{"id":28997,"date":"2019-04-18T09:00:00","date_gmt":"2019-04-18T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=28997"},"modified":"2019-04-16T10:10:47","modified_gmt":"2019-04-16T13:10:47","slug":"como-nascem-os-lixoes-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/como-nascem-os-lixoes-no-brasil\/","title":{"rendered":"Como nascem os lix\u00f5es no Brasil"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/img.estadao.com.br\/resources\/jpg\/6\/8\/1555194973886.jpg\" alt=\"Lix\u00c3\u00a3o em Resenda\" \/><\/p>\n<p><em>A catadora\u00a0Juliene Agapito, de 30 anos, recolhe material no lix\u00e3o de Resende\u00a0 Foto: MARCOS ARCOVERDE\/ESTAD\u00c3O<\/em><\/p>\n<p><strong>\u00cdndice de crian\u00e7as matriculadas na escola, independ\u00eancia financeira do munic\u00edpio e densidade populacional s\u00e3o determinantes, diz estudo<\/strong><\/p>\n<p>Passados quase cinco anos do prazo dado pela Pol\u00edtica Nacional de Res\u00edduos S\u00f3lidos (PNRS) para o fim dos\u00a0<strong><a href=\"https:\/\/tudo-sobre.estadao.com.br\/lixo\">lix\u00f5es<\/a><\/strong>\u00a0no Brasil, que venceu em julho de 2014, cerca de metade dos munic\u00edpios brasileiros ainda destina seus res\u00edduos incorretamente. E, na semana que passou, durante a Marcha de Prefeitos a Bras\u00edlia, parte deles voltou a pleitear um\u00a0<strong><a href=\"https:\/\/politica.estadao.com.br\/blogs\/coluna-do-estadao\/congresso-prepara-salvo-conduto-a-lixoes\/\">novo adiamento do prazo ao Congresso<\/a>\u00a0<\/strong>e foi aprovado um requerimento que pede urg\u00eancia urgent\u00edssima para a vota\u00e7\u00e3o da prorroga\u00e7\u00e3o do prazo.<\/p>\n<p>Mais do que mais prazo, por\u00e9m, o que talvez as cidades precisem \u00e9 entender as causas do problema para atac\u00e1-lo. \u00c9 o que sugere um estudo elaborado pelo Sindicato Nacional das Empresas de Limpeza Urbana (Selurb) que analisou os fatores que tornam as cidades mais propensas a adequarem corretamente seus res\u00edduos ou n\u00e3o. O trabalho, divulgado com exclusividade pelo\u00a0<strong>Estado<\/strong>, revela como surgem os lix\u00f5es no Brasil.<\/p>\n<p>Os pesquisadores desenvolveram um modelo matem\u00e1tico que analisou fatores socioecon\u00f4micos que podem ter mais impacto na capacidade da cidade de lidar com o lixo e conclu\u00edram que tr\u00eas s\u00e3o os mais significativos: \u00edndice de crian\u00e7as matriculadas na escola; independ\u00eancia financeira do munic\u00edpio e densidade populacional. \u00c9 relevante ainda a exist\u00eancia ou n\u00e3o de taxas espec\u00edficas de limpeza urbana.<\/p>\n<p>O trabalho, que ser\u00e1 divulgado nesta segunda-feira, 15, durante o Semin\u00e1rio Internacional de Res\u00edduos S\u00f3lidos, em S\u00e3o Paulo, considera a base de dados do \u00cdndice de Sustentabilidade da Limpeza Urbana (Islu), criado em 2016 pelo Selurb para mensurar o grau de ader\u00eancia das cidades \u00e0s metas e diretrizes fixadas pela pol\u00edtica nacional. Da edi\u00e7\u00e3o anterior do levantamento, de 2018, participaram 3.374 cidades \u2013 53% ainda t\u00eam lix\u00f5es.<\/p>\n<p>Entre aquelas que fazem a destina\u00e7\u00e3o correta dos res\u00edduos, a m\u00e9dia de crian\u00e7as entre 6 e 14 anos matriculadas na escola \u00e9 de 87,26%. J\u00e1 nos munic\u00edpios com lix\u00f5es, a taxa cai para 84,9%. A densidade populacional dos primeiros \u00e9 de 264,40 hab\/km\u00b2, j\u00e1 dos segundos, de 78,55 hab\/km\u00b2.<\/p>\n<p>O gasto com limpeza urbana no or\u00e7amento tamb\u00e9m difere consideravelmente: a m\u00e9dia \u00e9 de R$ 534,10\/m\u00eas nas cidades com destina\u00e7\u00e3o adequada, ante R$ 73,50 nas com lix\u00e3o. Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 participa\u00e7\u00e3o das transfer\u00eancias intergovernamentais na receita do munic\u00edpio \u00e9 de 79,14% ante 90,82%, respectivamente.<\/p>\n<p>&#8220;Basicamente, quanto menos educa\u00e7\u00e3o, maior depend\u00eancia de repasses estaduais e federais e menor densidade demogr\u00e1fica (ou concentra\u00e7\u00e3o urbana \u2013 munic\u00edpios\u00a0com \u00e1rea muito grande e popula\u00e7\u00e3o espalhada), mais vulner\u00e1vel est\u00e1 o munic\u00edpio ao surgimento de lix\u00f5es\u201d, resume o economista Jonas Okawara.<\/p>\n<p>Um exemplo do que indica o estudo \u00e9\u00a0<strong><a href=\"https:\/\/tudo-sobre.estadao.com.br\/resende\">Resende<\/a><\/strong>, no Rio, onde os indicadores educacionais e de depend\u00eancia financeira n\u00e3o s\u00e3o bons. A cidade at\u00e9 possui economia de escala, com 115 hab\/km\u00b2, mas seus gastos com limpeza urbana s\u00e3o de R$ 14 por habitante por m\u00eas. A cidade ainda destina seus res\u00edduos para um lix\u00e3o\u00a0<em>(leia mais sobre a cidade abaixo)<\/em>.<\/p>\n<p>Na outra ponta est\u00e1 Joinville, que faz a destina\u00e7\u00e3o correta dos res\u00edduos: 96% das crian\u00e7as est\u00e3o matriculadas; a depend\u00eancia de recursos intergovernamentais \u00e9 baixa (44%); a densidade populacional \u00e9 de R$ 512 hab\/km\u00b2 e, juntando or\u00e7amento com taxa de lixo, o valor por habitante \u00e9 de R$ 22\/m\u00eas.<\/p>\n<p>H\u00e1, no entanto, exce\u00e7\u00f5es ao modelo. \u00c9 o caso de Maca\u00e9 (RJ), sede das opera\u00e7\u00f5es da Petrobras na Bacia de Campos. Apesar de ter indicadores muito bons \u2013 99% de crian\u00e7as matriculadas; 44% de depend\u00eancia financeira; 200 hab\/km2 e um gasto de R$ 31,5 por hab\/m\u00eas com limpeza urbana \u2013,\u00a0a cidade ainda destinava seus res\u00edduos para um lix\u00e3o at\u00e9 o ano passado. Desde o in\u00edcio de 2019, no entanto, a destina\u00e7\u00e3o final dos detritos \u00e9 um aterro sanit\u00e1rio, conforme preconizado.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/img.estadao.com.br\/resources\/jpg\/1\/3\/1555194973931.jpg\" alt=\"LIx\u00c3\u00a3o em Resende\" \/><\/p>\n<p><em>Gasto com limpeza urbana na cidade de Resende, no Rio, \u00e9 de R$ 14 per capita\/m\u00eas Foto: MARCOS ARCOVERDE\/ESTAD\u00c3O<\/em><\/p>\n<p><strong>Solu\u00e7\u00f5es<\/strong><\/p>\n<p>O trabalho tamb\u00e9m aponta solu\u00e7\u00f5es: o aumento em 10% no n\u00famero de crian\u00e7as matriculadas nas escolas pode diminuir em 3,6% a probabilidade das cidades destinarem os seus res\u00edduos em lix\u00f5es. J\u00e1 o aumento de 1.000 hab\/km\u00b2 pode diminuir em 2,1% essa probabilidade.<\/p>\n<p>Com isso, diz Okawara, ganha-se em escala econ\u00f4mica, tornando mais vi\u00e1vel a coleta. Outra sugest\u00e3o j\u00e1 conhecida \u00e9 a ado\u00e7\u00e3o de cons\u00f3rcios entre cidades vizinhas pequenas para compartilhar os custos e viabilizar o servi\u00e7o. Por outro lado, o aumento da depend\u00eancia das transfer\u00eancias intergovernamentais em mais 10% acresce a probabilidade de a cidade destinar res\u00edduos inadequadamente em 10,6%.<\/p>\n<p>\u201cQuanto maior essa depend\u00eancia, maior a chance de ter lix\u00e3o. Para ter a destina\u00e7\u00e3o adequada \u00e9 preciso ter condi\u00e7\u00f5es de fazer o custeio operacional para manter a opera\u00e7\u00e3o. Se n\u00e3o tem autonomia para fazer a gest\u00e3o, isso facilmente pode se deteriorar. H\u00e1 cidades que chegaram a fazer aterros sanit\u00e1rios e come\u00e7ar a fazer a destina\u00e7\u00e3o correta, mas quando perdeu essa autonomia, rapidamente voltou a ter lix\u00e3o\u201d, diz Okawara.<\/p>\n<p><strong>Tur\u00edstica, Resende tem descarte irregular<\/strong><\/p>\n<p>Resende \u00e9 considerado um dos mais importantes munic\u00edpios do interior do Rio. Sede do maior complexo militar da Am\u00e9rica Latina \u2013 a Academia Militar das Agulhas Negras \u2013, da \u00fanica ind\u00fastria de enriquecimento de ur\u00e2nio do Brasil e da maior f\u00e1brica de caminh\u00f5es do Pa\u00eds, o munic\u00edpio \u00e9 tamb\u00e9m uma refer\u00eancia regional no turismo; perdendo apenas para a capital em n\u00famero de visitantes.<\/p>\n<p>Em contraste com a aparente pujan\u00e7a, por\u00e9m, a cidade guarda uma alta depend\u00eancia de recursos intergovernamentais (63%). E tem \u00edndices educacionais abaixo do esperado: 83% das crian\u00e7as entre 6 e 14 anos est\u00e3o na escola \u2013 os dois fatores tornam a cidade mais propensa a n\u00e3o ter um descarte adequado de res\u00edduos s\u00f3lidos, como sugere o estudo do Serlurb (leia mais na p\u00e1g. ao lado). De fato, Resende convive com um lix\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cO lix\u00e3o \u00e9 uma armadilha porque, embora aparentemente seja uma solu\u00e7\u00e3o mais barata, acaba saindo caro a m\u00e9dio e longo prazo\u201d, explica o pesquisador da Coppe\/UFRJ Luciano Basto Oliveira, especialista em res\u00edduos s\u00f3lidos e planejamento energ\u00e9tico. \u201cOs maiores riscos s\u00e3o o da contamina\u00e7\u00e3o do solo e do len\u00e7ol fre\u00e1tico (com eventuais problemas de sa\u00fade para a popula\u00e7\u00e3o). Estudo da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade mostra que metade dos leitos hospitalares do mundo s\u00e3o ocupados por doen\u00e7as relacionadas \u00e0 falta de saneamento b\u00e1sico.\u201d<\/p>\n<p>Desde 2007, uma a\u00e7\u00e3o civil p\u00fablica pede o fechamento do lix\u00e3o que fica na \u00e1rea rural do munic\u00edpio e recebe diariamente 100 toneladas de detritos n\u00e3o s\u00f3 de Resende, mas tamb\u00e9m de Penedo e Visconde de Mau\u00e1.<\/p>\n<p>O presidente da Ag\u00eancia do Meio Ambiente de Resende, Wilson Moura, afirmou que o lix\u00e3o est\u00e1 em processo de encerramento das atividades, o que deve acontecer em, no m\u00e1ximo, tr\u00eas meses. Segundo Moura, o munic\u00edpio j\u00e1 licitou e contratou a Central de Tratamento de Res\u00edduos de Barra Mansa para receber os res\u00edduos de Resende.<\/p>\n<p>\u201cEm geral, a grande dificuldade de solucionar o problema est\u00e1 na necessidade de atender \u00e0s quest\u00f5es ambientais, sociais (catadores de lixo) e econ\u00f4micas\u201d, disse. \u201cE para a constru\u00e7\u00e3o de novos aterros, centrais de tratamento ou usinas s\u00e3o necess\u00e1rios diversos estudos que atendam a processos morosos de licenciamento ambiental.\u201d<\/p>\n<p><strong>Dificuldades<\/strong><\/p>\n<p>Analista t\u00e9cnica da Confedera\u00e7\u00e3o Nacional de Munic\u00edpios, a ge\u00f3grafa Cl\u00e1udia Lins explica que o aterro sanit\u00e1rio \u00e9 uma estrutura cara, de opera\u00e7\u00e3o e manuten\u00e7\u00e3o complexas e que s\u00f3 \u00e9 vi\u00e1vel economicamente para munic\u00edpios com mais de 100 mil habitantes. Ela lembra que 90% dos munic\u00edpios do Pa\u00eds tem menos de 50 mil habitantes e que tais diferen\u00e7as regionais deveriam ser levadas em conta no momento de se fazer exig\u00eancias no descarte de res\u00edduos.<\/p>\n<p>\u201cA pol\u00edtica p\u00fablica de res\u00edduos s\u00f3lidos \u00e9 de compet\u00eancia comum de Uni\u00e3o, Estados e munic\u00edpios. Ou seja, Uni\u00e3o e Estado devem dar apoio financeiro ao munic\u00edpio para que o servi\u00e7o seja prestado\u201d, disse. \u201cVivemos num Pa\u00eds com desigualdades socioambientais enormes, em que todos os munic\u00edpios s\u00e3o tratados como iguais. A realidade de S\u00e3o Paulo n\u00e3o \u00e9 a mesma de qualquer outro Estado de Norte e Nordeste, por exemplo. Como fazer gest\u00e3o de res\u00edduos da mesma forma? A lei tem que dar condi\u00e7\u00f5es diferenciadas para ser cumprida nos munic\u00edpios menores. E a \u00fanica alternativa da lei \u00e9 a do aterro sanit\u00e1rio.<\/p>\n<p><strong>Aterros regionais diminu\u00edram o problema no MS<\/strong><\/p>\n<p>O semin\u00e1rio desta segunda-feira vai destacar um caso de sucesso desenvolvido no Mato Grosso do Sul a partir do Projeto Res\u00edduos S\u00f3lidos \u2013 Disposi\u00e7\u00e3o Legal.\u00a0A parceria criada em 2015 entre o Minist\u00e9rio P\u00fablico do Meio Ambiente e o Tribunal de Contas do Estado teve foco em implantar fontes de arrecada\u00e7\u00e3o espec\u00edficas para custear os servi\u00e7os de limpeza urbana e promover acordos regionais para viabilizar a atividade por meio de ganho de escala, al\u00e9m de acordos para tramita\u00e7\u00f5es de processos judiciais relacionados ao tema.<\/p>\n<p>Quando o projeto teve in\u00edcio, 80% das 79 cidades destinavam seus res\u00edduos para lix\u00f5es. Hoje s\u00e3o 41%. Em volume de res\u00edduos, 75% do que \u00e9 gerado nas resid\u00eancia hoje vai para aterros sanit\u00e1rios regionalizados. Em 2015, apenas tr\u00eas cidades possu\u00edam algum modelo de cobran\u00e7a pelo servi\u00e7o de limpeza urbana. Hoje s\u00e3o 20.<\/p>\n<p>\u201cAinda h\u00e1 muito o que caminhar, mas percebemos que sem uma uni\u00e3o de esfor\u00e7os isso n\u00e3o seria poss\u00edvel. A arrecada\u00e7\u00e3o espec\u00edfica e a regionaliza\u00e7\u00e3o dos aterros s\u00e3o fundamentais para o Brasil resolver esse problema\u201d, conta o promotor Luciano Loubet, diretor do N\u00facleo Ambiental do Minist\u00e9rio P\u00fablico do Mato Grosso do Sul.<\/p>\n<p>Fonte &#8211;\u00a0Giovana Girardi e Roberta Jansen, O Estado de S. Paulo de\u00a014 de abril de 2019<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A catadora\u00a0Juliene Agapito, de 30 anos, recolhe material no lix\u00e3o de Resende\u00a0 Foto: MARCOS ARCOVERDE\/ESTAD\u00c3O \u00cdndice de crian\u00e7as matriculadas na escola, independ\u00eancia financeira do munic\u00edpio e densidade populacional s\u00e3o determinantes, diz estudo Passados quase cinco anos do prazo dado pela Pol\u00edtica Nacional de Res\u00edduos S\u00f3lidos (PNRS) para o fim dos\u00a0lix\u00f5es\u00a0no Brasil, que venceu em julho&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[113,114],"post_series":[],"class_list":["post-28997","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-geral","tag-lixo","tag-residuos","entry","no-media"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v25.2 - 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