{"id":25439,"date":"2018-08-21T13:00:34","date_gmt":"2018-08-21T16:00:34","guid":{"rendered":"http:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=25439"},"modified":"2018-08-06T16:20:25","modified_gmt":"2018-08-06T19:20:25","slug":"entrevista-sufocados-por-agrotoxicos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/entrevista-sufocados-por-agrotoxicos\/","title":{"rendered":"Entrevista: Sufocados por Agrot\u00f3xicos"},"content":{"rendered":"<p><em>Bernardo, de 30 e poucos anos, nasceu em uma comunidade quilombola onde vivem aproximadamente 60 pessoas, entre homens, mulheres e crian\u00e7as no estado de Minas Gerais. Bernardo disse \u00e0 Human Rights Watch que se sente impotente contra a pulveriza\u00e7\u00e3o a\u00e9rea de agrot\u00f3xicos. \u201cFizemos v\u00e1rias ocorr\u00eancias no quartel, delegacia [de pol\u00edcia civil]\u201d, ele disse. \u201cNingu\u00e9m resolve\u2014n\u00e3o existe justi\u00e7a\u201d.\u00a0\u00a9 2018 Marizilda Crupp\u00e9 para Human Rights Watch<\/em><\/p>\n<p><strong>Agricultores industriais brasileiros pulverizam produtos qu\u00edmicos perigosos perto de escolas e comunidades<\/strong><\/p>\n<p>O Brasil \u00e9 o maior mercado de agrot\u00f3xicos do mundo. Uma legisla\u00e7\u00e3o fr\u00e1gil sobre agrot\u00f3xicos \u2013 sob risco de se tornar ainda mais fraca \u2013 significa que agrot\u00f3xicos perigosos s\u00e3o pulverizados nas imedia\u00e7\u00f5es de escolas, comunidades ind\u00edgenas, quilombolas e rurais, deixando pessoas doentes e colocando em risco sua sa\u00fade a longo prazo. Richard Pearshouse, diretor adjunto da divis\u00e3o de meio ambiente da Human Rights Watch, fala com Amy Braunschweiger sobre a situa\u00e7\u00e3o de comunidades rurais e por que as pessoas t\u00eam medo de se manifestarem contra o uso de agrot\u00f3xicos.<\/p>\n<p><strong>O que est\u00e1 acontecendo com os agrot\u00f3xicos no Brasil?<\/strong><\/p>\n<p>O Brasil \u00e9 uma pot\u00eancia agr\u00edcola em termos da quantidade de terras cultivadas. O cultivo de soja, cana-de-a\u00e7\u00facar, algod\u00e3o e milho \u00e9 feito em escala industrial e agrot\u00f3xicos s\u00e3o usados \u200b\u200bintensivamente. Al\u00e9m disso, s\u00e3o utilizados agrot\u00f3xicos perigosos. Apesar disso, h\u00e1 um grande apoio pol\u00edtico para o modelo de grandes fazendas e de uso de agrot\u00f3xicos.<\/p>\n<p>A agricultura \u00e9 uma enorme for\u00e7a pol\u00edtica no Brasil. Muitos pol\u00edticos s\u00e3o fazendeiros, compondo a chamada \u201cbancada ruralista\u201d, um bloco pol\u00edtico muito poderoso. Eles buscam enfraquecer as leis que tratam de agrot\u00f3xicos.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/ZSUpkXW4bQY?ecver=1\" width=\"600\" height=\"400\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><em>Dentre os 10 agrot\u00f3xicos mais usados no Brasil no ano de 2016, quatro n\u00e3o s\u00e3o autorizados para uso na Europa, o que evidencia qu\u00e3o perigosos eles s\u00e3o para outros governos.<\/em><\/p>\n<p><strong>Os agrot\u00f3xicos s\u00e3o usados \u200b\u200bde maneira perigosa?<\/strong><\/p>\n<p>Em todo o Brasil rural h\u00e1 um enorme problema com a deriva de agrot\u00f3xicos. Isto \u00e9, com a dispers\u00e3o de sua aplica\u00e7\u00e3o para al\u00e9m da \u00e1rea designada, atingindo comunidades e pessoas nas proximidades. E isso serve tanto para a pulveriza\u00e7\u00e3o terrestre \u2013 um grande trator com as barras de cada lado e os bicos embaixo dos bra\u00e7os \u2013 quanto para os avi\u00f5es que pulverizam enquanto sobrevoam as planta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Com a agricultura industrial de larga escala, h\u00e1 menos trabalhadores nas planta\u00e7\u00f5es. N\u00f3s nos atentamos \u00e0s pessoas que vivem imediatamente nas redondezas dessas planta\u00e7\u00f5es \u2013 pessoas em vilarejos, escolas rurais, comunidades quilombolas e ind\u00edgenas \u2013 em sete localidades por todo o pa\u00eds. Os agrot\u00f3xicos s\u00e3o pulverizados at\u00e9 suas imedia\u00e7\u00f5es e \u00e0s vezes mesmo sobre elas. Se voc\u00ea mora ali, pode ficar doente. Encontramos muitos casos de intoxica\u00e7\u00e3o aguda, que ocorre durante ou logo ap\u00f3s a pulveriza\u00e7\u00e3o de agrot\u00f3xicos. As pessoas vomitam, sentem n\u00e1useas e tonturas por conta dos produtos qu\u00edmicos. Esses s\u00e3o apenas os sintomas mais imediatos. A exposi\u00e7\u00e3o, semana ap\u00f3s semana, m\u00eas ap\u00f3s m\u00eas, pode levar a s\u00e9rios problemas de sa\u00fade, como c\u00e2ncer, infertilidade e impactos negativos no desenvolvimento infantil.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.hrw.org\/sites\/default\/files\/styles\/16%3A9_946x534\/public\/multimedia_images_2018\/201807americas_brazil_pesticides10.jpg?itok=K3B30GfV\" alt=\"Jovana, uma mulher de 20 e poucos anos, com sua filha pequena. Elas vivem no estado de Minas Gerais e, assim como outros moradores, disse que avi\u00c3\u00b5es fazem aplica\u00c3\u00a7\u00c3\u00b5es frequentes de agrot\u00c3\u00b3xicos sobre as casas da sua comunidade. Ela descreveu ter sido atingi\" \/><em>Jovana, uma mulher de 20 e poucos anos, com sua filha pequena. Elas vivem no estado de Minas Gerais e, assim como outros moradores, disse que avi\u00f5es fazem aplica\u00e7\u00f5es frequentes de agrot\u00f3xicos sobre as casas da sua comunidade. Ela descreveu ter sido atingida pela pulveriza\u00e7\u00e3o de agrot\u00f3xico por avi\u00f5es, junto com suas crian\u00e7as, tendo apresentado sintomas que incluem dores de cabe\u00e7a, n\u00e1usea, tontura e v\u00f4mito.\u00a0<span class=\"figure-credit\">\u00a9 2018 Marizilda Crupp\u00e9 para Human Rights Watch<\/span><\/em><\/p>\n<p>Conversamos com uma mulher que estudava em uma escola rural \u00e0 noite e ela nos contou de ir \u00e0 aula e se sentir mal pela fuma\u00e7a, ainda que os agrot\u00f3xicos tivessem sido pulverizados algumas horas antes. Ela teve que sair, vomitou v\u00e1rias vezes e teve que ir para casa. As aulas foram canceladas. No dia seguinte, ela ainda sentia enjoo por conta dos agrot\u00f3xicos. E tudo que ela fez foi ir \u00e0 escola no per\u00edodo noturno. Pessoas assim, hist\u00f3rias assim, acabam te marcando.<\/p>\n<p><strong>E o Brasil est\u00e1 usando agrot\u00f3xicos proibidos em outros pa\u00edses?<\/strong><\/p>\n<p>Quando voc\u00ea olha a lista dos 10 principais agrot\u00f3xicos utilizados \u200b\u200bno Brasil por seu ingrediente ativo, 4 s\u00e3o proibidos na Uni\u00e3o Europeia, e o quinto deles dever\u00e1 ser proibido at\u00e9 2019.<\/p>\n<p>A legisla\u00e7\u00e3o brasileira sobre agrot\u00f3xicos j\u00e1 \u00e9 bastante fr\u00e1gil. Ainda assim, ela \u00e9 amea\u00e7ada por um projeto de lei que reduziria a compet\u00eancia das ag\u00eancias de sa\u00fade e ambientais na aprova\u00e7\u00e3o de agrot\u00f3xicos A decis\u00e3o de aprovar agrot\u00f3xicos ficaria concentrada no Minist\u00e9rio da Agricultura.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, em vez de autoridades sanit\u00e1rias e ambientais estarem avaliando os perigos dos agrot\u00f3xicos utilizados \u200b\u200bno Brasil e decidindo sobre quais deveriam ser proibidos, esses minist\u00e9rios est\u00e3o ocupados, defendendo-se contra esse projeto de lei que amea\u00e7a sua capacidade de realizar esse trabalho.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.hrw.org\/sites\/default\/files\/styles\/16%3A9_946x534\/public\/multimedia_images_2018\/201807americas_brazil_pesticides12.jpg?itok=aS_OGQPe\" alt=\"Uiara, uma mulher de 50 e poucos anos vive no estado de Minas Gerais. Ela disse \u00c3\u00a0 Human Rights Watch que \u00e2\u0080\u009co avi\u00c3\u00a3o sobrevoa nossas casas com o pulverizador ligado. N\u00c3\u00b3s n\u00c3\u00a3o esperamos, n\u00c3\u00b3s corremos para dentro das casas. Os agrot\u00c3\u00b3xicos s\u00c3\u00a3o muito fortes\u00e2\u0080\u009d.\" \/><em>Uiara, uma mulher de 50 e poucos anos vive no estado de Minas Gerais. Ela disse \u00e0 Human Rights Watch que \u201co avi\u00e3o sobrevoa nossas casas com o pulverizador ligado. N\u00f3s n\u00e3o esperamos, n\u00f3s corremos para dentro das casas. Os agrot\u00f3xicos s\u00e3o muito fortes\u201d.\u00a0<span class=\"figure-credit\">\u00a9 2018 Marizilda Crupp\u00e9 para Human Rights Watch<\/span><\/em><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.hrw.org\/sites\/default\/files\/styles\/16%3A9_946x534\/public\/multimedia_images_2018\/201807americas_brazil_pesticides13.jpg?itok=DzCVAnBa\" alt=\"Estevo, um homem em seus 50 anos, vive no estado de Minas Gerais. Ele disse \u00c3\u00a0 Human Rights Watch que \u00e2\u0080\u009co avi\u00c3\u00a3o [pulverizando agrot\u00c3\u00b3xicos] sobrevoa a comunidade. Diversas vezes agrot\u00c3\u00b3xicos ca\u00c3\u00adram sobre mim enquanto eu trabalhava na terra. N\u00c3\u00a3o h\u00c3\u00a1 nada que po\" \/><em>Estevo, um homem em seus 50 anos, vive no estado de Minas Gerais. Ele disse \u00e0 Human Rights Watch que \u201co avi\u00e3o [pulverizando agrot\u00f3xicos] sobrevoa a comunidade. Diversas vezes agrot\u00f3xicos ca\u00edram sobre mim enquanto eu trabalhava na terra. N\u00e3o h\u00e1 nada que possamos fazer.\u201d\u00a0<span class=\"figure-credit\">\u00a9 2018 Marizilda Crupp\u00e9 para Human Rights Watch<\/span><\/em><\/p>\n<p><strong>Qual \u00e9 o problema com a forma como os agrot\u00f3xicos s\u00e3o aplicados?<\/strong><\/p>\n<p>Cerca de um quarto de todos os agrot\u00f3xicos do Brasil s\u00e3o pulverizados por avi\u00f5es. H\u00e1 muita deriva dependendo da altura do avi\u00e3o e do vento. Se voc\u00ea est\u00e1 pulverizando com avi\u00f5es e h\u00e1 pessoas ou uma escola pr\u00f3xima, eles podem ser atingidos.<\/p>\n<p>Isso aconteceu comigo durante a minha pesquisa. N\u00f3s est\u00e1vamos dirigindo em uma rodovia perto de uma planta\u00e7\u00e3o, vimos um avi\u00e3o pulverizando, paramos o carro e sa\u00edmos para tirar fotos do avi\u00e3o com um iPhone. E fomos atingidos pela pulveriza\u00e7\u00e3o de agrot\u00f3xicos ao lado da rodovia. O avi\u00e3o sobrevoava e, alguns segundos depois, sent\u00edamos o jato. A gente sentiu o cheiro e come\u00e7ou a co\u00e7ar, sentimos uma sensa\u00e7\u00e3o de queima\u00e7\u00e3o na pele. Come\u00e7amos a sentir enjoo, tontura, um pouco de n\u00e1usea. N\u00f3s nos lavamos com uma garrafa de \u00e1gua no carro e seguimos dirigindo para uma cidade a 30 minutos dali onde conseguimos tomar banho.<\/p>\n<p><strong>N\u00e3o deveria haver uma zona de seguran\u00e7a entre \u00e1reas de pulveriza\u00e7\u00e3o de agrot\u00f3xicos e onde as pessoas est\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>De acordo com a regulamenta\u00e7\u00e3o brasileira, voc\u00ea n\u00e3o tem permiss\u00e3o para realizar pulveriza\u00e7\u00e3o a\u00e9rea a menos de 500 metros de um local sens\u00edvel, como uma escola, floresta ou via fluvial. Mas na pr\u00e1tica, essa regra \u00e9 frequentemente ignorada.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.hrw.org\/sites\/default\/files\/styles\/16%3A9_946x534\/public\/multimedia_images_2018\/201807sa_brazil_pesticides4.jpg?itok=FDcGDWsd\" alt=\"Sala de aula em escola no munic\u00c3\u00adpio de Primavera do Leste, no estado do Mato Grosso, na regi\u00c3\u00a3o centro-oeste brasileira. A escola atende pouco mais de 100 alunos, com aulas para estudantes entre 15 e 16 anos durante o dia e para adultos \u00c3\u00a0 noite. H\u00c3\u00a1 planta\u00c3\u00a7\" \/><em>Sala de aula em escola no munic\u00edpio de Primavera do Leste, no estado do Mato Grosso, na regi\u00e3o centro-oeste brasileira. A escola atende pouco mais de 100 alunos, com aulas para estudantes entre 15 e 16 anos durante o dia e para adultos \u00e0 noite. H\u00e1 planta\u00e7\u00f5es bem ao lado do terreno da escola, com as salas de aula mais pr\u00f3ximas a aproximadamente 15 metros dos campos.\u00a0<span class=\"figure-credit\">\u00a9 2018 Marizilda Crupp\u00e9 para Human Rights Watch<\/span><\/em><\/p>\n<p>Para pulveriza\u00e7\u00e3o terrestre, n\u00e3o h\u00e1 regulamenta\u00e7\u00e3o nacional estabelecendo uma zona de seguran\u00e7a. Voc\u00ea pode pulverizar no limite da parede da escola e isso \u00e9 legal. No entanto, uma enorme quantidade de agrot\u00f3xicos pode tamb\u00e9m lhe atingir na pulveriza\u00e7\u00e3o terrestre.<\/p>\n<p>Em \u00e1reas rurais no Brasil, as planta\u00e7\u00f5es podem come\u00e7ar a cinco metros das janelas de escolas. Essas escolas s\u00e3o pr\u00e9dios de um \u00fanico andar, as janelas podem ter vidro ou ser apenas telas de arame, mas a pulveriza\u00e7\u00e3o nos campos vaza para as salas de aula. E as crian\u00e7as est\u00e3o ali dentro no momento da pulveriza\u00e7\u00e3o. Como \u00e9 um pa\u00eds quente, as pessoas n\u00e3o deixam as janelas fechadas; ou elas est\u00e3o quebradas; ou n\u00e3o h\u00e1 janelas.<\/p>\n<p><strong>O que te surpreendeu durante a pesquisa?<\/strong><\/p>\n<p>O n\u00famero de pessoas que n\u00e3o quiseram falar conosco. A gente ouvia falar de problemas em comunidades ou escolas particulares e ent\u00e3o tent\u00e1vamos entrar em contato por telefone. As pessoas diziam: &#8220;N\u00e3o queremos falar sobre isso, n\u00e3o queremos que voc\u00ea venha&#8221;. Isso aconteceu v\u00e1rias vezes. Elas temiam repres\u00e1lias por se manifestarem. \u00c9 uma quest\u00e3o muito delicada entre eles e os grandes propriet\u00e1rios de terra pr\u00f3ximos. Eu sabia que a quest\u00e3o dos agrot\u00f3xicos era sens\u00edvel, mas eu n\u00e3o tinha pensado no qu\u00e3o assustadas as pessoas estavam.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.hrw.org\/sites\/default\/files\/styles\/16%3A9_946x534\/public\/multimedia_images_2018\/201807americas_brazil_pesticides9.jpg?itok=bQyuQ-fP\" alt=\"Imagem de drone sobre uma comunidade quilombola no estado de Minas Gerais. Algumas das casas da comunidade ficam a aproximadamente 20 metros da planta\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o de cana-de-a\u00c3\u00a7\u00c3\u00bacar vizinha.\" \/><em>Imagem de drone sobre uma comunidade quilombola no estado de Minas Gerais. Algumas das casas da comunidade ficam a aproximadamente 20 metros da planta\u00e7\u00e3o de cana-de-a\u00e7\u00facar vizinha.\u00a0<span class=\"figure-credit\">\u00a9 2018 Marizilda Crupp\u00e9 para Human Rights Watch<\/span><\/em><\/p>\n<p><strong>\u00c9 um medo justificado?<\/strong><\/p>\n<p>Um conhecido ativista contra uso de agrot\u00f3xicos foi morto a tiros em 2010 no Brasil. Ele era um agricultor local e foi fundamental na press\u00e3o para que o munic\u00edpio adotasse uma proibi\u00e7\u00e3o contra a pulveriza\u00e7\u00e3o a\u00e9rea. O Minist\u00e9rio P\u00fablico, que acredita que a morte foi resultado da sua manifesta\u00e7\u00e3o p\u00fablica contra a pulveriza\u00e7\u00e3o a\u00e9rea e a contamina\u00e7\u00e3o da \u00e1gua por agrot\u00f3xicos, entrou com um processo, mas ningu\u00e9m foi julgado pelo crime.<\/p>\n<p>Em maio de 2013, um avi\u00e3o sobrevoou uma escola e a pulveriza\u00e7\u00e3o atingiu cerca de 90 crian\u00e7as que precisaram ser hospitalizadas. Houve uma como\u00e7\u00e3o nacional na \u00e9poca. O professor que levou seus alunos ao hospital se tornou um ativista e pressionou pela assist\u00eancia m\u00e9dica para essas crian\u00e7as. Ele foi amea\u00e7ado de morte em v\u00e1rias ocasi\u00f5es. Conversamos com um padre que tentou organizar uma mobiliza\u00e7\u00e3o contra a pulveriza\u00e7\u00e3o a\u00e9rea; come\u00e7aram a lhe enviar v\u00eddeos pornogr\u00e1ficos por telefone para intimid\u00e1-lo. Tamb\u00e9m conversamos com um homem que ajudou a organizar um abaixo-assinado sobre o uso de agrot\u00f3xicos por um fazendeiro local, e o fazendeiro o amea\u00e7ou fazendo um gesto com as m\u00e3os. O homem relatou isso \u00e0 pol\u00edcia, mas n\u00e3o sabe se deram algum encaminhamento.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.hrw.org\/sites\/default\/files\/styles\/16%3A9_946x534\/public\/multimedia_images_2018\/201807americas_brazil_pesticides11.jpg?itok=zbk9fkXd\" alt=\"Pedrina, uma mulher de 40 e poucos anos, vive em Minas Gerais. Ela disse \u00c3\u00a0 Human Rights Watch que sentiu os sintomas da intoxica\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o aguda por agrot\u00c3\u00b3xicos muitas vezes e descreveu temer retalia\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o caso procurasse as autoridades para manifestar preocupa\u00c3\u00a7\u00c3\u00b5es\" \/><em>Pedrina, uma mulher de 40 e poucos anos, vive em Minas Gerais. Ela disse \u00e0 Human Rights Watch que sentiu os sintomas da intoxica\u00e7\u00e3o aguda por agrot\u00f3xicos muitas vezes e descreveu temer retalia\u00e7\u00e3o caso procurasse as autoridades para manifestar preocupa\u00e7\u00f5es com os impactos da pulveriza\u00e7\u00e3o \u00e0 sa\u00fade.\u00a0<span class=\"figure-credit\">\u00a9 2018 Marizilda Crupp\u00e9 para Human Rights Watch<\/span><\/em><\/p>\n<p>Ent\u00e3o, h\u00e1 retalia\u00e7\u00e3o. Agricultura e agrot\u00f3xicos n\u00e3o s\u00e3o apenas meios de subsist\u00eancia, mas uma enorme pot\u00eancia econ\u00f4mica. E quando voc\u00ea enfrenta essas for\u00e7as, h\u00e1 com certeza uma resist\u00eancia<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea falou com mais algu\u00e9m cuja hist\u00f3ria mudou voc\u00ea?<\/strong><\/p>\n<p>Conversamos com uma jovem de 20 e poucos anos que estava gr\u00e1vida de oito meses de seu primeiro filho. Ela nos disse que um m\u00eas antes ela estava em casa quando houve uma pulveriza\u00e7\u00e3o em uma fazenda pr\u00f3xima. Ela sentiu um cheiro muito forte de agrot\u00f3xicos, e come\u00e7ou a vomitar, ela disse. Seu marido a levou para o hospital e ela vomitou durante todo o caminho no carro. Ela chegou ao hospital e eles diagnosticaram uma infec\u00e7\u00e3o viral \u2013 apesar de ela ter falado sobre os agrot\u00f3xicos e o cheiro que sentiu. Quando nos vimos, ela me disse que nunca tinha vomitado durante a gravidez at\u00e9 aquele dia. E ela estava preocupada com o beb\u00ea. Ser\u00e1 que ele ou ela vai ficar bem?<\/p>\n<p><strong>Os profissionais m\u00e9dicos s\u00e3o parte do problema?<\/strong><\/p>\n<p>Muitas pessoas expostas a agrot\u00f3xicos s\u00e3o diagnosticadas equivocadamente como virose, seja intencionalmente ou por conta de um treinamento inadequado.<\/p>\n<p><strong>O que acontece com a sa\u00fade das pessoas expostas a agrot\u00f3xicos por longos per\u00edodos?<\/strong><\/p>\n<p>O c\u00e2ncer \u00e9 uma grande preocupa\u00e7\u00e3o; e h\u00e1 uma s\u00e9rie de problemas reprodutivos, incluindo infertilidade. Os agrot\u00f3xicos podem ter impactos negativos no desenvolvimento fetal, e h\u00e1 tamb\u00e9m uma s\u00e9rie de problemas de desenvolvimento para as crian\u00e7as.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.hrw.org\/sites\/default\/files\/styles\/16%3A9_946x534\/public\/multimedia_images_2018\/201807americas_brazil_pesticides8.jpg?itok=CF-VG5Pa\" alt=\"Panambi, uma mulher de 20 e poucos anos, vive em uma pequena casa com sua m\u00c3\u00a3e e filha de quatro anos. Ela disse \u00c3\u00a0 Human Rights Watch que, durante um incidente de pulveriza\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o na planta\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o vizinha em mar\u00c3\u00a7o de 2018, ela e sua fam\u00c3\u00adlia sentiram os olhos queim\" \/><em>Panambi, uma mulher de 20 e poucos anos, vive em uma pequena casa com sua m\u00e3e e filha de quatro anos. Ela disse \u00e0 Human Rights Watch que, durante um incidente de pulveriza\u00e7\u00e3o na planta\u00e7\u00e3o vizinha em mar\u00e7o de 2018, ela e sua fam\u00edlia sentiram os olhos queimarem, e que cobriu a boca de sua filha com um pano \u00famido para tentar proteg\u00ea-la. \u201cN\u00f3s dever\u00edamos respirar ar fresco, mas sentimos um gosto ruim, uma [sensa\u00e7\u00e3o de] queima\u00e7\u00e3o.\u201d\u00a0<span class=\"figure-credit\">\u00a9 2018 Marizilda Crupp\u00e9 para Human Rights Watch<\/span><\/em><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.hrw.org\/sites\/default\/files\/styles\/16%3A9_946x534\/public\/multimedia_images_2018\/201807sa_brazil_pesticides7.jpg?itok=yaFn5xOG\" alt=\"Jakaira, um homem de 40 e poucos anos que vive em uma comunidade ind\u00c3\u00adgena no estado do Mato Grosso do Sul h\u00c3\u00a1 10 anos, sofreu uma intoxica\u00c3\u00a7\u00c3\u00a3o aguda por volta de outubro de 2017. Ele relatou \u00c3\u00a0 Human Rights Watch: \u00e2\u0080\u009cVoc\u00c3\u00aa sente um amargor na garganta. Voc\u00c3\u00aa n\u00c3\u00a3o\" \/><em>Jakaira, um homem de 40 e poucos anos que vive em uma comunidade ind\u00edgena no estado do Mato Grosso do Sul h\u00e1 10 anos, sofreu uma intoxica\u00e7\u00e3o aguda por volta de outubro de 2017. Ele relatou \u00e0 Human Rights Watch: \u201cVoc\u00ea sente um amargor na garganta. Voc\u00ea n\u00e3o quer mais respirar veneno \u2013 voc\u00ea quer respirar outro tipo de ar \u2013 mas n\u00e3o tem nenhum.\u201d\u00a0<span class=\"figure-credit\">\u00a9 2018 Marizilda Crupp\u00e9 para Human Rights Watch<\/span><\/em><\/p>\n<p><strong>Qual \u00e9 o impacto no meio ambiente?<\/strong><\/p>\n<p>Voc\u00ea tem contamina\u00e7\u00e3o de cursos de \u00e1gua, que muitas vezes s\u00e3o a fonte de \u00e1gua pot\u00e1vel para grandes cidades no interior do Brasil. Mas os res\u00edduos de agrot\u00f3xicos est\u00e3o aparecendo na \u00e1gua pot\u00e1vel e nos alimentos por todo o pa\u00eds. \u00c0s vezes, em quantidades m\u00ednimas, mas muito, muito poucos fornecedores de \u00e1gua pot\u00e1vel est\u00e3o realmente testando res\u00edduos de agrot\u00f3xicos em \u00e1gua. O mesmo para alimentos. E a qualidade do pouco monitoramento que existe \u00e9 motivo para alarme.<\/p>\n<p><strong>O que queremos ver?<\/strong><\/p>\n<p>Uma suspens\u00e3o da pulveriza\u00e7\u00e3o a\u00e9rea at\u00e9 que o Brasil compreenda os impactos na sa\u00fade e no meio ambiente decorrentes disso. Zonas de seguran\u00e7a respeitadas, treinamento para profissionais de sa\u00fade, prote\u00e7\u00e3o para pessoas que se manifestem contra essa situa\u00e7\u00e3o, monitoramento de \u00e1gua e alimentos. Em termos mais gerais, o Brasil precisa de um plano nacional com prazos para reduzir o uso de agrot\u00f3xicos. E, talvez o mais urgente, \u00e9 preciso rejeitar o atual projeto de lei que enfraqueceria ainda mais a lei de agrot\u00f3xicos do Brasil. H\u00e1 muita coisa em jogo.<\/p>\n<article class=\"node node-profile has-image clearfix\">\n<p class=\"name\">Amy Braunschweigerraunschweiger &#8211; Senior Web Communications Manager<\/p>\n<p class=\"name\">Richard Pearshouse &#8211; Associate Director, Environment and Human Rights Division<\/p>\n<\/article>\n<p>Fonte &#8211; Human Rights Watch de 20 de julho de 2018<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bernardo, de 30 e poucos anos, nasceu em uma comunidade quilombola onde vivem aproximadamente 60 pessoas, entre homens, mulheres e crian\u00e7as no estado de Minas Gerais. 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