{"id":36444,"date":"2023-10-19T07:30:16","date_gmt":"2023-10-19T10:30:16","guid":{"rendered":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=36444"},"modified":"2023-10-17T12:45:33","modified_gmt":"2023-10-17T15:45:33","slug":"agua-a-38c-peixe-podre-e-jacare-morto-cientistas-mostram-colapso-no-amazonas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/agua-a-38c-peixe-podre-e-jacare-morto-cientistas-mostram-colapso-no-amazonas\/","title":{"rendered":"\u00c1gua a 38\u00b0C, peixe podre e jacar\u00e9 morto: cientistas mostram colapso no AMAZONAS"},"content":{"rendered":"<p>Por\u00a0<span data-v-570cc172=\"\"><span class=\"solar-author-name\" data-v-570cc172=\"\">Susana Braz-Mota e Tiago da Mota e Silva, de Manaus (AM)* &#8211; UOL- <\/span><\/span><span style=\"color: var(--wpex-text-2); font-family: var(--wpex-body-font-family, var(--wpex-font-sans));\">Colabora\u00e7\u00e3o para a coluna de Rodrigo Ratier, em Ecoa &#8211; 17 de outubro de 2023 &#8211; <\/span><span style=\"font-size: 14px;\"><em><span style=\"color: var(--wpex-text-2); font-family: var(--wpex-body-font-family, var(--wpex-font-sans));\">Ao fim de setembro e nas primeiras semanas de outubro, uma paisagem entristecedora se tornou mais comum nos arredores de Manaus, a capital do Amazonas.<\/span><\/em><\/span><\/p>\n<p>Locais onde antes havia abund\u00e2ncia de \u00e1guas est\u00e3o, neste instante, secos, cobertos apenas por lama ou por barro.<\/p>\n<p>Bancos de areia surgem no encontro dos rios Negro e Solim\u00f5es-Amazonas, onde at\u00e9 pouco tempo atr\u00e1s turistas fotografavam a imensid\u00e3o do que mais parecia um mar.<\/p>\n<p>Conforme as \u00e1guas desaparecem, cad\u00e1veres em putrefa\u00e7\u00e3o de peixes de diferentes esp\u00e9cies, jacar\u00e9s, botos e tracaj\u00e1s v\u00e3o ficando em seu lugar.<\/p>\n<p>No dia 10 de Outubro, uma equipe do Laborat\u00f3rio de Ecofisiologia Molecular do Instituto Nacional de Pesquisas da Amaz\u00f4nica (LEEM-INPA) foi ao munic\u00edpio de Careiro Castanho, a cerca de 80 km de Manaus, para monitorar a situa\u00e7\u00e3o da seca.<\/p>\n<p>Por l\u00e1, lagos menores j\u00e1 est\u00e3o completamente secos, trazendo impactos significativos \u00e0s comunidades ribeirinhas, que dependem dos rios para o transporte.<\/p>\n<p>Para se ter uma no\u00e7\u00e3o, crian\u00e7as da comunidade j\u00e1 n\u00e3o est\u00e3o indo para escola, por conta do baixo n\u00edvel das \u00e1guas.<\/p>\n<p>Onde estavam lagos, h\u00e1 agora muitos peixes mortos.<\/p>\n<p>A equipe realizou medi\u00e7\u00f5es na \u00e1gua e encontraram pontos com temperatura superior a 38\u00baC (a m\u00e9dia fica entre 28\u00baC e 30\u00baC e n\u00edveis baixos de concentra\u00e7\u00e3o de oxig\u00eanio (que os peixes respiram),<span style=\"color: var(--wpex-text-2); font-family: var(--wpex-body-font-family, var(--wpex-font-sans));\"> na casa dos 0,5 mg de O2 por litro, um n\u00famero terrivelmente perto de zero.<\/span><\/p>\n<p>Essa situa\u00e7\u00e3o representa um risco sem precedentes para os ecossistemas aqu\u00e1ticos amaz\u00f4nicos, podendo resultar em redu\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o de diversas esp\u00e9cies e at\u00e9 mesmo extin\u00e7\u00e3o de algumas.<\/p>\n<p>Isso porque a exposi\u00e7\u00e3o constante \u00e0 alta temperatura pode ser letal para muitos animais, que est\u00e3o vivendo pr\u00f3ximos do limite da sua capacidade de se adaptar a esse calor.<\/p>\n<p>Segundo as medi\u00e7\u00f5es do porto de Manaus, ao longo do m\u00eas de setembro, o rio Negro, que banha a capital amazonense, secou mais de 20 cm por dia. Em outubro, os n\u00fameros est\u00e3o melhorando, chegando a 13 cm de vaz\u00e3o, mas a seca persiste e, hoje, j\u00e1 \u00e9 a segunda maior da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Na \u00faltima segunda-feira (16), o Rio Negro chegou a sua maior baixa registrada, a um n\u00edvel de 13,59 metros.<\/p>\n<p data-v-16434e43=\"\"><a style=\"font-family: var(--wpex-body-font-family, var(--wpex-font-sans));\" href=\"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/seca-na-amazonia_1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-36450\" src=\"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/seca-na-amazonia_1.jpg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"449\" srcset=\"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/seca-na-amazonia_1.jpg 750w, https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/seca-na-amazonia_1-300x168.jpg 300w, https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/seca-na-amazonia_1-600x337.jpg 600w\" sizes=\"(max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><\/a><\/p>\n<p data-v-16434e43=\"\"><span style=\"font-size: 14px;\"><em>Banco de areia no famoso encontro das \u00e1guas dos rios Negro e Solim\u00f5es. Imagem: Susana Braz-Mota<\/em><\/span><\/p>\n<p>Ocorre que o rio j\u00e1 secou a n\u00edveis que se esperam para toda a esta\u00e7\u00e3o seca, que geralmente vai at\u00e9 novembro, indicando que h\u00e1 chances de se quebrar um recorde nas pr\u00f3ximas semanas. \u00c9 seguro afirmar: o Amazonas est\u00e1 vivendo um fen\u00f4meno clim\u00e1tico extremo.<\/p>\n<h3 class=\"bullet\">Vida aqu\u00e1tica em risco<\/h3>\n<p><a href=\"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/seca-na-amazonia_2.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-36449\" src=\"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/seca-na-amazonia_2.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"600\" srcset=\"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/seca-na-amazonia_2.jpg 450w, https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/seca-na-amazonia_2-225x300.jpg 225w\" sizes=\"(max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14px;\"><em>Lama\u00e7al e rios secos na regi\u00e3o de Careiro Castanho (AM). Popula\u00e7\u00f5es ribeirinhas j\u00e1 n\u00e3o conseguem se locomover com seus barcos. Imagem: Susana Braz-Mota<\/em><\/span><\/p>\n<p>Como \u00e9 bem sabido, a regi\u00e3o amaz\u00f4nica abriga a maior bacia hidrogr\u00e1fica do mundo, com cerca de 1700 rios.<\/p>\n<p>Essas \u00e1guas se espalham por outros milhares de igarap\u00e9s &#8211; pequenos canais, ou rios menores &#8211; que, por sua vez, levam nutrientes para dentro das florestas.<\/p>\n<p>Nessa soma impressionante de \u00e1gua habitam cerca de 20% da variedade de peixes de \u00e1gua doce do planeta, al\u00e9m, \u00e9 claro, de outros organismos, como insetos, sapos, botos, peixes-boi, ariranhas, jacar\u00e9s, cobras, tartarugas etc.<\/p>\n<p dir=\"ltr\" data-v-16434e43=\"\"><a href=\"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/seca-na-amazonia_3.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-36448\" src=\"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/seca-na-amazonia_3.jpg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"449\" srcset=\"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/seca-na-amazonia_3.jpg 750w, https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/seca-na-amazonia_3-300x168.jpg 300w, https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/seca-na-amazonia_3-600x337.jpg 600w\" sizes=\"(max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><\/a><\/p>\n<p dir=\"ltr\" data-v-16434e43=\"\"><span style=\"font-size: 14px;\"><em>Jacar\u00e9 morto em lago seco na regi\u00e3o de Careiro Castanho (AM). Imagem: Susana Braz-Mota<\/em><\/span><\/p>\n<p>A intera\u00e7\u00e3o dessas esp\u00e9cies com seus habitats permite que a Amaz\u00f4nia preste servi\u00e7os ecossist\u00eamicos importantes para todo o continente: a evapotranspira\u00e7\u00e3o das \u00e1rvores cria &#8220;rios voadores&#8221; que levam umidade e \u00e1gua doce para outras bacias hidrogr\u00e1ficas.<\/p>\n<p>E o g\u00e1s carb\u00f4nico, um dos respons\u00e1veis pelo aquecimento do planeta, \u00e9 absorvido pelas plantas, estocado no solo, dissolvido nos rios ou acumulado em turfas.<\/p>\n<p>Os peixes da Amaz\u00f4nia t\u00eam um papel ecossist\u00eamico importante para a floresta.<\/p>\n<p>Eles s\u00e3o dispersores de sementes, por exemplo, e seus fluxos migrat\u00f3rios entre rios de tipos de \u00e1gua diferentes carregam nutrientes de algumas \u00e1reas para outras.<\/p>\n<p>Essas esp\u00e9cies de peixes, assim como tantas outras formas de vida, estar\u00e3o diante de desafios agigantados nos pr\u00f3ximos anos.<\/p>\n<p>Segundo dados do Painel Intergovernamental de Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas da ONU (IPCC), espera-se um aumento de at\u00e9 7\u00baC na temperatura m\u00e9dia na regi\u00e3o Amaz\u00f4nica neste s\u00e9culo, num cen\u00e1rio extremo de maior concentra\u00e7\u00e3o de gases de efeito estufa na atmosfera.<\/p>\n<p>\u00c1guas mais quentes s\u00e3o um estressor significativo diretamente relacionado \u00e0 maior mortalidade de peixes na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Per\u00edodos como este, de seca intensa e aumento das temperaturas das \u00e1guas, est\u00e3o associados \u00e0 menor disponibilidade de oxig\u00eanio nos rios &#8211; o que cientistas chamam de hip\u00f3xia.<\/p>\n<p>Temperatura alta e hip\u00f3xia s\u00e3o uma soma de fatores altamente estressante para muitos peixes amaz\u00f4nicos: quanto mais quente, mais intensos ficam seus metabolismos que, por sua vez, requerem mais oxig\u00eanio, demandando uma grande quantidade de energia do animal.<\/p>\n<p data-v-16434e43=\"\"><a href=\"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/seca-na-amazonia_4.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-36447\" src=\"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/seca-na-amazonia_4.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/seca-na-amazonia_4.jpg 450w, https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/seca-na-amazonia_4-300x300.jpg 300w, https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/seca-na-amazonia_4-150x150.jpg 150w, https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/seca-na-amazonia_4-100x100.jpg 100w\" sizes=\"(max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p data-v-16434e43=\"\"><span style=\"font-size: 14px;\"><em>Peixes em decomposi\u00e7\u00e3o atraem gar\u00e7as e urubus. Imagem: Susana Braz-Mota.<\/em><\/span><\/p>\n<p class=\"bullet\" data-v-16434e43=\"\">Uma <a href=\"https:\/\/pubmed.ncbi.nlm.nih.gov\/32818889\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">pesquisa<\/a> testou uma exposi\u00e7\u00e3o de 10 dias a um habitat com essas condi\u00e7\u00f5es em 13 esp\u00e9cies de peixes amaz\u00f4nicos.<\/p>\n<p>Destas, duas morreram em at\u00e9 33\u00baC.<\/p>\n<p>Para outras nove, 35\u00baC foram letais e apenas duas sobreviveram a temperaturas acima disso.<\/p>\n<p>Repetindo: a equipe do LEEM-INPA encontrou pontos em que a \u00e1gua estava em 38\u00baC.<\/p>\n<p>J\u00e1 no lago de Tef\u00e9, a 521 quil\u00f4metros de Manaus, onde foram encontrados mais de 100 botos mortos, as medi\u00e7\u00f5es realizadas pelo Instituto Mamirau\u00e1 registraram temperaturas das \u00e1guas superiores aos 39\u00baC.<\/p>\n<p>Ocorre que os peixes da regi\u00e3o s\u00e3o menos tolerantes a aumentos de temperatura em compara\u00e7\u00e3o com animais subtropicais ou de regi\u00f5es temperadas, por exemplo.<\/p>\n<p class=\"bullet\" data-v-16434e43=\"\">Outra <a href=\"https:\/\/www.sciencedirect.com\/science\/article\/abs\/pii\/S1470160X1930069X#ab005\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">pesquisa<\/a> trabalhou com tr\u00eas esp\u00e9cies de peixes ornamentais da Amaz\u00f4nia e descobriu grande estresse oxidativo e at\u00e9 mesmo deforma\u00e7\u00f5es fisiol\u00f3gicas em cen\u00e1rios extremos de aquecimento global, segundo o IPCC, com a ajuda de equipamentos que simulam ambientes com temperaturas 4,5\u00baC mais altas que as atuais e com maior concentra\u00e7\u00e3o de g\u00e1s carb\u00f4nico na atmosfera.<\/p>\n<p>Tudo isso permite afirmar que, neste instante, em meio \u00e0 seca, muitos dos peixes da Amaz\u00f4nia j\u00e1 se encontram em severo risco.<\/p>\n<p>Hoje, os peixes. Amanh\u00e3, o ser humano<\/p>\n<p>A esta altura, algu\u00e9m que l\u00ea este texto pode at\u00e9 se perguntar: e por que devo me importar com os peixes?<\/p>\n<p>E a situa\u00e7\u00e3o das pessoas, n\u00e3o \u00e9 muito pior?<\/p>\n<p>A pergunta \u00e9 justa, e a resposta vem na forma de outra pergunta: por que dever\u00edamos trat\u00e1-los como quest\u00f5es distintas, n\u00e3o relacionadas?<\/p>\n<p>A bacia amaz\u00f4nica \u00e9 um forte exemplo de como humanos e outros organismos, em um mesmo habitat, mant\u00eam importantes correla\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Quando um vai mal, os outros tamb\u00e9m v\u00e3o.<\/p>\n<p>Se as fun\u00e7\u00f5es ecol\u00f3gicas dos peixes em carregar nutrientes e sementes pela floresta n\u00e3o s\u00e3o o suficiente para convencer de sua import\u00e2ncia para o bem-estar humano, h\u00e1 ainda um segundo argumento: alimenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A regi\u00e3o amaz\u00f4nica \u00e9 conhecida como uma das maiores consumidoras de peixe do mundo, com uma ingest\u00e3o de 135 a 292 quilos de peixe por ano e por pessoa, de acordo com a Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para Alimenta\u00e7\u00e3o e Agricultura (FAO).<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, o pescado na Amaz\u00f4nia Legal resulta em valor econ\u00f4mico na ordem dos 389 milh\u00f5es de reais anualmente, com comunidades que dependem da pesca para consumo pr\u00f3prio e para o com\u00e9rcio.<\/p>\n<p>O tambaqui \u00e9 um dos peixes mais apreciados por aqui, chegando \u00e0 casa de 400 toneladas consumidas por ano s\u00f3 em Manaus.<\/p>\n<p>Tambaquis s\u00e3o campe\u00f5es de adaptabilidade e, por esse motivo, s\u00e3o amplamente cultivados em fazendas de aquicultura.<\/p>\n<p>Acostumado a viver nas \u00e1guas mais \u00e1cidas e naturalmente com menor disponibilidade de oxig\u00eanio, esse peixe desenvolveu l\u00e1bios inferiores capazes de capturar oxig\u00eanio da superf\u00edcie das \u00e1guas nos per\u00edodos de estiagem, algo que o tornou mais resiliente \u00e0s mudan\u00e7as no clima.<\/p>\n<p>Outro exemplo de resili\u00eancia \u00e9 o pirarucu, um gigante pode chegar a 3 metros de comprimento, que possui uma bexiga natat\u00f3ria especializada para funcionar como um pulm\u00e3o, tornando-o capaz de respira\u00e7\u00e3o a\u00e9rea em tempos dif\u00edceis.<\/p>\n<p>Mas mesmo algumas dessas capacidades extraordin\u00e1rias de adapta\u00e7\u00e3o n\u00e3o parecem ser o bastante para resistir a um cen\u00e1rio extremo que se d\u00e1 num per\u00edodo de tempo t\u00e3o curto.<\/p>\n<p>Nos experimentos mencionados anteriormente, mesmo as esp\u00e9cies que sobreviveram \u00e0s altas temperaturas demonstraram preju\u00edzos de longo prazo em suas fun\u00e7\u00f5es metab\u00f3licas e respirat\u00f3rias.<\/p>\n<p class=\"bullet\" data-v-16434e43=\"\">Para o <a href=\"https:\/\/www.sciencedirect.com\/science\/article\/pii\/S0044848621004993?casa_token=ql--ab37SQIAAAAA:uuBe9si7SoKTWrAL7l1BpJx0iW4MJ0GNwcS9Fn8OqjWzrC-AvgiTo2PoHOAVxKtO1QAyVbB-Cnk\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">tambaqui<\/a>, maiores temperaturas, por exemplo, \u00e9 um dos fatores que o conduz a inflama\u00e7\u00f5es ou infec\u00e7\u00f5es mais frequentes, tornando-os menos resilientes.<\/p>\n<p class=\"bullet\" data-v-16434e43=\"\">A seca apenas demonstra na pr\u00e1tica o que seria a vida em condi\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas mais adversas, mais quentes e com esta\u00e7\u00f5es secas mais longas.<\/p>\n<p class=\"bullet\" data-v-16434e43=\"\">Para popula\u00e7\u00f5es que dependem tanto do pescado, isso j\u00e1 representa, hoje, um risco significativo \u00e0 seguran\u00e7a alimentar de toda a regi\u00e3o \u00e0 sua capacidade de escolher como e do que querem se alimentar.<\/p>\n<h3 class=\"bullet\">Quais s\u00e3o as causas da seca?<\/h3>\n<p><a href=\"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/seca-na-amazonia_5.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-36446\" src=\"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/seca-na-amazonia_5.jpg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"449\" srcset=\"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/seca-na-amazonia_5.jpg 750w, https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/seca-na-amazonia_5-300x168.jpg 300w, https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/seca-na-amazonia_5-600x337.jpg 600w\" sizes=\"(max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><\/a><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14px;\"><em>Queimadas como esta, ao longo da BR-319, deixaram o c\u00e9u de Manaus coberto de fuma\u00e7a na semana passada. O tempo seco facilita que o fogo se alastre mata adentro. Imagem: Susana Braz-Mota.<\/em><\/span><\/p>\n<p>Este \u00e9 um ano de El Ni\u00f1o, o fen\u00f4meno clim\u00e1tico que torna as \u00e1guas do Oceano Pac\u00edfico mais quentes.<\/p>\n<p>Todo El Ni\u00f1o cria condi\u00e7\u00f5es de seca e temperaturas mais elevadas no Brasil, especialmente no Norte e no Nordeste, como tamb\u00e9m ocorreu da \u00faltima vez, em 2016.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, outros fatores se somam ao El Ni\u00f1o deste ano, explicando a atual situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O Oceano Atl\u00e2ntico tamb\u00e9m est\u00e1 ficando mais quente, e este fato pode estar ligado ao aquecimento global devido \u00e0 emiss\u00e3o de gases de efeito estufa, como o di\u00f3xido de carbono.<\/p>\n<p>Com isso, ventos quentes e secos chegam \u00e0 regi\u00e3o amaz\u00f4nica, dificultando ainda mais a forma\u00e7\u00e3o da chuva.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a degrada\u00e7\u00e3o da floresta tamb\u00e9m \u00e9 um fator que participa desta crise.<\/p>\n<p>Desmatamentos e queimadas perturbam o processo de evapotranspira\u00e7\u00e3o das florestas, aquele mesmo que forma os &#8220;rios voadores&#8221; anteriormente mencionados.<\/p>\n<p>Isto acaba por atrasar o per\u00edodo de chuvas e, consequentemente, prolonga a estiagem.<\/p>\n<p>Estima-se que 28% da umidade que entra no sistema amaz\u00f4nico seja evaporada localmente, pela pr\u00f3pria floresta. Logo, menos floresta tamb\u00e9m quer dizer menos umidade.<\/p>\n<p>A atual seca, portanto, demonstra o quanto a regi\u00e3o pode ser afetada se pol\u00edticas p\u00fablicas de conserva\u00e7\u00e3o n\u00e3o forem fortalecidas nos pr\u00f3ximos anos.<\/p>\n<p>O horizonte n\u00e3o \u00e9 animador e exige do pa\u00eds a\u00e7\u00f5es estrat\u00e9gicas e coordenadas. Afinal, um estudo publicado pela organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o-governamental Carbon Plan aponta que Manaus ser\u00e1 a cidade mais quente do Brasil em 2050, com 258 dias do ano em temperaturas m\u00ednimas acima dos 30 graus \u2014 e isso representar\u00e1 maiores taxas de mortalidade na fauna e na flora.<\/p>\n<h3 class=\"bullet\">E o que fazer?<\/h3>\n<p class=\"bullet\" dir=\"ltr\" data-v-16434e43=\"\">No curto prazo, \u00e9 poss\u00edvel apoiar iniciativas que oferecem assist\u00eancia \u00e0s fam\u00edlias impactadas pela seca.<\/p>\n<p>Por exemplo, o Conselho Nacional das Popula\u00e7\u00f5es Extrativistas (CNS) est\u00e1 recebendo contribui\u00e7\u00f5es para compra de cestas b\u00e1sicas, \u00e1gua, suprimentos de higiene e itens essenciais pela chave pix CNPJ 06.214.337\/0001-88.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m a Igreja Presbiteriana de Manaus organiza a campanha SOS Seca Amazonas, para distribuir cestas b\u00e1sicas, e recebe contribui\u00e7\u00f5es via pix com a chave 92 99132-9664.<\/p>\n<p>No m\u00e9dio e no longo prazo, por\u00e9m, as solu\u00e7\u00f5es s\u00e3o mais complexas, envolvendo pol\u00edticas de conserva\u00e7\u00e3o e um novo modelo de desenvolvimento para regi\u00e3o que n\u00e3o seja baseado na devasta\u00e7\u00e3o da floresta.<\/p>\n<p>Com isso, pr\u00f3ximos eventos como o El Ni\u00f1o n\u00e3o seriam agravados pela degrada\u00e7\u00e3o dos territ\u00f3rios por desmatamento ou por queimadas.<\/p>\n<p>Em 2021, o Painel Cient\u00edfico para a Amaz\u00f4nia, que re\u00fane cientistas das mais diversas especialidades, publicou um <a href=\"https:\/\/www.theamazonwewant.org\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">relat\u00f3rio extenso<\/a> sobre a situa\u00e7\u00e3o dos biomas amaz\u00f4nicos e com diversas sugest\u00f5es de pol\u00edticas para a regi\u00e3o, incluindo op\u00e7\u00f5es de restaura\u00e7\u00e3o de \u00e1reas degradadas pelo fogo.<\/p>\n<p class=\"bullet\" data-v-16434e43=\"\">J\u00e1 em 2022, uma outra equipe de cientistas liderada por Carlos Nobre publicou o relat\u00f3rio <a href=\"https:\/\/www.wribrasil.org.br\/nova-economia-da-amazonia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Nova Economia da Amaz\u00f4nia<\/a>.<\/p>\n<p class=\"bullet\" data-v-16434e43=\"\">Nele, os especialistas desenham os benef\u00edcios de se abandonar um modelo extrativista de explora\u00e7\u00e3o da floresta e abra\u00e7ar uma economia baseada em produtos e saberes locais.<\/p>\n<p>O estudo prev\u00ea, por\u00e9m, que uma guinada de investimentos deve ser feita na Amaz\u00f4nia Legal da ordem de 1,5% do PIB por ano, at\u00e9 2050, para criar uma economia desse tipo.<\/p>\n<p>A maior parte desses investimentos iriam para otimiza\u00e7\u00e3o do uso do solo, evitando, assim, novos desmatamentos e queimadas.<\/p>\n<p><em>* Susana Braz-Mota \u00e9 p\u00f3s-doutoranda em Ci\u00eancias Biol\u00f3gicas pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amaz\u00f4nia (INPA). Tiago da Mota e Silva \u00e9 jornalista e doutor em Comunica\u00e7\u00e3o PUC-SP, atualmente desenvolvendo um projeto de Comunica\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica junto ao Instituto Nacional de Ci\u00eancia e Tecnologia ADAPTA, sediado no INPA.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por\u00a0Susana Braz-Mota e Tiago da Mota e Silva, de Manaus (AM)* &#8211; UOL- Colabora\u00e7\u00e3o para a coluna de Rodrigo Ratier, em Ecoa &#8211; 17 de outubro de 2023 &#8211; Ao fim de setembro e nas primeiras semanas de outubro, uma paisagem entristecedora se tornou mais comum nos arredores de Manaus, a capital do Amazonas. 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