{"id":9261,"date":"2011-07-29T17:00:17","date_gmt":"2011-07-29T20:00:17","guid":{"rendered":"http:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=9261"},"modified":"2011-07-29T17:00:17","modified_gmt":"2011-07-29T20:00:17","slug":"deslocalizacao-agricola-e-neocolonialismo-investidores-estrangeiros-tomam-conta-das-terras-agricolas-africanas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/deslocalizacao-agricola-e-neocolonialismo-investidores-estrangeiros-tomam-conta-das-terras-agricolas-africanas\/","title":{"rendered":"Deslocaliza\u00e7\u00e3o agr\u00edcola e Neocolonialismo &#8211; Investidores estrangeiros tomam conta das terras agr\u00edcolas africanas"},"content":{"rendered":"<p><strong><span style=\"color: #008000;\">Governos e fundos de investimentos est\u00e3o comprando terras agr\u00edcolas para cultivar na \u00c1frica e na \u00c1sia<\/span><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Um neg\u00f3cio lucrativo, levando em conta o crescimento da popula\u00e7\u00e3o global e o aumento r\u00e1pido dos pre\u00e7os dos alimentos. Mas o arriscado \u201cBanco Imobili\u00e1rio\u201d da vida real est\u00e1 levando a um colonialismo moderno ao qual muitos pa\u00edses se submetem por necessidade.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Toda crise tem seus ganhadores. Um grupo deles est\u00e1 reunido na sala Stuyvesant do Marriott Hotel em Nova York. A sala de confer\u00eancias, com persianas fechadas e luz reduzida, est\u00e1 cheia de homens de Iowa, S\u00e3o Paulo e Sydney \u2013 fazendeiros de milho, grandes propriet\u00e1rios de terras e administradores de fundos. Cada um deles pagou US$ 1.995 (cerca de R$ 3.700) para comparecer ao encontro Global AgInvesting 2009, a primeira confer\u00eancia de investidores do emergente mercado mundial de terras agr\u00edcolas. Reportagem de Horand Knaup e Juliane von Mittelstaedt, no Der Spiegel.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Um homem da Organiza\u00e7\u00e3o para a Coopera\u00e7\u00e3o e o Desenvolvimento Econ\u00f4mico (OCDE) faz a primeira apresenta\u00e7\u00e3o. Linhas coloridos sobem e descem nos gr\u00e1ficos de sua apresenta\u00e7\u00e3o em PowerPoint. Algumas caem \u00e0 medida que o ano 2050 se aproxima. Elas representam as terras agr\u00edcolas que est\u00e3o desaparecendo como resultado das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, empobrecimento do solo, urbaniza\u00e7\u00e3o e escassez de \u00e1gua. As outras linhas, que apontam direto para cima, representam a demanda por carne e biocombust\u00edvel, os pre\u00e7os dos alimentos e o crescimento populacional. H\u00e1 um abismo cada vez maior entre esses dois conjuntos de linhas. Ele corresponde \u00e0 fome.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">De acordo com a maioria dos progn\u00f3sticos, poder\u00e1 haver 9,1 milh\u00f5es de pessoas vivendo no planeta em 2050, cerca de dois bilh\u00f5es a mais do que hoje.\u00a0 <span style=\"color: #ff0000;\">E todos os pa\u00edses ainda se recusam a abordar o assunto tabu que \u00e9 controle populacional,\u00a0a \u00fanica solu\u00e7\u00e3o para a superpopula\u00e7\u00e3o mundial.<\/span> S\u00f3 nos pr\u00f3ximos 20 anos, a demanda mundial por alimentos deve aumentar 50%. \u201cS\u00e3o perspectivas pessimistas\u201d, diz o homem da OCDE. Ele parece s\u00e9rio e at\u00e9 um pouco triste, enquanto descreve o futuro do mundo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Mas para o p\u00fablico na sala Stuyvesant, formado principalmente por homens e algumas mulheres, tudo isso s\u00e3o boas not\u00edcias e o clima \u00e9 animado. Como poderia ser diferente? Afinal, a fome \u00e9 o neg\u00f3cio deles. A combina\u00e7\u00e3o de mais pessoas e menos terra transforma os alimentos num investimento seguro, com retornos anuais de 20% a 30%, raros no atual cen\u00e1rio econ\u00f4mico.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Eles n\u00e3o s\u00e3o especialistas de Wall Street, nem tampouco pessoas que jogam dinheiro em outros continentes como se lan\u00e7assem bolas de bilhar. Pelo contr\u00e1rio, s\u00e3o investidores extremamente conservadores que compram ou arrendam terras para plantar trigo ou criar gado. A terra \u00e9 escassa e cara na Europa e nos Estados Unidos. Resolver esse problema significa desenvolver novas terras, que est\u00e3o dispon\u00edveis somente na \u00c1frica, \u00c1sia e Am\u00e9rica do Sul. Essa combina\u00e7\u00e3o de fatores desencadeou um jogo de alto risco, um Banco Imobili\u00e1rio da vida real, no qual fundos de investimentos, bancos e governos est\u00e3o empenhados numa corrida pelo acesso \u00e0s terras ar\u00e1veis do mundo.<\/span><\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #008000;\">A \u00faltima fronteira, ou encontrando alfa<\/span><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Susan Payne, uma mulher ruiva de nacionalidade brit\u00e2nica, \u00e9 a diretora-executiva do maior fundo de terras no sul da \u00c1frica, que atualmente inclui 150 mil hectares, principalmente na \u00c1frica do Sul, Z\u00e2mbia e Mo\u00e7ambique. Payne espera levantar meio bilh\u00e3o de euros (R$ 1,33 bi) junto a investidores. Ela fala sobre lutar contra a fome, mas os t\u00edtulos em sua apresenta\u00e7\u00e3o de PowerPoint, embelezada com fotos de campos de soja ao p\u00f4r-do-sol, contam uma hist\u00f3ria diferente. Um desses t\u00edtulos diz: \u201c\u00c1frica \u2013 a \u00faltima fronteira para encontrar alfa\u201d. A palavra \u201calfa\u201d significa um investimento para o qual o retorno \u00e9 maior do que o risco. A \u00c1frica \u00e9 o continente alfa.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Isto porque a terra, que \u00e9 extremamente f\u00e9rtil em algumas regi\u00f5es, \u00e9 barata no continente empobrecido. O fundo de terras de Payne paga de US$ 350 a US$ 500 (R$ 650 a R$ 930) por hectare na Z\u00e2mbia, cerca de um d\u00e9cimo do pre\u00e7o das terras na Argentina ou nos Estados Unidos. Para um pequeno fazendeiro na \u00c1frica, a produ\u00e7\u00e3o m\u00e9dia por hectare permanece inalterada h\u00e1 40 anos. Com um pouco de fertilizantes e uma irriga\u00e7\u00e3o melhor, a produ\u00e7\u00e3o poderia quadruplicar \u2013 assim como os lucros.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Essas s\u00e3o condi\u00e7\u00f5es perfeitas para os investidores. Susan Payne v\u00ea isso dessa forma, assim como seus investidores. De fato, tem havido tanta demanda por esse tipo de investimento que Payne decidiu recentemente criar um novo sub-fundo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Uma grande quantidade de capital est\u00e1 dispon\u00edvel atualmente. Estamos no segundo ano da crise econ\u00f4mica global e os investidores est\u00e3o buscando investimentos fortes e seguros, e \u00e9 por isso que o p\u00fablico do encontro em Nova York incluiu n\u00e3o apenas gerentes de fundos hedge e executivos da agroind\u00fastria, mas tamb\u00e9m representantes de grandes fundos de pens\u00e3o e diretores financeiros de cinco universidades, incluindo Harvard.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Milhares de fundos de investimentos, de grandes a pequenos, come\u00e7aram recentemente a recorrer \u00e0 f\u00f3rmula mais b\u00e1sica do mundo: as pessoas precisam comer.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">A administradora de investimentos norte-americana BlackRock, por exemplo, estabeleceu um fundo de agricultura de US$ 200 milh\u00f5es, e separou US$ 30 milh\u00f5es para a aquisi\u00e7\u00e3o de terras agr\u00edcolas. A Renaissance Capital, companhia de investimentos russa, adquiriu mais de 100 mil hectares na Ucr\u00e2nia. O Deutsche Bank e o Goldman Sachs investiram seu dinheiro na cria\u00e7\u00e3o de porcos e galinhas na China, investimentos que incluem os direitos legais sobre a terra.<\/span><\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #008000;\">Os alimentos s\u00e3o o novo petr\u00f3leo. As reservas mundiais de gr\u00e3os ca\u00edram para uma baixa hist\u00f3rica no come\u00e7o de 2008, e a subsequente alta nos pre\u00e7os marcaram um ponto de virada, da mesma forma que a crise do petr\u00f3leo fez nos anos 70. A falta de p\u00e3o provocou motins em todo o mundo, e 25 pa\u00edses, incluindo alguns dos maiores exportadores de gr\u00e3os, impuseram restri\u00e7\u00f5es \u00e0 exporta\u00e7\u00e3o de alimentos.<\/span><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Ent\u00e3o veio a segunda crise de 2008, a crise econ\u00f4mica. Dois medos \u2013 o medo da fome e do medo da incerteza \u2013 convergiram, desencadeando o que alguns j\u00e1 chamam de segunda gera\u00e7\u00e3o do colonialismo.<\/span><\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #008000;\">Uma situa\u00e7\u00e3o em que todos ganham?<\/span><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">A diferen\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o a esse novo colonialismo \u00e9 que os pa\u00edses est\u00e3o permitindo prontamente serem conquistados. O primeiro-ministro da Eti\u00f3pia disse que seu governo est\u00e1 \u201cansioso\u201d para oferecer acesso a centenas de milhares de hectares de terras agr\u00edcolas. O ministro da agricultura da Turquia anunciou: \u201cEscolham e peguem o que quiserem\u201d. Em meio \u00e0 guerra contra o Taleban, o governo paquistan\u00eas investiu em sua autopromo\u00e7\u00e3o em Dubai, buscando seduzir os xeiques com redu\u00e7\u00e3o de impostos e isen\u00e7\u00e3o de leis trabalhistas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Todos esses esfor\u00e7os t\u00eam duas esperan\u00e7as em comum. Uma \u00e9 a esperan\u00e7a de os pa\u00edses pobres atingirem o desenvolvimento e a moderniza\u00e7\u00e3o em seus prec\u00e1rios setores agr\u00edcolas. A outra \u00e9 a esperan\u00e7a do mundo de que os investidores estrangeiros na \u00c1frica e na \u00c1sia sejam capazes de produzir alimentos suficientes para um planeja que logo ser\u00e1 povoado por 9,1 bilh\u00f5es de pessoas; que eles tragam consigo todas as coisas que faltam aos pa\u00edses pobres, incluindo tecnologia, capital e conhecimento, sementes modernas e fertilizantes; e que esses investidores sejam capazes n\u00e3o s\u00f3 de dobrar as safras mas, em muitas partes da \u00c1frica, multiplic\u00e1-las por dez. Estimativas anteriores na verdade preveem um decl\u00ednio na capacidade de produ\u00e7\u00e3o de 3 a 4% em 2080, em compara\u00e7\u00e3o ao ano 2000.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Se os investidores tiverem sucesso, eles poderiam alcan\u00e7ar o que as ag\u00eancias de desenvolvimento n\u00e3o foram capazes de fazer nas \u00faltimas d\u00e9cadas: reduzir a fome que hoje aflige mais pessoas do que nunca, mais precisamente um bilh\u00e3o em todo o mundo. Na melhor das hip\u00f3teses, esta poderia ser uma situa\u00e7\u00e3o em que todos ganham, com lucro para os investidores e desenvolvimento para os pobres.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">N\u00e3o s\u00e3o apenas os banqueiros e especuladores, mas tamb\u00e9m os governos que est\u00e3o adquirindo terras em outros pa\u00edses, buscando reduzir sua depend\u00eancia do mercado mundial e das importa\u00e7\u00f5es. A China abriga 20% da popula\u00e7\u00e3o mundial, mas tem apenas 9% das terras ar\u00e1veis do mundo. O Jap\u00e3o \u00e9 o maior importador de milho e a Coreia do Sul \u00e9 o segundo maior. Os Estados do Golfo P\u00e9rsico importam 60% de seus alimentos, enquanto suas reservas naturais de \u00e1gua s\u00e3o suficientes para sustentar apenas mais 30 anos de agricultura.<\/span><\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #008000;\">Corrida pelas terras nos tempos modernos<\/span><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Mas o que acontecer\u00e1 num mundo globalizado quando as col\u00f4nias surgirem novamente? O que acontecer\u00e1, por exemplo, se a Ar\u00e1bia Saudita adquirir partes da regi\u00e3o de Punjab no Paquist\u00e3o ou se os investidores russos comprarem metade da Ucr\u00e2nia? E o que acontecer\u00e1 quando a fome atingir esses pa\u00edses? Ser\u00e1 que os estrangeiros ricos instalar\u00e3o cercas el\u00e9tricas em volta de suas terras e guardas armados escoltar\u00e3o os carregamentos das safras para fora do pa\u00eds? O Paquist\u00e3o j\u00e1 anunciou planos para enviar 100 mil membros de suas for\u00e7as de seguran\u00e7a para proteger as terras pertencentes a estrangeiros.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Como a corrida pelas terras dos tempos modernos \u00e9 muito delicada, normalmente apenas o chefe de Estado do pa\u00eds \u00e9 que conhece seus detalhes. Em alguns casos, entretanto, governadores j\u00e1 leiloaram terras para quem pagasse mais, como no caso do Laos e do Camboja, onde at\u00e9 mesmo os governos n\u00e3o sabem mais quanto de seus territ\u00f3rios ainda lhes pertence.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Ningu\u00e9m tem certeza de quanta terra est\u00e1 em jogo. O n\u00famero citado pelo Instituto Internacional de Pesquisa em Pol\u00edtica Alimentar (IFPRI, na sigla em ingl\u00eas) \u00e9 de 30 milh\u00f5es de hectares, mas sua estimativa \u00e9 imposs\u00edvel de ser verificada. At\u00e9 as organiza\u00e7\u00f5es das Na\u00e7\u00f5es Unidas t\u00eam de recorrer a reportagens dos jornais, enquanto o Banco Mundial est\u00e1 tentando convencer os pa\u00edses a prestarem mais aten\u00e7\u00e3o \u00e0s letras mi\u00fadas dos acordos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Klaus Deininger, economista especializado em pol\u00edtica agr\u00e1ria no Banco Mundial, estima que 10 a 30% das terras ar\u00e1veis dispon\u00edveis estejam em risco, apesar de que apenas uma fra\u00e7\u00e3o do n\u00famero de arrendamentos e acordos de vendas tenham sido assinados. \u201cHouve um grande salto em 2008, quando os planos e aplica\u00e7\u00f5es em muitos pa\u00edses mais do que dobraram, em alguns casos triplicaram\u201d. Em Mo\u00e7ambique, diz Deininger, a demanda estrangeira \u00e9 mais do que o dobro da terra agr\u00edcola cultivada existente, e o governo j\u00e1 distribuiu quatro milh\u00f5es de hectares para investidores, metade deles estrangeiros.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Os acordos mais espetaculares n\u00e3o est\u00e3o sendo feitos por investidores privados, entretanto, mas sim pelos governos e pelos fundos e conglomerados que eles promovem.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">O governo do Sud\u00e3o arrendou 1,5 milh\u00f5es de hectares de terras agr\u00e1rias de primeira qualidade para os Estados do Golfo, Egito e Coreia do Sul por 99 anos. Paradoxalmente, o Sud\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9 o maior recebedor mundial de ajuda internacional, com 5,6 milh\u00f5es de seus cidad\u00e3os dependentes do envio de alimentos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">O Kuwait arrendou 130 mil hectares de campos de arroz no Camboja.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">O Egito planeja plantar trigo e milho em 840 mil hectares de Uganda.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">O presidente da Rep\u00fablica Democr\u00e1tica do Congo ofereceu o arrendamento de 10 milh\u00f5es de hectares para os sul-africanos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">A Ar\u00e1bia Saudita \u00e9 um dos maiores e mais agressivos compradores de terra. Nessa primavera, o rei compareceu a uma cerim\u00f4nia em que recebeu a primeira safra de arroz para exporta\u00e7\u00e3o produzido exclusivamente para o reino na faminta Eti\u00f3pia. A Ar\u00e1bia Saudita gasta US$ 800 milh\u00f5es (R$ 1,5 bi) por ano promovendo companhias estrangeiras que cultivam \u201calimentos estrat\u00e9gicos\u201d como arroz, trigo, cevada e milho, que ent\u00e3o importa. Ironicamente, o pa\u00eds foi o sexto maior exportador de trigo do mundo nos anos 90. Mas a \u00e1gua \u00e9 escassa e a na\u00e7\u00e3o deserta planeja preservar suas reservas. Exportar alimentos tamb\u00e9m significa exportar \u00e1gua.<\/span><\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #008000;\">O investidor precisa de um Estado fraco<\/span><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Os pa\u00edses ricos est\u00e3o trocando dinheiro, petr\u00f3leo e infraestrutura por comida, \u00e1gua e alimento para o gado. \u00c0 primeira vista, isso parece apresentar uma solu\u00e7\u00e3o para muitos problemas, diz Jean-Philippe Audinet, do Fundo Internacional para o Desenvolvimento da Agricultura (Ifad). Em geral, ele est\u00e1 satisfeito com os investimentos agr\u00edcolas e diz que lutou por eles durante anos. \u201cO que foi ruim foi o per\u00edodo em que os mercados estavam sendo inundados por alimentos baratos\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Mas muitos dos pa\u00edses onde a terra est\u00e1 sendo tomada \u2013 Cazaquist\u00e3o e Paquist\u00e3o, por exemplo \u2013 sofrem com escassez de \u00e1gua. A \u00c1frica sub-saariana tem reservas naturais adequadas de \u00e1gua, mas o \u00fanico pa\u00eds da regi\u00e3o que atualmente produz um excesso de alimentos \u00e9 a \u00c1frica do Sul. A maioria dos pa\u00edses, por outro lado, s\u00e3o importadores de alimentos e, com o aumento r\u00e1pido das popula\u00e7\u00f5es, \u00e9 prov\u00e1vel que se tornem importadores ainda mais dependentes no futuro. Ser\u00e1 que esses pa\u00edses poder\u00e3o se tornar de fato produtores importantes de alimentos?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Audinet, o especialista do Ifad, conhece os riscos. \u201cA forma como esses acordos est\u00e3o estruturados pode prejudicar os pa\u00edses e os agricultores a longo prazo, roubando deles seu bem mais importante: a terra\u201d. Olivier De Schutter, relator especial da ONU para O Direito \u00e0 Alimenta\u00e7\u00e3o, alerta: \u201cComo os pa\u00edses da \u00c1frica est\u00e3o competindo por investidores, est\u00e3o baixando os pre\u00e7os em rela\u00e7\u00e3o uns aos outros\u201d. Alguns contratos, diz De Schutter, mal t\u00eam tr\u00eas p\u00e1ginas de extens\u00e3o \u2013 para centenas de milhares de hectares de terra. Esses tipos de acordos estipulam quais produtos ser\u00e3o cultivados, o local, e o pre\u00e7o da compra ou arrendamento, mas n\u00e3o incluem nenhuma norma ambiental. Eles tamb\u00e9m n\u00e3o determinam os investimentos necess\u00e1rios em contrapartida nem estipulam que dever\u00e3o ser criados empregos, diz De Schutter.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Alguns investidores concordam em construir escolas e pavimentar estradas, mas mesmo quando cumprem suas promessas, os benef\u00edcios para os governos anfitri\u00f5es e agricultores locais t\u00eam vida curta. A longo prazo, entretanto, eles precisam <strong>sofrer as consequ\u00eancias da super-fertiliza\u00e7\u00e3o, desmatamento, consumo excessivo de \u00e1gua, redu\u00e7\u00e3o da diversidade ecol\u00f3gica e perda de esp\u00e9cies locais. Para aumentar as safras e atingir lucros anuais de 20% ou mais, os grandes donos de terras estrangeiros precisam operar suas fazendas em escala industrial. E quando o solo come\u00e7a a empobrecer depois de alguns anos, muitos investidores simplesmente mudam para outro lugar. A terra \u00e9 t\u00e3o barata que eles n\u00e3o s\u00e3o obrigados a valorizar pr\u00e1ticas de agricultura sustent\u00e1veis.<\/strong><\/span><\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #008000;\">Rejeitando o velho modelo<\/span><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Por causa dos riscos, Audinet e De Schutter, assim como a maioria dos especialistas, preferem os contratos de produ\u00e7\u00e3o \u00e0 aquisi\u00e7\u00e3o de terras. Em outras palavras, os investidores estrangeiros fornecem a tecnologia e o capital, enquanto os fazendeiros locais, trabalhando em suas pr\u00f3prias terras ou em terras arrendadas, fornecem arroz ou trigo a pre\u00e7os fixos. Este \u00e9 um modelo cl\u00e1ssico, testado e comprovado, mas n\u00e3o \u00e9 o que os novos investidores querem. Eles querem controlar, ter propriedade, altos lucros e, acima de tudo, seguran\u00e7a \u2013 objetivos raramente compat\u00edveis com os interesses de milhares de pequenos produtores.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">O Senegal decidiu a favor dos contratos de produ\u00e7\u00e3o e contra a venda de terras em grande escala, mas isso \u00e9 poss\u00edvel porque o pa\u00eds \u00e9 uma democracia est\u00e1vel. O mesmo n\u00e3o pode ser dito de muitos pa\u00edses onde a aquisi\u00e7\u00e3o de terras est\u00e1 acontecendo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">\u201cQuando os alimentos se tornam escassos, o investidor precisa de um Estado fraco que n\u00e3o o obrigue a obedecer nenhuma lei\u201d, diz o empres\u00e1rio norte-americano Philippe Heilberg. Um Estado que permita a exporta\u00e7\u00e3o de gr\u00e3os apesar da fome em seu territ\u00f3rio, que seja consumido pela corrup\u00e7\u00e3o ou esteja profundamente endividado, que seja governado por uma ditadura, atormentado pela guerra civil, ou que envie milh\u00f5es de trabalhadores para o exterior e precise que esses trabalhadores consigam vistos e empregos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Heilberg descobriu um pa\u00eds assim: o sul do Sud\u00e3o, que na verdade \u00e9 uma pr\u00e9-na\u00e7\u00e3o, aut\u00f4noma mas n\u00e3o independente. O norte-americano de 44 anos, filho de um mercador de caf\u00e9 e fundador da firma de investimentos Jarch Capital, agora \u00e9 o maior arrendat\u00e1rio de terra no sul do Sud\u00e3o, com 400 mil hectares de terra agr\u00e1ria de primeira qualidade na prov\u00edncia de Mayom.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">A simples men\u00e7\u00e3o das palavras sul do Sud\u00e3o conjura imagens de guerra civil, refugiados e fome, e n\u00e3o de um lugar onde algu\u00e9m consideraria plantar tomates. Mas Heilberg alardeia que seu projeto ser\u00e1 mais ben\u00e9fico para o povo do que a pr\u00f3pria ONU, e que ele criar\u00e1 empregos e produzir\u00e1 alimentos. E insiste que Paulino Matip, de quem ele arrendou as terras por 50 anos, n\u00e3o seja chamado de ditador, mas sim \u201cex-ditador\u201d ou \u201cvice-chefe do Ex\u00e9rcito\u201d. Heilberg s\u00f3 deixa de mencionar que os rebeldes liderados por Matip s\u00e3o suspeitos de terem cometido crimes de guerra.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Em vez de comprar a\u00e7\u00f5es, o ex-banqueiro est\u00e1 agora especulando sobre o futuro pol\u00edtico do sul do Sud\u00e3o, que ele insiste ser\u00e1 um pa\u00eds independente em dez anos, quando as terras ser\u00e3o bem mais caras do que s\u00e3o hoje.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">A aquisi\u00e7\u00e3o de terras j\u00e1 est\u00e1 um passo \u00e0 frente no oeste do Qu\u00eania, onde vive Erastas Dildo, 33, o tipo de pessoa que os investidores de Nova York provavelmente caracterizariam como um fator de risco: um pequeno agricultor que \u00e9 dono de tr\u00eas hectares de terra. Em sua terra f\u00e9rtil, o milho fica verdejante e cresce at\u00e9 dois metros, o gado \u00e9 t\u00e3o gordo quanto os hipop\u00f3tamos e os p\u00e9s de tomate se inclinam com o peso de seus frutos. O vizinho rio Yala corre para o Lago Vit\u00f3ria. H\u00e1 tr\u00eas pequenas casas de alvenaria na propriedade. Erastas colhe seu milho duas vezes por ano, e os vegetais e tomates crescem durante o ano todo. Um hectare produz 3.600 euros (quase R$ 9.600) em milho por ano, muito dinheiro para os padr\u00f5es quenianos.<\/span><\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #008000;\">Eles expulsaram 400 fam\u00edlias<\/span><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Mas isso tudo mudou quando Erastas foi contatado pela Dominion Farms, uma agroind\u00fastria norte-americana que estabeleceu uma col\u00f4nia do delta do Yala, onde arrendou 3.600 hectares de terra por 45 anos, a um pre\u00e7o rid\u00edculo de US$ 12 mil por ano (R$ 22,4 mil). A Dominion, que planeja plantar arroz, vegetais e milho na terra, quer incluir os tr\u00eas hectares de Erastas Dildo em seu empreendimento.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Os representantes da Dominion ofereceram pagar a ele cerca de 10 centavos por metro quadrado. Erastas recusou, e agora eles est\u00e3o tornando as coisas um pouco dif\u00edceis para o agricultor. Sua arma mais eficiente \u00e9 uma represa constru\u00edda pela companhia. Quando Erastas tentou colher seu milho, encontrou a planta\u00e7\u00e3o inundada. \u201cEles est\u00e3o jogando com o n\u00edvel da \u00e1gua para nos expulsar\u201d, disse. E quando isso n\u00e3o funciona, diz Erastas, a Dominion manda escavadeiras, bandidos e \u00e0s vezes at\u00e9 a pol\u00edcia.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">De acordo com seu contrato, a Dominion concordou em reformar \u201cpelo menos uma escola e um centro m\u00e9dico\u201d em cada um dos distritos locais. \u201cEm vez disso, eles expulsaram 400 fam\u00edlias\u201d, diz Gondi Olima, da organiza\u00e7\u00e3o Amigos do Delta de Yala. De acordo com Olima, primeiro a Dominion criou novos empregos, uma vez que os trabalhadores eram contratados por dia para limpar o terreno com fac\u00f5es, mas depois ela companhia trouxe cada vez mais equipamento. \u201cAgora eles t\u00eam tantas m\u00e1quinas que os trabalhadores n\u00e3o s\u00e3o mais necess\u00e1rios\u201d, diz Olima.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">A Dominion Farms nega as acusa\u00e7\u00f5es dos fazendeiros e afirma que j\u00e1 construiu oito salas de aula, doou port\u00f5es e contemplou 16 crian\u00e7as com bolsas escolares, al\u00e9m de fornecer camas e eletricidade para uma ala de hospital.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Talvez Erastas e sua fam\u00edlia sejam for\u00e7ados a abrir caminho para o desenvolvimento em breve, como j\u00e1 est\u00e1 acontecendo em muitos lugares. O Banco Mundial estima que apenas 2 a 10% das terras da \u00c1frica tenham donos ou arrendat\u00e1rios formais, e a maioria delas fica nas cidades. Uma fam\u00edlia pode ter morado num peda\u00e7o ocupado de terra durante d\u00e9cadas, mas com frequ\u00eancia n\u00e3o t\u00eam como provar que \u00e9 a propriet\u00e1ria.<\/span><\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #008000;\">A ca\u00e7ada pela terra continua<\/span><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Entretanto, a terra quase nunca \u00e9 deixada sem uso. Os mais pobres, em particular, vivem da terra, onde coletam frutas, ervas ou madeira e alimentam seu gado. De acordo com um estudo conjunto feito por v\u00e1rias organiza\u00e7\u00f5es da ONU, as tomadas de terra s\u00e3o normalmente justificadas com alega\u00e7\u00f5es de que a terra era improdutiva. Como resultado, de acordo com o relat\u00f3rio, as tomadas de terra t\u00eam potencial para tirar a posse dos agricultores em larga escala. Em muitos pa\u00edses, pode haver terra ar\u00e1vel suficiente para todos, mas a qualidade n\u00e3o \u00e9 uniforme \u2013 e os investidores querem a melhor terra. Essa, como de fato acontece, \u00e9 a terra em que os agricultores normalmente vivem.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Como mais de 50% dos africanos s\u00e3o pequenos produtores, a aquisi\u00e7\u00e3o em larga escala pode ser desastrosa para a popula\u00e7\u00e3o. Os que perdem suas terras, perdem tudo. O fato de que grandes investidores possam melhorar substancialmente as safras com sua tecnologia agr\u00edcola moderna n\u00e3o significa nada para os africanos que, depois de perderem suas terras e meios de sobreviv\u00eancia, n\u00e3o conseguem comprar os novos produtos agr\u00edcolas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">O Banco Mundial e outras organiza\u00e7\u00f5es est\u00e3o desenvolvendo agora um c\u00f3digo de conduta para os investidores. Uma declara\u00e7\u00e3o de inten\u00e7\u00f5es foi elaborada para o encontro do G-8 em L\u2019Aquila, It\u00e1lia, mas os chefes de Estado que compareceram n\u00e3o conseguiram concordaram em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s normas restritivas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">E assim continua a ca\u00e7ada por terra. A Dominion garantiu outros 3.200 hectares, e Philippe Heilberg est\u00e1 em processo de arrendar mais 600 mil hectares no sul do Sud\u00e3o. Em Nova York, na sala Stuyvesant, um dos palestrantes recita n\u00fameros para ilustrar a rapidez com que a popula\u00e7\u00e3o global est\u00e1 crescendo: 154 pessoas por minuto, 9.240 por hora ou 221.760 por dia. E todas elas querem comer.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Fonte &#8211;\u00a0Reportagem Foreign Investors Snap Up African Farmland do Der Spiegel \/\u00a0UOL Not\u00edcias \/ Ecodebate de 3 de agosto de 2009 \/<\/span><span style=\"color: #008000;\"> Tradu\u00e7\u00e3o de Eloise De Vylder<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Governos e fundos de investimentos est\u00e3o comprando terras agr\u00edcolas para cultivar na \u00c1frica e na \u00c1sia Um neg\u00f3cio lucrativo, levando em conta o crescimento da popula\u00e7\u00e3o global e o aumento r\u00e1pido dos pre\u00e7os dos alimentos. 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