{"id":33669,"date":"2021-10-07T11:00:54","date_gmt":"2021-10-07T14:00:54","guid":{"rendered":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=33669"},"modified":"2021-10-06T09:47:49","modified_gmt":"2021-10-06T12:47:49","slug":"o-clima-no-antropoceno","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/o-clima-no-antropoceno\/","title":{"rendered":"O clima no Antropoceno"},"content":{"rendered":"<p>Por <a class=\"author url fn\" title=\"Posts por Marcos Pivetta\" href=\"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/autor\/pivetta\/\" rel=\"author\">Marcos Pivetta<\/a> &#8211; FAPESP &#8211;\u00a0<span style=\"font-size: 14px;\"><em>Novo relat\u00f3rio do IPCC mostra que o homem impulsiona o aquecimento global e torna o planeta mais sujeito a eventos extremos, como ondas de calor e epis\u00f3dios de seca e chuvas intensas &#8211; Recordes de temperatura no ver\u00e3o europeu deste ano causaram inc\u00eandios na Gr\u00e9cia &#8211; Nicolas Economou\u2009\/\u2009NurPhoto via Getty Images<\/em><\/span><\/p>\n<p>Em 2007, em seu quarto relat\u00f3rio, o Painel Intergovernamental sobre Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas (IPCC) dizia que \u201co aquecimento do sistema clim\u00e1tico \u00e9 inequ\u00edvoco\u201d.<\/p>\n<p>A quinta vers\u00e3o do documento, de 2013, dava um passo adiante e afirmava que \u201ca influ\u00eancia humana no sistema clim\u00e1tico \u00e9 clara\u201d.<\/p>\n<p>Divulgada em 9 de agosto de 2021, a primeira parte do sexto relat\u00f3rio de avalia\u00e7\u00e3o do painel (WG1-AR6), que faz um resumo do estado da arte sobre o conhecimento cient\u00edfico a respeito das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, n\u00e3o deixa mais d\u00favidas sobre o papel da civiliza\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea nesse fen\u00f4meno:<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 inequ\u00edvoco que a influ\u00eancia humana esquentou a atmosfera, o oceano e a superf\u00edcie terrestre\u201d.<\/p>\n<p>O documento tamb\u00e9m afirma que \u201caumentos observados nas concentra\u00e7\u00f5es de gases de efeito estufa (GEE) desde cerca de 1750 s\u00e3o inequivocamente causados por atividades humanas\u201d<\/p>\n<p>O aquecimento global \u00e9 provocado pelo crescimento progressivo nas taxas atmosf\u00e9ricas de GEE, principal assinatura deixada no clima pelo Antropoceno, a era dos seres humanos.<\/p>\n<p>Nenhuma parte do planeta est\u00e1 a salvo das consequ\u00eancias do aumento na temperatura m\u00e9dia da atmosfera e de altera\u00e7\u00f5es decorrentes ou associadas a esse processo.<\/p>\n<p>\u201cAs mudan\u00e7as clim\u00e1ticas j\u00e1 afetam todas as regi\u00f5es da Terra de m\u00faltiplas maneiras. As mudan\u00e7as que estamos experimentando v\u00e3o se intensificar com o aumento adicional da temperatura\u201d, comentou, durante a divulga\u00e7\u00e3o do relat\u00f3rio, Panmao Zhai, da Academia Chinesa de Ci\u00eancias Meteorol\u00f3gicas, copresidente do grupo 1 de trabalho do AR6.<\/p>\n<p>Esse grupo foi o respons\u00e1vel pela produ\u00e7\u00e3o da primeira parte do relat\u00f3rio de avalia\u00e7\u00e3o do IPCC, dedicado a atualizar o conhecimento cient\u00edfico sobre as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas.<\/p>\n<p>No primeiro trimestre de 2022, o painel dever\u00e1 lan\u00e7ar as duas partes seguintes do AR6.<\/p>\n<p>O segundo documento vai tratar de impactos e vulnerabilidades causados pelas mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e do que pode ser feito para se adaptar a elas.<\/p>\n<p>O terceiro abordar\u00e1 formas de mitiga\u00e7\u00e3o das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas.<\/p>\n<p>Painel coordenado pela Organiza\u00e7\u00e3o Meteorol\u00f3gica Mundial (OMM) e pelo Programa das Na\u00e7\u00f5es Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), o IPCC n\u00e3o faz ou patrocina pesquisa cient\u00edfica.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m n\u00e3o sugere pol\u00edticas ambientais.<\/p>\n<p>No entanto, divulga um resumo em linguagem acess\u00edvel de seus relat\u00f3rios, denominado Sum\u00e1rio para Tomadores de Decis\u00e3o, que fornece as bases cient\u00edficas sobre o clima para auxiliar os pa\u00edses a definirem suas a\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O IPCC re\u00fane especialistas de diferentes \u00e1reas para compilar e analisar a produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica com o intuito de produzir relat\u00f3rios peri\u00f3dicos de avalia\u00e7\u00e3o da situa\u00e7\u00e3o atual e de previs\u00f5es sobre o futuro do clima.<\/p>\n<p>Elaborada ao longo de tr\u00eas anos, a primeira parte do AR6 foi escrita por um conjunto de 234 autores de 66 pa\u00edses.<\/p>\n<p>Outros 567 autores colaboradores tamb\u00e9m participaram da formula\u00e7\u00e3o do documento, cujo lan\u00e7amento inicial era previsto para abril deste ano, mas foi postergado em raz\u00e3o da pandemia de Covid-19.<\/p>\n<p>O texto do relat\u00f3rio, aprovado pelos 195 pa\u00edses que participam do painel, faz men\u00e7\u00e3o a mais de 14 mil estudos cient\u00edficos para embasar suas conclus\u00f5es.<\/p>\n<p>Segundo o WG1-AR6, a temperatura m\u00e9dia da atmosfera dever\u00e1 \u201cmuito provavelmente\u201d aumentar 1,5\u00baC no in\u00edcio da pr\u00f3xima d\u00e9cada em rela\u00e7\u00e3o ao valor registrado entre 1850 e 1900.<\/p>\n<p>Esse per\u00edodo do s\u00e9culo XIX \u00e9 considerado representativo da fase pr\u00e9-industrial do planeta, quando a atmosfera n\u00e3o sentia efeitos significativos das atividades humanas, em especial da queima de combust\u00edveis f\u00f3sseis que liberam gases de efeito estufa.<\/p>\n<p>O novo prazo estimado para atingir esse aumento de 1,5\u00baC \u00e9 cerca de 10 anos antes do que os relat\u00f3rios anteriores tinham previsto.<\/p>\n<p>De acordo com as defini\u00e7\u00f5es adotadas pelo IPCC, um evento clim\u00e1tico ou resultado de um processo \u00e9 considerado \u201cmuito prov\u00e1vel\u201d quando a probabilidade de sua ocorr\u00eancia se situa entre 90% e 100% (<em><a href=\"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/o-clima-no-antropoceno\/?utm_source=facebook&amp;utm_medium=social&amp;utm_campaign=Ed307#box-LinguagemIPCC_307pt\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">ver quadro sobre a linguagem adotada pelo painel<\/a><\/em>).<\/p>\n<p>Os cinco cen\u00e1rios futuros projetados pelos modelos clim\u00e1ticos adotados pelo IPCC, desde o mais otimista at\u00e9 o mais pessimista, convergem para esse n\u00edvel de eleva\u00e7\u00e3o da temperatura global ainda na d\u00e9cada de 2030.<\/p>\n<p>Limitar o aquecimento global nos pr\u00f3ximos anos a um aumento de 2\u00baC, preferencialmente 1,5 \u00baC, \u00e9 a principal meta do Acordo do Clima de Paris, firmado em dezembro de 2015 no \u00e2mbito da ONU por 195 pa\u00edses.<\/p>\n<p>Esse n\u00edvel de aumento de temperatura \u00e9 considerado elevado, mas com potenciais impactos socioecon\u00f4micos ainda administr\u00e1veis.<\/p>\n<p>\u201cO relat\u00f3rio do IPCC deixa claro que ser\u00e1 muito dif\u00edcil alcan\u00e7ar essa meta se n\u00e3o reduzirmos dr\u00e1stica e rapidamente as emiss\u00f5es de gases de efeito estufa\u201d, diz o f\u00edsico Paulo Artaxo, da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), um dos sete pesquisadores brasileiros que participaram da elabora\u00e7\u00e3o do WG1-AR6 e um dos coordenadores do Programa FAPESP de Pesquisa sobre Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas Globais (PFPMCG).<\/p>\n<p>O relat\u00f3rio do IPCC foi lan\u00e7ado no Brasil em um webin\u00e1rio promovido pela FAPESP tamb\u00e9m em 9 de agosto.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Capa_ipcc_307-0-desktop-true.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-33671\" src=\"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Capa_ipcc_307-0-desktop-true.png\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"337\" srcset=\"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Capa_ipcc_307-0-desktop-true.png 1140w, https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Capa_ipcc_307-0-desktop-true-300x126.png 300w, https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Capa_ipcc_307-0-desktop-true-1024x431.png 1024w, https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Capa_ipcc_307-0-desktop-true-768x323.png 768w, https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Capa_ipcc_307-0-desktop-true-600x253.png 600w\" sizes=\"(max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><\/a><\/p>\n<p>A Terra j\u00e1 est\u00e1 muito perto de cruzar a fronteira de 1,5\u00baC de aquecimento global. Desde o per\u00edodo pr\u00e9-industrial, a temperatura m\u00e9dia em toda a superf\u00edcie do planeta subiu cerca de 1,1\u00b0C.<\/p>\n<p>\u00c9 um n\u00edvel de aquecimento sem precedentes ao longo dos \u00faltimos 2 mil anos, segundo o relat\u00f3rio.<\/p>\n<p>O aumento m\u00e9dio foi maior sobre as \u00e1reas que abrigam os continentes, onde vive a popula\u00e7\u00e3o humana, do que sobre os oceanos, respectivamente, de 1,6\u00b0C e 0,9\u00baC.<\/p>\n<p>As frias regi\u00f5es polares, em especial o \u00c1rtico, foram as que mais se aqueceram desde o per\u00edodo pr\u00e9-industrial, cerca de 3\u00baC.<\/p>\n<div class=\"post-content sequence\">\n<p>O documento tamb\u00e9m indica que, se a tend\u00eancia de eleva\u00e7\u00e3o global da temperatura do planeta n\u00e3o for revertida em pouco tempo, as geleiras continuar\u00e3o derretendo, o n\u00edvel do mar seguir\u00e1 subindo, os oceanos v\u00e3o se tornar mais \u00e1cidos e os chamados eventos clim\u00e1ticos extremos, como fortes ondas de calor, chuvas volumosas e secas severas, dever\u00e3o ser ainda mais frequentes e intensos ao longo deste s\u00e9culo.<\/p>\n<p>Na verdade, de acordo com estudos citados pelo IPCC, esse tipo de fen\u00f4meno, com grande potencial de causar mortes e preju\u00edzos socioecon\u00f4micos, j\u00e1 se tornou mais comum e exacerbado nas \u00faltimas d\u00e9cadas e s\u00f3 tende a aumentar \u00e0 medida que o planeta esquenta.<\/p>\n<p>Ondas de calor extremamente fortes que ocorriam uma vez a cada 100 anos antes do s\u00e9culo XX, quando a influ\u00eancia humana sobre o clima era pouco significativa, tornaram-se atualmente 4,8 vezes mais frequentes e 1,2\u00baC mais quentes, segundo dados do IPCC.<\/p>\n<p>Se a temperatura global aumentar 1,5\u00baC, esse tipo de evento extremo ser\u00e1 8,6 vezes mais comum e 2\u00baC mais quente do que h\u00e1 150 anos, prev\u00ea o painel.<\/p>\n<p>Mais meio grau de subida na temperatura m\u00e9dia do planeta, atingindo uma eleva\u00e7\u00e3o de 2\u00baC, far\u00e1 provavelmente com que essas ondas de calor se tornem 13,9 vezes mais frequentes e 2,7\u00baC mais quentes.<\/p>\n<p>Caso a atmosfera terrestre aque\u00e7a 4\u00baC, uma hip\u00f3tese desoladora, esses epis\u00f3dios de can\u00edcula exacerbada tender\u00e3o a ser 39,2 vezes mais frequentes e 5,2 vezes mais quentes do que no s\u00e9culo retrasado.<\/p>\n<p>Tend\u00eancias semelhantes s\u00e3o detalhadas no documento com rela\u00e7\u00e3o a eventos extremos relativos a chuvas e secas severas.<\/p>\n<p>A ocorr\u00eancia cada vez mais corriqueira de epis\u00f3dios superlativos do clima \u2013 como o registro de temperaturas recordes, na casa dos 50\u00baC, no atual ver\u00e3o da Am\u00e9rica do Norte e na Europa e a maior cheia em quase 120 anos do rio Negro, no Amazonas, em decorr\u00eancia de fortes chuvas ocorridas em meados deste ano \u2013 deu origem a uma nova \u00e1rea de pesquisa: trabalhos espec\u00edficos sobre um evento extremo com o intuito de determinar se a ocorr\u00eancia foi causada, ainda que em parte, por mudan\u00e7as induzidas pelo homem ou por uma varia\u00e7\u00e3o natural do clima.<\/p>\n<p>\u201cAinda h\u00e1 poucos estudos desse tipo sendo feitos na Am\u00e9rica do Sul, mas essa \u00e9 uma \u00e1rea em crescimento\u201d, comenta o climatologista Jos\u00e9 Marengo, coordenador de pesquisa e desenvolvimento do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), que atuou como revisor-editor no mais recente relat\u00f3rio do IPCC (<a href=\"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/atmosfera-turbinada\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><em>ver reportagem sobre essa \u00e1rea de pesquisa<\/em><\/a>).<\/p>\n<\/div>\n<p><a href=\"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Capa_ipcc_307-1-desktop-true.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-33672\" src=\"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Capa_ipcc_307-1-desktop-true.png\" alt=\"\" width=\"799\" height=\"617\" srcset=\"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Capa_ipcc_307-1-desktop-true.png 1140w, https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Capa_ipcc_307-1-desktop-true-300x232.png 300w, https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Capa_ipcc_307-1-desktop-true-1024x790.png 1024w, https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Capa_ipcc_307-1-desktop-true-768x593.png 768w, https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Capa_ipcc_307-1-desktop-true-600x463.png 600w\" sizes=\"(max-width: 799px) 100vw, 799px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3>Choque de realidade<\/h3>\n<div class=\"post-content sequence\">\n<p>\u201cEsse relat\u00f3rio \u00e9 um choque de realidade\u201d, comentou a paleoclimatologista francesa Val\u00e9rie Masson-Delmotte, da Universidade Paris-Saclay, outra copresidente do grupo 1 de trabalho do IPCC, no material de divulga\u00e7\u00e3o do documento. \u201cAgora temos uma imagem muito mais clara do clima no passado, no presente e no futuro. Isso \u00e9 essencial para entender para onde estamos indo, o que pode ser feito e como devemos nos preparar.\u201d<\/p>\n<p>O avan\u00e7o na determina\u00e7\u00e3o do peso das atividades humanas na promo\u00e7\u00e3o das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas se deve a uma s\u00e9rie de aprimoramentos nos estudos sobre o clima ocorridos nos \u00faltimos sete anos.<\/p>\n<p>Melhores reconstitui\u00e7\u00f5es paleoclim\u00e1ticas, dados mais confi\u00e1veis e detalhados sobre a evolu\u00e7\u00e3o das temperaturas e dos regimes de chuvas atuais e modelos computacionais mais aptos a fazer reconstru\u00e7\u00f5es do clima passado e proje\u00e7\u00f5es sobre o clima das pr\u00f3ximas d\u00e9cadas \u2013 todos esses refinamentos permitiram que as conclus\u00f5es do painel mais recente sejam mais incisivas do que em suas vers\u00f5es passadas.<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 muito menos incertezas nesse relat\u00f3rio sobre o que \u00e9 decorrente de atividades humanas e o que \u00e9 varia\u00e7\u00e3o natural do clima\u201d, explica a ocean\u00f3grafa Let\u00edcia Cotrim, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), uma das autoras brasileiras do WG1-AR6.<\/p>\n<p>O aquecimento global \u00e9 provocado pelo aumento da emiss\u00e3o de gases de efeito estufa, como \u00f3xido n\u00edtrico (N<sub>2<\/sub>O), metano (CH<sub>4<\/sub>) e sobretudo di\u00f3xido de carbono (CO<sub>2<\/sub>).<\/p>\n<p>O novo relat\u00f3rio enfatiza que, desde meados do s\u00e9culo XVIII, a eleva\u00e7\u00e3o nas concentra\u00e7\u00f5es de gases de efeito estufa na atmosfera \u00e9 \u201cinequivocamente\u201d causada por atividades humanas, em especial as associadas \u00e0 queima de combust\u00edveis f\u00f3sseis.<\/p>\n<p>A conclus\u00e3o deriva de estudos que simulam a evolu\u00e7\u00e3o da temperatura m\u00e9dia da atmosfera terrestre com e sem a emiss\u00e3o dos GEE derivados da a\u00e7\u00e3o do homem.<\/p>\n<p>Nos cen\u00e1rios em que ocorre emiss\u00e3o de gases de efeito estufa apenas por processos naturais, o planeta n\u00e3o esquenta, um indicador de equil\u00edbrio no sistema clim\u00e1tico.<\/p>\n<p>Quando a contribui\u00e7\u00e3o humana \u00e9 adicionada a esse processo, a temperatura m\u00e9dia do planeta atinge os n\u00edveis atuais.<\/p>\n<p>Hoje a concentra\u00e7\u00e3o de CO<sub>2<\/sub>, principal GEE, \u00e9 de quase 420 partes por milh\u00e3o (ppm), cerca de 50% maior do que h\u00e1 170 anos, no per\u00edodo pr\u00e9-industrial.<\/p>\n<p>Uma vez emitidos, os gases de efeito estufa t\u00eam tr\u00eas destinos poss\u00edveis: a atmosfera, os oceanos e a superf\u00edcie terrestre.<\/p>\n<p>Se estocados no ar, causam o aquecimento global. Nos mares, tornam suas \u00e1guas mais \u00e1cidas e amea\u00e7am o ciclo de vida de muitas esp\u00e9cies.<\/p>\n<p>O caminho mais benigno \u00e9 ser absorvido pelas plantas, via fotoss\u00edntese, e virar biomassa \u2013 por exemplo, o tronco de uma \u00e1rvore.<\/p>\n<p>Desde a revolu\u00e7\u00e3o industrial at\u00e9 hoje, 41% dos GEE foram para a atmosfera e 59% para a superf\u00edcie terrestre e os oceanos.<\/p>\n<p>\u201cMas h\u00e1 uma tend\u00eancia de a atmosfera absorver mais CO<sub>2<\/sub>\u00a0do que os oceanos e superf\u00edcie terrestre, tanto em termos proporcionais como absolutos, se as emiss\u00f5es desse g\u00e1s n\u00e3o ca\u00edrem at\u00e9 o fim do s\u00e9culo\u201d, explica o climatologista Marcos Heil Costa, da Universidade Federal de Vi\u00e7osa (UFV), de Minas Gerais, que estuda as intera\u00e7\u00f5es do clima com a agricultura e \u00e9 um dos autores do WG1-AR6.<\/p>\n<p>Em um cen\u00e1rio pessimista projetado pelo IPCC, em que os n\u00edveis atuais de emiss\u00e3o de di\u00f3xido de carbono dobrariam at\u00e9 o fim deste s\u00e9culo, a atmosfera passaria a estocar 54% do CO<sub>2<\/sub>\u00a0liberado.<\/p>\n<p>Em um quadro muito pessimista, em que as emiss\u00f5es duplicariam at\u00e9 meados do s\u00e9culo, a fatia de CO<sub>2<\/sub>\u00a0aprisionada na atmosfera subiria para 62%.<\/p>\n<p>As mudan\u00e7as clim\u00e1ticas exacerbam o ciclo da \u00e1gua.<\/p>\n<p>Isso provoca tanto chuvas mais intensas como per\u00edodos \u00e1ridos e quentes, gerando desastres naturais, como inunda\u00e7\u00f5es, deslizamentos de terra e secas mais severas em muitas regi\u00f5es.<\/p>\n<p>As \u00e1reas costeiras, por exemplo, ver\u00e3o a continuidade do aumento do n\u00edvel do mar ao longo do s\u00e9culo XXI, fen\u00f4meno que, combinado com tempestades mais intensas, promover\u00e1 eros\u00e3o e inunda\u00e7\u00f5es costeiras mais frequentes e volumosas em \u00e1reas baixas.<\/p>\n<p>Eventos extremos associados \u00e0 eleva\u00e7\u00e3o do n\u00edvel do mar que ocorriam anteriormente uma vez a cada 100 anos podem se tornar ocorr\u00eancias anuais perto do final deste s\u00e9culo.<\/p>\n<p>Entre 1901 e 2018, o n\u00edvel m\u00e9dio do mar aumentou 20 cent\u00edmetros.<\/p>\n<p>Mas nos anos mais recentes esse ritmo tem se acelerado. Foi de 1,3 mil\u00edmetro (mm) ao ano entre 1901 e 1971 e passou para 3,7 mm ao ano entre 2006 e 2018.<\/p>\n<p>O aquecimento progressivo do clima global ampliar\u00e1 o derretimento de geleiras sazonais, de gelo marinho no ver\u00e3o do oceano \u00c1rtico, e do\u00a0<em>permafrost<\/em>\u00a0\u2013 solo continuamente congelado na regi\u00e3o \u00e1rtica, que cont\u00e9m muito metano, g\u00e1s de efeito estufa que, se liberado, acelerar\u00e1 ainda mais o aquecimento global.<\/p>\n<p>Cada eleva\u00e7\u00e3o de 0,5 \u00baC na temperatura m\u00e9dia do planeta repercute de forma n\u00e3o linear na frequ\u00eancia e intensidade de ondas de calor e de epis\u00f3dios de seca ou chuvas exacerbadas.<\/p>\n<p>\u201cUm aumento dessa ordem na temperatura duplica ou triplica alguns eventos clim\u00e1ticos extremos\u201d, ponderou o climatologista Lincoln Muniz Alves, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), outro membro do grupo 1 de trabalho do IPCC. Alves fez parte da equipe que desenvolveu um\u00a0<a href=\"https:\/\/www.ipcc.ch\/report\/ar6\/wg1\/#InteractiveAtlas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">atlas interativo<\/a>, uma novidade do WG1-AR6, que pode ser acessado na internet.<\/p>\n<\/div>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-407665 \" src=\"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/032-039_capa_ipcc_307-1-1140.jpg\" sizes=\"(max-width: 1140px) 100vw, 1140px\" srcset=\"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/032-039_capa_ipcc_307-1-1140.jpg 1140w, https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/032-039_capa_ipcc_307-1-1140-250x153.jpg 250w, https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/032-039_capa_ipcc_307-1-1140-700x429.jpg 700w, https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/032-039_capa_ipcc_307-1-1140-120x73.jpg 120w\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"490\" data-index=\"1\" \/><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14px;\"><em>Geleiras polares, como as do \u00c1rtico, est\u00e3o derretendo em raz\u00e3o do aquecimento<span class=\"media-credits\">Ulrik Pedersen\u2009\/\u2009NurPhoto via Getty Images\u2002<\/span><\/em><\/span><\/p>\n<p>Na Amaz\u00f4nia, as proje\u00e7\u00f5es sinalizam, com alto grau de certeza, uma maior ocorr\u00eancia de dias sem chuvas e de secas, e, com menor n\u00edvel de confian\u00e7a, mais epis\u00f3dios de chuva extrema e inunda\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>No cen\u00e1rio mais pessimista, em que as emiss\u00f5es globais de CO<sub>2<\/sub> dobram at\u00e9 2050, mais de 150 dias por ano ter\u00e3o temperaturas acima de 35\u00baC at\u00e9 o fim do s\u00e9culo.<\/p>\n<p>Para o Nordeste, uma regi\u00e3o naturalmente bem menos \u00famida, o cen\u00e1rio projetado \u00e9 semelhante, com destaque para um aumento na dura\u00e7\u00e3o do per\u00edodo de estiagem.<\/p>\n<h3>Efeitos no Brasil<\/h3>\n<div class=\"post-content sequence\">\n<p>O relat\u00f3rio do IPCC n\u00e3o faz proje\u00e7\u00f5es sobre o clima espec\u00edfico de um pa\u00eds, apenas para o planeta como um todo ou dividido em regi\u00f5es.<\/p>\n<p>Mas, a partir dessas proje\u00e7\u00f5es regionais, \u00e9 poss\u00edvel ter uma no\u00e7\u00e3o do que a literatura cient\u00edfica sinaliza como as tend\u00eancias atuais e futuras do clima na Am\u00e9rica do Sul e no territ\u00f3rio nacional.<\/p>\n<p>Em linhas gerais, h\u00e1 uma tend\u00eancia de a temperatura m\u00e9dia no continente continuar subindo a um ritmo mais acelerado do que a m\u00e9dia global.<\/p>\n<p>O n\u00edvel do mar no Atl\u00e2ntico sul (mas n\u00e3o no Pac\u00edfico) se elevou de forma mais acentuada do que a m\u00e9dia do globo nas \u00faltimas d\u00e9cadas, inclina\u00e7\u00e3o que deve se manter ao longo deste s\u00e9culo e favorecer a ocorr\u00eancia de inunda\u00e7\u00f5es costeiras.<\/p>\n<p>Se o aquecimento global aumentar pelo menos 2 \u00baC, as proje\u00e7\u00f5es para a vasta \u00e1rea abrangida pelo Brasil s\u00e3o um misto de mais chuvas concentradas e mais epis\u00f3dios de seca, uma esp\u00e9cie de gangorra clim\u00e1tica exacerbada de efeitos potencialmente desastrosos.<\/p>\n<p>No Centro-Oeste, n\u00e3o h\u00e1 dados confi\u00e1veis que sinalizem uma diminui\u00e7\u00e3o na quantidade de precipita\u00e7\u00e3o atmosf\u00e9rica, mas a esta\u00e7\u00e3o chuvosa deve ter seu in\u00edcio atrasado.<\/p>\n<p>Mais eventos de chuva extrema e tamb\u00e9m de seca s\u00e3o esperados, al\u00e9m de maior propens\u00e3o \u00e0 ocorr\u00eancia de inc\u00eandios, que devem afetar a agricultura e biomas como o Pantanal e o Cerrado.<\/p>\n<p>No Sudeste e no Sul, onde vive 60% da popula\u00e7\u00e3o brasileira, tem ocorrido um aumento claro no n\u00edvel de pluviosidade m\u00e9dia e de epis\u00f3dios extremos de chuvas desde os anos 1960, tend\u00eancias que devem se intensificar nas pr\u00f3ximas d\u00e9cadas caso o planeta aque\u00e7a 2\u00baC.<\/p>\n<p>\u201cAs proje\u00e7\u00f5es para aumento de temperatura s\u00e3o sempre mais confi\u00e1veis do que as de chuva\u201d, compara Alves. Isso porque o aquecimento do clima \u00e9 um processo mais direto, que depende de menos vari\u00e1veis do que a forma\u00e7\u00e3o de nuvens e chuvas. \u201cModelar a forma\u00e7\u00e3o das nuvens na atmosfera e suas intera\u00e7\u00f5es com os demais par\u00e2metros do clima ainda \u00e9 um desafio\u201d, comenta Marengo.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 por acaso que h\u00e1 mais e melhores informa\u00e7\u00f5es sobre aumento de temperatura do que de pluviosidade em praticamente todas as regi\u00f5es do globo. No atlas do IPCC, que divide os setores habitados dos continentes em 45 \u00e1reas, aparecem 41 regi\u00f5es que tiveram aumento de ondas de calor desde 1950 at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>Na maior parte dessas \u00e1reas, h\u00e1 um grau de certeza alto ou m\u00e9dio de que as atividades humanas contribu\u00edram para a ocorr\u00eancia desse fen\u00f4meno.<\/p>\n<p>Para epis\u00f3dios de chuvas fortes, apenas em 19 regi\u00f5es foi constatado nesse per\u00edodo um aumento de eventos extremos, quase sempre com baixo grau de certeza de que o homem teve algum papel em determinar essa tend\u00eancia.<\/p>\n<p>Nas demais 26 regi\u00f5es, n\u00e3o havia dados em quantidade ou com qualidade suficiente para estabelecer uma tend\u00eancia.<\/p>\n<p>\u201cO atlas deixa claro que a maior parte dos dados e estudos sobre clima se concentra nos pa\u00edses do hemisf\u00e9rio Norte. Precisamos investir mais em pesquisas sobre mudan\u00e7as clim\u00e1ticas na Am\u00e9rica do Sul e no Brasil\u201d, comenta Alves.<\/p>\n<\/div>\n<h3 style=\"padding-left: 40px;\"><span style=\"color: #808000;\">A linguagem do painel<\/span><\/h3>\n<p style=\"padding-left: 40px;\"><span style=\"color: #808000;\">O peso das afirma\u00e7\u00f5es feitas pelo IPCC \u00e9 ponderado pelo emprego de duas formas de avalia\u00e7\u00e3o de dados e conclus\u00f5es cient\u00edficas, que podem ser usadas conjuntamente ou em separado. <\/span><\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\"><span style=\"color: #808000;\">Uma na esfera mais qualitativa, que expressa o grau de confian\u00e7a (ou certeza) sobre um achado, e outra de car\u00e1ter mais quantitativo, baseada na probabilidade estat\u00edstica de ocorrer um determinado resultado.<\/span><\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\"><span style=\"color: #808000;\">H\u00e1 cinco graus de certeza: muito baixo, baixo, m\u00e9dio, alto e muito alto. <\/span><\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\"><span style=\"color: #808000;\">Quanto maior o n\u00famero de evid\u00eancias sobre um tema na literatura cient\u00edfica e maior o grau de concord\u00e2ncia entre os estudos, maior o n\u00edvel de certeza. <\/span><\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px;\"><span style=\"color: #808000;\">A chance estat\u00edstica de um resultado ocorrer \u00e9 expressa por meio destes termos: virtualmente certo (99-100% de probabilidade), extremamente prov\u00e1vel (95-100%), muito prov\u00e1vel (90-100%), prov\u00e1vel (66-100%), mais prov\u00e1vel do que n\u00e3o (50-100%) quase t\u00e3o prov\u00e1vel quanto n\u00e3o (33-66%), improv\u00e1vel (0-33), muito improv\u00e1vel (0-10%), extremamente improv\u00e1vel (0-5%), excepcionalmente improv\u00e1vel (0-1%).<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Marcos Pivetta &#8211; FAPESP &#8211;\u00a0Novo relat\u00f3rio do IPCC mostra que o homem impulsiona o aquecimento global e torna o planeta mais sujeito a eventos extremos, como ondas de calor e epis\u00f3dios de seca e chuvas intensas &#8211; Recordes de temperatura no ver\u00e3o europeu deste ano causaram inc\u00eandios na Gr\u00e9cia &#8211; Nicolas Economou\u2009\/\u2009NurPhoto via Getty&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":33670,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[12,71],"post_series":[],"class_list":["post-33669","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-geral","tag-aquecimento-global-global-warming-global-climate-change","tag-sustentabilidade-viver-sustentavelmente-consumo-sustentavel","entry","has-media"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v25.2 - 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