{"id":26562,"date":"2018-08-28T13:29:21","date_gmt":"2018-08-28T16:29:21","guid":{"rendered":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=26562"},"modified":"2018-08-28T13:29:21","modified_gmt":"2018-08-28T16:29:21","slug":"brasil-corre-risco-de-perder-um-bioma-inteiro-sem-nem-ao-menos-saber-que-ele-existe","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/brasil-corre-risco-de-perder-um-bioma-inteiro-sem-nem-ao-menos-saber-que-ele-existe\/","title":{"rendered":"Brasil corre risco de perder um bioma inteiro, sem nem ao menos saber que ele existe"},"content":{"rendered":"<p><em>Vegeta\u00e7\u00e3o de chaco, na regi\u00e3o de Porto Murtinho-MS. Foto: F\u00e1bio Alves.<\/em><\/p>\n<p>O Gran Chaco, ou simplesmente Chaco, \u00e9 um grande bioma de floresta seca com quase um milh\u00e3o de quil\u00f4metros quadrados no centro da Am\u00e9rica do Sul, e que ocupa uma vasta plan\u00edcie entre o norte da Argentina, o Paraguai e a Bol\u00edvia. Pouca gente sabe, mas o Chaco tamb\u00e9m \u00e9 um bioma brasileiro, pois invade por\u00e7\u00f5es dos estados do Mato Grosso e do Mato Grosso do Sul que margeiam as \u00e1reas semi-alagadas do Pantanal. Mas o Chaco no Brasil est\u00e1 desaparecendo. Muito rapidamente.<\/p>\n<p>Este rico bioma que levou milh\u00f5es de anos para se estabelecer e diversificar est\u00e1 sendo derrubado de forma acelerada por pecuaristas para a abertura de novas pastagens. No Mato Grosso do Sul s\u00f3 resta um punhado de \u00e1reas fragmentadas de Chaco no interior de grandes fazendas na regi\u00e3o de Porto Murtinho, junto \u00e0 fronteira com o Paraguai. A vegeta\u00e7\u00e3o de cada um destes fragmentos preserva uma importante parcela da diversidade gen\u00e9tica daquele bioma amea\u00e7ado.<\/p>\n<p>&#8220;Este patrim\u00f4nio gen\u00e9tico precisa ser preservado, antes que desapare\u00e7a para sempre. Est\u00e1 na hora de proteger o que resta do Chaco brasileiro e n\u00e3o deixar derrubar mais nada!&#8221; afirma a geneticista de plantas Anete Pereira de Souza, l\u00edder do Laborat\u00f3rio de An\u00e1lise Gen\u00e9tica Molecular no Centro de Biologia Molecular e Engenharia Gen\u00e9tica, do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).<\/p>\n<p>&#8220;Os dados que obtivemos mostram que estamos no fim da linha. Estamos na hora final para fazer algo e salvar o Chaco, evitando assim a perda definitiva de um bioma completo no Brasil,&#8221; adverte Souza. &#8220;Os dados mostram que estaremos em breve entrando na etapa de degrada\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica das esp\u00e9cies, o que significar\u00e1 o fim da diversidade necess\u00e1ria para manter o Chaco. Se perdermos as plantas, perderemos os animais, as aves, os insetos, os microrganismos do solo. O clima da regi\u00e3o, que j\u00e1 \u00e9 seco, poder\u00e1 piorar, com menos chuvas e temperaturas mais altas.\u00a0Enfim, \u00e9 uma cascata de problemas imensa que est\u00e1 na imin\u00eancia de acontecer, caso os governos brasileiro e do estado do Mato Grosso do Sul n\u00e3o decidam agir agora!&#8221;<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/2.bp.blogspot.com\/-UuXG8mGZkSI\/W3bSJHn2vKI\/AAAAAAABwoo\/pXYtDRTcAD40Lb_k51i4yBGMmScV_CNdgCEwYBhgL\/s640\/Chaco%2Bqueimado.png\" \/><\/p>\n<p><em>Chaco queimado em Porto Murtinho-MS. Foto: \u00c2ngela Sartori.<\/em><\/p>\n<p>E se o abate do Chaco brasileiro acabasse hoje, e fossem criadas \u00e1reas de conserva\u00e7\u00e3o permanente, quanto tempo levaria para recuperar a diversidade gen\u00e9tica perdida? Entre 300 e 3 mil anos. \u00c9 o que sugere um estudo feito pelo bi\u00f3logo catarinense F\u00e1bio Alves, membro da equipe de Souza.\u00a0O trabalho acaba de ser publicado em\u00a0<a href=\"https:\/\/onlinelibrary.wiley.com\/doi\/full\/10.1002\/ece3.4137\" rel=\"noopener\">Ecology and Evolution<\/a>.<\/p>\n<p>&#8220;A \u00e1rea de Chaco que resta \u00e9 bem pequena. Mas possui uma importante diversidade gen\u00e9tica que precisa ser conservada,&#8221; diz Souza. &#8220;Tendo isto em mente, decidimos investigar o estado da perda de diversidade naquele bioma. Gra\u00e7as ao trabalho de F\u00e1bio Alves e colaboradores, fizemos o diagn\u00f3stico da perda de diversidade acentuada de duas esp\u00e9cies de plantas caracter\u00edsticas do Chaco, bem como uma proposta para a conserva\u00e7\u00e3o de ambas as esp\u00e9cies e, consequentemente, do Chaco.&#8221;<\/p>\n<p><strong>Uma t\u00edmida exuber\u00e2ncia<\/strong><\/p>\n<p>A devasta\u00e7\u00e3o do Chaco brasileiro est\u00e1 diretamente ligada \u00e0 devasta\u00e7\u00e3o do Pantanal devido ao avan\u00e7o da fronteira agr\u00edcola nos \u00faltimos 40 anos. &#8220;Mesmo que a pecu\u00e1ria extensiva exista na regi\u00e3o desde 1740, o Pantanal sofreu uma supress\u00e3o p\u00edfia por mais de 200 anos. Contudo, a partir da d\u00e9cada de 1970, com a cria\u00e7\u00e3o de incentivos governamentais para a ocupa\u00e7\u00e3o da regi\u00e3o Centro-Oeste, em menos de 40 anos a devasta\u00e7\u00e3o se alastrou por todo o Pantanal. A regi\u00e3o de Porto Murtinho, no limite entre o Pantanal e o Chaco, \u00e9 uma das mais degradadas,&#8221; afirma Alves.<\/p>\n<p>Com o crescimento da ind\u00fastria da pecu\u00e1ria brasileira &#8211; o Brasil \u00e9 o maior produtor e exportador mundial de carne &#8211; principalmente devido ao aumento no consumo de carne na China, as fazendas de gado agora est\u00e3o avan\u00e7ando sobre a \u00e1rea do Chaco brasileiro.<\/p>\n<p>A \u00e1rea original do Chaco brasileiro era estimada, at\u00e9 1998, em 12,400 km<sup>2<\/sup>, o que equivalia a pouco mais da metade da \u00e1rea do estado de Sergipe, o menor do Brasil. Em 2008, no entanto, t\u00e9cnicos do Minist\u00e9rio do Meio Ambiente constataram que um ter\u00e7o de toda aquela cobertura nativa havia desaparecido. Isto j\u00e1 faz dez anos. N\u00e3o se tem uma estimativa da \u00e1rea de Chaco que se perdeu no Brasil desde ent\u00e3o. Mas a devasta\u00e7\u00e3o prossegue.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/1.bp.blogspot.com\/-HJsLws--L2Q\/W3bR52LQp7I\/AAAAAAABwog\/BhW5JN8fba4GEPxaTkrfsR-j4HhPHbl8gCEwYBhgL\/s640\/Chaco%2BArboreo%2B1.JPG\" \/><\/p>\n<p><em>Chaco arb\u00f3reo, na regi\u00e3o de Porto Murtinho-MS. Foto: F\u00e1bio Alves.<\/em><\/p>\n<p>Tal destrui\u00e7\u00e3o em ritmo acelerado disparou o alerta entre os bi\u00f3logos da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS), em Campo Grande, entre eles a bi\u00f3loga \u00c2ngela Sartori. Em meados dos anos 2000, Sartori come\u00e7ou a investigar a biodiversidade do Chaco brasileiro com a ajuda de seus alunos. Um deles era Alves, que fazia mestrado naquela institui\u00e7\u00e3o. Ele visitou o Chaco pela primeira vez em 2007. Seria apenas a primeira de 14 expedi\u00e7\u00f5es promovidas nos anos seguintes, durante as quais Alves p\u00f4de testemunhar a cont\u00ednua e desenfreada destrui\u00e7\u00e3o do pouco que resta de Chaco no Brasil.<\/p>\n<p>Uma raz\u00e3o para o bioma de Chaco ser pouco conhecido, e portanto praticamente n\u00e3o haver fora dos c\u00edrculos cient\u00edficos a consci\u00eancia da necessidade de sua preserva\u00e7\u00e3o, \u00e9 o fato de a vegeta\u00e7\u00e3o chaquenha n\u00e3o ser exuberante, como as da Amaz\u00f4nia e da Mata Atl\u00e2ntica, nem evocar paisagens temperadas, como os campos de arauc\u00e1rias da regi\u00e3o Sul, nem ter import\u00e2ncia econ\u00f4mica ou tur\u00edstica significativas (como \u00e9 o caso do vizinho Pantanal).<\/p>\n<p>\u00c0 primeira vista o Chaco pode parecer feio. Afinal, trata-se de uma floresta seca, onde cresce uma vegeta\u00e7\u00e3o espinhosa, agreste, que praticamente n\u00e3o desperta interesse econ\u00f4mico, sen\u00e3o ornamental. &#8220;Nas fazendas de Porto Murtinho v\u00ea-se algumas poucas esp\u00e9cies cultivadas em jardins ou vasos, pela beleza de suas flores,&#8221; observa Alves. &#8220;No Mato Grosso do Sul, chamam o Chaco de espinheiro. Acham feio. Por isto cortam tudo. Mas as plantas t\u00eam flores lindas,&#8221; comenta Souza.<\/p>\n<p>Espinheiro, por sinal, \u00e9 a denomina\u00e7\u00e3o popular de uma das duas esp\u00e9cies de plantas representativas do Chaco brasileiro que foram estudadas por Alves, e que fazem parte da grande fam\u00edlia das leguminosas. Ambas pertencem ao g\u00eanero\u00a0<em>Prosopis<\/em>. &#8220;Muito embora haja no mundo mais de 40 esp\u00e9cies do g\u00eanero\u00a0<em>Prosopis<\/em>, sendo 31 na Am\u00e9rica do Sul, no Brasil existem apenas cinco esp\u00e9cies registradas. Escolhi trabalhar com as duas esp\u00e9cies mais abundantes nas \u00e1reas chaquenhas do Brasil. As outras esp\u00e9cies s\u00e3o bastante dif\u00edceis de serem achadas e, quando o s\u00e3o, o n\u00famero de indiv\u00edduos por \u00e1rea \u00e9 baix\u00edssimo, tornando o trabalho populacional invi\u00e1vel,&#8221; diz Alves.<\/p>\n<p>Conhecida na regi\u00e3o do Chaco pelos nomes de barreiro-prelo ou espinheiro,\u00a0<em>Prosopis rubriflora<\/em>\u00a0\u00e9 um grande arbusto que atinge entre 4 a 6 metros de altura, e produz belas flores vermelhas o ano todo. Apresenta uma copa mais rala, o que deixa mais evidentes as suas flores. Ap\u00f3s a poliniza\u00e7\u00e3o, feita por abelhas, a planta produz seus frutos que, como se trata de uma leguminosa, crescem na forma de vagens que ficam penduradas nos galhos e, ao amadurecer, caem ao solo.<\/p>\n<p>De acordo com a Lista Vermelha da Uni\u00e3o Internacional para Conserva\u00e7\u00e3o da Natureza (IUCN), desde 1997 P. rubriflora \u00e9 classificada como em risco de extin\u00e7\u00e3o no Paraguai, pa\u00eds onde j\u00e1 foi derrubada metade da cobertura original de Chaco. &#8220;Sabendo que esta esp\u00e9cie tem registros apenas no Brasil e no Paraguai, acho que P. rubriflora deveria ser classificada como em risco de extin\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m no Brasil, uma vez que aqui a esp\u00e9cie est\u00e1 limitada a uma \u00fanica regi\u00e3o, que tem sofrido bastante com o desmatamento,&#8221; diz Alves.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/3.bp.blogspot.com\/-AoiLUHbUhqQ\/W3bR-QjpH9I\/AAAAAAABwok\/UJpKAQyemtgEyQIQh3XbL_ooRLPLGlEbACEwYBhgL\/s640\/Prosopis%2Brubriflora.jpg\" \/><\/p>\n<p><em>Uma \u00e1rvore de\u00a0Prosopis rubriflora\u00a0no Chaco brasileiro . Foto: F\u00e1bio Alves.<\/em><\/p>\n<p><em>Prosopis ruscifolia<\/em>, a segunda planta investigada, \u00e9 popularmente chamada algarobo ou pau-de-espinho. N\u00e3o se trata de um arbusto, mas de uma \u00e1rvore de 6 a 15 metros que floresce uma vez por ano, entre os meses de novembro e dezembro, quando brotam florzinhas brancas. A esp\u00e9cie apresenta uma copa mais densa. Seus frutos, as vagens, amadurecem igualmente encapsulados no interior de vagens, amadurecem entre janeiro e fevereiro.<\/p>\n<p>&#8220;Entre 2007 e 2012, visitei 14 vezes a regi\u00e3o de Porto Murtinho, no Mato Grosso do Sul. Para fazer o trabalho com as duas esp\u00e9cies de\u00a0<em>Prosopis<\/em>, coletei sementes e folhas em 19 \u00e1reas diferentes, que ficam no interior de 17 fazendas ou assentamentos. S\u00e3o \u00e1reas fragmentadas. Embora ainda existam umas poucas \u00e1reas bem conservadas, elas s\u00e3o a exce\u00e7\u00e3o e n\u00e3o a regra,&#8221; explica Alves.<\/p>\n<p>O trabalho de Alves envolveu a coleta de folhas de 241 indiv\u00edduos de\u00a0<em>P. rubriflora<\/em>\u00a0e 308 indiv\u00edduos de\u00a0<em>P. ruscifolia<\/em>. Uma \u00fanica \u00e1rea foi escolhida para a coleta de sementes de\u00a0<em>P. rubriflora<\/em>, a serem germinadas em laborat\u00f3rio. Ao longo de dois anos, Alves coletou no local 393 sementes.<\/p>\n<p>A ideia de Alves era coletar sementes e folhas das duas esp\u00e9cies de\u00a0<em>Prosopis<\/em>\u00a0que crescem em fragmentos de Chaco diversos, de modo a comparar &#8211; por meio da extra\u00e7\u00e3o de DNA &#8211; a variabilidade gen\u00e9tica das plantas que sobrevivem nos diversos fragmentos de Chaco. Deste modo, argumenta-se no estudo, poder-se-ia avaliar a perda gen\u00e9tica decorrente da destrui\u00e7\u00e3o do Chaco provocada pelo homem.<\/p>\n<p><strong>Por que isto importa?<\/strong><\/p>\n<p>Por que \u00e9 importante avaliar o est\u00e1gio de perda da varia\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica do Chaco?\u00a0A hist\u00f3ria da vida na Terra \u00e9 a hist\u00f3ria da evolu\u00e7\u00e3o das esp\u00e9cies a partir da diversifica\u00e7\u00e3o de outras esp\u00e9cies que viveram antes delas. A diversifica\u00e7\u00e3o acontece naturalmente, atrav\u00e9s do cruzamento de indiv\u00edduos para a produ\u00e7\u00e3o de embri\u00f5es que ir\u00e3o germinar formando uma nova gera\u00e7\u00e3o. A cada cruzamento surgem novas muta\u00e7\u00f5es na cadeia de DNA onde se insere o c\u00f3digo heredit\u00e1rio de cada indiv\u00edduo.<\/p>\n<p>Quando as muta\u00e7\u00f5es s\u00e3o ben\u00e9ficas, por exemplo conferindo \u00e0 planta maior resist\u00eancia \u00e0 aridez, maior toler\u00e2ncia ao calor ou melhor adapta\u00e7\u00e3o a solos mais \u00e1cidos ou quimicamente pobres (como ocorre no Chaco), os indiv\u00edduos com tais caracter\u00edsticas t\u00eam mais chances de sobreviver. Da\u00ed que tais muta\u00e7\u00f5es acabam por ser incorporadas ao c\u00f3digo gen\u00e9tico, fixando-se sob a forma de genes, que s\u00e3o por sua vez transmitidos \u00e0s gera\u00e7\u00f5es seguintes.<\/p>\n<p><em>\u201cQuando o bioma \u00e9 devastado e a maior parte dos indiv\u00edduos de uma popula\u00e7\u00e3o desaparece, s\u00e3o grandes as chances de se estar perdendo conjuntos de genes essenciais \u00e0 sobreviv\u00eancia da esp\u00e9cie. Da\u00ed a import\u00e2ncia de se diagnosticar o grau de perda de diversidade gen\u00e9tica nas plantas do Chaco, para verificar se j\u00e1 n\u00e3o ocorreu um dano irrevers\u00edvel, e avaliar o que pode ser feito para recuperar a diversidade gen\u00e9tica perdida &#8211; ou, pelo menos, impedir que a variabilidade gen\u00e9tica continue sendo perdida.\u201d.<\/em><\/p>\n<p>Com o passar de centenas ou milhares de gera\u00e7\u00f5es, o ac\u00famulo de genes espec\u00edficos num determinado grupo de indiv\u00edduos de uma mesma esp\u00e9cie pode originar o surgimento de uma nova esp\u00e9cie, adaptada a germinar, crescer e florescer num bioma espec\u00edfico, no caso o Chaco.<\/p>\n<p>Imagine o DNA como uma caixa de ferramentas na qual os genes s\u00e3o instrumentos espec\u00edficos indicados para lidar com necessidades ou limita\u00e7\u00f5es espec\u00edficas enfrentadas por uma esp\u00e9cie e a ela impostas pelo meio ambiente. Assim, a variedade de instrumentos na &#8220;caixa de ferramentas gen\u00e9tica&#8221; das plantas do Chaco \u00e9 a sua garantia para enfrentar situa\u00e7\u00f5es adversas.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que nem todas as diferentes varia\u00e7\u00f5es de um gene de uma esp\u00e9cie est\u00e3o presentes em todos os indiv\u00edduos. A variabilidade gen\u00e9tica dentro de uma esp\u00e9cie implica que alguns variantes de genes espec\u00edficos, como por exemplo aquele que confere prote\u00e7\u00e3o contra um determinado fungo ou doen\u00e7a, v\u00e3o estar presentes no DNA de alguns indiv\u00edduos, e n\u00e3o no de outros.<\/p>\n<p>Quando o bioma \u00e9 devastado e a maior parte dos indiv\u00edduos de uma popula\u00e7\u00e3o desaparece, s\u00e3o grandes as chances de se estar perdendo conjuntos de genes essenciais \u00e0 sobreviv\u00eancia da esp\u00e9cie. Da\u00ed a import\u00e2ncia de se diagnosticar o grau de perda de diversidade gen\u00e9tica nas plantas do Chaco, para verificar se j\u00e1 n\u00e3o ocorreu um dano irrevers\u00edvel, e avaliar o que pode ser feito para recuperar a diversidade gen\u00e9tica perdida &#8211; ou, pelo menos, impedir que a variabilidade gen\u00e9tica continue sendo perdida.<\/p>\n<p>Um exemplo de perda de diversidade foi presenciado por Alves numa \u00e1rea de Chaco que visitou em 2007. &#8220;A \u00e1rea foi escolhida por ser de f\u00e1cil acesso e ter sido razoavelmente conservada. Nela havia uma boa diversidade de esp\u00e9cies, sendo algumas delas dif\u00edceis de encontrar em outros locais.\u00a0Tais esp\u00e9cies, quando localizadas em outras \u00e1reas, apresentavam um n\u00famero muito baixo de indiv\u00edduos, como o palo santo (<em>Bulnesia sarmientoi<\/em>), a cerejeira (<em>Amburana cearensis<\/em>), o guayacan (Libidibia paraguariensis) e o pau-cascudo (<em>Chloroleucon chacoense<\/em>), as tr\u00eas \u00faltimas classificadas como vulner\u00e1veis na Lista Vermelha da IUCN.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Por se tratar de uma \u00e1rea que tamb\u00e9m apresentava abund\u00e2ncia de\u00a0<em>P. rubriflora<\/em>, decidi retornar ali para coletar em 2010. Por\u00e9m quando parei na frente da fazenda, a mata de Chaco havia desaparecido. Cheguei mesmo a checar as coordenadas de GPS para me certificar de que estava no local correto. Era l\u00e1 mesmo. Sobraram apenas os carand\u00e1s. Deu um aperto no peito. N\u00e3o havia nada mais a ser feito.&#8221;<\/p>\n<p>Os genes que porventura estavam restritos a indiv\u00edduos que viviam naquela \u00e1rea foram perdidos para todo o sempre. &#8220;Se houve algum gene ou grupo de genes importantes que foi perdido, e que seria crucial para a adapta\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie a algum evento futuro, tal perda muito dificilmente ser\u00e1 recuperada, dado que as muta\u00e7\u00f5es que proporcionam a variabilidade gen\u00e9tica s\u00e3o aleat\u00f3rias. Uma vez que o que est\u00e1 perdido \u00e9 para sempre, nosso foco foi amostrar o que ainda existe de diversidade gen\u00e9tica, de modo a poder apontar \u00e1reas priorit\u00e1rias para a conserva\u00e7\u00e3o, ou pelo menos que seja feito um manejo para manter a diversidade atual,&#8221; diz Alves.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/1.bp.blogspot.com\/--Nd0H-NTmys\/W3bSCnKCOTI\/AAAAAAABwok\/IvoJBeMbCicjV5y0DzwB7hhYjx8RTlMQQCEwYBhgL\/s640\/Prosopis%2Bruscifolia%2Bflores%2Be%2Bfolhas.jpg\" \/><\/p>\n<p><em>Folhas e flores de\u00a0Prosopis ruscifolia. Foto: F\u00e1bio Alves.<\/em><\/p>\n<p><strong>At\u00e9 3 mil anos para recuperar<\/strong><\/p>\n<p>&#8220;A \u00e1rea do Chaco que estudamos foi muito reduzida pela instala\u00e7\u00e3o das pastagens, sobrando poucos aglomerados de \u00e1rvores, distantes uns dos outros em meio aos pastos,&#8221; explica Souza. &#8220;Apesar disso, ainda h\u00e1 esperan\u00e7a de se poder salvar o bioma, pois as \u00e1rvores das diferentes popula\u00e7\u00f5es de\u00a0<em>P. ruscifolia<\/em>\u00a0e\u00a0<em>P. rubriflora<\/em>\u00a0ainda est\u00e3o trocando p\u00f3lens, gra\u00e7as ao trabalho de poliniza\u00e7\u00e3o desempenhado pelas diversas esp\u00e9cies de abelhas que habitam a regi\u00e3o.&#8221;<\/p>\n<p>Ou seja, at\u00e9 o momento,\u00a0<em>P. ruscifolia<\/em>\u00a0e\u00a0<em>P. rubriflora<\/em>\u00a0n\u00e3o apresentam perda da diversidade porque n\u00e3o est\u00e3o cruzando apenas com as plantas mais pr\u00f3ximas e\/ou com suas irm\u00e3s, todas as filhas de uma mesma planta-m\u00e3e. As duas esp\u00e9cies pesquisadas ainda est\u00e3o mantendo um certo n\u00edvel de diversidade pela aquisi\u00e7\u00e3o de p\u00f3len de \u00e1rvores de popula\u00e7\u00f5es diferentes, localizadas em aglomerados mais distantes.<\/p>\n<p>&#8220;Entretanto, nosso estudo identificou que a esp\u00e9cie\u00a0<em>P. ruscifolia<\/em>\u00a0tem um risco maior de perda da diversidade que\u00a0<em>P. rubriflora<\/em>, pois j\u00e1 aparecem sinais de menor diversidade gen\u00e9tica quando analisadas com marcadores moleculares,&#8221; alerta Souza. &#8220;<em>P. ruscifolia<\/em>\u00a0j\u00e1 est\u00e1 na lista de plantas amea\u00e7adas no Paraguai desde 1997. Ou seja , a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 realmente muito s\u00e9ria!&#8221;<\/p>\n<p>De acordo com Anete Pereira de Souza, o trabalho permitiu medir a perda iminente da variabilidade gen\u00e9tica do Chaco, por meio do estudo de duas esp\u00e9cies t\u00edpicas deste bioma. &#8220;Como resultados pr\u00e1ticos indicamos um programa de conserva\u00e7\u00e3o a ser implantado, se poss\u00edvel imediatamente para salvar o que resta do Chaco. O programa foi baseado nas duas esp\u00e9cies estudadas, por\u00e9m, ele pode ser replicado \u00e0s outras esp\u00e9cies. Isso \u00e9 poss\u00edvel porque o foco da conserva\u00e7\u00e3o refere-se \u00e0s \u00e1reas em que est\u00e3o as 2 esp\u00e9cies estudadas. A professora \u00c2ngela L.B. Sartori, da UFMS, juntamente com seus colaboradores, trabalha h\u00e1 anos neste projeto de conserva\u00e7\u00e3o do Chaco (incluindo as plantas e animais) e, nossos resultados tomados em conjunto, permitir\u00e3o a conserva\u00e7\u00e3o das \u00e1reas fragmentadas que ainda restam do Chaco.&#8221;<\/p>\n<p>Se e quando o Minist\u00e9rio do Meio Ambiente vier a criar \u00e1reas de prote\u00e7\u00e3o permanente para salvar o pouco que resta do Chaco brasileiro, como deveriam ser tais \u00e1reas e com qual a escala de tempo se dever\u00e1 trabalhar?<\/p>\n<p>Segundo F\u00e1bio Alves, &#8220;nossos resultados sugerem que 42 \u00e1reas do Chaco devem ser conservadas para manter o m\u00ednimo de 500 indiv\u00edduos necess\u00e1rios para manter a diversidade gen\u00e9tica entre cem e mil gera\u00e7\u00f5es.\u00a0Considerando-se que indiv\u00edduos do g\u00eanero Prosopis atingem a idade reprodutiva aos tr\u00eas anos de idade, isto significa que, para recuperar a diversidade gen\u00e9tica perdida, seria necess\u00e1rio manter reservas intactas entre 300 a 3 mil anos.&#8221;<\/p>\n<p>Publicado originalmente no blog da\u00a0<a href=\"http:\/\/abradivciencia.blogspot.com\/2018\/08\/sos-chaco-brasil-corre-risco-de-perder.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Ag\u00eancia Brasileira de Divulga\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica<\/a>.<\/p>\n<p>Fonte &#8211; Peter Moon, da Ag\u00eancia Brasileira de Divulga\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica, O Eco de 22 de agosto de 2018<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vegeta\u00e7\u00e3o de chaco, na regi\u00e3o de Porto Murtinho-MS. 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