{"id":8642,"date":"2011-05-18T09:00:54","date_gmt":"2011-05-18T12:00:54","guid":{"rendered":"http:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=8642"},"modified":"2011-05-18T09:00:54","modified_gmt":"2011-05-18T12:00:54","slug":"historias-do-valor-social-e-economico-da-floresta-em-pe","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/historias-do-valor-social-e-economico-da-floresta-em-pe\/","title":{"rendered":"Hist\u00f3rias do valor social e econ\u00f4mico da floresta em p\u00e9"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"color: #008000;\">A discuss\u00e3o hoje no mundo todo \u00e9 como aumentar a cobertura vegetal e a \u00e1rea florestada. S\u00f3 no Brasil se quer votar mudan\u00e7as no C\u00f3digo Florestal que facilitam o desmatamento e liberam desmatadores de recuperar matas ciliares e \u00e1reas de preserva\u00e7\u00e3o permanente desmatadas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Uma vis\u00e3o atrasada da agricultura, da floresta e do desenvolvimento no s\u00e9culo XXI est\u00e1 criando a falsa impress\u00e3o de que mexer no c\u00f3digo florestal, como est\u00e1 proposto \u00e9 necess\u00e1rio para a agropecu\u00e1ria nacional. N\u00e3o \u00e9. Esta \u00e9 uma demanda de uma fra\u00e7\u00e3o dos produtores. O problema \u00e9 que aqueles que n\u00e3o praticam o que essa fra\u00e7\u00e3o pratica, ainda se deixa representar por ela, para seu pr\u00f3prio risco. O porta-voz dessa fra\u00e7\u00e3o passou a ser o relator do projeto de mudan\u00e7a, o deputado Aldo Rebelo. Muito conveniente para as lideran\u00e7as ruralistas, que n\u00e3o precisam aparecer e o abastecem nos bastidores. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Na luta contra aqueles que resistem a esse tipo de mudan\u00e7a no c\u00f3digo, embora defendam sua atualiza\u00e7\u00e3o, os argumentos s\u00e3o muitos e de pouco conte\u00fado. \u00c9 um projeto sem t\u00e9cnica, de qualquer tipo, at\u00e9 legislativa. Escolhi esses tr\u00eas da variada gama de supostas raz\u00f5es para ser flex\u00edvel na preserva\u00e7\u00e3o florestal porque s\u00e3o bem interessantes: \u201c\u00e9 coisa do ambientalismo radical\u201d, \u201cse n\u00e3o mudar vai faltar comida\u201d ou \u201cquerem que a floresta seja um santu\u00e1rio\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Quando algu\u00e9m usa \u201cambientalistas fundamentalistas\u201d, \u201cambientalistas radicais\u201d, \u201congueiros\u201d, como acusa\u00e7\u00e3o ou ofensa \u2013 Aldo Rebelo, v\u00e1rios ruralistas \u201cmoderados\u201d ou \u201cenvergonhados\u201d fazem isso, acho divertido. \u00c9 um problema de modelo mental.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Um diz \u201congueiro\u201d, como se dissesse \u201clobista\u201d. Outros olham os ongueiros como um exemplo de trabalho, a maior parte das vezes volunt\u00e1rio, parte do movimento social, com muitos servi\u00e7os prestados a comunidades, ao ambiente, \u00e0 cultura. Claro, tem as ONGs falsas, de fachada, e corruptas, que lavam dinheiro. Essas est\u00e3o sempre associadas a pol\u00edticos ou governos. N\u00e3o se v\u00ea esses \u201congueiros\u201d fazendo manifesta\u00e7\u00e3o, seu trabalho por defini\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode aparecer, porque n\u00e3o est\u00e1 relacionado ao objetivo social declarado da suposta ONG: s\u00e3o \u201ccoletores\u201d, n\u00e3o s\u00e3o atores.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Um diz \u201cambientalista radical\u201d como se dissesse \u201cterrorista sanguin\u00e1rio\u201d. H\u00e1 os que descaradamente usam a express\u00e3o \u201cterrorismo ambientalista\u201d. Esses s\u00f3 existem no livro do ficcionista ultraconservador Michael Crichton e no vocabul\u00e1rio dos contr\u00e1rios a pol\u00edticas ambientais. J\u00e1 eu acho que ambientalista bom \u00e9 ambientalista radical. Algu\u00e9m tem que elevar o bast\u00e3o o mais alto poss\u00edvel, para que as solu\u00e7\u00f5es de \u201cequil\u00edbrio\u201d sejam razoavelmente equilibradas, contemplando de fato o lado ambientalista. Como o bast\u00e3o est\u00e1 todo \u201cdo lado de l\u00e1\u201d, \u00e9 preciso certo radicalismo para pux\u00e1-lo um pouco para o lado ambiental.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Uma vez, numa reuni\u00e3o do Greenpeace, um jovem me perguntou se o Greenpeace deveria abandonar as \u201ca\u00e7\u00f5es radicais\u201d, ca\u00e7ando baleeiros, invadindo portos irregulares, enfim todo o variado repert\u00f3rio de a\u00e7\u00f5es muito vis\u00edveis que marcam, desde a origem, a criatividade e coragem da ONG, ou ela deveria passar a se dedicar \u00e0 pesquisa e \u00e0 negocia\u00e7\u00e3o. Disse que sem os seus radicais, suas pesquisas n\u00e3o seriam consideradas e seu poder de negocia\u00e7\u00e3o seria pequeno. A pesquisa \u00e9 fundamental e h\u00e1 ONGs excelentes nesse campo, inclusive no Brasil. A negocia\u00e7\u00e3o \u00e9 parte do processo de defesa de pol\u00edticas p\u00fablicas e h\u00e1 \u201congueiros\u201d excelentes em negocia\u00e7\u00e3o. Mas os radicais ajudam a colocar o tem mais ostensivamente na agenda e propicia a divulga\u00e7\u00e3o das pesquisas e abre oportunidades para a negocia\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Acredito nisso. Sem os radicais n\u00e3o d\u00e1 para negociar. E h\u00e1 mais radicais do outro lado, do que do lado do ambientalismo. Digo isso numa boa, porque n\u00e3o me sou ambientalista. Sou analista e editorialista. E, como observador, vejo o papel relevante que o \u201cambientalismo radical\u201d presta, especialmente abrindo caminho para os \u201cnegociadores\u201d e \u201cmoderadores\u201d.<\/span><\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #008000;\">O argumento \u201cvai faltar comida\u201d se o ambientalismo prevalecer tamb\u00e9m \u00e9 muito interessante. Me faz sempre lembrar afazenda de soja, perto de Una\u00ed, MG, que destruiu o cerrado, aterrou veredas, ficou sem uma \u00e1rvore, canalizou a fonte de \u00e1gua, plantou tudo de soja e\u2026 ficou sem \u00e1gua. Agora quer outras \u00e1guas, que est\u00e3o protegidas no Parque Grande Sert\u00e3o Veredas. Se prevalecer a vontade dos que n\u00e3o querem a preserva\u00e7\u00e3o \u00e9 que vai faltar comida. A preserva\u00e7\u00e3o de APPs \u00e9 t\u00e3o parte da seguran\u00e7a agr\u00edcola e alimentar, quanto da seguran\u00e7a h\u00eddrica e ambiental. <\/span><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Se a amea\u00e7a da falta de comida revela desconhecimento das necessidades b\u00e1sicas da agricultura, a ideia do santu\u00e1rio ilustra bem o desconhecimento do valor da floresta em p\u00e9. Conto duas hist\u00f3rias que demonstram o valor econ\u00f4mico e social da floresta em p\u00e9. Uma foi relembrada recentemente por Rhett Butler, do site Mongabay. A outra, eu mesmo apurei, em conversa com a antrop\u00f3loga f\u00edsica Karen Strier. Ambas t\u00eam a ver com matas e macacos. No caso da hist\u00f3ria brasileira, como n\u00e3o podia deixar de ser, tem a ver com macacos dissidentes.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">A primeira se passa no meio da floresta de Borneo, na Mal\u00e1sia. Em busca da explica\u00e7\u00e3o para a resist\u00eancia de um grupo de primatas ao HIV, ap\u00f3s se darem conta de que eles em nada diferiam de outros primatas que n\u00e3o tinham essa resist\u00eancia, os pesquisadores decidiram estudar a floresta. E na casca de uma esp\u00e9cie de \u00e1rvore que cresce na turfa, encontraram um princ\u00edpio bioativo, o canalolide A, que tem um potente efeito anti-HIV. Quando voltaram para coletar mais material para estudos, os cientistas descobriram que essa \u00e1rvore havia sido eliminada pelo desmatamento. Tiveram que recorrer a alguns exemplares preservados no Jardim Bot\u00e2nico de Singapura. Descobriu-se, depois, que existe uma esp\u00e9cie similar em florestas da Indon\u00e9sia, que est\u00e3o seguindo o mesmo destino da floresta de Borneo. Hoje o medicamento est\u00e1 entrando em fase de testes cl\u00ednicos. Quanto vale um medicamento desses hoje, mais de vinte anos depois da descoberta do princ\u00edpio em uma casca de \u00e1rvore que seria extinta? Valor enorme, social, calculado em vidas e bem estar de centenas de milhares, se n\u00e3o milh\u00f5es de pessoas; e econ\u00f4mico, decorrente da produ\u00e7\u00e3o industrial do medicamento. Vale muito mais social e economicamente que a monocultura de palma, que vem ocupando o lugar das florestas devastadas da regi\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">A segunda hist\u00f3ria se passa em uma fazenda, a Montes Claros, na regi\u00e3o rural de Caratinga, MG. Seu propriet\u00e1rio, Feliciano Miguel Abdala, se apaixonou por um centen\u00e1rio jequitib\u00e1 e uns macacos simp\u00e1ticos que encontrou nos 900 hectares de mata da fazenda Montes Claros e que iam visit\u00e1-lo quando se sentava sob a sombra do jequitib\u00e1, para se ausentar das agruras do dia-a-dia. Decidiu preservar a mata. Nas outras quatro ou cinco fazendas que comprou, desmatou para produzir caf\u00e9. Um dia, chega por l\u00e1 uma jovenzinha de Harvard, que s\u00f3 falava ingl\u00eas, jeitosa, simp\u00e1tica, querendo estudar a paix\u00e3o do fazendeiro, os macacos, para uma tese de doutorado. Eram Muriquis, o maior primata das Am\u00e9ricas. Karen Strier, hoje em Wisconsin, aprendeu \u201cmineir\u00eas\u201d. Seu Feliciano se encantou dela e lhe deu uma casa de pe\u00e3o para montar sua base de pesquisa, al\u00e9m de livre tr\u00e2nsito pela mata. Este \u00faltimo um requisito fundamental, porque diz a lenda local que ele costumava tratar os invasores, geralmente ca\u00e7adores, a bala.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Karen nunca mais parou de estudar os Muriquis. Descobriu com eles que a primatologia baseada nos primatas do velho mundo havia criado um primata t\u00edpico que n\u00e3o passava de generaliza\u00e7\u00e3o indevida, pura mitologia. Seu estudo sobre o \u201cmito do primata t\u00edpico\u201d, lhe valeu a elei\u00e7\u00e3o para a Academia de Ci\u00eancias dos Estados Unidos. O que os Muriquis t\u00eam de diferente do mitol\u00f3gico primara t\u00edpico? N\u00e3o s\u00e3o carn\u00edvoros, \u00e9 rigorosamente vegetariano, s\u00f3 come ra\u00edzes, folhas e frutos, n\u00e3o t\u00eam macho dominante, praticamente n\u00e3o h\u00e1 diferen\u00e7a f\u00edsica entre macho e f\u00eamea. A f\u00eamea \u00e9 que escolhe seus parceiros sexuais. Tem m\u00faltiplos parceiros quando est\u00e1 no cio, mas escolhe com que parceiro ir\u00e1 emprenhar.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Perguntei a Karen como essa f\u00eamea conseguia fazer isso naturalmente. Ela me contou que ela e seus pesquisadores observaram que quando a f\u00eamea come\u00e7ava a dar mostras de maior \u201cassanhamento\u201d, sumia numa parte da mata, provavelmente comia alguma fruta, folha ou raiz, e voltava namoradeira. Algo inibia sua fertilidade. Quanto come\u00e7ava a ficar mais com um mesmo macho, sumia de novo, comia alguma coisa, voltava, copulava com o parceiro escolhido, \u201cse fechava\u201d para qualquer outro namoro da\u00ed em diante e emprenhava. Algo restaurava sua fertilidade. N\u00e3o temos esses princ\u00edpios bioativos identificados e dominados. Eles valem mais que os pastos que cercam esses 900 hectares por todos os lados. A Mata e os Muriquis quase certamente n\u00e3o sobreviver\u00e3o como \u201cilhas-fragmentos\u201d. Como Karen disse a mim e a M\u00edriam Leit\u00e3o, em entrevista que fizemos com ela para O Globo e O Eco, que a SOS Mata Atl\u00e2ntica premiou, \u201cmuito triste estudar um animal que voc\u00ea sabe que vai ser extinto\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Mais que triste, \u00e9 um desperd\u00edcio. A mata \u00e9 uma mina inexplorada de princ\u00edpios bioativos e o Muriqui \u00e9 o professor, que pode ensinar e guiar os pesquisadores pelos segredos escondidos em suas ra\u00edzes, seus troncos, suas folhas e frutos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Fonte &#8211; S\u00e9rgio Abranches, CBN de 17 de maio de 2011<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A discuss\u00e3o hoje no mundo todo \u00e9 como aumentar a cobertura vegetal e a \u00e1rea florestada. 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