{"id":25304,"date":"2018-07-23T13:00:33","date_gmt":"2018-07-23T16:00:33","guid":{"rendered":"http:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=25304"},"modified":"2018-07-16T09:47:31","modified_gmt":"2018-07-16T12:47:31","slug":"agromitometro-verdades-e-mentiras-no-discurso-dos-ruralistas-sobre-pesticidas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/agromitometro-verdades-e-mentiras-no-discurso-dos-ruralistas-sobre-pesticidas\/","title":{"rendered":"Agromit\u00f4metro: verdades e mentiras no discurso dos ruralistas sobre pesticidas"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.observatoriodoclima.eco.br\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/xagrotoxico.jpg.pagespeed.ic_.hIO22bdF1F-e1531304491654.jpg\" \/><em>Foto: Divulga\u00e7\u00e3o<\/em><\/p>\n<p><strong>Checamos algumas das principais afirma\u00e7\u00f5es feitas pelos deputados que querem mudar a lei de agrot\u00f3xicos<\/strong><\/p>\n<p>O detector de agrocascatas est\u00e1 de volta. Desta vez, n\u00f3s o utilizamos para checar a veracidade de v\u00e1rias afirma\u00e7\u00f5es feitas pelos deputados da bancada ruralista durante as discuss\u00f5es da comiss\u00e3o especial que aprovou o substitutivo do deputado Luiz Nishimori (PR-PR) ao PL 6.299, o famoso PL do Veneno, no fim de maio. O projeto visa a afrouxar as regras para a aprova\u00e7\u00e3o de pesticidas no Brasil, sob alega\u00e7\u00e3o de que a lei atual \u00e9 \u201cantiga\u201d e impede a \u201cmoderniza\u00e7\u00e3o\u201d do campo.<\/p>\n<p>Mas ser\u00e1 mesmo? Descubra abaixo onde os ruralistas t\u00eam raz\u00e3o e onde n\u00e3o t\u00eam.<\/p>\n<p><b>\u201cA nova lei vai aumentar a seguran\u00e7a para a sa\u00fade e o meio ambiente e reduzir o uso de agrot\u00f3xicos, pois introduz tecnologias mais modernas.\u201d<\/b><\/p>\n<p><b>N\u00c3O NECESSARIAMENTE\u00a0<\/b>\u2013 Pesticidas mais modernos de fato s\u00e3o usados em doses menores, porque s\u00e3o muito mais espec\u00edficos para as pragas que visam combater. Mas quem diz que a mera ado\u00e7\u00e3o da tecnologia vai reduzir o impacto ignora fatos b\u00e1sicos sobre a natureza humana: se um produtor rural tem \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o uma tecnologia mais moderna que vai aumentar sua produtividade, o que ele faz \u00e9 produzir mais, aumentar sua \u00e1rea de plantio e usar mais dessa tecnologia para ganhar mais dinheiro, e n\u00e3o se contentar estoicamente com manter a produ\u00e7\u00e3o no mesmo patamar de antes s\u00f3 para poder usar menos insumos.<\/p>\n<p>Quem duvida pode olhar para a hist\u00f3ria. No fim da d\u00e9cada de 1990 e come\u00e7o da de 2000, antes de os transg\u00eanicos serem liberados no Brasil, os defensores da soja transg\u00eanica roundup-ready, da Monsanto, alegavam que essa tecnologia reduziria o uso de agrot\u00f3xicos, j\u00e1 que ela permite a aplica\u00e7\u00e3o do herbicida glifosato (o Roundup, tamb\u00e9m da Monsanto) com a planta ainda jovem, o que em tese demandaria menos pulveriza\u00e7\u00f5es. Veja o que dizia Leila Oda, da CTNBio, uma das principais defensoras dos transg\u00eanicos no Brasil naquela \u00e9poca:<\/p>\n<p><i>\u201cPrecisamos reconhecer que o modelo agr\u00edcola se esgotou no mundo. Temos duas op\u00e7\u00f5es: ou continuamos com os desmatamentos ou aprimoramos os m\u00e9todos agr\u00edcolas. A transgenia veio para solucionar esse problema, sem aumentar a \u00e1rea de plantio e com menos uso de agrot\u00f3xicos.\u201d (Isto\u00e9, 10\/3\/2004).<\/i><\/p>\n<p>E a cartilha da Associa\u00e7\u00e3o Nacional de Biosseguran\u00e7a, um grupo de lobby bancado pela ind\u00fastria, em 2003, ano em que a soja transg\u00eanica foi liberada:<\/p>\n<p><i>\u201cAs plantas transg\u00eanicas tolerantes a herbicidas e as resistentes a insetos j\u00e1 s\u00e3o cultivadas em v\u00e1rios pa\u00edses do mundo e t\u00eam contribu\u00eddo para reduzir significativamente a quantidade de uso de agrot\u00f3xicos.\u201d (Em<\/i><a href=\"http:\/\/memoria.ebc.com.br\/agenciabrasil\/noticia\/2003-12-10\/cientistas-distribuem-cartilha-esclarecendo-duvidas-sobre-transgenicos\">\u00a0<i>reportagem da EBC<\/i><\/a><i>\u00a0de 10\/12\/2003)<\/i><\/p>\n<p>Mas e no mundo real, o que aconteceu?<a href=\"http:\/\/www.redalyc.org\/html\/630\/63053248019\/\">\u00a0Um estudo de pesquisadores da Embrapa publicado em 2017<\/a>\u00a0no peri\u00f3dico\u00a0<i>Ci\u00eancia e Sa\u00fade Coletiva<\/i>\u00a0avaliou a produ\u00e7\u00e3o, a produtividade e o consumo de defensivos na soja entre 2000 e 2012, ou seja, antes, durante e depois da entrada dos transg\u00eanicos. Os dados mostram\u00a0<b>que o uso de agrot\u00f3xicos na cultura de soja triplicou no per\u00edodo, enquanto no restante da agricultura ele cresceu 1,6 vez.<\/b>\u00a0<b>A quantidade de agrot\u00f3xicos por hectare de soja cresceu 64%<\/b>, enquanto a produ\u00e7\u00e3o de soja por quilo de herbicida caiu 43%. Em toda a agricultura, o uso de agrot\u00f3xicos cresceu tr\u00eas vezes mais que a produtividade e dez vezes mais que a popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><b>A oposi\u00e7\u00e3o ao PL do veneno \u201c\u00e9 coisa de petista\u201d, da \u201cesquerdalha\u201d<\/b><\/p>\n<p><b>MENTIRA<\/b>\u00a0\u2013 Quando deputados como Lu\u00eds Carlos Heinze (PP-RS) e N\u00edlson Leit\u00e3o (PSDB-MT) dizem isso, demonstram ter mem\u00f3ria curta ou contam com a mem\u00f3ria curta dos eleitores. Afinal, ambos j\u00e1 eram deputados quando a mudan\u00e7a do C\u00f3digo Florestal foi implementada, em 2012. Na \u00e9poca, a bancada ruralista e o governo do PT, partido que ela ora critica, estavam juntinhos na aprova\u00e7\u00e3o da lei que anistiou desmatamentos ilegais e fragilizou a prote\u00e7\u00e3o ambiental. O relator da mudan\u00e7a do c\u00f3digo, Aldo Rebelo, era um deputado do PCdoB (um partido \u201cesquerdalha\u201d que votou em massa a favor do novo c\u00f3digo). Aldo foi l\u00edder, presidente da C\u00e2mara e ministro nos governos petistas, mas nada disso o impediu de ser incensado pelos ditos representantes do agroneg\u00f3cio na \u00e9poca. Enquadrar a quest\u00e3o do agrot\u00f3xico como polariza\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria \u00e9 um cambalacho ret\u00f3rico dos deputados que apoiam o PL do Veneno.<\/p>\n<p><b>\u201cA lei atual impede a importa\u00e7\u00e3o emergencial de defensivos e torna a agricultura brasileira vulner\u00e1vel a superpragas, como a lagarta\u00a0<\/b><b><i>Helicoverpa<\/i><\/b><b>, que atingiu a soja e causou preju\u00edzos bilion\u00e1rios.\u201d<\/b><\/p>\n<p><b>MENTIRA<\/b>\u00a0\u2013 Desde 2013 o Brasil tem uma lei que permite a importa\u00e7\u00e3o de agrot\u00f3xicos sem registro no pa\u00eds para emerg\u00eancias fitossanit\u00e1rias. \u00c9 a Lei n\u00ba 12.873, conhecida, vejam s\u00f3, como\u00a0<a href=\"http:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/_ato2011-2014\/2013\/lei\/l12873.htm\">Lei de Emerg\u00eancia Fitossanit\u00e1ria<\/a>, regulamentada por decreto naquele mesmo ano. Essa lei foi aprovada justamente por causa de um surto de lagarta\u00a0<i>Helicoverpa<\/i>\u00a0na soja, para o qual o setor produtivo demandou a importa\u00e7\u00e3o do pesticida benzoato de emamectina (cujo registro fora negado em 2007 pela Anvisa por suspeita de que ele fosse neurot\u00f3xico e causasse m\u00e1-forma\u00e7\u00e3o fetal). A Anvisa autorizou o produto em 2017.<\/p>\n<p>As superpragas, como a\u00a0<i>Helicoverpa<\/i>, s\u00e3o\u00a0<a href=\"http:\/\/www.weedscience.org\/\">resultado do uso excessivo e descontrolado de agrot\u00f3xicos.<\/a>\u00a0\u00c9 a boa e velha sele\u00e7\u00e3o natural de Darwin em opera\u00e7\u00e3o: se voc\u00ea usa muito veneno numa popula\u00e7\u00e3o de uma praga, indiv\u00edduos que desenvolvam muta\u00e7\u00f5es que os tornem resistentes a esse veneno v\u00e3o se disseminar. Estudo publicado n<a href=\"https:\/\/www.nature.com\/news\/case-studies-a-hard-look-at-gm-crops-1.12907\">o peri\u00f3dico\u00a0<i>Nature<\/i>\u00a0em 2013<\/a>\u00a0cita o aumento da resist\u00eancia das plantas invasoras aos herbicidas devido ao uso indiscriminado destes produtos. Isto tem alimentado um c\u00edrculo vicioso que onde todos perdem: agrot\u00f3xico \u2013 pragas e invasoras resistentes; mais agrot\u00f3xico \u2013 mais impacto, mais custo para o produtor, mais comida contaminada.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" src=\"http:\/\/www.observatoriodoclima.eco.br\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/superweed-300x246.png\" alt=\"superweed\" width=\"759\" height=\"622\" \/>Fonte:\u00a0<i>Nature News<\/i><\/p>\n<p><b>\u201cO Brasil n\u00e3o \u00e9 o maior consumidor mundial de pesticidas.\u201d<\/b><\/p>\n<p><b>VERDADE, MAS<\/b>\u00a0\u2013 Segundo<a href=\"http:\/\/www.ibama.gov.br\/agrotoxicos\/relatorios-de-comercializacao-de-agrotoxicos#boletinsanuais\">\u00a0dados do Ibama<\/a>, o Brasil comercializou 477 mil toneladas de ingredientes ativos de agrot\u00f3xicos em 2012, \u00faltimo ano para o qual h\u00e1 dados compar\u00e1veis com outros pa\u00edses (em 2016 foram 551 mil toneladas). O n\u00famero \u00e9 um pouco menor que o dos Estados Unidos, onde 498 mil toneladas foram comercializadas no mesmo ano,<a href=\"https:\/\/www.epa.gov\/sites\/production\/files\/2017-01\/documents\/pesticides-industry-sales-usage-2016_0.pdf\">\u00a0segundo a EPA<\/a>\u00a0(Ag\u00eancia de Prote\u00e7\u00e3o Ambiental), e bem menor que o da China, onde,<a href=\"http:\/\/www.fao.org\/faostat\/en\/?#data\/RP\/visualize\">\u00a0segundo a FAO<\/a>\u00a0(Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Alimenta\u00e7\u00e3o e Agricultura), 1,8 milh\u00e3o de toneladas foram comercializadas em 2012. Mas \u00e9 maior que o da<a href=\"http:\/\/ec.europa.eu\/eurostat\/documents\/3217494\/7777899\/KS-FK-16-001-EN-N.pdf\/cae3c56f-53e2-404a-9e9e-fb5f57ab49e3\">\u00a0Uni\u00e3o Europeia<\/a>, que registrou 396 mil toneladas usadas em seus 28 pa\u00edses naquele ano.<\/p>\n<p>O uso de pesticidas por hectare no Brasil, por\u00e9m, era de 7 kg de ingrediente ativo\/ha em 2012 (<a href=\"https:\/\/biblioteca.ibge.gov.br\/visualizacao\/livros\/liv94254.pdf\">segundo o IBGE<\/a>, calculado com base nos dados do Ibama), menor que o do Jap\u00e3o (12 kg\/ha, segundo o governo japon\u00eas e a FAO), mas mais do que duas vezes maior que o dos EUA (2,6 kg\/ha) e maior que o de todos os pa\u00edses europeus exceto Chipre e Malta (cerca de 9 kg\/ha cada um). N\u00e3o h\u00e1 dados por hectare dispon\u00edveis para a China.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do mais, enquanto na maioria dos pa\u00edses desenvolvidos o uso total de pesticidas se mant\u00e9m constante nas \u00faltimas d\u00e9cadas,\u00a0<b>no Brasil ele explodiu: foram impressionantes 606% de aumento entre 1990 e 2012<\/b>, contra 135% na China, 151% no Canad\u00e1, 166% na Col\u00f4mbia e 105% na Austr\u00e1lia. Esta conta foi feita com base nos dados da FAO, que s\u00e3o bem menos acurados que os dados nacionais usados neste documento, mas permitem compara\u00e7\u00e3o entre os pa\u00edses desde 1990.<\/p>\n<p>\u00c9 \u00fatil ter essa compara\u00e7\u00e3o, mas a m\u00e9trica de consumo total n\u00e3o conta toda a hist\u00f3ria. \u00c9 preciso considerar que tipo de veneno \u00e9 usado em que tipo de cultura, como ele reage com que tipo de ambiente e quanto de res\u00edduo fica no alimento, no solo ou na \u00e1gua. No Brasil, segundo\u00a0<a href=\"http:\/\/contraosagrotoxicos.org\/dossieagrotoxicos\/\">dossi\u00ea da Abrasco<\/a>\u00a0(Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Sa\u00fade Coletiva), entre os 50 pesticidas mais usados, 22 s\u00e3o proibidos na Uni\u00e3o Europeia. O que importa \u00e9 que usamos muito agrot\u00f3xico no Brasil e temos evid\u00eancia de que isso causa impactos ao meio ambiente e \u00e0 sa\u00fade.<\/p>\n<p><b>\u201cA Lei de Agrot\u00f3xicos \u00e9 velha, de 1989, e o campo avan\u00e7ou nesse per\u00edodo, portanto ela precisa ser modificada para se alinhar com os tempos atuais.\u201d<\/b><\/p>\n<p><b>FAL\u00c1CIA\u00a0\u2013<\/b>\u00a0Este tipo de argumento usado pelos ruralistas \u00e9 chamado de \u201cnon sequitur\u201d: ele enuncia uma premissa verdadeira e uma conclus\u00e3o que n\u00e3o segue logicamente a premissa.<\/p>\n<p>Primeiramente, idade de promulga\u00e7\u00e3o de uma legisla\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico crit\u00e9rio de sua aplicabilidade. A Constitui\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos tem mais de 200 anos de idade e o pa\u00eds funciona muito bem, obrigado, porque sua aplica\u00e7\u00e3o vem se atualizando.<\/p>\n<p>A\u00a0<a href=\"http:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/Leis\/L7802.htm\">Lei 7.802<\/a>, que trata dos agrot\u00f3xicos, foi de fato aprovada em 1989. Mas ela teve sua aplica\u00e7\u00e3o regulamentada por decreto duas vezes, em 1990 e em 2002. A forma como ela \u00e9 aplicada hoje, portanto, \u00e9 de 15 anos atr\u00e1s, n\u00e3o de 30. Ser\u00e1 que 15 anos de idade tamb\u00e9m tornam a lei caduca? Ora, 2002 \u00e9 o mesm\u00edssimo ano de proposi\u00e7\u00e3o do PL 6.299 original. Ou seja, ningu\u00e9m estava de fato interessado em \u201cmodernizar\u201d a lei. E, mesmo que houvesse essa necessidade, como houve em 2002, isso poderia ser feito, como foi, sem necessidade de mexer na legisla\u00e7\u00e3o. O que se busca \u00e9 o afrouxamento das regras, n\u00e3o sua atualiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Outro problema desse argumento \u00e9 a pr\u00f3pria no\u00e7\u00e3o de \u201cmodernidade\u201d que ele embute. Sistemas agr\u00edcolas modernos deveriam ser menos dependentes de agrot\u00f3xicos, n\u00e3o mais \u00a0\u2013 veja o caso do Jap\u00e3o, que tem reduzido progressivamente o uso por hectare, e o da Uni\u00e3o Europeia, que em 25 anos tirou 60% dos agrot\u00f3xicos do mercado; ambos mant\u00eam agriculturas altamente modernas e tecnificadas. A agricultura dos \u201ctempos atuais\u201d tem menor impacto ambiental e emite menos carbono.<\/p>\n<p><b>\u201cA aprova\u00e7\u00e3o de novos pesticidas no Brasil \u00e9 lenta e burocr\u00e1tica demais e nos p\u00f5e em desvantagem em rela\u00e7\u00e3o ao resto do mundo.\u201d<\/b><\/p>\n<p><b>MEIA-VERDADE<\/b>\u00a0\u2013 A libera\u00e7\u00e3o de pesticidas no ambiente \u00e9 um processo demorado em qualquer lugar, e precisa ser. Um mesmo princ\u00edpio ativo usado em ambientes diferentes tem diferentes impactos, diferentes velocidades de degrada\u00e7\u00e3o e interage com diferentes esp\u00e9cies. Por isso, as an\u00e1lises de perigo e de risco precisam ser feitas caso a caso. Isso leva tempo. Quanto tempo? De novo, varia imensamente de pa\u00eds para pa\u00eds. Na Uni\u00e3o Europeia, as an\u00e1lises s\u00e3o feitas pelos governos dos pa\u00edses que pedem o registro de uma nova subst\u00e2ncia, e<a href=\"http:\/\/ec.europa.eu\/assets\/sante\/food\/plants\/pesticides\/lop\/index.html\">\u00a0levam tr\u00eas anos ou mais<\/a>. No Jap\u00e3o, o registro e as avalia\u00e7\u00f5es envolvem quatro \u00f3rg\u00e3os do governo e levam de dois a tr\u00eas anos. As an\u00e1lises de risco s\u00e3o feitas por uma comiss\u00e3o especial ligada ao gabinete do premi\u00ea, a Comiss\u00e3o de Seguran\u00e7a Alimentar.<\/p>\n<p>No Brasil, as an\u00e1lises \u00a0t\u00e9cnicas, propriamente ditas levam menos tempo: menos de 120 dias para os chamados produtos t\u00e9cnicos equivalentes (que s\u00e3o a base para prepara\u00e7\u00e3o dos \u201cgen\u00e9ricos\u201d dos pesticidas e que t\u00eam o segundo maior n\u00famero de pedidos de registro) e no m\u00e1ximo um ano e meio (ou seja, metade do tempo da Uni\u00e3o Europeia) para produtos t\u00e9cnicos novos, inclu\u00eddas a\u00ed as an\u00e1lises do Ibama e da Anvisa. O problema \u00e9 a fila: at\u00e9 chegar a vez de ser analisado, um produto pode levar quatro anos ou mais na espera. Num caso extremo (mas que \u00e9 um s\u00f3), um veneno submetido em 2011 at\u00e9 agora aguarda na fila para ser analisado. H\u00e1 v\u00e1rias centenas de produtos aguardando para entrar em an\u00e1lise no Ibama e na Anvisa. A imensa maioria \u00e9 de gen\u00e9ricos e agrot\u00f3xicos formulados. Princ\u00edpios ativos novos s\u00e3o minoria esmagadora: apenas 13 na fila de espera no Ibama.<\/p>\n<p>Diferentemente do que dizem os ruralistas, por\u00e9m, a fila n\u00e3o tem nada a ver com antiguidade ou a inadequa\u00e7\u00e3o da Lei de Agrot\u00f3xicos, e sim com a estrutura dos \u00f3rg\u00e3os de an\u00e1lise.\u00a0<strong>O Ibama tem uma equipe de 22 pessoas, que consegue processar 300 pedidos por ano. S\u00f3 que todo ano entram para an\u00e1lise cerca de 500 pedidos, segundo informa\u00e7\u00f5es do pr\u00f3prio \u00f3rg\u00e3o. Com a equipe duplicada, seria poss\u00edvel dar conta da demanda com folga e zerar a fila de espera<\/strong>\u00a0(spoiler: n\u00e3o precisa mudar a lei para isso, basta contratar gente no Ibama). Para compara\u00e7\u00e3o, os EUA, que comercializam anualmente quase a mesma quantidade de agrot\u00f3xicos que o Brasil, t\u00eam<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/06\/26\/politica\/1530040030_454748.html\">\u00a0800 pessoas na equipe de avalia\u00e7\u00e3o<\/a>.<\/p>\n<p><b>\u201cA lei atual impede que defensivos mais modernos, portanto menos t\u00f3xicos e mais seguros cheguem ao Brasil. Ao se oporem \u00e0 mudan\u00e7a, os ambientalistas e os artistas est\u00e3o atentando contra o meio ambiente.\u201d<\/b><\/p>\n<p><b>MENTIRA\u00a0\u2013<\/b>\u00a0Os pesticidas est\u00e3o ficando menos t\u00f3xicos e mais eficientes \u00e0 medida que evoluem. Mas isso n\u00e3o \u00e9 exclusividade deles: os avan\u00e7os valem para qualquer produto industrial, de chips de computador a l\u00e2mpadas, de carros a telefones celulares. Tudo fica melhor e mais eficiente.<\/p>\n<p>Ocorre que n\u00e3o h\u00e1 nada na legisla\u00e7\u00e3o brasileira que trave a entrada desses produtos mais modernos. Ao contr\u00e1rio: desde 2016, o Mapa (Minist\u00e9rio da Agricultura) vem editando listas de agrot\u00f3xicos priorit\u00e1rios, que \u201cfuram a fila\u201d da avalia\u00e7\u00e3o. J\u00e1 foram 124 nesse \u201cfast track\u201d. Em 2016, 71 produtos. Em 2017, 53 produtos. Da lista de 2016, s\u00f3 h\u00e1 sete produtos que ainda est\u00e3o em avalia\u00e7\u00e3o, ou seja, a libera\u00e7\u00e3o da maioria deles aconteceu em dois anos (lembre-se de que a Uni\u00e3o Europeia demora at\u00e9 quatro anos apenas para fazer os estudos de risco). Sabe quantos produtos novos \u2013 portanto, em tese menos t\u00f3xicos \u2013 foram inclu\u00eddos pelo minist\u00e9rio nas listas de prioridades nesse total de 124? 20, ou seja, apenas 16%.\u00a0<strong>O Minist\u00e9rio da Agricultura tem nas m\u00e3os o instrumento para acelerar a libera\u00e7\u00e3o de novos defensivos e o usa pouco<\/strong>. E a\u00ed a gente pergunta: a culpa \u00e9 da lei?<\/p>\n<p><b>\u201cO Jap\u00e3o tem a maior expectativa de vida do mundo e eles usam mais agrot\u00f3xicos que a gente.\u201d<\/b><\/p>\n<p><b>INVERIFIC\u00c1VEL<\/b>\u00a0\u2013 A frase que o deputado Valdir Colatto (MDB-SC) repetiu em todas as reuni\u00f5es da comiss\u00e3o do veneno \u00e9 estapaf\u00fardia. A expectativa de vida no Jap\u00e3o de fato \u00e9 a mais alta do mundo, 84,2 anos segundo a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade. E os japoneses usavam 12 quilos de defensivos por hectare em suas lavouras em 2012. Ocorre que o Jap\u00e3o usa menos veneno hoje do que usava em 1990 (16,5 quilos), e o uso continua caindo: em 2014 era 11,9 kg\/ha, segundo o governo japon\u00eas. Mas a expectativa de vida subiu mais de seis anos nestas quase tr\u00eas d\u00e9cadas. Al\u00e9m do mais, se a causa da longevidade fosse o veneno, as Ilhas Maur\u00edcio, que usam 22 quilos por hectare, teriam alta expectativa de vida, mas n\u00e3o t\u00eam: ela \u00e9 menor que no Brasil (74,8 anos l\u00e1 contra 75,1 anos aqui). Os suecos, por outro lado, n\u00e3o deveriam viver 82 anos, j\u00e1 que usam menos de 1 kg de pesticida por hectare. O mais prov\u00e1vel, para sorte desses pa\u00edses, \u00e9 que uma coisa n\u00e3o tenha nada a ver com a outra. O deputado comete a cl\u00e1ssica confus\u00e3o entre correla\u00e7\u00e3o e causa.<\/p>\n<p><b>\u201cO Ibama e a Anvisa n\u00e3o perdem poder de aprovar pesticidas com a mudan\u00e7a.\u201d<\/b><\/p>\n<p><b>MENTIRA\u00a0<\/b><b>\u2013\u00a0<\/b>O<a href=\"http:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/decreto\/2002\/d4074.htm\">\u00a0Decreto 4.074<\/a>, que regulamentou em 2002 a Lei de Agrot\u00f3xicos, determina que o registro de defensivos cabe a um triunvirato formado pelos minist\u00e9rios da Agricultura, do Meio Ambiente (atrav\u00e9s do Ibama) e da Sa\u00fade (atrav\u00e9s da Anvisa). Cabe ao Ibama realizar as avalia\u00e7\u00f5es ambientais e \u00e0 Anvisa as avalia\u00e7\u00f5es toxicol\u00f3gicas sobre os produtos cujo registro \u00e9 pedido, bem como fazer reavalia\u00e7\u00f5es sobre o risco de produtos j\u00e1 no mercado, a partir de novos conhecimentos que se apresentem.<\/p>\n<p>O<a href=\"http:\/\/www.camara.gov.br\/proposicoesWeb\/prop_mostrarintegra?codteor=1672492&amp;filename=SBT-A+1+PL629902+%3D%3E+PL+6299\/2002\">\u00a0substitutivo ao PL 6.299<\/a>\u00a0aprovado na comiss\u00e3o especial da C\u00e2mara atribui a fun\u00e7\u00e3o de registrar, reavaliar e fiscalizar agrot\u00f3xicos apenas ao Minist\u00e9rio da Agricultura. Ele transfere ao fabricante do agrot\u00f3xico ou requerente do registro a responsabilidade de realizar os estudos de risco ao meio ambiente e \u00e0 sa\u00fade humana \u2013 fun\u00e7\u00f5es que hoje s\u00e3o do Ibama e da Anvisa. Estes \u00f3rg\u00e3os do governo, pela proposta, dever\u00e3o se limitar a \u201canalisar e, quando couber, homologar\u201d os pareceres t\u00e9cnicos que vir\u00e3o literalmente prontos de f\u00e1brica. Ibama e Anvisa j\u00e1 se manifestaram em notas t\u00e9cnicas contr\u00e1rios \u00e0 manobra.<\/p>\n<p><b>\u201cN\u00e3o h\u00e1 prova de que agrot\u00f3xicos fazem mal a ningu\u00e9m. S\u00e3o consumidos h\u00e1 d\u00e9cadas e ningu\u00e9m morreu.\u201d<\/b><\/p>\n<p><b>MENTIRA<\/b>\u00a0\u2013 H\u00e1 provas abundantes do risco dos pesticidas para a sa\u00fade e para o meio ambiente. Nada mais natural, j\u00e1 que a fun\u00e7\u00e3o dessas subst\u00e2ncias, como o nome indica, \u00e9\u00a0<i>matar<\/i>. Desde 1962, quando a bi\u00f3loga americana Rachel Carson lan\u00e7ou o primeiro alerta sobre o impacto devastador do DDT e outros pesticidas nos EUA sobre a vida selvagem, a sa\u00fade humana e sua poss\u00edvel liga\u00e7\u00e3o com o c\u00e2ncer (alerta este que levou ao banimento do DDT no fim daquela d\u00e9cada), os agrot\u00f3xicos v\u00eam sendo objeto de muitos estudos e controle estrito. Em 2001, uma\u00a0<a href=\"http:\/\/www.pops.int\/TheConvention\/ThePOPs\/AllPOPs\/tabid\/2509\/Default.aspx\">conven\u00e7\u00e3o da ONU<\/a>\u00a0baniu uma s\u00e9rie de pesticidas considerados poluentes org\u00e2nicos persistentes, capazes de se acumular em organismos da \u00e1gua e do solo durante muitos anos e em concentra\u00e7\u00f5es muito superiores \u00e0s da pulveriza\u00e7\u00e3o. Entre eles est\u00e3o organoclorados como o aldrin, o dieldrin, o clordano, o heptachlor e o endrin. Diferentemente do que dizem os deputados, esses venenos mataram muita gente no s\u00e9culo passado, muitas vezes por consumo de comida ou \u00e1gua contaminada. O aldrin, apesar de banido no mundo, foi encontrado em amostras de leite materno em Lucas do Rio Verde (MT) em 2010, segundo dossi\u00ea da Abrasco (Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Sa\u00fade Coletiva).<\/p>\n<p>Segundo um\u00a0<a href=\"http:\/\/daccess-ods.un.org\/access.nsf\/Get?Open&amp;DS=A\/HRC\/34\/48&amp;Lang=E\">relat\u00f3rio das Na\u00e7\u00f5es Unidas publicado em 2017<\/a>, os pesticidas causam 200 mil mortes por ano por intoxica\u00e7\u00e3o aguda no mundo todo, quase todas nos pa\u00edses em desenvolvimento. O fato de parte dessas mortes serem suic\u00eddios, como um v\u00eddeo produzido pelos defensores do PL do veneno busca atenuar, n\u00e3o autoriza leni\u00eancia com esses produtos \u2013 da mesma forma como armas de fogo n\u00e3o deixam de precisar de controle porque muita gente se mata com elas.<\/p>\n<p>No mundo todo, ainda segundo a ONU, a exposi\u00e7\u00e3o a pesticidas vem sendo ligada por v\u00e1rios estudos a doen\u00e7as cr\u00f4nicas, como os males de Parkinson e Alzheimer, v\u00e1rios tipos de c\u00e2ncer, malforma\u00e7\u00f5es fetais, disrup\u00e7\u00e3o do sistema hormonal, perda de mem\u00f3ria e de vis\u00e3o e\u00a0<a href=\"http:\/\/science.sciencemag.org\/content\/341\/6147\/740\">problemas no desenvolvimento cognitivo<\/a>.<\/p>\n<p>No entanto, os agrot\u00f3xicos representam um desafio \u00e0 epidemiologia, j\u00e1 que v\u00e1rias doen\u00e7as s\u00e3o multifatoriais, que os problemas de sa\u00fade decorrentes de pesticidas podem se desenvolver muitos anos ap\u00f3s a exposi\u00e7\u00e3o e que as pessoas s\u00e3o expostas a v\u00e1rios produtos qu\u00edmicos e outros fatores de risco ambiental em suas vidas. Estabelecer uma rela\u00e7\u00e3o direta entre exposi\u00e7\u00e3o a pesticidas ou consumo de alimentos com res\u00edduos a c\u00e2ncer e outras doen\u00e7as \u00e9 dif\u00edcil \u2013 e \u00e9 nessa brecha de conhecimento que alguns deputados se apoiam para dizer que \u201cningu\u00e9m morreu\u201d.<\/p>\n<p>Mesmo assim, h\u00e1 v\u00e1rios casos bem estabelecidos no documento da ONU de mortes e doen\u00e7as graves relacionadas diretamente ao consumo de alimentos contendo pesticidas: 23 crian\u00e7as na \u00cdndia em 2013 (por consumo de comida com monocrotof\u00f3s), 39 crian\u00e7as na China em 2014 (por res\u00edduos de TETs) e 11 crian\u00e7as em Bangladesh no ano seguinte (por consumo de frutas com pesticidas). Nos EUA, a contamina\u00e7\u00e3o de aqu\u00edferos pelo pesticida atrazina \u2013 banido na Uni\u00e3o Europeia em 2004 \u2013 foi parar nos tribunais, por associa\u00e7\u00e3o com o aumento do risco de malforma\u00e7\u00f5es em beb\u00eas.<\/p>\n<p>\u00c9 justamente por causa desses riscos que todos os pa\u00edses do mundo estabelecem limites m\u00e1ximos de res\u00edduos nos alimentos, assim como na \u00e1gua e nos solos (os \u00faltimos ainda n\u00e3o existem no Brasil). Por aqui, uma an\u00e1lise da Anvisa de 2010 mostrou que 63% dos alimentos em 26 Estados apresentavam contamina\u00e7\u00e3o por agrot\u00f3xicos. Desse total, 28% possu\u00eda subst\u00e2ncias n\u00e3o autorizadas para aquele cultivo ou acima dos limites m\u00e1ximos legais. Dezenas de munic\u00edpios avaliados pelo IBGE em 2011 no Atlas de Saneamento e Sa\u00fade apresentavam contamina\u00e7\u00e3o da \u00e1gua por agrot\u00f3xicos.<\/p>\n<p>Bem mais f\u00e1ceis de estabelecer e de acompanhar s\u00e3o os danos \u00e0 sa\u00fade das pessoas expostas constantemente a agrot\u00f3xicos \u2013 os trabalhadores rurais e as comunidades pr\u00f3ximas a \u00e1reas agr\u00edcolas. Em 2006, a cidade de Lucas do Rio Verde registrou uma chuva de paraquate, um veneno usado para dessecar soja, que evaporara das \u00e1reas de cultivo. Na mesma cidade, em 2010, v\u00e1rios res\u00edduos de agrot\u00f3xicos foram detectados no leite materno \u2013 inclusive de produtos banidos como o aldrin e o DDT.<\/p>\n<p>Uma avalia\u00e7\u00e3o de 370 trabalhadores rurais da regi\u00e3o de Campinas mostrou que 79,2% deles tinham exposi\u00e7\u00e3o de longo prazo a agrot\u00f3xicos e 20,8% demonstravam \u201cprov\u00e1veis efeitos \u00e0 sa\u00fade\u201d. \u201c<i>Se avaliarmos essa porcentagem em rela\u00e7\u00e3o ao total de trabalhadores rurais brasileiros que fazem uso de agrot\u00f3xicos, a constata\u00e7\u00e3o se torna preocupante, visto que milhares deles est\u00e3o apresentando altera\u00e7\u00f5es laboratoriais e\/ou cl\u00ednicas que nos fazem pensar em algum tipo de efeito \u00e0 sa\u00fade decorrente do uso do agrot\u00f3xico, apresentando um problema de sa\u00fade p\u00fablica<\/i>\u201d, conclui o<a href=\"http:\/\/www.anamt.org.br\/site\/upload_arquivos\/revista_brasileira_volume_9_n%C2%BA_1_201220131218497055475.pdf\">\u00a0estudo, de 2011<\/a>. Curiosamente, um de seus autores \u00e9 o m\u00e9dico \u00c2ngelo Zanaga Trap\u00e9, da Unicamp, especialista alistado pela bancada ruralista para defender a mudan\u00e7a na lei de agrot\u00f3xicos.<\/p>\n<p>Segundo a Abrasco, entre 2007 e 2014 foram notificados 34.147 casos de intoxica\u00e7\u00e3o por agrot\u00f3xicos no Brasil.<\/p>\n<p>Como alguns efeitos s\u00f3 s\u00e3o descobertos v\u00e1rios anos depois que uma subst\u00e2ncia \u00e9 aprovada para uso, revis\u00f5es peri\u00f3dicas dos pesticidas s\u00e3o feitas pelas autoridades e v\u00e1rios deles s\u00e3o retirados do mercado. Um exemplo \u00e9 o endossulfam, proibido no Brasil em 2013 ap\u00f3s estudos demonstrarem sua propriedade de bagun\u00e7ar o sistema hormonal humano e sua toxicidade reprodutiva. Outro \u00e9 o dessecante paraquate, que recentemente teve mudan\u00e7as em suas regras de uso determinadas pela Anvisa por suspeita de causar Alzheimer.<\/p>\n<p>Na UE, um produto novo tem uma licen\u00e7a de dez anos, e uma renova\u00e7\u00e3o acontece por 15 anos. Nos \u00faltimos 25 anos, as autoridades europeias come\u00e7aram a revisar os registros de pesticidas. Como resultado, mais de metade dos registros foram cancelados: hoje o n\u00famero de subst\u00e2ncias ativas no mercado caiu de 1.000 para 400 \u2013 e 25% destas s\u00e3o produtos naturais, como microrganismos, extratos vegetais e ferom\u00f4nios de insetos.<\/p>\n<p><b>\u201cN\u00e3o d\u00e1 para alimentar o mundo sem agrot\u00f3xicos.\u201d<\/b><\/p>\n<p><b>VERDADE, MAS\u00a0<\/b>\u2013\u00a0A agricultura brasileira \u00e9 de fato dependente de agrot\u00f3xicos hoje. Mas temos experi\u00eancias de produ\u00e7\u00e3o em pequena e grande escala, na agricultura familiar e empresarial de produ\u00e7\u00e3o de alimentos, commodities e de biocombust\u00edveis em sistemas de produ\u00e7\u00e3o org\u00e2nica ou com baixo uso de agrot\u00f3xicos no Brasil e no mundo. Dos assentamentos \u00e0 marca Native e a produ\u00e7\u00e3o de cana org\u00e2nica em larga escala em monocultivos em Sert\u00e3ozinho, interior paulista, est\u00e1 provada a viabilidade da produ\u00e7\u00e3o com alta produtividade e lucratividade sem agrot\u00f3xico. Profissionais de assist\u00eancia t\u00e9cnica rural tamb\u00e9m poderiam ajudar a disseminar conhecimento sobre as vantagens de pr\u00e1ticas de cultivo mais saud\u00e1veis. No Vietn\u00e3, onde isso foi feito, produtores de arroz que passaram a ganhar dinheiro do governo para usar menos agrot\u00f3xicos viram sua produtividade crescer. Portanto, n\u00e3o h\u00e1 uma barreira t\u00e9cnica ou cient\u00edfica para uma agricultura org\u00e2nica ou ao menos com muito menor uso ou depend\u00eancia de agrot\u00f3xico. A transi\u00e7\u00e3o para esta realidade n\u00e3o \u00e9 trivial e exigiria uma guinada na pesquisa e nas pol\u00edticas que orientam o que, como e quem produz no Brasil. Mexeria no interesse de empresas de insumos e associa\u00e7\u00f5es de classe, por exemplo. Mas interessaria ao bem p\u00fablico e \u00e0s empresas de alimentos, al\u00e9m de gerar economia ao sistema de sa\u00fade e vantagens ambientais e comerciais ao Brasil, dado que mercados como o europeu e o norte-americano exigem cada vez mais alimentos org\u00e2nicos. A transi\u00e7\u00e3o poderia gerar muita inova\u00e7\u00e3o e neg\u00f3cios, assim como uma economia de baixo carbono. Trata-se de uma quest\u00e3o de poder e querer, mas uma ambi\u00e7\u00e3o totalmente poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Fonte &#8211; Observat\u00f3rio do Clima de 11 de julho de 2018<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Foto: Divulga\u00e7\u00e3o Checamos algumas das principais afirma\u00e7\u00f5es feitas pelos deputados que querem mudar a lei de agrot\u00f3xicos O detector de agrocascatas est\u00e1 de volta. 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