{"id":26512,"date":"2018-09-14T09:00:11","date_gmt":"2018-09-14T12:00:11","guid":{"rendered":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=26512"},"modified":"2018-08-27T13:20:33","modified_gmt":"2018-08-27T16:20:33","slug":"segredos-das-abelhas-e-sua-sociedade-modelo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/segredos-das-abelhas-e-sua-sociedade-modelo\/","title":{"rendered":"Segredos das abelhas e sua sociedade modelo"},"content":{"rendered":"<p>\u201cHoje, lamentamos com muita emo\u00e7\u00e3o o\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/159-noticias\/entrevistas\/571288-agrotoxicos-sao-responsaveis-pelo-desaparecimento-das-abelhas-entrevista-especial-com-lionel-segui-goncalves\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">declive da abelha<\/a>\u00a0porque durante muito tempo foi considerada o s\u00edmbolo privilegiado da beleza e da harmonia do mundo, quando a\u00a0Natureza\u00a0se via infinitamente mais vasta, poderosa e duradoura que todos os mortais reunidos\u201d. \u00c9 o que afirmam os irm\u00e3os\u00a0Tavoillot. Talvez tenham raz\u00e3o e tanto zumbido atual sobre as abelhas seja o eco de uma voz que definha nos campos e jardins\u201d, escreve\u00a0Alejandro C\u00e1nepa, professor de Ci\u00eancias da Comunica\u00e7\u00e3o, na Faculdade de Ci\u00eancias Sociais, da Universidade de Buenos Aires.<\/p>\n<p>Retid\u00e3o, abnega\u00e7\u00e3o, trabalho em equipe, modelo ideal de sociedade para alguns pensadores, s\u00edmbolos de um ambiente puro; produtoras de mel, cera, p\u00f3len e pr\u00f3polis, geradoras de medo irracional para muitos moradores das grandes cidades, quando se deparam com uma delas.<\/p>\n<p>As\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/159-noticias\/entrevistas\/571288-agrotoxicos-sao-responsaveis-pelo-desaparecimento-das-abelhas-entrevista-especial-com-lionel-segui-goncalves\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">abelhas<\/a>\u00a0provocam diferentes interpreta\u00e7\u00f5es, quase tantas como as flores que percorrem ao longo de sua vida. Talvez por isso apare\u00e7am, atualmente, em um verdadeiro enxame de ensaios, romances, contos e livros para pequenos, ao mesmo tempo em que cresce a preocupa\u00e7\u00e3o por sua sobreviv\u00eancia. Na sequ\u00eancia, um voo pelos v\u00ednculos entre esses insetos e a hist\u00f3ria e cultura humanas.<\/p>\n<p>O status da\u00a0abelha, como todo animal carregado de simbolismo, \u00e9 amb\u00edguo. Assim, para\u00a0Pierre Henri\u00a0e\u00a0Fran\u00e7ois Tavoillot, irm\u00e3os e autores de\u00a0<em>El fil\u00f3sofo y la abeja<\/em>(Espasa, 2017) [O fil\u00f3sofo e a abelha], \u201cnela encontramos a ambival\u00eancia\u00a0natureza\/cultura, j\u00e1 que segue sendo selvagem em estado dom\u00e9stico (sua picada \u00e9 temida) e\u00a0dom\u00e9stica\u00a0em estado\u00a0selvagem\u00a0(produz seu mel inclusive sem\u00a0apicultura). Em resumo, o mundo da\u00a0abelha\u00a0se situa, em todos os seus aspectos, no confuso ponto de uni\u00e3o de diversas ordens do real: o vegetal e o animal, o terrestre e o celeste, a natureza e a cultura, o vivente e o eterno, o humano e o divino\u201d.<\/p>\n<p>A presen\u00e7a das\u00a0abelhas\u00a0chamou a aten\u00e7\u00e3o dos fil\u00f3sofos desde cedo. Os\u00a0Tavoillotrecordam que o pr\u00f3prio\u00a0Arist\u00f3teles\u00a0dedicou a este inseto numerosas observa\u00e7\u00f5es, e foi o animal mais analisado por ele, depois do ser humano.<\/p>\n<p>De fato, durante s\u00e9culos, as opini\u00f5es do fil\u00f3sofo (algumas err\u00f4neas, como a que a\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/570812-pesticida-neonicotinoide-reduz-as-chances-de-uma-abelha-rainha-comecar-uma-nova-colonia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">abelha-rainha<\/a>\u00a0era um macho e que o\u00a0mel\u00a0\u201cca\u00eda do ar\u201d) marcaram as opini\u00f5es de outros pensadores. Se para\u00a0Arist\u00f3teles\u00a0a\u00a0abelha\u00a0representava a harmonia com o\u00a0Cosmos, para o poeta romano\u00a0Virg\u00edlio\u00a0ilustrava a ordem do\u00a0Universo\u00a0\u201cidentificado com a\u00a0<em>pax romana<\/em>\u201d, de acordo com estes autores franceses.<\/p>\n<p><strong>Zumbidos mais recentes<\/strong><\/p>\n<p>O primeiro\u00a0cristianismo\u00a0tamb\u00e9m considerou a\u00a0abelha\u00a0um animal simb\u00f3lico, mesmo que n\u00e3o figurasse nenhuma refer\u00eancia a ela no\u00a0Novo Testamento. Como recorda\u00a0Santo Ambr\u00f3sio, no s\u00e9culo IV depois de Cristo, \u00e9 preciso \u201cimitar a abelha, que forma favos sem prejudicar ningu\u00e9m e sem atentar contra o bem alheio\u201d.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo,\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/550936-biografia-repleta-de-detalhes-poe-santo-agostinho-em-perspectiva\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Santo Agostinho<\/a>, ainda que a elogiava, ponderava: \u201cSe admiramos a\u00a0abelha\u00a0que retoma o voo ap\u00f3s ter feito seu\u00a0mel\u00a0com uma inexplic\u00e1vel sagacidade pela qual prevalece sobre o homem, n\u00e3o devemos por isso a preferir, nem a comparar conosco\u201d. N\u00e3o obstante, desde o anarquista\u00a0Proudhon\u00a0at\u00e9\u00a0Francesco Petrarca\u00a0e\u00a0Michel de Montaigne, ponderaram as caracter\u00edsticas de\u00a0abelhas\u00a0e\u00a0colmeias\u00a0como rotas a seguir pela\u00a0sociedade humana.<\/p>\n<p>Em parte por sua longa hist\u00f3ria relacionada com a da\u00a0humanidade, por seu\u00a0poder simb\u00f3lico, pelas m\u00faltiplas analogias que as pessoas se permitiram sobre elas e pelos dados atuais que marcam seu descenso, as\u00a0abelhas\u00a0chamam a aten\u00e7\u00e3o de artistas e escritores, al\u00e9m da de cientistas.<\/p>\n<p>Em 1901, o ensaio do dramaturgo belga\u00a0Maurice Maeterlinck,\u00a0A vida das abelhas, se tornou um cl\u00e1ssico e, sessenta anos depois, um relato de um argentino enriqueceria esse cruzamento entre literatura,\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/581102-apicultores-de-sp-enfrentam-a-morte-de-milhoes-de-abelhas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">apicultura<\/a>\u00a0e sociedade e come\u00e7ava a assinalar uma preocupa\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica: em 1961,\u00a0Marco Denevi\u00a0publicava o relato<em>\u00a0Las abejas de bronce<\/em>\u00a0[As abelhas de bronze], no qual um enxame de metal substitu\u00eda ao original e destru\u00eda as flores dos pa\u00edses, al\u00e9m de produzir um mel \u201ccom sabor met\u00e1lico\u201d.<\/p>\n<p>Mais perto no tempo e no plano romanesco, em 2014, a escritora argentina radicada na Fran\u00e7a,\u00a0Laura Alcoba, publicava seu romance\u00a0<em>El azul de las abejas<\/em>\u00a0(reeditado este ano por\u00a0Edhasa) [O azul das abelhas], onde a obra de\u00a0Maeterlinck\u00a0aparece como uma das costuras da rela\u00e7\u00e3o entre a narradora e seu pai. E, em 2016,\u00a0Siruela\u00a0lan\u00e7ou\u00a0<em>Hist\u00f3ria de las abejas<\/em>\u00a0[Hist\u00f3ria das abelhas], obra de fic\u00e7\u00e3o da norueguesa\u00a0Maja Lunde, que tece as hist\u00f3rias de tr\u00eas apicultores em diferentes \u00e9pocas e lugares.<\/p>\n<p>Uma delas se d\u00e1 na\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/566344-poluicao-gerada-pelas-fabricas-mata-mais-de-100-000-chineses-por-ano\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">China<\/a>, em 2098, em um mundo&#8230; sem\u00a0abelhas. As produ\u00e7\u00f5es para pequenos tamb\u00e9m se alimentam deste murm\u00fario: em 2007, estreou o recordista filme de anima\u00e7\u00e3o\u00a0<em>Bee movie<\/em>, e em 2016 o ilustrador polon\u00eas\u00a0Piotr Socha\u00a0publicou em castelhano o livro-\u00e1lbum\u00a0<em>Abejas\u00a0<\/em>[Abelhas]. Na s\u00e9rie\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/575037-black-mirror-expoe-nosso-medo-de-robos-e-algoritmos-que-fogem-do-controle\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Black Mirror<\/a>, aparecem como protagonistas e substituem a esp\u00e9cie, que se extinguiu. S\u00e3o artificiais, pura amea\u00e7a tecnol\u00f3gica.<\/p>\n<p><strong>A revolu\u00e7\u00e3o produtiva<\/strong><\/p>\n<p>Para al\u00e9m do campo cultural, a\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/185-noticias\/noticias-2016\/554423-desafios-da-producao-sem-veneno-ate-quando-tivermos-condicoes-nos-continuaremos-apostando-na-apicultura-diz-assentado\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">apicultura<\/a>\u00a0\u00e9 uma atividade lucrativa \u2013 inspiradora de representa\u00e7\u00f5es, como vimos \u2013 estendida por todo o mundo. A\u00a0Argentina\u00a0\u00e9 uma das principais produtoras de\u00a0mel. H\u00e1 estabelecimentos ap\u00edcolas espalhados por lugares muito diferentes como\u00a0Tucum\u00e1n,\u00a0San Juan,\u00a0R\u00edo Negro\u00a0e a prov\u00edncia de\u00a0Buenos Aires. Da localidade bonaerense de\u00a0Escobar, o presidente da\u00a0Cooperativa Ap\u00edcola Amuyen,\u00a0\u00c1ngel Davico, conta: \u201cN\u00f3s produzimos principalmente p\u00f3len e, depois, mel. O\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/573710-pesticidas-neonicotinoides-reduzem-significativamente-o-numero-de-graos-de-polen-que-uma-abelha-pode-coletar\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">p\u00f3len<\/a>\u00a0\u00e9 vendido para outros produtores ou para diet\u00e9ticas, veterin\u00e1rias e gin\u00e1sios\u201d. O produtor afirma que o uso de\u00a0agroqu\u00edmicos\u00a0sabota o trabalho (e a vida) das\u00a0abelhas.<\/p>\n<p>\u201cTivemos que transferi-las para a regi\u00e3o do\u00a0Delta, ao menos at\u00e9 que inventem a\u00a0soja flutuante\u201d, ironiza. \u201cA\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/542493-monoculturas-e-agrotoxicos-sao-as-causas-do-sumico-das-abelhas-entrevista-especial-com-betina-blochtein\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">monocultura<\/a>\u00a0retira a variedade de alimenta\u00e7\u00e3o das\u00a0abelhas\u00a0e, al\u00e9m do mais, por ser um\u00a0veneno, as\u00a0abelhas\u00a0o trazem para as\u00a0colmeias\u00a0e contagiam as outras\u201d, acrescenta.<\/p>\n<p>O fato de o modelo vigente de\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/580387-os-gols-do-agronegocio-contra-o-brasil\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">agroneg\u00f3cio<\/a>\u00a0afetar de cheio as\u00a0abelhas\u00a0e seu mundo n\u00e3o implica negar que a mortalidade das\u00a0colmeias\u00a0tamb\u00e9m obedece \u00e0 presen\u00e7a de \u00e1caros, fungos e bact\u00e9rias.<\/p>\n<p>Assim, essa combina\u00e7\u00e3o de causas extermina uma porcentagem significativa desses insetos. Em\u00a0C\u00f3rdoba, morreram 70 milh\u00f5es nos primeiros meses do ano e uma hip\u00f3tese consolidada \u00e9 que um agroqu\u00edmico foi o fator principal desse fato.<\/p>\n<p>Mart\u00edn Eguaras, doutor em Biologia, \u00e9 um dos que mais sabe sobre abelhas no pa\u00eds. Pesquisador do\u00a0CONICET, codirige o\u00a0Centro de Pesquisa em Abelhas Sociais, dependente da\u00a0Universidade Nacional de Mar del Plata.<\/p>\n<p>\u201cA quantidade de\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/570936-pesquisador-explica-por-que-agrotoxicos-sao-principais-culpados-por-desaparecimento-de-abelhas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">abelhas<\/a>\u00a0est\u00e1 em declive e \u00e9 um fen\u00f4meno em n\u00edvel mundial\u201d, disse em di\u00e1logo com a revista\u00a0\u00d1. Embora o cientista afirme que os parasitas t\u00eam sua boa parte de responsabilidade neste processo, os\u00a0agroqu\u00edmicos\u00a0\u201cs\u00e3o um componente principal para definir a raz\u00e3o pela qual as\u00a0abelhas\u00a0morrem\u201d.<\/p>\n<p>Se o\u00a0mel\u00a0\u00e9 o resultado mais tang\u00edvel (e sabore\u00e1vel) da atividade ap\u00edcola,\u00a0Eguarasexplica o papel fundamental que estes animais possuem. A principal contribui\u00e7\u00e3o \u00e9 o\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/170-noticias\/noticias-2014\/530852-rainhas-da-biodiversidade-abelhas-correm-perigo\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">processo de poliniza\u00e7\u00e3o<\/a>, conduzem\u00a0gr\u00e3os de p\u00f3len\u00a0de uma flor para outra, aumentam a produ\u00e7\u00e3o de\u00a0frutos\u00a0e\u00a0sementes, e assim d\u00e3o de comer a toda a popula\u00e7\u00e3o humana.<\/p>\n<p>H\u00e1 esp\u00e9cies vegetais que, caso existam\u00a0abelhas\u00a0perto, podem chegar a aumentar sua produ\u00e7\u00e3o em 40%, como o tomate e as fruteiras. E, al\u00e9m disso, o tipo de fruto que se consegue \u00e9 melhor\u201d.<\/p>\n<p>Esses\u00a0animais peculiares\u00a0aparecem em flores de uma\u00a0lavanda\u00a0ou de um\u00a0eucalipto, mesmo em uma \u00e9poca submetida aos algoritmos inform\u00e1ticos. Seu voo e suas tarefas parecem um lembrete de uma raz\u00e3o alheia \u00e0 programa\u00e7\u00e3o artificial.<\/p>\n<p>\u201cHoje, lamentamos com muita emo\u00e7\u00e3o o declive da\u00a0abelha\u00a0porque durante muito tempo foi considerada o s\u00edmbolo privilegiado da beleza e da harmonia do mundo, quando a\u00a0Natureza\u00a0se via infinitamente mais vasta, poderosa e duradoura que todos os mortais reunidos\u201d. \u00c9 o que afirmam os irm\u00e3os\u00a0Tavoillot. Talvez tenham raz\u00e3o e tanto zumbido atual sobre as\u00a0abelhas\u00a0seja o eco de uma voz que definha nos campos e jardins.<\/p>\n<p>Fontes &#8211; Clar\u00edn \/ tradu\u00e7\u00e3o <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/sobre-o-ihu\/rede-sjcias\/cepat\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Cepat<\/a>, IHU de 21 de agosto de 2018<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cHoje, lamentamos com muita emo\u00e7\u00e3o o\u00a0declive da abelha\u00a0porque durante muito tempo foi considerada o s\u00edmbolo privilegiado da beleza e da harmonia do mundo, quando a\u00a0Natureza\u00a0se via infinitamente mais vasta, poderosa e duradoura que todos os mortais reunidos\u201d. \u00c9 o que afirmam os irm\u00e3os\u00a0Tavoillot. 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