{"id":25418,"date":"2018-08-08T09:00:51","date_gmt":"2018-08-08T12:00:51","guid":{"rendered":"http:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=25418"},"modified":"2018-08-06T13:49:14","modified_gmt":"2018-08-06T16:49:14","slug":"por-que-faz-sentido-avisar-sobre-presenca-de-adocantes-nos-alimentos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/por-que-faz-sentido-avisar-sobre-presenca-de-adocantes-nos-alimentos\/","title":{"rendered":"Por que faz sentido avisar sobre presen\u00e7a de ado\u00e7antes nos alimentos"},"content":{"rendered":"<p><strong>Anvisa considera n\u00e3o haver evid\u00eancia para colocar edulcorantes no mesmo n\u00edvel de sal, a\u00e7\u00facar e gorduras saturadas. Mas forma atual de comunica\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m deixa a desejar<\/strong><\/p>\n<p>O debate na Anvisa sobre a ado\u00e7\u00e3o de alertas nos r\u00f3tulos de alimentos ultraprocessados levantou uma quest\u00e3o: faz sentido avisar de maneira mais clara sobre a presen\u00e7a de ado\u00e7antes nesses produtos?<\/p>\n<p>Inicialmente, a ag\u00eancia pretende adotar advert\u00eancias sobre o excesso de a\u00e7\u00facar, sal e gorduras saturadas. E deixar de lado aquelas sobre gorduras totais, gordura trans e ado\u00e7antes, que eram um pedido do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec).<\/p>\n<p>A\u00a0<a href=\"http:\/\/portal.anvisa.gov.br\/tomada-publica-de-subsidios\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">primeira etapa de consulta p\u00fablica<\/a>\u00a0est\u00e1 aberta at\u00e9 24 de julho\u00a0<a href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/ojoioeotrigo\/2018\/07\/industria-consegue-liminar-para-atrasar-debate-sobre-alertas-em-alimentos\/\">por for\u00e7a de uma liminar obtida pela Associa\u00e7\u00e3o Brasileira das Ind\u00fastrias de Alimenta\u00e7\u00e3o (Abia)<\/a>. A expectativa \u00e9 de que, em seguida, a ag\u00eancia re\u00fana as sugest\u00f5es e elabore um rascunho da resolu\u00e7\u00e3o que ser\u00e1 adotada. \u00c9 poss\u00edvel que se reconsidere algum ponto.<\/p>\n<p>No caso dos ado\u00e7antes, a Ger\u00eancia Geral de Alimentos declarou no relat\u00f3rio inicial n\u00e3o haver evid\u00eancias suficientes de que causem mal \u00e0 sa\u00fade. Por\u00e9m, olhando para essas evid\u00eancias, a controv\u00e9rsia \u00e9 tanta que faz sentido pensar em alguma maneira de melhorar a comunica\u00e7\u00e3o sobre a presen\u00e7a dessas subst\u00e2ncias.<\/p>\n<p>Atualmente, existe a obriga\u00e7\u00e3o de declarar os edulcorantes na lista de ingredientes, via de regra apresentada em letras mi\u00fadas e nem sempre facilmente localiz\u00e1vel.<\/p>\n<p>A crescente preocupa\u00e7\u00e3o com os problemas de sa\u00fade provocados pelo a\u00e7\u00facar j\u00e1 tem levado a ind\u00fastria a promover uma substitui\u00e7\u00e3o por ado\u00e7antes e nem sempre isso est\u00e1 evidente\u00a0 para o consumidor. A ado\u00e7\u00e3o do alerta espec\u00edfico para o a\u00e7\u00facar pode acelerar esse processo. Foi o que ocorreu no Chile, \u00fanico pa\u00eds at\u00e9 aqui a implementar essas advert\u00eancias.<\/p>\n<p>Vamos pegar um exemplo pr\u00e1tico de como as pessoas podem ser levadas a engano. O Nescau Prontinho Light declara 12 gramas de a\u00e7\u00facar, contra 17 gramas do concorrente, o Toddynho Light. Ambos ganhariam um selo de alto em a\u00e7\u00facar, segundo o perfil de nutrientes da Organiza\u00e7\u00e3o Panamericana de Sa\u00fade (Opas).<\/p>\n<p>\u00c9 o modelo que o Idec leva em conta e que \u00e9 defendido pela Alian\u00e7a pela Alimenta\u00e7\u00e3o Adequada e Saud\u00e1vel. Mas a\u00ed vem a m\u00e1gica: os cinco gramas de a\u00e7\u00facar a menos no Nescau s\u00e3o obtidos gra\u00e7as ao uso dos edulcorantes sucralose e acessulfame de pot\u00e1ssio. Pensando que esse \u00e9 um produto voltado ao p\u00fablico infantil, \u00e9 importante avisar m\u00e3es e pais a respeito.<\/p>\n<p><strong>D\u00favidas, d\u00favidas, d\u00favidas<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 muitas d\u00favidas sobre os males \u00e0 sa\u00fade que essas subst\u00e2ncias podem causar. Lemos v\u00e1rios e v\u00e1rios artigos para tentar entender o cen\u00e1rio (parte da bibliografia voc\u00ea encontra l\u00e1 embaixo). A principal certeza \u00e9 de que ainda n\u00e3o conhecemos os efeitos dos ado\u00e7antes no metabolismo t\u00e3o bem quanto sal, a\u00e7\u00facar e gorduras, e que muitos estudos ser\u00e3o necess\u00e1rios.<\/p>\n<p>Originalmente pensados para diab\u00e9ticos, os ado\u00e7antes foram publicizados como item quase obrigat\u00f3rio para quem quer emagrecer. E foram ganhando mais e mais presen\u00e7a na vida das pessoas em geral, preocupadas com o crescimento dos \u00edndices de obesidade.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/eHa6KdvT_Gc?ecver=1\" width=\"600\" height=\"490\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n<p>Acontece que hoje j\u00e1 n\u00e3o sabemos se esses produtos ajudam ou atrapalham. Alguns estudos desde o final da d\u00e9cada passada t\u00eam levantado a possibilidade de que os ado\u00e7antes na verdade estimulem a obesidade por mudan\u00e7as provocadas em nosso organismo. \u00c9 contra-intuitivo pensar que subst\u00e2ncias n\u00e3o cal\u00f3ricas provoquem ganho de peso, mas \u00e9 poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Um dos primeiros estudos foi publicado em 2008. Feito em San Antonio, nos Estados Unidos, usou como base os dados coletados de 5.158 adultos entre 1979 e 1988. Os maiores usu\u00e1rios de ado\u00e7antes apresentaram maior ganho de massa corporal nesse intervalo \u2013 47% mais que entre os n\u00e3o consumidores.<\/p>\n<p>H\u00e1 alguns artigos que revisam as evid\u00eancias cient\u00edficas acumuladas.\u00a0<a href=\"https:\/\/is.muni.cz\/el\/1411\/jaro2016\/MNDB0821c\/SLADIDLA2013.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Um deles foi feito em 2013 por pesquisadores dos Estados Unidos<\/a>. A avalia\u00e7\u00e3o \u00e9 de que \u201ch\u00e1 uma lacuna de pesquisas baseadas em evid\u00eancias cient\u00edficas conclusivas para desencorajar ou encorajar o uso. No entanto, consumidores deveriam ser aconselhados a empregar uma atitude cautelosa\u201d. N\u00e3o \u00e9 o que temos atualmente. Pelo contr\u00e1rio.<\/p>\n<p>Susan Swithers, professora do Departamento de Ci\u00eancias Psicol\u00f3gicas da Universidade de Purdue, nos Estados Unidos, e neurocientista comportamental, estuda h\u00e1 15 anos essas subst\u00e2ncias. Ela ajudou a levantar a ideia de que os ado\u00e7antes podem provocar uma altera\u00e7\u00e3o metab\u00f3lica. \u201cA controv\u00e9rsia ajuda a ind\u00fastria porque confunde os consumidores. A confus\u00e3o significa que as pessoas mant\u00eam seus h\u00e1bitos, o que ajuda a vender produtos.\u201d<\/p>\n<p>Na d\u00favida, a legisla\u00e7\u00e3o brasileira prev\u00ea adotar o princ\u00edpio da precau\u00e7\u00e3o. O C\u00f3digo de Defesa do Consumidor fala sobre a necessidade de informar a respeito de produtos que eventualmente acarretem riscos \u00e0 sa\u00fade.<\/p>\n<p>Foi isso, exatamente, que levou a Anvisa\u00a0<a href=\"http:\/\/portal.anvisa.gov.br\/documents\/10181\/2718376\/RDC_46_2009_COMP.pdf\/2148a322-03ad-42c3-b5ba-718243bd1919\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">a proibir em 2009 a venda de cigarros eletr\u00f4nicos<\/a>, \u201cconsiderando a inexist\u00eancia de dados cient\u00edficos que comprovem a efici\u00eancia, a efic\u00e1cia e a seguran\u00e7a no uso e manuseio de quaisquer dispositivos eletr\u00f4nicos para fumar\u201d.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 tamb\u00e9m o princ\u00edpio que garante que um tri\u00e2ngulo amarelo com um T seja colocado em produtos com transg\u00eanicos na composi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em\u00a0<a href=\"https:\/\/www.bmj.com\/content\/361\/bmj.k2340\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">um artigo recente para o\u00a0<em>British Medical Journal<\/em>,<\/a>\u00a0David Ludwig e Frank Hu, professores do Departamento de Nutri\u00e7\u00e3o de Harvard, abordam o intenso debate sobre o consumo de carboidratos. E se perguntam: a substitui\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00facar por ado\u00e7ante promove benef\u00edcios ou amea\u00e7as? \u00c9 preciso realizar mais estudos para poder responder com seguran\u00e7a.<\/p>\n<p>Em\u00a0<a href=\"https:\/\/www.ncbi.nlm.nih.gov\/pmc\/articles\/PMC5325726\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">um artigo de 2013<\/a>, Frank Hu analisou as evid\u00eancias sobre os benef\u00edcios da redu\u00e7\u00e3o do consumo de refrigerantes com a\u00e7\u00facar. \u201cRefrigerantes diet podem ser uma alternativa aceit\u00e1vel para o consumo de refrigerantes com a\u00e7\u00facar, \u00e0 medida em que fornecem menos ou nenhuma caloria. Por\u00e9m, pouco se sabe sobre as consequ\u00eancias de longo prazo para a sa\u00fade do consumo de ado\u00e7antes artificiais.\u201d<\/p>\n<p>A\u00a0<em>American Heart Association<\/em>\u00a0e a\u00a0<em>American Diabetes Association<\/em>\u00a0emitiram em 2012 um posicionamento conjunto no qual sugerem um uso cauteloso dos ado\u00e7antes. Ainda que entendam que essas subst\u00e2ncias podem ser ben\u00e9ficas na redu\u00e7\u00e3o da ingest\u00e3o de calorias, a avalia\u00e7\u00e3o \u00e9 de que n\u00e3o h\u00e1 evid\u00eancia cient\u00edfica de que tragam ganhos em termos de controle e perda de peso.<\/p>\n<p><strong>1. Paladar<\/strong><\/p>\n<p>Em meio a tantas d\u00favidas, est\u00e1 razoavelmente assentada a ideia de que os ado\u00e7antes estimulam um paladar doce. Essas subst\u00e2ncias s\u00e3o de centenas a milhares de vezes mais doces que o a\u00e7\u00facar. \u201cUma quantidade min\u00fascula produz um sabor doce compar\u00e1vel ao do a\u00e7\u00facar, sem as calorias equivalentes. A superestimula\u00e7\u00e3o dos receptores de a\u00e7\u00facar com o uso frequente desses ado\u00e7antes hiperintensos pode limitar a toler\u00e2ncia para sabores mais complexos\u201d, disse\u00a0<a href=\"https:\/\/www.health.harvard.edu\/blog\/artificial-sweeteners-sugar-free-but-at-what-cost-201207165030\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">recentemente<\/a>o professor Ludwig.<\/p>\n<p>\u00c9 esse o motivo pelo qual a Organiza\u00e7\u00e3o Panamericana de Sa\u00fade sugere que os ado\u00e7antes sejam inclu\u00eddos entre as advert\u00eancias. \u201cA justificativa para a inclus\u00e3o \u00e9 que o consumo habitual de sabores doces (baseados em a\u00e7\u00facar ou n\u00e3o) promove a ingest\u00e3o de alimentos e bebidas doces, inclusive daqueles que cont\u00eam a\u00e7\u00facares. Esse resultado \u00e9 especialmente importante nas crian\u00e7as pequenas, pois o consumo em idade precoce define os padr\u00f5es de consumo ao longo da vida.\u201d<\/p>\n<p>N\u00e3o temos at\u00e9 hoje evid\u00eancia conclusiva de que os ado\u00e7antes levem a uma redu\u00e7\u00e3o da ingest\u00e3o cal\u00f3rica. Isso pode ser explicado por v\u00e1rios fatores. Um deles voc\u00ea v\u00ea no cotidiano: a pessoa consome o ado\u00e7ante para conquistar o direito de consumir outros alimentos doces, numa esp\u00e9cie de compensa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nos Estados Unidos, os obesos s\u00e3o os maiores consumidores desses produtos. L\u00e1, ado\u00e7ante \u00e9 um produto comum entre todas as classes. No Brasil, talvez devido ao baixo pre\u00e7o do a\u00e7\u00facar, \u00e9 usado especialmente por classes m\u00e9dia e alta,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.ncbi.nlm.nih.gov\/pmc\/articles\/PMC5872713\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">como evidenciou uma an\u00e1lise rec\u00e9m-publicada por pesquisadores do Rio de Janeiro<\/a>. Os dados da Pesquisa de Or\u00e7amentos Familiares de 2008-09 mostraram o consumo por 7,6% da popula\u00e7\u00e3o \u2013 14% entre os mais ricos e 1,6% entre os mais pobres.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso observar, no entanto, que as informa\u00e7\u00f5es dispon\u00edveis s\u00e3o antigas, e \u00e9 de se esperar que o consumo tenha aumentado nos \u00faltimos anos. Os ado\u00e7antes usados em refrigerantes e sucos s\u00e3o comuns na mesa de fam\u00edlias de classe baixa, e cada vez mais \u00e0 medida em que a obesidade se torna uma preocupa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Outro fator a entender \u00e9 o quanto os ado\u00e7antes serviram de est\u00edmulo ao consumo de produtos n\u00e3o saud\u00e1veis. O quanto foram uma porta de entrada que se somou aos motivos para a ingest\u00e3o cada vez maior de doces. Um\u00a0<a href=\"https:\/\/www.sciencedaily.com\/releases\/2017\/01\/170110101625.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">estudo publicado no ano passado<\/a>\u00a0mostrou um crescimento de 200% no uso de edulcorantes por crian\u00e7as dos Estados Unidos entre 1999 e 2012. 25% delas consomem regularmente \u2013 41% entre adultos. Quanto maior a massa corporal, maior o consumo. E, no geral, os pais tinham dificuldade em reconhecer a presen\u00e7a de ado\u00e7antes nos produtos, refor\u00e7ando a ideia de que a forma de comunica\u00e7\u00e3o atual \u00e9 insuficiente.<\/p>\n<p>\u201cAs autoridades de sa\u00fade deveriam realmente se concentrar em reduzir o dul\u00e7or presente na dieta, em vez de substituir o a\u00e7\u00facar por outros produtos\u201d, considera Susan Swithers. \u201cIsso \u00e9 especialmente verdade para crian\u00e7as, que est\u00e3o aprendendo qual deve ser o sabor de bebidas e comidas. Comer e beber alimentos hiperadocicados, mesmo com um ado\u00e7ante n\u00e3o cal\u00f3rico, poderia levar as crian\u00e7as a uma vida de h\u00e1bitos alimentares n\u00e3o saud\u00e1veis.\u201d<\/p>\n<p><strong>2. Diabetes<\/strong><\/p>\n<p>Existem d\u00favidas se os ado\u00e7antes podem, em vez de prevenir, estimular o diabetes. Pelo mesmo motivo das altera\u00e7\u00f5es no paladar: uma subst\u00e2ncia extremamente doce poderia provocar uma resposta na produ\u00e7\u00e3o de insulina. Mas \u00e9 cedo para qualquer conclus\u00e3o, de modo que esses produtos continuam sendo recomendados para diab\u00e9ticos.<\/p>\n<p>A Associa\u00e7\u00e3o Nacional de Aten\u00e7\u00e3o ao Diabetes protocolou na Anvisa uma carta indignada com a sugest\u00e3o do Idec. \u201cTal proposta vem discriminar TODOS os produtos voltados para o p\u00fablico portador de diabetes. E sendo assim, acaba por discriminar o pr\u00f3prio p\u00fablico que necessita consumir estes produtos por necessidades dietoter\u00e1picas. Assim, entendemos que a presente proposta mais cria confus\u00e3o e p\u00e2nico do que educa e orienta.\u201d<\/p>\n<p>De fato, o alarmismo em torno de quest\u00f5es alimentares\u00a0<a href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/ojoioeotrigo\/2018\/01\/os-alimentos-ultraprocessados-sao-os-reis-da-confusao\/\">tem suscitado grande confus\u00e3o<\/a>. Mas a falta de informa\u00e7\u00f5es adequadas tamb\u00e9m causa confus\u00e3o \u2013 e sonega um direito. O erro a gente j\u00e1 tem, de modo que talvez valha a pena testar novas ideias, com embasamento cient\u00edfico, sem criar alarmismo. O que temos at\u00e9 aqui permite dizer com seguran\u00e7a que \u00e9 saud\u00e1vel trocar refrigerante por \u00e1gua. A troca por refrigerante diet ou light \u00e9 recomendada por alguns e recusada por outros.<\/p>\n<p><strong>3. Microbiota<\/strong><\/p>\n<p>Nos \u00faltimos anos a ci\u00eancia tem se maravilhado com o sequenciamento gen\u00e9tico de nosso ambiente intestinal \u2013 o microbioma. H\u00e1 uma correla\u00e7\u00e3o entre o microbioma empobrecido e a obesidade, embora ainda falte entender qual mecanismo leva a isso.<\/p>\n<p>Uma s\u00e9rie de estudos tem mostrado uma altera\u00e7\u00e3o no microbioma de ratos tratados com ado\u00e7antes n\u00e3o cal\u00f3ricos. Via de regra, aumentou-se a presen\u00e7a de bact\u00e9rias potencialmente nocivas e capazes de desencadear inflama\u00e7\u00e3o, e diminuiu-se a presen\u00e7a de bact\u00e9rias ben\u00e9ficas. Foram registrados aumento de peso e altera\u00e7\u00e3o na produ\u00e7\u00e3o de insulina.<\/p>\n<p>Seria precipitado extrapolar esses resultados para humanos. O que essas pesquisas mostram \u00e9 a necessidade de fazer mais pesquisas. \u00c9 a\u00ed que a porca torce o rabo. \u201cOnde precisamos de mais evid\u00eancias \u00e9 na compreens\u00e3o dos mecanismos espec\u00edficos e em como esses mecanismos interagem com quest\u00f5es como gen\u00e9tica e o restante da dieta\u201d, diz Susan Swithers.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que pesquisas em humanos s\u00e3o caras. E \u00e9 dif\u00edcil de isolar um \u00fanico fator da dieta, j\u00e1 que nossos h\u00e1bitos de vida s\u00e3o entremeados por in\u00fameras quest\u00f5es. \u201cFinanciar esse tipo de ci\u00eancia \u00e9 realmente importante e tem de ser financiamento sem la\u00e7os com a ind\u00fastria que fabrica esses produtos\u201d, continua a professora da Universidade Purdue.<\/p>\n<p>J\u00e1 falamos aqui no\u00a0<em><strong>Joio<\/strong><\/em>\u00a0sobre\u00a0<a href=\"http:\/\/journals.plos.org\/plosone\/article?id=10.1371\/journal.pone.0162198\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">um artigo que revisou o conflito de interesses na pesquisa sobre ado\u00e7antes<\/a>. O estudo repassou 31 trabalhos publicados entre 1978 e 2014. Dos quatro financiados pela ind\u00fastria de ado\u00e7antes, tr\u00eas eram favor\u00e1veis. Todos os quatro financiados pelos fabricantes de a\u00e7\u00facar eram desfavor\u00e1veis. Dos 23 sem financiamento privado, apenas um tinha conclus\u00e3o favor\u00e1vel aos edulcorantes.<\/p>\n<p>Os \u00f3rg\u00e3os reguladores n\u00e3o t\u00eam op\u00e7\u00e3o que n\u00e3o seja olhar para esses artigos na hora de definir pela libera\u00e7\u00e3o de um novo produto ou de criar pol\u00edticas p\u00fablicas. No geral, o que organismos de sa\u00fade e agricultura fazem \u00e9 declarar que se trata de uma subst\u00e2ncia \u201csegura para uso\u201d. O problema \u00e9 que os estudos toxicol\u00f3gicos n\u00e3o levam em conta efeitos a longo prazo.<\/p>\n<p>Uma das mais antigas pulgas atr\u00e1s da orelha em rela\u00e7\u00e3o a ado\u00e7antes diz respeito \u00e0 correla\u00e7\u00e3o com o c\u00e2ncer. O Instituto Nacional de C\u00e2ncer (Inca) considera que os estudos realizados at\u00e9 aqui apontam resultados conflitantes e, muitas vezes, t\u00eam v\u00e1rios problemas na execu\u00e7\u00e3o. Por\u00e9m, a organiza\u00e7\u00e3o, vinculada ao Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, est\u00e1 trabalhando em uma revis\u00e3o das evid\u00eancias existentes, com possibilidade de publica\u00e7\u00e3o ainda no segundo semestre. Essa revis\u00e3o levar\u00e1 em conta quem foi o financiador de cada estudo.<\/p>\n<p>\u201cNo Inca defendemos o princ\u00edpio da precau\u00e7\u00e3o\u201d, diz Ronaldo Correa, da \u00c1rea T\u00e9cnica de Alimenta\u00e7\u00e3o, Nutri\u00e7\u00e3o, Atividade F\u00edsica e C\u00e2ncer do Inca. Com base nisso, o Inca decidiu apresentar uma contribui\u00e7\u00e3o \u00e0 consulta p\u00fablica da Anvisa na qual fala sobre os edulcorantes. Em outra frente, a organiza\u00e7\u00e3o apresentou evid\u00eancias da correla\u00e7\u00e3o entre c\u00e2ncer e obesidade. \u201cQuando se tem a aus\u00eancia de evid\u00eancia concreta, mas h\u00e1 d\u00favida, a sugest\u00e3o \u00e9 evitar ou limitar a exposi\u00e7\u00e3o a essa subst\u00e2ncia em vez de esperar por um desfecho negativo para ent\u00e3o tomar uma atitude.\u201d<\/p>\n<p><strong>Alguns artigos utilizados nessa reportagem<\/strong><\/p>\n<p>Bian, X.; Tu, P.; Chi, L.; Gao, B.; Ru, H.; Lu, K. Saccharin induced liver inflammation in mice by altering the gut microbiota and its metabolic functions. Food Chem. Toxicol. 2017, 107, 530\u2013539.<\/p>\n<p>Bian, X.; Chi, L.; Gao, B.; Tu, P.; Ru, H.; Lu, K. The artificial sweetener acesulfame potassium affects the gut microbiome and body weight gain in CD-1 mice. PLoS ONE 2017, 12, e0178426.<\/p>\n<p>Chi, L.; Bian, X.; Gao, B.; Tu, P.; Lai, Y.; Ru, H.; Lu, K. Effects of the Artificial Sweetener Neotame on the Gut Microbiome and Fecal Metabolites in Mice.\u00a0<em>Molecules<\/em>\u00a02018,\u00a0<em>23<\/em>, 367.<\/p>\n<p>Fagherazzi G, Vilier A, Saes Sartorelli D, Lajous M, Balkau B, Clavel-Chapelon F. Consumption of artificially and sugar-sweetened beverages and incident type 2 diabetes in the Etude Epidemiologique aupres des femmes de la Mutuelle Generale de l\u2019Education Nationale-European Prospective Investigation into Cancer and Nutrition cohort. Am J Clin Nutr. 2013;97(3):517-23.<\/p>\n<p><span class=\"highwire-cite-authors\"><span data-delta=\"0\"><span class=\"nlm-surname\">Ludwig<\/span>\u00a0<span class=\"nlm-given-names\">David S<\/span><\/span>,\u00a0<span data-delta=\"1\"><span class=\"nlm-surname\">Hu<\/span>\u00a0<span class=\"nlm-given-names\">Frank B<\/span><\/span>,\u00a0<span data-delta=\"2\"><span class=\"nlm-surname\">Tappy<\/span>\u00a0<span class=\"nlm-given-names\">Luc<\/span><\/span>,\u00a0<span data-delta=\"3\"><span class=\"nlm-surname\">Brand-Miller<\/span>\u00a0<span class=\"nlm-given-names\">Jennie<\/span><\/span>.\u00a0<\/span><span class=\"highwire-cite-title article-title\">Dietary carbohydrates: role of quality and quantity in chronic disease<\/span>\u00a0<span class=\"highwire-cite-metadata\"><span class=\"highwire-cite-metadata-journal highwire-cite-metadata\">BMJ\u00a0<\/span><span class=\"highwire-cite-metadata-date highwire-cite-metadata\">2018;\u00a0<\/span><span class=\"highwire-cite-metadata-volume highwire-cite-metadata\">361\u00a0<\/span><span class=\"highwire-cite-metadata-volume highwire-cite-metadata\">:k2340<\/span><\/span><\/p>\n<p>Mandrioli\u00a0D, Kearns\u00a0CE, Bero\u00a0LA (2016)\u00a0Relationship between Research Outcomes and Risk of Bias, Study Sponsorship, and Author Financial Conflicts of Interest in Reviews of the Effects of Artificially Sweetened Beverages on Weight Outcomes: A Systematic Review of Reviews. PLOS ONE 11(9): e0162198.<a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1371\/journal.pone.0162198\">https:\/\/doi.org\/10.1371\/journal.pone.0162198<\/a><\/p>\n<p>Mennella JA. Ontogeny of taste preferences: basic biology and implications for health. Am J Clin Nutr. 2014;99 (3):704S\u201311S.<\/p>\n<p>Rogers PJ et al. Does low-energy sweetener consumption affect energy intake and body weight? A systematic review, including meta-analyses, of the evidence from human and animal studies. Int J Obes (London) 2016 Mar;40(3):381-94.<\/p>\n<p>Shankar P, Ahuja S, Sriram K (2013). Non-nutritive sweeteners: Review and update. Nutrition, 29(11-12):1293-1299 Bellisle F. Intense Sweeteners, Appetite for the Sweet Taste, and Relationship to Weight Management. Curr Obes Rep 2015; 4(1): 106-110<\/p>\n<p>Silva Monteiro, Luana et al. \u201cUse of Table Sugar and Artificial Sweeteners in Brazil: National Dietary Survey 2008\u20132009.\u201d\u00a0<i>Nutrients<\/i>\u00a010.3 (2018): 295.\u00a0<i>PMC<\/i>. Web. 12 July 2018.<\/p>\n<p>Spencer M, Gupta A, Van Dam L, Shannon C, Menees S, Chey WD. Artificial Sweeteners: A Systematic Review and Primer for Gastroenterologists.\u00a0<i>Journal of Neurogastroenterology and Motility<\/i>. 2016;22(2):168-180. doi:10.5056\/jnm15206.<\/p>\n<p>Suez, J. et al. Artificial sweeteners induce glucose intolerance by altering the gut microbiota. Nature 2014. doi:10.1038\/nature13793.<\/p>\n<p>Sylvetsky, A. C., Greenberg, M., Zhao, X., &amp; Rother, K. I. (2014). What parents think about giving nonnutritive sweeteners to their children. A pilot study.<\/p>\n<p>Swithers SE. Artificial sweeteners are not the answer to childhood obesity. Appetite. 2015;93:85\u201390. 29<\/p>\n<p>Swithers, S. E., Sample, C. H., &amp; Davidson, T. L. (2013). Adverse effects of high-intensity sweeteners on energy intake and weight control in male and obesity-prone female rats. Behavioral Neuroscience, 127(2), 262\u2013274. doi:10.1037\/a0031717.<\/p>\n<p><span class=\"highwire-cite-authors\"><span data-delta=\"0\"><span class=\"nlm-surname\">Valdes<\/span>\u00a0<span class=\"nlm-given-names\">Ana M<\/span><\/span>,\u00a0<span data-delta=\"1\"><span class=\"nlm-surname\">Walter<\/span>\u00a0<span class=\"nlm-given-names\">Jens<\/span><\/span>,\u00a0<span data-delta=\"2\"><span class=\"nlm-surname\">Segal<\/span>\u00a0<span class=\"nlm-given-names\">Eran<\/span><\/span>,\u00a0<span data-delta=\"3\"><span class=\"nlm-surname\">Spector<\/span>\u00a0<span class=\"nlm-given-names\">Tim D<\/span><\/span>.\u00a0<\/span><span class=\"highwire-cite-title article-title\">Role of the gut microbiota in nutrition and health<\/span>\u00a0<span class=\"highwire-cite-metadata\"><span class=\"highwire-cite-metadata-journal highwire-cite-metadata\">BMJ\u00a0<\/span><span class=\"highwire-cite-metadata-date highwire-cite-metadata\">2018;\u00a0<\/span><span class=\"highwire-cite-metadata-volume highwire-cite-metadata\">361\u00a0<\/span><span class=\"highwire-cite-metadata-volume highwire-cite-metadata\">:k2179<\/span><\/span><\/p>\n<p>Fonte &#8211; Jo\u00e3o Peres, O Joio e o Trigo de 18 de julho de 2018<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Anvisa considera n\u00e3o haver evid\u00eancia para colocar edulcorantes no mesmo n\u00edvel de sal, a\u00e7\u00facar e gorduras saturadas. 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