{"id":7642,"date":"2010-10-15T08:00:08","date_gmt":"2010-10-15T11:00:08","guid":{"rendered":"http:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=7642"},"modified":"2010-10-15T08:00:08","modified_gmt":"2010-10-15T11:00:08","slug":"os-impactos-da-mudanca-do-clima-na-producao-agricola","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/os-impactos-da-mudanca-do-clima-na-producao-agricola\/","title":{"rendered":"Os impactos da mudan\u00e7a do clima na produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"color: #008000;\">O estudo Impactos da mudan\u00e7a do clima na produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola partiu do atual zoneamento de riscos agr\u00edcolas do Brasil para prever o cen\u00e1rio que a agricultura brasileira viver\u00e1, em alguns anos, em decorr\u00eancia do aquecimento global. O professor Hilton Silveira Pinto participou da pesquisa que revelou, por exemplo, que o nordeste vai sofrer tamanho impacto que passar\u00e1 a ser uma regi\u00e3o \u00e1rida, e n\u00e3o mais semi\u00e1rida, causando intensa desertifica\u00e7\u00e3o nesses estados. \u201cO Cear\u00e1, por exemplo, perder\u00e1 cerca de 80% da \u00e1rea agricult\u00e1vel, o que faz com que a pr\u00f3pria alimenta\u00e7\u00e3o e subsist\u00eancia agr\u00edcola sejam um problema para o nordeste, causando migra\u00e7\u00f5es bastante grandes\u201d, apontou.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Em entrevista \u00e0 IHU On-Line, realizada por telefone, Hilton trouxe alguns dados do estudo, comparou-o com o relat\u00f3rio Stern e apresentou cen\u00e1rios que o Brasil pode viver se nada fizer em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. \u201cGestores ou mesmo pol\u00edticos ligados \u00e0 agricultura brasileira, em sua maioria, n\u00e3o acreditam ou n\u00e3o est\u00e3o tomando qualquer provid\u00eancia sobre isso. Alguns dirigentes de institui\u00e7\u00f5es e inclusive da pr\u00f3pria meteorologia ainda t\u00eam d\u00favidas quanto ao problema. O que \u00e9 muito ruim porque isso significa que n\u00e3o h\u00e1 um movimento de preven\u00e7\u00e3o\u201d, disse.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Hilton Silveira Pinto \u00e9 Engenheiro Agr\u00f4nomo pela Universidade de S\u00e3o Paulo, onde tamb\u00e9m fez especializa\u00e7\u00e3o em Engenharia Rural e mestrado em Geografia. \u00c9 doutor em Agronomia pela Universidade Estadual Paulista J\u00falio de Mesquita Filho e p\u00f3s-doutor pela University Of Guelph (Canad\u00e1). Atualmente, coordena o projeto de pesquisa sobre Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas e Agricultura do Brasil para a Foreign and Commonwealth Office, da Embaixada Brit\u00e2nica no Brasil. Tamb\u00e9m colabora na \u00e1rea de meteorologia e climatologia do Hospital Albert Einstein (SP) e \u00e9 pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecu\u00e1ria e da Universidade de Campinas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Confira a entrevista.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\"><strong>IHU On-Line \u2013 O senhor pode nos explicar no que consiste e os objetivos do estudo \u201cImpactos da mudan\u00e7a do clima na produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola\u201d?<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Hilton Silveira Pinto \u2013 Esse estudo foi dividido em duas partes: uma tinha como objetivo ver se as principais culturas agr\u00edcolas do pa\u00eds iriam aumentar ou diminuir se nada for feito daqui pra frente. No segundo momento, o objetivo era fazer uma estimativa de quanto essas conseq\u00fc\u00eancias v\u00e3o custar em termos econ\u00f4micos para o pa\u00eds.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\"><strong>IHU On-Line \u2013 E qual \u00e9 a import\u00e2ncia desse estudo para a agricultura brasileira?<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Hilton Silveira Pinto \u2013 O trabalho teve uma significa\u00e7\u00e3o muito grande para a agricultura brasileira desde seu in\u00edcio, quando ocorreu o estabelecimento do chamado zoneamento de riscos agr\u00edcolas do Brasil. O zoneamento de riscos clim\u00e1ticos brasileiro significa que n\u00f3s temos uma integra\u00e7\u00e3o com cada munic\u00edpio do pa\u00eds sobre o que plantar, onde plantar e quando plantar. O que fizemos com isso? Transportamos o conhecimento sobre a geografia agr\u00edcola brasileira de hoje para fazer pensar num cen\u00e1rio futuro para 2020, 2030, 2050, de forma que possamos estimar quais seriam os preju\u00edzos que algumas culturas teriam e quais seriam as vantagens de outras culturas, no futuro, em fun\u00e7\u00e3o do aquecimento global.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">A \u00fanica quest\u00e3o que temos pendente \u00e9 a credibilidade. Isso \u00e9 muito ruim porque, no Brasil, hoje, fala-se muito em financiamento de pesquisas que atuem sobre a quest\u00e3o do aquecimento global, mas age-se muito pouco. As empresas financiadoras de pesquisas no Brasil est\u00e3o investindo muito pouco neste problema. E isso \u00e9 ruim porque certamente n\u00f3s teremos um problema futuro que dever[a custar para o Brasil algo ao redor de um trilh\u00e3o de reais para que isso fosse reposto depois, daqui h\u00e1 10 ou 20 anos. Um investimento pr\u00e9vio poderia eliminar este problema.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\"><strong>IHU On-Line \u2013 De que forma seu estudo mede o impacto do aquecimento global na economia brasileira?<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Hilton Silveira Pinto \u2013 Hoje, no Brasil, temos conhecimento de quais culturas agr\u00edcolas se desenvolvem com n\u00facleo econ\u00f4mico em cada munic\u00edpio do pa\u00eds. As pol\u00edticas p\u00fablicas de cada cidade diz o que, onde e como plantar. Assim, no estudo, utilizamos esses dados para entender qual seria o zoneamento agr\u00edcola no futuro. Usamos 2010 como base para nossa pesquisa e, a partir dos c\u00e1lculos que fizemos, vimos que s\u00f3 na \u00e1rea de gr\u00e3os, o Brasil perder\u00e1, por ano, 7,5 bilh\u00f5es de reais. Mas a cana passar\u00e1 por um super\u00e1vit de 27 milh\u00f5es de reais por ano.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\"><strong>IHU On-Line \u2013 E \u00e9 no sentido econ\u00f4mico que o estudo se assemelha ao Relat\u00f3rio Stern?<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Hilton Silveira Pinto \u2013 Sim. Quando n\u00f3s recalculamos todos os valores que t\u00ednhamos aqui, no Brasil, chegamos ao seguinte resultado: provavelmente, em 40 anos, vamos perder um PIB inteiro. Isso significa que teremos algo pr\u00f3ximo a 2,5% de queda na produ\u00e7\u00e3o brasileira se nada for feito at\u00e9 l\u00e1. Esse \u00e9 um n\u00famero muito parecido com o do Relat\u00f3rio Stern. Ou seja, a indica\u00e7\u00e3o \u00e9 que se a gente investir cerca de 2,5% do PIB agr\u00edcola brasileiro, conseguiremos manter pelo menos o plantel que temos de variedades de m\u00e9todos para mitiga\u00e7\u00e3o e assim por diante.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\"><strong>IHU On-Line \u2013 O senhor pode apresentar um quadro dos principais impactos das mudan\u00e7as do clima na agricultura brasileira nas pr\u00f3ximas d\u00e9cadas?<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Hilton Silveira Pinto \u2013 Se nada for feito em rela\u00e7\u00e3o aos gr\u00e3os de modo geral, em 2020, j\u00e1 teremos um grande preju\u00edzo, algo em torno de 95% dos gr\u00e3os do Brasil. O calor gerado pelo aquecimento far\u00e1 com que a produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola de gr\u00e3os diminua, ano a ano, radicalmente at\u00e9 2020.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\"><strong>IHU On-Line \u2013 Que culturas podem ser extintas nesses dez anos e quais podem se manter?<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Hilton Silveira Pinto \u2013 Extinta nenhuma delas. Algumas regi\u00f5es podem perder algumas culturas. O caf\u00e9, por exemplo, pode dimuinuir muito em S\u00e3o Paulo e Minas Gerais e aumentar no Paran\u00e1 e no Rio Grande do Sul. A cana pode aumentar algo em torno de 170% at\u00e9 2020 e, depois, em fun\u00e7\u00e3o do aumento da temperatura e da diminui\u00e7\u00e3o da \u00e1gua dispon\u00edvel para agricultura, tende a diminuir bastante.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\"><strong>IHU On-Line \u2013 A conclus\u00e3o do estudo de que, nas pr\u00f3ximas quatro d\u00e9cadas, o Nordeste poder\u00e1 deixar de ser uma \u00e1rea semi\u00e1rida para se tornar uma \u00e1rea \u00e1rida, caminhando para uma desertifica\u00e7\u00e3o completa ter\u00e1 que impactos na agricultura?<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Hilton Silveira Pinto \u2013 De um modo geral, o nordeste brasileiro n\u00e3o \u00e9 muito significativo em termos de produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola. A produ\u00e7\u00e3o nessa regi\u00e3o \u00e9 muito voltada para a agricultura familiar, de uso interno. At\u00e9 certo ponto, isso \u00e9 muito problem\u00e1tico, porque como o calor vai aumentando, a falta d\u2019\u00e1gua tamb\u00e9m ser\u00e1 maior, e a regi\u00e3o passar\u00e1 a ser uma \u00e1rea \u00e1rida. O Cear\u00e1, por exemplo, perder\u00e1 cerca de 80% da \u00e1rea agricult\u00e1vel, o que faz com que a pr\u00f3pria alimenta\u00e7\u00e3o e subsist\u00eancia agr\u00edcola sejam um problema para o nordeste, causando migra\u00e7\u00f5es bastante grandes.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\"><strong>IHU On-Line \u2013 Um novo movimento de migra\u00e7\u00e3o pode surgir?<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Hilton Silveira Pinto \u2013 Exato. Primeiro, em busca de novos trabalhos na \u00e1rea da agricultura. Segundo, porque a alimenta\u00e7\u00e3o de subsist\u00eancia vai ficar muito dif\u00edcil. Alguns estados do nordeste sofrer\u00e3o um processo intenso de desertifica\u00e7\u00e3o. Com isso, a popula\u00e7\u00e3o rural migrar\u00e1 ainda mais para outros estados em busca de servi\u00e7os e de novas culturas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\"><strong>IHU On-Line \u2013 O senhor avalia que o agroneg\u00f3cio brasileiro tem consci\u00eancia do tamanho da problem\u00e1tica ou \u00e9 c\u00e9tico sobre os progn\u00f3sticos da crise clim\u00e1tica?<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Hilton Silveira Pinto \u2013 Gestores ou mesmo pol\u00edticos ligados \u00e0 agricultura brasileira, em sua maioria, n\u00e3o acreditam ou n\u00e3o est\u00e3o tomando qualquer provid\u00eancia sobre isso. Alguns dirigentes de institui\u00e7\u00f5es e inclusive da pr\u00f3pria meteorologia ainda t\u00eam d\u00favidas quanto ao problema. O que \u00e9 muito ruim porque isso significa que n\u00e3o h\u00e1 um movimento de preven\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">A produ\u00e7\u00e3o de uma variedade demora dez anos. E se n\u00e3o fizermos nada hoje, por exemplo, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de variedades, daqui a dez anos, n\u00f3s n\u00e3o teremos nenhuma solu\u00e7\u00e3o para o problema que certamente vai acontecer. Quem tem trabalhado conosco acredita no problema e tem tentado desenvolver alguns projetos em termos de manejo agr\u00edcola e em termos de assist\u00eancia t\u00e9cnica, pensando no futuro.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\"><strong>IHU On-Line \u2013 No estudo, o senhor fala em perdas econ\u00f4micas. De que forma as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas podem influenciar na economia brasileira nessas pr\u00f3ximas d\u00e9cadas?<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Hilton Silveira Pinto \u2013 Vamos imaginar uma cultura t\u00edpica do Rio Grande do Sul, no caso a soja. O problema com a soja seria o seguinte: o RS deixaria de produzir soja quase que de imediato, e o preju\u00edzo brasileiro de perda com a soja daqui a dez anos \u00e9 estimado em quatro bilh\u00f5es e meio de reais por ano. Veja que isso \u00e9 uma queda de produ\u00e7\u00e3o do segundo produto de exporta\u00e7\u00e3o que n\u00f3s temos. Se pensarmos o caf\u00e9, por exemplo: a diferen\u00e7a de \u00e1rea com potencial de produ\u00e7\u00e3o desse produto no Brasil leva a um c\u00e1lculo de perda de quase 900 milh\u00f5es de reais por ano em fun\u00e7\u00e3o destas \u00e1reas de potencial.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\"><strong>IHU On-Line \u2013 O que precisa ser feito imediatamente para mitigar as consequ\u00eancias clim\u00e1ticas na agricultura brasileira?<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Hilton Silveira Pinto \u2013 Tem dois aspectos que devem ser considerados seriamente. Nossos dirigentes t\u00eam que se conscientizar que o problema pode ser resolvido de forma tranquila. Primeiro: n\u00f3s temos que desenvolver variedades que sejam tolerantes \u00e0 seca e a altas temperaturas. Isso tem um pre\u00e7o. Cada variedade custa, para o Brasil, um milh\u00e3o de reais por ano. O desenvolvimento de tecnologia e o melhoramento agr\u00edcola t\u00eam que ser refor\u00e7ados no Brasil. Segundo: temos que fazer um remanejamento, um aumento de tecnologia agr\u00edcola para integrar pecu\u00e1ria e lavoura.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Fonte &#8211; Hilton Silveira Pinto, IHU Online \/ EcoDebate de 24 de junho de 2010<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O estudo Impactos da mudan\u00e7a do clima na produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola partiu do atual zoneamento de riscos agr\u00edcolas do Brasil para prever o cen\u00e1rio que a agricultura brasileira viver\u00e1, em alguns anos, em decorr\u00eancia do aquecimento global. 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