{"id":30910,"date":"2020-07-28T07:30:16","date_gmt":"2020-07-28T10:30:16","guid":{"rendered":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=30910"},"modified":"2020-07-26T17:03:52","modified_gmt":"2020-07-26T20:03:52","slug":"novas-torres-de-energia-no-parana-podem-gerar-danos-sociais-e-ambientais-irreversiveis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/novas-torres-de-energia-no-parana-podem-gerar-danos-sociais-e-ambientais-irreversiveis\/","title":{"rendered":"Novas torres de energia no Paran\u00e1 podem gerar danos sociais e ambientais irrevers\u00edveis"},"content":{"rendered":"<div class=\"single-image-outer the-image-post\">\n<p><span class=\"single-post-author post-author\">Por Reinaldo Canto<\/span> &#8211; Envolverde<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"single-post-inner-content\">\n<p><em><strong>As linhas devastariam mais de 600 hectares de algumas das \u00faltimas por\u00e7\u00f5es de Floresta com Arauc\u00e1ria e Campos Naturais do Sul do Brasil e impactariam a vida de, aproximadamente, 30 comunidades tradicionais<\/strong><\/em><\/p>\n<p>A instala\u00e7\u00e3o de 1.069 torres de transmiss\u00e3o de energia el\u00e9trica que a multinacional francesa Engie quer instalar no Paran\u00e1, na regi\u00e3o dos Campos Gerais, pode provocar resultados devastadores e irrevers\u00edveis. Corte de vegeta\u00e7\u00e3o nativa, de arauc\u00e1rias centen\u00e1rias, degrada\u00e7\u00e3o de algumas das \u00faltimas parcelas de campos naturais nativos, perda de habitat natural, morte de animais, degrada\u00e7\u00e3o do solo e perda de riquezas arqueol\u00f3gicas seriam algumas das consequ\u00eancias geradas pelo empreendimento. Sem falar nos riscos que a implanta\u00e7\u00e3o das torres simboliza para os pequenos produtores rurais e para as comunidades tradicionais das mais de 27 cidades que receberiam as linhas de transmiss\u00e3o.<\/p>\n<p>Essas linhas, que podem passar por mais de 500 quil\u00f4metros do territ\u00f3rio paranaense, devastariam mais de 600 hectares de \u00e1reas naturais protegidas, impactando a vida de, aproximadamente, 30 comunidades tradicionais do estado. A instala\u00e7\u00e3o dessas torres de transmiss\u00e3o el\u00e9trica alteraria para sempre a paisagem e o meio ambiente de diversas localidades, em especial da \u00c1rea de Prote\u00e7\u00e3o Ambiental (APA) da Escarpa Devoniana.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" src=\"https:\/\/www.jornaldocomercio.com\/_midias\/jpg\/IMAGENS2\/F_0000218192.JPG\" alt=\"Neoenergia vai instalar 769,3 km de linhas de transmiss\u00e3o na ...\" width=\"799\" height=\"532\" \/><\/p>\n<p>As linhas, que podem ser implantadas pela multinacional Engie e fazem parte do projeto \u201cGralha Azul\u201d, segundo detalhes do pr\u00f3prio projeto, passariam por mais de duas mil propriedades rurais. Ironicamente, a gralha azul \u00e9 a esp\u00e9cie dispersora do pinh\u00e3o, a semente da \u00e1rvore Arauc\u00e1ria. As \u00faltimas por\u00e7\u00f5es de Floresta com Arauc\u00e1ria e Campos Naturais que ainda existem no Sul do Brasil est\u00e3o na regi\u00e3o dos Campos Gerais e agora sofrem, novamente, com os riscos dos preju\u00edzos que podem ser impostos pelo empreendimento. Resta menos de 1% de Floresta com Arauc\u00e1ria e Campos Naturais em bom estado de conserva\u00e7\u00e3o em todo o Brasil. De t\u00e3o valiosos do ponto de vista visual, tur\u00edstico e de biodiversidade, os Campos Gerais j\u00e1 chegaram a ser definidos pelo naturalista franc\u00eas, Saint Hilaire como \u201co para\u00edso na Terra\u201d.<\/p>\n<p>Um dos trechos de instala\u00e7\u00e3o das torres e linhas vai de Ponta Grossa, nos Campos Gerais, at\u00e9 Campo Largo, na Regi\u00e3o Metropolitana de Curitiba e passa, exatamente, em cima da APA da Escarpa Devoniana \u2013 uma unidade de conserva\u00e7\u00e3o de uso sustent\u00e1vel rica em tesouros arqueol\u00f3gicos, em fauna e flora \u2013 e que \u00e9 protegida por lei. Somente neste trecho est\u00e1 previsto, segundo Estudo de Impacto Ambiental (EIA) realizado pela pr\u00f3pria empresa, que 398 novas torres sejam instaladas. O custo do projeto est\u00e1 estimado em mais de R$ 2 bilh\u00f5es, segundo R$ 1,4 bilh\u00e3o com recursos do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econ\u00f4mico Social).<\/p>\n<p>No outro trecho do projeto Gralha Azul, que vai de Ivaipor\u00e3 a Ponta Grossa, a Engie estima instalar outras 671 torres. Somando, seriam implantadas 1.069 novas torres, dispostas a cerca de 500 metros cada, que afetariam, por exemplo, toda a biodiversidade e o solo dessa regi\u00e3o do estado.<\/p>\n<p>As licen\u00e7as ambientais do empreendimento foram emitidas pelo Instituto Ambiental do Paran\u00e1 (IAP), atual Instituto \u00c1gua e Terra (IAT), em outubro de 2019 e em fevereiro deste ano. Se esse empreendimento for adiante, resultar\u00e1 em um impacto ambiental irrevers\u00edvel e altamente danoso. O IAP, vale lembrar, foi rebatizado pela gest\u00e3o de Ratinho Jr. e o atual secret\u00e1rio de Turismo e Desenvolvimento Sustent\u00e1vel, Marcio Nunes j\u00e1 esteve envolvido em diferentes den\u00fancias envolvendo amea\u00e7as ao patrim\u00f4nio natural no Estado.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Torres_de_alta_tensao.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-30974\" src=\"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Torres_de_alta_tensao.jpg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"533\" srcset=\"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Torres_de_alta_tensao.jpg 1772w, https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Torres_de_alta_tensao-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Torres_de_alta_tensao-1024x682.jpg 1024w, https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Torres_de_alta_tensao-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Torres_de_alta_tensao-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Torres_de_alta_tensao-600x400.jpg 600w\" sizes=\"(max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><\/a><\/p>\n<p><strong>Transpar\u00eancia zero<\/strong><\/p>\n<p>Uma an\u00e1lise encomendada pelo Observat\u00f3rio de Justi\u00e7a e Conserva\u00e7\u00e3o (OJC), feita por uma equipe t\u00e9cnica formada por nove pesquisadores e profissionais especialistas em estudos de impacto ambiental, revela os riscos desse projeto. O estudo, coordenado pelo professor da Universidade Federal do Paran\u00e1 (UFPR) Eduardo Vedor, que \u00e9 doutor em Geografia, e tamb\u00e9m pelo ge\u00f3grafo e mestre em Geografia Marcelo Ban Hung, avalia criteriosamente os Estudos de Impacto Ambiental (EIA) da instala\u00e7\u00e3o das linhas de transmiss\u00e3o.<\/p>\n<p>A conclus\u00e3o \u00e9 de que o licenciamento do projeto apresenta diversos problemas em rela\u00e7\u00e3o ao cumprimento da legisla\u00e7\u00e3o vigente. Os Termos de Refer\u00eancia \u2013 que s\u00e3o os documentos que informam as diretrizes para a elabora\u00e7\u00e3o do Estudo de Impacto Ambiental \u2013 sequer constam no processo de licenciamento ambiental. Esses Termos s\u00e3o documentos p\u00fablicos e que deveriam ser disponibilizados \u00e0 sociedade pelo Instituto \u00c1gua e Terra. De modo nada transparente, muitos documentos, que deveriam ser p\u00fablicos, s\u00f3 foram obtidos por interm\u00e9dio do Minist\u00e9rio P\u00fablico.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" src=\"https:\/\/www.embrapa.br\/bme_images\/m\/7920040m.jpg\" alt=\"Araucaria - Portal Embrapa\" width=\"800\" height=\"531\" \/><\/p>\n<p>A an\u00e1lise aponta, ainda, que o EIA n\u00e3o apresenta mapas ou cartogramas, apesar de citar um \u201ccaderno de mapas\u201d, mas que tamb\u00e9m n\u00e3o foi disponibilizado. Isso pode fazer com que as localidades impactadas pelo empreendimento sofram varia\u00e7\u00f5es no decorrer das instala\u00e7\u00f5es das torres. Os estudos apenas citam a previs\u00e3o de instala\u00e7\u00e3o das torres, sem apresentar mapas de onde elas ser\u00e3o localizadas. Tamb\u00e9m n\u00e3o s\u00e3o indicados os impactos que elas causariam nas localidades de instala\u00e7\u00e3o. Outro fator que chama a aten\u00e7\u00e3o \u00e9 que o licenciamento, que \u00e9 bastante complexo, foi obtido em um prazo recorde de seis meses, quando o normal, segundo os t\u00e9cnicos, \u00e9 de que ele deveria ter levado, no m\u00ednimo, dois anos para ser conquistado.<\/p>\n<p>A defici\u00eancia de representa\u00e7\u00f5es cartogr\u00e1ficas dificultou a an\u00e1lise dos impactos gerados pelo empreendimento, com destaque para a inexist\u00eancia de mapas com o per\u00edmetro das propriedades rurais impactadas por ele, fato que torna imposs\u00edvel avaliar o real impacto sobre o seu potencial produtivo e sobre outros aspectos que envolvem as comunidades diretamente afetadas. \u201cEste grave problema da aus\u00eancia da localiza\u00e7\u00e3o das torres de transmiss\u00e3o oculta o real impacto do empreendimento, visto que os EIAs n\u00e3o avaliaram, em nenhum momento, o impacto das torres no diagn\u00f3stico ambiental do meio f\u00edsico, bi\u00f3tico e socioecon\u00f4mico\u201d, ressalta a an\u00e1lise dos pesquisadores.<\/p>\n<p>Constatou-se, ainda, que a regi\u00e3o impactada possui significativa diversidade geogr\u00e1fica e biol\u00f3gica, alt\u00edssimo potencial espeleol\u00f3gico e \u00e1reas de bens tombados, como a pr\u00f3pria Escarpa Devoniana.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" src=\"https:\/\/www.infoescola.com\/wp-content\/uploads\/2007\/08\/mata-araucarias.jpg\" alt=\"Mata de Arauc\u00e1rias - Biomas - InfoEscola\" width=\"800\" height=\"534\" \/><\/p>\n<p><strong>Unidades de Conserva\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>O pr\u00f3prio EIA aponta que cerca de 655 hectares de Reserva Legal, Unidades de Conserva\u00e7\u00e3o e \u00c1reas de Preserva\u00e7\u00e3o Permanente ser\u00e3o impactadas pelas instala\u00e7\u00f5es das linhas de transmiss\u00e3o da Engie nos dois trechos de implanta\u00e7\u00e3o das torres. Ou seja: uma \u00e1rea equivalente a 655 campos de futebol gravemente comprometida.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1, no entanto, detalhamento das localidades que podem sofrer com a remo\u00e7\u00e3o da cobertura vegetal. O Estudo alega que o impacto ser\u00e1 tempor\u00e1rio e revers\u00edvel. Mas, os pesquisadores que o analisaram confirmam que esse impacto \u00e9 permanente, irrevers\u00edvel e de alta signific\u00e2ncia para o meio.<\/p>\n<p>O empreendimento est\u00e1 pr\u00f3ximo de algumas Unidades de Conserva\u00e7\u00e3o, como a Reserva Biol\u00f3gica das Arauc\u00e1rias, em Teixeira Soares, e a APA da Escarpa Devoniana. Tamb\u00e9m fica perto da Reserva Particular do Patrim\u00f4nio Natural (RPPN) Papagaio Velho. Os impactos sobre as unidades de conserva\u00e7\u00e3o sequer foram abordados pela Engie.<\/p>\n<p>O EIA da Engie tamb\u00e9m n\u00e3o contempla a necessidade de um criterioso mapeamento das nascentes dos rios e \u00e1reas alag\u00e1veis. Assim, o estudo n\u00e3o avalia a din\u00e2mica das \u00e1reas \u00famidas, que possuem fauna e flora espec\u00edficas. O ecossistema dessas regi\u00f5es \u00e9 extremamente fr\u00e1gil e din\u00e2mico. A caracteriza\u00e7\u00e3o da cobertura vegetal n\u00e3o foi realizada pelo EIA de forma conjunta com a rede hidrogr\u00e1fica, corredores ecol\u00f3gicos, unidades de conserva\u00e7\u00e3o e \u00e1reas com potencial para ref\u00fagio da fauna. O EIA tamb\u00e9m faz uma descri\u00e7\u00e3o do empreendimento em termos de localiza\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o especifica quais as estradas vicinais seriam utilizadas e abertas para acesso \u00e0s mais de mil torres, acessos esses necess\u00e1rios tanto para instala\u00e7\u00e3o como para a manuten\u00e7\u00e3o das torres. Estima-se que cerca de 400 quil\u00f4metros de novos acessos ser\u00e3o necess\u00e1rios, mas os EIAs ignoram esses relevantes impactos. Tamb\u00e9m n\u00e3o est\u00e1 especificado em que pontos das estradas o empreendimento estabelecer\u00e1 algum tipo de interfer\u00eancia. O mapa inserido no Estudo n\u00e3o apresenta essas informa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" src=\"https:\/\/lh3.googleusercontent.com\/proxy\/jDWjG3Hm1JJVtqCqIPGItURYDfRCamaFu33-mMLMC5NJ6NluEoCuAWJauNTWhVZh4ssUDHhRnR5ToR7X5m4NJX8kxBQCzpxtHJBhWksLDhLbFOIVMMB1aWGR9DrgMJBlBXQ\" alt=\"Santa Catarina tem a maior \u00e1rea preservada de arauc\u00e1rias entre os ...\" width=\"799\" height=\"532\" \/><\/p>\n<p><strong>Mais falhas<\/strong><\/p>\n<p>Os pesquisadores verificaram, dessa forma, que os diagn\u00f3sticos ambientais que constam no Estudo de Impactos Ambientais do empreendimento s\u00e3o \u201cextremamente superficiais e n\u00e3o estabelecem rela\u00e7\u00f5es entre os elementos do meio f\u00edsico, bem como com o empreendimento em diversos pontos\u201d.<\/p>\n<p>\u201cOs estudos apresentam predominantemente descri\u00e7\u00f5es gerais da regi\u00e3o central do Estado do Paran\u00e1 e n\u00e3o abordam as particularidades encontradas nas \u00e1reas de influ\u00eancia do empreendimento\u201d, concluiu a equipe de pesquisadores. Os Estudos de Impacto Ambiental da Engie contemplam, portanto, um d\u00e9ficit marcante de informa\u00e7\u00f5es exigidas a respeito da flora e da fauna. A abrang\u00eancia das amostras no trabalho que eles fizeram, segundo os pesquisadores, \u00e9 pouco representativa para a extens\u00e3o das \u00e1reas em que as linhas ser\u00e3o instaladas.<\/p>\n<\/div>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" src=\"https:\/\/i1.wp.com\/cienciaeclima.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/Araucaria-flickr-paulo.jpg?fit=841%2C529&amp;ssl=1\" alt=\"O tempo em que se faziam florestas | Ci\u00eancia e Clima\" width=\"800\" height=\"503\" \/><\/p>\n<div class=\"single-post-inner-content\">\n<p><strong>Riscos para o patrim\u00f4nio hist\u00f3rico e arqueol\u00f3gico<\/strong><\/p>\n<p>O empreendimento, que pode atravessar todo o Segundo Planalto Paranaense, coloca em risco a preserva\u00e7\u00e3o arqueol\u00f3gica e hist\u00f3rica do estado. O Grupo Universit\u00e1rio de Pesquisas Espeleol\u00f3gicas (GUPE), da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), realizou trabalhos de campo objetivando a prospec\u00e7\u00e3o espeleol\u00f3gica na \u00e1rea do empreendimento. O grupo identificou recentemente dez novas cavernas subterr\u00e2neas que possuem fauna e flora espec\u00edficas.<\/p>\n<p>O GUPE ressalta que a implementa\u00e7\u00e3o das linhas de transmiss\u00e3o pode representar um alto risco \u00e0s cavidades naturais existentes na regi\u00e3o e que o empreendedor n\u00e3o considerou esse importante aspecto do patrim\u00f4nio natural no Estudo de Impacto Ambiental.<\/p>\n<p>Ao todo, j\u00e1 foram identificadas 31 novas cavidades naturais subterr\u00e2neas na \u00e1rea de influ\u00eancia direta das Linhas de Transmiss\u00e3o. Essas cavernas podem guardar tesouros arqueol\u00f3gicos e precisam ser preservadas e estudadas, segundo o grupo.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" src=\"https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Oeco_Felipe-Guimar%C3%A3es_Flickr.jpg\" width=\"800\" height=\"1200\" \/><\/p>\n<p>Outra aten\u00e7\u00e3o especial deve ser dada, conforme apontam os pesquisadores, \u00e0 forma\u00e7\u00e3o geol\u00f3gica da bacia do Rio do Rastro, que passa pela regi\u00e3o, devido ao rico registro paleontol\u00f3gico que ela acumula. \u00c9 considerada, inclusive, elevada a possibilidade de recupera\u00e7\u00e3o de material paleontol\u00f3gico durante a etapa de escava\u00e7\u00e3o das funda\u00e7\u00f5es para a implanta\u00e7\u00e3o das torres, o que exigiria um cuidado especial. Essa fase da opera\u00e7\u00e3o do empreendimento, contudo, n\u00e3o est\u00e1 especificada e, tampouco, detalhada no EIA.<\/p>\n<p>O EIA n\u00e3o traz informa\u00e7\u00f5es sobre a dist\u00e2ncia do empreendimento e os bens tombados, nem sobre o patrim\u00f4nio arqueol\u00f3gico. O Estudo, por exemplo, n\u00e3o identifica a Igreja de S\u00e3o Josafat, em Prudent\u00f3polis, tombada pelo Patrim\u00f4nio Hist\u00f3rico e tamb\u00e9m n\u00e3o trata do caso de S\u00e3o Lu\u00eds do Purun\u00e3, que teria torres instaladas em seu territ\u00f3rio, cujo projeto de desenvolvimento da comunidade \u00e9 calcado no turismo rural.<\/p>\n<p>Segundo o Relat\u00f3rio de Avalia\u00e7\u00e3o de Potencial de Impacto sobre o Patrim\u00f4nio Arqueol\u00f3gico (RAIPA) foram identificados, na localidade onde passar\u00e1 as linhas de transmiss\u00e3o, 46 s\u00edtios arqueol\u00f3gicos, 32 ocorr\u00eancias arqueol\u00f3gicas isoladas, e quatro S\u00edtios Hist\u00f3ricos de Interesse Arqueol\u00f3gico. Segundo o relat\u00f3rio, o impacto causado ao patrim\u00f4nio arqueol\u00f3gico com a instala\u00e7\u00e3o do empreendimento \u201cimpedir\u00e1 a realiza\u00e7\u00e3o de pesquisas futuras, com a completa e definitiva destrui\u00e7\u00e3o dos vest\u00edgios\u201d.<\/p>\n<p><strong>Comunidades tradicionais afetadas\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Os pesquisadores que se debru\u00e7aram a analisar o processo de licenciamento da Engie, apontam, ainda, que as linhas de transmiss\u00e3o afetariam mais de 30 comunidades tradicionais que habitam a regi\u00e3o, como comunidades quilombolas, ind\u00edgenas, rurais reassentadas e faxinais.<\/p>\n<p>Os documentos apresentados pela multinacional e publicizados pelo IAT apresentam dados contradit\u00f3rios em rela\u00e7\u00e3o a essas comunidades tradicionais. Afirma-se, por exemplo, que \u201co Licenciamento Quilombola do Empreendimento est\u00e1 sendo conduzido pela Funda\u00e7\u00e3o Cultural Palmares\u201d, no entanto, tal estudo n\u00e3o apresenta a anu\u00eancia da Funda\u00e7\u00e3o Palmares e nem o material que foi produzido para a emiss\u00e3o do licenciamento.<\/p>\n<p>Os pesquisadores que analisaram o EIA tamb\u00e9m apontam que n\u00e3o h\u00e1 anu\u00eancia da Funda\u00e7\u00e3o Nacional do \u00cdndio (Funai), mesmo com o Estudo tendo identificado terras ind\u00edgenas distantes a pouco mais de cinco quil\u00f4metros do empreendimento.<\/p>\n<p>O Estudo tamb\u00e9m identifica assentamentos rurais, mas n\u00e3o foram inseridas as dist\u00e2ncias em rela\u00e7\u00e3o ao empreendimento. Consta apenas que \u201cnenhum assentamento \u00e9 interceptado\u201d pelas linhas de transmiss\u00e3o. Por\u00e9m, os pesquisadores apontam que o mapa da p\u00e1gina 658 do EIA sobre as linhas de transmiss\u00e3o do trecho entre Ivaipor\u00e3 a Ponta Grossa sugere a localiza\u00e7\u00e3o dentro da \u00e1rea de alguns assentamentos rurais.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" src=\"https:\/\/media.gazetadopovo.com.br\/2019\/07\/26125235\/linha-transmissao-torre-energia-960x540.jpg\" width=\"800\" height=\"450\" \/><\/p>\n<p>\u201cEmbora haja refer\u00eancia \u00e0s comunidades tradicionais quilombolas e faxinalenses, suas caracteriza\u00e7\u00f5es s\u00e3o insuficientes, pois n\u00e3o permitem identificar nem mesmo seus aspectos mais gerais, tais como os meios de acesso, n\u00famero de fam\u00edlias, situa\u00e7\u00e3o socioecon\u00f4mica etc.\u201d, concluem os pesquisadores. N\u00e3o h\u00e1 nem mapa da localiza\u00e7\u00e3o dos faxinais.<\/p>\n<p>O diagn\u00f3stico, dessa forma, n\u00e3o apresenta as condi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para avaliar os efeitos e impactos que as linhas de transmiss\u00e3o teriam sobre o modo de vida dessas comunidades. Al\u00e9m disso, \u00e9 preciso avaliar se as estradas que d\u00e3o acesso a essas comunidades tradicionais seriam comprometidas pela instala\u00e7\u00e3o do empreendimento, principalmente, no caso de estradas n\u00e3o pavimentadas. Integrantes da equipe de pesquisadores chegaram a afirmar que, em 20 anos de trabalho, nunca haviam se deparado com um processo de licenciamento t\u00e3o falho.<\/p>\n<p><strong>Altera\u00e7\u00e3o da Beleza C\u00eanica<\/strong><\/p>\n<p>Segundo os pesquisadores, o empreendimento alteraria para sempre a beleza c\u00eanica da regi\u00e3o que abriga c\u00e2nions, corredeiras, relevos residuais, cavernas, cachoeiras e escarpamentos. Est\u00e3o nessa regi\u00e3o, por exemplo, o Parque de Vila Velha e o C\u00e2nion do Guartel\u00e1.<\/p>\n<p>O valor tur\u00edstico e cient\u00edfico dessa localidade \u00e9 imensur\u00e1vel. A instala\u00e7\u00e3o dessas quase mil torres de transmiss\u00e3o de energia traria um impacto negativo irrevers\u00edvel. \u201cConsiderando que as torres e os cabos de linha de transmiss\u00e3o de energia podem ser notados de grandes dist\u00e2ncias, a escala de abrang\u00eancia do impacto deixa de ser local para se tornar regional. No que se refere aos impactos cumulativos associados podemos citar: press\u00e3o na atividade tur\u00edstica, press\u00e3o no patrim\u00f4nio paleontol\u00f3gico, interfer\u00eancia na qualidade de vida das pessoas com possibilidade de acidentes el\u00e9tricos, aus\u00eancia de medidas mitigat\u00f3rias e de alternativas locacionais, entre outros\u201d, apontam.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" src=\"http:\/\/faeng.sites.ufms.br\/files\/2015\/05\/raios.jpg\" width=\"801\" height=\"515\" \/><\/p>\n<p><strong>Curiosidade<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 sequer um mapa que mostre a rela\u00e7\u00e3o das escolas mais pr\u00f3ximas ao empreendimento. Essa informa\u00e7\u00e3o seria importante para municiar programas de educa\u00e7\u00e3o ambiental, assim como outras a\u00e7\u00f5es em benef\u00edcio dos estudantes que a empresa poderia preocupar-se em propor.<\/p>\n<p><strong>Engie deveria seguir recomenda\u00e7\u00f5es de conserva\u00e7\u00e3o e respeitar comunidades locais apontadas pelo Banco Mundial<\/strong><\/p>\n<p>Os Estudos de Impacto Ambiental da Engie apontavam que os recursos para a implanta\u00e7\u00e3o dos empreendimentos seriam oriundos de investimento pr\u00f3prio da empresa. Entretanto, a multinacional j\u00e1 estava negociando o financiamento do projeto junto ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econ\u00f4mico e Social (BNDES), cujo contrato de n\u00ba 202006311 foi estabelecido em 30\/03\/2020 com o valor de 1.480.641.000,00.<\/p>\n<p>O BNDES \u00e9 signat\u00e1rio dos Padr\u00f5es de Desenvolvimento sobre Sustentabilidade Socioambiental da\u00a0<em>International Finance Corporation<\/em>\u00a0(IFC), do Grupo Banco Mundial, que estabelecem diretrizes de riscos e impactos socioambientais ao respons\u00e1vel pela implementa\u00e7\u00e3o e opera\u00e7\u00e3o do projeto, no qual devem ser exercidas durante o per\u00edodo de investimento concedido pela IFC. Dessa forma, a Engie deveria ter uma a\u00e7\u00e3o ambiental calcada nas recomenda\u00e7\u00f5es do Banco Mundial, mas n\u00e3o \u00e9 o que vem fazendo.<\/p>\n<p><strong>Quem \u00e9 a Engie?<\/strong><\/p>\n<p>A Engie \u00e9 uma multinacional francesa que est\u00e1 presente no Brasil h\u00e1 mais de 20 anos. A opera\u00e7\u00e3o da empresa no pa\u00eds representa o segundo maior faturamento da multinacional no mundo. At\u00e9 2008, a empresa era chamada de GDF SUEZ. Respons\u00e1vel pela constru\u00e7\u00e3o da Usina Hidrel\u00e9trica de Jirau, no rio Madeira, em Rond\u00f4nia, a Engie foi indicada em 2010 para o \u2018<em>Public Eye Award<\/em>\u2019, um \u201cantipr\u00eamio\u201d atribu\u00eddo todos os anos no F\u00f3rum de Davos, na Su\u00ed\u00e7a, \u00e0 empresa ou organiza\u00e7\u00e3o mais irrespons\u00e1vel social e ambientalmente em todo o mundo.<\/p>\n<p>A empresa foi acusada por organiza\u00e7\u00f5es ambientais de violar as normas de prote\u00e7\u00e3o ambiental e de ignorar os direitos humanos das popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas, amea\u00e7adas pela constru\u00e7\u00e3o da hidrel\u00e9trica.<\/p>\n<p>Em 2012, a Engie retirou US$ 1 bilh\u00e3o de uma usina australiana antes de o imposto sobre o carbono vigorar na Austr\u00e1lia. A empresa francesa transferiu esse montante em dividendos da Austr\u00e1lia e de volta \u00e0s empresas controladoras do Reino Unido. O esquema recebeu o nome de Projeto Salm\u00e3o \u2013 uma refer\u00eancia \u00e0 capacidade do peixe de nadar contra a corrente, exatamente como esses lucros estavam prestes a fazer.<\/p>\n<p>Detalhes intrincados dessas transa\u00e7\u00f5es surgiram no\u00a0<em>Paradise Papers<\/em>, em 2017, um vazamento de 13,4 milh\u00f5es de documentos para o jornal alem\u00e3o Suddeutsche Zeitung e investigado pela equipe\u00a0<em>Four Corners\u00a0<\/em>da ABC em parceria com o Cons\u00f3rcio Internacional de Jornalistas Investigativos.<\/p>\n<p>No ano de 2015, a ag\u00eancia de not\u00edcias\u00a0<em>Reuters<\/em>\u00a0divulgou a abertura de uma investiga\u00e7\u00e3o para apurar poss\u00edveis viola\u00e7\u00f5es das leis anticorrup\u00e7\u00e3o dos EUA e do Brasil envolvendo a Eletrobr\u00e1s, e incluindo a constru\u00e7\u00e3o da usina de Jirau, de responsabilidade da empresa Engie.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/envolverde.cartacapital.com.br\/novas-torres-de-energia-no-parana-podem-gerar-danos-sociais-e-naturais-irreversiveis\/?fbclid=IwAR0ctUFu3nvoc0xT_dREfvWwfvN01INULY3qtyr7zrlOonv4efnOG7BpUJQ\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Original<\/a><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Reinaldo Canto &#8211; Envolverde As linhas devastariam mais de 600 hectares de algumas das \u00faltimas por\u00e7\u00f5es de Floresta com Arauc\u00e1ria e Campos Naturais do Sul do Brasil e impactariam a vida de, aproximadamente, 30 comunidades tradicionais A instala\u00e7\u00e3o de 1.069 torres de transmiss\u00e3o de energia el\u00e9trica que a multinacional francesa Engie quer instalar no&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":30916,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[29],"post_series":[],"class_list":["post-30910","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-geral","tag-desmatamento","entry","has-media"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v25.2 - 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