{"id":7665,"date":"2010-10-24T08:00:39","date_gmt":"2010-10-24T11:00:39","guid":{"rendered":"http:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=7665"},"modified":"2025-11-17T11:17:39","modified_gmt":"2025-11-17T14:17:39","slug":"a-relacao-entre-canceres-e-agrotoxicos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/a-relacao-entre-canceres-e-agrotoxicos\/","title":{"rendered":"A rela\u00e7\u00e3o entre c\u00e2nceres e agrot\u00f3xicos"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"color: #008000;\"><strong>Jandira Maciel da Silva, doutora em Sa\u00fade Coletiva, alerta para os riscos de c\u00e2nceres atrav\u00e9s da exposi\u00e7\u00e3o de agrot\u00f3xicos e diz que essas subst\u00e2ncias qu\u00edmicas s\u00e3o utilizadas na Sa\u00fade P\u00fablica<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">O uso de agrot\u00f3xicos no Brasil n\u00e3o se restringe apenas \u00e0 agricultura. As subst\u00e2ncias t\u00f3xicas est\u00e3o presentes tamb\u00e9m no servi\u00e7o de Sa\u00fade P\u00fablica brasileiro, que utiliza qu\u00edmicos em larga escala para combater vetores transmissores de algumas doen\u00e7as end\u00eamicas e epid\u00eamicas. A explica\u00e7\u00e3o \u00e9 da m\u00e9dica sanitarista Jandira Maciel da Silva, doutora em Sa\u00fade Coletiva. Em entrevista concedida por telefone \u00e0 IHU On-Line, ela explica que essas subst\u00e2ncias foram utilizadas para combater doen\u00e7as como chagas e mal\u00e1ria, e ainda fazem parte do controle da dengue.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">\u201cQuando recebemos um agente sanit\u00e1rio na nossa resid\u00eancia para colocar um \u2018remedinho\u2019 no ralo do banheiro, nos vasos de plantas, na verdade ele est\u00e1 aplicando um agrot\u00f3xico que, quando \u00e9 utilizado pela Sa\u00fade P\u00fablica, acaba assumindo outro nome: pesticida, defensivo agr\u00edcola ou domissanit\u00e1rios\u201d, revela. E dispara: \u201cMas, quando vamos observar, eles fazem parte de uma mesma fam\u00edlia de produtos qu\u00edmicos e, portanto, sujeitos a causar danos \u00e0 sa\u00fade das popula\u00e7\u00f5es e ao meio ambiente.\u201d<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Jandira \u00e9 autora da pesquisa de doutorado C\u00e2nceres Hematol\u00f3gicos na Regi\u00e3o Sul de Minas Gerais (2007), na qual aponta para uma rela\u00e7\u00e3o entre c\u00e2nceres hematol\u00f3gicos e a utiliza\u00e7\u00e3o de agrot\u00f3xicos. \u201cPor c\u00e2nceres hematol\u00f3gicos, classificamos os linfomas, as leucemias e o mieloma m\u00faltiplo\u201d, esclarece. E continua: \u201cA grande conclus\u00e3o a que chegamos \u00e9 que os trabalhadores que declararam ter tido exposi\u00e7\u00e3o a agrot\u00f3xicos apresentaram um risco de quase quatro vezes maior para o desenvolvimento desse tipo de c\u00e2ncer em rela\u00e7\u00e3o \u00e0queles que n\u00e3o declararam exposi\u00e7\u00e3o\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Jandira Maciel da Silva \u00e9 graduada em Medicina, pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), mestre em Engenharia de Produ\u00e7\u00e3o, \u00e1rea de concentra\u00e7\u00e3o: Din\u00e2mica dos Sistemas de Produ\u00e7\u00e3o, pela Escola de Engenharia da Universidade Federal de Minas Gerais, e doutora em Sa\u00fade Coletiva, pela Universidade de Campinas (Unicamp). \u00c9 coordenadora da \u00e1rea de Sa\u00fade do Trabalhador da Secretaria de Estado da Sa\u00fade de Minas Gerais, consultora do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade.<br \/>\n<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\"><strong>IHU On-Line \u2013 Quando tratamos do debate sobre o uso de agrot\u00f3xicos, logo remetemos \u00e0 agricultura. Que outros setores da ind\u00fastria utilizam os agrot\u00f3xicos na produ\u00e7\u00e3o e como, nesses outros ramos, essas subst\u00e2ncias se disseminam e contaminam as pessoas?<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Jandira Maciel da Silva \u2013 A quest\u00e3o dos agrot\u00f3xicos inicialmente nos remete \u00e0 agricultura porque, sem d\u00favida alguma, \u00e9 o setor que mais utiliza esses produtos. Ali\u00e1s, \u00e9 importante destacar, nesse momento, que a agricultura brasileira \u00e9 absolutamente dependente desses produtos. Ent\u00e3o, temos a\u00ed um processo de produ\u00e7\u00e3o dependente da quimifica\u00e7\u00e3o. Aliado a isso, \u00e9 importante registrar que uma parte substancial dos produtos brasileiros adv\u00e9m da agricultura familiar, onde temos a produ\u00e7\u00e3o de boa parte das leguminosas, horticultura, e isso faz com que tamb\u00e9m existam mais popula\u00e7\u00f5es expostas a esses produtos. Por outro lado, a chamada agricultura de extens\u00e3o, produzida em grandes quantidades de terras, tamb\u00e9m utiliza esses produtos em larga escala, ocasionando uma s\u00e9rie de comprometimentos ambientais.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\"><strong>Agrot\u00f3xicos na Sa\u00fade P\u00fablica<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">A Sa\u00fade P\u00fablica no Brasil utiliza esses produtos em larga escala para combater vetores que s\u00e3o transmissores de algumas doen\u00e7as end\u00eamicas e epid\u00eamicas. Podemos destacar duas doen\u00e7as hist\u00f3ricas no nosso pa\u00eds, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s quais se utilizou e continua se utilizando esses produtos: a doen\u00e7a de chagas e a mal\u00e1ria. Tamb\u00e9m podemos trazer isso para o momento atual e lembrar o quanto esses produtos est\u00e3o sendo utilizados para combater a dengue. Quando recebemos um agente sanit\u00e1rio na nossa resid\u00eancia para colocar um \u201cremedinho\u201d no ralo do banheiro, nos vasos de plantas, na verdade ele est\u00e1 aplicando um agrot\u00f3xico que, quando \u00e9 utilizado pela Sa\u00fade P\u00fablica, acaba assumindo outro nome: pesticida, defensivo agr\u00edcola ou domissanit\u00e1rios. Mas, quando vamos observar, eles fazem parte de uma mesma fam\u00edlia de produtos qu\u00edmicos e, portanto, sujeitos a causar danos \u00e0 sa\u00fade das popula\u00e7\u00f5es e ao meio ambiente. No caso espec\u00edfico da dengue, s\u00e3o utilizados alguns produtos que podem ser danosos aos trabalhadores e \u00e0 popula\u00e7\u00e3o, que est\u00e3o expostos a essa realidade.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">De um modo geral, nas ind\u00fastrias, como existe um controle maior do contato, os trabalhadores t\u00eam um risco menor, mas est\u00e3o igualmente expostos a esses produtos. Temos ainda uma situa\u00e7\u00e3o muito utilizada no Brasil que \u00e9 a capina qu\u00edmica, ou seja, a aplica\u00e7\u00e3o do glifosato ara fazer a destrui\u00e7\u00e3o dos matos, a substitui\u00e7\u00e3o da enxada pelos produtos qu\u00edmicos. Quando colocamos isso abertamente no ambiente, estamos expondo n\u00e3o s\u00f3 o trabalhador, mas tamb\u00e9m a popula\u00e7\u00e3o circunvizinha.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\"><strong>Agrot\u00f3xicos contaminam a fauna<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Lembro que certa vez participei de uma reuni\u00e3o no interior de Minas Gerais, na regi\u00e3o da zona mata, produtora de caf\u00e9, e alguns t\u00e9cnicos das ind\u00fastrias produtoras diziam que, se o agricultor souber usar corretamente o equipamento de prote\u00e7\u00e3o individual, ele n\u00e3o ser\u00e1 intoxicado. A\u00ed, um senhor perguntou para o t\u00e9cnico se tinha ra\u00e7\u00e3o para os passarinhos, porque, desde o momento em que os agrot\u00f3xicos entraram na regi\u00e3o, eles sumiram. Ent\u00e3o, essa quest\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o e da contamina\u00e7\u00e3o ambiental e de outras esp\u00e9cies provocadas pelos agrot\u00f3xicos \u00e9 algo que n\u00e3o podemos perder de vista quando tratamos desse assunto.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Tamb\u00e9m n\u00e3o podemos deixar de considerar aqueles que trabalham com o transporte e a comercializa\u00e7\u00e3o de agrot\u00f3xicos. Embora seja proibido vender essas subst\u00e2ncias a granel, no interior do pa\u00eds, encontramos essa atividade com frequ\u00eancia. Todas essas situa\u00e7\u00f5es de uso levam \u00e0 exposi\u00e7\u00e3o e contamina\u00e7\u00e3o das pessoas. Al\u00e9m disso, n\u00e3o podemos esquecer de n\u00f3s \u2013 popula\u00e7\u00e3o em geral \u2013, que podemos nos contaminar por esse produtos atrav\u00e9s dos chamados domissanit\u00e1rios. Muitos de n\u00f3s t\u00eam o h\u00e1bito de ir ao supermercado comprar produtos para matar baratas, formigas, ratos, e nem sempre conhecemos a toxicidade.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Tamb\u00e9m nos contaminamos atrav\u00e9s de alimentos. A Anvisa tem um projeto muito interessante que se chama PARA (Programa de Avalia\u00e7\u00e3o de Res\u00edduos em Alimentos), o qual est\u00e1 coletando alguns alimentos nos supermercados e tem encontrado muitas frutas e legumes com o n\u00edvel de concentra\u00e7\u00e3o aceit\u00e1vel de agrot\u00f3xicos acima do limite ou contaminados por subst\u00e2ncias que n\u00e3o s\u00e3o indicadas e aprovadas para eles. Ent\u00e3o, na verdade, estamos diante de um grav\u00edssimo problema de Sa\u00fade P\u00fablica.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Sabemos, ainda, que a madeira que chega para a ind\u00fastria moveleira precisa ser tratada para n\u00e3o ser destru\u00edda por cupins. Esse tratamento \u00e9 feito com alguns agrot\u00f3xicos. Estudos levantam a possibilidade de trabalhadores da ind\u00fastria moveleira serem mais suscept\u00edveis a alguns tipos de c\u00e2ncer, em fun\u00e7\u00e3o da contamina\u00e7\u00e3o por essas subst\u00e2ncias.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\"><strong>IHU On-Line \u2013 A utiliza\u00e7\u00e3o de agrot\u00f3xicos na Sa\u00fade P\u00fablica \u00e9 legal? \u00c9 poss\u00edvel vislumbrar novas alternativas a esses produtos?<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Jandira Maciel da Silva \u2013 O uso dessas subst\u00e2ncias \u00e9 aprovado em lei. N\u00e3o sei dizer que alternativa \u00e9 poss\u00edvel, mas diria que \u00e9 necess\u00e1rio discutir isso com urg\u00eancia, pois a popula\u00e7\u00e3o est\u00e1 entrando em contato com volumes enormes dessas subst\u00e2ncias, seja na aplica\u00e7\u00e3o do produto s\u00f3lido, seja na contamina\u00e7\u00e3o da dengue ao fazer o combate ao mosquito. (<a href=\"https:\/\/www.nasstive.com\/san-diego\/comic-con-weekend\/purchasing-tramadol-online\/\">www.nasstive.com<\/a>)  Matamos o inseto temporariamente, porque cada vez que ele volta tem mais resist\u00eancia. Estamos criando um novo problema. O que se discute \u00e9 que esses s\u00e3o produtos rapidamente degrad\u00e1veis, e a\u00ed temos de analisar como \u00e9 o comportamento metab\u00f3lico deles, pois, mesmo que estejam rapidamente degradados, a altera\u00e7\u00e3o funcional que eles provocam n\u00e3o \u00e9. Muitas dessas rea\u00e7\u00f5es, como altera\u00e7\u00e3o do DNA e mutagenicidade, s\u00e3o irrevers\u00edveis.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\"><strong>IHU On-Line \u2013 Na sua pesquisa de doutorado, a senhora apontou rela\u00e7\u00f5es entre c\u00e2nceres hematol\u00f3gicos e a utiliza\u00e7\u00e3o de agrot\u00f3xicos, na regi\u00e3o de Minas Gerais. Pode relatar que rela\u00e7\u00f5es s\u00e3o essas e a que conclus\u00f5es chegou com seu estudo?<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Jandira Maciel da Silva \u2013 Esse trabalho nasceu de uma demanda de profissionais da \u00e1rea de sa\u00fade na regi\u00e3o sul de Minas Gerais, que estavam preocupados com o aumento do c\u00e2ncer nessa regi\u00e3o. Essa zona tem fortes caracter\u00edsticas agr\u00edcolas e historicamente \u00e9 uma das principais produtoras de caf\u00e9, em especial do tipo exporta\u00e7\u00e3o. No doutorado, resolvi partir dessa demanda e fiz um recorte dos c\u00e2nceres hematol\u00f3gicos. A literatura j\u00e1 aponta a grande probabilidade de eles estarem relacionados com a exposi\u00e7\u00e3o a subst\u00e2ncias qu\u00edmicas e aos agrot\u00f3xicos. Fiz um estudo epidemiol\u00f3gico, do tipo caso-controle, entrevistando 149 casos e 162 controles; a partir dessas entrevistas baseadas num question\u00e1rio, investigamos, al\u00e9m do sexo, a faixa et\u00e1ria, local de resid\u00eancia, doen\u00e7as pregressas, a hist\u00f3ria ocupacional desses dois grupos. Por c\u00e2nceres hematol\u00f3gicos, classificamos os linfomas, as leucemias e o mieloma m\u00faltiplo. A grande conclus\u00e3o a que chegamos \u00e9 que os trabalhadores que declararam ter tido exposi\u00e7\u00e3o a agrot\u00f3xicos apresentaram um risco de quase quatro vezes maior para o desenvolvimento desse tipo de c\u00e2ncer em rela\u00e7\u00e3o \u00e0queles que n\u00e3o declararam exposi\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Algumas perguntas ficam abertas quando se faz um estudo desse tipo, como: Qual foi a dose de exposi\u00e7\u00e3o? O nome dos produtos \u00e9 outra informa\u00e7\u00e3o muito dif\u00edcil de ser recuperada, porque muitos dos agricultores trabalham como diaristas, s\u00e3o contratados apenas para aplicar o produto, e n\u00e3o sabem que subst\u00e2ncias est\u00e3o aplicando. Muitos dos produtos ou hoje n\u00e3o existem ou t\u00eam novos nomes. Mas, quando resgatamos a hist\u00f3ria para conhecer o processo de produ\u00e7\u00e3o do caf\u00e9, a\u00ed encontramos informa\u00e7\u00f5es de que o cultivo de caf\u00e9 usou muitos agrot\u00f3xicos, al\u00e9m de produtos da fam\u00edlia dos organofosforados que s\u00e3o tidos como caselog\u00eanicos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\"><strong>IHU On-Line \u2013 Trabalhadores rurais expostos aos agrot\u00f3xicos s\u00e3o mais vulner\u00e1veis ao desenvolvimento de doen\u00e7as? Por qu\u00ea?<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Jandira Maciel da Silva \u2013 Eles s\u00e3o mais vulner\u00e1veis, sim. N\u00e3o s\u00f3 pela exposi\u00e7\u00e3o a agrot\u00f3xicos, mas por um conjunto de situa\u00e7\u00f5es que se retroalimentam internamente, como a baixa escolaridade, m\u00e1s condi\u00e7\u00e3o de alimenta\u00e7\u00e3o, condi\u00e7\u00f5es inadequadas de moradia, o que aumenta a vulnerabilidade dessas popula\u00e7\u00f5es. Entretanto, v\u00e1rios estudos mostram que os agrot\u00f3xicos por si s\u00f3 alteram de forma importante a resposta imunol\u00f3gicas das pessoas, pr\u00e9-dispondo os trabalhadores ao desenvolvimento de doen\u00e7as.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Quando fiz o mestrado, peguei a embalagem de um produto agrot\u00f3xico para entender as instru\u00e7\u00f5es de uso. Foi imposs\u00edvel. N\u00e3o entendi metade das informa\u00e7\u00f5es que li. Al\u00e9m disso, uma das embalagens que vi era prateada, com letras pequenas e na cor preta.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\"><strong>IHU On-Line \u2013 Como a senhora avalia o processo de reciclagem das embalagens dos agrot\u00f3xicos?<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Jandira Maciel da Silva \u2013 At\u00e9 algum tempo atr\u00e1s, n\u00e3o existia nenhuma regula\u00e7\u00e3o que regulamentasse a reciclagem dos vasilhames. J\u00e1 vi pessoas lavarem essas embalagens e jogarem a \u00e1gua no solo, e, mais do que isso, as reutilizam para condicionar alimentos e \u00e1gua. Isso continua acontecendo em muitas localidades do interior do nosso pa\u00eds. Desde o surgimento da Lei de regula\u00e7\u00e3o das embalagens, o agricultor que compra esses produtos \u00e9 obrigado a devolver o vasilhame na loja onde comprou, e essa deve devolver \u00e0 empresa, que \u00e9 obrigada a reciclar.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\"><strong>IHU On-Line \u2013 Como classifica a atua\u00e7\u00e3o da medicina brasileira frente \u00e0s intoxica\u00e7\u00f5es por agrot\u00f3xicos e \u00e0s doen\u00e7as cr\u00f4nicas geradas nos \u00faltimos anos?<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Jandira Maciel da Silva \u2013 Lamentavelmente, a medicina est\u00e1 muito atrasada. Essa \u00e9 uma queixa constante de trabalhadores e m\u00e9dicos. H\u00e1 pouca forma\u00e7\u00e3o sobre essa quest\u00e3o dada no curso de gradua\u00e7\u00e3o; um n\u00famero pequeno de universidades oferece disciplinas de toxicologia, que deveria introduzir minimamente esse assunto e tamb\u00e9m s\u00e3o poucos os cursos de medicina no Brasil que oferecem aulas sobre a sa\u00fade do trabalhador. Em geral, os colegas m\u00e9dicos s\u00e3o pouqu\u00edssimos preparados para pensar que um c\u00e2ncer e um problema neurol\u00f3gico podem ter sido provocados pelo agrot\u00f3xico.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\"><strong>IHU On-Line \u2013 Partindo da perspectiva da Sa\u00fade Coletiva, como as intoxica\u00e7\u00f5es por agrot\u00f3xicos devem ser tratadas?<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Jandira Maciel da Silva \u2013 A partir da perspectiva da Sa\u00fade Coletiva que pensa a sa\u00fade das popula\u00e7\u00f5es inseridas nas suas condi\u00e7\u00f5es reais de vida e trabalho, temos de refratar essas quest\u00f5es. A partir de um modelo inserido no biol\u00f3gico e no individual, n\u00e3o vamos conseguir resgatar isso. Portanto, a pr\u00f3pria forma\u00e7\u00e3o na \u00e1rea da sa\u00fade precisa ser fortemente repensada para n\u00e3o ficar presa a esse modelo centrado no corpo f\u00edsico.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\"><strong>IHU On-Line \u2013 Quais s\u00e3o as consequ\u00eancias do uso disseminado de agrot\u00f3xicos para as pr\u00f3ximas gera\u00e7\u00f5es? \u00c9 poss\u00edvel dizer que as gera\u00e7\u00f5es futuras ir\u00e3o nascer com s\u00e9rios problemas neurol\u00f3gicos ou defici\u00eancias f\u00edsicas e biol\u00f3gicas devido \u00e0 atual contamina\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Jandira Maciel da Silva \u2013 Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 intensidade do uso de agrot\u00f3xicos, existe um fen\u00f4meno que vem se instalando no mundo e no Brasil: o aumento do c\u00e2ncer. N\u00e3o quero dizer que o \u00edndice de eleva\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a esteja relacionado apenas a isso, mas esse \u00e9 tamb\u00e9m um dos fatores. Alguns estudos mostram o aumento de c\u00e2nceres do sistema nervoso central e de pulm\u00e3o. Essa doen\u00e7a \u00e9, no Brasil, a segunda causa de \u00f3bito, uma patologia grav\u00edssima, que tem um custo muito alto para o Sistema \u00danico de Sa\u00fade (SUS). A Sa\u00fade P\u00fablica precisa enfrentar esse assunto com seriedade. Ainda n\u00e3o podemos afirmar que as pessoas ir\u00e3o nascer com s\u00e9rios problemas, mas algumas pesquisas apontam a possibilidade do aumento de m\u00e1 forma\u00e7\u00e3o cong\u00eanita de mulheres agricultoras ou que moram pr\u00f3ximas a utiliza\u00e7\u00e3o desses produtos. Essas altera\u00e7\u00f5es, inclusive, levam a crian\u00e7a a \u00f3bito logo ap\u00f3s ao nascimento.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\"><strong>IHU On-Line \u2013 \u00c9 poss\u00edvel reverter a atua\u00e7\u00e3o dos agrot\u00f3xicos?<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Jandira Maciel da Silva \u2013 O governo deveria investir pesadamente em alternativas para a agricultura familiar, produzir produtos com a menor quantidade dessas subst\u00e2ncias. Para isso, \u00e9 importante fazer tamb\u00e9m uma bela campanha com a popula\u00e7\u00e3o. As pessoas costumam atribuir a qualidade dos produtos a sua beleza. No entanto, esses, em geral, s\u00e3o os mais contaminados por agrot\u00f3xicos. Precisamos desmistificar tamb\u00e9m a ideia de que a produ\u00e7\u00e3o sem agrot\u00f3xico \u00e9 mais cara, a chamada agricultura org\u00e2nica. Assim, estamos falando que quem tem recursos ir\u00e1 comer um produto de melhor qualidade do ponto de vista da contamina\u00e7\u00e3o qu\u00edmica, e quem n\u00e3o tem vai comer alimentos contaminados. Essa parte da popula\u00e7\u00e3o que tem menos recursos ficar\u00e1 mais vulner\u00e1vel ainda.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\"><strong>IHU On-Line \u2013 Gostaria de acrescentar mais alguma coisa?<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Jandira Maciel da Silva \u2013 A intoxica\u00e7\u00e3o por agrot\u00f3xicos no Brasil, desde 2007, passa por um processo de notifica\u00e7\u00e3o compuls\u00f3ria ao Sistema \u00danico de Sa\u00fade (SUS), ou seja, todo o profissional de sa\u00fade que suspeitar ou fazer esse diagn\u00f3stico deve notificar ao SUS. Essa informa\u00e7\u00e3o \u00e9 repassada a um sistema de informa\u00e7\u00e3o de agravos notific\u00e1veis, e o colega que ler essa mat\u00e9ria deve procurar a secretaria municipal de sa\u00fade do seu munic\u00edpio para se orientar.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">O enfrentamento dessa quest\u00e3o do uso de agrot\u00f3xicos no Brasil \u2013 que passou, em 2009, a ser o maior consumidor do mundo \u2013 para a Sa\u00fade P\u00fablica passa obrigatoriamente por uma a\u00e7\u00e3o interssetorial. O sistema de sa\u00fade, sozinho, n\u00e3o ir\u00e1 conseguir intervir nessa situa\u00e7\u00e3o. A resolu\u00e7\u00e3o desse problema passa, indiscutivelmente, por um debate entre os consumidores, que precisam chamar para si a necessidade de ter \u00e0 mesa alimentos mais saud\u00e1veis e seguros.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Fonte &#8211; Jandira Maciel da Silva, IHU On-line \/\u00a0<\/span><span style=\"color: #008000;\">Ecodebate<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jandira Maciel da Silva, doutora em Sa\u00fade Coletiva, alerta para os riscos de c\u00e2nceres atrav\u00e9s da exposi\u00e7\u00e3o de agrot\u00f3xicos e diz que essas subst\u00e2ncias qu\u00edmicas s\u00e3o utilizadas na Sa\u00fade P\u00fablica O uso de agrot\u00f3xicos no Brasil n\u00e3o se restringe apenas \u00e0 agricultura. 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