{"id":634,"date":"2008-05-11T10:00:41","date_gmt":"2008-05-11T13:00:41","guid":{"rendered":"http:\/\/funverde.wordpress.com\/?p=634"},"modified":"2008-05-11T10:00:41","modified_gmt":"2008-05-11T13:00:41","slug":"fazenda-urbana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/fazenda-urbana\/","title":{"rendered":"Fazenda urbana"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"color:#008000;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/farm1.static.flickr.com\/159\/418617550_1705932374.jpg?v=0\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"375\" \/><\/span><\/p>\n<p><a title=\"Link para a galeria de joeysplanting\" href=\"http:\/\/funverde.wordpress.com\/photos\/joeysplanting\/\"><strong><span style=\"color:#0063dc;\">joeysplanting<\/span><\/strong><\/a>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"color:#008000;\">O desafio: transformar um quintal nova-iorquino em um s\u00edtio de 800 m2 e comer somente o que nele foi plantado e criado. Alguns resultados: uma colheita de batatas min\u00fasculas, um dedo decepado, uma galinha viciada em seus pr\u00f3prios ovos e um casamento contaminado por ervas daninhas. \u00c9 poss\u00edvel sair inteiro de um experimento como esse?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#ff0000;\">Como em final de semana sempre sobra tempo, leia as aventuras e desventuras de um urbanoide brincando de fazendeiro dentro da cidade de New York.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#008000;\"><!--more--><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#008000;\">Manny Howard<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#008000;\">Manny Howard: de cr\u00edtico gastr\u00f4nomico da prestigiada &#8220;New York&#8221; a lavrador metropolitano<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#008000;\">Em 8 de agosto de 2007, \u00e0s 6h40 da manh\u00e3, um tornado atingiu minha casa em Nova York. Muita gente viu o fato como uma aberra\u00e7\u00e3o da natureza. Eu n\u00e3o. Depois de uma noite sem dormir, ouvindo o vento e a chuva se intensificarem, vi o c\u00e9u ficar verde. A\u00ed um pinheiro no jardim da casa ao lado foi partido em dois, uma goteira abriu-se no terceiro andar da minha casa e o telhado do que costumava ser nossa garagem, depois conhecida como &#8220;o celeiro&#8221;, foi arrancado. Enquanto o vento aumentava, o tronco de um carvalho atingiu como um m\u00edssil o peda\u00e7o mais produtivo da minha horta, encobrindo a planta\u00e7\u00e3o de tomates, rachando uma figueira, pulverizando os repolhos frescos e despeda\u00e7ando o telhado do meu galinheiro. Isso mesmo, meu galinheiro. Ele fica na minha fazendinha com 800 m2 de terra cultiv\u00e1vel. Um tornado n\u00e3o atingia o Brooklyn desde 1889, quando Flatbush (peda\u00e7o do bairro nova-iorquino) era uma \u00e1rea agr\u00edcola. O tal tornado destruiu a fazenda que cultivei em meu quintal e que planejava contar como minha \u00fanica fonte de comida por um m\u00eas inteiro.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#008000;\">Comecei meu projeto em mar\u00e7o de 2007. Em sua concep\u00e7\u00e3o original, ele era um teste extremo da id\u00e9ia que fez florescer o movimento locavore (em ingl\u00eas, contra\u00e7\u00e3o de &#8220;local&#8221; e o sufixo &#8220;voro&#8221;, ou &#8220;que se alimenta de&#8221;). De acordo com seus fundamentos, todos dever\u00edamos comer alimentos produzidos localmente, a uma dist\u00e2ncia de at\u00e9 160 quil\u00f4metros (50 para alguns) de onde vivemos, para assim salvar o planeta e redimir nossas almas empanturradas. Agora que o r\u00f3tulo &#8220;org\u00e2nico&#8221; tornou-se comum e essencialmente insignificante, os locavores estabeleceram um c\u00f3digo sagrado, que acalma nossas ansiedades em rela\u00e7\u00e3o ao que h\u00e1 em nossos pratos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#008000;\">Os reis do movimento s\u00e3o Michael Pollan &#8211; autor de &#8220;O Dilema do On\u00edvoro&#8221; (Editora Intr\u00ednseca, 2007), um olhar saud\u00e1vel sobre como a produ\u00e7\u00e3o da comida ficou desprovida de qualquer coisa natural ou normal &#8211; e Barbara Kingsolver, autora do autobiogr\u00e1fico &#8220;Animal, Vegetable, Miracle&#8221; (ainda in\u00e9dito no Brasil), sobre o esfor\u00e7o de sua fam\u00edlia em comer apenas produtos feitos localmente. &#8220;Nosso maior objetivo&#8221;, escreveu Kingsolver, &#8220;era comprar t\u00e3o perto de casa que conhecer\u00edamos o produtor.&#8221; Inspirada por ela, a revista &#8220;The New Yorker&#8221; publicou uma reportagem sobre dietas restritas a alimentos adquiridos em munic\u00edpios pr\u00f3ximos da metr\u00f3pole. O resultado foi um menu mais barato, sem pombas ou ratos. Logo depois, as quitandas de Nova York criaram uma ind\u00fastria de fundo de quintal. Dentro dos limites da cidade, h\u00e1 gente criando galinhas, plantando alface e mantendo colm\u00e9ias, uma forma de lucrar e alimentar os puristas. Mas, at\u00e9 onde sei, ningu\u00e9m tentou fazer isso tudo sozinho, em um pequeno quintal. Para avaliar o estilo de vida locavore, planejei levar sua filosofia ao extremo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#008000;\">Enquanto a fazenda ganhava forma em minha cabe\u00e7a, tive momentos ocasionais de lucidez. Percebi que h\u00e1 coisas que nunca poderia plantar. Permiti, portanto, tr\u00eas exce\u00e7\u00f5es: sal, pimenta e gr\u00e3os de caf\u00e9. Al\u00e9m disso, j\u00e1 era mar\u00e7o, tarde demais para cultivar trigo, que cresce no inverno. Ent\u00e3o t\u00e1, sem p\u00e3o. E os latic\u00ednios? \u00c9 ilegal criar vacas ou cabras em Nova York, mas escondi um caprino na garagem. Valeria o risco? Queijo seria bom, mas voc\u00ea j\u00e1 colocou leite de cabra em seu caf\u00e9? Havia tamb\u00e9m o \u00f3leo: n\u00e3o tinha espa\u00e7o para as plantas necess\u00e1rias para produzi-lo, ent\u00e3o teria que me contentar com algum tipo de gordura animal. Um porco, talvez? Gordura de pato tamb\u00e9m era uma boa possibilidade &#8211; poderia confitar (cozinhar na pr\u00f3pria gordura) tudo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#008000;\">O que eu n\u00e3o poderia fazer, ent\u00e3o? Preocupado com uma crise de abstin\u00eancia de \u00e1lcool, tentei destilar vodca de batatas. Segundo a lenda, em cinco dias \u00e9 poss\u00edvel fazer uma bebida razo\u00e1vel. Sonhava acordado com uma cria\u00e7\u00e3o de til\u00e1pias, peixe de \u00e1gua doce que rivaliza com as baratas em adaptabilidade. As op\u00e7\u00f5es pareciam ilimitadas. Mas, enquanto olhava o calend\u00e1rio, um sentido de urg\u00eancia tomou conta de mim. Tinha de parar de sonhar e come\u00e7ar a agir.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#008000;\">Moro em uma \u00e1rea onde as casas s\u00e3o bem grandes, mas os terrenos, nem tanto. Meu quintal tem 6 por 12 metros, tende a inundar com pouca chuva e n\u00e3o era pr\u00f3prio nem mesmo para um gramado. A \u00fanica coisa meio viva ali era uma cerejeira que foi cortada em meu primeiro dia como fazendeiro. Mandei amostras do solo para an\u00e1lise, e os resultados foram medonhos: nenhum nutriente e altos n\u00edveis de chumbo. Um terreno t\u00f3xico. Antes de despejar 5,5 toneladas de terra boa e f\u00e9rtil sobre ele, trazida de uma fazenda em Long Island, ainda tive que escavar um sistema de drenagem. Fiz um buraco enorme no meio do barro. Precisava chegar at\u00e9 a areia.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#008000;\">No buraco<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#008000;\">Comecei tudo como um projeto familiar de fim de semana. Meus filhos &#8211; Heather, de 5 anos, e Jake, de 3 &#8211; entraram de cabe\u00e7a na hist\u00f3ria. Secaram a testa do papai, levaram cerveja gelada para ele e correram pelo terreno como se fosse recreio. Ofegante e sofrendo como se estivesse nos primeiros est\u00e1gios de um ataque card\u00edaco, usei o que ainda restava de for\u00e7as para me arrastar at\u00e9 a geladeira e pegar uma garrafa de vinho.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#008000;\">No dia seguinte, parado sobre o mesmo buraco, agora com quase dois metros de profundidade e muito mais largo que uma lata grande de lixo, perguntei para Carlos &#8211; um salvadorenho mestre-de-obras de uma empresa de projetos paisag\u00edsticos &#8211; se havia alguma chance de achar areia. &#8220;Em meu pa\u00eds, ela sempre est\u00e1 depois do barro. Tenho certeza que isso tamb\u00e9m acontece aqui.&#8221; Dei um sorriso amarelo e continuei a cavar. O buraco tomou todo o fim de semana. Minha mulher, Lisa, que n\u00e3o tinha tarefas bra\u00e7ais em sua lista de programas para o per\u00edodo, parou de checar meu trabalho, e as crian\u00e7as ficaram entediadas. Continuei cavando. Atingi a areia quase sete metros depois, joguei longe a ferramenta para abrir buracos e me sentei com as pernas cruzadas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#008000;\">Quando me arrastei para fora do buraco, minha vizinha, Jane Feder, me chamou. &#8220;Voc\u00ea n\u00e3o precisa me contar se n\u00e3o quiser, mas o que voc\u00ea est\u00e1 fazendo a\u00ed?&#8221;, disse do outro lado da cerca. Quando respondi que estava construindo uma fazenda, ela disse: &#8220;Eu sabia. Falei para o Al [seu marido] que voc\u00ea ia fazer isso&#8221;. Jane estava empolgada, nem um pouco incomodada com a montanha crescente de lixo ou com a presen\u00e7a de escavadeiras na entrada da rua.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#008000;\">Nem mesmo meus planos de colocar animais fedorentos a poucos metros da janela de sua cozinha a amedrontaram. Quando instalei armadilhas para esquilos para proteger minha planta\u00e7\u00e3o, ela ficou maravilhada ao v\u00ea-las funcionar bem. Ela at\u00e9 levou amigos ao seu quintal para exibir a fazenda de seu vizinho. Lisa estava preocupada. Pensou que nossos outros vizinhos achariam que eu era Richard Dreyfuss em &#8220;Contatos Imediatos do Terceiro Grau&#8221;! Na verdade, eles foram meus maiores incentivadores.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#008000;\">Comecei a plantar em meu por\u00e3o enquanto o quintal n\u00e3o ficava pronto. Para ter alguma credibilidade como um locavore, cheguei \u00e0 conclus\u00e3o de que teria de come\u00e7ar do zero. Comprei d\u00fazias de sementes variadas, de ab\u00f3boras a tomates, coloquei-as em pequenos montes sob a luz de l\u00e2mpadas especiais para estufas, instaladas no teto. O plano era transplantar tudo para o quintal assim que ficasse mais quente. Logo elas come\u00e7aram a crescer. Me senti como meu filho ao ver seu feij\u00e3o brotando na escola.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#008000;\">Nas semanas seguintes, tudo cresceu como erva daninha. A opera\u00e7\u00e3o parecia f\u00e1cil demais. Convidei meu primo Gabe, que conhece bem l\u00e2mpadas para estufas, para um tour em meu por\u00e3o-estufa. &#8220;Elas est\u00e3o no lugar errado&#8221;, disse ele. Logo depois, um diagn\u00f3stico de dar medo: &#8220;Essas mudas s\u00e3o muito delicadas para ag\u00fcentar as condi\u00e7\u00f5es l\u00e1 fora&#8221;. Respondi, na lata: &#8220;Bobagem, elas est\u00e3o firmes aqui&#8221;. Gabe: &#8220;N\u00e3o tem vento aqui, tem?&#8221;. N\u00e3o falei mais nada, enquanto absorvia outra li\u00e7\u00e3o. As plantinhas eram de fato muito delicadas. A maioria come\u00e7ou a morrer antes de deixar o por\u00e3o. Como medida paliativa, coloquei-as em um sol\u00e1rio. Apesar de meus esfor\u00e7os, encontrei o apocalipse numa manh\u00e3. Centenas de mudas estavam ca\u00eddas e encharcadas.<\/span><\/p>\n<p><strong><span style=\"color:#008000;\">Em busca de mudas<\/span><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"color:#008000;\">Enfim, a colheita: a fazenda perto do final do ciclo de produ\u00e7\u00e3o, ainda antes da chegada de um tornado devastador<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#008000;\">Est\u00e1vamos em meados de abril. De repente, tarde demais para o cultivo. Com o calend\u00e1rio avan\u00e7ando em dire\u00e7\u00e3o a agosto, quando teria de consumir apenas minha produ\u00e7\u00e3o, era necess\u00e1rio continuar com plantas novas, j\u00e1 no quintal. Mesmo nesse est\u00e1gio inicial eu estava completamente consciente do que os economistas chamam de &#8220;custo irrecuper\u00e1vel&#8221;. Eu n\u00e3o conseguiria de volta todo o trabalho, suor e dinheiro que havia investido em minhas sementes at\u00e9 o momento. Os locavores puristas iriam me evitar, mas que escolha eu tinha? Ent\u00e3o sa\u00ed para comprar mudas, o que n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil em Nova York. Ervas podem ser encontradas em qualquer lugar, mas voc\u00ea tem dificuldades quando est\u00e1 atr\u00e1s de milho, cenouras e batatas. Depois de semanas, finalmente encontrei a C. Verdino &amp; Sons, no Parque Ozone, onde enchi meu carrinho com mudas de favas, mel\u00f5es, beterrabas, berinjelas, pepinos, erva-doce, repolho e quatro tipos de piment\u00f5es.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#008000;\">Trabalhei como um doido para plantar tudo aquilo em meu quintal. Contei com a ajuda de Caleb, filho adolescente de uns amigos que n\u00e3o queria passar o \u00faltimo ver\u00e3o antes da faculdade trabalhando em um lugar fechado. Ele \u00e9 um garoto legal, apesar de seu cabelo louco e experi\u00eancia zero. Caleb nunca havia cozinhado uma refei\u00e7\u00e3o, imagine plant\u00e1-la. Mas estava agradecido pela sua companhia. Fizemos um esfor\u00e7o extra com as batatas, colocando-as em uma caixa retangular, chamada de &#8220;arado&#8221;. Elas seriam minha salva\u00e7\u00e3o contra a fome, assim como t\u00eam sido para civiliza\u00e7\u00f5es atrav\u00e9s dos s\u00e9culos. Uma planta\u00e7\u00e3o dif\u00edcil de destruir, capaz de sobreviver quando nada mais consegue.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#008000;\">Ainda tinha de tomar a dif\u00edcil decis\u00e3o a respeito das carnes que criaria. As til\u00e1pias sa\u00edram de cena, pois o cara com quem tentava falar sobre elas nunca me ligou de volta. J\u00e1 as galinhas foram cortadas por serem barulhentas, fedidas, m\u00e1s, sujas e fujonas &#8211; algo nada bom para a rela\u00e7\u00e3o com os vizinhos. Al\u00e9m disso, elas t\u00eam de ser depenadas. Calculei que precisaria de uma galinha por dia. Isso d\u00e1 um mont\u00e3o de penas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#008000;\">Em compara\u00e7\u00e3o, coelhos soavam como m\u00fasica. O ideal \u00e9 voc\u00ea com\u00ea-los bem jovens, quando sua carne \u00e9 mais macia, e, como todos sabemos, a esp\u00e9cie se multiplica loucamente. Segundo estudos, uma \u00fanica f\u00eamea pode produzir 1.000 vezes o peso de seu corpo em prole comest\u00edvel a cada ano. A esp\u00e9cie tamb\u00e9m adapta-se bem a gaiolas pequenas. Depois de uma pequena pesquisa, conclu\u00ed que a ra\u00e7a perfeita \u00e9 a flemish giant: os animais podem pesar mais de dez quilos e chegam ao ponto de abate em poucos meses. De um criador em Lichtfield (Connecticut), encomendei tr\u00eas f\u00eameas, um coelh\u00e3o adulto e outro ainda jovem que eu pretendia que ficasse como companheiro das crian\u00e7as. Ainda peguei mais uma f\u00eamea e um outro macho adulto em Nova Jersey, por seguran\u00e7a. Era junho, tinha bastante tempo para que eles servissem como minha principal fonte de prote\u00edna.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#008000;\">Logo pintaram complica\u00e7\u00f5es. Os coelhos chutavam suas vasilhas de \u00e1gua em busca de refresco. A umidade convidou moscas a colocarem seus ovos nas gaiolas. Eles viraram larvas que, por sua vez, grudaram nas f\u00eameas. Resultado: perdi uma f\u00eamea e o coelho das crian\u00e7as gra\u00e7as a uma infesta\u00e7\u00e3o repugnante, a qual recuso-me a descrever. Enfiei seus corpos em sacos de lixo, cobri tudo com uma p\u00e1 de cal e os deixei em latas \u00e0 beira da cal\u00e7ada para serem levados embora.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#008000;\">Coelhos nada coelhos<br \/>\nAs f\u00eameas sobreviventes demonstraram interesse zero pelo coelho de Jersey, o que significava que todas as fichas foram apostadas no coelho de Lichtfield, um chinchila americano com a metade do tamanho delas. Assim descobri que minha fazenda quebrou uma das leis inviol\u00e1veis da natureza: meus coelhos n\u00e3o transavam como coelhos. S\u00f3 de cuecas, no meio de uma noite qualquer, apostei que era a hora ideal para a farra dos orelhudos. Mas, incr\u00e9dulo, vi a f\u00eamea recusar os esfor\u00e7os do grande e avermelhado macho. Toda manh\u00e3, por duas semanas, pegava meu caf\u00e9, ia para o celeiro e presenciava o mesmo &#8220;n\u00e3o-acontecimento&#8221;.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#008000;\">Levei as f\u00eameas de volta para Connecticut, e o criador as cruzou com seis de seus machos. A f\u00eamea de Lichtfield foi engravidada, mas a de Jersey n\u00e3o fez nada que salvasse sua vida. &#8220;Sinto muito, \u00e9 uma coelha velha&#8221;, disse o criador. No meu retorno ao Brooklyn, minha mulher e eu a aposentamos e a promovemos a bicho de estima\u00e7\u00e3o. As crian\u00e7as adoraram. Duas semanas depois, ela morreu de hipertermia.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#008000;\">No meio de toda essa como\u00e7\u00e3o, calculei mal a data do parto da \u00fanica f\u00eamea prenha. Quando ela teve sua primeira ninhada, eu ainda n\u00e3o tinha constru\u00eddo a fundamental caixa na qual os coelhinhos seriam colocados e desmamados. Os manuais de cria\u00e7\u00e3o ensinam que a caixa deve ser apresentada \u00e0 coelha uma semana antes do parto, para que ela tenha tempo de ench\u00ea-la de p\u00ealos e construir um ninho. Depois de descobrir os rec\u00e9m-nascidos, me mexi para construir uma caixa apropriada e, na minha pressa, calculei mal as medidas. O resultado foi desastroso. A caixa era muito pequena. Conseq\u00fcentemente, a f\u00eamea n\u00e3o podia entrar para alimentar sua prole, for\u00e7ando os coelhinhos a sair da caixa e andar em volta da gaiola. A log\u00edstica de manter a aten\u00e7\u00e3o em sua primeira ninhada provou ser demais para a coelha e ela entrou em p\u00e2nico. E, quando uma mam\u00e3e coelha entra em p\u00e2nico, ela pode devorar seus coelhinhos. J\u00e1 havia lido sobre esse comportamento e silenciosamente temi por isso enquanto fazia uma nova caixa. Mas achei que era um fen\u00f4meno raro e fui negligente.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#008000;\">Carnificina materna<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#008000;\">Quando o fim de semana chegou, deixei a fazenda e fui com meu filho assistir a um desfile em Coney Island. Esperan\u00e7osa por um momento de conex\u00e3o entre m\u00e3e e filha na fazenda, Lisa levou Heath para visitar os coelhinhos. Apenas momentos antes de sua visita, a f\u00eamea havia destru\u00eddo o que restava dos filhotes, esmagando dois deles e arrancando a cabe\u00e7a de um terceiro. Vendo a carnificina, Lisa conseguiu segurar o v\u00f4mito e empurrar Heath para longe da gaiola.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#008000;\">S\u00f3 percebi mais tarde, mas Lisa estava tentando colocar panos quentes sobre seu ressentimento em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 fazenda o tempo todo. Ela odiava a bagun\u00e7a, tinha vergonha da pilha crescente de lixo na entrada de casa e estava enojada pelo cheiro de estrume que vinha do celeiro. O fato de eu estar sempre vestido com roupas sujas e de quase nunca deixar a propriedade tamb\u00e9m n\u00e3o ajudava. E tamb\u00e9m tinha o anel de sujeira que eu deixava em nossa banheira depois do banho todas as noites. Lisa n\u00e3o tinha planos de ser a esposa de um fazendeiro. Ela tem uma profiss\u00e3o exigente e tinha acabado de receber uma promo\u00e7\u00e3o quando eu comecei meu projeto. Lisa queria que nossa casa fosse um santu\u00e1rio, n\u00e3o o abatedouro no qual eu a transformei. Uma carreira e duas crian\u00e7as j\u00e1 eram demais. Quando cheguei do desfile com Jake, a simpatia de Lisa por mim e minha aventura agr\u00e1ria havia acabado.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#008000;\">Enquanto ela bufava, eu me consumia de preocupa\u00e7\u00e3o. Os coelhos haviam sido um erro t\u00e1tico. Era quase julho, menos de um m\u00eas para agosto. Precisava de uma nova fonte de prote\u00edna. Fui at\u00e9 Agway, em Nova Jersey, e voltei com 26 galinhas pequenas e quatro patinhos. Lisa chegou em casa bem na hora em que eu e Caleb est\u00e1vamos tirando os p\u00e1ssaros do carro, com os meus filhos dan\u00e7ando em volta. Sentindo-se acuada, Lisa pensou seriamente em pegar as crian\u00e7as e ir para um hotel. Sua raiva transbordou quando Jake pisou em um dos patinhos, mutilando o animal de tal forma que tive de pegar uma p\u00e1 e jog\u00e1-lo fora antes que o garoto percebesse o que tinha acontecido. Menos de uma hora em casa e j\u00e1 com um pato a menos. &#8220;Voc\u00ea vai transformar as crian\u00e7as em assassinos cru\u00e9is&#8221;, disse Lisa.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#008000;\">A\u00ed veio o \u00faltimo golpe. Na tarde seguinte, Caleb e eu constru\u00edmos a maior parte de um galinheiro. Inspirados pela anima\u00e7\u00e3o &#8220;A Fuga das Galinhas&#8221;, decidimos faz\u00ea-lo verticalmente, cheio de rampas, para que ocupasse o m\u00ednimo de espa\u00e7o. Tudo ia bem. L\u00e1 pelas 17h30, Caleb juntou tudo, pegou sua bicicleta e foi para casa se aprontar para o curso de barman. Uma hora depois, l\u00e1 estava eu dando os toques finais. Com uma serra el\u00e9trica em punho, cortava um peda\u00e7o de compensado para fazer uma rampa de entrada. De repente, a l\u00e2mina da serra pegou meu dedo mindinho direito e destruiu sua segunda falange. Partes dele ficaram na serra e no ch\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#008000;\">Peguei meu celular com minha m\u00e3o esquerda e liguei para Josh, um amigo de inf\u00e2ncia que agora \u00e9 bombeiro e, melhor ainda, mora na esquina. Ele correu at\u00e9 minha casa e estancou o ferimento sob meu olhar assustado. N\u00e3o tanto pelo machucado, que n\u00e3o ia me matar, mas por Lisa, que provavelmente iria. Ela deveria chegar em casa com as crian\u00e7as a qualquer momento. Depois de mais um longo dia no escrit\u00f3rio, seria uma cena e tanto para ela ver.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#008000;\">Decidido a n\u00e3o me levar a um pronto-socorro, onde ficar\u00edamos em uma fila, Josh ligou para um cirurgi\u00e3o especialista em m\u00e3os, Danny Fong, que concordou em ver a mim e a meu mindinho imediatamente. Antes que cheg\u00e1ssemos \u00e0 porta de casa, Lisa apareceu com Heath e Jake. Tentei soar casual: &#8220;Querida, machuquei meu dedo e preciso ir ao m\u00e9dico&#8221;. &#8220;Como assim? Machucou muito?&#8221;, ela perguntou. &#8220;N\u00e3o muito&#8221;, menti. E a\u00ed fui honesto: &#8220;Com a serra el\u00e9trica&#8221;. Minha mulher deu um grito cheio de ang\u00fastia e frustra\u00e7\u00e3o. Lisa me xingou por minha idiotice, afinal, havia me mutilado. Mas n\u00e3o era s\u00f3 isso. Agora, ela ainda tinha que sentir pena.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#008000;\">O peda\u00e7o mais verde do bairro<br \/>\nPoucos dias depois do incidente do mindinho, enquanto Caleb e eu est\u00e1vamos limpando o coc\u00f4 da gaiola do coelho, um grupo de senhoras do Jardim Bot\u00e2nico local se juntou na entrada da rua. Elas eram juradas de uma competi\u00e7\u00e3o que julga o peda\u00e7o mais verde do Brooklyn. O grupo foi atra\u00eddo pelas caixas de plantas que eu tinha em frente de casa, cheias de tomates, piment\u00f5es, pepinos e mel\u00f5es. Elas queriam nos cumprimentar por sermos um exemplo de como comida pode ser cultivada na cidade. Caleb e eu trocamos um olhar e as conduzimos ao quintal. A fazenda as deixou malucas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#008000;\">Seu entusiasmo me permitiu um novo olhar sobre meu jardim. O milho estava bem alto, em fileiras uniformes, e os feij\u00f5es cresciam vigorosos. As borboletas deslizavam sobre os repolhos e os pepinos pendurados nas grades que havia constru\u00eddo para eles. As ervas estavam gloriosas, as flores da erva-doce com um forte gosto de anis, o grande arbusto de alecrim prometendo anos de servi\u00e7o. Entre o verde, pequenos peda\u00e7os de cor brilhavam: uma ab\u00f3bora amarela, uma berinjela branca, um tomate vermelho. As batatas ficaram t\u00e3o altas e fortes que n\u00e3o t\u00ednhamos espa\u00e7o para mais delas. As juradas do Jardim Bot\u00e2nico ficaram maravilhadas. Por um momento, eu tamb\u00e9m fiquei. Est\u00e1vamos a uma semana da chegada do tornado.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#008000;\">A piada sem gra\u00e7a do dia 8 de agosto de 2007 arrasou o milho, a ab\u00f3bora, metade das berinjelas, a maior parte dos feij\u00f5es e a figueira. Quando a tempestade acalmou, parei na varanda por um momento, rindo para mim mesmo e pensando que a m\u00e3e natureza havia feito o que Lisa n\u00e3o tinha conseguido. O experimento estava terminado. Pelo menos havia uma \u00f3tima desculpa: um tornado. Quem poderia prever? Vagando pelo estrago, percebi dois figos maduros jogados na sujeira. Limpei as frutas em minha cal\u00e7a e os comi. Depois, sem realmente pensar sobre o que estava fazendo, xinguei as galinhas que tinham escapado e colhi os legumes danificados. Peguei tomates, passei pelo processador e pus o molho no freezer. Salvei algumas folhas de uns repolhos esmagados, limpei-as e tamb\u00e9m coloquei no freezer. Logo percebi uma coisa: a fazenda sobreviveu.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#008000;\">Voc\u00ea deve ter percebido, caro leitor, que perdi meu prazo original. Em 8 de agosto, dia do tornado, j\u00e1 deveria estar me alimentando de minha produ\u00e7\u00e3o havia uma semana. Entretanto, isso n\u00e3o foi poss\u00edvel. No come\u00e7o do m\u00eas, os tomates estavam verdes, e as galinhas, ainda abaixo do peso m\u00ednimo para o abate. Havia quatro berinjelas com tamanho suficiente para serem comidas e apenas um pepino. Nada de beterrabas ou cenouras. O in\u00edcio do experimento havia sido alterado para 15 de agosto.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#008000;\">Isso me deu tempo, entre outras coisas, para turbinar a produ\u00e7\u00e3o de ovos. Eles n\u00e3o faziam parte do plano, mas se tornaram parte dele depois que um criador me empurrou uma galinha mutante. Era quase sem penas e tinha pernas e p\u00e9s escabrosos. Para nossa surpresa, ela se mostrou uma boa galinha. E, depois de a colocarmos em uma dieta de ra\u00e7\u00e3o para gatos, ela produziu um \u00f3timo ovo caipira. Foi um momento de alegria na fazenda.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#008000;\">Ela p\u00f4s outro ovo no dia seguinte, mas comeu o maldito antes que eu pudesse colocar minhas m\u00e3os nele. Duvidei que ela transformaria esse ato nojento e canibal em um h\u00e1bito. Ent\u00e3o esperei pelo terceiro dia, quando aconteceu de novo. Fiz uma pesquisa r\u00e1pida e descobri que, para qualquer galinha, o gosto de seu pr\u00f3prio ovo tem o mesmo efeito que o crack tem em um viciado. O que se seguiu foi uma batalha por claras e gemas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#008000;\">A galinha vivia em uma gaiola com o ch\u00e3o inclinado, projetado para preservar seus ovos. Ela os colocava e eles rolavam para fora da gaiola. No in\u00edcio, ela n\u00e3o percebeu que o ovo estava l\u00e1. Mas depois de ficar com a boca cheia de sua pr\u00f3pria gema, o animal aprendeu a girar, quebrar cada ovo com seu bico e engolir tudo o que podia antes que ele ca\u00edsse na bandeja embaixo da gaiola. Minha primeira rea\u00e7\u00e3o foi aumentar o \u00e2ngulo da gaiola e encapar o arame para que a casca n\u00e3o quebrasse quando o ovo rolasse rapidamente para longe da galinha. Consegui dois ovos. Ponto! Mas ela logo aprendeu a alongar seu pesco\u00e7o atrav\u00e9s do mesmo buraco que permite a passagem do ovo. Perdi mais uma.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#008000;\">Passei um arame na frente da gaiola, do ch\u00e3o ao teto. Consegui mais tr\u00eas ovos. Furiosa como todo viciado, a galinha aprendeu a se contorcer e suspender seu pesco\u00e7o para fora da gaiola como antes. Troquei todo aquele arame por um peda\u00e7o de rede, o que deu a ela espa\u00e7o suficiente para colocar ovos e criou um piso secund\u00e1rio, largo o suficiente para que ela n\u00e3o conseguisse alcan\u00e7ar al\u00e9m da parede frontal da gaiola. O in\u00edcio de minha dieta da fazenda se aproximava e j\u00e1 tinha quase uma d\u00fazia de ovos na geladeira.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#008000;\">As primeiras galinhas foram mortas cinco dias depois do tornado. Era o n\u00famero poss\u00edvel, j\u00e1 que as outras vinte ainda estavam abaixo do peso. Segundo a t\u00e9cnica de abate que escolhi, as galinhas deveriam ser colocadas em um cone de a\u00e7o inoxid\u00e1vel. Ele impede os animais de sair correndo sem sentido, batendo suas asas. Seus pesco\u00e7os s\u00e3o ent\u00e3o cortados com uma l\u00e2mina de quatro polegadas. Assim que acabam de sangrar, os bichos s\u00e3o colocados em um escaldador &#8211; um cont\u00e2iner de fibra de vidro cheio de \u00e1gua aquecida &#8211; para que sua penas sejam retiradas mais facilmente. Depois de depenadas, seus mi\u00fados e p\u00e9s s\u00e3o retirados, e os cad\u00e1veres s\u00e3o colocados em \u00e1gua fria. O processo leva horas e n\u00e3o estava preparado psicologicamente para ele. Matar as galinhas foi um trabalho tedioso e grotesco. Quando terminei, sentei na cal\u00e7ada com tr\u00eas garrafas de cerveja.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#008000;\">Em 15 de agosto, primeiro dia da dieta, avaliei meu estoque de galinhas, tomates, berinjelas, pepinos, outras coisinhas e alguns ovos. Uma coisa era certa: eu iria precisar das malditas batatas. Desisti de fazer um levantamento da planta\u00e7\u00e3o de batatas porque n\u00e3o queria interferir no que esperava ser sua maneira selvagem e abundante de crescimento. Meu pai, que plantava batatas na Inglaterra, sua terra natal, havia sido meu consultor nessa parte do &gt;&gt; projeto. Seu envolvimento me dava confian\u00e7a. Esperava colher 100 ou 200 batatas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#008000;\">Puxei a cerca de compensado para longe da planta\u00e7\u00e3o. Ataquei o solo com um garfo para jardinagem. Atingi algo s\u00f3lido e encontrei um bolo de sujeira. Repeti esse exerc\u00edcio in\u00fatil at\u00e9 chegar a uns 3 metros abaixo do solo. Zero. Aprofundando-me ainda mais, como um garimpeiro em busca de ouro, encontrei sete das menores batatas que o mundo j\u00e1 viu. Liguei para meu pai. &#8220;A planta\u00e7\u00e3o de batatas n\u00e3o deu certo&#8221;, disse. &#8220;N\u00e3o deu certo? Como n\u00e3o?&#8221;, ele balbuciou. &#8220;Consegui achar sete, e elas s\u00e3o t\u00e3o grandes quanto bot\u00f5es de camisa&#8221;, repliquei. Talvez, as coisas tivessem sido diferentes depois de mais um m\u00eas na terra. Mas o fato \u00e9 que minha dieta n\u00e3o teria batatas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#008000;\">A primeira ceia<br \/>\nEsperava compartilhar minha primeira refei\u00e7\u00e3o com Lisa e as crian\u00e7as, mas ela estava firme em seu boicote contra todas as coisas da fazenda &#8211; especialmente o fazendeiro. Ela havia marcado um happy hour depois do trabalho e deixou Jake e Heath com minha m\u00e3e. Ent\u00e3o convidei meu amigo Dan para juntar-se a mim. Nascido no Alaska, ele conhece bem a cria\u00e7\u00e3o de aves dom\u00e9sticas. O sujeito n\u00e3o ficou animado ao perceber que \u00e1gua era o \u00fanico acompanhamento na mesa. &#8220;Nada al\u00e9m de \u00e1gua por um m\u00eas?&#8221;, ele perguntou. &#8220;N\u00e3o plantei bebida alguma&#8221;, respondi. &#8220;Claro que n\u00e3o&#8230;&#8221;, disse Dan. Encerrei o assunto: &#8220;Sinta-se \u00e0 vontade para abrir uma garrafa de vinho&#8221;.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#008000;\">Preparei uma galinha em minha churrasqueira, dividi o bicho em duas partes e as coloquei sobre uma salada de folhas. Cozinhei cebolas e alho na sua gordura. Como acompanhamento, coloquei grossas fatias de tomate e temperei tudo com sal marinho, pimenta-do-reino e salsinha. Ficou lindo, bom at\u00e9 para um restaurante. O sabor era ainda melhor. A pele era grossa e crocante. A carne foi uma revela\u00e7\u00e3o, densa, mas n\u00e3o borrachuda, com um sabor concentrado de doze galinhas de supermercado. Tinha sabor de algo que havia vivido de verdade, como peixe rec\u00e9m-pescado. Dan tamb\u00e9m curtiu, mas n\u00e3o me importava muito com o que ele achava. O cara estava l\u00e1 para testemunhar a minha mais completa satisfa\u00e7\u00e3o. Tanto que nem liguei para seus grandes goles de vinho branco.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#008000;\">Quando Lisa chegou em casa com as crian\u00e7as, praticamente enxotei meu comparsa, insistindo para que minha fam\u00edlia provasse um pouco do meu jantar. Lisa recusou de pronto. Jake olhou para a m\u00e3e, depois para a galinha, e disse: &#8220;N\u00e3o pai, obrigado&#8221;. &#8220;Verdade? N\u00e3o querem nem experimentar?&#8221;, perguntei. &#8220;Estou bem&#8221;, disse Lisa. Jake olhou para n\u00f3s dois. &#8220;Vamos l\u00e1, Jake, experimenta. \u00c9 maravilhoso!&#8221;, insisti. Desesperado por um aliado, tentei dividir a fam\u00edlia entre meninos e meninas. &#8220;N\u00e3o \u00e9 como uma galinha comum&#8221;, apelei. &#8220;Eu gosto de galinha comum&#8221;, afirmou o garoto.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#008000;\">No dia seguinte, preparei outro prato perfeito como o da noite anterior e servi para Caleb, meu escudeiro. Ele olhou para aquilo como se desejasse um peda\u00e7o de pizza e comentou, como quem n\u00e3o conhece do assunto: &#8220;Cheira um pouco como cuecas&#8221;. Quando finalmente experimentou, ele teve de admitir que era delicioso.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#008000;\">Nos quatro dias seguintes, n\u00e3o comi nada que n\u00e3o viesse da fazenda. N\u00e3o havia muita variedade. Os ovos foram uma ben\u00e7\u00e3o. Comia um deles toda manh\u00e3. Ficava em jejum at\u00e9 o jantar, que come\u00e7ava a preparar por volta das 16 horas. Comia tudo sozinho, mais ou menos uma hora depois. As refei\u00e7\u00f5es eram pequenas varia\u00e7\u00f5es do meu primeiro prato, alternando galinha grelhada e ensopado de galinha com tomates e cebolas. Tinha repolhos e tomates frescos como acompanhamento, e um pouco de berinjela a cada dois dias. Vez ou outra, devo admitir, trapaceei usando azeite para cozinhar as berinjelas. Elas ficavam horrorosas quando cozidas em \u00e1gua.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#008000;\">Meu esquema foi ditado pelo fato de n\u00e3o haver realmente nada para almo\u00e7ar, pelo menos nada diferente do que tinha para jantar, e pelo fato de eu continuar sentando \u00e0 mesa com as crian\u00e7as para sua refei\u00e7\u00e3o \u00e0s 19 horas. Nunca antes havia salivado ao ver um peixe frito congelado, mas isso come\u00e7ou a acontecer. As imagens de sushis dan\u00e7ando em minha mente eram psicod\u00e9licas. O tempo come\u00e7ou a passar mais devagar. Tentei levar uma vida normal, mas deixar a fazenda me levou a ter contato com alimentos que n\u00e3o podia comer. E fiquei tentado por quase tudo que era inadmiss\u00edvel. Fui ao mercadinho para comprar leite para as crian\u00e7as e quase implorei por um pacote de pipocas de microondas, algo que geralmente odeio.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#008000;\">No sexto dia, fiquei literalmente de joelhos. Culpa de um grande desarranjo intestinal. Vou deixar os detalhes de lado, mas quase desisti. N\u00e3o sei se essa indisposi\u00e7\u00e3o foi causada pela comida da fazenda. Entretanto, fico orgulhoso de dizer que estava apto a retornar \u00e0 dieta ap\u00f3s dois dias de sofrimento. A \u00fanica exce\u00e7\u00e3o seria um bife suculento, um presente de anivers\u00e1rio dado pela minha m\u00e3e. Provavelmente por interven\u00e7\u00e3o divina, infelizmente queimei o belo peda\u00e7o de carne. Me mantive firme em meu experimento.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#008000;\">Cen\u00e1rio perfeito? T\u00edpica rua do Brooklyn nova-iorquino. Voc\u00ea imaginaria encontrar uma fazenda em um lugar como esse?<\/span><\/p>\n<p><strong><span style=\"color:#008000;\">Fechando a conta<\/span><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"color:#008000;\">Tr\u00eas semanas depois de comer nada al\u00e9m do que vinha da fazenda, perdi 14 quilos de meus 110 originais. Eis o lado bom de fazer apenas duas refei\u00e7\u00f5es por dia. O lado ruim \u00e9 o custo. Sem contar meu pr\u00f3prio trabalho, gastei aproximadamente US$ 11 mil (R$ 20 mil) com meu experimento, e o resultado foi insuficiente para alimentar um adulto por um m\u00eas. Mas aprendi algo: a menos que voc\u00ea realmente saiba o que est\u00e1 fazendo, esse \u00e9 um trabalho torturante, capaz de destruir sua alma. Mas \u00e9 claro que comer comida fresca \u00e9 delicioso.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#008000;\">Poucos locavores veriam minha experi\u00eancia como algo relacionado ao que defendem: comer regionalmente e de forma sazonal, para salvar o planeta. Mas agora entendo melhor os seus slogans. Comer localmente \u00e9 caro e consome tempo, e \u00e9 exatamente por isso que esse movimento n\u00e3o ir\u00e1 atingir as massas. Sua pr\u00e1tica requer disposi\u00e7\u00e3o total para a abstin\u00eancia de conveni\u00eancias e muito desapego do mundo moderno. Nossa \u00e9poca \u00e9 determinada pela divis\u00e3o do trabalho: n\u00e3o costuramos nossas roupas, n\u00e3o constru\u00edmos nossas casas e por a\u00ed vai, exatamente porque estamos ocupados em fazer algo para outras pessoas. Os locavores tamb\u00e9m pregam a valoriza\u00e7\u00e3o do tempo e da energia, al\u00e9m do cuidado que deve ser empregado na produ\u00e7\u00e3o de nossos alimentos. Nesse ponto, estou com eles.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#008000;\">E ainda havia Lisa. Em uma noite qualquer, quando me juntei a ela e as crian\u00e7as para o seu jantar, Lisa comentou que, depois de ver o quanto eu tinha trabalhado duro para ter um simples frango na mesa, nunca mais iria fazer compras do mesmo jeito. N\u00e3o era uma quest\u00e3o de comprar regionalmente, sazonalmente ou organicamente. O importante era consumir com responsabilidade. &#8220;Nunca mais desperdi\u00e7arei tanto&#8221;, ela disse. &#8220;Jogamos mais comida fora do que comemos.&#8221; Pronto. Enfim tivemos nosso momento m\u00e1gico de entendimento.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color:#008000;\">Copyright 2007 &#8220;New York&#8221;.<br \/>\nDistribu\u00edda por Tribune Media Services<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>joeysplanting\u00a0 O desafio: transformar um quintal nova-iorquino em um s\u00edtio de 800 m2 e comer somente o que nele foi plantado e criado. 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