{"id":37598,"date":"2024-11-06T17:05:14","date_gmt":"2024-11-06T20:05:14","guid":{"rendered":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=37598"},"modified":"2024-11-06T17:05:14","modified_gmt":"2024-11-06T20:05:14","slug":"as-conexoes-que-perdemos-quando-uma-arvore-desaparece","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/as-conexoes-que-perdemos-quando-uma-arvore-desaparece\/","title":{"rendered":"As conex\u00f5es que perdemos quando uma \u00e1rvore desaparece"},"content":{"rendered":"<p>Por <span class=\"author vcard\"><a class=\"url fn n\" href=\"https:\/\/infoamazonia.org\/author\/sergio-silva-numa\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Sergio Silva Numa<\/a> &#8211; <\/span><a style=\"background-color: var(--wpex-surface-1); font-family: var(--wpex-body-font-family, var(--wpex-font-sans));\" href=\"https:\/\/www.elespectador.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">El Espectador<\/a> &#8211; InfoAmazonia &#8211; <span style=\"background-color: var(--wpex-surface-1); color: var(--wpex-text-2); font-family: var(--wpex-body-font-family, var(--wpex-font-sans));\">21 outubro 2024 &#8211; <\/span><em><span style=\"font-size: 14px; color: var(--wpex-heading-color); font-family: var(--wpex-heading-font-family); letter-spacing: var(--wpex-heading-letter-spacing); text-transform: var(--wpex-heading-text-transform); background-color: var(--wpex-surface-1);\">A COP16, um dos eventos mais importantes sobre biodiversidade no mundo, ocorreu nesta semana em Cali, na Col\u00f4mbia. Enquanto isso, na Amaz\u00f4nia \u2014 uma das regi\u00f5es mais biodiversas do planeta, cada hectare de floresta derrubado representa a perda de 139 \u00e1rvores e, com elas, centenas de conex\u00f5es com outras esp\u00e9cies. Isso \u00e9 o que est\u00e1 em jogo. &#8211; <\/span><span style=\"background-color: var(--wpex-surface-1); color: var(--wpex-text-2); font-family: var(--wpex-body-font-family, var(--wpex-font-sans)); letter-spacing: var(--wpex-heading-letter-spacing); text-transform: var(--wpex-heading-text-transform); font-size: 14px;\">Ilustra\u00e7\u00f5es de \u00e1rvores da Amaz\u00f4nia colombiana feitas por Confucio Hern\u00e1ndez.<\/span><\/em><\/p>\n<p>Antes de decidirmos a capa da edi\u00e7\u00e3o impressa do \u201cEl Espectador\u201d, um dos maiores jornais da Col\u00f4mbia, deste domingo (20\/10\/2024), discutimos por v\u00e1rias horas sobre a melhor maneira de chamar a aten\u00e7\u00e3o para a import\u00e2ncia da biodiversidade.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil imaginar que, em meio a tantos an\u00fancios, f\u00f3runs, palestras virtuais, <em style=\"background-color: var(--wpex-surface-1); color: var(--wpex-text-2); font-family: var(--wpex-body-font-family, var(--wpex-font-sans)); font-size: 16px;\">reels<\/em><span style=\"background-color: var(--wpex-surface-1); color: var(--wpex-text-2); font-family: var(--wpex-body-font-family, var(--wpex-font-sans)); font-size: 16px;\"> no Instagram e threads no Twitter, mais de uma pessoa estar\u00e1 \u2014 ou j\u00e1 est\u00e1? \u2014 cansada de ouvir sobre biodiversidade, assim como das not\u00edcias desoladoras que a cercam.<\/span><\/p>\n<p>J\u00e1 estou saturado da COP, chega!\u201d, reclamava um colega quando contei que cinco colegas jornalistas do \u201cEl Espectador\u201d iriam viajar para a COP16, que come\u00e7ou nesta segunda-feira (21), em Cali.<\/p>\n<p>Algo semelhante frequentemente acontece com as pessoas ao se depararem com os n\u00fameros inquietantes da trag\u00e9dia que a Amaz\u00f4nia enfrenta.<\/p>\n<p>Outro colega, o jornalista e escritor Santiago Wills, expressou isso em uma coluna h\u00e1 algumas semanas:<\/p>\n<p>\u201cA Amaz\u00f4nia j\u00e1 morreu, ou pelo menos est\u00e1 pr\u00f3xima de passar <span class=\"tooltip-block\" style=\"background-color: var(--wpex-surface-1); color: var(--wpex-text-2); font-family: var(--wpex-body-font-family, var(--wpex-font-sans));\">o ponto de n\u00e3o retorno &#8211; <\/span><span style=\"font-size: 14px;\"><em><span style=\"background-color: var(--wpex-surface-1); color: var(--wpex-text-2); font-family: var(--wpex-body-font-family, var(--wpex-font-sans));\">O ponto de n\u00e3o retorno \u00e9 um limite ou situa\u00e7\u00e3o que, uma vez alcan\u00e7ado, n\u00e3o permite que o sistema volte ao estado anterior &#8211; <\/span><\/em><\/span><span style=\"background-color: var(--wpex-surface-1); color: var(--wpex-text-2); font-family: var(--wpex-body-font-family, var(--wpex-font-sans));\"><span style=\"font-size: 14px;\"><em>,<\/em><\/span> e eu n\u00e3o sei \u2014 os jornalistas n\u00e3o sabem \u2014 como fazer com que as pessoas se importem com isso\u201d.<\/span><\/p>\n<p>Assim, ap\u00f3s discutirmos sobre a capa e o primeiro texto da edi\u00e7\u00e3o de domingo, decidimos contar uma hist\u00f3ria que nos ajude a dimensionar o que est\u00e1 em jogo quando falamos em proteger a biodiversidade e a Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p>Afinal, este lugar \u00e9 um dos pontos mais biodiversos do planeta, como reiterou o Painel de Cientistas pela Amaz\u00f4nia (SPA) em seu \u00faltimo relat\u00f3rio.<\/p>\n<p>Essa hist\u00f3ria tem como protagonistas v\u00e1rias \u00e1rvores.<\/p>\n<p>As mesmas que est\u00e3o sendo perdidas enquanto voc\u00ea l\u00ea este relato.<\/p>\n<p>\u00c0 medida que voc\u00ea avan\u00e7a nessas linhas, \u00e1rvores est\u00e3o caindo em alguma floresta amaz\u00f4nica.<\/p>\n<p>Se precisar de n\u00fameros, entre 1985 e 2023, perdemos 88 milh\u00f5es de hectares, segundo o MapBiomas Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p>E, em cada hectare, desapareceram, em m\u00e9dia, 139 \u00e1rvores que levaram muitas d\u00e9cadas para crescer.<\/p>\n<p>Algumas dessas \u00e1rvores est\u00e3o nas fotos em destaque neste texto.<\/p>\n<p>Elas foram desenhadas pelos ind\u00edgenas Diego Guerrero Rom\u00e1n e Confucio Hern\u00e1ndez para que suas comunidades e n\u00f3s, os \u201cocidentais\u201d, lembremos que h\u00e1 uma riqueza na Amaz\u00f4nia que nem sequer conhecemos e que estamos perdendo.<\/p>\n<p>Carlos Rodr\u00edguez, diretor da \u201cTropenbos Colombia\u201d, uma organiza\u00e7\u00e3o que se concentra na prote\u00e7\u00e3o e manejo sustent\u00e1vel das florestas tropicais na Col\u00f4mbia, explica:<\/p>\n<p>\u201ccom a amplia\u00e7\u00e3o da fronteira agr\u00edcola, com o desmatamento e com a minera\u00e7\u00e3o ilegal, estamos destruindo a floresta sem conhec\u00ea-la. A cada dois ou tr\u00eas minutos, uma hectare est\u00e1 sendo queimada e nem sequer sabemos o que h\u00e1 nela. Isso \u00e9 uma grande vergonha, porque temos a biodiversidade, falamos o tempo todo sobre ela, mas n\u00e3o a conhecemos e tampouco a protegemos\u201d.<\/p>\n<p>Desde que come\u00e7aram a trabalhar com as comunidades ind\u00edgenas da Amaz\u00f4nia nos anos 80, a Tropenbos tem feito muitos esfor\u00e7os para resgatar o conhecimento dos povos amaz\u00f4nicos.<\/p>\n<p>Alguns anci\u00e3os ind\u00edgenas, diz Rodr\u00edguez, podiam nomear at\u00e9 mil esp\u00e9cies de \u00e1rvores, mas hoje os adultos lembram apenas de 50 a 80.<\/p>\n<p>\u00c9 raro que os mais jovens conhe\u00e7am mais de 20 esp\u00e9cies.<\/p>\n<p>Por isso, h\u00e1 uma d\u00e9cada, a Tropenbos iniciou conversas com os mais velhos para buscar alternativas pedag\u00f3gicas e evitar que esse conhecimento desapare\u00e7a junto com a floresta.<\/p>\n<p>Sem rodeios, encontraram no desenho e na coleta de amostras de \u00e1rvores uma maneira de \u201cpreservar esses saberes e comunic\u00e1-los\u201d entre as comunidades e entre n\u00f3s, os \u201cbrancos\u201d.<\/p>\n<p>\u201cFico impressionado que o tempo todo falamos de restaura\u00e7\u00e3o, mas nem sequer conhecemos a composi\u00e7\u00e3o ou a oferta de sementes de um hectare de floresta amaz\u00f4nica\u201d, acrescenta Rodr\u00edguez.<\/p>\n<p>Essa n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica coisa que surpreende Carlos Rodr\u00edguez, bi\u00f3logo e doutor em Ci\u00eancias Naturais.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m o surpreende que, ao mesmo tempo em que milhares de hectares de floresta s\u00e3o perdidos, n\u00e3o refletimos sobre as conex\u00f5es que est\u00e3o desaparecendo.<\/p>\n<p>As imagens a seguir \u2014 tamb\u00e9m de Confucio Hern\u00e1ndez, da etnia uitoto \u2014 mostram algumas dessas liga\u00e7\u00f5es que n\u00e3o vemos, mas que se perdem toda vez que uma \u00e1rvore cai ou \u00e9 queimada, como \u00e9 o caso do <span class=\"tooltip-block\">caimo &#8211;\u00a0<\/span><em>O caimo (nome cient\u00edfico: Cecropia) \u00e9 uma \u00e1rvore tropical conhecida por sua r\u00e1pida taxa de crescimento e suas folhas grandes e palmeadas. Pertence \u00e0 fam\u00edlia das Urticaceae e \u00e9 comum em regi\u00f5es tropicais, incluindo a Amaz\u00f4nia.<\/em><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/ipiccy_image-10.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-37599\" src=\"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/ipiccy_image-10.jpg\" alt=\"\" width=\"799\" height=\"492\" srcset=\"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/ipiccy_image-10.jpg 989w, https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/ipiccy_image-10-300x185.jpg 300w, https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/ipiccy_image-10-768x473.jpg 768w, https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/ipiccy_image-10-600x369.jpg 600w\" sizes=\"(max-width: 799px) 100vw, 799px\" \/><\/a><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14px;\"><em>Ilustra\u00e7\u00f5es que mostram algumas das conex\u00f5es ecol\u00f3gicas do caimo. Foto: Confucio Hern\u00e1ndez\/Cortesia Tropenbos Colombia.<\/em><\/span><\/p>\n<div class=\"main-content\">\n<article id=\"post-192855\" class=\"post-192855 post type-post status-publish format-standard has-post-thumbnail hentry category-biodiversidade category-colombia-2 category-desmatamento-pt category-indigenas category-noticias-pt tag-colombia-4-pt tag-cop16 tag-desmatamento-2-pt partner-el-espectador-2 entry\">\n<div class=\"entry-content\">\n<p>Os frutos do caimo silvestre alimentam a arara-vermelha e a arara-azul, al\u00e9m do macaco-esquilo e do churuco, outro primata.<\/p>\n<p>A borboleta monarca busca o n\u00e9ctar do fruto quando ele cai ao solo, mas, ao anoitecer, as rela\u00e7\u00f5es mudam. O <span class=\"tooltip-block\">caititu &#8211;\u00a0<\/span><span style=\"font-size: 14px;\"><em>O caititu, conhecido cientificamente como Tayassu tajacu, \u00e9 um mam\u00edfero da fam\u00edlia dos caititus (Tayassuidae) que se assemelha a um porco selvagem.<\/em><\/span> &#8211; <span style=\"background-color: var(--wpex-surface-1); color: var(--wpex-text-2); font-family: var(--wpex-body-font-family, var(--wpex-font-sans));\">come seus frutos, e a cobra verrugosa se aproxima de seu tronco em busca de outras presas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"background-color: var(--wpex-surface-1); color: var(--wpex-text-2); font-family: var(--wpex-body-font-family, var(--wpex-font-sans));\"> Isso acontece apenas em um per\u00edodo espec\u00edfico, durante a frutifica\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/article>\n<\/div>\n<p><a href=\"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/ipiccy_image-11-1024x601-1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-37600\" src=\"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/ipiccy_image-11-1024x601-1.jpg\" alt=\"\" width=\"799\" height=\"469\" srcset=\"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/ipiccy_image-11-1024x601-1.jpg 1024w, https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/ipiccy_image-11-1024x601-1-300x176.jpg 300w, https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/ipiccy_image-11-1024x601-1-768x451.jpg 768w, https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/ipiccy_image-11-1024x601-1-600x352.jpg 600w\" sizes=\"(max-width: 799px) 100vw, 799px\" \/><\/a><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14px;\"><em>Ilustra\u00e7\u00f5es que mostram algumas das conex\u00f5es ecol\u00f3gicas noturnas em torno do caimo. Foto: Confucio Hern\u00e1ndez\/Cortesia Tropenbos Colombia<\/em><\/span><\/p>\n<p><span style=\"background-color: var(--wpex-surface-1); color: var(--wpex-text-2); font-family: var(--wpex-body-font-family, var(--wpex-font-sans));\">Essas n\u00e3o s\u00e3o todas as conex\u00f5es que podem existir em torno de uma \u00e1rvore, obviamente. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"background-color: var(--wpex-surface-1); color: var(--wpex-text-2); font-family: var(--wpex-body-font-family, var(--wpex-font-sans));\">Como explica o <\/span><a style=\"background-color: var(--wpex-surface-1); font-family: var(--wpex-body-font-family, var(--wpex-font-sans));\" href=\"https:\/\/www.theamazonwewant.org\/spa_publication\/amazon-assessment-report-2021\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Painel Cient\u00edfico pela Amaz\u00f4nia<\/a><span style=\"background-color: var(--wpex-surface-1); color: var(--wpex-text-2); font-family: var(--wpex-body-font-family, var(--wpex-font-sans));\">, as intera\u00e7\u00f5es entre plantas e animais nessa regi\u00e3o s\u00e3o processos ecol\u00f3gicos centrais para a floresta.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"background-color: var(--wpex-surface-1); color: var(--wpex-text-2); font-family: var(--wpex-body-font-family, var(--wpex-font-sans));\"> Sem essas intera\u00e7\u00f5es, a biodiversidade deixaria de existir.<\/span><\/p>\n<div class=\"main-content\">\n<article id=\"post-192855\" class=\"post-192855 post type-post status-publish format-standard has-post-thumbnail hentry category-biodiversidade category-colombia-2 category-desmatamento-pt category-indigenas category-noticias-pt tag-colombia-4-pt tag-cop16 tag-desmatamento-2-pt partner-el-espectador-2 entry\">\n<div class=\"entry-content\">\n<p>Resumidamente, entre 80% e 90% das \u00e1rvores dependem dos animais para a dispers\u00e3o de sementes, enquanto at\u00e9 98% das plantas dependem deles para a poliniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cS\u00e3o redes de poliniza\u00e7\u00e3o muito diversas e complexas, que incluem uma ampla variedade de invertebrados e vertebrados e formam a base da reprodu\u00e7\u00e3o e perpetua\u00e7\u00e3o das florestas\u201d, <a href=\"https:\/\/www.theamazonwewant.org\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/Chapter-3-Bound-May-9.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">afirma um dos relat\u00f3rios<\/a> do painel.<\/p>\n<p>Assim como aves e morcegos dispersam sementes durante seus voos, h\u00e1 peixes que se tornam dispersores quando grandes \u00e1reas da floresta s\u00e3o sazonalmente inundadas.<\/p>\n<h3 id=\"h-uma-arvore-um-mundo\" class=\"wp-block-heading\">Uma \u00e1rvore, um mundo<\/h3>\n<p>Se quisermos analisar em mais detalhes a biodiversidade que estamos perdendo com o desaparecimento de uma \u00e1rvore na Amaz\u00f4nia, Fernando Fern\u00e1ndez, professor da Universidade Nacional e entom\u00f3logo (ou seja, especialista em insetos e outros artr\u00f3podes), apresenta um exemplo significativo: as abelhas do g\u00eanero <em>Exaerete <\/em>(Apidae) s\u00e3o respons\u00e1veis pela poliniza\u00e7\u00e3o das orqu\u00eddeas que crescem nas \u00e1rvores amaz\u00f4nicas. Mas, se essas abelhas come\u00e7arem a desaparecer, as orqu\u00eddeas tamb\u00e9m desaparecer\u00e3o, levando consigo esse grupo de abelhas.<\/p>\n<p>Algo semelhante acontece com o maior besouro do mundo, o <em>Titanus giganteus<\/em> (Cerambycidae), que pode atingir at\u00e9 18 cent\u00edmetros.<\/p>\n<p>O entom\u00f3logo e professor da U. Nacional, Juan Pablo Botero, destaca a conex\u00e3o maravilhosa que esse besouro tem com a Amaz\u00f4nia: acredita-se que suas larvas, ainda desconhecidas, se alimentam de ra\u00edzes.<\/p>\n<p>Quando os indiv\u00edduos s\u00e3o adultos, comem madeira viva ou em decomposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cQuando um tronco cai e morre, como acontece com esse besouro, muitos \u2018bichos\u2019, incluindo fungos e bact\u00e9rias, se alimentam da madeira e ajudam a devolver os nutrientes ao solo, permitindo o crescimento de novas plantas\u201d, explica seu colega Dimitri Forero, do Instituto de Ci\u00eancias Naturais, da Universidad Nacional de Colombia.<\/p>\n<p>Forero, especialista no estudo de percevejos, n\u00e3o pode deixar de mencionar outro exemplo quando questionado sobre as rela\u00e7\u00f5es ecol\u00f3gicas que se perdem com o desmatamento da Amaz\u00f4nia: o <em>Montina ruficornis<\/em> (Reduviidae).<\/p>\n<p>Essa esp\u00e9cie, que \u00e9 exclusiva da regi\u00e3o, atua como predador, ajudando a controlar esp\u00e9cies consideradas pragas em algumas culturas agr\u00edcolas.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, como registra um dos relat\u00f3rios do SPA, em uma \u00fanica \u00e1rvore amaz\u00f4nica, um grupo de pesquisadores encontrou 95 esp\u00e9cies diferentes de formigas \u2014 o mesmo n\u00famero que toda a fauna de formigas nativas da Alemanha.<\/p>\n<p>Outro dado sobre os invertebrados, pois raramente pensamos neles quando falamos de biodiversidade: em 2022, um grupo de cientistas liderado por Dalton de Souza Amorim, da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), publicou um estudo na \u201cScientific Reports\u201d (do grupo Nature) que mostrava os resultados de um experimento para descobrir quais insetos habitam a parte superior das \u00e1rvores.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s colocar \u201carmadilhas\u201d a at\u00e9 32 metros de altura, eles observaram que 60% da densidade de insetos naquela por\u00e7\u00e3o da floresta (pr\u00f3xima a Manaus) estava no <span class=\"tooltip-block\">dossel &#8211;\u00a0<\/span><span style=\"font-size: 14px;\"><em>O dossel \u00e9 a camada superior de uma floresta, formada pelas copas das \u00e1rvores que se encontram em altura. &#8211; <\/em><\/span><span style=\"background-color: var(--wpex-surface-1); color: var(--wpex-text-2); font-family: var(--wpex-body-font-family, var(--wpex-font-sans));\">e acima dele. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"background-color: var(--wpex-surface-1); color: var(--wpex-text-2); font-family: var(--wpex-body-font-family, var(--wpex-font-sans));\">Recolheram 37.778 indiv\u00edduos. \u201cNo dossel, h\u00e1 uma fauna muito rica e exclusiva (\u2026) e um sistema complexo de insetos\u201d, escreveram.<\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/article>\n<\/div>\n<figure id=\"attachment_37601\" aria-describedby=\"caption-attachment-37601\" style=\"width: 800px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/ipiccy_image-12-1024x595-1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-37601\" src=\"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/ipiccy_image-12-1024x595-1.jpg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"465\" srcset=\"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/ipiccy_image-12-1024x595-1.jpg 1024w, https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/ipiccy_image-12-1024x595-1-300x174.jpg 300w, https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/ipiccy_image-12-1024x595-1-768x446.jpg 768w, https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/ipiccy_image-12-1024x595-1-600x349.jpg 600w\" sizes=\"(max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-37601\" class=\"wp-caption-text\"><em>Ilustra\u00e7\u00f5es de \u00e1rvores da Amaz\u00f4nia por Diego Guerrero Rom\u00e1n. Foto: cortesia de Tropenbos Colombia<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<div class=\"main-content\">\n<article id=\"post-192855\" class=\"post-192855 post type-post status-publish format-standard has-post-thumbnail hentry category-biodiversidade category-colombia-2 category-desmatamento-pt category-indigenas category-noticias-pt tag-colombia-4-pt tag-cop16 tag-desmatamento-2-pt partner-el-espectador-2 entry\">\n<div class=\"entry-content\">\n<p>\u201cEssa vegeta\u00e7\u00e3o no dossel \u00e9 o abrigo de muitas esp\u00e9cies e h\u00e1 intera\u00e7\u00f5es maravilhosas que ningu\u00e9m v\u00ea\u201d, acrescenta Lucas Barrientos, professor da Universidade Javeriana, que se dedica ao estudo de anf\u00edbios.<\/p>\n<p>Para ele, h\u00e1 muitos exemplos que demonstram a gravidade de uma r\u00e3 perder as \u00e1rvores que tamb\u00e9m s\u00e3o seu lar.<\/p>\n<p>Algumas do g\u00eanero <em>Ecnomiohyla<\/em> vivem no dossel, onde se alimentam e descem para se reproduzir.<\/p>\n<p>Seus excrementos se tornam mat\u00e9ria org\u00e2nica, que se transforma em adubo.<\/p>\n<p>Embora a bacia amaz\u00f4nica tenha a maior densidade de esp\u00e9cies do mundo, ainda existem muitas que n\u00e3o foram descritas.<\/p>\n<p>No caso das salamandras, acredita-se, segundo o grupo do SPA, que haja muitas outras esp\u00e9cies desconhecidas.<\/p>\n<p>O mesmo acontece com as aves.<\/p>\n<p>Apesar de a Amaz\u00f4nia abrigar o maior n\u00famero de aves do mundo (pelo menos 1.300 esp\u00e9cies), \u00e9 poss\u00edvel que haja muitas outras.<\/p>\n<p>Mais de 260 dessas esp\u00e9cies s\u00f3 s\u00e3o encontradas nesses ecossistemas.<\/p>\n<p>Como a Amaz\u00f4nia n\u00e3o \u00e9 uma regi\u00e3o isolada, Jorge Vel\u00e1squez, diretor cient\u00edfico da <a href=\"https:\/\/www.audubon.org\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Audubon<\/a> para a Am\u00e9rica Latina e o Caribe, destaca que suas conex\u00f5es se estendem muito al\u00e9m de suas fronteiras.<\/p>\n<p>Ele explica que o Parque Nacional Natural (PPN) Serran\u00eda de Chiribiquete est\u00e1 ligado \u00e0 costa ocidental dos Estados Unidos e a territ\u00f3rios t\u00e3o distantes quanto o Alasca e o sul da Argentina.<\/p>\n<p>\u201cAs \u00e1rvores da Amaz\u00f4nia oferecem abrigo para as aves desses locais durante o inverno e servem como ponto de passagem para aquelas que seguem para outras regi\u00f5es do continente\u201d, observa.<\/p>\n<p>Em um<a href=\"https:\/\/www.researchgate.net\/publication\/373545448_Las_aves_migratorias_en_los_Parques_Nacionales_Naturales\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"> estudo liderado por Vel\u00e1squez<\/a> para a Audubon, uma organiza\u00e7\u00e3o dedicada \u00e0 conserva\u00e7\u00e3o de aves, foi demonstrado como os parques nacionais colombianos s\u00e3o essenciais para muitas dessas aves migrat\u00f3rias.<\/p>\n<p>Embora a maioria das esp\u00e9cies chegue ao Parque V\u00eda Isla Salamanca, no Caribe, uma quantidade significativa passa pelo PPN Serran\u00eda de La Macarena (mais de 40 esp\u00e9cies) e pelo PNN Picachos (tamb\u00e9m mais de 40). Ambos est\u00e3o localizados na Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p>Se todos esses dados n\u00e3o forem suficientes para compreender o que estamos perdendo com a destrui\u00e7\u00e3o da floresta \u2014 um tema crucial na COP16 \u2014 \u00e9 importante lembrar uma conex\u00e3o que nos preocupa profundamente: cada \u00e1rvore pode liberar mais de 1.000 litros de \u00e1gua em apenas 24 horas, o suficiente para encher 10 banheiras.<\/p>\n<p>Aos olhos de Carlos Rodr\u00edguez, tamb\u00e9m devemos pensar nesses rios que voam, conceito que tomamos emprestado da mitologia ind\u00edgena, ao falarmos sobre biodiversidade.<\/p>\n<p><em>Este artigo \u00e9 publicado gra\u00e7as a uma parceria entre <strong>El Espectador<\/strong> e <strong>InfoAmazonia<\/strong>, com o apoio da Amazon Conservation Team.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<\/article>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Sergio Silva Numa &#8211; El Espectador &#8211; InfoAmazonia &#8211; 21 outubro 2024 &#8211; A COP16, um dos eventos mais importantes sobre biodiversidade no mundo, ocorreu nesta semana em Cali, na Col\u00f4mbia. 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