{"id":25869,"date":"2018-08-07T11:00:20","date_gmt":"2018-08-07T14:00:20","guid":{"rendered":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=25869"},"modified":"2018-08-07T09:31:41","modified_gmt":"2018-08-07T12:31:41","slug":"nova-fase-na-relacao-entre-figueiras-e-vespas-e-desvendada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/nova-fase-na-relacao-entre-figueiras-e-vespas-e-desvendada\/","title":{"rendered":"Nova fase na rela\u00e7\u00e3o entre figueiras e vespas \u00e9 desvendada"},"content":{"rendered":"<p><em>Estudo foi publicado em edi\u00e7\u00e3o especial da\u00a0Acta Oecologica\u00a0com quatro artigos de pesquisadores da USP. Outro trabalho analisa diferen\u00e7as morfol\u00f3gicas no ovipositor de diversas esp\u00e9cies de vespas parasitoides (foto: divulga\u00e7\u00e3o)<\/em><\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o de mutualismo que existe entre a figueira e a vespa-do-figo \u00e9 uma das mais fascinantes da natureza. Os dois t\u00eam a sua exist\u00eancia de tal modo entrela\u00e7ada que um n\u00e3o pode existir sem o outro. Onde n\u00e3o h\u00e1 vespas-do-figo, as figueiras n\u00e3o se reproduzem e vice-versa.<\/p>\n<p>O ciclo de reprodu\u00e7\u00e3o das vespas-do-figo s\u00f3 ocorre no interior dos figos. Esses, ao longo de dezenas de milh\u00f5es de anos de evolu\u00e7\u00e3o, acabaram t\u00e3o modificados devido \u00e0 intera\u00e7\u00e3o com aqueles insetos que hoje s\u00e3o confundidos com frutos. Mas figos n\u00e3o s\u00e3o frutos, s\u00e3o infloresc\u00eancias invertidas. S\u00e3o inv\u00f3lucros que cont\u00eam em seu interior centenas de flores min\u00fasculas que produzem sementes internamente gra\u00e7as ao trabalho de poliniza\u00e7\u00e3o proporcionado pelas vespas.<\/p>\n<p>O ciclo de desenvolvimento das flores da figueira e de suas vespas \u00e9 estudado como forma de entender a evolu\u00e7\u00e3o do mutualismo. Ainda no fim dos anos 1960, quando esse mutualismo entre planta e inseto come\u00e7ou a ser elucidado, o ciclo de desenvolvimento foi dividido em cinco fases distintas (A, B, C, D e E). Elas descrevem tudo o que ocorre desde o momento em que a vespa m\u00e3e penetra no interior do figo para p\u00f4r seus ovos, at\u00e9 quando uma nova gera\u00e7\u00e3o de vespas f\u00eameas fertilizadas emerge do figo para renovar o ciclo.<\/p>\n<p>Meio s\u00e9culo ap\u00f3s a descri\u00e7\u00e3o inicial deste ciclo de desenvolvimento, o bi\u00f3logo\u00a0<b><a href=\"http:\/\/bv.fapesp.br\/pt\/pesquisador\/98949\/luciano-palmieri-rocha\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Luciano Palmieri Rocha<\/a><\/b>\u00a0vem agora propor a exist\u00eancia de uma nova fase, que ele denominou F, e que trata das intera\u00e7\u00f5es ecol\u00f3gicas que ocorrem ap\u00f3s a sa\u00edda das vespas, envolvendo os figos maduros que caem ao solo para apodrecer.<\/p>\n<p>O estudo foi publicado na revista\u00a0<b><i><a href=\"https:\/\/www.sciencedirect.com\/journal\/acta-oecologica\/vol\/90\/suppl\/C\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Acta Oecologica<\/a><\/i><\/b>, em edi\u00e7\u00e3o especial justamente em homenagem aos 50 anos da descoberta inicial do ciclo das figueiras e suas vespas. O trabalho teve\u00a0<b><a href=\"http:\/\/bv.fapesp.br\/pt\/bolsas\/145832\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">apoio da FAPESP<\/a><\/b>.<\/p>\n<p>A edi\u00e7\u00e3o traz 20 trabalhos, sendo quatro deles de pesquisadores do Laborat\u00f3rio de Intera\u00e7\u00e3o Inseto-Planta do Departamento de Biologia da Faculdade de Filosofia, Ci\u00eancias e Letras de Ribeir\u00e3o Preto (FFCLRP) da Universidade de S\u00e3o Paulo. O laborat\u00f3rio \u00e9 chefiado pelo professor\u00a0<b><a href=\"http:\/\/bv.fapesp.br\/pt\/pesquisador\/2729\/rodrigo-augusto-santinelo-pereira\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Rodrigo Augusto Santinelo Pereira<\/a><\/b>.<\/p>\n<p>\u201cNa natureza, vemos muita competi\u00e7\u00e3o, por isso chama a aten\u00e7\u00e3o a intera\u00e7\u00e3o entre figueira e vespa-do-figo. As duas caminham juntas para se adaptar mutuamente e tentar sobreviver. Se uma morrer, a outra tamb\u00e9m desaparecer\u00e1\u201d, disse Palmieri \u00e0\u00a0<b>Ag\u00eancia FAPESP<\/b>.<\/p>\n<p>Tal mutualismo n\u00e3o est\u00e1 restrito \u00e0 intera\u00e7\u00e3o entre a figueira (<i>Ficus carica<\/i>) que produz os figos comest\u00edveis e suas polinizadoras espec\u00edficas, as vespas-do-figo da esp\u00e9cie\u00a0<i>Blastophaga psenes<\/i>. Existem mais de 750 esp\u00e9cies do g\u00eanero\u00a0<i>Ficus<\/i>, e para cada uma delas h\u00e1 uma esp\u00e9cie de vespa polinizadora da fam\u00edlia dos agaon\u00eddeos.<\/p>\n<p>\u00c9 um mutualismo muito antigo, explica Palmieri. Os f\u00f3sseis mais antigos de vespas-do-figo datam de 34 milh\u00f5es de anos atr\u00e1s. S\u00e3o muito semelhantes \u00e0s esp\u00e9cies atuais, indicando que a rela\u00e7\u00e3o simbi\u00f3tica evoluiu cedo e n\u00e3o mudou fundamentalmente desde ent\u00e3o. Evid\u00eancias moleculares apontam que a rela\u00e7\u00e3o existia h\u00e1 65 milh\u00f5es de anos, o que sugere que ela possa ser ainda mais antiga, ainda do tempo dos dinossauros.<\/p>\n<p>\u201cFoi quando os ancestrais das vespas-do-figo come\u00e7aram a depositar ovos nas flores de figueiras ancestrais. S\u00e3o infloresc\u00eancias que, acredita-se, ainda eram abertas e, portanto, aptas a ser polinizadas por diversos insetos\u201d, disse o pesquisador.<\/p>\n<p>Ao longo de pelo menos 65 milh\u00f5es de anos de evolu\u00e7\u00e3o, as infloresc\u00eancias da figueira se tornaram inv\u00f3lucros fechados ao mundo exterior, onde apenas as vespas-do-figo conseguem penetrar.<\/p>\n<p>\u201cInicialmente, as vespas come\u00e7aram a parasitar as figueiras. Por algum mecanismo evolutivo desconhecido, a planta acabou por cooptar o parasitismo das vespas dentro de seu ciclo reprodutivo\u201d, disse Palmieri.<\/p>\n<p>O ciclo de desenvolvimento das flores da figueira e de suas vespas inicia com a entrada da vespa m\u00e3e no interior do figo. \u201cO figo \u00e9 uma urna, que preserva e protege centenas de pequeninas flores. Pelo fato de as flores do figo se abrirem internamente, elas precisam de um processo especial para serem polinizadas. N\u00e3o podem depender do vento ou das abelhas para transportar seu p\u00f3len. \u00c9 a\u00ed que entra a vespa-do-figo\u201d, disse.<\/p>\n<p>No interior do figo h\u00e1 flores femininas e masculinas, que se desenvolvem em momentos diferentes. A fase A ocorre quando as flores femininas ainda n\u00e3o est\u00e3o maduras. Pouco tempo depois, as flores femininas amadurecem e ficam prontas para serem fertilizadas. \u00c9 quando os figos se tornam receptivos para receber as vespas e passam a exalar uma quantidade enorme de compostos vol\u00e1teis, iniciando a fase B.<\/p>\n<p>\u201cS\u00e3o sinais qu\u00edmicos que servem para atrair apenas as vespas espec\u00edficas que polinizam as flores daquela esp\u00e9cie de figueira. \u00c9 tudo sincronizado\u201d, disse Palmieri.<\/p>\n<p>O figo n\u00e3o \u00e9 inteiramente fechado. Existe um pequeno buraco, o ost\u00edolo, que a vespa m\u00e3e deve atravessar para ter acesso ao interior do fruto. Ao faz\u00ea-lo, o inseto perde asas e as antenas se quebram de modo que, uma vez l\u00e1 dentro, n\u00e3o tem como sair. Depois de botar os ovos, a vespa morrer\u00e1. \u201cEla precisa for\u00e7ar sua entrada atrav\u00e9s do ost\u00edolo. Depois que ela entra \u00e9 mais dif\u00edcil outras entrarem, mas n\u00e3o incomum\u201d, disse.<\/p>\n<p><b>A\u00e7\u00f5es sincronizadas\u00a0<\/b><\/p>\n<p>Uma vez dentro do figo, a vespa m\u00e3e depositar\u00e1 ovos em in\u00fameras flores internas, mas n\u00e3o em todas. Ao faz\u00ea-lo, ao mesmo tempo a vespa m\u00e3e fertiliza as flores com o p\u00f3len que carrega depositado em bolsas pol\u00ednicas localizadas abaixo das asas. As flores onde foram depositados os ovos se modificam, tornando-se estruturas endurecidas chamadas galhas.<\/p>\n<p>Inicia-se ent\u00e3o a fase C, que se estender\u00e1 pelos pr\u00f3ximos dois a tr\u00eas meses. As flores polinizadas que n\u00e3o ganharam um ovo de vespa se transformam em sementes. J\u00e1 as flores que receberam ovos e se modificaram na forma de galhas guardam em seu interior larvas de vespa.<\/p>\n<p>A fase D ocorre no fim do per\u00edodo de incuba\u00e7\u00e3o das larvas. \u00c9 esse tamb\u00e9m o momento em que as flores masculinas come\u00e7am a ficar maduras, abrindo e expondo estruturas chamadas anteras, onde fica o p\u00f3len.<\/p>\n<p>\u201cA abertura das flores masculinas \u00e9 sincronizada com o fim do desenvolvimento das vespas. As primeiras a sair das galhas s\u00e3o as vespas machos, que n\u00e3o t\u00eam asas e olhos reduzidos, mas t\u00eam mand\u00edbulas grandes e fortes. Os machos rastejam sobre as flores femininas at\u00e9 localizar as galhas onde est\u00e3o as vespas f\u00eameas, suas irm\u00e3s, que est\u00e3o prontas para emergir. Nesse momento, os machos fazem uso de um p\u00eanis telesc\u00f3pico que penetra e fecunda a f\u00eamea dentro da galha. Feito isso, os machos come\u00e7am a usar suas mand\u00edbulas para abrir um buraco na parede do figo. Uma vez que o buraco \u00e9 aberto, os machos caem no ch\u00e3o e morrem\u201d, disse Palmieri.<\/p>\n<p>A fase D termina com a emerg\u00eancia das vespas f\u00eameas de dentro das galhas. \u201cRastejando na dire\u00e7\u00e3o do buraco, elas passam sobre as flores masculinas, coletando em bolsas o p\u00f3len com o qual polinizar\u00e3o outras figueiras\u201d, disse.<\/p>\n<p>Uma vez que atravessam o orif\u00edcio cavado pelos seus irm\u00e3os fecundadores, as f\u00eameas est\u00e3o prontas para voar em busca de outras figueiras, recome\u00e7ando o ciclo. A fase E diz respeito \u00e0 dispers\u00e3o das sementes das figueiras.<\/p>\n<p>\u201cUma figueira grande \u00e9 capaz de produzir mais de 1 milh\u00e3o de figos em uma florada. Os figos s\u00e3o alimento de macacos, roedores, morcegos, porcos-do-mato e muitos outros. Quase todos os animais vertebrados da floresta t\u00eam figos como parte da sua dieta. Ao comer os figos maduros que ainda pendem nos galhos ou que j\u00e1 ca\u00edram ao solo, os animais ir\u00e3o dispersar as sementes no meio ambiente atrav\u00e9s de suas fezes\u201d, explicou Palmieri.<\/p>\n<p><b>Fase F<\/b><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/c1.staticflickr.com\/1\/857\/42095010900_ce0cd57d44_o.jpg\" \/><\/p>\n<p><em>Estudo foi publicado em edi\u00e7\u00e3o especial da\u00a0Acta Oecologica\u00a0com quatro artigos de pesquisadores da USP. Outro trabalho analisa diferen\u00e7as morfol\u00f3gicas no ovipositor de diversas esp\u00e9cies de vespas parasitoides (foto: divulga\u00e7\u00e3o)<\/em><\/p>\n<p>Al\u00e9m das cinco fases do ciclo cl\u00e1ssico de desenvolvimento de figueiras e das vespas, como vem sendo estudado h\u00e1 50 anos, Palmieri prop\u00f5e uma nova fase.<\/p>\n<p>\u201cA fase F \u00e9 uma fase ecol\u00f3gica, que n\u00e3o diz respeito diretamente ao desenvolvimento da figueira, mas de seu papel no ciclo de desenvolvimento de outras dezenas de esp\u00e9cies de insetos que n\u00e3o s\u00e3o vespas-do-figo\u201d, disse.<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 uma s\u00e9rie de organismos \u2013 insetos, \u00e1caros, nematoides \u2013 que tamb\u00e9m conseguem parasitar os figos. A maior parte dos parasitas s\u00e3o outras vespas de grupos irm\u00e3os das vespas-do-figo. Elas conseguem inserir seus ovos dentro do fruto sem cumprir o papel biol\u00f3gico da poliniza\u00e7\u00e3o\u201d, disse Palmieri.<\/p>\n<p>As evid\u00eancias da nova fase F come\u00e7aram a surgir ao longo de anos de observa\u00e7\u00e3o. \u201cDurante o estudo da intera\u00e7\u00e3o entre as figueiras e as vespas era comum encontrar larvas de outros bichos que n\u00e3o tinham participa\u00e7\u00e3o no ciclo de desenvolvimento. Esses figos eram descartados da pesquisa e jogados fora. Em certos casos, havia larvas quase do tamanho do figo comendo tudo l\u00e1 dentro. Foi quando decidimos investigar o que ocorria\u201d, disse Palmieri \u00e0\u00a0<b>Ag\u00eancia FAPESP<\/b>.<\/p>\n<p>\u201cQuando as larvas atingiam a fase adulta, come\u00e7avam a sair dos figos podres uns bichos que ningu\u00e9m conhecia. No artigo agora publicado, descrevo 129 insetos de cinco ordens e 24 fam\u00edlias diferentes, que n\u00e3o s\u00e3o vespas-do-figo e que tamb\u00e9m interagem com a figueira realizando fun\u00e7\u00f5es diferentes\u201d, disse.<\/p>\n<p>Palmieri identificou 10 tipos de vespas (Hymenoptera), 39 tipos de moscas (Diptera), 46 tipos de besouros (Coleoptera), 17 de cigarras, percevejos, pulg\u00f5es e cochonilhas (Hemiptera) e 18 de borboletas e mariposas (Lepidoptera).<\/p>\n<p>Esses insetos podem colonizar os figos em diferentes fases do ciclo de desenvolvimento das figueiras e alguns grupos dependem dos figos ca\u00eddos para completar seus ciclos de vida. De acordo com o seu papel na ecologia da figueira e seu potencial impacto na reprodu\u00e7\u00e3o da figueira, Palmieri dividiu os insetos em duas categorias: os intrusos precoces do figo e a fauna dos figos ca\u00eddos.<\/p>\n<p>Todos os tipos de insetos identificados t\u00eam representantes em ambas as categorias. A exce\u00e7\u00e3o s\u00e3o as 10 esp\u00e9cies de vespas de tr\u00eas fam\u00edlias irm\u00e3s da fam\u00edlia das vespas-do-figo. Todas s\u00e3o intrusas precoces que depositam dentro do figo ovos dos quais emergem larvas que competem diretamente com as larvas das vespas-do-figo por alimento e espa\u00e7o dentro do figo, ou simplesmente se alimentam delas. Quando terminam o seu desenvolvimento e atingem a fase adulta, elas saem do figo.<\/p>\n<p>No artigo, Palmieri descreve diversas formas de intrus\u00e3o precoce dos figos. Uma delas \u00e9 a das moscas do g\u00eanero\u00a0<i>Lissocephala<\/i>, que p\u00f5em ovos no ost\u00edolo no momento de entrada da vespa m\u00e3e. As larvas de mosca v\u00e3o migrar para dentro do figo e se alimentar de fungos e bact\u00e9rias introduzidos pela vespa. Essas moscas terminam seu desenvolvimento dentro do figo e voam pelo buraco cavado pelas vespas machos.<\/p>\n<p>As borboletas e mariposas s\u00e3o o grupo mais agressivo de insetos em termos de danos causados ao figo. Elas depositam ovos na casca. Na fase C, suas larvas perfuram a parede do figo e se alimentam indiscriminadamente da polpa, das vespas e das sementes. As larvas de borboletas e mariposas destroem o figo e emergem para poder pupar em casulos nos galhos da figueira.<\/p>\n<p>Palmieri explica que, no caso da fauna dos figos ca\u00eddos, essa categoria engloba uma variedade de organismos que se alimentam de restos carnudos ou de sementes de figos maduros n\u00e3o consumidos pelos vertebrados frug\u00edferos. Eles aproveitam a janela de oportunidade criada pelos figos que caem da \u00e1rvore na fase F.<\/p>\n<p>A fauna dos figos ca\u00eddos, da qual fazem parte algumas formigas, borboletas e percevejos, \u00e9 principalmente composta por besouros que se alimentam dos restos da fruta. H\u00e1 diversas formas de os besouros se aproveitarem do desenvolvimento dos figos. Alguns colonizam os figos ainda na \u00e1rvore, durante o in\u00edcio da fase C. Suas larvas se desenvolvem dentro dos figos e l\u00e1 permanecem quando os frutos maduros caem ao ch\u00e3o. S\u00f3 ent\u00e3o as larvas migram para o solo, onde cavam um buraco e pupam no interior de casulos.<\/p>\n<p>\u201cEstes exemplos fornecem t\u00e3o somente o vislumbre de uma complexidade muito maior de intera\u00e7\u00f5es. Al\u00e9m das implica\u00e7\u00f5es evolutivas do mutualismo da poliniza\u00e7\u00e3o, um fator adicional relacionado ao sucesso das cerca de 750 esp\u00e9cies de figueiras \u00e9 provavelmente a fauna extremamente diversificada de insetos associados aos figos \u2013 tais como as esp\u00e9cies de vespas que n\u00e3o aquelas polinizadoras. A press\u00e3o dessas vespas parasitas deve ter servido de importante fator impulsionador da diversifica\u00e7\u00e3o das diversas esp\u00e9cies de figueiras. E continua a s\u00ea-lo\u201d, disse Palmieri.<\/p>\n<p>O artigo\u00a0<i>The role of non-fig-wasp insects on fig tree biology, with a proposal of the F phase (Fallen figs)<\/i>(https:\/\/doi.org\/10.1016\/j.actao.2017.10.006), de Luciano Palmieri e Rodrigo Augusto Santinelo Pereira, est\u00e1 publicado em:\u00a0<b><a href=\"https:\/\/www.sciencedirect.com\/science\/article\/pii\/S1146609X17300395\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">www.sciencedirect.com\/science\/article\/pii\/S1146609X17300395<\/a><\/b>.<\/p>\n<p><b>Diferen\u00e7as no ovipositor<\/b><\/p>\n<p>As vespas-do-figo compreendem cerca de 650 esp\u00e9cies descritas, pertencentes a diversas fam\u00edlias. Mas esse n\u00famero representa menos da metade do n\u00famero estimado de esp\u00e9cies, incluindo as vespas polinizadoras e as parasitas, n\u00e3o polinizadoras.<\/p>\n<p>\u201cS\u00e3o vespas oportunistas, que p\u00f5em ovos pelo lado de fora do figo. Fazem uso de uma estrutura chamada ovipositor para atravessar a casca do figo e inserir o ovo dentro de uma flor ou galha\u201d, disse\u00a0<b><a href=\"http:\/\/bv.fapesp.br\/pt\/pesquisador\/69410\/larissa-galante-elias\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Larissa Galante Elias<\/a><\/b>, pesquisadora no Laborat\u00f3rio de Intera\u00e7\u00e3o Inseto-Planta da FFCLRP.<\/p>\n<p>Em outro artigo publicado na edi\u00e7\u00e3o especial da\u00a0<i><b><a href=\"https:\/\/www.sciencedirect.com\/journal\/acta-oecologica\/vol\/90\/suppl\/C\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Acta Oecologica<\/a><\/b><\/i>, Elias analisa diferen\u00e7as morfol\u00f3gicas no ovipositor de diversas esp\u00e9cies de vespas polinizadoras e n\u00e3o polinizadoras. O estudo, orientado pelo professor Santinelo Pereira, tem\u00a0<b><a href=\"http:\/\/bv.fapesp.br\/pt\/auxilios\/92199\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">apoio da FAPESP<\/a><\/b>.<\/p>\n<p>\u201cAo longo de milh\u00f5es de anos de evolu\u00e7\u00e3o, o ovipositor foi se modificando para ganhar outras fun\u00e7\u00f5es. Minha quest\u00e3o \u00e9 entender como as vespas conseguem fazer coisas t\u00e3o complexas e diferenciadas com o ovipositor, como botar ovos pelo lado de fora do figo e acertar exatamente o interior da flor, ou p\u00f4r o ovo dentro de galhas, ou ainda na casca do figo. Nas vespas atuais, vemos o ovipositor realizando todas essas fun\u00e7\u00f5es\u201d, disse.<\/p>\n<p>Elias \u00e9 a primeira autora de um artigo (<b><a href=\"https:\/\/www.sciencedirect.com\/science\/article\/pii\/S1146609X17300358\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">www.sciencedirect.com\/science\/article\/pii\/S1146609X17300358<\/a><\/b>) no qual, ao lado de outros pesquisadores do Brasil, Fran\u00e7a e China, analisa a varia\u00e7\u00e3o morfol\u00f3gica no ovipositor em 24 esp\u00e9cies de vespas-do-figo pertencentes a nove g\u00eaneros diferentes.<\/p>\n<p>\u201cO ovipositor \u00e9 uma estrutura comum a todas as esp\u00e9cies de vespas, por\u00e9m ligeiramente diferente em cada uma delas. \u00c9 muito fino e muito comprido e\u00a0 pode ser at\u00e9 tr\u00eas vezes maior do que o corpo da vespa\u201d, disse Elias.<\/p>\n<p>As vespas-do-figo polinizadoras p\u00f5em ovos quando as flores s\u00e3o jovens. As flores da figueira s\u00e3o todas aquelas centenas de filamentos no interior do figo, que t\u00eam na base uma estrutura redonda. Cada flor que cont\u00e9m uma larva ir\u00e1 se transformar em uma galha.<\/p>\n<p>As vespas parasitas botam ovos ao mesmo tempo que a polinizadora ou ent\u00e3o um pouco mais tarde, quando as larvas est\u00e3o em pleno desenvolvimento dentro das galhas. \u201cElas podem parasitar centenas de galhas, mas v\u00e3o depositar um \u00fanico ovo em cada galha. Suas larvas ir\u00e3o se alimentar das outras larvas preexistentes\u201d, explicou Elias.<\/p>\n<p>Em seu trabalho, a pesquisadora realizou uma an\u00e1lise de reconstru\u00e7\u00e3o de estados ancestrais. A an\u00e1lise permite a interpreta\u00e7\u00e3o da evolu\u00e7\u00e3o de diversos caracteres morfol\u00f3gicos, ecol\u00f3gicos e comportamentais na evolu\u00e7\u00e3o de um dado grupo de organismos.<\/p>\n<p>\u201cO ovipositor tem na sua extremidade estruturas que se parecem com dentes. Percebi que a morfologia desses dentes variava muito. Decidi investigar se as estruturas variam entre as diversas vespas, dependendo da fase do ciclo de desenvolvimento do figo na qual elas botam ovos, por exemplo se quando o figo \u00e9 jovem ou quando as galhas est\u00e3o formadas\u201d, disse.<\/p>\n<p>Foram feitas amostras de 24 esp\u00e9cies pertencentes a todos os principais clados (agrupamento que inclui um ancestral comum) de agaon\u00eddeos, incluindo representantes de todos os g\u00eaneros descritos de vespas n\u00e3o polinizadoras da fam\u00edlia. Havia esp\u00e9cies do Brasil, Austr\u00e1lia, China, Laos, Senegal, Indon\u00e9sia, Camar\u00f5es, \u00cdndia e das Ilhas Salom\u00e3o, algumas coletadas em campo, outras obtidas da cole\u00e7\u00e3o de Jean Yves Rasplus, do Centre de Biologie pour la Gestion des Populations do Institut National de la Recherche Agronomique (INRA), na Fran\u00e7a.<\/p>\n<p>Em estereomicrosc\u00f3pio, Elias realizou uma s\u00e9rie de medidas do corpo e do ovipositor de 10 a 20 indiv\u00edduos de cada esp\u00e9cie. Foram analisados caracteres relacionados aos dentes dos ovipositores quanto ao seu potencial papel na perfura\u00e7\u00e3o e ancoragem do ovipositor, permitindo a sua movimenta\u00e7\u00e3o pelo substrato do figo.<\/p>\n<p>\u201cPercebi que a dist\u00e2ncia entre os dentes do ovipositor est\u00e1 relacionada com o que a vespa est\u00e1 fazendo. Os dentes podem ser mais espa\u00e7ados ou mais pr\u00f3ximos uns dos outros\u201d, disse.<\/p>\n<p>Os insetos estudados por Elias pertencem a grupos ecol\u00f3gicos diferentes. As vespas que inserem ovos perfurando a casca do figo com o ovipositor quando os figos est\u00e3o jovens \u2013 e que v\u00e3o depositar ovos nas flores l\u00e1 dentro \u2013 s\u00e3o chamadas galhadoras, pois a deposi\u00e7\u00e3o dos ovos estimular\u00e1 o desenvolvimento da galha. \u201cDescobrimos que, no caso das vespas galhadoras, os dentes do ovipositor est\u00e3o mais juntos\u201d, disse.<\/p>\n<p>Em outro grupo est\u00e3o as vespas que, desde a casca do figo, utilizam o ovipositor para inserir ovos dentro das galhas. S\u00e3o as parasitoides, que parasitam a galha. \u201cNo caso, os dentes t\u00eam formato irregular e s\u00e3o mais espa\u00e7ados\u201d, disse.<\/p>\n<p>\u201cO resultado da an\u00e1lise de reconstru\u00e7\u00e3o de estados ancestrais sugere que a vespa ancestral das vespas agaon\u00eddeas tinha o ovipositor adaptado para botar o ovo nas flores jovens\u201d, disse Elias. Ou seja, o ovipositor foi sendo adaptado para inserir ovos na fase da galha mais tarde, ao longo de milh\u00f5es de anos, sendo uma ferramenta na diversifica\u00e7\u00e3o do grupo.<\/p>\n<p>\u201cTer esse novo m\u00e9todo de identifica\u00e7\u00e3o do tipo de vespa-do-figo por meio da an\u00e1lise do ovipositor \u00e9 interessante, pois n\u00e3o h\u00e1 mais a necessidade de acompanhar todo o ciclo de desenvolvimento do figo para conseguir identificar qual vespa est\u00e1 fazendo o que dentro daquele contexto de intera\u00e7\u00f5es\u201d, disse Elias.<\/p>\n<p>O artigo\u00a0<i>Ovipositor morphology correlates with life history evolution in agaonid fig wasps<\/i>\u00a0(doi: https:\/\/doi.org\/10.1016\/j.actao.2017.10.007), de Larissa Galante Elias, Finn Kjellberg, Fernando Henrique Antoniolli Farache, Eduardo A.B. Almeida, Jean-Yves Rasplus, Astrid Cruaud, Yan-Qiong Peng, Da-Rong Yang e Rodrigo Augusto Santinelo Pereira, est\u00e1 publicado em\u00a0<b><a href=\"http:\/\/www.sciencedirect.com\/science\/article\/pii\/S1146609X17300358\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">www.sciencedirect.com\/science\/article\/pii\/S1146609X17300358<\/a><\/b>.<\/p>\n<p>A edi\u00e7\u00e3o especial com quatro artigos de pesquisadores brasileiros est\u00e1 dispon\u00edvel em:\u00a0<b><a href=\"https:\/\/www.sciencedirect.com\/journal\/acta-oecologica\/vol\/90\/suppl\/C\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">www.sciencedirect.com\/journal\/acta-oecologica\/vol\/90\/suppl\/C<\/a><\/b>.<\/p>\n<p>Fonte &#8211; Peter Moon, Ag\u00eancia FAPESP de 06 de agosto de 2018<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estudo foi publicado em edi\u00e7\u00e3o especial da\u00a0Acta Oecologica\u00a0com quatro artigos de pesquisadores da USP. 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