00e7\u00e3o aos agrot\u00f3xicos Ap\u00f3s chegada de agrot\u00f3xicos, zonas rurais registram aumento de casos de c\u00e2ncer, beb\u00eas com m\u00e1-forma\u00e7\u00e3o e puberdade precoce. Nova lei pode relaxar an\u00e1lise sobre impacto de agroqu\u00edmicos na sa\u00fade. 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