{"id":25089,"date":"2018-07-14T09:00:30","date_gmt":"2018-07-14T12:00:30","guid":{"rendered":"http:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=25089"},"modified":"2018-07-09T09:24:39","modified_gmt":"2018-07-09T12:24:39","slug":"desmatamento-na-amazonia-faz-peixes-de-riachos-emagrecerem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/desmatamento-na-amazonia-faz-peixes-de-riachos-emagrecerem\/","title":{"rendered":"Desmatamento na Amaz\u00f4nia faz peixes de riachos \u201cemagrecerem\u201d"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/jornal.usp.br\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/20180702_00_peixe-peixinho-1280px.jpg\" alt=\"De corpo fino e cheio de bolinhas vermelhas, o pequeno Melanorivulus zygonectes enfrenta dificuldades quando a temperatura da \u00c3\u00a1gua chega a 32\u00c2\u00b0C. Ele foi a esp\u00c3\u00a9cie escolhida para o experimento em laborat\u00c3\u00b3rio.\" \/><em>Esp\u00e9cie escolhida para o experimento em laborat\u00f3rio, o pequeno\u00a0Melanorivulus zygonectes\u00a0enfrenta dificuldades quando a temperatura da \u00e1gua chega a 32\u00b0C \u2013 Foto: Cedida pelo pesquisador<\/em><\/p>\n<header class=\"entry-header\">\n<div id=\"resumopost\" class=\"resumopost\">\n<p><strong>Aumento da temperatura da \u00e1gua prejudica crescimento dos peixes de riachos, que perdem at\u00e9 16% da massa corp\u00f3rea<\/strong><\/p>\n<p>O desmatamento na Amaz\u00f4nia aumenta em at\u00e9 6\u00b0C a temperatura m\u00e9dia dos riachos de cabeceira. O que, por sua vez, leva a uma significativa perda de massa nos peixes que vivem nestes ambientes. \u00c9 o que sugere um estudo conduzido por pesquisadores da USP e\u00a0<a href=\"http:\/\/journals.plos.org\/plosone\/article?id=10.1371\/journal.pone.0196560\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">publicado na revista cient\u00edfica\u00a0<em>PLOS One<\/em><\/a>. No experimento em laborat\u00f3rio, o grupo descobriu que os peixes \u201cemagrecem\u201d at\u00e9 16% em uma temperatura mais elevada.<\/p>\n<p>A comunidade cient\u00edfica j\u00e1 conhecia a rela\u00e7\u00e3o entre desmatamento e aquecimento de rios e c\u00f3rregos. \u201cA copa das \u00e1rvores intercepta, bloqueia e reflete a radia\u00e7\u00e3o solar incidente. Uma vez que voc\u00ea remove a floresta, o que ocorre \u00e9 que a radia\u00e7\u00e3o solar incide diretamente sobre o solo e sobre a superf\u00edcie da \u00e1gua\u201d, explica o bi\u00f3logo Lu\u00eds Schiesari, professor da Escola de Artes, Ci\u00eancias e Humanidades (EACH) da USP e um dos autores do artigo.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m j\u00e1 era conhecida a rela\u00e7\u00e3o entre \u00e1guas mais quentes e redu\u00e7\u00e3o do tamanho corp\u00f3reo dos organismos. Segundo Schiesari, essa rela\u00e7\u00e3o foi verificada principalmente no caso de organismos de sangue frio, como peixes, anf\u00edbios e r\u00e9pteis, e \u00e9 reconhecida por cientistas do mundo todo como uma regra universal do aquecimento global.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/jornal.usp.br\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/20180702_01_schiesari_pescando.jpg\" \/><em>Pesquisadores utilizaram redes de pu\u00e7\u00e1, como a desta imagem, para fazer o levantamento dos peixes que vivem nos riachos amaz\u00f4nicos \u2013 Foto: Cedida pelo pesquisador<\/em><\/p>\n<p>A novidade do estudo \u00e9 o cruzamento de dados sobre a redu\u00e7\u00e3o do tamanho dos peixes com dados ambientais locais. \u201cO que n\u00f3s hipotetizamos \u00e9 que talvez outros cen\u00e1rios de mudan\u00e7a ambiental que levem ao aquecimento tamb\u00e9m possam levar a uma diminui\u00e7\u00e3o do tamanho corp\u00f3reo\u201d, conta Schiesari. \u201cCuriosamente, ainda n\u00e3o tinha sido testado o efeito desse aquecimento nos peixes\u201d, completa o bi\u00f3logo Paulo Ilha, outro autor do artigo, que desenvolveu o trabalho como parte de seu doutorado em Ecologia no IB.<\/p>\n<p>A pesquisa contou com duas etapas: uma em campo, realizada no munic\u00edpio de Quer\u00eancia (MT), e outra em laborat\u00f3rio, em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/5QVTb3_YJwQ\" width=\"600\" height=\"400\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n<p><strong>Sem floresta, temperatura sobe e oscila mais<\/strong><\/p>\n<p>No trabalho de campo, os pesquisadores mediram a temperatura das \u00e1guas de seis riachos de cabeceira \u2013 nascentes de rios que alimentam o Xingu. Tr\u00eas deles estavam em \u00e1rea de floresta e os outros tr\u00eas, em \u00e1rea que foi desmatada na d\u00e9cada de 1980 para dar lugar a pastagens e, posteriormente, convertida em planta\u00e7\u00e3o de soja entre 2003 e 2008. As medi\u00e7\u00f5es mostraram que as \u00e1guas dos riachos na floresta t\u00eam temperatura m\u00e9dia de 25\u00b0C, com uma varia\u00e7\u00e3o que vai dos 24\u00b0C aos 26\u00b0C durante o dia.<\/p>\n<p>J\u00e1 os riachos de \u00e1rea agr\u00edcola t\u00eam temperatura m\u00e9dia de 28\u00b0C, com uma oscila\u00e7\u00e3o muito maior, de 24\u00b0C a 34\u00b0C. Nos hor\u00e1rios mais quentes do dia, a diferen\u00e7a de temperatura m\u00e9dia chegava a 6\u00b0C na compara\u00e7\u00e3o entre os riachos de floresta e os de \u00e1rea agr\u00edcola. As temperaturas m\u00e1ximas batiam uma diferen\u00e7a de 7\u00b0C.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" src=\"https:\/\/jornal.usp.br\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/20180702_02_riacho-menor.jpg\" alt=\"Na floresta preservada, o riacho de cabeceira possui muitas \u00c3\u00a1rvores em suas margens. As copas dessas \u00c3\u00a1rvores bloqueiam a radia\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o do sol e mant\u00c3\u00aam a temperatura da \u00c3\u00a1gua mais fresca que nas \u00c3\u00a1reas desmatadas.\" width=\"647\" height=\"679\" \/><em>Na floresta preservada, as copas das \u00e1rvores mant\u00eam a temperatura da \u00e1gua mais fresca. Foto: Cedida pelo pesquisador<\/em><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" src=\"https:\/\/jornal.usp.br\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/20180702_01_riacho-menor.jpg\" alt=\"Na \u00c3\u00a1rea agr\u00c3\u00adcola, a floresta foi desmatada e o mato que cresce na borda n\u00c3\u00a3o consegue proteger o riacho na radia\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o do sol.\" width=\"969\" height=\"1017\" \/><em>Na \u00e1rea agr\u00edcola, os riachos est\u00e3o completamente expostos \u00e0 radia\u00e7\u00e3o do sol. Foto: Cedida pelo pesquisador<\/em><\/p>\n<p>Os cientistas coletaram os peixes que fizeram parte da amostra nos mesmos riachos. Das 29 esp\u00e9cies encontradas, seis delas concentravam 90% dos indiv\u00edduos. Eles pesaram os peixes dessas seis esp\u00e9cies e compararam as medidas dos que viviam na floresta com as dos que viviam na \u00e1rea desmatada. Em cinco esp\u00e9cies, os peixes dos riachos de \u00e1rea agr\u00edcola eram menores do que os da floresta.<\/p>\n<p>Na natureza, al\u00e9m da temperatura da \u00e1gua, outros fatores influenciam o tamanho dos peixes, como a presen\u00e7a de mat\u00e9ria org\u00e2nica na \u00e1gua e a oferta de alimentos. Para analisar o efeito da temperatura isoladamente, era necess\u00e1rio um experimento em laborat\u00f3rio.<\/p>\n<p><strong>Peixe min\u00fasculo participou do experimento<\/strong><\/p>\n<p>Os pesquisadores elegeram a esp\u00e9cie mais abundante da amostra para o experimento em laborat\u00f3rio. O\u00a0<em>Melanorivulus zygonectes<\/em>\u00a0adulto chega a, no m\u00e1ximo, 4 cent\u00edmetros (cm) de comprimento. Para fugir dos predadores, ele vive nas margens dos riachos, nas \u00e1guas mais rasas, e tem a habilidade de pular de po\u00e7a em po\u00e7a d\u2019\u00e1gua.<\/p>\n<p>\u201cA esp\u00e9cie escolhida tem caracter\u00edsticas que favorecem o experimento em laborat\u00f3rio. Acontece nos dois lugares (riachos de floresta e de \u00e1rea desmatada), \u00e9 abundante, f\u00e1cil de coletar, tem sobreviv\u00eancia f\u00e1cil e alta no transporte e no cativeiro. \u00c9 pequeno, o que facilita criar muitos em um espa\u00e7o relativamente pequeno de laborat\u00f3rio\u201d, explica Ilha.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/jornal.usp.br\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/20180702_01_peixe-peixinho.jpg\" alt=\"Na palma da m\u00c3\u00a3o do pesquisador est\u00c3\u00a1 um peixe da esp\u00c3\u00a9cie Melanorivulus zygonectes. Ele chega a 4cm de comprimento quando adulto, vve junto \u00c3\u00a0s margens mais rasas dos riachos e tem a habilidade de pular de po\u00c3\u00a7a em po\u00c3\u00a7a\" \/><em>O\u00a0Melanorivulus zygonectes\u00a0chega a 4 cm quando adulto. Vive junto \u00e0s margens mais rasas dos riachos e tem a habilidade de pular de po\u00e7a em po\u00e7a \u2013 Foto: Cedida pelo pesquisador<\/em><\/p>\n<p>Os peixinhos coletados viajaram do Mato Grosso at\u00e9 o Laborat\u00f3rio de Ecofisiologia e Fisiologia Evolutiva do IB. L\u00e1, eles foram colocados em aqu\u00e1rios individuais. Vinte peixes foram mantidos em aqu\u00e1rios com temperatura da \u00e1gua em 24\u00b0C. Outros vinte ficaram em \u00e1guas a 32\u00b0C. Todos receberam a mesma alimenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Depois de dois meses, a temperatura mais alta afetou negativamente o crescimento dos\u00a0<em>Melanorivulus<\/em>, principalmente daqueles origin\u00e1rios dos riachos da floresta.<\/p>\n<p>Em m\u00e9dia, os peixes da floresta mantidos em temperatura de 24\u00b0C ganharam 27,5 miligramas (mg), enquanto os mantidos em 32\u00b0C perderam a mesma quantidade de massa. No caso dos peixes origin\u00e1rios da \u00e1rea agr\u00edcola, os que ficaram nos aqu\u00e1rios mais frios ganharam 26,4mg, enquanto os mantidos em aqu\u00e1rios mais quentes perderam apenas 9,5mg. Ou seja, nas temperaturas mais altas, os peixes da floresta perderam, em m\u00e9dia, 16% do peso que tinham no in\u00edcio do experimento, enquanto os peixes de \u00e1rea agr\u00edcola perderam, em m\u00e9dia, 5%.<\/p>\n<p>\u201cO que entra de energia no organismo pela alimenta\u00e7\u00e3o serve basicamente para tr\u00eas fun\u00e7\u00f5es fundamentais. Uma delas \u00e9 crescer, a outra delas \u00e9 o metabolismo b\u00e1sico e a terceira \u00e9 se reproduzir. Existe um balan\u00e7o entre esses tr\u00eas investimentos. Se voc\u00ea tem um desses componentes drenando mais energia, essa energia vai faltar para os outros. O animal que est\u00e1 investindo mais energia na regula\u00e7\u00e3o, na manuten\u00e7\u00e3o da temperatura em lidar com essas varia\u00e7\u00f5es, vai acabar tendo menos energia para a reprodu\u00e7\u00e3o e o crescimento. \u00c9 como se uma pessoa comesse o mesmo tanto que a outra, mas uma estivesse correndo na esteira e a outra, sentada no sof\u00e1 confortavelmente\u201d, diz Alexander Turra, professor do Instituto Oceanogr\u00e1fico (IO) da USP, que n\u00e3o participou do estudo.<\/p>\n<p>A temperatura tamb\u00e9m afetou a sobreviv\u00eancia dos peixes da floresta. A 24\u00b0C, 93% deles sobreviveram ao experimento. Mas a 32\u00b0C, um ter\u00e7o dos peixes morreram.<\/p>\n<p>Fonte &#8211; Silvana Salles, Jornal da USP de 04 de julho de 2018<\/p>\n<\/div>\n<\/header>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Esp\u00e9cie escolhida para o experimento em laborat\u00f3rio, o pequeno\u00a0Melanorivulus zygonectes\u00a0enfrenta dificuldades quando a temperatura da \u00e1gua chega a 32\u00b0C \u2013 Foto: Cedida pelo pesquisador Aumento da temperatura da \u00e1gua prejudica crescimento dos peixes de riachos, que perdem at\u00e9 16% da massa corp\u00f3rea O desmatamento na Amaz\u00f4nia aumenta em at\u00e9 6\u00b0C a temperatura m\u00e9dia dos riachos&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[29],"post_series":[],"class_list":["post-25089","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-geral","tag-desmatamento","entry","no-media"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v25.2 - 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