{"id":26721,"date":"2018-09-14T17:00:52","date_gmt":"2018-09-14T20:00:52","guid":{"rendered":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=26721"},"modified":"2018-09-05T09:27:42","modified_gmt":"2018-09-05T12:27:42","slug":"parte-do-solo-do-artico-nao-esta-mais-congelando-nem-mesmo-no-inverno","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/parte-do-solo-do-artico-nao-esta-mais-congelando-nem-mesmo-no-inverno\/","title":{"rendered":"Parte do solo do \u00e1rtico n\u00e3o est\u00e1 mais congelando &#8211; nem mesmo no inverno"},"content":{"rendered":"<p>O ch\u00e3o afunda em Duvanny Yar, um megadesmoronamento de permafrost ao longo do rio Kolyma no norte da Sib\u00e9ria. Novos estudos sugerem que parte da terra no Alasca \u00c1rtico e na R\u00fassia nem sequer congelam mais. Este local de constantes deslizamentos m\u00f3veis, causados pela eros\u00e3o e acelerados pelo aumento das temperaturas, \u00e9 um local importante de pesquisa para os cientistas, que o utilizam para monitorar o que acontece quando come\u00e7a o derretimento em uma regi\u00e3o rica em carbono congelada h\u00e1 s\u00e9culos.\u00a0FOTO DE\u00a0<span class=\"ng-article-image__content--strong\">KATIE ORLINSKY, <\/span><\/p>\n<p>Novos dados de dois pontos do \u00c1rtico sugerem que algumas camadas da superf\u00edcie n\u00e3o est\u00e3o mais congelando. Se isso continuar, os gases-estufa do permafrost podem acelerar as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas.<\/p>\n<p>CHERSKIY, R\u00faSSIA Nikita Zimov fazia um trabalho de campo ecol\u00f3gico com seus alunos no norte da Sib\u00e9ria quando se deparou com um ind\u00edcio perturbador: ele observou que a terra congelada pode estar derretendo bem mais r\u00e1pido que o esperado.<\/p>\n<p>Zimov, tal como seu pai, Sergey Zimov, passou anos dirigindo uma esta\u00e7\u00e3o de pesquisa que monitora as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas no extremo oriente russo que enfrenta um vertiginoso aquecimento. Quando os alunos examinaram o solo e coletaram amostras de solo em meio a colinas cobertas de musgos e florestas de pinheiros lari\u00e7os perto de sua casa, a cerca de 320 quil\u00f4metros ao norte do C\u00edrculo \u00c1rtico, Nikita Zimov suspeitou que havia algo errado.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.nationalgeographicbrasil.com\/sites\/brazil\/files\/styles\/image_885\/public\/03_permafrost_pleistocene-chersky-064.jpg\" \/><\/p>\n<p>Sergey Zimov mede os n\u00edveis de permafrost com as netas perto da Esta\u00e7\u00e3o de Ci\u00eancias do Nordeste que fundou em Cherskiy, na R\u00fassia, ao longo do rio Kolyma. A aproximadamente uma hora de dist\u00e2ncia fica o experimento cient\u00edfico de grande porte de Zimov, o Parque do Pleistoceno, que ele dirige com seu filho, Nikita Zimov. Os dois acreditam que, ao recriar o ecossistema da era do Pleistoceno, antes dominada por savanas e grandes mam\u00edferos, poder\u00e3o atrasar o derretimento do permafrost.\u00a0FOTO DE\u00a0<span class=\"ng-article-image__content--strong\">KATIE ORLINSKY, NATIONAL GEOGRAPHIC<\/span><\/p>\n<div>\n<p>Em abril, ele enviou uma equipe munida com brocas pesadas para verificar. O solo foi perfurado poucos metros e foi encontrada uma lama espessa e lodosa. Zimov disse que era imposs\u00edvel. Cherskiy, seu vilarejo de 3 mil pessoas ao longo do rio Kolyma, \u00e9 um dos pontos mais frios da Terra. Mesmo no fim da primavera, o solo abaixo da superf\u00edcie deveria estar totalmente congelado.<\/p>\n<p>S\u00f3 que, naquele ano, n\u00e3o estava.<\/p>\n<p>A cada inverno no \u00c1rtico, os primeiros poucos cent\u00edmetros ou metros de solo e material rico em plantas congelam antes de derreter novamente no ver\u00e3o. Embaixo dessa camada ativa de solo que se estende por dezenas de metros, existe uma terra constantemente congelada chamada de permafrost, que, em alguns lugares, permaneceu congelada por mil\u00eanios.<\/p>\n<p>Contudo, em uma regi\u00e3o onde as temperaturas podem chegar a 40 graus Celsius negativos, a fam\u00edlia Zimov afirma que este ano uma precipita\u00e7\u00e3o extraordinariamente elevada agiu como um cobertor, aprisionando o excesso de calor no solo. Eles encontraram trechos com mais de 70 cent\u00edmetros de profundidade, solos que normalmente congelam antes do Natal, que permaneceram \u00famidos e lodosos durante todo o inverno. Foi a primeira vez que se soube que o solo que isola o permafrost profundo do \u00c1rtico simplesmente n\u00e3o congelou no inverno.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.nationalgeographicbrasil.com\/sites\/brazil\/files\/styles\/image_885\/public\/21_permafrost_pleistocene-chersky-263.jpg\" \/><\/p>\n<div class=\"ng-article-image__content__copy\"><em>Pol\u00edgonos formados pelo congelamento e derretimento anuais de gelo em formato de cunha logo abaixo da superf\u00edcie da Terra ficam vis\u00edveis de cima perto da Esta\u00e7\u00e3o de Ci\u00eancias do Nordeste em Cherskiy, na R\u00fassia.\u00a0FOTO DE\u00a0<span class=\"ng-article-image__content--strong\">KATIE ORLINSKY, NATIONAL GEOGRAPHIC<\/span><\/em><\/div>\n<\/div>\n<p>&#8220;Isso \u00e9 realmente estarrecedor&#8221;, afirmou\u00a0<a href=\"http:\/\/whrc.org\/staff\/robert-max-holmes\/\">Max Holmes<\/a>, cientista do \u00c1rtico do Centro de Pesquisas Woods Hole localizado em Massachusetts.<\/p>\n<p>A descoberta nunca foi verificada ou publicada por outros pesquisadores e representa dados limitados de um local em um determinado ano. No entanto, aparentemente, as medidas feitas por outro cientista pr\u00f3ximo e um cientista a um oceano de dist\u00e2ncia confirmam os achados dos Zimovs, alguns especialistas do \u00c1rtico est\u00e3o ponderando sobre uma quest\u00e3o perturbadora: O degelo do permafrost pode come\u00e7ar d\u00e9cadas antes do que muitas pessoas esperam em algumas das\u00a0<a href=\"https:\/\/www.sciencedirect.com\/science\/article\/pii\/S0012825217300508\">regi\u00f5es mais frias e mais ricas em carbono do \u00c1rtico<\/a>, emitindo gases-estufa aprisionados que podem acelerar as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas causadas pelo homem?<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.nationalgeographicbrasil.com\/sites\/brazil\/files\/styles\/image_885\/public\/02_permafrost_pleistocene-chersky-230.jpg\" \/><\/p>\n<div class=\"ng-article-image__content__copy\"><em>Nikita Zimov faz bolhas de metano em um lago que \u00e9 poss\u00edvel que esteja aumentando devido ao derretimento do solo.\u00a0FOTO DE\u00a0<span class=\"ng-article-image__content--strong\">KATIE ORLINSKY, NATIONAL GEOGRAPHIC<\/span><\/em><\/div>\n<p>Tr\u00eas dos \u00faltimos quatro anos foram registrados como os mais quentes da Terra, estando\u00a0<a href=\"https:\/\/urldefense.proofpoint.com\/v2\/url?u=https-3A__nam04.safelinks.protection.outlook.com_-3Furl-3Dhttps-253A-252F-252Furldefense.proofpoint.com-252Fv2-252Furl-253Fu-253Dhttp-2D3A-5F-5Fwww.noaa.gov-5Fnews-5Fjune-2D2D2018-2D2Dwas-2D2D5th-2D2Dwarmest-2D2Don-2D2Drecord-2D2Dfor-2D2Dglobe-2526d-253DDwMFAw-2526c-253Duw6TLu4hwhHdiGJOgwcWD4AjKQx6zvFcGEsbfiY9-2DEI-2526r-253DPbsM81FdqiCvCR9R1Y2rnXFzgK5Rpp-5FvyPM8soocZeA-2526m-253DQP5Wx-2DryiQ5jlQ1RXCLHr6PbokmvEtbCAHZ3A5fzP5c-2526s-253Dp5qfTFbJ3sV524vNCH7ZO7eU8WBLpJKwJ97l7wgbaUI-2526e-253D-26data-3D02-257C01-257C-257Ceb4a5f7960c34bf2ab3208d6061acf37-257C84df9e7fe9f640afb435aaaaaaaaaaaa-257C1-257C0-257C636703109539412692-26sdata-3DIhT1rEGSZOHxJvdnbLewQ4LbZEXALp69LnK7zTnT4DE-253D-26reserved-3D0&amp;d=DwMFAw&amp;c=uw6TLu4hwhHdiGJOgwcWD4AjKQx6zvFcGEsbfiY9-EI&amp;r=PbsM81FdqiCvCR9R1Y2rnXFzgK5Rpp_vyPM8soocZeA&amp;m=GiH7_GR44d0Y7A-KetLnfS13kI8sMv-EpLChy6_j8fs&amp;s=F5iOrXnXlyN70GkPW1FKqcsRSUzEsI3q_u69vQsLwcA&amp;e=\">2018 previsto para ser o quarto<\/a>. E os polos est\u00e3o efetivamente aquecendo bem mais r\u00e1pido, com \u00e1reas a quase 500 quil\u00f4metros ao norte do C\u00edrculo \u00c1rtico na Noruega\u00a0<a href=\"https:\/\/urldefense.proofpoint.com\/v2\/url?u=https-3A__nam04.safelinks.protection.outlook.com_-3Furl-3Dhttps-253A-252F-252Furldefense.proofpoint.com-252Fv2-252Furl-253Fu-253Dhttp-2D3A-5F-5Fwww.severe-2D2Dweather.eu-5Fnews-5Fextreme-2D2Dnorth-2D2Dof-2D2Dnorway-2D2Dhits-2D2D30-2D2Dc-2D2Dup-2D2Dto-2D2D32-2D2Dc-2D2Dat-2D2D70n-5F-2526d-253DDwMFAw-2526c-253Duw6TLu4hwhHdiGJOgwcWD4AjKQx6zvFcGEsbfiY9-2DEI-2526r-253DPbsM81FdqiCvCR9R1Y2rnXFzgK5Rpp-5FvyPM8soocZeA-2526m-253DQP5Wx-2DryiQ5jlQ1RXCLHr6PbokmvEtbCAHZ3A5fzP5c-2526s-253D9Z7p8m-2DT-2D7zRcumjBzT9HzjsA2CK7YdKe6twLlOy5Pg-2526e-253D-26data-3D02-257C01-257C-257Ceb4a5f7960c34bf2ab3208d6061acf37-257C84df9e7fe9f640afb435aaaaaaaaaaaa-257C1-257C0-257C636703109539412692-26sdata-3Dnn2IvDsgoYGPnF99H3LrxCQBOiQBnc3-252FNX5SUQSNPxw-253D-26reserved-3D0&amp;d=DwMFAw&amp;c=uw6TLu4hwhHdiGJOgwcWD4AjKQx6zvFcGEsbfiY9-EI&amp;r=PbsM81FdqiCvCR9R1Y2rnXFzgK5Rpp_vyPM8soocZeA&amp;m=GiH7_GR44d0Y7A-KetLnfS13kI8sMv-EpLChy6_j8fs&amp;s=ln9hlcVp7ijqnZE-3qfH_hZQ-aRymDBDpJvfXRpqImg&amp;e=\">passando de 30 graus Celsius<\/a>\u00a0em julho deste ano. Se quantidades significativas de permafrost come\u00e7arem a derreter cedo, isso s\u00f3 vai piorar as coisas.<\/p>\n<p>&#8220;Isto \u00e9 importante&#8221;, afirma\u00a0<a href=\"https:\/\/www2.nau.edu\/schuurlab-p\/\">Ted Schuur<\/a>, especialista em permafrost da Universidade do Norte do Arizona. &#8220;No mundo do permafrost, este \u00e9 um marco significativo de uma tend\u00eancia perturbadora, como o carbono na atmosfera chegar a 400 partes por milh\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.nationalgeographicbrasil.com\/sites\/brazil\/files\/styles\/image_885\/public\/07_permafrost_pleistocene-chersky-181.jpg\" \/><\/p>\n<div class=\"ng-article-image__content__copy\"><em>A grama Foxtail, as flores fireweed (Chamaenerion angustifolium) e flores de algod\u00e3o s\u00e3o abundantes em Cherskiy, na R\u00fassia, durante o ver\u00e3o. A cidade \u00e9 totalmente constru\u00edda sobre o permafrost. Os pr\u00e9dios s\u00e3o constru\u00eddos sobre estacas de concreto com o encanamento acima do solo para levar em considera\u00e7\u00e3o mudan\u00e7as na topografia conforme o permafrost derrete.\u00a0<\/em><em>FOTO DE\u00a0<span class=\"ng-article-image__content--strong\">KATIE ORLINSKY, NATIONAL GEOGRAPHIC<\/span><\/em><\/div>\n<div>\n<p><strong>Extrapolando o limite<\/strong><\/p>\n<p>Quase um quarto da massa da Terra do hemisf\u00e9rio norte encontra-se acima do permafrost. Mais que o dobro do carbono encontrado na atmosfera est\u00e1 aprisionado neste solo e vegeta\u00e7\u00e3o congelados.<\/p>\n<p>Conforme a queima de combust\u00edveis f\u00f3sseis aquece a Terra, esse solo derrete, permitindo que micr\u00f3bios consumam a mat\u00e9ria org\u00e2nica enterrada e emitam di\u00f3xido de carbono e o metano de vida mais curta,\u00a0que \u00e9 25 vezes mais potente\u00a0que um g\u00e1s-estufa como o CO2.<\/p>\n<p>As temperaturas do permafrost ao longo do \u00c1rtico v\u00eam aumentando pelo menos desde os anos 1970 &#8211; tanto que o degelo localizado em pequena escala j\u00e1 est\u00e1 ocorrendo em diversos lugares. Entretanto, grande parte dessa terra congelada ainda est\u00e1 isolada por uma camada ativa de solo congelando e derretendo acima dela.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.nationalgeographicbrasil.com\/sites\/brazil\/files\/styles\/image_885\/public\/06_permafrost_pleistocene-chersky-051.jpg\" \/><\/p>\n<div class=\"ng-article-image__content__copy\"><em>A grama da tundra mostra a umidade do derretimento perto de onde o rio Kolyma desagua no oceano \u00c1rtico.\u00a0FOTO DE\u00a0<span class=\"ng-article-image__content--strong\">KATIE ORLINSKY, NATIONAL GEOGRAPHIC<\/span><\/em><\/div>\n<div>\n<p>Agora est\u00e3o aparecendo sinais de que o congelamento anual pode mudar rapidamente.<\/p>\n<p>A quase 20 quil\u00f4metros rio abaixo do local onde a fam\u00edlia Zimov iniciou sua perfura\u00e7\u00e3o,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.bgc-jena.mpg.de\/bgc-systems\/pmwiki2\/pmwiki.php\/Staff\/GoeckedeMathias\">Mathias Goeckede<\/a>,\u00a0do Instituto de Biogeoqu\u00edmica Max Planck da Alemanha, passa, a cada ver\u00e3o, semanas atravessando cal\u00e7ad\u00f5es em ru\u00ednas sobre o solo esponjoso da Sib\u00e9ria. Ele monitora a troca de carbono entre a Terra e a atmosfera.<\/p>\n<p>Medi\u00e7\u00f5es do local estudado por ele indicam que a profundidade de neve l\u00e1 quase dobrou em cinco anos. Quando o excesso de chuva cobre totalmente o solo, o calor abaixo da superf\u00edcie n\u00e3o consegue se dissipar durante o inverno. Dados de uma perfura\u00e7\u00e3o do local de Goeckede parecem identificar esse fen\u00f4meno: em abril, as temperaturas a pouco mais de 30 cent\u00edmetros abaixo do solo no local aumentaram pouco mais de 5 graus Celsius no mesmo per\u00edodo de cinco anos.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.nationalgeographicbrasil.com\/sites\/brazil\/files\/styles\/image_885\/public\/09_permafrost_batagaika-crater-046-.jpg\" \/><\/p>\n<div class=\"ng-article-image__content__copy\"><em>A Cratera Batagaika na cidade de Batagay, na R\u00fassia, \u00e9 conhecida como a &#8220;cratera do inferno&#8221; ou o &#8220;portal para o submundo.\u201d Com mais de 90 metros de profundidade e mais de 800 metros de comprimento, a depress\u00e3o \u00e9 uma das maiores do mundo. Cientistas acreditam que ela come\u00e7ou a se formar nos anos 1960, quando o permafrost sob a \u00e1rea come\u00e7ou a derreter ap\u00f3s o desmatamento das florestas vizinhas.\u00a0FOTO DE\u00a0<span class=\"ng-article-image__content--strong\">KATIE ORLINSKY, NATIONAL GEOGRAPHIC<\/span><\/em><\/div>\n<div>\n<p>&#8220;Este \u00e9 apenas um local e s\u00e3o apenas cinco anos, ent\u00e3o isso deve ser considerado somente um estudo de caso\u201d, conta Goeckede. &#8220;Mas se voc\u00ea pressupor que \u00e9 uma tend\u00eancia ou que possa continuar assim, ent\u00e3o \u00e9 alarmante\u201d.<\/p>\n<p>A milhares de quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia,\u00a0<a href=\"http:\/\/permafrost.gi.alaska.edu\/users\/vromanovsky\">Vladimir Romanovsky<\/a>\u00a0encontrou algo parecido. Romanovsky, especialista em permafrost da Universidade do Alasca, Fairbanks, administra um dos locais mais extensos de monitoramento de permafrost da Am\u00e9rica do Norte, com registros detalhados datando de 25 anos e, em alguns casos, mais tempo ainda.<\/p>\n<p>&#8220;Em todos os anos anteriores a 2014, o congelamento completo da camada ativa ocorria em meados de janeiro&#8221;, explicou ele. &#8220;A partir de 2014, a data de congelamento mudou para o fim de fevereiro e at\u00e9 mar\u00e7o.&#8221;<\/p>\n<p>Contudo, neste inverno, Fairbanks tamb\u00e9m passou por nevascas extremamente intensas e pela primeira vez foi registrada que a camada ativa em dois dos locais examinados por Romanovsky nem sequer congelaram.<\/p>\n<p>&#8220;Esse \u00e9 um limiar muito importante&#8221;, acrescentou ele.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.nationalgeographicbrasil.com\/sites\/brazil\/files\/styles\/image_885\/public\/23_permafrost_batagaika-crater-071.jpg\" \/><\/p>\n<div class=\"ng-article-image__content__copy\"><em>O permafrost pode ser visto ao longo do per\u00edmetro da cratera Batagaika.\u00a0FOTO DE\u00a0<span class=\"ng-article-image__content--strong\">KATIE ORLINSKY, NATIONAL GEOGRAPHIC<\/span><\/em><\/div>\n<div>\n<p><strong>Motivos para o ceticismo<\/strong><\/p>\n<p>Claro, o tempo no \u00c1rtico \u00e9 notoriamente vari\u00e1vel. Alguns anos de nevascas em algumas regi\u00f5es podem rapidamente abrir caminho para um longo per\u00edodo de anos frios e secos.<\/p>\n<p>Alguns cientistas tamb\u00e9m est\u00e3o divididos sobre o trabalho dos Zimovs, que n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o rigoroso quanto muitos pesquisadores ocidentais est\u00e3o acostumados. Os achados dos Zimovs n\u00e3o possuem dados de temperatura, nem podem indicar registros de longo prazo. Muitos dos locais que eles examinaram tamb\u00e9m foram perturbados por atividade humana ou animais n\u00e3o nativos, o que deixa o solo mais suscet\u00edvel ao aquecimento.<\/p>\n<p>&#8220;Fazer buracos em diversos lugares dificilmente \u00e9 rigor cient\u00edfico&#8221;, conta\u00a0<a href=\"https:\/\/www.gi.alaska.edu\/directory\/matthew-sturm\">Matt Sturm<\/a>, especialista em neve da Universidade do Alasca, Fairbanks.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/eesa.lbl.gov\/profiles\/charles-dunbar-koven\/\">Charles Koven<\/a>, especialista em permafrost do Laborat\u00f3rio Nacional Lawrence Berkeley, v\u00ea motivos para o ceticismo e mais pesquisa. &#8220;N\u00e3o sei o que pensar sem saber mais sobre o hist\u00f3rico desses lugares\u201d, diz ele. \u201cPor outro lado, n\u00e3o queremos ignorar sinais de aviso, se existirem.&#8221;<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.nationalgeographicbrasil.com\/sites\/brazil\/files\/styles\/image_885\/public\/04_permafrost_pleistocene-chersky-049--.jpg\" \/><\/p>\n<div class=\"ng-article-image__content__copy\"><em>O cientista Sergey Zimov contempla o oceano \u00c1rtico em uma esta\u00e7\u00e3o de pesquisa a pouco mais de 100 quil\u00f4metros de sua casa em Cherskiy, na R\u00fassia. Zimov usa a haste met\u00e1lica em sua m\u00e3o para testar rapidamente a profundidade do solo congelado.\u00a0FOTO DE\u00a0<span class=\"ng-article-image__content--strong\">KATIE ORLINSKY, NATIONAL GEOGRAPHIC<\/span><\/em><\/div>\n<div>\n<p>Al\u00e9m disso, comparado a Romanovsky e Goeckede, que s\u00e3o pesquisadores comedidos e met\u00f3dicos, Sergey Zimov \u00e9 quase um fil\u00f3sofo catastr\u00f3fico, propenso a previs\u00f5es pessimistas e grandes gestos. Ele e seu filho s\u00e3o respons\u00e1veis pelo\u00a0<a href=\"http:\/\/www.pleistocenepark.ru\/en\/\">Parque do Pleistoceno<\/a>, uma regi\u00e3o no territ\u00f3rio deles da Sib\u00e9ria com grandes mam\u00edferos importados, de bis\u00f5es a iaques e cavalos. Faz parte de um experimento que imita o ecossistema de estepes do mamute que desapareceu h\u00e1 12 mil anos com a finalidade de observar a resposta do permafrost.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, Sergey Zimov tamb\u00e9m foi um dos primeiros cientistas do mundo a demonstrar que a Sib\u00e9ria cont\u00e9m reservas enormes do permafrost especialmente rico em carbono. E ele trabalha em Cherskiy h\u00e1 mais de 40 anos, sendo altamente respeitado por muitos pesquisadores.<\/p>\n<p>\u201cEle conhece esse ambiente t\u00e3o bem que raramente erra,&#8221; destaca\u00a0<a href=\"http:\/\/ine.uaf.edu\/werc\/people\/faculty\/katey-walter-anthony\/\">Katey Walter Anthony<\/a>, professor associado da Universidade do Alasca, Fairbanks, que estuda metano nos lagos do \u00c1rtico. &#8220;Se ele acreditar que um processo \u00e9 importante, \u00e9 porque tem valor\u201d.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.nationalgeographicbrasil.com\/sites\/brazil\/files\/styles\/image_885\/public\/24_permafrost_pleistocene-chersky-299.jpg\" \/><\/p>\n<div class=\"ng-article-image__content__copy\"><em>Frost lines the walls of an ice cellar in Cherskiy, Russia. Residents have dug ice cellars, or freezers, into the permafrost for thousands of years. Recently, some people have observed cellars flooding due to permafrost thaw.\u00a0FOTO DE\u00a0<span class=\"ng-article-image__content--strong\">KATIE ORLINSKY, NATIONAL GEOGRAPHIC<\/span><\/em><\/div>\n<div>\n<p>Romanovsky tamb\u00e9m conhece os Zimovs e afirma que, embora desejasse que o trabalho deles tivesse dados de temperatura, verificar a profundidade de congelamento \u00e9 uma boa abordagem. &#8220;Ainda \u00e9 um m\u00e9todo convincente&#8221;, explica Romanovsky. &#8220;Para mim, s\u00f3 quer dizer que n\u00e3o \u00e9 100 por cento.&#8221;<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m n\u00e3o est\u00e1 clara a extens\u00e3o geogr\u00e1fica representada pelos achados de Romanovsky e dos Zimovs. Trata-se de uma pequena amostra.<\/p>\n<p>Contudo, para Romanovsky seus locais de estudos foram escolhidos por representarem razoavelmente o Alasca central.<\/p>\n<p>&#8220;Ent\u00e3o presumimos que o congelamento n\u00e3o ocorreu neste inverno em \u00e1reas grandes como o interior do Alasca&#8221;, diz ele.<\/p>\n<p>At\u00e9 mesmo cientistas incomodados com a limita\u00e7\u00e3o de dados afirmam que a possibilidade de algo t\u00e3o fundamental mudar t\u00e3o rapidamente os faz parar para refletir.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 preocupante&#8221;, conta\u00a0<a href=\"http:\/\/whrc.org\/staff\/susan-natali\/\">Sue Natali<\/a>, especialista em permafrost, tamb\u00e9m do Centro Woods Hole, que observou uma camada ativa n\u00e3o voltar a congelar recentemente durante uma viagem de pesquisa \u00e0 regi\u00e3o Yukon do Alasca. &#8220;Quando notamos coisas acontecendo que nunca ocorreram durante a vida dos cientistas que as estudam, isso \u00e9 inquietante\u201d.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.nationalgeographicbrasil.com\/sites\/brazil\/files\/styles\/image_885\/public\/11_permafrost_pleistocene-chersky-118.jpg\" \/><\/p>\n<div class=\"ng-article-image__content__copy\"><em>A maior parte do permafrost permanece congelada. Mas outras partes, nas regi\u00f5es do norte da Sib\u00e9ria e v\u00e1rios outros pontos do \u00c1rtico, est\u00e3o sob risco de derreter mais r\u00e1pido do que o esperado, amea\u00e7ando liberar grandes quantidades de di\u00f3xido de carbono e metano.\u00a0FOTO DE\u00a0<span class=\"ng-article-image__content--strong\">KATIE ORLINSKY, NATIONAL GEOGRAPHIC<\/span><\/em><\/div>\n<div>\n<p><strong>Um ciclo em acelera\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 muito em jogo. Se a camada ativa de uma regi\u00e3o parar de congelar constantemente, as consequ\u00eancias podem ser imediatas. Uma vez descongelados, os micr\u00f3bios do solo presentes na camada ativa s\u00e3o capazes de decompor a mat\u00e9ria org\u00e2nica e liberar gases-estufa durante o ano todo, n\u00e3o somente no ver\u00e3o, o que exp\u00f5e o permafrost que est\u00e1 por baixo a mais calor, de forma que essa camada tamb\u00e9m pode come\u00e7ar a derreter e liberar gases.<\/p>\n<p>Em solos ricos em gelo, como os da Sib\u00e9ria, o ch\u00e3o pode afundar, o que pode causar desmoronamento de estradas e constru\u00e7\u00f5es e fazer os por\u00f5es frigor\u00edficos de gelo natural entrarem em colapso. Tais depress\u00f5es tamb\u00e9m alteram a paisagem formando canais e vales onde a neve pode acumular, deixando o solo mais quente no inverno. Esses canais podem se encher com chuva e neve derretida, formando novos p\u00e2ntanos e lagos de tundras, ambos emitem grandes quantidades de metano.<\/p>\n<p>E a movimenta\u00e7\u00e3o de toda essa \u00e1gua, acima e abaixo do solo, pode transportar grandes quantidades de calor, acelerando o degelo. O colapso do permafrost pode come\u00e7ar a se autoalimentar, liberando mais gases-estufa, que por sua vez, aumenta o aquecimento.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.nationalgeographicbrasil.com\/sites\/brazil\/files\/styles\/image_885\/public\/22_permafrost_batagaika-crater-022.jpg\" \/><\/p>\n<div class=\"ng-article-image__content__copy\"><em>A Cratera Batagaika \u00e9 um dos poucos lugares onde \u00e9 poss\u00edvel ver uma parede de permafrost \u2014 e se est\u00e1 derretendo \u2014 de perto. Os cientistas estudam na \u00e1rea ind\u00edcios da mudan\u00e7a clim\u00e1tica no \u00c1rtico e como ela pode afetar o resto do planeta. FOTO DE\u00a0<span class=\"ng-article-image__content--strong\">KATIE ORLINSKY, NATIONAL GEOGRAPHIC<\/span><\/em><\/div>\n<div>\n<p>Ningu\u00e9m espera que o permafrost emita todo o seu carbono armazenado de uma s\u00f3 vez. A maioria dos modelos sugere que apenas de 10 a 20 por cento no m\u00e1ximo escapariam inclusive em cen\u00e1rios de altas emiss\u00f5es humanas.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, mais de uma dezena de cientistas do clima do \u00c1rtico contatados pela\u00a0<strong>National Geographic<\/strong>\u00a0concordam que os dados da camada ativa deste ano ressaltam as limita\u00e7\u00f5es dos modelos do clima global. Os sofisticados programas de computador que preveem cen\u00e1rios clim\u00e1ticos futuros geralmente usados por tomadores de decis\u00f5es de governos simplesmente n\u00e3o conseguem captar altera\u00e7\u00f5es importantes no permafrost.<\/p>\n<p>&#8220;Ao fazer essas simula\u00e7\u00f5es, h\u00e1 uma s\u00e9rie de processos que os modelos n\u00e3o incluem &#8211; processos que multiplicam a transfer\u00eancia de calor&#8221;, afirma\u00a0<a href=\"http:\/\/geocryolab.ca\/ice\/en\/team-2\/daniel-fortier\/\">Daniel Fortier<\/a>, professor associado de geografia da Universidade de Montreal. &#8220;Creio que \u00e9 poss\u00edvel afirmar que os acontecimentos est\u00e3o mais r\u00e1pidos do que esper\u00e1vamos.&#8221;<\/p>\n<p>Por exemplo, cientistas sabem h\u00e1 muito tempo que a perda de bancos de gelo e as temperaturas mais altas, provocam, com o tempo, o aumento de neve no \u00c1rtico, algo que os modelos s\u00e3o capazes de absorver. Contudo, essas mesmas simula\u00e7\u00f5es s\u00e3o muito menos confi\u00e1veis na tentativa de monitorar mudan\u00e7as progressivas nos tipos de solo, vegeta\u00e7\u00e3o de superf\u00edcie, derretimento do gelo e fluxo de \u00e1gua proveniente do aumento das temperaturas e de toda essa neve, todos esses fatores podem acelerar consideravelmente o derretimento do permafrost.<\/p>\n<p>&#8220;Os modelos n\u00e3o conseguem processar essas mudan\u00e7as ambientais e todos os processos que podem levar a uma mudan\u00e7a r\u00e1pida&#8221;, afirma\u00a0<a href=\"https:\/\/staff.ucar.edu\/users\/dlawren\">David Lawrence<\/a>, criador de modelos de permafrost do Centro Nacional de Pesquisa Atmosf\u00e9rica de Boulder. &#8220;E vai demorar muito tempo antes que consigam.&#8221;<\/p>\n<p>Quando algumas mudan\u00e7as forem detectadas, uma transi\u00e7\u00e3o expressiva poder\u00e1 j\u00e1 estar acontecendo, conta ele. Isso significa que a popula\u00e7\u00e3o e os pol\u00edticos podem n\u00e3o perceber os riscos reais.<\/p>\n<p>&#8220;A maioria dos modelos prev\u00ea grandes emiss\u00f5es de carbono s\u00f3 depois de 2100&#8221;, afirma Walter Anthony. Esse pode ser o caso. Mas tamb\u00e9m \u00e9 poss\u00edvel, afirma, que &#8220;isso possa acontecer, na realidade, durante a vida dos meus filhos, ou a minha&#8221;.<\/p>\n<p>Fotos &#8211;\u00a0<span class=\"ng-sharekit--dark\">Katie Orlinsky<\/span><\/p>\n<p>Fonte &#8211; <span class=\"ng-sharekit--dark\">Craig Welch,\u00a0<\/span><a href=\"https:\/\/www.nationalgeographicbrasil.com\/meio-ambiente\/2018\/08\/permafrost-cratera-batagaika-exclusivo-solo-russia-artico-congelando-inverno-neve\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">National Geographic<\/a> de 28 de agosto de 2018<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O ch\u00e3o afunda em Duvanny Yar, um megadesmoronamento de permafrost ao longo do rio Kolyma no norte da Sib\u00e9ria. Novos estudos sugerem que parte da terra no Alasca \u00c1rtico e na R\u00fassia nem sequer congelam mais. 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