{"id":4035,"date":"2009-10-01T09:15:04","date_gmt":"2009-10-01T12:15:04","guid":{"rendered":"http:\/\/funverde.wordpress.com\/?p=4035"},"modified":"2009-10-01T09:15:04","modified_gmt":"2009-10-01T12:15:04","slug":"celeiro-do-mundo-comida-importada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/celeiro-do-mundo-comida-importada\/","title":{"rendered":"Celeiro do mundo, comida importada"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"color:#008000;\">Andreia Fanzeres<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#008000;\">Caiu na boca do povo. Se o assunto \u00e9 oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 amplia\u00e7\u00e3o de \u00e1reas protegidas ou rebater cr\u00edticas ao avan\u00e7o da agropecu\u00e1ria sobre \u00e1reas de floresta, empres\u00e1rios e pol\u00edticos matogrossenses disparam o que consideram seu melhor argumento: gra\u00e7as \u00e0 capacidade do estado de produzir alimentos em volume planet\u00e1rio, boa parte do mundo come. \u00c9 verdade. A terra no Mato Grosso \u00e9 generosa. Mas n\u00e3o com seus filhos. N\u00e3o fosse o mundo, em especial o resto do Brasil, eles passariam fome. De acordo com a Secretaria de Desenvolvimento Rural de Mato Grosso (Seder), 56% de todos os alimentos consumidos por aqui s\u00e3o \u201cimportados\u201d de outros estados. E, dependendo do produto, esse percentual pode ser muito superior.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#008000;\">O presidente da Associa\u00e7\u00e3o dos Supermercados de Mato Grosso (Asmat), Altair Pierozan Magalh\u00e3es, explica que \u00e9 muito amplo discutir esse assunto, especialmente num universo de 30 mil itens que s\u00e3o disponibilizados em um dos maiores mercados de Cuiab\u00e1, onde trabalha. Mas quando perguntado sobre quais s\u00e3o os principais itens que ele precisa encomendar de outros estados, responde: \u201cTudo. A n\u00e3o ser \u00f3leo de soja, mandioca, a\u00e7\u00facar e carne\u201d, de maneira geral. Segundo ele, apesar de haver sempre uma ou outra marca de produto local que concorra com os trazidos de outras regi\u00f5es, isso \u00e9 considerado irrelevante. \u201cN\u00f3s n\u00e3o temos f\u00e1brica de massa, ou qualquer outra, apenas duas empacotadoras de arroz e a\u00e7\u00facar. N\u00e3o produzimos batata, cebola, tomate, nada disso\u201d, revela Magalh\u00e3es.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#008000;\">Por causa da necessidade de importa\u00e7\u00e3o de alimentos, o mato-grossense depende de viagens de caminh\u00f5es que demoram de tr\u00eas a sete dias para que itens b\u00e1sicos cheguem \u00e0s prateleiras. Em Cuiab\u00e1, a maioria vem de estados produtores como S\u00e3o Paulo. No interior, fortemente colonizado por paranaenses, catarinenses e ga\u00fachos, as compras costumam ser feitas no setor atacadista de Curitiba. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#008000;\">Munic\u00edpios do porte de Ju\u00edna, por exemplo, no noroeste do estado, mant\u00eam uma pequena produ\u00e7\u00e3o familiar que abastece em cerca de 50% as necessidades dos mercados em frutas, legumes e verduras. Mesmo assim, em diversas \u00e9pocas do ano, \u00e9 preciso encomendar do Paran\u00e1 itens como banana, cebola, cenoura, mam\u00e3o, beterraba, laranja, sem falar, \u00e9 claro em produtos t\u00edpicos de clima mais frio que de vez em quando aparecem nas prateleiras, como morangos vendidos ao pre\u00e7o de 10 reais a caixa pequena.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#008000;\">Altair Magalh\u00e3es, da Asmat, estima que os produtos trazidos de outros estados sofram um acr\u00e9scimo de 3 a 5% no pre\u00e7o por causa do frete, que \u00e9 barato na sua opini\u00e3o. \u201cMesmo se a produ\u00e7\u00e3o fosse daqui, n\u00e3o haveria grande varia\u00e7\u00e3o de pre\u00e7o para o consumidor\u201d, diz ele. A diferen\u00e7a, no entanto, seria permitir que o dinheiro circulasse pelas diversas regi\u00f5es do estado, gerando renda, emprego e impostos para dentro de Mato Grosso. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#008000;\">\u201cTemos no estado alguns produtores, claro, mas n\u00e3o temos voca\u00e7\u00e3o para hortali\u00e7as, por exemplo\u201d, diz. Ele acredita que a raz\u00e3o para essa necessidade de importa\u00e7\u00e3o seja caracter\u00edstica da coloniza\u00e7\u00e3o que ocorreu no estado. \u201cEu n\u00e3o sou do ramo, n\u00e3o sei se produzir essas coisas \u00e9 mais f\u00e1cil ou mais dif\u00edcil. Eu s\u00f3 n\u00e3o consigo entender por que Mato Grosso n\u00e3o tem um produtor de batata. Por que aqui a gente n\u00e3o produz nada?\u201d, indaga-se.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#008000;\">\u201cFalta planejamento de produ\u00e7\u00e3o\u201d, diagnostica Jos\u00e9 Alfredo da Costa Marques, assessor especial da Seder. O estado que se vangloria por segurar a balan\u00e7a comercial do Brasil no azul, que transformou 8,6 milh\u00f5es de hectares em lavouras mecanizadas de gr\u00e3os, e tem 25 milh\u00f5es de hectares de pastagem ainda n\u00e3o conhece sua pr\u00f3pria produ\u00e7\u00e3o interna de alimentos. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#008000;\"><strong>Vazios agropecu\u00e1rios<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#008000;\">Dados do Minist\u00e9rio da Agricultura apontam que algo entre 60 e 70% dos produtos que comp\u00f5em a mesa do brasileiro v\u00eam da agricultura familiar. De acordo com Heitor Medeiros, superintendente de agricultura familiar da Seder, a secretaria analisa a possibilidade de come\u00e7ar esta miss\u00e3o em escala regional atrav\u00e9s de uma reuni\u00e3o com os principais compradores do estado para montar o diagn\u00f3stico. \u201cAgora, queremos fazer um novo diagn\u00f3stico para saber o que j\u00e1 existe de produ\u00e7\u00e3o interna. Vamos organizar os 14 munic\u00edpios da baixada cuiabana e analisar a voca\u00e7\u00e3o e o volume de produ\u00e7\u00e3o para um consumo regular\u201d, acrescenta Costa Marques.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#008000;\">Em 2006, Mato Grosso deu o primeiro passo desse levantamento. A Seder encomendou uma pesquisa que abrangeu os munic\u00edpios de Cuiab\u00e1, V\u00e1rzea Grande, C\u00e1ceres, Rondon\u00f3polis, Sinop, Alta Floresta e Col\u00edder, que representam 47% dos consumidores de 58 itens entre frutas, legumes e verduras. Ela revelou que das 181,5 mil toneladas consumidas por Mato Grosso nesses g\u00eaneros, 64,1% das frutas v\u00eam de fora, assim como 47,5% dos legumes e verduras. E ainda que 211,5 milh\u00f5es de reais s\u00e3o enviados a outros estados para importa\u00e7\u00e3o de alimentos. \u201cAo fazer isso, Mato Grosso perde ICMS al\u00e9m de 30 mil empregos que poderiam ser gerados na agricultura familiar\u201d, estima Costa Marques.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#008000;\">Se o estado importa quase tudo que enche o prato de seus tr\u00eas milh\u00f5es de habitantes, n\u00e3o deixa claro para onde vai a produ\u00e7\u00e3o monumental de suas lavouras. De acordo com o superintendente da Confedera\u00e7\u00e3o Nacional de Abastecimento (Conab) em Cuiab\u00e1, Ov\u00eddio Costa Miranda, esta \u00e9 uma informa\u00e7\u00e3o que as grandes empresas agr\u00edcolas costumam segurar. \u201cEles s\u00e3o muito fechados, \u00e9 um jogo de mercado\u201d, comenta.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#008000;\">Procuradas pela reportagem, as grandes tradings de gr\u00e3os como Bunge, Cargill e Amaggi, al\u00e9m das processadoras de aves e su\u00ednos como Sadia e Perdig\u00e3o, n\u00e3o divulgaram o volume anual de sua produ\u00e7\u00e3o nem sua destina\u00e7\u00e3o. O Instituto Mato-grossense de Economia Agr\u00edcola (Imea) informou que tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 capaz de estimar o quanto da produ\u00e7\u00e3o local de bens aliment\u00edcios abastece o mercado interno de Mato Grosso, mas afirma que 23% da carne foram exportadas no ano passado, assim como 44% da soja em gr\u00e3os na safra 2007\/2008. A Conab tamb\u00e9m n\u00e3o disp\u00f5e de dados estadualizados sobre oferta e demanda de cada um dos itens aliment\u00edcios que analisa, o que n\u00e3o envolve hortifrutigranjeiros. \u201cInfelizmente a gente n\u00e3o tem estrutura para fazer este trabalho regional\u201d, explica Miranda.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#008000;\">Segundo o Imea, o rebanho de aves no estado \u00e9 de 17,451 milh\u00f5es de cabe\u00e7as e o de su\u00ednos \u00e9 de 1,439 milh\u00f5es de animais. Os dados s\u00e3o atribu\u00eddos ao IBGE no ano de 2006. O rebanho de bovinos, de acordo com n\u00fameros do Instituto de Defesa Agropecu\u00e1ria do estado de Mato Grosso (Indea), \u00e9 de 25,740 milh\u00f5es de cabe\u00e7as em 2007.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#008000;\">Para tentar minimizar a depend\u00eancia de alimentos de Mato Grosso em rela\u00e7\u00e3o aos outros estados, a Seder aposta na cria\u00e7\u00e3o de um centro de comercializa\u00e7\u00e3o da agricultura familiar. A id\u00e9ia \u00e9 montar um centro de comercializa\u00e7\u00e3o de frutas, legumes e verduras oriundos de munic\u00edpios num raio de 200 quil\u00f4metros de V\u00e1rzea Grande, na regi\u00e3o metropolitana de Cuiab\u00e1. A previs\u00e3o do governo estadual \u00e9 que at\u00e9 o fim deste ano o centro j\u00e1 esteja em funcionamento. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#008000;\">\u201cOs recursos j\u00e1 est\u00e3o assegurados. Falta s\u00f3 terminar o cal\u00e7amento interno, a rede de distribui\u00e7\u00e3o de \u00e1gua e o acesso\u201d, diz o assessor da Seder. Louv\u00e1vel iniciativa, mas que na opini\u00e3o de Altair Magalh\u00e3es, supermercadista de Cuiab\u00e1, j\u00e1 devia ter acontecido h\u00e1 20 anos. \u201cN\u00e3o est\u00e3o fazendo nada que n\u00e3o seja a obriga\u00e7\u00e3o do estado. Qualquer cidade do interior de S\u00e3o Paulo tem seu centro de comercializa\u00e7\u00e3o. Quanto mais demorar, mais dif\u00edcil vai ser saber que produto temos no interior\u201d, diz.<\/span><\/p>\n<table border=\"1\" cellpadding=\"10\" width=\"632\">\n<tbody>\n<tr>\n<td><span style=\"color:#008000;\">Fonte: CONAB\u00c1rea plantada em MT na safra 2007\/2008: 8.632,1 hectares (ou 56,12% da \u00e1rea plantada na regi\u00e3o Centro Oeste)<\/p>\n<p>Produ\u00e7\u00e3o: 28,3 milh\u00f5es de toneladas.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/span><\/p>\n<table border=\"1\" width=\"600\">\n<tbody>\n<tr>\n<td><span style=\"color:#008000;\">\u00a0<\/span><\/td>\n<td><span style=\"color:#008000;\">\u00c1rea plantada (mil hectares)<\/span><\/td>\n<td><span style=\"color:#008000;\">Produ\u00e7\u00e3o (mil toneladas)<\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td><span style=\"color:#008000;\">\u00a0<\/span><\/td>\n<td><span style=\"color:#008000;\">\u00a0<\/span><\/td>\n<td><span style=\"color:#008000;\">\u00a0<\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td><span style=\"color:#008000;\">Algod\u00e3o (caro\u00e7o)<\/span><\/td>\n<td><span style=\"color:#008000;\">541,8<\/span><\/td>\n<td><span style=\"color:#008000;\">2.129,3<\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td><span style=\"color:#008000;\">Arroz<\/span><\/td>\n<td><span style=\"color:#008000;\">238,9<\/span><\/td>\n<td><span style=\"color:#008000;\">680,9<\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td><span style=\"color:#008000;\">Feij\u00e3o<\/span><\/td>\n<td><span style=\"color:#008000;\">89,2<\/span><\/td>\n<td><span style=\"color:#008000;\">136,6<\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td><span style=\"color:#008000;\">Girassol<\/span><\/td>\n<td><span style=\"color:#008000;\">60,4<\/span><\/td>\n<td><span style=\"color:#008000;\">81,4<\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td><span style=\"color:#008000;\">Milho<\/span><\/td>\n<td><span style=\"color:#008000;\">1.843,1<\/span><\/td>\n<td><span style=\"color:#008000;\">7.929,3<\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td><span style=\"color:#008000;\">Soja<\/span><\/td>\n<td><span style=\"color:#008000;\">5.696,2<\/span><\/td>\n<td><span style=\"color:#008000;\">17.882,2<\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td><span style=\"color:#008000;\">Sorgo<\/span><\/td>\n<td><span style=\"color:#008000;\">159,7<\/span><\/td>\n<td><span style=\"color:#008000;\">323,9<\/span><\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Andreia Fanzeres Caiu na boca do povo. 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