{"id":28365,"date":"2018-12-18T15:00:57","date_gmt":"2018-12-18T17:00:57","guid":{"rendered":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=28365"},"modified":"2018-12-18T19:53:06","modified_gmt":"2018-12-18T21:53:06","slug":"contaminacao-recorde-por-agrotoxicos-no-parana-atinge-mais-de-50-criancas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/contaminacao-recorde-por-agrotoxicos-no-parana-atinge-mais-de-50-criancas\/","title":{"rendered":"Contamina\u00e7\u00e3o recorde por agrot\u00f3xicos no Paran\u00e1 atinge mais de 50 crian\u00e7as"},"content":{"rendered":"<div class=\"metadata\"><strong>Nuvem de Paraquate, potencialmente fatal, intoxicou 96 pessoas, a maioria crian\u00e7as que estavam em escola vizinha \u00e0 \u00e1rea de planta\u00e7\u00e3o<\/strong><\/div>\n<div class=\"excerpt\">\n<p>Quase cem pessoas foram intoxicadas no in\u00edcio de novembro no munic\u00edpio de Espig\u00e3o Alto do Igua\u00e7u com Paraquate, um agrot\u00f3xico que est\u00e1 proibido na Europa desde 2007. O pequeno munic\u00edpio, de 5 mil habitantes, fica no centro-oeste paranaense, 356 quil\u00f4metros da capital, Curitiba.<\/p>\n<p>Trata-se do caso com mais v\u00edtimas na hist\u00f3ria recente do estado, respons\u00e1vel por\u00a0<a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/pr\/parana\/noticia\/parana-tem-maior-indice-de-produtividade-de-laranja-e-milho-no-pais-diz-governo.ghtml\" target=\"_parent\" rel=\"noopener\">17% da produ\u00e7\u00e3o nacional<\/a>\u00a0de gr\u00e3os como soja e milho, numa \u00e1rea correspondente a pouco mais de 2% do territ\u00f3rio brasileiro. Dos 96 afetados, 52 s\u00e3o crian\u00e7as, a maioria alunos de uma escola rural que funciona colada \u00e0 \u00e1rea agr\u00edcola onde o veneno estava sendo aplicado.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/portrasdoalimento.info\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/Contamina%C3%A7%C3%A3o-Agrot%C3%B3xico-6-e1544461244587-1024x683.jpg\" \/><\/p>\n<p><em>Alunos do Col\u00e9gio Estadual do Campo Pedro Rufino de Siqueira fazem aula de Educa\u00e7\u00e3o F\u00edsica na quadra ao lado da planta\u00e7\u00e3o de soja<\/em><\/p>\n<p>A m\u00e9dica Lilimar Regina Naldony Mori, chefe da Divis\u00e3o de Vigil\u00e2ncia em Sa\u00fade da Secretaria da Sa\u00fade do Paran\u00e1, respons\u00e1vel pelo atendimento, classificou os casos como intoxica\u00e7\u00e3o leve e aguda \u2013 qualquer efeito a\u0300 sau\u0301de resultante da exposic\u0327a\u0303o a um agroto\u0301xico dentro de 48 horas, segundo a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade.<\/p>\n<p>Crian\u00e7as e adultos que entraram em contato com a nuvem de Paraquate relataram sintomas como fortes dores de cabe\u00e7a, est\u00f4mago e barriga, tonturas e v\u00f4mitos. Todos condizentes com os de intoxica\u00e7\u00e3o aguda pelo agrot\u00f3xico, segundo o pesquisador Luiz Cl\u00e1udio Meirelles, especialista em agrot\u00f3xicos da Fiocruz e gerente-geral de Toxicologia da Ag\u00eancia Nacional de Vigil\u00e2ncia Sanit\u00e1ria (Anvisa) de 1999 e 2012. \u201cEssas s\u00e3o rea\u00e7\u00f5es bem t\u00edpicas de intoxica\u00e7\u00e3o aguda por Paraquate, que tamb\u00e9m pode causar irrita\u00e7\u00f5es de pele e les\u00f5es, principalmente na mucosa e na l\u00edngua\u201d, diz.<\/p>\n<p>De acordo com Lilimar, n\u00e3o houve necessidade de interna\u00e7\u00e3o e os sintomas desapareceram em at\u00e9 dez dias.<\/p>\n<p>Foi sorte. A exposi\u00e7\u00e3o aguda a quantidades maiores de Paraquate \u00e9 quase sempre fatal, segundo a Ag\u00eancia de Prote\u00e7\u00e3o Ambiental dos Estados Unidos (<a href=\"https:\/\/www.epa.gov\/pesticide-worker-safety\/paraquat-dichloride-one-sip-can-kill#stories\" target=\"_parent\" rel=\"noopener\">EPA<\/a>), que alerta sobre os riscos em uma publica\u00e7\u00e3o intitulada \u201cUm gole pode matar\u201d. A pr\u00f3pria ger\u00eancia de Toxicologia da Anvisa j\u00e1 alertou sobre os riscos do agrot\u00f3xico, num\u00a0<a href=\"http:\/\/portal.anvisa.gov.br\/documents\/219201\/2782895\/Voto+Renato+Paraquate\/fa409d90-a520-4302-9815-f39b683da509\" target=\"_parent\" rel=\"noopener\">documento<\/a>\u00a0de setembro de 2017: \u201cA exposi\u00e7\u00e3o ocupacional ao Paraquate \u00e9 relevante principalmente devido \u00e0s evid\u00eancias de maior sensibilidade humana \u00e0 exposi\u00e7\u00e3o d\u00e9rmica a esse agrot\u00f3xico, com possibilidade de absor\u00e7\u00e3o sist\u00eamica\u201d.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/portrasdoalimento.info\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/Contamina%C3%A7%C3%A3o-Agrot%C3%B3xico-43-e1544461283282.jpg\" alt=\"Henry Milleo \/ Ag\u00c3\u00aancia P\u00c3\u00bablica\/Rep\u00c3\u00b3rter Brasil\" \/><\/p>\n<p><em>Planta\u00e7\u00e3o de milho que foi atingida pela pulveriza\u00e7\u00e3o de Paraquate<\/em><\/p>\n<p>O Paraquate foi comprado e utilizado na propriedade de Lino Passaia, o agricultor mais pr\u00f3spero da regi\u00e3o, dono de quase 100 hectares (o equivalente a 1 quil\u00f4metro quadrado, ou mais de cem campos de futebol) apenas em Espig\u00e3o Alto do Igua\u00e7u, em que produz soja e milho. A contamina\u00e7\u00e3o foi causada pelo desrespeito a uma\u00a0<a href=\"http:\/\/www.adapar.pr.gov.br\/arquivos\/File\/GSV\/Agrotoxicos\/le_4_resolucao_SEIN_22_de_1985.pdf\" target=\"_parent\" rel=\"noopener\">norma estadual<\/a>\u00a0que estabelece dist\u00e2ncia m\u00ednima de 500 metros entre a \u00e1rea pulverizada e \u201cn\u00facleos populacionais, escolas, habita\u00e7\u00f5es e locais de recrea\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria da intoxica\u00e7\u00e3o massiva de Espig\u00e3o Alto do Igua\u00e7u \u00e9 um triste exemplo do uso indiscriminado e sem cuidados de agrot\u00f3xicos no Brasil. E de como mesmo as v\u00edtimas tendem a minimizar o risco a que est\u00e3o submetidas.<\/p>\n<p><strong>Como nasceu a nuvem t\u00f3xica<\/strong><\/p>\n<p>O dia 7 de novembro, uma quarta-feira, amanheceu claro e com muito vento na pequena comunidade rural de Boa Vista do S\u00e3o Roque, onde vivem algumas centenas de pessoas \u2013 parte delas acampados do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), h\u00e1 mais de dez anos instalados ali. Ainda assim, trata-se de uma das principais localidades de Espig\u00e3o Alto do Igua\u00e7u.<\/p>\n<p>As aulas corriam normalmente na escola rural do lugar \u2013 um s\u00f3 pr\u00e9dio em que na verdade funcionam duas diferentes, uma municipal, at\u00e9 o quinto ano do ensino fundamental, e outra estadual, para alunos do sexto ao nono anos e do ensino m\u00e9dio. Eram por volta de 10 horas quando uma funcion\u00e1ria entrou na sala de Carla Martelli, diretora da escola municipal Licarlos Passaia.<\/p>\n<p>\u201c\u2018Tem um louco a\u00ed passando veneno\u2019, ela me falou\u201d, recorda Carla. Ela correu \u00e0 quadra de esportes. Ao lado, h\u00e1 um pequeno parque com brinquedos infantis. Ali, viu os estudantes grudados ao alambrado que separa a quadra \u2013 e os limites da escola \u2013 das terras de Lino Passaia. Estavam encantadas com a nova aquisi\u00e7\u00e3o do agricultor, uma esp\u00e9cie de trator especial para pulveriza\u00e7\u00f5es chamado\u00a0<a href=\"https:\/\/blog.jacto.com.br\/uniport-conheca-as-maquinas-agricolas-da-jacto-em-detalhes\/\" target=\"_parent\" rel=\"noopener\">Uniport<\/a>, mas conhecido na regi\u00e3o como \u201cgafanhoto\u201d. Alta e com rodas quase da altura de um adulto, a m\u00e1quina atraiu a aten\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as.<\/p>\n<\/div>\n<p>\u201cEra nossa aula vaga, est\u00e1vamos na quadra. Ficamos vendo aquela m\u00e1quina passando alguma coisa na terra. Veio o vento e senti uma coisa molhada no meu rosto\u201d, lembra Aline, de 14 anos, aluna do oitavo ano \u2013 o sobrenome das crian\u00e7as ser\u00e1 omitido na reportagem.<\/p>\n<p>Tratava-se de um spray de Paraquate que o vento empurrou na dire\u00e7\u00e3o da escola, do posto de sa\u00fade e das casas da comunidade. \u201cDe noite minha cabe\u00e7a do\u00eda muito. De manh\u00e3, quando acordei, do\u00eda o est\u00f4mago, fiquei enjoada, vomitei\u201d, lembra a menina.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/portrasdoalimento.info\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/Contamina%C3%A7%C3%A3o-Agrot%C3%B3xico-20-e1544461411433.jpg\" \/><\/p>\n<p><em>Aline, 14 anos, aluna do Col\u00e9gio Estadual do Campo Pedro Rufino de Siqueira<\/em><\/p>\n<p>\u201cQuando passou a m\u00e1quina, todo mundo correu pra olhar. Eu n\u00e3o, fiquei sentada na arquibancada. Mas veio o vento e comecei a espirrar\u201d, diz Bruna, de 12 anos, do s\u00e9timo ano. Era s\u00f3 o come\u00e7o. \u201cDepois deu dor cabe\u00e7a, de barriga, diarreia. Eu n\u00e3o conseguia dormir, me contorcia de dor. E ainda n\u00e3o melhorei. Ontem mesmo minha barriga do\u00eda muito\u201d, relatou a garota mais de dez dias depois do epis\u00f3dio.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/portrasdoalimento.info\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/Contamina%C3%A7%C3%A3o-Agrot%C3%B3xico-91-e1544461492598.jpg\" \/><\/p>\n<p><em>Samuel da Silva Jobim, promotor do Minist\u00e9rio P\u00fablico em Quedas do Igua\u00e7\u00fa<\/em><\/p>\n<p>\u201c\u00c9 a primeira vez que vejo uma situa\u00e7\u00e3o dessas, envolvendo tantas crian\u00e7as\u201d, admitiu Samuel da Silva Jobim, do Minist\u00e9rio P\u00fablico (MP) do Paran\u00e1. \u201cO secret\u00e1rio [de Sa\u00fade] nem teria como impedir uma investiga\u00e7\u00e3o criminal. O caso j\u00e1 \u00e9 maior que ele, a pol\u00edcia j\u00e1 sabe, o MP j\u00e1 sabe. O boletim est\u00e1 registrado e a investiga\u00e7\u00e3o vai ser feita\u201d, afirma Samuel. Segundo ele, o crime n\u00e3o vai prescrever e o MP j\u00e1 est\u00e1 investigando. \u201cMas os procedimentos de apura\u00e7\u00e3o tomam tempo. O mais urgente \u00e9 resolver a quest\u00e3o de sa\u00fade p\u00fablica. Todas as informa\u00e7\u00f5es que tenho s\u00e3o de que a prefeitura est\u00e1 agindo para resolver a situa\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>\u201cV\u00e1rios munic\u00edpios da regi\u00e3o em que trabalhei t\u00eam situa\u00e7\u00f5es assim, com lavouras coladas a \u00e1reas urbanas. Um envenenamento dessa dimens\u00e3o \u00e9 o primeiro que chegou a mim. Mas casos menores devem acontecer diariamente, e as pessoas nem sabem porque est\u00e3o doentes\u201d, afirma Jo\u00e3o Luiz Marques Filho, promotor de justi\u00e7a, que investiga o impacto ambiental do acidente. \u201cSem sombra de d\u00favida deve haver subnotifica\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p><strong>Recorde hist\u00f3rico<\/strong><\/p>\n<p>A cozinheira Terezinha Maffei Camargo, funcion\u00e1ria do Col\u00e9gio Estadual do Campo Pedro Rufino de Siqueira, tamb\u00e9m se espantou com os efeitos do contato com o agrot\u00f3xico. \u201cFui pro lado de fora lavar uns panos, e o vento deve ter trazido o veneno. Me deu uma alergia que nunca tinha tido, bolas pelo corpo, a l\u00edngua inchou, a garganta fechou, ficou dif\u00edcil de conversar. Depois, veio v\u00f4mito e muita dor de cabe\u00e7a\u201d, relatou.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/portrasdoalimento.info\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/Contamina%C3%A7%C3%A3o-Agrot%C3%B3xico-9-e1544461683838.jpg\" \/><\/p>\n<p><em>Terezinha Maffei Camargo, cozinheira no Col\u00e9gio Estadual do Campo Pedro Rufino de Siqueira<\/em><\/p>\n<p>Jaqueline Buratti, professora de educa\u00e7\u00e3o f\u00edsica, foi outra v\u00edtima. \u201cEra tanta c\u00f3lica que cheguei a suspeitar de pedra nos rins e fiz um ultrassom\u201d, ela contou, antes de lembrar que casos como esse j\u00e1 poderiam ter ocorrido muito antes. \u201cJ\u00e1 vi ele passando a m\u00e1quina ao lado da quadra outras vezes. A gente em aula e vem aquela barulheira, levanta p\u00f3. Quando bate o vento, a gente fica molhado [de pesticida].\u201d<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/portrasdoalimento.info\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/Contamina%C3%A7%C3%A3o-Agrot%C3%B3xico-5-e1544461743647.jpg\" \/><\/p>\n<p><em>Jaqueline Buratti, professora de Educa\u00e7\u00e3o F\u00edsica no Col\u00e9gio Estadual do Campo Pedro Rufino de Siqueira<\/em><\/p>\n<p>As 96 v\u00edtimas de Espig\u00e3o Alto do Igua\u00e7u s\u00e3o um recorde hist\u00f3rico, segundo o Sistema de Informa\u00e7\u00e3o de Agravos de Notifica\u00e7\u00e3o do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, o\u00a0<a href=\"http:\/\/portalsinan.saude.gov.br\/sinan-net\" target=\"_parent\" rel=\"noopener\">Sinan<\/a>. De 1975 a 2017, ele compilou\u00a0<a href=\"https:\/\/docs.google.com\/spreadsheets\/d\/1bRM15c2laaHcWenUZdHrCTFXUi3JiddSCjEdB9EJv4Y\/edit?usp=sharing\" target=\"_parent\" rel=\"noopener\">113 casos<\/a>de intoxica\u00e7\u00e3o por todo tipo de agrot\u00f3xico no Paran\u00e1. A Secretaria da Sa\u00fade do estado tem\u00a0<a href=\"https:\/\/docs.google.com\/spreadsheets\/d\/1ryGJpBQ7tBV-Dzvu3aMFU6seh4c0qo8dpOAc5nIJE0g\/edit?usp=sharing\" target=\"_parent\" rel=\"noopener\">dados diferentes<\/a>: 4.761 v\u00edtimas de venenos agr\u00edcolas entre 2007 e 2017. Na regi\u00e3o de Guarapuava, em que est\u00e1 Espig\u00e3o Alto do Igua\u00e7u, foram 369 no mesmo per\u00edodo.<\/p>\n<p>O caso inscreve-se tamb\u00e9m em um fen\u00f4meno nacional: a intoxica\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as em \u00e1reas rurais. De 2008 a 2017 o DataSUS registrou 130 intoxica\u00e7\u00f5es confirmadas de crian\u00e7as at\u00e9 14 anos por defensivos agr\u00edcolas. Esse n\u00famero leva em considera\u00e7\u00e3o apenas intoxica\u00e7\u00f5es ambientais, isto \u00e9, quando o veneno \u00e9 carregado pelo vento, \u00e1gua ou no contato com o solo e as plantas.<\/p>\n<p>Contudo, os dados do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade apontam para um problema ainda maior:\u00a0<a href=\"https:\/\/apublica.org\/2018\/08\/26-mil-brasileiros-foram-intoxicados-agrotoxicos-ultimos-dez-anos\/\" target=\"_parent\" rel=\"noopener\">como a\u00a0<strong>P\u00fablica<\/strong>\u00a0mostrou nesta reportagem<\/a>, a estimativa \u00e9 que, para cada caso reportado, 50 n\u00e3o sejam informados. Ou seja, o n\u00famero de crian\u00e7as contaminadas ambientalmente por agrot\u00f3xicos em dez anos pode ter chegado a 6,5 mil \u2013 uma m\u00e9dia de mais de uma crian\u00e7a intoxicada por dia no Brasil.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/portrasdoalimento.info\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/Contamina%C3%A7%C3%A3o-Agrot%C3%B3xico-78.jpg\" \/><\/p>\n<p><em>Uniport, m\u00e1quina agr\u00edcola usada para pulveriza\u00e7\u00e3o em lavouras<\/em><\/p>\n<p>\u201cUma consequ\u00eancia muito s\u00e9ria de intoxica\u00e7\u00f5es agudas por Paraquate \u00e9 a fibrose pulmonar, causada pela a\u00e7\u00e3o da mol\u00e9cula do veneno no alv\u00e9olo pulmonar, que \u00e9 irrevers\u00edvel\u201d, explicou Luiz Cl\u00e1udio Meirelles, da Fiocruz. Isso significa que mesmo uma exposi\u00e7\u00e3o eventual pode causar uma doen\u00e7a cr\u00f4nica.<\/p>\n<p>\u201cEssas crian\u00e7as t\u00eam que ser acompanhadas para avaliar eventuais efeitos da contamina\u00e7\u00e3o. Eu recomendo que um pneumologista seja convocado para avaliar o risco de algu\u00e9m desenvolver a fibrose\u201d, alertou o pesquisador da Fiocruz. Al\u00e9m de ser inalado, o Paraquate contaminou a caixa-d\u2019\u00e1gua do bairro, que estava destampada no dia da ocorr\u00eancia. Segundo o promotor Jo\u00e3o Luiz Marques, a caixa foi lavada para eliminar o veneno no mesmo dia.<\/p>\n<p>\u201cAinda que a principal via de contamina\u00e7\u00e3o por Paraquate seja a cut\u00e2nea, o ideal seria testar a \u00e1gua ap\u00f3s a lavagem para verificar se algum res\u00edduo permaneceu\u201d, comenta Luiz Cl\u00e1udio Meirelles, da Fiocruz. O que n\u00e3o foi feito. \u201cMas a verdade \u00e9 que, em regi\u00f5es em que se usam muitos agrot\u00f3xicos, \u00e9 comum que a \u00e1gua coletada em rios ou po\u00e7os para abastecimento j\u00e1 esteja contaminada, pois o tratamento n\u00e3o elimina esse tipo de veneno\u201d, complementa.<\/p>\n<p><strong>Contamina\u00e7\u00e3o massiva \u00e9 uma das maiores registradas nos \u00faltimos anos<\/strong><\/p>\n<p>O caso de Boa Vista de S\u00e3o Roque \u00e9 uma das maiores contamina\u00e7\u00f5es massivas registradas nos \u00faltimos anos no Brasil de acordo com os dados do DataSUS. Apenas duas outras situa\u00e7\u00f5es registradas parecem ter superado a intoxica\u00e7\u00e3o no Paran\u00e1: uma em Minas Gerais e outra em Goi\u00e1s, ambas em 2013.<\/p>\n<p>A intoxica\u00e7\u00e3o em Minas ocorreu na cidade de Patroc\u00ednio,\u00a0<a href=\"http:\/\/g1.globo.com\/minas-gerais\/triangulo-mineiro\/noticia\/2013\/06\/trabalhadores-rurais-sao-internados-com-suspeitas-de-intoxicacao-em-mg.html\" target=\"_parent\" rel=\"noopener\">quando mais de cem trabalhadores de uma fazenda de cebolas procuraram atendimento m\u00e9dico ap\u00f3s sentirem n\u00e1useas e falta de ar<\/a>. O agrot\u00f3xico, utilizado na fazenda Santa Cruz da Vargem Grande, havia sido aplicado no dia anterior, mas ainda sim contaminou os trabalhadores quando chegaram para o expediente. Duas mulheres foram para a UTI.<\/p>\n<p>J\u00e1 o caso de Goi\u00e1s ocorreu no munic\u00edpio de Rio Verde, quando uma pulveriza\u00e7\u00e3o de agrot\u00f3xico por avi\u00e3o atingiu uma escola rural localizada a menos de 50 metros da planta\u00e7\u00e3o de milho e soja. \u00c0 \u00e9poca, cerca de 90 crian\u00e7as foram contaminadas, al\u00e9m de dois professores.\u00a0<a href=\"https:\/\/reporterbrasil.org.br\/2018\/07\/e-diario-professor-denuncia-intoxicacao-por-agrotoxicos-como-algo-recorrente-em-escolas-rurais\/\" target=\"_parent\" rel=\"noopener\">Segundo reportagem da Rep\u00f3rter Brasil<\/a>, alunos e professores da regi\u00e3o continuam expostos \u00e0 intoxica\u00e7\u00e3o dos qu\u00edmicos cotidianamente. O professor Hugo Alves dos Santos, diretor da escola \u00e0 \u00e9poca do acidente, afirmou ter sido amea\u00e7ado por falar com a imprensa.<\/p>\n<p><strong>\u2018Pintou o meu nen\u00ea de veneno\u2019<\/strong><\/p>\n<p>\u201cIsso aqui vai dar quebra\u201d, comentava o agricultor familiar Ernesto Ansiliero, enquanto caminhava por uma estradinha de terra que margeia a \u00e1rea que ele arrenda para a produ\u00e7\u00e3o de milho, em Espig\u00e3o do Alto Igua\u00e7u.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/portrasdoalimento.info\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/Contamina%C3%A7%C3%A3o-Agrot%C3%B3xico-38-e1544461850668.jpg\" \/><\/p>\n<p><em>O produtor rural Ernesto Ansiliero mostra a planta\u00e7\u00e3o de milho que foi atingida pelo Paraquate<\/em><\/p>\n<p>As folhas das plantas mais pr\u00f3ximas estavam amarelas, efeito da nuvem de Paraquate levada pelo vento. At\u00e9 onde a vista alcan\u00e7ava, o milharal exibia os sinais do veneno. O Paraquate age por contato: por isso, \u00e9 muito usado como dessecante, para eliminar qualquer vest\u00edgio da cultura anterior antes de se iniciar um novo plantio.<\/p>\n<p>Vizinho de Ansiliero numa rua do bairro Boa Vista do S\u00e3o Roque que margeia outra das faces da propriedade de Lino Passaia, Emerson Sachet lembrou que a nuvem de veneno pegou em cheio seu filho mais novo, de 2 anos, que brincava enquanto o trator \u201cgafanhoto\u201d trabalhava. \u201cPintou o meu nen\u00ea de veneno\u201d, indignou-se. \u201cMinha mulher pegou ele, despiu e botou debaixo do chuveiro na hora. Foi o que salvou, ele n\u00e3o teve nada.\u201d<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/portrasdoalimento.info\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/Contamina%C3%A7%C3%A3o-Agrot%C3%B3xico-48-e1544461907187.jpg\" \/><\/p>\n<p><em>O filho de Emerson Sachet foi contaminado pelo agrot\u00f3xico<\/em><\/p>\n<p>Sachet e dois vizinhos foram \u00e0 delegacia de Quedas do Igua\u00e7u, a maior cidade da regi\u00e3o, registrar boletim de ocorr\u00eancia contra Passaia. \u201cO que me deixa indignado \u00e9 que ele n\u00e3o veio nem se desculpar para mim\u201d.<\/p>\n<p>\u201cPode acontecer com qualquer um. Mas n\u00e3o se desculpar \u00e9 que n\u00e3o aceito\u201d, diz.<\/p>\n<p>\u201cL\u00e1 em casa um agr\u00f4nomo calculou 30% de perda no milho. Fora a minha horta, que o pessoal da Vigil\u00e2ncia Sanit\u00e1ria embargou. N\u00e3o podemos comer nada. Do arvoredo estragou tudo\u201d, relatou Jocemar Schmidt, cunhado e vizinho de Sachet e um dos que procuraram a pol\u00edcia.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/portrasdoalimento.info\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/Contamina%C3%A7%C3%A3o-Agrot%C3%B3xico-74-e1544461958836.jpg\" \/><\/p>\n<p><em>O produtor Jocemar Schmidt perdeu 30% de sua planta\u00e7\u00e3o de milho<\/em><\/p>\n<p>\u201cVoc\u00ea imagina, era de manh\u00e3 e o homem passando veneno com um vento que s\u00f3 por Deus\u201d, prosseguiu Schmidt. A mulher dele, Rosanilda, gr\u00e1vida de sete meses, estava internada havia dois dias no hospital de Quedas do Igua\u00e7u enquanto convers\u00e1vamos. Reclamava de dor de barriga e nas costas \u2013 sintomas tamb\u00e9m relatados por muitos dos atingidos pela nuvem de veneno. \u201cO m\u00e9dico disse que pode ser essa a causa.\u201d Naquela tarde, Rosanilda teria alta m\u00e9dica \u2013 ela e o filho, o quarto do casal, passam bem.<\/p>\n<p>Schmidt e os vizinhos disseram que ir\u00e3o \u00e0 Justi\u00e7a buscar indeniza\u00e7\u00e3o. \u201cN\u00e3o queremos \u2018se\u2019 aproveitar, mas o que ele estragou tem que pagar\u201d, justificou. \u201cO Lino quis se desculpar, disse que se fosse ele operando [o trator] n\u00e3o teria acontecido. Mas o filho dele tava junto e n\u00e3o fez nada.\u201d<\/p>\n<p><strong>\u2018Acho que era gripe\u2019<\/strong><\/p>\n<p>Robson, de 16 anos, foi \u00e0 escola somente \u00e0 tarde para as aulas do segundo ano do ensino m\u00e9dio. Dois dias depois, ele reclamava de dores de barriga e de cabe\u00e7a, sintomas comuns aos de colegas expostos ao Paraquate. Ainda assim, sua fam\u00edlia n\u00e3o chegou a procurar um m\u00e9dico, e Robson parecia n\u00e3o acreditar que o veneno que saiu do \u201cgafanhoto\u201d poderia ser a causa do mal-estar que sentiu. \u201cAcho que era gripe\u201d, diz convicto.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/portrasdoalimento.info\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/Contamina%C3%A7%C3%A3o-Agrot%C3%B3xico-59-e1544462003336.jpg\" \/><\/p>\n<p><em>Robson, 16, aluno do Col\u00e9gio Estadual do Campo Pedro Rufino de Siqueira<\/em><\/p>\n<p>\u201cA gente lida com veneno l\u00e1 em casa. Nunca imaginei que pudesse causar tudo isso\u201d, espantou-se Diliani, de 15 anos, aluna do primeiro ano do ensino m\u00e9dio. \u201cFoi uma semana com dor de cabe\u00e7a cada dia parecendo pior, \u00e2nsia de v\u00f4mito, tontura.\u201d<\/p>\n<p>Foram muitos os relatos semelhantes ouvidos pela reportagem. A grande maioria dos moradores da regi\u00e3o est\u00e1 acostumada a lidar muito proximamente com o veneno \u2013 e n\u00e3o \u00e9 por acaso. Das autoridades locais ao descaso da ag\u00eancia respons\u00e1vel pela vigil\u00e2ncia ambiental, a Anvisa, poucas vozes t\u00eam feito os alertas necess\u00e1rios para garantir a sa\u00fade da popula\u00e7\u00e3o ao entrar em contato com esse pesticida.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/portrasdoalimento.info\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/Contamina%C3%A7%C3%A3o-Agrot%C3%B3xico-88-e1544462045382.jpg\" \/><\/p>\n<p><em>Nelson Suldovski (PSDB), vereador de Espig\u00e3o Alto do Igua\u00e7\u00fa, afirma que n\u00e3o h\u00e1 ind\u00edcios de intoxica\u00e7\u00e3o<\/em><\/p>\n<p>\u201cSegundo o que eu sei, n\u00e3o foi constatada nenhuma intoxica\u00e7\u00e3o. Gra\u00e7as a Deus, melhor assim\u201d, afirmou. \u201cSempre se plantou ali, \u00e9 \u00e1rea agr\u00edcola. E todas as lavouras usam agrot\u00f3xicos. Se voc\u00ea levar adiante esse caso, amanh\u00e3 ou depois ningu\u00e9m planta mais. Menos mal que n\u00e3o era um produto fatal, n\u00e3o era um produto que venha a fazer grandes danos \u00e0 sa\u00fade humana\u201d.<\/p>\n<p>O desconhecimento da popula\u00e7\u00e3o e dos pol\u00edticos espig\u00e3oenses n\u00e3o \u00e9 casual. Em 2017, ap\u00f3s um forte lobby da ind\u00fastria de agrot\u00f3xicos, a Anvisa\u00a0<a href=\"https:\/\/theintercept.com\/2018\/03\/26\/66-dias-de-lobby-uma-maquina-de-pressao-fez-a-anvisa-voltar-atras-e-liberar-um-perigoso-agrotoxico\/\" target=\"_parent\" rel=\"noopener\">relaxou<\/a>\u00a0as regras para uso do Paraquate at\u00e9 2020. Em setembro daquele ano, a ag\u00eancia decidira banir o uso do veneno como dessecante \u2013 justamente o que houve em Espig\u00e3o Alto do Igua\u00e7u \u2013 baseada no alerta feito pela ger\u00eancia de Tecnologia.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/portrasdoalimento.info\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/Contamina%C3%A7%C3%A3o-Agrot%C3%B3xico-95-e1544462089713.jpg\" \/><\/p>\n<p><em>Caixa d\u2019\u00e1gua que abastece a localidade de Boa Vista, e que estava parcialmente destampada no momento da pulveriza\u00e7\u00e3o de Paraquate<\/em><\/p>\n<p>No entanto, representantes da ind\u00fastria de agrot\u00f3xicos conseguiram, ap\u00f3s quatro reuni\u00f5es consecutivas com o diretor de Regula\u00e7\u00e3o Sanit\u00e1ria da Anvisa, Renato Alencar Porto, afrouxar as regras. O uso do Paraquate como dessecante voltou a ser permitido em novembro de 2017, semanas ap\u00f3s ser proibido. Os fabricantes tamb\u00e9m ganharam o direito de suavizar as advert\u00eancias sobre o risco do produto nas embalagens.<\/p>\n<p>De acordo com a norma anterior, elas deveriam dizer que \u201cO Paraquate pode causar doen\u00e7a de Parkinson e muta\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas\u201d. Depois das mudan\u00e7as, os fabricantes passaram a avisar que \u201cEvid\u00eancias indicam que a exposi\u00e7\u00e3o ao Paraquate pode ser um dos fatores de risco para a doen\u00e7a de Parkinson e muta\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas em trabalhadores rurais\u201d. Uma frase mais longa e bem menos clara.<\/p>\n<p>Juca, o vereador, n\u00e3o foi o \u00fanico a lavar as m\u00e3os. \u201cEu estava viajando naquele dia. Ent\u00e3o, n\u00e3o acompanhei o caso\u201d, disse 19 dias ap\u00f3s a ocorr\u00eancia o secret\u00e1rio municipal da Sa\u00fade Dilson Delavi de Morais (PP). \u201cEspero que voc\u00ea me entenda, \u00e9 melhor n\u00e3o passar informa\u00e7\u00e3o truncada\u201d, completou, encerrando a conversa.<\/p>\n<p><strong>O que causou o problema?<\/strong><\/p>\n<p>Lino Passaia \u00e9 um homem idoso, de pernas finas mas bra\u00e7os fortes de quem trabalha pesado, barriga proeminente e poucos dentes na boca. Quando a reportagem o entrevistou, usava chinelos de dedo, cal\u00e7a de moletom verde, camisa polo cinza surrada e coberta de furos e um chap\u00e9u de palha enfiado na cabe\u00e7a para proteg\u00ea-lo do sol no trabalho na ro\u00e7a.<\/p>\n<p>Ga\u00facho \u2013 ou \u201cgringo\u201d, como dizem os moradores \u2013 e morador da regi\u00e3o h\u00e1 quase 35 anos, ele \u00e9 tido como um sujeito pouco dado ao conv\u00edvio social. Vai \u00e0 igreja, mas pouco participa das festas da comunidade. \u00c9 visto pelos vizinhos como um sujeito obcecado pelo trabalho. \u201cSe puder plantar no p\u00e1tio da escola, ele planta\u201d, disse uma funcion\u00e1ria.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/portrasdoalimento.info\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/Contamina%C3%A7%C3%A3o-Agrot%C3%B3xico-76-e1544462129977.jpg\" \/><\/p>\n<p><em>Casa do agricultor Lino Passaia, em Boa Vista<\/em><\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o tenho nada a falar sobre esse assunto, porque n\u00e3o sei o que aconteceu de fato. Eu n\u00e3o estava l\u00e1\u201d, afirmou ele \u00e0 reportagem. \u201cN\u00e3o posso falar no momento.\u201d<\/p>\n<p>Diversas testemunhas disseram que o trator foi operado por um vizinho no dia do acidente. Moderna, a m\u00e1quina usa at\u00e9 localiza\u00e7\u00e3o por GPS, tecnologia que o agricultor n\u00e3o domina. As barras que dispersam veneno, segundo testemunhas, estavam posicionadas a uma altura muito elevada do solo, o que aumenta a possibilidade de o veneno ser levado pelo vento. Em um v\u00eddeo feito por um morador, \u00e9 poss\u00edvel estimar que elas estavam a cerca de 1 metro do solo.<\/p>\n<p>\u201cO vento causou a deriva de agrot\u00f3xico\u201d, explica Leoni Zago, fiscal de defesa agropecu\u00e1ria da Ag\u00eancia de Defesa Agropecu\u00e1ria do Paran\u00e1 (Adapar), respons\u00e1vel por apurar o caso. Em termos t\u00e9cnicos, \u201cderiva\u201d significa que o veneno saiu da \u00e1rea na qual deveria ser depositado. \u201cFoi aplicado com pulverizador de forma regular. A \u00e9poca e o receitu\u00e1rio tamb\u00e9m estavam corretos. O produtor pareceu bastante respons\u00e1vel. Quando fiscalizamos a propriedade, ela estava bem organizada, com os produtos [agrot\u00f3xicos] bem organizados, embalagens bem lavadas\u201d, ele prosseguiu.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/portrasdoalimento.info\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/Contamina%C3%A7%C3%A3o-Agrot%C3%B3xico-33-e1544462168746.jpg\" \/><\/p>\n<p><em>Planta\u00e7\u00e3o de p\u00eassego atingida pela pulveriza\u00e7\u00e3o de paraquate<\/em><\/p>\n<p>\u201cO problema foi que ele desrespeitou a dist\u00e2ncia m\u00ednima legal. Ali\u00e1s, n\u00e3o respeitou dist\u00e2ncia nenhuma, foi at\u00e9 a beira do terreno. E ainda havia o vento\u201d, acrescentou Leoni Zago, antes de dizer que casos como esse s\u00e3o \u201craros\u201d na regi\u00e3o. \u201cCom essa gravidade, de afetar pessoas, \u00e9 bem raro. Mas atingir lavouras vizinhas \u00e9 bastante comum.\u201d A Adapar dever\u00e1 aplicar uma multa ao agricultor.<\/p>\n<p>A m\u00e9dica Lilimar Regina Naldony Mori, da Secretaria da Sa\u00fade, informou que seguir\u00e1 acompanhando as crian\u00e7as afetadas pelo envenenamento. \u201cComo foi uma intoxica\u00e7\u00e3o aguda, \u00e9 prov\u00e1vel que n\u00e3o haja sequelas. Mas n\u00e3o conhecemos com profundidade as consequ\u00eancias disso. Quem vai nos responder \u00e9 o tempo. Vamos ter que acompanhar ao menos por alguns meses.\u201d<\/p>\n<p>Licarlos Passaia, que d\u00e1 nome \u00e0 escola municipal de Boa Vista do S\u00e3o Roque, era o filho mais novo de Lino Passaia. Morreu aos 8 anos de idade, em 1989, atropelado na rodovia. Os outros dois filhos e as duas netas do agricultor tamb\u00e9m estudaram no pr\u00e9dio contaminado com o Paraquate pelo novo trator de Lino.<\/p>\n<p><b>Esta reportagem faz parte do projeto Por Tr\u00e1s do Alimento, uma parceria da\u00a0Ag\u00eancia P\u00fablica e Rep\u00f3rter Brasil para investigar o uso de agrot\u00f3xicos. A cobertura completa\u00a0<a href=\"http:\/\/portrasdoalimento.info\/\" target=\"_parent\" rel=\"noopener\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=http:\/\/portrasdoalimento.info\/&amp;source=gmail&amp;ust=1544539307704000&amp;usg=AFQjCNHNqWwSfX3lIdVDWo18N75Y8zKyxQ\">est\u00e1 no site do projeto<\/a>.<\/b><\/p>\n<p>Fonte &#8211; <span class=\"author\">Bruno Fonseca e Rafael Moro Martins, Ag\u00eancia P\u00fablica\/<a href=\"https:\/\/reporterbrasil.org.br\/2018\/12\/contaminacao-recorde-por-agrotoxicos-no-parana-atinge-mais-de-50-criancas\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Rep\u00f3rter Brasil<\/a>\u00a0<\/span>de 10 de dezembro de 2018<\/p>\n<p><strong>Leia mais<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/gauchazh.clicrbs.com.br\/economia\/campo-e-lavoura\/noticia\/2018\/12\/quebra-da-safra-de-uva-na-campanha-por-residuos-de-24-d-pode-chegar-a-40-cjpnyorlh0la701piiirqkqrf.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Quebra da safra de uva na Campanha por res\u00edduos de 2,4-D pode chegar a 40%<\/a> &#8211;\u00a0Perdas na produ\u00e7\u00e3o de uvas poder\u00e3o passar de R$ 216 milh\u00f5es, segundo o Ibravin<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/gauchazh.clicrbs.com.br\/economia\/campo-e-lavoura\/noticia\/2018\/12\/maior-produtor-de-oliveiras-no-pais-tem-pomares-afetados-por-residuos-de-agroquimicos-cjpnyxz4n0lbu01rxprcag6t1.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Maior produtor de oliveiras no pa\u00eds tem pomares afetados por res\u00edduos de agroqu\u00edmicos<\/a>\u00a0&#8211; \u00c1rea cultivada com olivais no Estado chegou a 4,5 mil hectares em 2018, quase 95% na Metade Sul<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/gauchazh.clicrbs.com.br\/economia\/campo-e-lavoura\/noticia\/2018\/12\/perdas-por-residuos-de-herbicida-atingem-vinhedos-de-galvao-bueno-em-candiota-cjpnzrm230lap01pie91ionfd.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Perdas por res\u00edduos de herbicida atingem vinhedos de Galv\u00e3o Bueno, em Candiota<\/a> &#8211;\u00a0Problemas de deriva s\u00e3o registrados tamb\u00e9m em Santana do Livramento, onde muitas vin\u00edcolas da Serra mant\u00eam cultivos de variedades de uvas finas<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/gauchazh.clicrbs.com.br\/economia\/campo-e-lavoura\/noticia\/2018\/12\/jaguari-enfrenta-o-problema-de-deriva-ha-pelo-menos-cinco-anos-cjpnz2duc0lae01pifj75s56k.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Jaguari enfrenta o problema de deriva h\u00e1 pelo menos cinco anos<\/a> &#8211;\u00a0Lei municipal tentou disciplinar uso de herbicidas em \u00e1reas pr\u00f3ximas a parreirais. Medida ainda n\u00e3o surtiu efeito<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/gauchazh.clicrbs.com.br\/economia\/campo-e-lavoura\/noticia\/2018\/12\/escolha-pelo-herbicida-24-d-nao-e-so-economica-alegam-produtores-de-soja-cjpnz18pi0lab01pirwvrwf2k.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Escolha pelo herbicida 2,4-D n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 econ\u00f4mica, alegam produtores de soja<\/a> &#8211;\u00a0L\u00edderes de entidades ruralistas afirmam que agrot\u00f3xico 2,4-D \u00e9 o mais eficiente para o combate de ervas daninhas e que, sem ele, teriam perdas nas safras do gr\u00e3o<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/gauchazh.clicrbs.com.br\/economia\/campo-e-lavoura\/noticia\/2018\/12\/plantas-que-brotam-apos-deriva-nao-trazem-risco-ao-consumo-diz-agronomo-cjpnzgeuj0lal01pij6pwyo0y.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Plantas que brotam ap\u00f3s deriva n\u00e3o trazem risco ao consumo, diz agr\u00f4nomo<\/a> &#8211;\u00a0Agrot\u00f3xico 2,4-D atua no sistema de desenvolvimento e leva os vegetais a morte, mas, retirada a parte afetada, os frutos que nascem a seguir s\u00e3o sadios <span style=\"color: #ff6600;\">(Mmmmm&#8230; Aham&#8230;..)<\/span><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/gauchazh.clicrbs.com.br\/colunistas\/gisele-loeblein\/noticia\/2018\/12\/confirmacao-de-residuos-de-24-d-exige-solucao-urgente-para-o-problema-cjpo489n40le701rxsjdzexyu.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Confirma\u00e7\u00e3o de res\u00edduos de 2,4-D exige solu\u00e7\u00e3o urgente para o problema<\/a> &#8211;\u00a0Laudos positivos fazem o assunto ganhar nova dimens\u00e3o: deixou de ser mera suposi\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/gauchazh.clicrbs.com.br\/economia\/campo-e-lavoura\/noticia\/2018\/12\/prejuizos-comecam-a-ser-vistos-em-pomares-de-macas-nos-campos-de-cima-da-serra-cjpnz81ff0lbz01rxx488ezu9.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Preju\u00edzos come\u00e7am a ser vistos em pomares de ma\u00e7\u00e3s nos Campos de Cima da Serra<\/a> &#8211;\u00a0Macieiras que deveriam gerar at\u00e9 200 frutas est\u00e3o produzindo cerca de 15 unidades e apresentam folhas retorcidas, efeitos causados pela m\u00e1 aplica\u00e7\u00e3o de herbicida na soja<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/gauchazh.clicrbs.com.br\/economia\/campo-e-lavoura\/noticia\/2018\/12\/carlos-nabinger-questiona-precisamos-manter-os-campos-cjpnzxdgd0lcc01rx7uwcr2p8.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Carlos Nabinger questiona: precisamos manter os campos?<\/a> &#8211;\u00a0Professor da Faculdade de Agronomia da Ufrgs, Carlos Nabinger comenta amea\u00e7as aos campos nativos e os riscos associados que v\u00e3o al\u00e9m da vegeta\u00e7\u00e3o, incluindo as \u00e1guas e esp\u00e9cies animais<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/gauchazh.clicrbs.com.br\/economia\/campo-e-lavoura\/noticia\/2018\/12\/campo-responde-quais-as-condicoes-para-aplicacao-correta-do-herbicida-24-d-cjpo1agq00ld201rxt11lw9ub.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Campo responde: quais as condi\u00e7\u00f5es para aplica\u00e7\u00e3o correta do herbicida 2,4-D?<\/a> &#8211;\u00a0Temperatura ambiente, umidade do ar e velocidade e dire\u00e7\u00e3o do vento s\u00e3o fatores que relacionados \u00e0 qualidade da aplica\u00e7\u00e3o<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nuvem de Paraquate, potencialmente fatal, intoxicou 96 pessoas, a maioria crian\u00e7as que estavam em escola vizinha \u00e0 \u00e1rea de planta\u00e7\u00e3o Quase cem pessoas foram intoxicadas no in\u00edcio de novembro no munic\u00edpio de Espig\u00e3o Alto do Igua\u00e7u com Paraquate, um agrot\u00f3xico que est\u00e1 proibido na Europa desde 2007. 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