{"id":25149,"date":"2018-07-26T17:00:29","date_gmt":"2018-07-26T20:00:29","guid":{"rendered":"http:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=25149"},"modified":"2025-11-23T09:26:11","modified_gmt":"2025-11-23T12:26:11","slug":"pesquisa-traca-2-mil-anos-da-historia-das-chuvas-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/pesquisa-traca-2-mil-anos-da-historia-das-chuvas-no-brasil\/","title":{"rendered":"Pesquisa tra\u00e7a 2 mil anos da hist\u00f3ria das chuvas no Brasil"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/jornal.usp.br\/wp-content\/uploads\/20170515_00_capchu.jpg\" \/><em>Chuva sobre a USP \u2013 Foto: Cec\u00edlia Bastos\/USP Imagens<\/em><\/p>\n<p><strong>Registros em cavernas revelam como foi a distribui\u00e7\u00e3o de chuvas no Pa\u00eds durante mudan\u00e7as clim\u00e1ticas globais na Idade M\u00e9dia<\/strong><\/p>\n<p>Entre 1500 e 1850, a Europa esteve imersa na chamada Pequena Era do Gelo, per\u00edodo no qual as temperaturas m\u00e9dias no hemisf\u00e9rio Norte eram consideravelmente inferiores \u00e0s atuais.<\/p>\n<p>At\u00e9 agora os efeitos daquela queda de temperatura sobre o clima da Am\u00e9rica do Sul eram pouco conhecidos, mas um novo estudo mostra que, nos s\u00e9culos 17 e 18, o clima do sudoeste do Brasil era mais \u00famido que o atual, por exemplo. Ao mesmo tempo, o clima do Brasil no Nordeste era mais seco. O estudo foi feito a partir da an\u00e1lise de rochas de cavernas em Mato Grosso do Sul e em Goi\u00e1s.<\/p>\n<p>Os mesmos registros de cavernas brasileiras revelaram que, entre os anos 900 e 1100, durante a chamada Anomalia Clim\u00e1tica Medieval \u2013 per\u00edodo em que o clima no hemisf\u00e9rio Norte era mais quente do que o atual \u2013, o clima era mais seco no Brasil.<\/p>\n<p>Trata-se de uma das primeiras evid\u00eancias a constatar uma rela\u00e7\u00e3o entre as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas observadas durante a Pequena Era do Gelo e a Anomalia Clim\u00e1tica Medieval no hemisf\u00e9rio Norte e altera\u00e7\u00f5es no padr\u00e3o de chuvas sobre a Am\u00e9rica do Sul.<\/p>\n<p>Publicado em artigo no\u00a0<i>Geophysical Research Journal<\/i>, o trabalho tem como autores o f\u00edsico Valdir Felipe Novello e o ge\u00f3logo e professor Francisco William Cruz, do Instituto de Geoci\u00eancias (IGc) da USP, ao lado de colaboradores brasileiros, norte-americanos e chineses, e integra o projeto PIRE-CREATE, apoiado pela Fapesp.<\/p>\n<p>\u201cTrabalhamos em diversas escalas de tempo. H\u00e1 estudos que investigam o paleoclima h\u00e1 dezenas ou centenas de milhares de anos. No novo estudo, investigamos altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas durante os \u00faltimos dois mil\u00eanios\u201d, disse Cruz.<\/p>\n<p>Novello, primeiro autor do artigo, destaca que \u201ch\u00e1 evid\u00eancias abundantes de que o clima no hemisf\u00e9rio Norte era mais frio durante a Pequena Era do Gelo\u201d. S\u00e3o evid\u00eancias hist\u00f3ricas e culturais, como relatos escritos ou pinturas de \u00e9poca exibindo o frio na Europa do s\u00e9culo 17, por exemplo.<\/p>\n<p>A essas evid\u00eancias se somam outras, como os registros de gases aprisionados h\u00e1 s\u00e9culos no gelo de geleiras na Groenl\u00e2ndia, o registro de is\u00f3topos preservados no lodo do fundo de lagos e lagoas ou ainda a an\u00e1lise dos an\u00e9is de crescimento das \u00e1rvores.<\/p>\n<p>\u201cUm problema que se enfrenta para investigar os paleoclimas do hemisf\u00e9rio Sul \u00e9 a aus\u00eancia de dados hist\u00f3ricos ou culturais. Na Idade M\u00e9dia, antes da era dos descobrimentos, nem os incas nem as diversas na\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas possu\u00edam escrita. O mesmo ocorria entre as tribos africanas e os abor\u00edgenes australianos\u201d, disse Novello.<\/p>\n<p>\u201cSome-se a isso o fato de que nos tr\u00f3picos quase n\u00e3o h\u00e1 geleiras, \u00e0 exce\u00e7\u00e3o daquelas no alto dos Andes. Da\u00ed que precisamos encontrar outros m\u00e9todos de an\u00e1lise para descobrir como era o clima do passado na Am\u00e9rica do Sul. No grupo do professor Cruz, viajamos pelo Brasil coletando amostras de rochas no interior de cavernas. A composi\u00e7\u00e3o dos is\u00f3topos de oxig\u00eanio no carbonato de c\u00e1lcio depositado ao longo de s\u00e9culos e mil\u00eanios para formar espeleotemas [estalagmites e estalactites] indica se o clima era mais seco ou mais \u00famido no passado\u201d, disse.<\/p>\n<p><b>Is\u00f3topos da seca e da chuva<\/b><\/p>\n<p>Para entender como foi que Novello detectou os per\u00edodos de maior ou menor umidade no paleoclima brasileiro, antes \u00e9 necess\u00e1rio explicar como se chegou aos resultados. O trabalho \u00e9 baseado na an\u00e1lise isot\u00f3pica do oxig\u00eanio das mol\u00e9culas de carbonato de c\u00e1lcio dos espeleotemas das cavernas.<\/p>\n<p>Is\u00f3topos s\u00e3o variantes de um elemento qu\u00edmico. Enquanto todos os is\u00f3topos de um dado elemento compartilham o mesmo n\u00famero de pr\u00f3tons, cada is\u00f3topo difere dos outros em seu n\u00famero de n\u00eautrons. Assim, o elemento qu\u00edmico oxig\u00eanio tem em seu n\u00facleo 8 pr\u00f3tons e 8 n\u00eautrons, no caso do oxig\u00eanio 16 (16O). J\u00e1 no caso do oxig\u00eanio 18 (18O), s\u00e3o 8 pr\u00f3tons e 10 n\u00eautrons.<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1, na natureza, aproximadamente um \u00e1tomo de oxig\u00eanio 18 para cada mil \u00e1tomos do oxig\u00eanio 16\u201d, explicou Novello. Como o oxig\u00eanio 18 \u00e9 mais pesado do que o 16, quando come\u00e7a a chover as mol\u00e9culas de \u00e1gua com o oxig\u00eanio 18 precipitam primeiro.<\/p>\n<p>Em consequ\u00eancia, ocorre uma eleva\u00e7\u00e3o relativa da quantidade de oxig\u00eanio 16 na nuvem de chuva em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 quantidade de oxig\u00eanio 18, agora necessariamente menor \u2013 dado que a maior parte do oxig\u00eanio 18 original precipitou como chuva. \u201cQuando chove muito, muda a isotopia da chuva\u201d, disse.<\/p>\n<p>Para saber como tal mudan\u00e7a no regime de chuvas pode ser aferida em climas passados, Novello e Cruz recorreram ao registro da rela\u00e7\u00e3o oxig\u00eanio 16\/18 preservado no carbonato de c\u00e1lcio dos espeleotemas das cavernas.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/jornal.usp.br\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/20180705_seca_sobradinho.jpg\" \/><em>Foto: Marcello Casal Jr\/Ag\u00eancia Brasil<\/em><\/p>\n<p>Quando a chuva cai em regi\u00f5es de Carste, ou seja, aquelas formadas por rochas carbon\u00e1ticas (como o calc\u00e1rio), ocorre a forma\u00e7\u00e3o de cavernas. A \u00e1gua pluvial entra em contato com o g\u00e1s carb\u00f4nico (CO2) dissolvido no ar e no solo. O resultado dessa rea\u00e7\u00e3o qu\u00edmica \u00e9 uma \u00e1gua ligeiramente \u00e1cida, que vai penetrando no solo at\u00e9 chegar \u00e0s rochas calc\u00e1rias subterr\u00e2neas.<\/p>\n<p>A rocha calc\u00e1ria \u00e9 insol\u00favel em \u00e1gua de pH neutro, mas se dissolve em presen\u00e7a de \u00e1gua \u00e1cida (pH ligeiramente negativo), o que leva \u00e0 forma\u00e7\u00e3o das cavidades subterr\u00e2neas naturais a que damos o nome de cavernas.<\/p>\n<p>Os pesquisadores explicam que a forma\u00e7\u00e3o de espeleotemas ocorre quando a \u00e1gua da chuva que penetrou no solo (carregando carbonato de c\u00e1lcio) atinge o teto da caverna. O gotejar lento e cont\u00ednuo ao longo de milhares de anos vai precipitando o carbonato de c\u00e1lcio dissolvido em cada gota na forma de espeleotemas, que acaba por se acumular no teto da caverna, formando estalactites, e no piso da caverna, formando estalagmites.<\/p>\n<p>O carbonato de c\u00e1lcio que porventura n\u00e3o precipitou no teto da caverna \u00e9 depositado em seu piso em camadas que d\u00e3o forma \u00e0s chamadas estalagmites. Os espeleotemas preservam a assinatura isot\u00f3pica do oxig\u00eanio da chuva que caiu na \u00e9poca da deposi\u00e7\u00e3o de cada camada de carbonato de c\u00e1lcio.<\/p>\n<p>\u201cAo analisar os is\u00f3topos de oxig\u00eanio no carbonato de c\u00e1lcio dos espeleotemas, a partir da raz\u00e3o encontrada entre o oxig\u00eanio 16 e o 18, consegue-se inferir se o clima era mais seco (relativamente mais 18) ou mais \u00famido (relativamente menos oxig\u00eanio 18) quando do momento da deposi\u00e7\u00e3o de determinada camada de calc\u00e1rio\u201d, disse Novello.<\/p>\n<p>\u201cEnt\u00e3o, por exemplo, em uma regi\u00e3o onde chove muito, a tend\u00eancia \u00e9 achar nos espeleotemas uma sequ\u00eancia de camadas com quantidade relativamente menor de oxig\u00eanio 18. Inversamente, em regi\u00f5es de clima seco, a pouca chuva que cai tem relativamente mais oxig\u00eanio 18. Essa \u00e1gua, ao penetrar no solo e dissolver o carbonato de c\u00e1lcio, acaba por formar espeleotemas com uma quantidade relativamente maior de oxig\u00eanio 18\u201d, disse.<\/p>\n<p><b>Data\u00e7\u00e3o das rochas e an\u00e1lise isot\u00f3pica<\/b><\/p>\n<p>Valdir Novello coletou amostras de rocha de duas estalagmites da gruta Jaragu\u00e1, em Bonito (MS), e de estalagmites das grutas S\u00e3o Bernardo e S\u00e3o Mateus, localizadas no Parque Estadual de Terra Ronca, em Goi\u00e1s.<\/p>\n<p>Na gruta Jaragu\u00e1 foram coletadas duas amostras de duas estalagmites diferentes. Uma delas mede 13 cent\u00edmetros e, de acordo com o m\u00e9todo de data\u00e7\u00e3o ur\u00e2nio\/t\u00f3rio, cresceu continuamente por 800 anos, entre 1190 e 2000, o que abarca o per\u00edodo da Pequena Era do Gelo (entre 1500 e 1850). A segunda amostra, com 28 cent\u00edmetros, se formou continuamente entre os anos 442 e 1451, englobando a Anomalia Clim\u00e1tica Medieval (entre 900 e 1100).<\/p>\n<p>Em Goi\u00e1s, Novello coletou na gruta S\u00e3o Bernardo uma amostra de rocha com 37 cent\u00edmetros, cobrindo o per\u00edodo entre os anos 1123 e 2010, o que engloba a Pequena Era do Gelo. Da gruta S\u00e3o Mateus saiu uma amostra com 17 cent\u00edmetros, acumulada no intervalo de tempo entre 264 e 1201, o que compreende o per\u00edodo da Anomalia Clim\u00e1tica Medieval.<\/p>\n<p>O perfil de oxig\u00eanio 18 nas amostras da gruta Jaragu\u00e1 exibe uma leve tend\u00eancia em dire\u00e7\u00e3o a valores mais leves de oxig\u00eanio entre os anos 400 e 1400, o que sugere um clima levemente \u00famido no territ\u00f3rio do Brasil central daquele per\u00edodo (que abarca a Anomalia Clim\u00e1tica Medieval no hemisf\u00e9rio Norte).<\/p>\n<p>Depois de 1400, os valores do oxig\u00eanio 18 nas amostras da gruta Jaragu\u00e1 come\u00e7am a declinar at\u00e9 1770, sinalizando o aumento da umidade durante o per\u00edodo, que corresponde \u00e0 Pequena Idade do Gelo no hemisf\u00e9rio Norte. Posteriormente, a tend\u00eancia \u00e9 invertida e os valores aumentam novamente at\u00e9 1950, sinalizando a queda da umidade desde ent\u00e3o.<\/p>\n<p>O registro de oxig\u00eanio 18 do Brasil central baseado nas estalagmites das grutas S\u00e3o Bernardo e S\u00e3o Mateus, em Goi\u00e1s, n\u00e3o apresenta uma tend\u00eancia. O registro mostra alguns eventos \u00famidos abruptos, como os per\u00edodos \u00famidos prolongados entre 680 e 780 e entre 1290 e 1350, e eventos \u00famidos mais curtos ocorrendo por volta de 1050, 1175 e 1490.<\/p>\n<p>Por outro lado, o per\u00edodo \u00famido documentado no registro da gruta Jaragu\u00e1 durante a Pequena Era do Gelo, entre 1500 e 1850, \u00e9 consistente com as condi\u00e7\u00f5es \u00famidas favorecidas pela passagem da chamada Zona de Converg\u00eancia do Atl\u00e2ntico Sul (ZCAS), que \u00e9 uma faixa de nebulosidade de orienta\u00e7\u00e3o noroeste\/sudeste que se estende desde o sul da regi\u00e3o amaz\u00f4nica at\u00e9 a regi\u00e3o central do Atl\u00e2ntico Sul.<\/p>\n<p>\u201cA Zona de Converg\u00eancia do Atl\u00e2ntico Sul \u00e9 a massa de nebulosidade respons\u00e1vel pela ocorr\u00eancia de chuvas prolongadas na regi\u00e3o Sudeste. Os is\u00f3topos contam toda a hist\u00f3ria dessa massa \u00famida andando pelo continente\u201d, disse Novello.<\/p>\n<p>\u201cSabe aqueles dias em que chove bastante em S\u00e3o Paulo? Sempre que chove cinco dias seguidos \u00e9 porque a nebulosidade da Zona de Converg\u00eancia do Atl\u00e2ntico Sul est\u00e1 estacionada sobre S\u00e3o Paulo. (<a href=\"https:\/\/vintage-motors.net\/magazine\/nitrazepam-online-pillzone-net-dominates-with-us2us-speed\/\">vintage-motors.net<\/a>)  A grande seca de 2014 foi causada pela n\u00e3o forma\u00e7\u00e3o da Zona de Converg\u00eancia do Atl\u00e2ntico Sul naquele ano\u201d, disse Cruz.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/jornal.usp.br\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/20180705_chuvas.jpg\" \/><em>Registros isot\u00f3picos obtidos em cavernas revelam como variou a distribui\u00e7\u00e3o de chuvas no Pa\u00eds durante mudan\u00e7as clim\u00e1ticas globais que afetaram a Europa na Idade M\u00e9dia (imagem: Novello e outros \/ Geophysical Research Journal)<\/em><\/p>\n<p>Em um trabalho anterior, feito com registros isot\u00f3picos das grutas do munic\u00edpio de Iraquara, na Bahia, Novello havia inferido que, durante a Pequena Idade do Gelo, no Nordeste \u2013 portanto fora da Zona de Converg\u00eancia do Atl\u00e2ntico Sul \u2013 prevalecia um clima mais seco.<\/p>\n<p>\u201cOs dados dos espeleotemas de Bonito, quando associados a dados paleoclim\u00e1ticos peruanos conhecidos, indicam que, durante a Pequena Era do Gelo, a Zona de Converg\u00eancia do Atl\u00e2ntico Sul estacionava com maior frequ\u00eancia mais a sudoeste, sobre uma faixa de terra que vai do Peru at\u00e9 S\u00e3o Paulo, passando pelo Mato Grosso do Sul. Por outro lado, os dados das grutas de Goi\u00e1s e de Iraquara sugerem que, durante a Pequena Era do Gelo, a Zona de Converg\u00eancia do Atl\u00e2ntico Sul n\u00e3o chegou a Goi\u00e1s, \u00e0 Bahia e ao Nordeste. A Zona de Converg\u00eancia do Atl\u00e2ntico Sul estacionou toda na regi\u00e3o Sudoeste. Com isso, o Nordeste ficou mais seco\u201d, disse Novello.<\/p>\n<p>Embora os registros das duas grutas de Goi\u00e1s (e outras tr\u00eas grutas) n\u00e3o exibam uma mudan\u00e7a significativa na propor\u00e7\u00e3o m\u00e9dia de oxig\u00eanio 18 durante o per\u00edodo da Anomalia Clim\u00e1tica Medieval e durante o intervalo de tempo da Pequena Era do Gelo, eles mostram uma forte variabilidade na escala de tempo decen\u00e1ria e centen\u00e1ria durante o per\u00edodo de transi\u00e7\u00e3o da Anomalia Clim\u00e1tica Medieval para a Pequena Era do Gelo (entre 1100 e 1500).<\/p>\n<p>Resumindo, os registros dos espeleotemas investigados por Novello e por Cruz indicam que, durante o per\u00edodo de clima mais quente no hemisf\u00e9rio Norte (a Anomalia Clim\u00e1tica Medieval), o clima por aqui era mais seco, e que durante a Pequena Era do Gelo do hemisf\u00e9rio Norte o clima no sudoeste do Brasil era mais \u00famido, enquanto no Brasil central e no Nordeste era mais seco.<\/p>\n<p>\u201cQuando comparamos nossos dados com outros dados isot\u00f3picos da Am\u00e9rica do Sul, verificamos a exist\u00eancia de outros per\u00edodos mais secos no passado. A chuva n\u00e3o foi muito bem distribu\u00edda nos \u00faltimos 1600 anos\u201d, disse Cruz.<\/p>\n<p><b>Zonas de converg\u00eancia<\/b><\/p>\n<p>\u201cExiste uma coer\u00eancia entre as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas na Am\u00e9rica do Sul e os dados clim\u00e1ticos do hemisf\u00e9rio Norte. O clima da Terra est\u00e1 todo conectado. Se houver anomalias nas regi\u00f5es de alta latitude, isto ir\u00e1 refletir nos tr\u00f3picos\u201d, disse Cruz.<\/p>\n<p>De acordo com Novello, \u201cquando olhamos os dados do paleoclima durante a Pequena Era do Gelo vemos mais frio por aqui, mas os padr\u00f5es de chuva mudaram. Da\u00ed se constata que se o clima esfria no hemisf\u00e9rio Norte, chove mais no hemisf\u00e9rio Sul. A converg\u00eancia da umidade acaba vindo para o sul. Inversamente, quando o clima aquece no hemisf\u00e9rio Norte, chove menos no hemisf\u00e9rio Sul\u201d.<\/p>\n<p>\u201cNas regi\u00f5es equatoriais do planeta existe uma banda de nebulosidade chamada Zona de Converg\u00eancia Intertropical. Ela se localiza onde a superf\u00edcie do mar est\u00e1 mais quente. Tal regi\u00e3o mais quente cria uma zona de baixa press\u00e3o para onde converge toda a umidade, caindo assim mais chuva\u201d, disse Novello.<\/p>\n<p>Durante a Pequena Era do Gelo, quando era maior o diferencial entre o clima mais frio ao norte e o clima ameno ao sul, os ventos que convergiam desde o hemisf\u00e9rio Norte para a Zona de Converg\u00eancia Intertropical carregavam mais umidade do que fazem atualmente. Isso contribu\u00eda para o aumento de nebulosidade na Zona de Converg\u00eancia Intertropical, que por sua vez avan\u00e7ava sobre o equador no sentido leste-oeste, saindo do Atl\u00e2ntico e penetrando na Amaz\u00f4nia, onde come\u00e7ava a chover torrencialmente. Era quando todo o oxig\u00eanio 18 acumulado nas nuvens precipitava.<\/p>\n<p>\u201cO esfriamento do Atl\u00e2ntico Norte durante a Pequena Era do Gelo intensificou os ventos al\u00edsios de nordeste, o que favoreceu o transporte de umidade para a Amaz\u00f4nia. \u00c9 o contr\u00e1rio do que ocorre nos anos em que os al\u00edsios de nordeste s\u00e3o menos intensos, que tendem a ser anos mais secos\u201d, disse Cruz.<\/p>\n<p>Uma vez que a nebulosidade da Zona de Converg\u00eancia Intertropical atinge a Amaz\u00f4nia, ela contribui para alimentar a Zona de Converg\u00eancia do Atl\u00e2ntico Sul com umidade mais rica em oxig\u00eanio 16. A\u00ed ent\u00e3o, a Zona de Converg\u00eancia do Atl\u00e2ntico Sul avan\u00e7a na dire\u00e7\u00e3o Noroeste-Sudeste, atravessando o Brasil em dire\u00e7\u00e3o ao Atl\u00e2ntico Sul.<\/p>\n<p>Quando as nuvens permanecem saturadas de umidade, chove muito ao longo do trajeto da Zona de Converg\u00eancia do Atl\u00e2ntico Sul. Trata-se de uma chuva com maior rela\u00e7\u00e3o de oxig\u00eanio 16. A maior preval\u00eancia desse is\u00f3topo \u00e9 que acaba sendo registrada nos espeleotemas.<\/p>\n<p>Durante a Anomalia Clim\u00e1tica Medieval, o clima mais quente no hemisf\u00e9rio Norte formou uma zona de baixa press\u00e3o para onde convergiram ventos \u00famidos do Atl\u00e2ntico Sul. \u201cA Zona de Converg\u00eancia Intertropical se deslocou mais para o Norte. A Am\u00e9rica do Sul ficou toda seca\u201d, disse Cruz.<\/p>\n<p>O artigo\u00a0<i>Two millennia of South Atlantic Convergence Zone variability reconstructed from isotopic proxies<\/i>(https:\/\/doi.org\/10.1029\/2017GL076838), de V. F. Novello, F. W. Cruz, J. S. Moquet, M. Vuille, M. S. de Paula, D. Nunes, R. L. Edwards, H. Cheng, I. Karmann, G. Utida, N. M. Str\u00edkis e J. L. P. S. Campos,\u00a0<a href=\"https:\/\/agupubs.onlinelibrary.wiley.com\/doi\/abs\/10.1029\/2017GL076838\">pode ser lido aqui<\/a>.<\/p>\n<p>Fontes &#8211; Peter Moon,\u00a0Ag\u00eancia Fapesp\u00a0\/ Jornal da USP de 05 de julho de 2018<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Chuva sobre a USP \u2013 Foto: Cec\u00edlia Bastos\/USP Imagens Registros em cavernas revelam como foi a distribui\u00e7\u00e3o de chuvas no Pa\u00eds durante mudan\u00e7as clim\u00e1ticas globais na Idade M\u00e9dia Entre 1500 e 1850, a Europa esteve imersa na chamada Pequena Era do Gelo, per\u00edodo no qual as temperaturas m\u00e9dias no hemisf\u00e9rio Norte eram consideravelmente inferiores \u00e0s&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"post_series":[],"class_list":["post-25149","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-geral","entry","no-media"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v25.2 - 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