{"id":32771,"date":"2021-05-12T11:00:56","date_gmt":"2021-05-12T14:00:56","guid":{"rendered":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=32771"},"modified":"2021-05-11T13:23:28","modified_gmt":"2021-05-11T16:23:28","slug":"sedimentos-marinhos-explicam-como-parte-do-nordeste-se-tornou-semiarida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/sedimentos-marinhos-explicam-como-parte-do-nordeste-se-tornou-semiarida\/","title":{"rendered":"Sedimentos marinhos explicam como parte do Nordeste se tornou semi\u00e1rida"},"content":{"rendered":"<p>Por <b>Jos\u00e9 Tadeu Arantes &#8211; <\/b>Agencia FAPESP &#8211; 11 de maio de 2021<\/p>\n<p>As chuvas associadas \u00e0 chamada Zona de Converg\u00eancia Intertropical impactam a seguran\u00e7a alimentar e h\u00eddrica de aproximadamente 1 bilh\u00e3o de pessoas ao redor do planeta.<\/p>\n<p>Aproximadamente 11% da popula\u00e7\u00e3o do Brasil, concentrada no Rio Grande do Norte, Cear\u00e1, Piau\u00ed e Maranh\u00e3o, faz parte desse grupo.<\/p>\n<p>Esses Estados possuem clima semi\u00e1rido em grandes extens\u00f5es e aproximadamente metade de toda a precipita\u00e7\u00e3o anual ocorre em apenas dois meses do ano: mar\u00e7o e abril.<\/p>\n<p>Tais chuvas fazem parte do cintur\u00e3o tropical de precipita\u00e7\u00e3o quando este atinge sua posi\u00e7\u00e3o mais ao sul, sobre o norte do Nordeste brasileiro.<\/p>\n<p>Durante o restante do ano, o cintur\u00e3o desloca-se mais ao norte, sendo respons\u00e1vel pelo pico de precipita\u00e7\u00e3o na regi\u00e3o costeira da Venezuela, entre julho e agosto.<\/p>\n<p>Projetar o comportamento futuro das chuvas em regi\u00f5es semi\u00e1ridas como a citada \u00e9 fundamental para que a sociedade possa se antecipar a poss\u00edveis modifica\u00e7\u00f5es nos padr\u00f5es de precipita\u00e7\u00e3o, em fun\u00e7\u00e3o da mudan\u00e7a clim\u00e1tica em curso.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/servicosweb.cnpq.br\/wspessoa\/servletrecuperafoto?tipo=1&amp;id=K4769169D5\" alt=\"Foto do(a) Cristiano Mazur Chiessi\" \/><\/p>\n<p><em><span style=\"font-size: 14px;\"><strong><a href=\"https:\/\/bv.fapesp.br\/pt\/pesquisador\/34247\/cristiano-mazur-chiess\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Cristiano Chiessi<\/a><\/strong> &#8211; Foto: Curr\u00edculo Lattes<\/span><\/em><\/p>\n<p>Um estudo realizado pelo professor da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP)\u00a0<strong><a href=\"https:\/\/bv.fapesp.br\/pt\/pesquisador\/34247\/cristiano-mazur-chiess\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Cristiano Chiessi<\/a><\/strong>\u00a0e colaboradores mostrou que a precipita\u00e7\u00e3o sobre o norte do Nordeste do Brasil diminuiu sistematicamente durante os \u00faltimos 5 mil anos, contradizendo um importante paradigma da paleoclimatologia.<\/p>\n<p>Esta revis\u00e3o do que ocorreu no passado ajuda a compor um cen\u00e1rio mais realista sobre o que poder\u00e1 ocorrer no futuro.<\/p>\n<p><strong><a href=\"https:\/\/agupubs.onlinelibrary.wiley.com\/doi\/epdf\/10.1029\/2020PA003936\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Artigo<\/a><\/strong>\u00a0a respeito est\u00e1 dispon\u00edvel no peri\u00f3dico\u00a0<i>Paleoceanography and Paleoclimatology<\/i>.<\/p>\n<p>O trabalho contou com\u00a0<strong><a href=\"https:\/\/bv.fapesp.br\/pt\/auxilios\/103796\/perspectivas-preteritas-sobre-limiares-criticos-do-sistema-climatico-a-floresta-amazonica-e-a-celula\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">apoio<\/a><\/strong>\u00a0da FAPESP.<\/p>\n<p>\u201cSegundo o paradigma vigente, o cintur\u00e3o tropical de precipita\u00e7\u00e3o teria se deslocado para o sul no decorrer dos \u00faltimos 5 mil anos.<\/p>\n<p>Nossa pesquisa sugere que, em vez disso, o que aconteceu foi que o cintur\u00e3o sofreu uma contra\u00e7\u00e3o no seu intervalo latitudinal de oscila\u00e7\u00e3o. Isto \u00e9, passou a oscilar dentro de uma faixa mais estreita\u201d, diz Chiessi \u00e0\u00a0<strong>Ag\u00eancia FAPESP<\/strong>.<\/p>\n<p>Informa\u00e7\u00f5es valiosas a respeito das respostas do sistema clim\u00e1tico a diferentes condi\u00e7\u00f5es est\u00e3o registradas em sedimentos geol\u00f3gicos depositados no fundo dos oceanos.<\/p>\n<p>No estudo em pauta, foram utilizados tr\u00eas indicadores independentes de precipita\u00e7\u00e3o, por meio de sedimentos coletados ao largo da desembocadura do rio Parna\u00edba, na divisa dos Estados do Piau\u00ed e do Maranh\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cAnalisamos a raz\u00e3o entre as concentra\u00e7\u00f5es dos elementos qu\u00edmicos tit\u00e2nio e c\u00e1lcio \u2013 o tit\u00e2nio oriundo da eros\u00e3o das rochas continentais e o c\u00e1lcio proveniente das conchas dos organismos marinhos.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, levantamos a taxa de acumula\u00e7\u00e3o de sedimentos continentais no fundo do oceano e a composi\u00e7\u00e3o dos is\u00f3topos de hidrog\u00eanio nas ceras de plantas continentais encontradas nos sedimentos marinhos.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone  wp-image-30710\" src=\"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/rios_voadores.jpg\" alt=\"\" width=\"801\" height=\"449\" srcset=\"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/rios_voadores.jpg 660w, https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/rios_voadores-300x169.jpg 300w, https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/rios_voadores-600x337.jpg 600w\" sizes=\"(max-width: 801px) 100vw, 801px\" \/><\/p>\n<p>Esses tr\u00eas conjuntos de dados, juntamente com a an\u00e1lise de resultados de um modelo clim\u00e1tico num\u00e9rico, apontam para a contra\u00e7\u00e3o do cintur\u00e3o tropical de precipita\u00e7\u00e3o durante os \u00faltimos 5 mil anos, em vez do sugerido deslocamento para o sul\u201d, informa Chiessi.<\/p>\n<p>O estudo mostrou ainda que a distribui\u00e7\u00e3o das temperaturas das superf\u00edcies dos dois hemisf\u00e9rios \u00e9 fundamental no controle da posi\u00e7\u00e3o do cintur\u00e3o tropical de precipita\u00e7\u00e3o, diferentemente do proposto no paradigma vigente.<\/p>\n<p>\u201cDe acordo com esse paradigma, a migra\u00e7\u00e3o do cintur\u00e3o para o sul seria decorrente do aumento gradual da radia\u00e7\u00e3o recebida do Sol pelo hemisf\u00e9rio Sul durante o ver\u00e3o.<\/p>\n<p>Como no hemisf\u00e9rio Norte a situa\u00e7\u00e3o inversa ocorreu, tal cen\u00e1rio teria imposto dificuldades crescentes ao avan\u00e7o do cintur\u00e3o para o norte.<\/p>\n<p>No entanto, duas fragilidades desse modelo chamaram nossa aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, o fato de que a posi\u00e7\u00e3o do cintur\u00e3o deveria ser determinada pela distribui\u00e7\u00e3o das temperaturas das superf\u00edcies nos dois hemisf\u00e9rios, que n\u00e3o necessariamente respondem de forma linear \u00e0 distribui\u00e7\u00e3o da radia\u00e7\u00e3o recebida do Sol.<\/p>\n<p>Em segundo lugar, as evid\u00eancias que davam suporte ao paradigma estavam localizadas quase que exclusivamente no hemisf\u00e9rio Norte, faltando a contraprova austral do suposto deslocamento\u201d, explica Chiessi.<\/p>\n<p>Segundo o pesquisador, apesar de a radia\u00e7\u00e3o recebida do Sol ter sofrido as mudan\u00e7as descritas, as respostas dos dois hemisf\u00e9rios ao fen\u00f4meno foram distintas.<\/p>\n<p>Isto devido \u00e0 diferen\u00e7a na \u00e1rea coberta por continentes e oceanos nos dois hemisf\u00e9rios, uma vez que os continentes respondem mais rapidamente do que os oceanos a mudan\u00e7as na radia\u00e7\u00e3o solar.<\/p>\n<p>\u201cTorna-se, portanto, necess\u00e1rio revisar o paradigma que influenciou a paleoclimatologia por duas d\u00e9cadas\u201d, afirma Chiessi.<\/p>\n<p>At\u00e9 o fim deste s\u00e9culo, os modelos clim\u00e1ticos num\u00e9ricos sugerem uma contra\u00e7\u00e3o do intervalo latitudinal de oscila\u00e7\u00e3o do cintur\u00e3o tropical de precipita\u00e7\u00e3o, o que diminuiria ainda mais as chuvas na por\u00e7\u00e3o norte do Nordeste do Brasil, com consequ\u00eancias socioambientais potencialmente severas.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, caso a grande circula\u00e7\u00e3o das \u00e1guas do Atl\u00e2ntico se enfraque\u00e7a substancialmente, transpondo um limiar cr\u00edtico, como prev\u00ea outro estudo de Chiessi, o Atl\u00e2ntico Sul dever\u00e1 aquecer mais do que o Atl\u00e2ntico Norte, for\u00e7ando o cintur\u00e3o para o sul. \u201cIsso traria consequ\u00eancias bastante negativas em diversas partes do planeta, mas, no \u00e2mbito regional, evitaria uma redu\u00e7\u00e3o ainda maior das chuvas na faixa norte do Nordeste\u201d, comenta o pesquisador (<i>leia mais em:\u00a0<strong><a href=\"https:\/\/agencia.fapesp.br\/23015\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">agencia.fapesp.br\/23015\/<\/a><\/strong><\/i>).<\/p>\n<p>O artigo\u00a0<i>Mid- to Late Holocene Contraction of the Intertropical Convergence Zone Over Northeastern South America<\/i>\u00a0pode ser acessado em\u00a0<strong><a href=\"https:\/\/agupubs.onlinelibrary.wiley.com\/doi\/10.1029\/2020PA003936\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/agupubs.onlinelibrary.wiley.com\/doi\/10.1029\/2020PA003936<\/a><\/strong>.<\/p>\n<p><span class=\"wpex-responsive-media\"><iframe loading=\"lazy\" title=\"Sedimentos marinhos ajudam a prever o futuro das chuvas em regi\u00f5es de clima semi\u00e1rido no Brasil\" width=\"980\" height=\"551\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/EWIJJ3RECa0?feature=oembed\"  allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Jos\u00e9 Tadeu Arantes &#8211; Agencia FAPESP &#8211; 11 de maio de 2021 As chuvas associadas \u00e0 chamada Zona de 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