{"id":7634,"date":"2010-10-12T08:00:38","date_gmt":"2010-10-12T11:00:38","guid":{"rendered":"http:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=7634"},"modified":"2010-10-12T08:00:38","modified_gmt":"2010-10-12T11:00:38","slug":"o-uso-seguro-de-agrotoxicos-e-um-mito","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/o-uso-seguro-de-agrotoxicos-e-um-mito\/","title":{"rendered":"O uso seguro de agrot\u00f3xicos \u00e9 um mito"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"color: #008000;\">Raquel Rigotto, professora do Departamento de Sa\u00fade Comunit\u00e1ria da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Cear\u00e1 (UFC), participou como palestrante do Semin\u00e1rio Nacional Contra o Uso de Agrot\u00f3xicos, realizado de 14 a 16 de setembro na Escola Nacional Florestan Fernandes \u2013 Guararema, S\u00e3o Paulo. Coordenadora do N\u00facleo Tramas \u2013 Trabalho, Meio Ambiente e Sa\u00fade, pesquisa a rela\u00e7\u00e3o entre agrot\u00f3xicos, ambiente e sa\u00fade no contexto da moderniza\u00e7\u00e3o agr\u00edcola no estado do Cear\u00e1. Nesta entrevista, ela defende o debate sobre uso de agrot\u00f3xicos como um tema estrat\u00e9gico e critica a ideia de que \u00e9 poss\u00edvel utiliz\u00e1-los de forma segura.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">A entrevista \u00e9 de Leila Leal e publicada pela Escola Polit\u00e9cnica de Sa\u00fade Joaquim Ven\u00e2ncio\/Fiocruz, 30-09-2010.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Qual a import\u00e2ncia da discuss\u00e3o sobre agrot\u00f3xicos na atual conjuntura?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Os agrot\u00f3xicos n\u00e3o podem ser vistos apenas como um conjunto de subst\u00e2ncias qu\u00edmicas que pode causar riscos qu\u00edmicos \u00e0 sa\u00fade. Eles precisam ser entendidos no contexto em que s\u00e3o utilizados, que envolve o processo de moderniza\u00e7\u00e3o agr\u00edcola conservadora em curso no Brasil, que tem a ver com a reestrutura\u00e7\u00e3o produtiva no campo e a divis\u00e3o internacional da produ\u00e7\u00e3o e do trabalho, na qual cabe ao Brasil a produ\u00e7\u00e3o de commodities de origem agr\u00edcola. Esse contexto mais geral precisa ser considerado, assim como o entendimento do agroneg\u00f3cio n\u00e3o apenas em sua dimens\u00e3o de latif\u00fandios e monoculturas, mas tamb\u00e9m como um subsistema t\u00e9cnico e pol\u00edtico que envolve o capital financeiro, a ind\u00fastria qu\u00edmica, a ind\u00fastria de biotecnologia, sementes, fertilizantes, tratores, enfim, toda a ind\u00fastria metal-mec\u00e2nica.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Esse contexto determina a vulnerabilidade das popula\u00e7\u00f5es aos agrot\u00f3xicos. E que popula\u00e7\u00f5es s\u00e3o essas? Temos em primeiro lugar os trabalhadores das empresas, mas tamb\u00e9m outros segmentos de trabalhadores que s\u00e3o influenciados por esse processo, como os pequenos produtores.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">No Cear\u00e1, os pequenos produtores foram colocados na condi\u00e7\u00e3o de parceiros do agroneg\u00f3cio, o que na verdade \u00e9 uma forma de terceiriza\u00e7\u00e3o. O cultivo de fumo no Rio Grande do Sul tamb\u00e9m \u00e9 um exemplo disso, s\u00e3o pequenos produtores que est\u00e3o completamente subordinados \u00e0s exig\u00eancias da ind\u00fastria fumageira. Al\u00e9m desses trabalhadores, s\u00e3o atingidos os moradores dessas regi\u00f5es.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">No Mato Grosso, h\u00e1 munic\u00edpios completamente cercados pelo agroneg\u00f3cio, que atinge at\u00e9 mesmo a reserva do povo Xingu: h\u00e1 rios que nascem fora de sua \u00e1rea e cuja \u00e1gua j\u00e1 entra no territ\u00f3rio ind\u00edgena contaminada por agrot\u00f3xicos. H\u00e1 tamb\u00e9m a quest\u00e3o dos consumidores de alimentos, que t\u00eam uma ingest\u00e3o di\u00e1ria aceit\u00e1vel de veneno. \u00c9 o \u2018veneno nosso de cada dia\u2019 na alimenta\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">E, ainda, temos os trabalhadores que fabricam esses venenos. H\u00e1 conflitos ambientais j\u00e1 identificados com esses trabalhadores de f\u00e1bricas e as comunidades do entorno das f\u00e1bricas, que s\u00e3o contaminadas. No nordeste, h\u00e1 uma f\u00e1brica de agrot\u00f3xicos que tem problemas s\u00e9rios com 11 bairros na sua vizinhan\u00e7a por causa da sua contamina\u00e7\u00e3o atmosf\u00e9rica. Al\u00e9m disso, a quest\u00e3o dos agrot\u00f3xicos \u00e9 abrangente porque vai nos ajudar a resgatar a interrela\u00e7\u00e3o campo e cidade.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Na medida em que o pa\u00eds se urbaniza, tendemos a pensar o Brasil como um pa\u00eds urbano \u2013 e h\u00e1 uma conota\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica de que isso nos aproxima mais do perfil dos pa\u00edses desenvolvidos e deixa para tr\u00e1s o \u2018atraso do campo\u2019 \u2013, perdendo de vista que h\u00e1 uma din\u00e2mica rural-urbana fundamental. Isso se expressa na produ\u00e7\u00e3o de alimentos, na manuten\u00e7\u00e3o de riquezas naturais como a \u00e1gua, os microclimas, as chuvas (importantes para a cidade e \u2018produzidas\u2019 no campo) e tamb\u00e9m do ponto de vista da organiza\u00e7\u00e3o do campo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">A concentra\u00e7\u00e3o de terra, que expulsa pessoas das \u00e1reas rurais, faz com que as cidades fiquem cada vez mais ingovern\u00e1veis, por causa da migra\u00e7\u00e3o e de todos os processos de degrada\u00e7\u00e3o da qualidade de vida, como a viol\u00eancia, as drogas e outros. Enfim, faz com que toda a problem\u00e1tica ambiental urbana cres\u00e7a. Os agrot\u00f3xicos d\u00e3o oportunidade para discutirmos tudo isso, e tamb\u00e9m para debatermos a ci\u00eancia e seus limites hoje. H\u00e1 subst\u00e2ncias qu\u00edmicas que nos mostram a insufici\u00eancia dos conhecimentos produzidos para que possamos ter alguma seguran\u00e7a ao lidar com elas. Um exemplo \u00e9 o problema da exposi\u00e7\u00e3o m\u00faltipla a v\u00e1rios ingredientes ativos, que ainda carece de respostas. S\u00e3o v\u00e1rias situa\u00e7\u00f5es que nos colocam os limites da ci\u00eancia e que tamb\u00e9m desafiam o Estado, porque n\u00e3o h\u00e1 como tratar os problemas dos agrot\u00f3xicos apenas como problema agr\u00edcola ou agr\u00e1rio, apenas como problema de sa\u00fade ou de meio ambiente. Esse \u00e9 um problema que perpassa diversos setores das pol\u00edticas p\u00fablicas e exige uma atua\u00e7\u00e3o integrada, o que tamb\u00e9m \u00e9 um exerc\u00edcio interessante de fazermos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Na sua palestra no Semin\u00e1rio Nacional Contra o Uso de Agrot\u00f3xicos, foi destacada a import\u00e2ncia de esclarecermos se estamos discutindo agrot\u00f3xicos e sa\u00fade ou agrot\u00f3xicos e doen\u00e7a. Qual a diferen\u00e7a entre as abordagens e o que isso significa para o debate?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Na cultura positivista que temos, existe uma certa tend\u00eancia, tantos dos empres\u00e1rios como algumas vezes at\u00e9 da pr\u00f3pria m\u00eddia, de procurar por agravos \u00e0 sa\u00fade que pudessem ser atribu\u00eddos aos agrot\u00f3xicos, identificando e quantificando casos. \u00c9 como se, para validar a quest\u00e3o dos agrot\u00f3xicos como um problema digno de aten\u00e7\u00e3o, relevante e urgente, depend\u00eassemos disso, como se precis\u00e1ssemos ter gera\u00e7\u00e3o e comprova\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a para come\u00e7armos a pensar no assunto e nos problemas dos agrot\u00f3xicos. O que estamos propondo \u00e9 que o conhecimento sobre a nocividade dos agrot\u00f3xicos est\u00e1 dado a priori, porque ao defini-los como agrot\u00f3xicos estamos dizendo que s\u00e3o biocidas, que fulminam a vida, e ao atribuir a eles uma classifica\u00e7\u00e3o toxicol\u00f3gica que vai de pouco t\u00f3xico a extremamente t\u00f3xico tamb\u00e9m estamos deixando isso claro.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">N\u00e3o h\u00e1 nenhuma classifica\u00e7\u00e3o que seja \u2018n\u00e3o-t\u00f3xico\u2019. O mesmo acontece em termos da classifica\u00e7\u00e3o ambiental, que se relaciona \u00e0 resist\u00eancia do solo, e aos estudos da biomagnifica\u00e7\u00e3o, teratog\u00eanese, mutag\u00eanese e carcinog\u00eanese [referentes ao ac\u00famulo de produtos t\u00f3xicos ao longo da cadeia alimentar e \u00e0 possibilidade de anomalias e malforma\u00e7\u00f5es fetais, muta\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas e desenvolvimento de c\u00e2ncer]. Ent\u00e3o, os agrot\u00f3xicos j\u00e1 est\u00e3o classificados nesse sentido. N\u00e3o h\u00e1 que se perguntar se s\u00e3o veneno ou rem\u00e9dio, est\u00e1 claro que s\u00e3o um tipo de veneno. Esse potencial de dano est\u00e1 dado, e defendemos que n\u00e3o precisar\u00edamos provar a exist\u00eancia do dano para postergar pol\u00edticas p\u00fablicas e iniciativas dos agentes econ\u00f4micos para combater esse problema. Poder\u00edamos, desde j\u00e1, estar trabalhando na perspectiva de que existe um risco e um contexto de risco, partindo para o controle desses riscos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Por que \u00e9 dif\u00edcil estabelecer rela\u00e7\u00f5es entre exposi\u00e7\u00e3o humana aos agrot\u00f3xicos e os danos \u00e0 sa\u00fade?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Os efeitos cr\u00f4nicos causados pela exposi\u00e7\u00e3o a agrot\u00f3xicos s\u00e3o muito diversificados. Cada composto e princ\u00edpio ativo tem um perfil toxicol\u00f3gico e uma nocividade pr\u00f3pria, e isso se relaciona a uma s\u00e9rie de patologias que v\u00e3o desde dermatoses at\u00e9 infertilidade, abortamento, malforma\u00e7\u00f5es cong\u00eanitas, c\u00e2nceres, dist\u00farbios imunol\u00f3gicos, end\u00f3crinos, problemas hep\u00e1ticos e renais\u2026 Mas todas essas patologias t\u00eam etiologias variadas, o que significa que podem ser causadas por outros elementos que n\u00e3o os agrot\u00f3xicos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">E, como somos acostumados a fazer racioc\u00ednio muito linear entre doen\u00e7a e agente causal, isso fica muito complicado. \u00c9 poss\u00edvel, por exemplo, quando uma empresa quer se negar a assumir suas responsabilidades, que ela diga que o trabalhador teve uma leucemia porque a fam\u00edlia tem carga gen\u00e9tica para isso.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Do ponto de vista epidemiol\u00f3gico, os estudos t\u00eam evidenciado essas correla\u00e7\u00f5es, demonstrando que popula\u00e7\u00f5es mais expostas, comparando com n\u00e3o expostas, t\u00eam carga maior de doen\u00e7as. Mas gerar essa informa\u00e7\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">No caso do Cear\u00e1, o instituto que recebe a maioria dos c\u00e2nceres hematol\u00f3gicos n\u00e3o tem na sua ficha de investiga\u00e7\u00e3o o dado sobre a ocupa\u00e7\u00e3o do trabalhador. Isso \u00e9 um exemplo da dificuldade que temos para fazer um perfil que relacione a ocupa\u00e7\u00e3o e, por consequ\u00eancia, o contato com agrot\u00f3xicos, a uma determinada doen\u00e7a.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Existe um discurso muito difundido de que os agrot\u00f3xicos seriam uma necessidade para garantir a produ\u00e7\u00e3o de alimentos, e de que sem eles \u2018o mundo morreria de fome\u2019. A partir da\u00ed, a proposta \u00e9 desenvolver formas seguras de lidar com os agrot\u00f3xicos. Qual a sua opini\u00e3o sobre isso? O \u2018uso seguro\u2019 \u00e9 poss\u00edvel?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">A \u2018Revolu\u00e7\u00e3o Verde\u2019, que \u00e9 o momento que marca na hist\u00f3ria da humanidade a quest\u00e3o dos agrot\u00f3xicos, aconteceu h\u00e1 cerca de 50 anos. A humanidade tem cerca de 8 mil anos de hist\u00f3ria conhecida na agricultura, e n\u00f3s vivemos e nos alimentamos por todos esses mil\u00eanios sem os agrot\u00f3xicos e transg\u00eanicos (o que \u00e9 um outro argumento muito comum agora, de que, de repente, n\u00e3o podemos mais viver sem os transg\u00eanicos). \u00c9 claro, h\u00e1 relatos de que desde os povos mais antigos havia uso de algumas subst\u00e2ncias para controle de pragas e de processos de cultivo, a humanidade tem um ac\u00famulo nesse sentido. Estou me referindo a esse uso massivo de agrot\u00f3xicos, estimulado pela ind\u00fastria qu\u00edmica, que pode fazer propaganda na televis\u00e3o, ter isen\u00e7\u00e3o de impostos como o ICMS, IPI, Cofins, PIS\/Pasep.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Ent\u00e3o, a primeira coisa importante de tomarmos consci\u00eancia \u00e9 que j\u00e1 vivemos muitos anos como humanidade sem os venenos, e que depois do uso de venenos a produtividade da agricultura certamente elevou-se, mas a seguran\u00e7a e a soberania alimentar da humanidade n\u00e3o. Continuamos tendo quase um bilh\u00e3o de pessoas desnutridas ou subnutridas no mundo, ent\u00e3o est\u00e1 clara que essa n\u00e3o \u00e9 uma crise que seja explicada pela subprodu\u00e7\u00e3o, mas sim pela m\u00e1 distribui\u00e7\u00e3o. Isso se deve ao fato de que aquilo que o agroneg\u00f3cio e a moderniza\u00e7\u00e3o agr\u00edcola produzem n\u00e3o s\u00e3o alimentos, mas sim commodities, o que \u00e9 muito diferente.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">H\u00e1 todo um aparato jur\u00eddico, institucional, legal, para regular o uso de agrot\u00f3xicos e o que vemos \u00e9 que esse aparato n\u00e3o tem sido eficaz. O que se v\u00ea \u00e9 que, desde o processo de normatiza\u00e7\u00e3o, houve interfer\u00eancia. Temos documentos dos produtores de agrot\u00f3xicos em que afirmam a sua estrat\u00e9gia de interferir no processo regulat\u00f3rio, fazer lobby, interferir na capacita\u00e7\u00e3o dos servidores p\u00fablicos e dos operadores de direito que lidam com essa \u00e1rea.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Ent\u00e3o, desde o in\u00edcio da regula\u00e7\u00e3o, h\u00e1 problemas. Quantos desses estatutos que est\u00e3o previstos na legisla\u00e7\u00e3o funcionam efetivamente? O receitu\u00e1rio agron\u00f4mico n\u00e3o funciona e h\u00e1 pouqu\u00edsmos laborat\u00f3rios, no pa\u00eds inteiro, que s\u00e3o capazes de fazer an\u00e1lise da \u00e1gua e da contamina\u00e7\u00e3o humana por agrot\u00f3xicos. Estamos agora no processo de revis\u00e3o da Portaria 518, que diz respeito \u00e0 potabilidade da \u00e1gua para consumo humano, e um dos grandes dramas \u00e9 esse: podemos colocar l\u00e1 todos os 450 ingredientes ativos de veneno registrados que temos no Brasil, mas onde v\u00e3o ser analisados para cada uma das prefeituras de cada um dos quase 6 mil munic\u00edpios do nosso pa\u00eds? N\u00e3o temos essa capacidade instalada. Fazemos o licenciamento ambiental desse empreendimento, mas n\u00e3o temos condi\u00e7\u00f5es de monitorar se as condicionantes e requisitos colocados no licenciamento s\u00e3o cumpridos, porque n\u00e3o h\u00e1 fiscal, n\u00e3o tem di\u00e1ria, n\u00e3o tem aparelho e laborat\u00f3rio.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">H\u00e1 tamb\u00e9m uma s\u00e9rie de argumentos que foram trazidos pelo Censo Agropecu\u00e1rio, atrav\u00e9s do qual podemos constatar que h\u00e1 mais de 5 milh\u00f5es de estabelecimentos com mais de 16 milh\u00f5es de trabalhadores rurais dos quais um n\u00famero significativo \u00e9 de crian\u00e7as, com escolaridade considerada baixa. Como podemos pensar em uso seguro numa vastid\u00e3o dessa? A assist\u00eancia t\u00e9cnica \u00e9 prec\u00e1ria. O Censo mostra que as propriedades que mais receberam assist\u00eancia s\u00e3o aquelas acima de 200 hectares, ou seja, h\u00e1 milh\u00f5es de propriedades de pequenos produtores que est\u00e3o \u00e0 revelia de assist\u00eancia t\u00e9cnica. Como podemos imaginar que o uso seguro acontecer\u00e1 assim? Qualquer pessoa pode chegar a uma loja e comprar o veneno que o balconista estiver interessado em vender e usar do jeito que o balconista ensinar. \u00c9 muito dif\u00edcil pensar em uso seguro assim.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Voc\u00ea falou em sua palestra que h\u00e1 um despreparo dos profissionais de sa\u00fade e do pr\u00f3prio SUS para lidar com essa quest\u00e3o. Como isso acontece?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Do ponto de vista da Pol\u00edtica Nacional de Sa\u00fade do Trabalhador, temos previstas a\u00e7\u00f5es que v\u00e3o desde a aten\u00e7\u00e3o b\u00e1sica \u2013 que seria principalmente atrav\u00e9s da Estrat\u00e9gica de Sa\u00fade da Fam\u00edlia \u2013 at\u00e9 os Centros de Refer\u00eancia em Sa\u00fade do Trabalhador (Cerests), com a\u00e7\u00f5es hierarquizadas. A proposta \u00e9 muito interessante. Mas o que vemos, especialmente no Cear\u00e1, \u00e9 que a forma como o SUS chega aos territ\u00f3rios que sofreram profundas transforma\u00e7\u00f5es pelos processos de mordeniza\u00e7\u00e3o agr\u00edcola \u00e9 insuficiente.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Os profissionais da aten\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria est\u00e3o completamente absorvidos pela assist\u00eancia m\u00e9dica, t\u00eam pouco tempo de fazer as outras a\u00e7\u00f5es pensadas para sua atua\u00e7\u00e3o e conhecem muito pouco a din\u00e2mica viva dos territ\u00f3rios em que as unidades de sa\u00fade est\u00e3o inseridas. Ent\u00e3o, t\u00eam poucas not\u00edcias sobre a instala\u00e7\u00e3o de empresas de agroneg\u00f3cio, n\u00e3o sabem se h\u00e1 trabalhadores migrantes que v\u00eam para atender demanda de for\u00e7a de trabalho sazonal, para, por exemplo, a colheita do mel\u00e3o (que \u00e9 um caso muito comum), que est\u00e3o sem suas fam\u00edlias e que isso causa a expans\u00e3o de uma rede de prostitui\u00e7\u00e3o \u2014 o que gera outros problemas, como gravidez indesejada na adolesc\u00eancia, uso de drogas, doen\u00e7as sexualmente transmiss\u00edveis, inclusive Aids.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Ent\u00e3o, para o sistema de sa\u00fade que est\u00e1 ali absorvido em diagnosticar e tratar doen\u00e7as \u2013 embora estejamos tentando superar esse paradigma, isso nem sempre \u00e9 poss\u00edvel \u2013, \u00e9 dif\u00edcil enxergar essas din\u00e2micas. A resposta \u00e0s novas necessidades de sa\u00fade tem sido insuficiente, \u00e9 isso que mostrou o estudo realizado pela Vanira Mattos na UFC. Nos Cerests, h\u00e1 experi\u00eancias ricas pelo Brasil afora, mas estou falando de um olhar local do Cear\u00e1. Ainda n\u00e3o conseguimos, ao longo dos tr\u00eas anos da nossa pesquisa, envolv\u00ea-los no atendimento a esses trabalhadores, nem desenvolver conjuntamente as a\u00e7\u00f5es de vigil\u00e2ncia sanit\u00e1ria, epidemiol\u00f3gica, ambiental e em sa\u00fade do trabalhador, que ainda n\u00e3o est\u00e3o acontecendo adequadamente.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Fonte &#8211; Raquel Rigotto, IHU On-line \/ EcoDebate de\u00a0de 06 de outubro de 2010<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Raquel Rigotto, professora do Departamento de Sa\u00fade Comunit\u00e1ria da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Cear\u00e1 (UFC), participou como palestrante do Semin\u00e1rio Nacional Contra o Uso de Agrot\u00f3xicos, realizado de 14 a 16 de setembro na Escola Nacional Florestan Fernandes \u2013 Guararema, S\u00e3o Paulo. 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