{"id":38679,"date":"2025-09-12T07:30:01","date_gmt":"2025-09-12T10:30:01","guid":{"rendered":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=38679"},"modified":"2025-09-11T09:53:24","modified_gmt":"2025-09-11T12:53:24","slug":"estudo-mostra-limites-e-propoe-alternativas-para-a-restauracao-funcional-da-mata-atlantica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/estudo-mostra-limites-e-propoe-alternativas-para-a-restauracao-funcional-da-mata-atlantica\/","title":{"rendered":"Estudo mostra limites e prop\u00f5e alternativas para a restaura\u00e7\u00e3o funcional da Mata Atl\u00e2ntica"},"content":{"rendered":"<p>Por Jos\u00e9 Tadeu Arantes &#8211; Ag\u00eancia FAPESP &#8211; 11 de setembro de 2025 &#8211;\u00a0<span class=\"wpex-text-sm\">Pesquisa utilizou teoria de redes para analisar a conectividade ecol\u00f3gica de 28 \u00e1reas no noroeste do Estado de S\u00e3o Paulo &#8211;\u00a0Vista da regi\u00e3o estudada, mostrando que o replantio ainda n\u00e3o consegue integrar plenamente as \u00e1reas replantadas ao mosaico de fragmentos nativos (<i>Foto: D\u00e9bora Cristina Rother<\/i>).<\/span><\/p>\n<p>Plantar \u00e1rvores n\u00e3o basta. Embora os esfor\u00e7os de restaura\u00e7\u00e3o florestal na Mata Atl\u00e2ntica avancem em escala, eles ainda n\u00e3o conseguem integrar plenamente \u00e1reas replantadas ao mosaico de fragmentos nativos.<\/p>\n<p>A conclus\u00e3o \u00e9 de um estudo\u00a0<a href=\"https:\/\/besjournals.onlinelibrary.wiley.com\/doi\/10.1111\/1365-2664.70124?af=R\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>publicado<\/strong><\/a>\u00a0no peri\u00f3dico\u00a0<em>Journal of Applied Ecology<\/em>.<\/p>\n<p>O artigo teve como primeiras autoras\u00a0<a href=\"https:\/\/bv.fapesp.br\/pt\/pesquisador\/58534\/debora-cristina-rother\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>D\u00e9bora Cristina Rother<\/strong><\/a>, professora da Universidade Federal de S\u00e3o Carlos (UFSCar), e\u00a0<a href=\"https:\/\/bv.fapesp.br\/pt\/pesquisador\/680760\/carine-emer\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>Carine Emer<\/strong><\/a>, pesquisadora associada ao Instituto de Pesquisas Jardim Bot\u00e2nico do Rio de Janeiro e ao Instituto Juru\u00e1 (AM), que desenvolveram uma abordagem in\u00e9dita baseada na teoria de redes para analisar a conectividade ecol\u00f3gica de 28 \u00e1reas na regi\u00e3o de Batatais, no noroeste do Estado de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Segundo as pesquisadoras, a restaura\u00e7\u00e3o ativa \u2013 com plantio de mudas em \u00e1reas totalmente desmatadas \u2013 resulta em comunidades vegetais que formam m\u00f3dulos separados dos fragmentos florestais remanescentes.<\/p>\n<p>\u201cAs \u00e1reas restauradas n\u00e3o se integram totalmente \u00e0 paisagem\u201d, resume Rother.<\/p>\n<p>\u201cO que encontramos foi um subconjunto de esp\u00e9cies generalistas conectando o sistema, principalmente \u00e1rvores de sementes pequenas, dispersas por aves.\u201d<\/p>\n<p>A teoria de redes \u00e9 uma abordagem matem\u00e1tica e computacional usada para compreender sistemas complexos formados por muitos elementos interconectados.<\/p>\n<p>Em vez de analisar cada componente de forma isolada, ela os representa como \u201cn\u00f3s\u201d e as intera\u00e7\u00f5es entre eles como \u201clinhas\u201d, possibilitando identificar padr\u00f5es emergentes em conjunto.<\/p>\n<p>A mesma l\u00f3gica que explica o funcionamento de redes sociais, redes neurais biol\u00f3gicas (circuitos de neur\u00f4nios do sistema nervoso) e redes neurais artificiais (modelos computacionais inspirados no funcionamento do c\u00e9rebro) tamb\u00e9m pode ser aplicada \u00e0 ecologia, como no caso das \u201credes ecol\u00f3gicas\u201d, em que se analisam intera\u00e7\u00f5es entre plantas, animais e ambientes.<\/p>\n<p>Essa perspectiva mostra n\u00e3o apenas quem est\u00e1 presente em um sistema, mas como os elementos se relacionam e quais s\u00e3o cruciais para a estabilidade e a resili\u00eancia do todo.<\/p>\n<p>O estudo utilizou a teoria de redes para sintetizar um banco de dados complexo, obtido ao longo de anos de coleta de campo.<\/p>\n<p>\u201cS\u00e3o dados raros, resultantes de um grande esfor\u00e7o coletivo de investiga\u00e7\u00e3o\u201d, destaca Emer.<\/p>\n<p>\u201cA teoria de redes nos ajudou a enxergar o todo: em vez de enfocar fragmentos isolados, buscamos a intera\u00e7\u00e3o entre esses fragmentos e \u00e1reas restauradas na paisagem.\u201d<\/p>\n<p>Foram analisadas m\u00e9tricas estruturais, como conect\u00e2ncia, modularidade e aninhamento.<\/p>\n<p>A conect\u00e2ncia mede quantas conex\u00f5es existem em uma rede em rela\u00e7\u00e3o ao total poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Quanto maior, mais esp\u00e9cies ou elementos est\u00e3o ligados entre si.<\/p>\n<p>A modularidade indica a forma\u00e7\u00e3o de subgrupos dentro da rede, nos quais certos elementos interagem mais entre si do que com o resto do sistema.<\/p>\n<p>J\u00e1 o aninhamento ocorre quando \u00e1reas menos diversas cont\u00eam subconjuntos das intera\u00e7\u00f5es presentes nas mais diversas, revelando uma hierarquia de inclus\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cNossas redes apresentaram valores baixos de conect\u00e2ncia, indicando que poucas esp\u00e9cies est\u00e3o amplamente distribu\u00eddas. J\u00e1 a modularidade mostrou-se intermedi\u00e1ria, mas significativa, refletindo a separa\u00e7\u00e3o entre \u00e1reas restauradas e os fragmentos nativos. E o aninhamento, que indicaria se as \u00e1reas restauradas poderiam ser consideradas subconjuntos das florestas, foi muito baixo. Isso refor\u00e7a que as \u00e1reas restauradas ainda n\u00e3o espelham a diversidade natural\u201d, afirma Emer.<\/p>\n<p>Ao investigar quais esp\u00e9cies atuam como \u201cn\u00f3s centrais\u201d das redes, o estudo revelou padr\u00f5es consistentes.<\/p>\n<p>\u201cIdentificamos que as esp\u00e9cies-chave compartilham duas caracter\u00edsticas: sementes pequenas e dispers\u00e3o por animais\u201d, explica Rother.<\/p>\n<p>\u201cS\u00e3o plantas como emba\u00faba (<em>Cecropia pachystachya<\/em>), sangra-d\u2019\u00e1gua (<em>Croton urucurana<\/em>\u00a0Baill), tapirira (<em>Tapirira guianensis<\/em>\u00a0Aubl) e guareia (<em>Guarea guidonia<\/em>\u00a0Sleumer).\u201d<\/p>\n<p>Essas \u00e1rvores pioneiras s\u00e3o fundamentais para iniciar a sucess\u00e3o natural.<\/p>\n<p>\u201cS\u00e3o as primeiras a se estabelecer e criam condi\u00e7\u00f5es para que outras esp\u00e9cies surjam depois\u201d, diz a pesquisadora.<\/p>\n<p>\u201cAves como sabi\u00e1s, sanha\u00e7os e tucanos, al\u00e9m de pequenos mam\u00edferos, atuam como principais dispersores nesse processo.\u201d<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/embauba.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone  wp-image-38680\" src=\"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/embauba.png\" alt=\"\" width=\"799\" height=\"599\" srcset=\"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/embauba.png 820w, https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/embauba-300x225.png 300w, https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/embauba-768x576.png 768w, https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/embauba-600x450.png 600w\" sizes=\"(max-width: 799px) 100vw, 799px\" \/><\/a><\/p>\n<p><span class=\"wpex-text-sm\">Plantas como a emba\u00faba (<em>Cecropia pachystachya<\/em>) atuam como \u201cn\u00f3s centrais\u201d das redes e compartilham duas caracter\u00edsticas: sementes pequenas e dispers\u00e3o por animais (foto:\u00a0<a href=\"https:\/\/www.flickr.com\/people\/104484283@N07\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>Marcelo Cava<\/strong><\/a>\/<a href=\"https:\/\/commons.wikimedia.org\/wiki\/File:Cecropia_pachystachya_(11075791974)_(2).jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>Wikimedia Commons<\/strong><\/a>)<\/span><\/p>\n<p>Apesar dos avan\u00e7os, a restaura\u00e7\u00e3o enfrenta barreiras estruturais.<\/p>\n<p>\u201cTemos um gargalo gigantesco na produ\u00e7\u00e3o de mudas da enorme diversidade tropical\u201d, afirma Rother.<\/p>\n<p>Esp\u00e9cies importantes, como a guareia, s\u00e3o de dif\u00edcil propaga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cMuitas vezes o viveirista tenta v\u00e1rios m\u00e9todos e n\u00e3o consegue fazer germinar a semente.\u201d<\/p>\n<p>Al\u00e9m da limita\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica, h\u00e1 entraves de mercado.<\/p>\n<p>\u201cOs viveiros produzem o que tem demanda e hoje a restaura\u00e7\u00e3o \u00e9 vista sobretudo como plantio de \u00e1rvores ou captura de carbono\u201d, observa Emer.<\/p>\n<p>\u201cMas restaurar n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 plantar \u00e1rvores, nem apenas estocar carbono. \u00c9 preciso restaurar processos ecol\u00f3gicos que garantam o funcionamento da floresta como um todo, como as intera\u00e7\u00f5es flora e fauna. Se queremos restaurar diversidade, precisamos de subs\u00eddios para que esp\u00e9cies menos usuais passem a ser produzidas em escala e disponibilizadas no mercado.\u201d<\/p>\n<p>Todos esses fatores considerados, um dos pontos centrais do estudo foi mostrar que plantar \u00e1rvores n\u00e3o basta.<\/p>\n<p>\u00c9 importante, mas, por si s\u00f3, n\u00e3o resolve.<\/p>\n<p>\u201cUma floresta \u00e9 composta por processos ecol\u00f3gicos complexos\u201d, ressalta Emer.<\/p>\n<p>\u201cPrecisamos olhar para as intera\u00e7\u00f5es ecol\u00f3gicas tamb\u00e9m: aves e mam\u00edferos dispersando sementes, polinizadores garantindo a reprodu\u00e7\u00e3o, ciclos de sucess\u00e3o se estabelecendo.\u201d<\/p>\n<p>Nesse sentido, t\u00e9cnicas como a instala\u00e7\u00e3o de poleiros artificiais para atrair aves podem auxiliar, ainda que de forma mais lenta.<\/p>\n<p>Outra estrat\u00e9gia em debate \u00e9 a refauna\u00e7\u00e3o, ou seja, a reintrodu\u00e7\u00e3o de grandes dispersores desaparecidos, como antas e cutias.<\/p>\n<p>\u201cSe esp\u00e9cies com sementes grandes n\u00e3o t\u00eam mais dispersores, a solu\u00e7\u00e3o pode ser reintroduzi-los\u201d, argumenta Rother, lembrando experi\u00eancias bem-sucedidas na Floresta da Tijuca e na Reserva Ecol\u00f3gica de Guapia\u00e7u, ambas localizadas no Estado do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>Os resultados t\u00eam implica\u00e7\u00f5es diretas para pol\u00edticas p\u00fablicas e metas da D\u00e9cada da Restaura\u00e7\u00e3o da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU).<\/p>\n<p>\u201cA diversidade de esp\u00e9cies usadas nas restaura\u00e7\u00f5es precisa aumentar\u201d, enfatiza Emer. \u201cN\u00e3o podemos nos limitar a um conjunto reduzido, porque isso compromete a integra\u00e7\u00e3o das \u00e1reas ao todo da paisagem.\u201d<\/p>\n<p>Para Rother, a estrat\u00e9gia deve ser combinar esp\u00e9cies pioneiras, que garantam a sucess\u00e3o inicial, com esp\u00e9cies raras e de sementes grandes, que dificilmente chegam sozinhas.<\/p>\n<p>\u201cA restaura\u00e7\u00e3o precisa considerar as caracter\u00edsticas funcionais das plantas, e n\u00e3o apenas aumentar a lista de esp\u00e9cies\u201d, afirma.<\/p>\n<p>Apesar das limita\u00e7\u00f5es atuais, as pesquisadoras mant\u00eam o otimismo.<\/p>\n<p>\u201cOs fragmentos e as \u00e1reas restauradas formam uma meta-rede\u201d, diz Emer.<\/p>\n<p>\u201cAinda que hoje seja modular, essa meta-rede pode se tornar mais conectada se aumentarmos a diversidade e favorecermos as intera\u00e7\u00f5es.\u201d<\/p>\n<p>O estudo recebeu apoio da FAPESP por meio dos projetos\u00a0<a href=\"https:\/\/bv.fapesp.br\/pt\/auxilios\/85029\/restauracao-ecologica-de-florestas-ciliares-de-florestas-nativas-de-producao-economica-e-de-fragment\/?q=2013\/50718-5\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>13\/50718-5<\/strong><\/a>,\u00a0<a href=\"https:\/\/bv.fapesp.br\/pt\/bolsas\/145925\/o-papel-da-restauracao-ecologica-no-resgate-da-diversidade-floristica-e-funcional-e-na-melhoria-da-e\/?q=2012\/24118-8\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>12\/24118-8<\/strong><\/a>\u00a0e\u00a0<a href=\"https:\/\/bv.fapesp.br\/pt\/bolsas\/161133\/efeitos-da-defaunacao-e-introducao-de-especies-exoticas-em-redes-de-interacao-planta-dispersor-de-se\/?q=2015\/15172-7\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>15\/15172-7<\/strong><\/a>.<\/p>\n<p>O artigo\u00a0<em>Plant species\u2013habitat networks in a mosaic landscape of restored and fragmented tropical forests<\/em>\u00a0pode ser acessado em\u00a0<a href=\"https:\/\/besjournals.onlinelibrary.wiley.com\/doi\/10.1111\/1365-2664.70124?af=R\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>https:\/\/besjournals.onlinelibrary.wiley.com\/doi\/10.1111\/1365-2664.70124?af=R<\/strong><\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Jos\u00e9 Tadeu Arantes &#8211; Ag\u00eancia FAPESP &#8211; 11 de setembro de 2025 &#8211;\u00a0Pesquisa utilizou teoria de redes para analisar a conectividade ecol\u00f3gica de 28 \u00e1reas no noroeste do Estado de S\u00e3o Paulo &#8211;\u00a0Vista da regi\u00e3o estudada, mostrando que o replantio ainda n\u00e3o consegue integrar plenamente as \u00e1reas replantadas ao mosaico de fragmentos nativos (Foto:&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":38681,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[90,33,71],"post_series":[],"class_list":["post-38679","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-geral","tag-ambiente-ambiental-environment-environmental-meio-ambiente","tag-educacao-ambiental","tag-sustentabilidade-viver-sustentavelmente-consumo-sustentavel","entry","has-media"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v25.2 - 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