{"id":31461,"date":"2020-11-09T07:30:34","date_gmt":"2020-11-09T10:30:34","guid":{"rendered":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=31461"},"modified":"2020-10-31T12:02:32","modified_gmt":"2020-10-31T15:02:32","slug":"o-que-e-sooretama-onde-amazonia-e-mata-atlantica-se-encontram","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/o-que-e-sooretama-onde-amazonia-e-mata-atlantica-se-encontram\/","title":{"rendered":"Sooretama &#8211; Onde Amaz\u00f4nia e Mata Atl\u00e2ntica se encontram"},"content":{"rendered":"<div class=\"row no-gutters\">\n<div class=\"col-lg-12 parallax-section full-height article-cover\" data-parallax=\"scroll\" data-image-src=\"https:\/\/imgs.mongabay.com\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2020\/10\/27154343\/2-1200x800.jpg\">\n<div class=\"featured-article-meta\">\n<h1 class=\"title\"><span style=\"font-size: 16px;\">POR <\/span><a style=\"font-size: 16px;\" href=\"https:\/\/brasil.mongabay.com\/by\/leonardo-mercon\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener tag noreferrer\" data-wpel-link=\"internal\">LEONARDO MER\u00c7ON<\/a><span style=\"font-size: 16px;\"> &#8211; Colaborou Suzana Camargo &#8211; em 29 outubro de 2020<\/span><\/h1>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Esp\u00e9cie comum na Amaz\u00f4nia, o pica-pau-de-coleira (<em>Celeus torquatus<\/em>) somente exibe suas cores na Reserva Biol\u00f3gica de Sooretama e em reservas particulares vizinhas. Foto: Leonardo Mer\u00e7on.<\/p>\n<p>As florestas que compunham a chamada Mata do Tabuleiro do Esp\u00edrito Santo, ao norte do Rio Doce, j\u00e1 foram consideradas uma das regi\u00f5es mais ricas em biodiversidade do planeta. Infelizmente, muito j\u00e1 foi perdido devido \u00e0 ocupa\u00e7\u00e3o humana, a polui\u00e7\u00e3o dos rios e o desmatamento desenfreado. Da exuberante vegeta\u00e7\u00e3o que se estendia a perder de vista restam hoje apenas alguns fragmentos, dentre eles a Reserva Biol\u00f3gica de Sooretama.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/floresta_fechada.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone  wp-image-31482\" src=\"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/floresta_fechada.jpg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"386\" srcset=\"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/floresta_fechada.jpg 1751w, https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/floresta_fechada-300x145.jpg 300w, https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/floresta_fechada-1024x494.jpg 1024w, https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/floresta_fechada-768x371.jpg 768w, https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/floresta_fechada-1536x741.jpg 1536w, https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/floresta_fechada-600x290.jpg 600w\" sizes=\"(max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><\/a><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14px;\"><em>\u00c1rea de floresta no interior da Reserva Biol\u00f3gica de Sooretama. Foto: Leonardo Mer\u00e7on<\/em>.<\/span><\/p>\n<p>O nome Sooretama vem da l\u00edngua tupi e significa \u201ccasa dos animais da mata\u201d. A reserva e o complexo florestal do qual ela faz parte s\u00e3o alguns dos \u00faltimos e mais importantes ref\u00fagios de Mata Atl\u00e2ntica do Esp\u00edrito Santo, e o derradeiro reduto, no estado, de esp\u00e9cies ic\u00f4nicas como a on\u00e7a-pintada, o tatu-canastra, a harpia e a anta. Esse \u00e9 o motivo pelo qual o complexo consta na lista da Unesco como Patrim\u00f4nio Natural da Humanidade e uma das \u00e1reas chaves para a preserva\u00e7\u00e3o de aves pela organiza\u00e7\u00e3o Birdlife International.<\/p>\n<p>A Reserva Biol\u00f3gica (Rebio), com 27.800 hectares de \u00e1rea, faz parte de um mosaico florestal que vai do extremo sul da Bahia ao norte do Esp\u00edrito Santo, chamada de \u201cHil\u00e9ia Baiana.\u201d Nela podem-se encontrar, curiosamente, ind\u00edcios da flora e fauna amaz\u00f4nicas em plena Mata Atl\u00e2ntica, apesar dos aproximadamente 1.500 km que as separam.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-187622\" src=\"https:\/\/imgs.mongabay.com\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2020\/10\/27154255\/3-scaled.jpg\" sizes=\"(max-width: 2560px) 100vw, 2560px\" srcset=\"https:\/\/imgs.mongabay.com\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2020\/10\/27154255\/3-scaled.jpg 2560w, https:\/\/imgs.mongabay.com\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2020\/10\/27154255\/3-768x511.jpg 768w, https:\/\/imgs.mongabay.com\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2020\/10\/27154255\/3-1536x1022.jpg 1536w, https:\/\/imgs.mongabay.com\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2020\/10\/27154255\/3-2048x1363.jpg 2048w, https:\/\/imgs.mongabay.com\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2020\/10\/27154255\/3-610x406.jpg 610w\" alt=\"\" width=\"801\" height=\"533\" \/><\/p>\n<div class=\"row no-gutters\">\n<div class=\"col-lg-12 parallax-section full-height article-cover\" data-parallax=\"scroll\" data-image-src=\"https:\/\/imgs.mongabay.com\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2020\/10\/27154343\/2-1200x800.jpg\">\n<div class=\"featured-article-meta\">\n<div class=\"row justify-content-center\">\n<div id=\"main\" class=\"col-lg-8 single\" style=\"text-align: left;\">\n<article id=\"post-187615\" class=\"post-187615 post type-post status-publish format-aside has-post-thumbnail hentry post_format-post-format-aside location-amazonia location-america-do-sul location-america-latina-pt-br location-brasil-pt-br topic-amazonia topic-aves topic-conservacao topic-ecologia topic-especies-ameacadas topic-especies-em-perigo topic-estradas topic-fauna topic-florestas topic-florestas-tropicais topic-mata-atlantica topic-meio-ambiente topic-vida-selvagem byline-leonardo-mercon\">\n<figure id=\"attachment_187622\" class=\"wp-caption alignnone\" style=\"width: 801px;\"><figcaption class=\"wp-caption-text\"><em>A Lagoa do Macuco, vista de cima de um dos mirantes cobertos pela floresta. Foto: Leonardo Mer\u00e7on.\u00a0<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<h3><strong>Vest\u00edgios da Amaz\u00f4nia presentes na Mata Atl\u00e2ntica<\/strong><\/h3>\n<p>No Brasil, as florestas da Amaz\u00f4nia e da Mata Atl\u00e2ntica est\u00e3o separadas pelos biomas Cerrado e Caatinga. Embora isoladas atualmente, in\u00fameras evid\u00eancias indicam que essas duas regi\u00f5es j\u00e1 estiveram ligadas no passado. Registros de paleop\u00f3len (p\u00f3len f\u00f3ssil) e espeleotemas (estalactites e estalagmites) indicam a presen\u00e7a dessas \u00e1reas florestais h\u00e1 cerca de 900 a 20 mil anos onde hoje se encontra a Caatinga.<\/p>\n<p>Segundo a pesquisa do professor do Instituto de Biologia da Universidade Federal da Bahia, Henrique Batalha Filho, existiram\u00a0<a href=\"https:\/\/www.researchgate.net\/publication\/305301507_Processos_Evolutivos_na_Amazonia_e_na_Mata_Atlantica\" rel=\"external noopener noreferrer\" data-wpel-link=\"external\">contatos hist\u00f3ricos entre os dois biomas<\/a>\u00a0em dois momentos distintos. O primeiro, mais antigo, ocorreu durante o Mioceno (entre 5 e 24 milh\u00f5es de anos atr\u00e1s), atrav\u00e9s do Cerrado do Mato Grosso e da transi\u00e7\u00e3o do Chaco no Paraguai e Bol\u00edvia, e foi possivelmente associada com eventos tect\u00f4nicos.<\/p>\n<p>O segundo seria mais recente, durante o Plioceno e Pleistoceno (entre 5 e 11,5 mil anos atr\u00e1s) atrav\u00e9s da Caatinga e do Cerrado no Nordeste do Brasil. Nessa \u00e9poca, esse segundo contato estaria associado \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas do per\u00edodo, que promoveram expans\u00f5es das florestas de galeria para dentro da chamada \u201cdiagonal de \u00e1reas abertas\u201d da Am\u00e9rica do Sul (a faixa formada por Caatinga, Cerrado e Chaco). Esse avan\u00e7o acabou permitindo trocas de esp\u00e9cies entre a Amaz\u00f4nia e a Mata Atl\u00e2ntica.<\/p>\n<figure id=\"attachment_187621\" class=\"wp-caption alignnone\" style=\"width: 801px;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-187621 \" src=\"https:\/\/imgs.mongabay.com\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2020\/10\/27154230\/4-e1603814642147.png\" sizes=\"(max-width: 2610px) 100vw, 2610px\" srcset=\"https:\/\/imgs.mongabay.com\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2020\/10\/27154230\/4-e1603814642147.png 2610w, https:\/\/imgs.mongabay.com\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2020\/10\/27154230\/4-e1603814642147-768x639.png 768w, https:\/\/imgs.mongabay.com\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2020\/10\/27154230\/4-e1603814642147-1536x1278.png 1536w, https:\/\/imgs.mongabay.com\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2020\/10\/27154230\/4-e1603814642147-2048x1704.png 2048w, https:\/\/imgs.mongabay.com\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2020\/10\/27154230\/4-e1603814642147-610x508.png 610w\" alt=\"\" width=\"801\" height=\"666\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\">Mapa mostra onde foram as poss\u00edveis liga\u00e7\u00f5es entre a Amaz\u00f4nia e a Mata Atl\u00e2ntica no passado, sendo a liga\u00e7\u00e3o ocorrida h\u00e1 milh\u00f5es de anos indicada pela seta escura de baixo, e a mais recente (milhares de anos), indicada pela seta escura de cima. Fonte: Henrique Batalha Filho.<\/figcaption><\/figure>\n<h3><strong>Quais s\u00e3o as esp\u00e9cies amaz\u00f4nicas encontradas em Sooretama\u00a0<\/strong><\/h3>\n<p>Muitas das esp\u00e9cies encontradas na Reserva Biol\u00f3gica de Sooretama\u00a0 mantiveram-se como as mesmas observadas na Amaz\u00f4nia. Uma delas \u00e9 a tartaruga-de-patas-malhadas (<em>Rhinoclemmys punctularia)<\/em>. At\u00e9 ent\u00e3o, acreditava-se que o g\u00eanero s\u00f3 era encontrado nas Am\u00e9ricas Central e do Sul \u2014\u00a0 e nesta, apenas na Amaz\u00f4nia. Mas ela pode ser vista tamb\u00e9m em Sooretama.<\/p>\n<p>Outro exemplo \u00e9 o surucu\u00e1-de-coleira\u00a0<em>(Trogon collaris)<\/em>, uma ave amaz\u00f4nica que habita esse pedacinho de Mata Atl\u00e2ntica no norte do Esp\u00edrito Santo e no sul da Bahia. No mapa de ocorr\u00eancia, ela existe em praticamente toda a Amaz\u00f4nia. Al\u00e9m dela, outros p\u00e1ssaros amaz\u00f4nicos podem ser vistos em Sooretama, como o flautim-marrom (<em>Schiffornis turdina<\/em>), o catatau (<em>Campylorhynchus turdinus<\/em>), o tururim (<i>Crypturellus soui<\/i>) e a maior ave de rapina do Brasil, a harpia ou gavi\u00e3o-real\u00a0<em>(Harpia harpyja).<\/em><\/p>\n<figure id=\"attachment_187620\" class=\"wp-caption alignnone\" style=\"width: 800px;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-187620\" src=\"https:\/\/imgs.mongabay.com\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2020\/10\/27154220\/5-scaled.jpg\" sizes=\"(max-width: 2560px) 100vw, 2560px\" srcset=\"https:\/\/imgs.mongabay.com\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2020\/10\/27154220\/5-scaled.jpg 2560w, https:\/\/imgs.mongabay.com\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2020\/10\/27154220\/5-768x512.jpg 768w, https:\/\/imgs.mongabay.com\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2020\/10\/27154220\/5-1200x800.jpg 1200w, https:\/\/imgs.mongabay.com\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2020\/10\/27154220\/5-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/imgs.mongabay.com\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2020\/10\/27154220\/5-2048x1365.jpg 2048w, https:\/\/imgs.mongabay.com\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2020\/10\/27154220\/5-610x407.jpg 610w\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"533\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\"><span style=\"font-size: 14px;\"><em>A tartaruga-de-patas-malhadas (Rhinoclemmys punctularia) \u00e9 uma esp\u00e9cie que existe predominantemente na Amaz\u00f4nia e em alguns dos pontos mais preservados da Mata Atl\u00e2ntica. Foto: Leonardo Mer\u00e7on.<\/p>\n<p><\/em><\/span><\/figcaption><\/figure>\n<figure id=\"attachment_187619\" class=\"wp-caption alignnone\" style=\"width: 800px;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-187619\" src=\"https:\/\/imgs.mongabay.com\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2020\/10\/27154155\/6-scaled.jpg\" sizes=\"(max-width: 2560px) 100vw, 2560px\" srcset=\"https:\/\/imgs.mongabay.com\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2020\/10\/27154155\/6-scaled.jpg 2560w, https:\/\/imgs.mongabay.com\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2020\/10\/27154155\/6-768x512.jpg 768w, https:\/\/imgs.mongabay.com\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2020\/10\/27154155\/6-1200x800.jpg 1200w, https:\/\/imgs.mongabay.com\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2020\/10\/27154155\/6-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/imgs.mongabay.com\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2020\/10\/27154155\/6-2048x1366.jpg 2048w, https:\/\/imgs.mongabay.com\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2020\/10\/27154155\/6-610x407.jpg 610w\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"533\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\"><span style=\"font-size: 14px;\"><em>O surucu\u00e1-de-coleira (Trogon collaris) geralmente faz seu ninho em buracos de cupinzeiros ou de \u00e1rvores. \u00c9 predominantemente amaz\u00f4nico, mas tamb\u00e9m pode ser encontrado na Mata de Tabuleiro do Esp\u00edrito Santo. Foto: Leonardo Mer\u00e7on.<\/em><\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>Outras esp\u00e9cies, por sua vez, sofreram com a especia\u00e7\u00e3o \u2014 processo evolutivo pelo qual as esp\u00e9cies vivas se formam \u2014, devido aos milhares ou milh\u00f5es de anos que as separaram geograficamente. De acordo com Thiago Silva-Soares, pesquisador do Projeto Herpeto Capixaba, que estuda r\u00e9pteis e anf\u00edbios da fauna brasileira, o processo da especia\u00e7\u00e3o pode ser uma transforma\u00e7\u00e3o gradual de uma esp\u00e9cie em outra ou pela divis\u00e3o de uma esp\u00e9cie em duas.<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 uma barreira f\u00edsica entre elas \u2013 no caso, a diagonal seca [formada por Caatinga, Cerrado e Chaco], que impede que as popula\u00e7\u00f5es se conectem. Em algum momento v\u00e3o estar t\u00e3o diferentes que n\u00e3o v\u00e3o conseguir se intercruzar, seja por serem incompat\u00edveis ou n\u00e3o mais se reconhecerem como mesma esp\u00e9cie\u201d, explica.<\/p>\n<p>Um poss\u00edvel exemplo de especia\u00e7\u00e3o \u00e9 o mutum-do-sudeste (<em>Crax<\/em>\u00a0<em>blumenbachii<\/em>). Existem diversas esp\u00e9cies de mutuns distribu\u00eddas pelo Brasil, quase todas nativas da Amaz\u00f4nia. Por\u00e9m o mutum-do-sudeste, tamb\u00e9m conhecido na regi\u00e3o como mutum-de-bico-vermelho, \u00e9 end\u00eamico da Mata Atl\u00e2ntica, ou seja, ele s\u00f3 ocorre por l\u00e1. Os poucos exemplares do animal t\u00eam a sua \u00e1rea de ocorr\u00eancia restrita a pequenas matas protegidas do sul da Bahia e do norte do Esp\u00edrito Santo. Sua maior popula\u00e7\u00e3o encontra-se no complexo formado pela Rebio de Sooretama, a Reserva Natural Vale e reservas particulares menores do entorno, como Fazenda Cupido e Ref\u00fagio. Estima-se que hoje cerca de 500 indiv\u00edduos na natureza.<\/p>\n<p>A esp\u00e9cie, s\u00edmbolo da import\u00e2ncia da preserva\u00e7\u00e3o do local, s\u00f3 n\u00e3o foi extinta devido a esses remanescentes em meio \u00e0 t\u00e3o degradada Mata Atl\u00e2ntica. Animais como esses s\u00e3o importantes tanto por seu valor biol\u00f3gico como para a economia local. Com frequ\u00eancia, as \u00e1reas particulares preservadas, vizinhas \u00e0 reserva de Sooretama, recebem observadores de aves, que chegam ali, de muito longe, para ver de perto essas raridades das florestas brasileiras.<\/p>\n<figure id=\"attachment_187625\" class=\"wp-caption alignnone\" style=\"width: 800px;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-187625\" src=\"https:\/\/imgs.mongabay.com\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2020\/10\/27154404\/1-scaled.jpg\" sizes=\"(max-width: 2560px) 100vw, 2560px\" srcset=\"https:\/\/imgs.mongabay.com\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2020\/10\/27154404\/1-scaled.jpg 2560w, https:\/\/imgs.mongabay.com\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2020\/10\/27154404\/1-768x513.jpg 768w, https:\/\/imgs.mongabay.com\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2020\/10\/27154404\/1-1200x800.jpg 1200w, https:\/\/imgs.mongabay.com\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2020\/10\/27154404\/1-1536x1025.jpg 1536w, https:\/\/imgs.mongabay.com\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2020\/10\/27154404\/1-2048x1367.jpg 2048w, https:\/\/imgs.mongabay.com\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2020\/10\/27154404\/1-610x407.jpg 610w\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"534\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\"><span style=\"font-size: 14px;\"><em>Existem cerca de 500 exemplares de mutum-do-sudeste (Crax blumenbachii) na natureza, todos restritos \u00e0s matas entre o norte do Esp\u00edrito Santo e o sul da Bahia. Foto: Leonardo Mer\u00e7on.<\/em><\/span><\/figcaption><\/figure>\n<h3><strong>Amea\u00e7a: uma estrada no meio do caminho<br \/>\n<\/strong><\/h3>\n<p>Apesar do aumento consider\u00e1vel na \u00faltima d\u00e9cada dos registros de animais raros, a Reserva Biol\u00f3gica de Sooretama sofre com a proximidade a centros populacionais e estradas, rota de escoamento de produtos da regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Estima-se que mais de 20 mil animais silvestres sejam atropelados por ano no trecho de aproximadamente 25 km na BR-101, que corta a reserva e seu entorno. Ao todo j\u00e1 foram contabilizadas cerca de 150 esp\u00e9cies diferentes de vertebrados atropelados, entre anf\u00edbios, r\u00e9pteis, aves e mam\u00edferos. Muitas delas est\u00e3o amea\u00e7adas de extin\u00e7\u00e3o, como a on\u00e7a-pintada, a on\u00e7a-parda e a anta.<\/p>\n<p>Um caso que chama a aten\u00e7\u00e3o \u00e9 o dos morcegos. A regi\u00e3o da reserva registra uma grande diversidade deles, com cerca de 70 esp\u00e9cies identificadas, sendo que mais de 60% dessas esp\u00e9cies comprovadamente j\u00e1 foram afetadas pelos atropelamentos. Infelizmente, at\u00e9 uma nova esp\u00e9cie foi descrita, pela primeira vez para a ci\u00eancia, atrav\u00e9s de um indiv\u00edduo atropelado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_187618\" class=\"wp-caption alignnone\" style=\"width: 800px;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-187618\" src=\"https:\/\/imgs.mongabay.com\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2020\/10\/27154137\/7-scaled.jpg\" sizes=\"(max-width: 2560px) 100vw, 2560px\" srcset=\"https:\/\/imgs.mongabay.com\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2020\/10\/27154137\/7-scaled.jpg 2560w, https:\/\/imgs.mongabay.com\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2020\/10\/27154137\/7-768x432.jpg 768w, https:\/\/imgs.mongabay.com\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2020\/10\/27154137\/7-1536x864.jpg 1536w, https:\/\/imgs.mongabay.com\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2020\/10\/27154137\/7-2048x1152.jpg 2048w, https:\/\/imgs.mongabay.com\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2020\/10\/27154137\/7-610x343.jpg 610w\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"450\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\"><span style=\"font-size: 14px;\"><em>A BR-101, que corta a Reserva Biol\u00f3gica de Sooretama, \u00e9 a principal via de conex\u00f5 entre o Esp\u00edrito Santo e o sul da Bahia. Foto: Leonardo Mer\u00e7on.<br \/>\n<\/em><\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>Para Aureo Banhos, professor do Projeto de Ecologia de Estradas da Universidade Federal do Esp\u00edrito Santo (UFES), a maior preocupa\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o a essa \u00e1rea protegida \u00e9 justamente a possibilidade da amplia\u00e7\u00e3o da malha rodovi\u00e1ria. \u201cO impacto da BR-101 \u00e9 cr\u00edtico n\u00e3o s\u00f3 em rela\u00e7\u00e3o aos atropelamentos de fauna silvestre, mas tamb\u00e9m como um vetor de ocupa\u00e7\u00e3o do entorno, intensificando o uso do solo, colocando press\u00e3o sobre a floresta, gerando desmatamento dos fragmentos pr\u00f3ximos \u00e0 reserva, bem como a competi\u00e7\u00e3o pelo uso dos recursos h\u00eddricos\u201d, alerta. \u201cA facilidade de acesso e o aumento populacional trazem tamb\u00e9m outra grave amea\u00e7a para a fauna local: a ca\u00e7a comercial\u201d.<\/p>\n<p>A\u00e7\u00f5es criminosas, praticadas por indiv\u00edduos equipados com tecnologia de ponta, foram captadas por c\u00e2meras de monitoramento de fauna do projeto da universidade.<\/p>\n<p>Junto com o Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal (MPF), a equipe do Projeto de Ecologia de Estradas busca medidas para minimizar o impacto da rodovia. \u201cEla foi de certa forma um mau legado, inserida naquele cen\u00e1rio \u00e0 revelia da legisla\u00e7\u00e3o ambiental na \u00e9poca da ditadura, para o qual n\u00e3o havia planejamento ou estudos de impacto ambiental\u201d, afirma Banhos. \u201cNa \u00e9poca, a reserva j\u00e1 existia h\u00e1 ao menos 30 anos. Resta saber qual ser\u00e1 o futuro da Rebio em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 estrada\u201d.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da colabora\u00e7\u00e3o com o MPF, h\u00e1 outra a\u00e7\u00e3o sendo realizada com estudantes de escolas locais. O Projeto Curupira, alus\u00e3o \u00e0 lenda do personagem que \u00e9 o protetor das florestas, quer transformar os jovens em defensores da mata. Ao conhecerem melhor a regi\u00e3o onde habitam, eles vivenciam uma mudan\u00e7a na percep\u00e7\u00e3o sobre a floresta. Mas o trabalho de conscientiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o termina com essa gera\u00e7\u00e3o. Moradores mais antigos do entorno tamb\u00e9m t\u00eam a chance de conhecerem um pouco mais sobre a diversidade da regi\u00e3o e as quest\u00f5es ambientais ao seu redor.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_187617\" class=\"wp-caption alignnone\" style=\"width: 800px;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-187617\" src=\"https:\/\/imgs.mongabay.com\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2020\/10\/27154115\/9-scaled.jpg\" sizes=\"(max-width: 2560px) 100vw, 2560px\" srcset=\"https:\/\/imgs.mongabay.com\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2020\/10\/27154115\/9-scaled.jpg 2560w, https:\/\/imgs.mongabay.com\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2020\/10\/27154115\/9-768x513.jpg 768w, https:\/\/imgs.mongabay.com\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2020\/10\/27154115\/9-1200x800.jpg 1200w, https:\/\/imgs.mongabay.com\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2020\/10\/27154115\/9-1536x1025.jpg 1536w, https:\/\/imgs.mongabay.com\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2020\/10\/27154115\/9-2048x1367.jpg 2048w, https:\/\/imgs.mongabay.com\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2020\/10\/27154115\/9-610x407.jpg 610w\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"534\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\"><span style=\"font-size: 14px;\"><em>Amplia\u00e7\u00e3o da rodovia pode aumentar ainda mais o n\u00famero de atropelamentos de animais na regi\u00e3o. Foto: Leonardo Mer\u00e7on.<\/em><\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/article>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>POR LEONARDO MER\u00c7ON &#8211; Colaborou Suzana Camargo &#8211; em 29 outubro de 2020 Esp\u00e9cie comum na Amaz\u00f4nia, o pica-pau-de-coleira (Celeus torquatus) somente exibe suas cores na Reserva Biol\u00f3gica de Sooretama e em reservas particulares vizinhas. Foto: Leonardo Mer\u00e7on. 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