{"id":33424,"date":"2021-08-27T11:00:05","date_gmt":"2021-08-27T14:00:05","guid":{"rendered":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=33424"},"modified":"2021-08-26T16:08:25","modified_gmt":"2021-08-26T19:08:25","slug":"parece-floresta-mas-nao-e-filme-escancara-o-que-e-a-producao-de-monocultura-de-eucalipto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/parece-floresta-mas-nao-e-filme-escancara-o-que-e-a-producao-de-monocultura-de-eucalipto\/","title":{"rendered":"Parece floresta, mas n\u00e3o \u00e9: Filme escancara o que \u00e9 a produ\u00e7\u00e3o de monocultura de eucalipto"},"content":{"rendered":"<p class=\"mb-5\">Por <a class=\"text-uppercase\" href=\"https:\/\/www.oeco.org.br\/author\/marcio\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-wpel-link=\"internal\">Marcio Isensee e S\u00e1<\/a> &#8211; <a href=\"https:\/\/www.oeco.org.br\/reportagens\/parece-floresta-mas-nao-e-filme-escancara-o-que-e-a-producao-de-monocultura-de-eucalipto\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Eco<\/a> &#8211; 23 de agosto de 2021 &#8211;\u00a0<span style=\"font-size: 14px;\"><em>Document\u00e1rio MATA acompanha a vida de pessoas impactadas pelo deserto verde da produ\u00e7\u00e3o de eucaliptos no extremo sul da Bahia. &#8211; Document\u00e1rio MATA \u00e9 dirigido por F\u00e1bio Nascimento e Ingrid Fadnes. Foto: F\u00e1bio Nascimento\/Divulga\u00e7\u00e3o.<\/em><\/span><\/p>\n<p>S\u00e3o 79 minutos de filme e somente 4 personagens. Parece pouco para mostrar a complexa rela\u00e7\u00e3o entre comunidades locais e as gigantes planta\u00e7\u00f5es de eucalipto no extremo sul da Bahia, mas ao final do document\u00e1rio \u00e9 poss\u00edvel concluir que, embora tente-se com ret\u00f3ricas narrativas definir\u00a0<em>aquilo<\/em>\u00a0como produ\u00e7\u00e3o sustent\u00e1vel, os impactos ambientais e sociais s\u00e3o indiscut\u00edveis.<\/p>\n<p>Conversamos com Ingrid Fadnes, diretora do document\u00e1rio\u00a0<a href=\"https:\/\/matafilme.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow external noopener noreferrer\" data-wpel-link=\"external\">MATA<\/a>, que estreia no Brasil na\u00a0<a href=\"https:\/\/ecofalante.org.br\/filme\/mata\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow external noopener noreferrer\" data-wpel-link=\"external\">Mostra Ecofalante de Cinema\u00a0<\/a>e ficar\u00e1 dispon\u00edvel para exibi\u00e7\u00e3o online entre os dias 24\/08 e 05\/09. Neste bate-papo, Ingrid nos contou como surgiu a ideia do filme, que pretendia ser um pequeno curta atrelado ao projeto em que estava envolvida, mas acabou consumindo cinco anos de muita imers\u00e3o e trabalho. Para ela, o filme abre um debate que muitas vezes negligenciamos, que \u00e9 o impacto da ind\u00fastria da celulose nos ecossistemas. Norueguesa, mas com um portunhol afiado, Ingrid discorre sobre os investimentos que o capital de seu pa\u00eds faz nesse setor e a expans\u00e3o que est\u00e1 ocorrendo nos pa\u00edses latino-americanos.<\/p>\n<p>\u201cQuando voc\u00ea v\u00ea \u00e1rvores, voc\u00ea acha que \u00e9 uma floresta, e o discurso das empresas \u00e9 que s\u00e3o florestas \u201cplantadas\u201d. Ent\u00e3o a palavra\u00a0<em>floresta\u00a0<\/em>\u00e9 uma palavra equivocada nesse discurso, n\u00e3o deveria chamar de floresta porque n\u00e3o \u00e9\u201d, diz Ingrid Fadnes.<\/p>\n<h4 class=\"jetpack-video-wrapper\">Leia a entrevista na \u00edntegra:<\/h4>\n<div>\n<h4><strong>((o))eco: Ingrid, eu queria que voc\u00ea contasse um pouquinho da hist\u00f3ria do filme: como \u00e9 que ele surgiu, por que voc\u00eas resolveram fazer esse projeto, onde \u00e9 que ele est\u00e1 inserido?<\/strong><\/h4>\n<p><strong>Ingrid Fadnes:<\/strong>\u00a0[O projeto] surgiu em 2015 quando eu fui para o extremo sul da Bahia para trabalhar com o Movimento dos Sem Terra (MST) e eu estava com um grupo da Noruega que se chama Brigadas de Solidariedade, que \u00e9 uma colabora\u00e7\u00e3o entre uma organiza\u00e7\u00e3o norueguesa [Comit\u00ea] com o MST, que existe desde muitos anos atr\u00e1s, eu acho que h\u00e1 20 ou 25 anos. E eu fui l\u00e1 com esse grupo da Noruega e o MST colocou a gente justamente ali por conta do eucalipto e pelos investimentos da Noruega nas empresas de eucalipto nesta regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o a gente foi l\u00e1 em setembro de 2015 e come\u00e7amos fazer umas pesquisas sobre as monoculturas de eucalipto na regi\u00e3o e sobre a hist\u00f3ria do eucalipto no Brasil, que tem muito a ver com o capital noruegu\u00eas. E eu conheci o F\u00e1bio Nascimento em maio de 2015, no acampamento Terra Livre, em Bras\u00edlia. Ent\u00e3o quando eu estava l\u00e1 eu convidei o F\u00e1bio, porque ele \u00e9 um fot\u00f3grafo excelente. Ele tem muita experi\u00eancia no trabalho com document\u00e1rio e eu falei para ele que era super interessante a situa\u00e7\u00e3o no extremo sul da Bahia, tanto visualmente: como \u00e9 que \u00e9 plantado, como as planta\u00e7\u00f5es v\u00e3o ocupando os territ\u00f3rios, como se confunde a floresta natural nativa com uma floresta plantada, e tamb\u00e9m no discurso. Essa confus\u00e3o surge a partir do discurso.<\/p>\n<p>E o F\u00e1bio veio comigo, acho que foi dezembro de 2015, quando eu estava acabando o trabalho e a gente come\u00e7ou a filmar. A gente filmou muito com o drone e ficamos realmente apaixonados pelas imagens e de observar as planta\u00e7\u00f5es de cima, como um passarinho, de olhar como \u00e9 que a terra \u00e9 alterada pelos seres humanos, o que acontece com os rios e lagoas.<\/p>\n<p>A gente come\u00e7ou a procurar o que pod\u00edamos no\u00a0<em>Google Maps<\/em>\u00a0para identificar onde \u00e9 que tem \u00e1gua nessa regi\u00e3o e a gente ia l\u00e1 para filmar e nunca achava a \u00e1gua. Era tudo seco e nesse ano estava bem seco. Em 2015 estava super seco no extremo sul da Bahia, havia muitas queimadas dentro das planta\u00e7\u00f5es, fora das planta\u00e7\u00f5es, nos Parques Nacionais. Ent\u00e3o a gente come\u00e7ou a registrar tudo e ach\u00e1vamos que \u00edamos fazer um filme curto, acompanhando um trabalho da organiza\u00e7\u00e3o da Noruega que fez, nesse tempo, informes sobre o eucalipto no extremo sul do Brasil e o capital noruegu\u00eas. Ent\u00e3o a gente lan\u00e7ou esses informes na Noruega e descobrimos que tinha muito mais que um filme curto no material que a gente estava fazendo. A\u00ed tomamos a decis\u00e3o de continuar. Tamb\u00e9m porque a gente come\u00e7ou a identificar que se fala realmente pouco sobre as planta\u00e7\u00f5es de \u00e1rvores e que aparecem muito nos discursos das mudan\u00e7a clim\u00e1tica, que plantar floresta \u00e9 bom para o meio ambiente, para a captura do carbono e tudo isso. Ent\u00e3o a gente queria ir mais fundo, ouvir esse discurso, ouvir as pessoas que moram no extremo sul: como \u00e9 morar do lado dessas planta\u00e7\u00f5es, que s\u00e3o gigantes. Ent\u00e3o assim surgiu a ideia e cinco anos depois a gente terminou. A gente n\u00e3o tinha pensado que ia trabalhar tanto tempo.<\/p>\n<h4><strong>Uma coisa que me chamou a aten\u00e7\u00e3o \u00e9 que, de uma forma geral, se voc\u00ea olhar para filmes de tem\u00e1tica socioambiental, eles est\u00e3o sempre buscando quest\u00f5es de cadeia produtiva, os respons\u00e1veis, o certo e o errado e por a\u00ed vai. Mas o filme de voc\u00eas n\u00e3o, ele vai por outro caminho.<\/strong>\u00a0<strong>Queria que voc\u00ea falasse um pouquinho sobre essa escolha, por que n\u00e3o apontar para a cadeia de produ\u00e7\u00e3o e falar de uma forma menos direta?<\/strong><\/h4>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-113289 jetpack-lazy-image shadow jetpack-lazy-image--handled\" src=\"https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/mata-film-still-05-1024x576.png\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" srcset=\"https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/mata-film-still-05-1024x576.png 1024w, https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/mata-film-still-05-300x169.png 300w, https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/mata-film-still-05-1536x864.png 1536w, https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/mata-film-still-05-2048x1152.png 2048w, https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/mata-film-still-05-640x360.png 640w, https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/mata-film-still-05-1320x743.png 1320w, https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/mata-film-still-05-150x84.png 150w\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"450\" data-lazy-loaded=\"1\" \/><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14px;\"><em>Etevaldo Pereira. Foto: F\u00e1bio Nascimento\/Divulga\u00e7\u00e3o.<\/em><\/span><\/p>\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"alignright size-large my-5 my-md-2\"><figcaption class=\"text-right text-muted font-italic small mt-2\"><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p>Enquanto faz\u00edamos o filme, uma refer\u00eancia muito importante para n\u00f3s, a primeira conex\u00e3o entre F\u00e1bio e eu, foi\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Patricio_Guzm%C3%A1n\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow external noopener noreferrer\" data-wpel-link=\"external\">Patricio Guzm\u00e1n<\/a>, que \u00e9 um cineasta chileno. Ele fez uma trilogia da hist\u00f3ria do Chile e o primeiro filme chamado\u00a0<em>Nostalgia da luz<\/em>\u00a0\u00e9 o filme favorito de n\u00f3s dois. E o Patr\u00edcio Guzman tem uma linguagem, como cineasta, que \u00e9 muito de ir procurando atrav\u00e9s do filme, ele faz muitas perguntas durante o filme e ele observa. Ele deixa a pessoa olhar e escutar o que ele est\u00e1 escutando, mas sem tomar decis\u00f5es para n\u00f3s e a gente gosta muito dessa linguagem. Ent\u00e3o foi um filme que a gente viu v\u00e1rias vezes durante o processo para relembrar como podemos comunicar uma coisa t\u00e3o destrutiva como o eucalipto.<\/p>\n<p>Em vez de falar diretamente para as pessoas \u201cassim s\u00e3o as coisas\u201d, tentamos s\u00f3 mostrar o que a gente viu nesse territ\u00f3rio e a partir da\u00ed a ideia \u00e9 que as pessoas podem come\u00e7ar a questionar, porque as planta\u00e7\u00f5es de \u00e1rvores voc\u00ea tem no mundo inteiro. Na Europa tamb\u00e9m tem: a Su\u00e9cia e a Finl\u00e2ndia est\u00e3o cheias de planta\u00e7\u00f5es de \u00e1rvores para a produ\u00e7\u00e3o de celulose. Ent\u00e3o a ideia era essa: usar uma linguagem que pudesse convidar as pessoas para o extremo sul da Bahia, para estar ali. A gente n\u00e3o queria sair de l\u00e1, ir dentro de um escrit\u00f3rio ou ir com o papel para a Europa. A gente n\u00e3o queria sair do Extremo Sul da Bahia, mas ficar l\u00e1 o tempo todo e deixar as pessoas olharem tudo o que a gente conseguiu registrar.<\/p>\n<p>A gente tomou essa decis\u00e3o de trazer s\u00f3 dois personagens al\u00e9m do Etevaldo Pereira e do Rodrigo M\u00e3dy, que s\u00e3o do MST e do povo Patax\u00f3 [respectivamente]. O\u00a0<a href=\"https:\/\/bv.fapesp.br\/pt\/pesquisador\/91165\/walter-de-paula-lima\/\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow external noopener noreferrer\" data-wpel-link=\"external\">Walter de Paula Lima<\/a>\u00a0\u00e9 um dos poucos pesquisadores que est\u00e1 h\u00e1 d\u00e9cadas pesquisando sobre planta\u00e7\u00e3o de \u00e1rvores e \u00e1gua, que \u00e9 uma quest\u00e3o super importante. E a Ivonete Gon\u00e7alves de Souza, porque \u00e9 uma pessoa que tem trabalhado o tema de eucalipto de forma mais sistem\u00e1tica na regi\u00e3o do Extremo Sul da Bahia, desde a d\u00e9cada de 1980. Ent\u00e3o essas duas pessoas tinham uma certa voz dentro desse debate e a gente achou interessante trazer eles para o filme. A gente jogou fora um monte de outras pessoas que s\u00e3o pesquisadores super legais, bem informados, que t\u00eam uma quantidade de pesquisas que s\u00e3o super importantes, mas a gente achava que ficaria um tipo de filme de informa\u00e7\u00e3o. A gente n\u00e3o queria fazer isso.<\/p>\n<h4><strong>Eu tive uma percep\u00e7\u00e3o, vendo o filme, de que a terra \u00e9 o elemento central. A disputa por terra, a disputa pelo territ\u00f3rio. Essa foi a percep\u00e7\u00e3o que voc\u00eas tiveram tamb\u00e9m estando l\u00e1 no campo. Foi isso que voc\u00eas quiseram passar de mensagem? E o que \u00e9 que voc\u00ea v\u00ea para essa regi\u00e3o, que \u00e9 uma regi\u00e3o em que o eucalipto tomou conta?<\/strong><\/h4>\n<\/div>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-113288 jetpack-lazy-image shadow jetpack-lazy-image--handled alignnone\" src=\"https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/mata-film-still-01-1-1024x576.png\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" srcset=\"https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/mata-film-still-01-1-1024x576.png 1024w, https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/mata-film-still-01-1-300x169.png 300w, https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/mata-film-still-01-1-1536x864.png 1536w, https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/mata-film-still-01-1-2048x1152.png 2048w, https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/mata-film-still-01-1-640x360.png 640w, https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/mata-film-still-01-1-1320x742.png 1320w, https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/mata-film-still-01-1-150x84.png 150w\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"450\" data-lazy-loaded=\"1\" \/><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14px;\"><em>Rodrigo M\u00e3dy. Foto: F\u00e1bio Nascimento\/Divulga\u00e7\u00e3o.<\/em><\/span><\/p>\n<p>Eu acho muito legal que voc\u00ea ache que o tema central \u00e9 terra, porque realmente \u00e9: terra e floresta, mas a floresta cresce da terra, a terra que d\u00e1 vida, n\u00e9. Ent\u00e3o para mim tem tr\u00eas cenas, tr\u00eas pontos no filme que explicam tudo, que a gente poderia resumir o filme nessas tr\u00eas cenas. [A primeira \u00e9] Quando o cara do ICMBio pega a terra na m\u00e3o, durante uma reuni\u00e3o com os Patax\u00f3, ele abre a reuni\u00e3o desse jeito. \u00c9 a primeira vez que ele vai falar com os Patax\u00f3 e a primeira coisa que ele tenta fazer \u00e9 explicar para eles o que \u00e9 terra. E mais tarde nessa reuni\u00e3o, bem no final, o Rodrigo M\u00e3dy pega a terra de novo na cara dele [servidor do ICMBio] e diz:\u00a0 \u201cvoc\u00ea diz que voc\u00ea sabe o que \u00e9 a terra, voc\u00ea n\u00e3o sabe, quem sabe somos n\u00f3s, porque a gente mora aqui\u201d. Eu acho muito forte porque essas duas cenas explicam toda a diferen\u00e7a entre como \u00e9 que um campon\u00eas, ind\u00edgena ou uma pessoa que mora na terra, no territ\u00f3rio percebe a natureza ao redor deles e o que acha algu\u00e9m que mora longe disso, da ind\u00fastria ou do estado, de alguma instru\u00e7\u00e3o. Tem essa outra cena quando o Etevaldo, bem no final do filme, tem uma fala super simples, que voc\u00ea acha quase sempre demais, mas eu acho que nenhum pesquisador que esteja h\u00e1 40 anos na universidade pode explicar em t\u00e3o poucas palavras, algo t\u00e3o central que \u00e9 a terra. Ele fala: \u201ca gente precisa da terra, mas a terra n\u00e3o precisa de n\u00f3s\u201d. E com isso ele diz tudo: a gente est\u00e1 destruindo a terra na forma como a gente est\u00e1 usando e abusando dela.<\/p>\n<p><strong style=\"color: #222222; font-size: 1.231em;\">O Brasil \u00e9 um dos grandes produtores de celulose do mundo. Mas aqui a gente tem v\u00e1rios problemas socioambientais, estamos olhando muito para o desmatamento, um problema do s\u00e9culo passado que persiste. Ent\u00e3o eu queria que voc\u00ea comentasse: o que \u00e9 a ind\u00fastria da celulose no Brasil, o que ela representa no mundo e por que a gente n\u00e3o olha tanto para ela como um problema socioambiental?<\/strong><\/p>\n<div>\n<p>Quando voc\u00ea v\u00ea \u00e1rvores, voc\u00ea acha que \u00e9 uma floresta, e o discurso das empresas \u00e9 que s\u00e3o florestas \u201cplantadas\u201d. Ent\u00e3o a palavra\u00a0<em>floresta\u00a0<\/em>\u00e9 uma palavra equivocada nesse discurso, n\u00e3o deveria chamar de floresta porque n\u00e3o \u00e9. S\u00e3o planta\u00e7\u00f5es da ind\u00fastria, plantadas para servir uma fun\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, para fazer papel branco, papel higi\u00eanico. Eu acho que isso \u00e9 talvez a maior raz\u00e3o por que a gente n\u00e3o tem um debate maior sobre essas planta\u00e7\u00f5es. Eu acho que est\u00e1 mudando um pouco e isso tem a ver com as queimadas, especialmente na Europa. N\u00e3o s\u00f3 deste ano, mas de anos passados. Por exemplo, em 2017, em Portugal, morreram quase 70 pessoas em uma queimada de planta\u00e7\u00f5es de eucalipto. Quando queima uma planta\u00e7\u00e3o de eucalipto, quando est\u00e1 seco e voc\u00ea n\u00e3o tem \u00e1gua, \u00e9 uma explos\u00e3o, queima muito r\u00e1pido. E agora o debate tem virado mais para isso. Aqui na Europa eu acho que j\u00e1 tem um maior conhecimento de que a gente perdeu as florestas nativas, e que as florestas nativas s\u00e3o fundamentais para cuidar da biodiversidade, da natureza. Uma planta\u00e7\u00e3o de \u00e1rvores n\u00e3o pode cuidar da biodiversidade, ela mata a biodiversidade.<\/p>\n<p>Eu acho que a gente tem que falar sobre isso muito claramente, mas as empresas que est\u00e3o na ind\u00fastria de celulose ou da ind\u00fastria das planta\u00e7\u00f5es de \u00e1rvores s\u00e3o muito poderosas porque est\u00e3o na mesma linha do agroneg\u00f3cio. No Brasil, a Suzano \u00e9 uma empresa gigantesca que voc\u00ea jamais vai poder ter uma entrevista com eles, jamais voc\u00ea vai entrar nas f\u00e1bricas. A gente tentou durante quatro anos e foi imposs\u00edvel. \u00c9 a mesma coisa com Veracel, que \u00e9 a outra empresa que opera no extremo sul da Bahia que \u00e9 um\u00a0<em>joint venture<\/em>\u00a0entre a Suzano e a sueco finlandesa Stora Enso. Eles n\u00e3o entram no debate de jeito nenhum. E eles v\u00e3o expandindo, em uma velocidade muito r\u00e1pida, no Brasil, Uruguai, Chile. O Uruguai tem planos enormes para planta\u00e7\u00f5es de eucalipto e portos novos para transportar isso para Europa. E a Col\u00f4mbia que nesse contexto dos acordos de paz tem aumentado muito os conflitos pela terra. Uma das empresas que tem crescido muito ali \u00e9 a Smurfit Kappa, outra empresa internacional que tem agora conseguido o controle de territ\u00f3rios enormes para fazer eucalipto. E a Noruega est\u00e1 em todas as suas empresas com investimentos de dinheiro do fundo de petr\u00f3leo da Noruega, est\u00e1 em todas essas empresas.<\/p>\n<p>Tem outra coisa tamb\u00e9m que \u00e9 pouco falada, porque a gente acha que a gente usa menos papel, porque tem mais coisas digitais, n\u00e9? Ent\u00e3o acho que nas cabe\u00e7as das pessoas \u00e9 que a gente n\u00e3o est\u00e1 usando a impressora, a gente n\u00e3o tem jornal, tudo isso e n\u00e3o \u00e9 verdade. O consumo de papel s\u00f3 est\u00e1 crescendo.<\/p>\n<h4><strong>A sequ\u00eancia inicial do filme, uma cena noturna, com uma luz obscura, \u00e9 meio aterrorizante, quase um thriller, e me impressionou muito. N\u00e3o d\u00e1 pra entender, de repente a \u00e1rvore se mexe e cai, \u00e9 uma loucura e \u00e9 muito aterrorizante. A partir dela me perguntei: o que representam, para voc\u00eas que fizeram o filme, as planta\u00e7\u00f5es de eucaliptos? Talvez ali voc\u00eas estejam resumindo o que voc\u00eas sentiram nesses cinco anos da produ\u00e7\u00e3o do filme?<\/strong><\/h4>\n<p>Essas cenas falam o que a gente sente, n\u00e9? \u00c9 um thriller mesmo, \u00e9 terror ver as altera\u00e7\u00f5es humanas na terra. \u00c9 assustador realmente ficar l\u00e1 e observar e acho que a gente chegou a um grau de loucura no processo de fazer o filme, porque era sem fim. Ficamos l\u00e1 durante quatro anos filmando, em v\u00e1rias etapas e isso tamb\u00e9m acho que \u00e9 um ponto importante porque a gente estava observando\u00a0<em>durante<\/em>\u00a0o tempo. E era sem fim e sem solu\u00e7\u00e3o para as pessoas que est\u00e3o morando l\u00e1. Ent\u00e3o acho que \u00e9 isso: \u00e9 terror.<\/p>\n<p>Eu acho que o termo\u00a0<em><strong>mudan\u00e7as clim\u00e1ticas<\/strong><\/em>\u00a0\u00e9 muito abstrato. Creio que\u00a0<em><strong>altera\u00e7\u00f5es humanas<\/strong><\/em>\u00a0\u00e9 mais concreto. E quando eu apresento o filme para estudantes, ou uso para conversar sobre isso, em vez de discutir o clima, que \u00e9 uma coisa abstrata (embora que a gente possa ver chuvas fortes, inunda\u00e7\u00f5es, florestas queimadas), o que a gente pode \u00e9 observar como est\u00e1 alterado a natureza ao redor da gente. Seja no Brasil, na Noruega, come\u00e7ar a perceber o que \u00e9 a natureza ao redor da gente, o que \u00e9 natural da natureza ao redor da gente. E quando voc\u00ea come\u00e7a a entender que tudo \u00e9 alterado por n\u00f3s e tudo com um pre\u00e7o de perder uma quantidade de biodiversidade, ent\u00e3o \u00e9 assustador realmente.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-113290 jetpack-lazy-image shadow jetpack-lazy-image--handled alignnone\" src=\"https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/mata-film-still-11-1024x576.png\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" srcset=\"https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/mata-film-still-11-1024x576.png 1024w, https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/mata-film-still-11-300x169.png 300w, https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/mata-film-still-11-1536x864.png 1536w, https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/mata-film-still-11-2048x1152.png 2048w, https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/mata-film-still-11-640x360.png 640w, https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/mata-film-still-11-1320x742.png 1320w, https:\/\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/mata-film-still-11-150x84.png 150w\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"450\" data-lazy-loaded=\"1\" \/><\/p>\n<\/div>\n<p><span style=\"font-size: 14px;\"><em>Chamam essa planta\u00e7\u00e3o de floresta. Foto: F\u00e1bio Nascimento\/Divulga\u00e7\u00e3o.<\/em><\/span><\/p>\n<div>\n<h4><strong>Eu queria conhecer um pouquinho mais da sua hist\u00f3ria. Como \u00e9 que voc\u00ea chegou at\u00e9 o Brasil? Como \u00e9 que voc\u00ea come\u00e7ou a se relacionar com audiovisual? Como \u00e9 que isso entrou na sua vida?<\/strong><\/h4>\n<p>Eu nasci na Noruega e me criei na Noruega, mas com 17 anos eu sa\u00ed pela primeira vez para a Am\u00e9rica Latina influenciada pela minha irm\u00e3 que \u00e9 mais velha do que eu e foi para o Chile para fazer um ano de interc\u00e2mbio. Ent\u00e3o eu conheci o Chile, e toda a sua hist\u00f3ria, a luta, e a\u00ed eu tamb\u00e9m quis ir para a Am\u00e9rica Latina. A\u00ed eu fui para a Costa Rica que \u00e9 um pa\u00eds que tem uma biodiversidade incr\u00edvel. \u00c9 impressionante estar l\u00e1 e aprendi tamb\u00e9m muito sobre florestas, biodiversidade. Comecei a me interessar pela Am\u00e9rica Latina, pela hist\u00f3ria e pela luta de v\u00e1rios movimentos sociais, ind\u00edgenas. Para mim, voltar para a Noruega era s\u00f3 para procurar a forma de sair de novo. Ent\u00e3o eu morei talvez uns 12, 13 anos na Am\u00e9rica Latina entre M\u00e9xico, Am\u00e9rica Central e Brasil.<\/p>\n<p>Quando eu estava nesses anos na Am\u00e9rica Latina, comecei a trabalhar com jornalismo com plataformas de meios independentes no M\u00e9xico e na Guatemala, no\u00a0<a href=\"https:\/\/cmiguate.org\/\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow external noopener noreferrer\" data-wpel-link=\"external\">Centro de Medios Independientes<\/a>. E eu comecei a contar hist\u00f3rias. Mas na verdade eu trabalhava muito mais \u00e1udio. Eu fa\u00e7o document\u00e1rios para r\u00e1dio. Ent\u00e3o para fazer esse trabalho para mim era fundamental colaborar com o F\u00e1bio Nascimento, porque ele \u00e9 quem manda bem no visual e \u00e9 ele que faz toda fotografia do filme, que sabe como filmar uma cena. A gente teve outra pessoa no som direto, que \u00e9 o Henrique Ligeiro, e eu acho que a minha contribui\u00e7\u00e3o no filme \u00e9 mais a narrativa investigativa do filme.<\/p>\n<h4><strong>E foi o primeiro filme que voc\u00ea fez?<\/strong><\/h4>\n<p>Sim. Primeiro e \u00fanico at\u00e9 agora (risos).<\/p>\n<p>Eu tenho outras ideias que gostaria de fazer, mas tamb\u00e9m tenho muito respeito pela \u00e1rea do audiovisual e todo o trabalho que \u00e9 fazer um document\u00e1rio. Eu n\u00e3o tinha ideia quando comecei. \u00c9 muito trabalho. N\u00e3o \u00e9 uma coisa f\u00e1cil documentar e depois ir criando uma hist\u00f3ria, achar personagens que querem estar no filme. Isso tamb\u00e9m \u00e9 importante: a gente tinha v\u00e1rias pessoas que a gente gostaria de entrevistar, mas que n\u00e3o queriam, n\u00e3o queriam representar toda uma problem\u00e1tica internacional e tudo mais. Mas a gente teve muita sorte, tanto com Etevaldo como com o Rodrigo, que s\u00e3o duas pessoas superlegais.<\/p>\n<p>Estou pensando e com certeza vou voltar para Am\u00e9rica Latina, s\u00f3 que acho que vai ser para o ano que vem. Porque o jornal onde eu trabalho tamb\u00e9m faz mat\u00e9rias boas internacionais. Acho que a ideia seria tentar fazer algo aqui com o jornal que agora eu trabalho e tenho uma ideia de outro document\u00e1rio que \u00e9 na Am\u00e9rica Latina, ent\u00e3o pode ser.<\/p>\n<h4><strong>Como voc\u00eas esperam que esse filme ser\u00e1 recebido? Voc\u00eas acham que ter\u00e1 alguma repercuss\u00e3o na pr\u00f3pria cadeia de produ\u00e7\u00e3o e se esses atores tamb\u00e9m v\u00e3o olhar para isso e ficar incomodados, Questionarem o filme?<\/strong><\/h4>\n<p>Eu acho que agora, apresentando o filme, vai ser acompanhado de conversas e debates. Na Noruega passou em dois festivais at\u00e9 agora, com debates, com essa possibilidade de apresentar a tem\u00e1tica do filme. Tamb\u00e9m foi apresentado na Dinamarca e vai ser apresentado na Finl\u00e2ndia agora em Novembro. Porque tamb\u00e9m \u00e9 mais concreto para as pessoas saberem que o papel que usam tem uma hist\u00f3ria por detr\u00e1s. N\u00e3o quer dizer que voc\u00ea tem que boicotar e n\u00e3o usar, mas \u00e9 a forma como opera a ind\u00fastria: operar quase sem restri\u00e7\u00f5es de como plantar e como fazer.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o a gente espera que o filme possa ampliar o debate e que a gente possa trazer o filme para v\u00e1rios pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina que compartilham muito essa problem\u00e1tica e que a gente possa fazer pontes entre os pa\u00edses. Como a Noruega, Finl\u00e2ndia e Su\u00e9cia, que s\u00e3o grandes na ind\u00fastria do papel, e pessoas na Am\u00e9rica Latina que est\u00e3o lutando pelo territ\u00f3rio, que \u00e9 a terra deles.<\/p>\n<p>E tem outras organiza\u00e7\u00f5es que trabalham com essa tem\u00e1tica. Ent\u00e3o \u00e9 legal tamb\u00e9m para refor\u00e7ar o trabalho de outras organiza\u00e7\u00f5es, tanto do MST quanto dos Patax\u00f3.<\/p>\n<p>Mas as empresas, eu acho que o filme n\u00e3o \u00e9 para eles, nem para eles se assustarem (ainda). Eles v\u00e3o se assustar quando o povo come\u00e7ar a questionar muito mais e exigir. A partir dos \u00faltimos informes do IPCC, acho que tudo isso \u00e9 uma coisa que vai caminhar e as empresas, em algum momento, v\u00e3o ter que parar. Esperamos.<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Marcio Isensee e S\u00e1 &#8211; Eco &#8211; 23 de agosto de 2021 &#8211;\u00a0Document\u00e1rio MATA acompanha a vida de pessoas impactadas pelo deserto verde da produ\u00e7\u00e3o de eucaliptos no extremo sul da Bahia. &#8211; Document\u00e1rio MATA \u00e9 dirigido por F\u00e1bio Nascimento e Ingrid Fadnes. Foto: F\u00e1bio Nascimento\/Divulga\u00e7\u00e3o. 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