{"id":8160,"date":"2011-01-24T08:00:10","date_gmt":"2011-01-24T09:00:10","guid":{"rendered":"http:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=8160"},"modified":"2011-01-24T08:00:10","modified_gmt":"2011-01-24T09:00:10","slug":"o-que-voce-esta-disposto-a-mudar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/o-que-voce-esta-disposto-a-mudar\/","title":{"rendered":"O que voc\u00ea est\u00e1 disposto a mudar?"},"content":{"rendered":"<p><strong><span style=\"color: #008000;\">Para modificar h\u00e1bitos, \u00e9 preciso abrir m\u00e3o de confortos que prejudicam o ambiente, e negociar a distribui\u00e7\u00e3o dos sacrif\u00edcios<\/span><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Voc\u00ea est\u00e1 disposto a abrir m\u00e3o do seu conforto e de alguns de seus h\u00e1bitos para salvar a vida e a pr\u00f3pria Terra? Feita assim, esta pergunta parece exagerada e com resposta \u00f3bvia. \u201cClaro que sim. Faremos o poss\u00edvel. Afinal, n\u00e3o podemos imaginar a vida fora deste mundo\u201d seria o coro ouvido por quem se atrevesse a perguntar a uma multid\u00e3o. De t\u00e3o \u00f3bvia, a resposta chega a ser falsa e apressada. A verdade \u00e9 que muitos ainda se perguntam se podem mesmo fazer algo para salvar o planeta, atribuindo os problemas ambientais \u00e0 sociedade, aos governos ou a qualquer inst\u00e2ncia supostamente exterior a n\u00f3s mesmos. Basta lembrar algumas iniciativas que compreenderemos a dificuldade de convencer a todos de participar de algum modo da opera\u00e7\u00e3o de salvamento da Terra. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">H\u00e1 pouco mais de dez anos come\u00e7ou o rod\u00edzio de carros na cidade de S\u00e3o Paulo para manuten\u00e7\u00e3o da qualidade do ar e para conter emiss\u00f5es de gases que provocam o efeito estufa. No entanto, muita gente reclamou da arbitrariedade da medida e da falta de transporte coletivo adequado, duvidou da efic\u00e1cia da iniciativa e at\u00e9 foi parar na Justi\u00e7a contra o rod\u00edzio, alegando perdas econ\u00f4micas, dificuldades para trabalhar etc. Passados dez anos, o rod\u00edzio foi assimilado pelo paulistano e muitos v\u00eaem benef\u00edcios na diminui\u00e7\u00e3o do tr\u00e2nsito.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #ff0000;\">Bem, n\u00e3o \u00e9 bem assim, visto que grande parte dos paulistanos compraram um ou mais carros com placas diferentes para driblar o rod\u00edzio, ou melhor, trapacear.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">H\u00e1 seis anos, nos habituamos a economizar energia. O apag\u00e3o el\u00e9trico demonstrou a necessidade do uso mais racional da energia el\u00e9trica. As metas de consumo, com puni\u00e7\u00e3o monet\u00e1ria a quem as descumprisse, serviram para reeducar o cidad\u00e3o. Por\u00e9m, foi necess\u00e1rio adotar uma puni\u00e7\u00e3o, que pegou o consumidor pelo bolso. O problema \u00e9 como tornar essas pr\u00e1ticas generalizadas numa sociedade como a brasileira, ao mesmo tempo carente e dispendiosa de seus recursos naturais. \u00c9 uma dificuldade que ultrapassa as muitas iniciativas individuais e tem a ver com a hist\u00f3ria do Brasil e do mundo. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">A Revolu\u00e7\u00e3o Industrial, iniciada na Inglaterra em fins do s\u00e9culo XVIII, expandiu-se pela Europa, Estados Unidos e tamb\u00e9m por antigas col\u00f4nias, como o Brasil, que passaram a ver no industrialismo a supera\u00e7\u00e3o de problemas econ\u00f4micos e o al\u00edvio de suas tens\u00f5es sociais, com mais empregos e melhores condi\u00e7\u00f5es de vida. O mundo tornou-se um grande mercado para a circula\u00e7\u00e3o de produtos. Produzir em larga escala para uma popula\u00e7\u00e3o cada vez mais numerosa exigia mais energia, maior extra\u00e7\u00e3o de recursos naturais e, conseq\u00fcentemente, gera\u00e7\u00e3o de mais lixo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">A sociedade de massas atingiu propor\u00e7\u00f5es gigantescas no s\u00e9culo XX. O capitalismo, j\u00e1 em fins do s\u00e9culo XIX, se generalizou como sistema dominante. A conseq\u00fc\u00eancia desse processo foi uma press\u00e3o exagerada e nunca antes mensurada sobre o meio ambiente para a manuten\u00e7\u00e3o da vida humana na Terra. Hoje, as sociedades p\u00f3s-industriais, principalmente nos pa\u00edses de primeiro mundo, exigem muito mais do que a Natureza \u00e9 capaz de dar. \u00c9 mais grave ainda o fato de os recursos naturais n\u00e3o se regenerarem na mesma velocidade com que s\u00e3o extra\u00eddos. Da\u00ed a grande dificuldade contempor\u00e2nea: como manter esse padr\u00e3o de vida, baseado em modelos e sistemas reconhecidamente lesivos ao meio ambiente? <\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Estamos em plena \u201csociedade de risco\u201d, como alertou o soci\u00f3logo alem\u00e3o Ulrich Beck, cunhador desta express\u00e3o. Isso quer dizer que a sociedade industrial desenvolveu tecnologia e, proporcionalmente, processos e produtos perigosos para a vida, com conseq\u00fc\u00eancias como o aquecimento global. Doen\u00e7as e contamina\u00e7\u00f5es s\u00e3o alguns dos problemas que surgem cada vez que o controle escapa ao ser humano. \u00c9 o que temos visto quando o assunto \u00e9 desastre ambiental. De novo nos perguntamos: como cada um pode reverter esse processo? <\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\"><strong>Pegada Ecol\u00f3gica<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">\u00c9 d\u00edficl dimensionar o quanto nosso modo de vida impacta o ambiente. Temos a impress\u00e3o de que h\u00e1 muito exagero quando se fala que precisamos mudar urgentemente nossos h\u00e1bitos. Para quem duvida ou necessita de uma medida para entender o drama ambiental, uma boa dica \u00e9 o site Pegada Ecol\u00f3gica. O resultado do teste demonstra a quantidade de \u201cNatureza\u201d necess\u00e1ria para manter o estilo de vida de cada um, ou seja, o n\u00edvel de impacto na sustentabilidade da Terra. D\u00e1 para ter uma id\u00e9ia de como os padr\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o e consumo atuais destroem os recursos naturais e prejudicam a capacidade de regenera\u00e7\u00e3o do planeta. Na d\u00e9cada de 60, cada habitante do planeta tinha 6 hectares de terras produtivas dispon\u00edveis para atender a suas necessidades. Atualmente, esse n\u00famero \u00e9 de 1,1 hectare. Em 2050, chegar\u00e1 a 0,9 hectare, para uma popula\u00e7\u00e3o mundial de cerca de 10 bilh\u00f5es de habitantes.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Dados publicados em 2006 no relat\u00f3rio Planeta Vivo, da organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o-governamental WWF, mostram que o \u00edndice da pegada ecol\u00f3gica mais que triplicou desde 1961, superando a capacidade de regenera\u00e7\u00e3o da Terra em aproximadamente 25% \u2013 ou seja, \u00e9 necess\u00e1rio um ano e meio para o planeta se recuperar daquilo que \u00e9 utilizado em um ano. Se o consumo e a degrada\u00e7\u00e3o continuarem neste ritmo, em 2050 precisaremos de tr\u00eas planetas Terra para dar conta do nosso estilo de vida. Por isso, precisamos equilibrar o consumo e reduzir os res\u00edduos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Ao longo do s\u00e9culo XX, a popula\u00e7\u00e3o mundial cresceu oito vezes e a produ\u00e7\u00e3o industrial aumentou mais de 100 vezes. Conseq\u00fcentemente, o consumo de energia se elevou em cerca de 80 vezes. Para manter esse padr\u00e3o, as ind\u00fastrias teriam de aumentar sua produ\u00e7\u00e3o de cinco a dez vezes nos pr\u00f3ximos 50 anos. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\"><strong>Consumo Consciente?<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Se considerarmos o consumo ainda como algo em que h\u00e1 relativa liberdade de escolha, podemos vislumbrar uma possibilidade de atua\u00e7\u00e3o para os indiv\u00edduos em prol do meio ambiente. O pre\u00e7o dos produtos \u00e9 o que mais pesa na hora de decidir comprar algo em pa\u00edses como o Brasil, em que as necessidades b\u00e1sicas de toda a popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o atendidas. Ainda agimos de acordo com uma l\u00f3gica econ\u00f4mica, como se o ambiente n\u00e3o existisse. Nem sempre pre\u00e7o baixo \u00e9 garantia de processos produtivos que respeitem a Natureza. Tampouco o consumidor disp\u00f5e de informa\u00e7\u00f5es consistentes para decidir comprar ou n\u00e3o determinada mercadoria. Ainda assim, \u00e9 no ato de consumir que fazemos escolhas e podemos definir rela\u00e7\u00f5es de cidadania, como alertou o soci\u00f3logo Nestor Canclini, que v\u00ea essa caracter\u00edstica na contemporaneidade.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">O consumo tamb\u00e9m se relaciona ao estilo de vida. Por isso, o consumismo exarcebado das sociedades industriais tornou-se alvo de cr\u00edtica de ambientalistas e at\u00e9 de lideran\u00e7as religiosas, que n\u00e3o v\u00eaem com bons olhos o individualismo de nossos tempos, fruto de intensa e definitiva afirma\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo desde o s\u00e9culo XVIII. Fato \u00e9 que este indiv\u00edduo todo-poderoso, que hoje tem seus direitos reconhecidos, face \u00e0s institui\u00e7\u00f5es, tem tamb\u00e9m o dever de pensar em como salvar o planeta. C\u00e1lculos de ecologistas demonstram que, se a popula\u00e7\u00e3o do mundo consumisse tanto quanto os americanos, seriam necess\u00e1rios mais quatro planetas Terra para que dispus\u00e9ssemos de \u00e1gua, energia, alimentos, produtos e servi\u00e7os b\u00e1sicos. Assim, organiza\u00e7\u00f5es tentam despertar a sociedade para a necessidade de um consumo consciente, como o trabalho realizado pelo Instituto Akatu, que mostra estragos que podemos causar em simples atos cotidianos. Escovar os dentes com a torneira aberta, por exemplo, pode gerar um gasto de 14 litros de \u00e1gua. Se 4 milh\u00f5es de pessoas escovassem seus dentes com a torneira fechada, economizar\u00edamos \u00e1gua suficiente para o abastecimento de uma cidade com 1 milh\u00e3o de habitantes num dia. Essas institui\u00e7\u00f5es apostam no enorme poder transformador deste indiv\u00edduo que seria capaz de mudar seus h\u00e1bitos, privilegiando produtos de empresas com processos menos prejudiciais ao meio ambiente. Falta informa\u00e7\u00e3o, e o apelo ao consumo \u00e9 enorme, muito mais do que o apelo para a preserva\u00e7\u00e3o do planeta.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\"><strong>Desmatamento<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Quando o assunto \u00e9 aquecimento global, nos pa\u00edses em desenvolvimento, o desmatamento \u00e9 o principal respons\u00e1vel pela emiss\u00e3o de gases que provocam efeito estufa. No Brasil, 75% das emiss\u00f5es de CO2 s\u00e3o origin\u00e1rias da destrui\u00e7\u00e3o de florestas. Assim, \u00e9 necess\u00e1rio pensar em como impedir o desmatamento, gerado, entre outros fatores, pela extra\u00e7\u00e3o da madeira. Al\u00e9m de contribuir para o aquecimento global, o desmatamento representa a perda sistem\u00e1tica de diversas esp\u00e9cies vegetais e animais, e causa eros\u00e3o do solo, degrada\u00e7\u00e3o de \u00e1reas de bacias hidrogr\u00e1ficas e profundas altera\u00e7\u00f5es nos ecossistemas sem que haja nenhuma garantia de preserv\u00e1-los ou reproduzi-los. Em geral, ainda n\u00e3o h\u00e1 a pr\u00e1tica de cobrar dos comerciantes e fabricantes informa\u00e7\u00f5es sobre a origem da madeira. Isso quer dizer que h\u00e1 formas de manejo sustent\u00e1vel, ou seja, de extrair madeira da Natureza, garantir a reposi\u00e7\u00e3o e n\u00e3o destruir os ecossistemas. O Forest Stewardhip Council (FSC) \u00e9 uma organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o-governamental que criou um selo para identificar a madeira origin\u00e1ria de processos de extra\u00e7\u00e3o sustent\u00e1vel. Esse selo \u00e9 resultado de consulta a organismos de defesa do meio ambiente, tribos ind\u00edgenas e comerciantes. Os produtores certificados t\u00eam de atender a uma s\u00e9rie de requisitos, como estabelecimento de regras de controle e impacto ambiental, conserva\u00e7\u00e3o das florestas e regras de plantio, al\u00e9m de respeito aos direitos dos povos ind\u00edgenas. A quest\u00e3o \u00e9 como nos sensibilizarmos para a cobran\u00e7a desses padr\u00f5es, aceitos internacionalmente. No caso brasileiro, como dissemos acima, o pre\u00e7o ainda pesa como fator preponderante para a decis\u00e3o de consumo; e m\u00f3veis feitos de madeira certificada s\u00e3o mais caros.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Alguns pesquisadores defendem que a redu\u00e7\u00e3o no consumo de carne \u00e9 tamb\u00e9m um bom modo de preservar as florestas. A extens\u00e3o das \u00e1reas para a agropecu\u00e1ria \u00e9 uma das motiva\u00e7\u00f5es para desmatar, processo que se acelerou nos anos 90, segundo estudo do Banco Mundial. No Brasil, essas \u00e1reas s\u00e3o ocupadas por planta\u00e7\u00e3o de soja, que acaba em parte se transformando em ra\u00e7\u00e3o de animais. Al\u00e9m disso, a produ\u00e7\u00e3o de cada quilo de carne bovina exige cerca de 20 mil litros de \u00e1gua. A op\u00e7\u00e3o s\u00e3o os alimentos org\u00e2nicos, inclusive carne de vaca e de frango, que seguem regras de preserva\u00e7\u00e3o ambiental em sua produ\u00e7\u00e3o. Este tipo de a\u00e7\u00e3o pode, teoricamente, estimular empresas a adotar medidas de controle da origem dos alimentos. Recentemente, ind\u00fastrias europ\u00e9ias do setor de alimentos e a rede de lanchonetes McDonald\u00b4s se comprometeram a deixar de comprar soja brasileira produzida em \u00e1reas desmatadas da floresta amaz\u00f4nica.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Mudan\u00e7as nos h\u00e1bitos alimentares como o consumo de alimentos org\u00e2nicos s\u00e3o um caminho interessante, mas n\u00e3o exclusivo. Na hora de comprar, o melhor \u00e9 optar por alimentos produzidos na regi\u00e3o e por frutas da esta\u00e7\u00e3o, para reduzir a necessidade de transporte em longas dist\u00e2ncias, diminuindo o consumo de combust\u00edvel.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\"><strong>Transporte Alternativo<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Os combust\u00edveis f\u00f3sseis s\u00e3o apontados por ambientalistas e cientistas como os grandes vil\u00f5es do aquecimento global. Muitos esfor\u00e7os s\u00e3o feitos na dire\u00e7\u00e3o de aumentar o uso de fontes energ\u00e9ticas alternativas. Prova disso \u00e9 o esfor\u00e7o brasileiro de produ\u00e7\u00e3o de biocombust\u00edveis. Mas ainda temos o desafio de generalizar as alternativas no plano mundial. A principal fonte de energia do planeta \u00e9 originada de combust\u00edveis f\u00f3sseis, como o petr\u00f3leo, o carv\u00e3o e o g\u00e1s natural, que determinam 75% do consumo mundial de energia. Se pensarmos numa possibilidade de atua\u00e7\u00e3o direta, verificamos que nosso modelo de transporte atual, baseado no uso do autom\u00f3vel, que redefiniu a configura\u00e7\u00e3o urbana no s\u00e9culo XX, \u00e9 um grande equ\u00edvoco, muito prejudicial ao ambiente. A frota mundial de carros \u00e9 de cerca de 600 milh\u00f5es de ve\u00edculos. Em 2010, deve chegar a 900 milh\u00f5es.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #ff0000;\">Biocombust\u00edvel feito de comida \u00e9 um grande equ\u00edvoco, pois utiliza recursos naturais cada vez mais raros, que s\u00e3o \u00e1gua pot\u00e1vel e solo f\u00e9rtil para plantar comida que ent\u00e3o, ao inv\u00e9s de alimentar os bilh\u00f5es de famintos do planeta, \u00a0\u00e9 desviada para se transformar em combust\u00edvel e agora tambem em pl\u00e1stico. Isso \u00e9 um crime contra a humanidade.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">S\u00f3 em S\u00e3o Paulo est\u00e3o em circula\u00e7\u00e3o aproximadamente 5 milh\u00f5es de ve\u00edculos, que liberam 8 milh\u00f5es de toneladas de CO2 por ano \u2013 o principal g\u00e1s causador do aquecimento global, resultante da queima de gasolina e \u00f3leo diesel no transporte. No total, s\u00e3o emitidos anualmente na cidade 16 milh\u00f5es de toneladas de CO2. Os dados s\u00e3o do Invent\u00e1rio de Emiss\u00f5es de Gases de Efeito Estufa do Munic\u00edpio de S\u00e3o Paulo, levantamento realizado por equipe especializada do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Engenharia (Coppe) da Universidade Federal do Rio de Janeiro, em conv\u00eanio com a prefeitura de S\u00e3o Paulo. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Aderir ao transporte coletivo, dar e receber carona e usar bicicleta como transporte, por exemplo, s\u00e3o atitudes que ajudam a diminuir o n\u00famero de carros na rua e a emiss\u00e3o de CO2. Em 52 dias, considerando-se um trajeto de 20 km, um ve\u00edculo emite 440 kg de di\u00f3xido de carbono. Esta quantidade \u00e9 a mesma que uma \u00e1rvore adulta demora 20 anos para absorver em seu processo de fotoss\u00edntese. Para diminuir as emiss\u00f5es, basta deixar o carro uma vez por semana em casa. Imagine se todos adotassem esse h\u00e1bito? Outra atitude como a manuten\u00e7\u00e3o adequada da parte mec\u00e2nica dos autom\u00f3veis pode ajudar a reduzir a emiss\u00e3o dos poluentes. Estudo da Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb) mostra que 10% da frota, que corresponde a carros mais antigos e sem manuten\u00e7\u00e3o, \u00e9 respons\u00e1vel por 50% do total de emiss\u00f5es em S\u00e3o Paulo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Iniciativas individuais somadas a a\u00e7\u00f5es p\u00fablicas podem dar alguns bons resultados. Um exemplo \u00e9 o governo da Calif\u00f3rnia, que decidiu processar seis montadoras de ve\u00edculos por danos causados ao meio ambiente. Al\u00e9m disso, esse estado americano aprovou a redu\u00e7\u00e3o da emiss\u00e3o de gases que provocam efeito estufa em 25% at\u00e9 o ano de 2020. A Uni\u00e3o Europ\u00e9ia adotou como meta a redu\u00e7\u00e3o em 20% at\u00e9 2020.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\"><strong>Energia<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Vimos que a demanda por energia n\u00e3o parou de crescer e deu um salto no s\u00e9culo XX. A fonte dessa energia \u00e9 basicamente derivada de combust\u00edveis f\u00f3sseis, o que j\u00e1 \u00e9 por defini\u00e7\u00e3o um grande problema ambiental. No Brasil, a energia el\u00e9trica prov\u00e9m basicamente de usinas hidrel\u00e9tricas, devido \u00e0 disponibilidade fluvial em nosso pa\u00eds. Ambientalistas apontam vantagens na gera\u00e7\u00e3o de energia hidrel\u00e9trica por n\u00e3o emitir gases poluentes para sua gera\u00e7\u00e3o. No entanto, a constru\u00e7\u00e3o de usinas provoca alagamentos de \u00e1reas extensas, modifica o curso dos rios e promove altera\u00e7\u00e3o profunda nos ecossistemas. Al\u00e9m disso, a decomposi\u00e7\u00e3o da vegeta\u00e7\u00e3o submersa pode gerar gases como o metano, que tem impacto no efeito estufa. Isso sem contar o impacto provocado nas popula\u00e7\u00f5es. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">A maior parte da energia produzida \u00e9 usada pelas ind\u00fastrias. Economizar energia \u00e9 uma a\u00e7\u00e3o que reduz a destrui\u00e7\u00e3o do meio ambiente causada pelo processo de gera\u00e7\u00e3o. Geralmente pensamos que o consumo se restringe ao uso dom\u00e9stico, para fazer funcionar os eletrodom\u00e9sticos que temos em casa. No entanto, todos os produtos que consumimos t\u00eam uma energia embutida, que \u00e9 aquela utilizada em sua fabrica\u00e7\u00e3o, e que custa muito para o meio ambiente. Da\u00ed ser necess\u00e1rio consumir com racionalidade. Por exemplo, um computador, aparelho de uso cotidiano, consome de energia em sua produ\u00e7\u00e3o o equivalente ao que vai gastar para funcionar durante 30 anos. S\u00f3 que sua m\u00e9dia de uso \u00e9 de tr\u00eas anos. Depois, esse produto \u00e9 geralmente descartado, o que provoca o t\u00e3o propalado problema da destina\u00e7\u00e3o do lixo, que merece um t\u00f3pico \u00e0 parte em qualquer discuss\u00e3o sobre meio ambiente. Por isso, um dos aspectos da reciclagem \u00e9 propiciar economia da energia, que seria utilizada para a fabrica\u00e7\u00e3o de novos produtos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Como vivemos atualmente cercados por aparelhos que visam facilitar a vida, imp\u00f5e-se a reflex\u00e3o sobre como calcular os gastos de energia n\u00e3o s\u00f3 do ponto de vista econ\u00f4mico, mas de sua efici\u00eancia ambiental. Ser\u00e1 que poderemos manter todo esse conforto a longo prazo? Queremos mant\u00ea-lo? \u2013 talvez seja a pergunta mais adequada \u2013 e a que custo?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #ff0000;\">Onde est\u00e1 o investimento do governo em pesquisa de energia e\u00f3lica, fotovoltaica e outros tipos de energia limpas? Este tipo de investimento praticamente n\u00e3o existe e sem este dinheiro continuaremos destruindo ecossistemas inteiros, submergindo a fauna e a flora que nem conhecemos, em locais inundados por hidrel\u00e9tricas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\"><strong>L\u00f3gica Perversa<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Cada vez mais teremos problemas ambientais, como o aquecimento global, porque n\u00e3o h\u00e1 \u201cdesenvolvimento sustent\u00e1vel\u201d que consiga reverter a l\u00f3gica econ\u00f4mica que os gera: mais produ\u00e7\u00e3o, mais crescimento econ\u00f4mico e mais consumo. Seria muita f\u00e9 na tecnologia e na \u201ctoler\u00e2ncia\u201d do planeta acreditarmos que o tal desenvolvimento sustent\u00e1vel, criado no plano pol\u00edtico para apaziguar os m\u00faltiplos interesses econ\u00f4micos que rondam a quest\u00e3o ambiental, se realize de fato em todo o planeta.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">O sistema econ\u00f4mico atual permite que os principais agressores do meio ambiente arquem com pouco preju\u00edzo derivado de sua a\u00e7\u00e3o. Nesse ponto, a a\u00e7\u00e3o dos indiv\u00edduos dificilmente poder\u00e1 deter o processo de degrada\u00e7\u00e3o se ela mesma n\u00e3o deixar de legitimar esse sistema econ\u00f4mico. Uma equipe internacional de pesquisadores calculou que os muitos servi\u00e7os prestados pela Natureza valem em m\u00e9dia US$ 33 trilh\u00f5es por ano, n\u00famero que se refere a avalia\u00e7\u00f5es feitas sobre quanto custaria para fornecer todos esses servi\u00e7os em projetos realizados pelo homem, por meio de tecnologia. Esse valor equivale a quase o dobro do PIB mundial. Nem economicamente vale destruir o que ainda temos, se \u00e9 que temos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\"><strong>A Dimens\u00e3o Pol\u00edtica<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">O desafio que a quest\u00e3o ambiental nos coloca atinge as pessoas, a sociedade, as rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas e pol\u00edticas. Na verdade, esses indiv\u00edduos que, em sua esfera de atua\u00e7\u00e3o, desejam salvar o planeta, pouco podem fazer se n\u00e3o participarem da arena decis\u00f3ria em que se movimenta a sociedade. Falamos da necessidade e urg\u00eancia de uma a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica numa era em que a pol\u00edtica, como forma de constru\u00e7\u00e3o social, vive tamb\u00e9m sua crise, historicamente interpret\u00e1vel. As utopias geradas pelo projeto iluminista no s\u00e9culo XVIII foram perseguidas nos s\u00e9culos XIX e XX, o que nos permitiu acreditar numa modernidade que inclu\u00edsse os direitos sociais. Esse projeto n\u00e3o se completou em boa parte do mundo, restringindo-se a alguns pa\u00edses que alcan\u00e7aram desenvolvimento social e econ\u00f4mico no s\u00e9culo passado. Ao mesmo tempo em que atingia seu auge nestes pa\u00edses, o projeto moderno entrou em descren\u00e7a e decad\u00eancia. De certa forma, deixou de mobilizar os indiv\u00edduos e de estabelecer os la\u00e7os sociais necess\u00e1rios para a a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Vivemos hoje um per\u00edodo de degrada\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica e descren\u00e7a em suas institui\u00e7\u00f5es. Quem se sente hoje representado de fato por um partido, por um sindicato ou mesmo pelas ditas organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil? O consumo dos bens privados e os meios de comunica\u00e7\u00e3o assumem boa parte do significado de nossas vidas. Encantamo-nos pouco com as regras da democracia e com a participa\u00e7\u00e3o coletiva no espa\u00e7o p\u00fablico. Mas consumir tamb\u00e9m \u00e9 uma arena de disputas por aquilo que se produz na sociedade. Ocorre que n\u00e3o se pode definir o que se produz, como se produz e como se distribuem esses bens. Esse direito se restringiu \u00e0s elites, que se tornam mais cidad\u00e3s no cen\u00e1rio chamado de \u201cglobal\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">A grande discuss\u00e3o \u00e9 como \u201creligar\u201d os indiv\u00edduos \u00e0 pol\u00edtica e o Estado \u00e0 sociedade, num momento em que os agentes tradicionais \u2013 sindicatos, partidos e associa\u00e7\u00f5es de modo geral \u2013 n\u00e3o conseguem mobilizar nem seduzir os indiv\u00edduos a partir do \u201cvelho projeto moderno\u201d, forjado no S\u00e9culo das Luzes. Causas ambientais sensibilizam. A quest\u00e3o \u00e9 saber se s\u00e3o capazes de congregar. Mais do que isso, devemos descobrir em que espa\u00e7os p\u00fablicos esses indiv\u00edduos, cientes de seu poder no reconhecimento de sua subjetividade e particularidades, podem atuar, ou quais espa\u00e7os desejam conquistar.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Fonte &#8211; Fernando Fachi, Scientific American Brasil <\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para modificar h\u00e1bitos, \u00e9 preciso abrir m\u00e3o de confortos que prejudicam o ambiente, e negociar a distribui\u00e7\u00e3o dos sacrif\u00edcios Voc\u00ea est\u00e1 disposto a abrir m\u00e3o do seu conforto e de alguns de seus h\u00e1bitos para salvar a vida e a pr\u00f3pria Terra? 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