{"id":35167,"date":"2022-10-19T07:30:43","date_gmt":"2022-10-19T10:30:43","guid":{"rendered":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=35167"},"modified":"2022-10-13T10:12:37","modified_gmt":"2022-10-13T13:12:37","slug":"estudo-mostra-que-planta-aquatica-pode-remover-o-excesso-de-manganes-em-solos-afetados-por-mineracao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/estudo-mostra-que-planta-aquatica-pode-remover-o-excesso-de-manganes-em-solos-afetados-por-mineracao\/","title":{"rendered":"Estudo mostra que planta aqu\u00e1tica pode remover o excesso de mangan\u00eas em solos afetados por minera\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Por Luciana Constantino &#8211; Ag\u00eancia FAPESP \u2013\u00a0 13 de outubro de 2022\u00a0 &#8211;\u00a0 <span style=\"font-size: 14px;\"><em>Pesquisadores da Esalq-USP e colaboradores mostraram que a taboa \u00e9 capaz de retirar de solos contaminados at\u00e9 34 vezes mais mangan\u00eas do que outras plantas encontradas em ambientes semelhantes (foto: Wikimedia Commons)<\/em><\/span><\/p>\n<p>A taboa, uma vegeta\u00e7\u00e3o aqu\u00e1tica de aproximadamente 2,5 metros de altura, \u00e9 capaz de retirar de solos contaminados at\u00e9 34 vezes mais mangan\u00eas do que outras plantas encontradas em ambientes semelhantes.<\/p>\n<p>Em compara\u00e7\u00e3o ao hibisco e ao junco, por exemplo, a taboa acumulou, respectivamente, dez e 13 vezes mais mangan\u00eas, demonstrando, assim, seu potencial para recuperar de forma sustent\u00e1vel \u00e1reas afetadas por rejeitos de min\u00e9rio de ferro.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 um dos resultados obtidos em pesquisa\u00a0<strong><a href=\"https:\/\/www.sciencedirect.com\/science\/article\/abs\/pii\/S0959652622024064\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">publicada<\/a><\/strong>\u00a0no\u00a0<i>Journal of Cleaner Production<\/i>\u00a0por cientistas da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de S\u00e3o Paulo (Esalq-USP) e colaboradores.<\/p>\n<p>O artigo revelou que a\u00a0<i>Typha domingensis<\/i>, nome cient\u00edfico da taboa, \u00e9 altamente eficiente na fitorremedia\u00e7\u00e3o de mangan\u00eas, micronutriente potencialmente t\u00f3xico e com grande risco ecol\u00f3gico.<\/p>\n<p>A planta apresentou concentra\u00e7\u00f5es de 6.858 miligramas por quilo (mg\/kg) de mangan\u00eas na parte a\u00e9rea enquanto outras esp\u00e9cies acumulam, em m\u00e9dia, 200 mg\/kg.<\/p>\n<p>A pesquisa de campo foi realizada no estu\u00e1rio do Rio Doce, distrito de Reg\u00eancia (ES), local fortemente impactado pela deposi\u00e7\u00e3o de rejeitos liberados ap\u00f3s o maior desastre ambiental registrado no Brasil \u2013 o rompimento da Barragem do Fund\u00e3o, em novembro de 2015, em Mariana (MG).<\/p>\n<p>\u00c0 \u00e9poca, o desastre afetou 41 cidades em Minas Gerais e no Esp\u00edrito Santo, provocando a morte de 19 pessoas, e os rejeitos de min\u00e9rios de ferro chegaram ao estu\u00e1rio cerca de duas semanas depois.<\/p>\n<p>Estima-se que a degrada\u00e7\u00e3o ambiental atingiu pelo menos 240,8 hectares de Mata Atl\u00e2ntica e resultou em 14 toneladas de peixes mortos.<\/p>\n<p>V\u00e1rias a\u00e7\u00f5es v\u00eam sendo adotadas desde ent\u00e3o para tentar reduzir os danos, mas a contamina\u00e7\u00e3o no estu\u00e1rio ainda persiste.<\/p>\n<p>O estudo mostrou que a capacidade de extra\u00e7\u00e3o da taboa no estu\u00e1rio do Rio Doce chegou a 147 toneladas do min\u00e9rio, o que representa a remo\u00e7\u00e3o de 75,7 toneladas por hectare (t\/ha).<\/p>\n<p>Outro trabalho realizado no mesmo local e publicado em janeiro deste ano j\u00e1 havia demonstrado a capacidade de a taboa remover grandes quantidades de ferro do ambiente quando comparada ao hibisco (<i>Hibiscus tiliaceus<\/i>), que mede de 4 a 10 metros e tem flores amarelas (<i>leia mais em:\u00a0<strong><a href=\"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/estudo-mostra-eficacia-de-planta-aquatica-para-recuperar-ambiente-impactado-por-minerio-de-ferro\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Estudo mostra efic\u00e1cia de planta aqu\u00e1tica para recuperar ambiente impactado por min\u00e9rio de ferro<\/a><\/strong><\/i>).<\/p>\n<p>\u201cEstamos trabalhando no Rio Doce desde 2015. Conseguimos chegar a um n\u00edvel de entendimento da din\u00e2mica geoqu\u00edmica de v\u00e1rios metais encontrados nos rejeitos, como ferro, mangan\u00eas e outros elementos potencialmente t\u00f3xicos. Isso nos d\u00e1 a oportunidade de avan\u00e7ar em estrat\u00e9gias mais adequadas para remedia\u00e7\u00e3o dessas \u00e1reas contaminadas. O ac\u00famulo desse conhecimento permite n\u00e3o s\u00f3 avan\u00e7ar na recupera\u00e7\u00e3o de regi\u00f5es degradadas como tamb\u00e9m na busca por estrat\u00e9gias de agrominera\u00e7\u00e3o, contribuindo com uma explora\u00e7\u00e3o mineral mais sustent\u00e1vel\u201d, explica \u00e0\u00a0<b>Ag\u00eancia FAPESP<\/b>\u00a0o professor\u00a0<strong><a href=\"https:\/\/bv.fapesp.br\/pt\/pesquisador\/45180\/tiago-osorio-ferreira\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Tiago Os\u00f3rio Ferreira<\/a><\/strong>, professor do Departamento de Ci\u00eancia do Solo da Esalq-USP e orientador do trabalho.<\/p>\n<p>Por meio da t\u00e9cnica de fitorremedia\u00e7\u00e3o, \u00e9 poss\u00edvel reduzir o impacto em \u00e1reas afetadas por min\u00e9rios removendo partes das plantas que acumulam esses componentes.<\/p>\n<p>J\u00e1 a agrominera\u00e7\u00e3o consiste no uso de estrat\u00e9gias agron\u00f4micas para cultivar plantas com capacidade de extra\u00e7\u00e3o de metais e depois, a partir da biomassa dessa vegeta\u00e7\u00e3o, concentrar aquele componente, diminuindo o impacto ambiental.<\/p>\n<p>Atualmente, essa t\u00e9cnica \u00e9 pouco usada no mundo, tendo alguns trabalhos em andamento na Austr\u00e1lia, por exemplo.<\/p>\n<p>A pesquisa recebeu apoio da FAPESP por meio de cinco projetos (<strong><a href=\"https:\/\/bv.fapesp.br\/pt\/bolsas\/188617\/plantas-estuarinas-e-seu-controle-na-biogeoquimica-de-metais-em-solos-impactados-pelo-desastre-de-m\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">19\/14800-5<\/a><\/strong>,\u00a0<strong><a href=\"https:\/\/bv.fapesp.br\/pt\/bolsas\/184215\/biogeoquimica-de-ferro-e-seu-controle-sobre-a-dinamica-de-metais-traco-nos-solos-do-estuario-do-rio\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">18\/04259-2<\/a><\/strong>,\u00a0<strong><a href=\"https:\/\/bv.fapesp.br\/pt\/bolsas\/197834\/de-drenos-a-emissores-vulnerabilidade-de-solos-de-mangue-como-sumidouros-de-carbono-frente-as-mudanc\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">21\/00221-3<\/a><\/strong>,\u00a0<strong><a href=\"https:\/\/bv.fapesp.br\/pt\/auxilios\/106554\/solos-e-plantas-do-estuario-do-rio-doce-e-seu-controle-sobre-a-biogeoquimica-de-ferro-e-metais-em-re\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">19\/19987-6<\/a><\/strong>\u00a0e\u00a0<strong><a href=\"https:\/\/bv.fapesp.br\/pt\/auxilios\/103535\/estudos-comparativos-de-transformacoes-minerais-de-nanoparticulas-de-oxidos-de-ferro-em-solos-e-sedi\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">18\/08408-2<\/a><\/strong>) e \u00e9 parte do doutorado de\u00a0<strong><a href=\"https:\/\/bv.fapesp.br\/pt\/pesquisador\/706318\/amanda-duim-ferreira\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Amanda Duim Ferreira<\/a><\/strong>, primeira autora do artigo.<\/p>\n<p>\u201cJ\u00e1 sab\u00edamos por meio de trabalhos de outros pesquisadores que o mangan\u00eas \u00e9 um problema na regi\u00e3o, com a contamina\u00e7\u00e3o de \u00e1gua, solo e peixes. <span style=\"color: var(--wpex-text-2); font-family: var(--wpex-body-font-family, var(--wpex-font-sans));\">Ao fazer o estudo voltado \u00e0 an\u00e1lise da \u00e1rea impactada pelo rejeito rico em ferro, imaginamos que a taboa e o junco [<\/span><i style=\"color: var(--wpex-text-2); font-family: var(--wpex-body-font-family, var(--wpex-font-sans));\">Eleocharis acutangula<\/i><span style=\"color: var(--wpex-text-2); font-family: var(--wpex-body-font-family, var(--wpex-font-sans));\">] acumulariam mais mangan\u00eas do que o hibisco, outra esp\u00e9cie arb\u00f3rea presente no local.\u00a0<\/span>Mas os resultados apontaram que a taboa chega a acumular 13 vezes mais mangan\u00eas na parte a\u00e9rea do que as outras duas esp\u00e9cies.\u00a0J\u00e1 nas ra\u00edzes, e por meio do mecanismo de placas de ferro [adapta\u00e7\u00e3o fisiol\u00f3gica da planta que leva \u00e0 precipita\u00e7\u00e3o do \u00f3xido de ferro e \u00e0\u00a0forma\u00e7\u00e3o de placas], o resultado teve menos impacto\u201d, afirma Duim Ferreira, que tamb\u00e9m foi a primeira autora do trabalho publicado em janeiro no\u00a0<i>Journal of Hazardous Materials<\/i>.<\/p>\n<p>De acordo com o estudo atual, o ac\u00famulo de mangan\u00eas nas ra\u00edzes e placas de ferro da taboa foi de 18 mg\/kg e 55 mg\/kg, respectivamente.<\/p>\n<p>Plantas adaptadas a ambientes alagados capturam o oxig\u00eanio da atmosfera por meio da parte a\u00e9rea, levando-o at\u00e9 a raiz por espa\u00e7os porosos (aer\u00eanquimas).<\/p>\n<p>Essa oxigena\u00e7\u00e3o mant\u00e9m o sistema radicular, respons\u00e1vel pela fixa\u00e7\u00e3o, al\u00e9m da absor\u00e7\u00e3o de \u00e1gua e de sais minerais.<\/p>\n<p>A absor\u00e7\u00e3o de mat\u00e9ria org\u00e2nica pelas plantas favorece a dissolu\u00e7\u00e3o de \u00f3xidos de mangan\u00eas e a libera\u00e7\u00e3o de pr\u00f3tons pode desencadear a dissolu\u00e7\u00e3o do carbonato de mangan\u00eas.<\/p>\n<p>Por outro lado, as plantas aqu\u00e1ticas tamb\u00e9m podem oxidar suas rizosferas (regi\u00e3o onde o solo e as ra\u00edzes entram em contato) devido ao transporte interno de oxig\u00eanio. Esse processo pode diminuir a biodisponibilidade de mangan\u00eas.<\/p>\n<h3>M\u00e9todo<\/h3>\n<p>Para realizar a pesquisa foram determinados par\u00e2metros f\u00edsico-qu\u00edmicos do solo (pH rizosf\u00e9rico, pH do solo e potencial redox) e o teor de carbono org\u00e2nico total, al\u00e9m da extra\u00e7\u00e3o de mangan\u00eas em locais naturalmente vegetados pelas tr\u00eas esp\u00e9cies de plantas.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m foi realizado o fracionamento geoqu\u00edmico do metal nos solos estudados.<\/p>\n<p>A concentra\u00e7\u00e3o de mangan\u00eas foi determinada em cada compartimento da planta \u2013 ra\u00edzes, parte a\u00e9rea e placas de ferro.<\/p>\n<p>Foram estabelecidos fatores de bioconcentra\u00e7\u00e3o e transloca\u00e7\u00e3o, avaliando assim a capacidade da vegeta\u00e7\u00e3o de atuar como hiperacumuladora de mangan\u00eas e seu potencial uso em programas de fitorremedia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cEsses resultados abrem um leque de possibilidades para o uso da fitorremedia\u00e7\u00e3o. Conhecendo esses mecanismos de absor\u00e7\u00e3o, \u00e9 poss\u00edvel cultivar a taboa usando diferentes estrat\u00e9gias agron\u00f4micas conhecidas para obter os melhores resultados. Sa\u00edmos do escopo da fitorremedia\u00e7\u00e3o para a agrominera\u00e7\u00e3o. \u00c9 nisso que estamos trabalhando\u201d, complementa o professor, que coordena o\u00a0<strong><a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/gepgeoq\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Grupo de Estudo e Pesquisa em Geoqu\u00edmica de Solos<\/a><\/strong>\u00a0da Esalq.<\/p>\n<p>Agora Duim Ferreira, que est\u00e1 fazendo est\u00e1gio na Carolina do Norte (Estados Unidos), trabalha na pesquisa de t\u00e9cnicas agron\u00f4micas para o plantio de taboa visando aproveitar o potencial fitorremediador da planta.<\/p>\n<p>\u201cEstamos aplicando diversas t\u00e9cnicas agron\u00f4micas com base no que j\u00e1 sabemos sobre o per\u00edodo de plantio, \u00e9poca mais adequada, n\u00famero de cortes por ano para aumentar o potencial de produ\u00e7\u00e3o de biomassa da taboa e remo\u00e7\u00e3o de mangan\u00eas e ferro\u201d, diz a pesquisadora.<\/p>\n<p>Segundo ela, a taboa continua acumulando grandes quantidades de metais mesmo ao longo dos anos \u2013 j\u00e1 foram realizadas coletas no estu\u00e1rio em 2019, agosto de 2021 e fevereiro deste ano.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Luciana Constantino &#8211; Ag\u00eancia FAPESP \u2013\u00a0 13 de outubro de 2022\u00a0 &#8211;\u00a0 Pesquisadores da Esalq-USP e colaboradores mostraram que a taboa \u00e9 capaz de retirar de solos contaminados at\u00e9 34 vezes mais mangan\u00eas do que outras plantas encontradas em ambientes semelhantes (foto: Wikimedia Commons) A taboa, uma vegeta\u00e7\u00e3o aqu\u00e1tica de aproximadamente 2,5 metros de&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":35168,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[90,114,71],"post_series":[],"class_list":["post-35167","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-geral","tag-ambiente-ambiental-environment-environmental-meio-ambiente","tag-residuos","tag-sustentabilidade-viver-sustentavelmente-consumo-sustentavel","entry","has-media"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v25.2 - 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