{"id":9669,"date":"2011-11-07T08:00:16","date_gmt":"2011-11-07T10:00:16","guid":{"rendered":"http:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/?p=9669"},"modified":"2011-11-07T08:00:16","modified_gmt":"2011-11-07T10:00:16","slug":"belo-monte-nosso-dinheiro-e-o-bigode-do-sarney","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.funverde.org.br\/blog\/belo-monte-nosso-dinheiro-e-o-bigode-do-sarney\/","title":{"rendered":"Belo Monte, nosso dinheiro e o bigode do Sarney"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"color: #ff0000;\">Sabemos que 99,9% dos leitores se assustar\u00e3o com o tamanho do texto e simplesmente n\u00e3o ler\u00e3o, o que \u00e9 uma pena, mas n\u00e3o podemos fazer nada, a n\u00e3o ser publicar este texto esclarecedor sobre os interesses escondidos na constru\u00e7\u00e3o de belo monte e outras tantas monstruosidades no pa\u00eds. E dizemos isso porque sempre recebemos mensagens de leitores que pedem um resumo das mat\u00e9rias, porque s\u00e3o longas demais.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Um dos mais respeitados especialistas na \u00e1rea energ\u00e9tica do pa\u00eds, o professor da USP C\u00e9lio Bermann, fala sobre a \u201ccaixa preta\u201d do setor, controlado por Jos\u00e9 Sarney, e o jogo pesado e lucrativo que domina a maior obra do PAC. Conta tamb\u00e9m sua experi\u00eancia como assessor de Dilma Rousseff no Minist\u00e9rio de Minas e Energia<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Se voc\u00ea \u00e9 aquele tipo de leitor que acha que Belo Monte vai \u201cafetar apenas um punhado de \u00edndios\u201d, esta entrevista \u00e9 para voc\u00ea. Talvez voc\u00ea descubra que a megaobra vai afetar diretamente o seu bolso. Se voc\u00ea \u00e9 aquele tipo de leitor que acredita que os acontecimentos na Amaz\u00f4nia n\u00e3o lhe dizem respeito, esta entrevista \u00e9 para voc\u00ea. Para que possa entender que o que acontece l\u00e1, repercute aqui \u2013 e vice-versa. Se voc\u00ea \u00e9 aquele tipo de leitor que defende a constru\u00e7\u00e3o do maior n\u00famero de usinas hidrel\u00e9tricas j\u00e1 porque acredita piamente que, se isso n\u00e3o acontecer, vai ficar sem luz em casa para assistir \u00e0 novela das oito, esta entrevista \u00e9 para voc\u00ea. Com alguma sorte, voc\u00ea pode perceber que o buraco \u00e9 mais embaixo e que voc\u00ea tem consumido propaganda subliminar, al\u00e9m de bens de consumo. Se voc\u00ea \u00e9 aquele tipo de leitor que compreende os impactos socioambientais de uma obra desse porte, mas gostaria de entender melhor o que est\u00e1 em jogo de fato e quais s\u00e3o as alternativas, esta entrevista tamb\u00e9m \u00e9 para voc\u00ea.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Como tenho escrito com frequ\u00eancia sobre a megausina hidrel\u00e9trica de Belo Monte, por considerar que \u00e9 uma das quest\u00f5es mais relevantes do pa\u00eds no momento, observo com aten\u00e7\u00e3o as manifesta\u00e7\u00f5es dos leitores que comentam neste espa\u00e7o ou em redes sociais como o Twitter. Anotei as principais d\u00favidas para inclu\u00ed-las aqui e assim colaborar com o debate.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Desta vez, propus uma conversa sobre Belo Monte a C\u00e9lio Bermann, um dos mais respeitados especialistas do pa\u00eds na \u00e1rea energ\u00e9tica. Bermann \u00e9 professor do Instituto de Eletrot\u00e9cnica e Energia da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), com doutorado em Planejamento de Sistemas Energ\u00e9ticos pela Unicamp. Publicou v\u00e1rios livros, entre eles: \u201cEnergia no Brasil: Para qu\u00ea? Para quem? \u2013 Crise e Alternativas para um Pa\u00eds Sustent\u00e1vel\u201d (Livraria da F\u00edsica) e \u201cAs Novas Energias no Brasil: Dilemas da Inclus\u00e3o Social e Programas de Governo\u201d (Fase). Ex-petista, ele participou dos debates da \u00e1rea energ\u00e9tica e ambiental para a elabora\u00e7\u00e3o do programa de Lula na campanha de 2002 e foi assessor de Dilma Rousseff entre 2003 e 2004, no Minist\u00e9rio de Minas e Energia. C\u00e9lio Bermann foi tamb\u00e9m um dos 40 cientistas a se debru\u00e7ar sobre Belo Monte para construir um painel que, infelizmente, foi ignorado pelo governo federal.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Vale a pena ouvir o professor a qualquer tempo. Mas, especialmente, depois de uma semana dram\u00e1tica como a passada. Na quarta-feira (26\/10), o julgamento da a\u00e7\u00e3o movida pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal reivindicando que os \u00edndios sejam ouvidos sobre a obra, como determina a Constitui\u00e7\u00e3o, foi interrompida e adiada mais uma vez no Tribunal Regional Federal da 1\u00aa Regi\u00e3o, em Bras\u00edlia. Na mesma quarta-feira, chamado pela Comiss\u00e3o Interamericana de Direitos Humanos da Organiza\u00e7\u00e3o dos Estados Americanos (OEA) para explicar por que n\u00e3o suspendeu as obras de Belo Monte, o Brasil n\u00e3o compareceu, desrespeitando o organismo internacional e exibindo um comportamento mais usual em ditaduras. Em reportagem publicada em 20\/10, o Estad\u00e3o denunciou que, como retalia\u00e7\u00e3o por ter sido advertido sobre Belo Monte, o Brasil deixou de pagar sua cota anual como estado-membro.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Na quinta-feira (27\/10), centenas de pessoas, entre ind\u00edgenas, ribeirinhos e moradores das cidades atingidas, ocuparam pacificamente o canteiro de obras de Belo Monte, no rio Xingu, pedindo a paralisa\u00e7\u00e3o da constru\u00e7\u00e3o da usina. Foram expulsos por ordem judicial. Enquanto o canteiro de obras era ocupado por uma popula\u00e7\u00e3o invis\u00edvel para o governo de Dilma Rousseff, o cineasta Daniel Tendler apresentava no Semin\u00e1rio Nacional de Grandes Barragens, no Rio de Janeiro, o projeto de uma megaprodu\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica que se prop\u00f5e a documentar as obras de Belo Monte por cinco anos. O projeto \u00e9 comandado pela LC Barreto, a produtora da poderosa fam\u00edlia Barreto, a mesma que fez \u201cLula, O Filho do Brasil\u201d. Tendler, ali\u00e1s, foi um dos roteiristas do filme sobre a vida do ex-presidente. Entre as repercuss\u00f5es da megaprodu\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica sobre a megaobra do PAC no Twitter, destacou-se uma: \u201cOs Barreto est\u00e3o para o cinema nacional como os Sarney para a pol\u00edtica\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Ainda na semana passada, o governo federal publicou um pacote de sete portarias ministeriais com o objetivo de \u201cdestravar a concess\u00e3o de licen\u00e7as ambientais no pa\u00eds para acelerar grandes empreendimentos, como rodovias, portos, explora\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo e g\u00e1s, hidrel\u00e9tricas e at\u00e9 linhas de transmiss\u00e3o de energia\u201d. Ou seja: o governo caminha para anular as conquistas socioambientais obtidas na redemocratiza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Dias antes, em 26\/10, o Senado havia aprovado um projeto de lei que retira o poder do Ibama para multar crimes ambientais, como desmatamentos. Se n\u00e3o for vetado pela presidente, o poder de multar passar\u00e1 para estados e munic\u00edpios, sujeito \u00e0s press\u00f5es locais j\u00e1 bem conhecidas. A aprova\u00e7\u00e3o do projeto aconteceu quatro dias depois de mais um assassinato no Par\u00e1: Jo\u00e3o Chupel Primo, mais conhecido como Jo\u00e3o da Gaita, foi morto com um tiro na cabe\u00e7a, depois de denunciar ao Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal, em Altamira, uma rota de desmatamento ilegal na reserva extrativista Riozinho do Anfr\u00edsio e na Floresta Nacional Trair\u00e3o, \u00e1rea do entorno de Belo Monte. Como de h\u00e1bito, o Congresso decide os rumos do pa\u00eds desconectado com o que acontece na vida real para al\u00e9m do aqu\u00e1rio brasiliense.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">No momento hist\u00f3rico em que recursos como \u00e1gua e biodiversidade se consolidam como o grande capital de uma na\u00e7\u00e3o, o Brasil, um dos pa\u00edses mais beneficiados pela natureza no planeta, corre em marcha \u00e0 r\u00e9. O cen\u00e1rio que voc\u00ea acabou de ler tem no centro \u2013 como obra simb\u00f3lica e estrat\u00e9gica \u2013 Belo Monte, a maior obra do PAC. A seguir, parte de minha conversa de quase tr\u00eas horas com o professor C\u00e9lio Bermann, em sua sala no Instituto de Eletrot\u00e9cnica e Energia da USP.<\/span><\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #008000;\">Por que o senhor, assim como outras pessoas que estudam o setor, afirma que a \u00e1rea energ\u00e9tica do pa\u00eds \u00e9 uma \u201ccaixa preta\u201d. Afinal, que caixa preta \u00e9 essa?<\/span><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\"><strong>C\u00e9lio Bermann \u2013<\/strong> A pol\u00edtica energ\u00e9tica do nosso pa\u00eds \u00e9 uma caixa preta e \u00e9 mantida dessa forma por uma s\u00e9rie de raz\u00f5es. Primeiro, porque a baixa escolaridade da popula\u00e7\u00e3o brasileira n\u00e3o permite, por exemplo, que o leitor da \u00c9poca entenda o que \u00e9 terawatts-hora. Mas seria interessante que a popula\u00e7\u00e3o toda tivesse conhecimento e pudesse, com informa\u00e7\u00e3o, come\u00e7ar a definir junto com empresas e governo os rumos que s\u00e3o mais adequados. Acho que a academia tem um papel fundamental nesse processo. Eu, particularmente, tento, na \u00e1rea do meu conhecimento, procurar as popula\u00e7\u00f5es tradicionais, mostrar o que \u00e9 uma usina hidrel\u00e9trica, por que alaga quando voc\u00ea interrompe o fluxo, o que \u00e9 uma barragem, e como isso vai acabar transformando a vida da comunidade. Acho importante que a academia preste esse tipo de informa\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que governo e empresas n\u00e3o o fazem.<\/span><\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #008000;\">Sim, mas por que o setor energ\u00e9tico tem sido uma caixa preta por d\u00e9cadas?<\/span><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\"><strong>Bermann \u2013<\/strong> A governabilidade foi encontrada atrav\u00e9s de uma alian\u00e7a que mant\u00e9m o c\u00edrculo de interesses que sempre estiveram no nosso pa\u00eds. \u00c9 a mesma turma que continua na \u00e1rea energ\u00e9tica. E isso \u00e9 impressionante. A popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o participa do processo de decis\u00f5es. N\u00e3o existem canais para isso. Ainda no governo FHC, durante a privatiza\u00e7\u00e3o, o governo criou um Conselho Nacional de Pol\u00edtica Energ\u00e9tica. Nos dois mandatos de FHC participavam os dez ministros, mas havia um assento para um representante da academia e um da chamada sociedade civil. Eles sentavam, discutiam as diretrizes energ\u00e9ticas de uma forma aparentemente saud\u00e1vel, mas, no frigir dos ovos, na pr\u00e1tica n\u00e3o mudava nada. De qualquer forma, havia pelo menos esse sentido de escutar. Isso, com Lula, acabou. O resultado do governo &#8220;democr\u00e1tico popular&#8221; do Lula, nos dois mandatos, e da Dilma, agora, \u00e9 a nega\u00e7\u00e3o de escutar outros interesses que n\u00e3o sejam aqueles que sempre estiveram junto ao poder. A pr\u00f3pria Dilma, no in\u00edcio do governo Lula, tinha uma dificuldade muito grande de ouvir, de sentar-se com os movimentos sociais e ouvir. Eu tive a oportunidade de vivenciar o primeiro mandato do Lula, l\u00e1, em Bras\u00edlia.<\/span><\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #008000;\">E qual era o seu papel?<\/span><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\"><strong>Bermann \u2013<\/strong> Era apagar fogo, este era o meu papel &#8230;<\/span><\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #008000;\">Mas, oficialmente &#8230;<\/span><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\"><strong>Bermann \u2013<\/strong> O meu papel era tentar amenizar um pouco os conflitos, mas, oficialmente, eu fui trabalhar com a Dilma como assessor ambiental no Minist\u00e9rio de Minas e Energia. A ideia inicial era criar uma Secretaria de Meio Ambiente dentro do minist\u00e9rio. Era a \u00e9poca em que t\u00ednhamos a Marina (Silva) falando em transversalidade, ent\u00e3o havia um ambiente extremamente prop\u00edcio para aparar arestas e ver se a coisa poderia caminhar de uma forma mais adequada. Achei, ent\u00e3o, que a melhor forma de fazer isso n\u00e3o era criar um lugar dos ambientalistas no minist\u00e9rio, mas colocar em todas as secretarias do minist\u00e9rio gente que pensasse o meio ambiente. Mas acabei ficando um ano l\u00e1 em Bras\u00edlia. Mesmo assim, foi extremamente interessante, porque me permitiu sair da academia e ter, na pr\u00e1tica, a percep\u00e7\u00e3o de como as coisas se d\u00e3o no dia a dia dentro do governo.<\/span><\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #008000;\">E como as coisas se d\u00e3o no dia a dia dentro do governo?<\/span><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\"><strong>Bermann \u2013<\/strong> \u00c9 um horror. \u00c9 uma lentid\u00e3o. \u00c9 um imobilismo. \u00c9 incr\u00edvel a capacidade da m\u00e1quina de governo de fazer de conta que faz sem estar fazendo absolutamente nada. Eu falo isso com todos os pontos nos \u201cis\u201d. No in\u00edcio do governo se buscava um entendimento entre os chamados &#8220;minist\u00e9rios fins&#8221; e o meio ambiente. Transportes, por causa da constru\u00e7\u00e3o de estradas e portos, e Minas e Energia, por causa da atividade mineral, metal\u00fargica e energ\u00e9tica, e as quest\u00f5es ambientais que s\u00e3o intr\u00ednsecas a essas atividades. Houve uma boa inten\u00e7\u00e3o de levar adiante a possibilidade do estabelecimento de pontos comuns. Fizemos, ent\u00e3o, um acordo entre Minist\u00e9rio de Minas e Energia e Minist\u00e9rio do Meio Ambiente em fun\u00e7\u00e3o da defini\u00e7\u00e3o de &#8220;pontos comuns&#8221;, de procurar verificar onde poder\u00edamos estabelecer alguns consensos. Era um documento em que se definia uma agenda energ\u00e9tica e ambiental comuns aos dois minist\u00e9rios. Se bem me lembro, o documento foi conclu\u00eddo em setembro de 2003. Mas as duas ministras s\u00f3 foram assinar em 31 de mar\u00e7o de 2004.<\/span><\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #008000;\">Por qu\u00ea?<\/span><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\"><strong>Bermann \u2013<\/strong> Boa pergunta. Por qu\u00ea? Boas inten\u00e7\u00f5es &#8230; mas por qu\u00ea? Eu realmente n\u00e3o consigo definir exatamente se era uma quest\u00e3o de veleidade &#8230; n\u00e3o sei. No final de 2003 a Marina come\u00e7ou a perceber a dificuldade de ela continuar, e o Lula, daquele jeito dele, deixando a coisa acontecer. Naquele momento, o governo poderia ter tido uma agenda comum, um processo extremamente positivo de entender que existem usinas hidrel\u00e9tricas que n\u00e3o devem ser constru\u00eddas.<\/span><\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #008000;\">Imagino que n\u00e3o era f\u00e1cil ser assessor ambiental da Dilma Rousseff &#8230;<\/span><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\"><strong>Bermann \u2013<\/strong> \u00c9, foi uma coisa meio &#8230; dif\u00edcil. Como falei, eu tinha uma rela\u00e7\u00e3o particular com os movimentos sociais e estava mais numa situa\u00e7\u00e3o de bombeiro. Vou te contar uma coisa, como refer\u00eancia. Eu encontrei a Dilma na posse do (f\u00edsico) Luiz Pinguelli Rosa, no Rio de Janeiro, como presidente da Eletrobr\u00e1s. Ela estava extremamente satisfeita, alegre, contente, porque tinha conseguido, politicamente, afastar a turma do (Jos\u00e9) Sarney da seara energ\u00e9tica. (Luiz Pinguelli Rosa deixaria o cargo em 2004, a pedido de Lula, que precisava colocar algu\u00e9m ligado ao PMDB e a Jos\u00e9 Sarney.) Para voc\u00ea ver. Na \u00e9poca, o (Jos\u00e9 Antonio) Muniz (Lopes) era diretor da Eletronorte &#8230; e depois tornou-se presidente da Eletrobr\u00e1s (de 2008 a 2011).<\/span><\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #008000;\">O Jos\u00e9 Antonio Muniz Lopes, um homem da cota do Sarney, \u00e9 um personagem longevo nessa hist\u00f3ria de Belo Monte &#8230; S\u00f3 para situar os leitores, em 1989, no \u00faltimo ano do governo Sarney, ele era diretor da Eletronorte e foi no rosto dele que a \u00edndia caiap\u00f3 Tu\u00edra encostou seu fac\u00e3o por causa da proposta de Belo Monte (ent\u00e3o chamada de Karara\u00f4), naquela foto hist\u00f3rica que correu mundo. O tal do Muniz j\u00e1 estava l\u00e1 &#8230; Depois de deixar a presid\u00eancia da Eletrobr\u00e1s, no in\u00edcio deste ano, continuou l\u00e1, agora como diretor de Transmiss\u00e3o da Eletrobr\u00e1s &#8230;<\/span><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\"><strong>Bermann \u2013<\/strong> Pois ent\u00e3o. Naquela \u00e9poca, em 2003, era ele o diretor da Eletronorte que a Dilma tinha ficado feliz por ter conseguido afastar. Por isso que eu falo que n\u00e3o \u00e9 o governo Lula, \u00e9 o governo Lula\/Sarney. E agora Dilma\/Sarney. Constituiu-se um am\u00e1lgama entre os interesses hist\u00f3ricos do superfaturamento de obras, sempre falado, nunca evidenciado. N\u00e3o se trata de construir uma usina para produzir energia el\u00e9trica. Uma vez constru\u00edda, algu\u00e9m vai precisar produzir energia el\u00e9trica, mas n\u00e3o \u00e9 para isso que Belo Monte est\u00e1 sendo constru\u00edda. O que est\u00e1 em jogo \u00e9 a utiliza\u00e7\u00e3o do dinheiro p\u00fablico e especialmente o espa\u00e7o de cinco, seis anos em que o empreendimento ser\u00e1 constru\u00eddo. \u00c9 neste momento que se fatura. \u00c9 na constru\u00e7\u00e3o o momento onde corre o dinheiro. \u00c9 quando prefeitos, vereadores, governadores s\u00e3o comprados e essa situa\u00e7\u00e3o \u00e9 mantida. Estou sendo muito claro ao expor a minha percep\u00e7\u00e3o do que \u00e9 uma usina hidrel\u00e9trica como Belo Monte.<\/span><\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #008000;\">No momento em que o senhor encontrou a Dilma, logo na constitui\u00e7\u00e3o da equipe do primeiro mandato de Lula, o senhor conta que ela estava feliz porque tinha conseguido tirar a turma do Sarney do comando da \u00e1rea energ\u00e9tica. O que aconteceu a partir da\u00ed?<\/span><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\"><strong>Bermann \u2013<\/strong> A pergunta \u00e9: tirou mesmo?<\/span><\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #008000;\">E qual \u00e9 a resposta?<\/span><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\"><strong>Bermann \u2013<\/strong> Naquele momento, manter esse pessoal \u00e0 dist\u00e2ncia era estrat\u00e9gico para reconstruir as rela\u00e7\u00f5es e viabilizar algumas das diretrizes que tinham sido objeto da proposta de governo. O que aconteceu \u00e9 que a vida dessa situa\u00e7\u00e3o (de afastamento) foi extremamente curta devido \u00e0s rela\u00e7\u00f5es de poder. Eles n\u00e3o gostaram de se sentir afastados. E eu suponho que a percep\u00e7\u00e3o do problema da governabilidade no governo Lula foi uma a\u00e7\u00e3o desses setores que tinham percebido que estavam longe da teta da vaca e que n\u00e3o podiam continuar assim. Qual era o jeito de fazer? PMDB era oposi\u00e7\u00e3o. Vamos conversar &#8230; E a\u00ed se reacomodam as quest\u00f5es. Eu n\u00e3o digo que seja um grupo de ladr\u00f5es mercen\u00e1rios. N\u00e3o \u00e9 isso que est\u00e1 em jogo. Mas essa capilaridade do Sarney permite manter o usufruto do poder. Eu n\u00e3o sou psic\u00f3logo para entender o que o senhor Sarney pensa quando v\u00ea o Muniz voltar para o governo, ou quando se encontra diante da incapacidade t\u00e9cnica do senador Edison Lob\u00e3o ao conduzir o Minist\u00e9rio de Minas e Energia no governo Lula e agora no de Dilma. N\u00e3o h\u00e1 l\u00f3gica para isso. Vou dizer de novo: n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel a gente acreditar na capacidade gerencial de um governo que se submete a esse tipo de articula\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, colocando uma pessoa absolutamente incapaz de entender o que \u00e9 quilowatt, quilowatt-hora. De ir a p\u00fablico sem saber a diferen\u00e7a entre tens\u00e3o em volts e energia em quilowatts-hora.<\/span><\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #008000;\">O senhor est\u00e1 falando do ministro de Minas e Energia, Edison Lob\u00e3o?<\/span><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\"><strong>Bermann \u2013<\/strong> Edison Lob\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #008000;\">E Belo Monte ocupa que lugar nesse jogo?<\/span><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\"><strong>Bermann \u2013<\/strong> \u00c9 a oportunidade de se fazer dinheiro e de se reconstituir as rela\u00e7\u00f5es de poder. Essa obra tinha sido sepultada em 1989, por conta da mobiliza\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena, e voltou \u00e0 tona no governo Lula, aprovada pelo Congresso (em 2005) com o discurso de que era um novo projeto.<\/span><\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #008000;\">A amea\u00e7a de retomar Belo Monte esteve presente tamb\u00e9m durante o governo Fernando Henrique Cardoso, mas s\u00f3 no governo Lula saiu mesmo do papel, o que ningu\u00e9m imaginava que acontecesse, devido ao apoio massivo dos movimentos sociais da regi\u00e3o \u00e0 campanha de Lula. O senhor acha que o fato de Belo Monte ter sa\u00eddo do papel tem a ver com a den\u00fancia do Mensal\u00e3o, em 2005, e a recomposi\u00e7\u00e3o das for\u00e7as pol\u00edticas para a elei\u00e7\u00e3o de 2006?<\/span><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\"><strong>Bermann \u2013<\/strong> N\u00e3o tenho a m\u00ednima ideia. Mas vamos falar em cifras, agora. Em 2006 o projeto foi anunciado com um custo de R$ 4,5 bilh\u00f5es. Voc\u00ea sabe, as cifras avan\u00e7aram violentamente. Antes de ir para o leil\u00e3o, a usina foi avaliada em R$ 19 bilh\u00f5es. Foi feito o leil\u00e3o e se definiu um custo fict\u00edcio de gera\u00e7\u00e3o de energia el\u00e9trica de R$ 78 o megawatt-hora.<\/span><\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #008000;\">Por que fict\u00edcio?<\/span><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\"><strong><\/strong><strong>Bermann \u2013<\/strong> Fict\u00edcio porque esse custo n\u00e3o remunera o capital investido. \u00c9 por isso que v\u00e1rias empresas ca\u00edram fora do empreendimento, sob o ponto de vista da gera\u00e7\u00e3o da energia el\u00e9trica. Mas as grandes empreiteiras est\u00e3o presentes, porque n\u00e3o \u00e9 na venda da energia el\u00e9trica, mas sim na obra que se d\u00e1 uma parte significativa da apropria\u00e7\u00e3o da renda. Com o cons\u00f3rcio constitu\u00eddo com 50% entre Eletrobr\u00e1s e Eletronorte, as empreiteiras voltaram para fazer a obra. A elas interessa a obra \u2013 e n\u00e3o ficar vendendo energia el\u00e9trica. Essa situa\u00e7\u00e3o \u00e9 entendida pelos dirigentes, pelo governo, como normal. Para o governo federal, \u00e9 uma parceria p\u00fablico-privada que est\u00e1 dando certo. Em que termos? A obra hoje est\u00e1 oficialmente or\u00e7ada em R$ 26 bilh\u00f5es. Imagine, de R$ 4,5 bilh\u00f5es para R$ 26 bilh\u00f5es &#8230;<\/span><\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #008000;\">Em cinco anos, o valor da obra avan\u00e7ou em mais de R$ 20 bilh\u00f5es?<\/span><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\"><strong>Bermann \u2013<\/strong> Oficialmente est\u00e1 hoje or\u00e7ada em R$ 26 bilh\u00f5es. Mas existem estimativas de que n\u00e3o vai sair por menos de R$ 32 bilh\u00f5es. Isso sem falar em superfaturamento.<\/span><\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #008000;\">Deste valor, quanto sair\u00e1 do BNDES, ou seja, do nosso bolso?<\/span><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\"><strong>Bermann \u2013<\/strong> Oitenta por cento da grana para isso \u00e9 dinheiro p\u00fablico. O que estamos testemunhando \u00e9 um esquema de engenharia financeira para satisfazer um jogo de interesses que envolve empreiteiras que v\u00e3o ganhar muito dinheiro no curto prazo. Um esquema de rela\u00e7\u00f5es de poder que se estabelece nos n\u00edveis local, estadual e nacional \u2013 e isso numa obra cujos 11.200 megawatts de pot\u00eancia instalada s\u00f3 v\u00e3o funcionar quatro meses por ano por causa do funcionamento hidrol\u00f3gico do Xingu. Ent\u00e3o, \u00e9 preciso entender que a discuss\u00e3o sobre a volta da infla\u00e7\u00e3o n\u00e3o se d\u00e1 porque est\u00e1 aumentando o pre\u00e7o da cebola, do tomate, do leite &#8230; \u00c9 por causa da vol\u00fapia de tomar recursos p\u00fablicos que ser\u00e1 necess\u00e1rio fabricar dinheiro. O ritmo inflacion\u00e1rio vai se dar na medida em que obras como Belo Monte forem avan\u00e7ando e requerendo que se pague equipamento, que se pague oper\u00e1rios, que se pague uma s\u00e9rie de coisas e tamb\u00e9m que se remunere com superfaturamento.<\/span><\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #008000;\">Quem perde a gente j\u00e1 sabe. Agora, quem ganha, al\u00e9m das empreiteiras envolvidas na obra?<\/span><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\"><strong><\/strong><strong>Bermann \u2013<\/strong> H\u00e1 as pessoas que ganham pela obra &#8211; fabricantes de equipamentos, empreiteiras. E h\u00e1 quem ganhe n\u00e3o financeiramente, mas politicamente, por permitir que essa articula\u00e7\u00e3o seja poss\u00edvel, porque \u00e9 esse pessoal que vai bancar a campanha para o pr\u00f3ximo mandato. \u00c9 a escolinha ou o posto de sa\u00fade que eventualmente aquele vereador, aquele prefeito vai dizer: &#8220;\u00c9 obra minha!&#8221;. \u00c9 isso que est\u00e1 em jogo. \u00c9 dessa forma que a cultura pol\u00edtica se estabelece hoje no nosso pa\u00eds. Isso precisa mudar. Como? \u00c9 complicado.<\/span><\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #008000;\">O senhor costuma usar a express\u00e3o \u201cS\u00edndrome do Blecaute\u201d para se referir ao p\u00e2nico da popula\u00e7\u00e3o de ficar \u00e0 luz de velas devido a um apag\u00e3o energ\u00e9tico. Acredita que essa \u201cs\u00edndrome\u201d \u00e9 manipulada pelo governo federal e pelos grandes interesses empresariais para emprestar um car\u00e1ter de legitimidade a megaobras como Belo Monte?<\/span><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\"><strong>Bermann \u2013<\/strong> O que eu tenho chamado de &#8220;S\u00edndrome do Blecaute&#8221; conduz \u00e0 legitima\u00e7\u00e3o de empreendimentos absolutamente inconsistentes. Belo Monte, como foi provado pelo conjunto de cientistas que se debru\u00e7aram sobre o tema (painel dos especialistas), \u00e9 uma obra absolutamente indesej\u00e1vel sob o ponto de vista econ\u00f4mico, financeiro e t\u00e9cnico. Isso sem falar nos aspectos social e ambiental. Mas se dissemina uma ideia do caos e, hoje, h\u00e1 77 projetos de usinas hidrel\u00e9tricas somente na Amaz\u00f4nia que utilizam a &#8220;S\u00edndrome do Blecaute&#8221; para se viabilizarem. O fato de hoje o aquecimento global dominar a m\u00eddia e o senso comum, assim como a pr\u00f3pria academia, ajuda a mostrar a hidroeletricidade como uma grande maravilha, independentemente do lugar em que a usina vai ser constru\u00edda e dos impactos que ela vai causar. Mas o que \u00e9 preciso compreender e questionar? Hoje, seis setores industriais consomem 30% da energia el\u00e9trica produzida no pa\u00eds. Dois deles s\u00e3o mais vinculados ao mercado dom\u00e9stico, que \u00e9 o cimento e a ind\u00fastria qu\u00edmica. Mas os outros quatro t\u00eam uma parte consider\u00e1vel da produ\u00e7\u00e3o para exporta\u00e7\u00e3o: a\u00e7o, alum\u00ednio prim\u00e1rio, ferroligas e celulose.<\/span><\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #008000;\">As chamadas ind\u00fastrias eletrointensivas &#8230;<\/span><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\"><strong>Bermann \u2013<\/strong> Isso. Eu n\u00e3o estou defendendo que devemos fechar as ind\u00fastrias eletrointensivas, que demandam uma enorme quantidade de energia el\u00e9trica a um custo ambiental alt\u00edssimo. Mas acho absolutamente indesej\u00e1vel que a produ\u00e7\u00e3o de alum\u00ednio dobre nos pr\u00f3ximos 10 anos, que a produ\u00e7\u00e3o de a\u00e7o triplique nos pr\u00f3ximos 10 anos, que a produ\u00e7\u00e3o de celulose seja multiplicada por tr\u00eas nos pr\u00f3ximos 10 anos. E \u00e9 isso que est\u00e1 sendo previsto oficialmente.<\/span><\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #008000;\">O que poucos parecem perceber e menos ainda questionam, quando essas metas s\u00e3o comemoradas, \u00e9 a forma como o Brasil est\u00e1 inserido no mercado internacional em pleno s\u00e9culo XXI. O quanto o fato de nossa economia estar baseada na exporta\u00e7\u00e3o de bens prim\u00e1rios tem a ver com a necessidade de grandes hidrel\u00e9tricas?<\/span><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\"><strong>Bermann \u2013<\/strong> Desde a ditadura militar, passando pela redemocratiza\u00e7\u00e3o, pelos sucessivos governos at\u00e9 FHC, tem sido assim. N\u00f3s imagin\u00e1vamos que, com Lula, essa quest\u00e3o ia ser reorientada. Porque o programa de governo em que eu me envolvi preconizava a necessidade dessa mudan\u00e7a. E o que aconteceu? Se voc\u00ea comparar os dados de 2001 com os dados de 2010, vai constatar que a economia brasileira est\u00e1 se primarizando cada vez mais. Isto \u00e9: cada vez mais s\u00e3o produzidos no Brasil bens industriais prim\u00e1rios, sem agrega\u00e7\u00e3o de valor. E s\u00e3o justamente os bens prim\u00e1rios que consomem muita energia e geram pouco emprego. Al\u00e9m disso, satisfazem uma demanda marcada pelo consumismo. E o Brasil se mostrou incapaz de dizer: &#8220;N\u00e3o, n\u00f3s n\u00e3o vamos fazer isso&#8221;.<\/span><\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #008000;\">E depois esses produtos retornam para o Brasil, via importa\u00e7\u00e3o, com valor agregado &#8230;<\/span><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\"><strong>Bermann \u2013<\/strong> \u00c9. Eu sempre chamo a aten\u00e7\u00e3o para o fato de que, do alum\u00ednio prim\u00e1rio que o Brasil produz, 70% \u00e9 exportado. E o alum\u00ednio consome muita energia. Para se pegar um barro vermelho, que \u00e9 a bauxita, e transform\u00e1-la em alum\u00ednio, \u00e9 preciso um processo de produ\u00e7\u00e3o extremamente devastador sob o ponto de vista ambiental. H\u00e1 um primeiro refino para obter a alumina, que \u00e9 um p\u00f3 branco. Esse p\u00f3 branco tem como consequ\u00eancia ambiental uma borra chamada de \u201clama vermelha\u201d. Um ano atr\u00e1s, na Europa, na Hungria, houve uma cat\u00e1strofe em fun\u00e7\u00e3o do rompimento de uma barragem que continha essa lama vermelha e t\u00f3xica. Ela se espalhou pelo Rio Dan\u00fabio e foi um horror. E cada vez mais se faz isso no nosso pa\u00eds \u2013 e, claro, n\u00e3o se faz mais isso nos pa\u00edses centrais. Isso n\u00e3o est\u00e1 acontecendo agora no Brasil, est\u00e1 acontecendo desde os anos 70.<\/span><\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #008000;\">Houve acentua\u00e7\u00e3o desse processo no governo Lula e agora no de Dilma Rousseff?<\/span><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\"><strong>Bermann \u2013<\/strong> O que acontece a partir de Lula \u00e9 o que eu tenho chamado de &#8220;reprimariza\u00e7\u00e3o da economia&#8221;. N\u00f3s j\u00e1 tivemos uma \u00e9poca em que a economia dependia basicamente da produ\u00e7\u00e3o de bens prim\u00e1rios: caf\u00e9, a\u00e7\u00facar e tamb\u00e9m alguns bens industriais prim\u00e1rios. Depois, tivemos Get\u00falio Vargas, Juscelino (Kubitschek), e nos anos 50 houve a substitui\u00e7\u00e3o das importa\u00e7\u00f5es com a vinda da ind\u00fastria pesada. Aquele per\u00edodo marca um processo acelerado de industrializa\u00e7\u00e3o da economia brasileira em que se buscava um desenvolvimento tecnol\u00f3gico para acompanhar o ritmo internacional. Agora, vivemos a reprimariza\u00e7\u00e3o da economia. E n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o do governo, simplesmente. O governo poderia tornar essa quest\u00e3o p\u00fablica, dar condi\u00e7\u00f5es para que a popula\u00e7\u00e3o compreendesse e debatesse o que est\u00e1 em jogo, e isso pudesse servir como base de apoio para uma tomada de decis\u00e3o do tipo: &#8220;Olha, Alcoa (corpora\u00e7\u00e3o de origem americana com grande presen\u00e7a no Brasil, \u00e9 a principal produtora mundial de alum\u00ednio prim\u00e1rio e alum\u00ednio industrializado, assim como a maior mineradora de bauxita e refinadora de alumina), voc\u00eas n\u00e3o v\u00e3o continuar aumentando a produ\u00e7\u00e3o aqui no Brasil. Procurem um outro lugar. A produ\u00e7\u00e3o de energia el\u00e9trica gera um problema ambiental enorme, um problema social enorme, e n\u00f3s vamos priorizar a demanda da popula\u00e7\u00e3o\u201d. Mas, infelizmente, isso n\u00e3o \u00e9 feito.<\/span><\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #008000;\">Mas essa obstina\u00e7\u00e3o do governo Lula, e agora do governo Dilma, em fazer Belo Monte, mesmo j\u00e1 tendo um preju\u00edzo de imagem aqui e l\u00e1 fora, mesmo tendo mais de uma dezena de a\u00e7\u00f5es judiciais contra a obra movidas pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal, fora as outras &#8230; Essa obstina\u00e7\u00e3o se d\u00e1 apenas por causa do esquema de governabilidade, do esquema pol\u00edtico para as elei\u00e7\u00f5es a curto e m\u00e9dio prazo, ou \u00e9 por mais alguma coisa?<\/span><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\"><strong>Bermann \u2013<\/strong> Isso j\u00e1 n\u00e3o te parece plaus\u00edvel? Ou voc\u00ea acha que tem alguma coisa meio doentia, que precisa ser explicada? (risos)<\/span><\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #008000;\">Doentia, n\u00e3o sei. Mas eu gostaria de compreender melhor por que o senhor e a maioria dos especialistas que estudaram o projeto afirmam que esta obra \u00e9 ruim tamb\u00e9m do ponto de vista t\u00e9cnico.<\/span><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\"><strong>Bermann \u2013<\/strong> Divulgaram que esta ser\u00e1 a \u00fanica usina do Xingu. Inclusive, houve um semin\u00e1rio recente aqui na USP em que tive a oportunidade de discutir com o Mauricio Tolmasquim (presidente da Empresa de Pesquisa Energ\u00e9tica, ligada ao Minist\u00e9rio de Minas e Energia). E ele veio com essa ladainha: \u201cVai ser a \u00fanica &#8230;\u201d. E eu disse a ele: \u201cCom o perd\u00e3o do poeta, o que voc\u00ea est\u00e1 afirmando, somente de papel passado, com firma em cart\u00f3rio e assinado: Deus\u201d.<\/span><\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #008000;\">O senhor n\u00e3o acredita que ser\u00e1 a \u00fanica usina do Xingu, ent\u00e3o?<\/span><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\"><strong>Bermann \u2013<\/strong> Me diga alguma coisa no nosso pa\u00eds que vigorou como cl\u00e1usula p\u00e9trea. Me fale alguma coisa aqui no nosso pa\u00eds que foi dito de uma forma e se manteve ao longo do tempo. VAI ser necess\u00e1rio construir outras usinas. No atual projeto, esta \u00e9 uma usina que vai funcionar \u00e0 plena carga, no m\u00e1ximo, quatro meses por ano, por causa do regime hidrol\u00f3gico. Se ela estiver sozinha, o volume de \u00e1gua para rodar as turbinas depender\u00e1 da quantidade de chuva. E aquela regi\u00e3o tem a seguinte caracter\u00edstica: quando chove, quando tem \u00e1gua, quando desce a \u00e1gua dos tribut\u00e1rios para o Xingu \u00e9 muita \u00e1gua, \u00e9 um volume enorme de \u00e1gua. Mas isso s\u00f3 acontece durante quatro meses por ano. S\u00f3 nesse per\u00edodo os 11.200 megawatts v\u00e3o estar operando. Em outubro, na \u00e9poca da estiagem, ser\u00e1 apenas 1.100 megawatts, um d\u00e9cimo. Ent\u00e3o, a pergunta \u00e9: por que construir uma usina desse porte, se, na m\u00e9dia anual, ela vai operar com 4.300 megawatts? Necessariamente v\u00e3o vir as outras quatro. Eu estou afirmando isso, infelizmente. Tecnicamente, eu tenho absoluta certeza. Porque as usinas rio acima v\u00e3o segurar a \u00e1gua e a\u00ed Belo Monte n\u00e3o vai depender da quantidade de chuva. \u00c9 o \u00fanico jeito dessa pot\u00eancia instalada de 11.200 megawatts existir de fato.<\/span><\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #008000;\">O senhor est\u00e1 dizendo que o governo federal est\u00e1 mentindo ao afirmar que ser\u00e1 apenas uma usina, para conseguir vencer as resist\u00eancias ao projeto e aprov\u00e1-la, e depois far\u00e1 mais tr\u00eas ou quatro?<\/span><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\"><strong>Bermann \u2013<\/strong> Estou dizendo que, da forma como esta usina est\u00e1 colocada, \u00e9 uma aberra\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica t\u00e3o grande que \u00e9 totalmente il\u00f3gico constru\u00ed-la.<\/span><\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #008000;\">E essa afirma\u00e7\u00e3o, discutida hoje na Justi\u00e7a, de que os povos ind\u00edgenas n\u00e3o ser\u00e3o atingidos?<\/span><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\"><strong>Bermann \u2013<\/strong> A no\u00e7\u00e3o que as empresas e o governo federal t\u00eam \u00e9 a no\u00e7\u00e3o de popula\u00e7\u00e3o afogada \u2013 e n\u00e3o atingida.<\/span><\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #008000;\">Agora, digamos que n\u00f3s concord\u00e1ssemos que a obstina\u00e7\u00e3o de construir Belo Monte, ainda que atropelando a popula\u00e7\u00e3o e talvez a Constitui\u00e7\u00e3o, se devesse \u00e0 necessidade de energia el\u00e9trica. E digamos que Belo Monte fosse de fato um projeto de engenharia vi\u00e1vel e inteligente. As usinas hidrel\u00e9tricas s\u00e3o as melhores op\u00e7\u00f5es para a gera\u00e7\u00e3o de energia no Brasil de hoje? Quais s\u00e3o as alternativas a elas?<\/span><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\"><strong>Bermann \u2013<\/strong> N\u00e3o podemos olhar a quest\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o de energia sem questionar ou considerar o outro lado, que \u00e9 o consumo de energia. Parece meio prosaico, porque envolve h\u00e1bitos culturais da popula\u00e7\u00e3o. E a popula\u00e7\u00e3o sempre entendeu que energia el\u00e9trica se resume a voc\u00ea apertar o bot\u00e3o e ter eletricidade dispon\u00edvel. E por isso fica em p\u00e2nico com a \u201cS\u00edndrome do Blecaute\u201d. Mas \u00e9 preciso pensar al\u00e9m disso. N\u00e3o estou dizendo para fechar as f\u00e1bricas de alum\u00ednio, de a\u00e7o e de celulose no Brasil. O que estou dizendo \u00e9 o seguinte: parem de ampliar a produ\u00e7\u00e3o. Parem, porque diversos pa\u00edses desenvolvidos j\u00e1 fizeram isso. O Jap\u00e3o fez mais do que isso. O Jap\u00e3o produzia, em 1980, 1,6 milh\u00f5es de toneladas de alum\u00ednio. N\u00f3s estamos produzindo quase 1,7 milh\u00f5es de toneladas hoje. S\u00f3 que a energia el\u00e9trica necess\u00e1ria para produzir alum\u00ednio tornou-se da ordem do absurdo. Ent\u00e3o o governo japon\u00eas, as empresas japonesas produtoras de alum\u00ednio e os trabalhadores da ind\u00fastria do alum\u00ednio realizaram um debate que culminou com o fechamento de todas as usinas de produ\u00e7\u00e3o de alum\u00ednio prim\u00e1rio no Jap\u00e3o, exceto uma. Isso ainda nos anos 80. Hoje, o Jap\u00e3o produz apenas 30 mil toneladas. De 1,6 milh\u00f5es para 30 mil toneladas. Diante da necessidade de gerar muita energia para produzir alum\u00ednio, o que o Jap\u00e3o fez? O governo e a sociedade japonesa disseram: \u201cVamos priorizar a efici\u00eancia, o maior valor agregado. N\u00f3s n\u00e3o precisamos produzir aqui. Tem o Brasil, tem a Venezuela, tem a Jamaica, tem os lugares para onde a gente pode transferir as plantas industriais e continuar a assegurar o suprimento para a nossa necessidade industrial. A gente pega esse alum\u00ednio, agrega valor e exporta na forma de chip. Parece uma coisa t\u00e3o besta, n\u00e9? Mas foi isso o que os japoneses fizeram. Eles mantiveram o crescimento econ\u00f4mico e reduziram a demanda por energia. N\u00f3s estamos caminhando no sentido inverso. Estamos aumentando o consumo de energia a t\u00edtulo de crescimento e desenvolvimento, e, numa atitude absolutamente il\u00f3gica, porque a gente exporta hoje a tonelada de alum\u00ednio a US$ 1.450, US$ 1.500 d\u00f3lares. E, para se ter uma ideia, hoje falta esquadrias de alum\u00ednio no mercado interno, no mercado de constru\u00e7\u00e3o brasileiro. O pre\u00e7o foi aumentado por indisponibilidade. Hoje, e fizemos um estudo recente sobre isso, \u00e9 preciso importar esquadrias de alum\u00ednio porque a oferta no mercado interno \u00e9 insuficiente. E, enquanto o Brasil exporta o alum\u00ednio por US$ 1.450, US$ 1.500, o pre\u00e7o da tonelada de esquadria importada \u00e9 o dobro: cerca de US$ 3 mil a tonelada.<\/span><\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #008000;\">Para o senhor, a quest\u00e3o de fundo \u00e9 outra &#8230;<\/span><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\"><strong><\/strong><strong>Bermann \u2013<\/strong> N\u00f3s temos pouca capacidade de produzir alum\u00ednio com valor agregado. Ent\u00e3o, n\u00e3o estou dizendo para fechar essas f\u00e1bricas, botar os trabalhadores na rua, mas dizendo para parar de produzir alum\u00ednio prim\u00e1rio, que exige uma enorme quantidade de energia, e investir no processo de melhoria da mat\u00e9ria-prima para satisfazer inclusive a demanda interna hoje insatisfeita. Agora, vai perguntar isso para a ABAL (Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Alum\u00ednio). Veja se eles est\u00e3o pensando dessa forma. Billiton, Alcoa, mesmo o sempre venerado Ant\u00f4nio Erm\u00edrio de Moraes, com a Companhia Brasileira de Alum\u00ednio. A perspectiva desse pessoal \u00e9 a cega subordina\u00e7\u00e3o ao que define hoje o mercado internacional, o mercado financeiro. E \u00e9 assim que o nosso pa\u00eds fica desesperado com a ideia de que vai faltar energia.<\/span><\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #008000;\">Al\u00e9m de ser um modelo de desenvolvimento que prioriza a exporta\u00e7\u00e3o de bens prim\u00e1rios, sem valor agregado, \u00e9 tamb\u00e9m um modelo de desenvolvimento que ignora o esgotamento de recursos. Enquanto tem, explora e lucra. Alguns poucos ganham. O custo socioambiental, agora e no futuro, ser\u00e1 dividido por todos &#8230;<\/span><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\"><strong>Bermann \u2013<\/strong> Isso. Os recursos naturais s\u00e3o limitados. Por isso, no meu ponto de vista, a discuss\u00e3o do aquecimento global obscurece o entendimento da hidroeletricidade em particular. Ficamos \u00e0s cegas. Para transformar o barro da bauxita naquele p\u00f3 branco do alum\u00ednio, que depois \u00e9 fundido atrav\u00e9s de uma corrente el\u00e9trica, \u00e9 uma quantidade de energia enorme, absurda. Essa possibilidade voc\u00ea n\u00e3o vai conseguir com energia solar, com energia e\u00f3lica. S\u00e3o processos produtivos que exigem a manuten\u00e7\u00e3o do suprimento de energia el\u00e9trica 24 por 24 horas. A solar n\u00e3o consegue fazer isso na escala necess\u00e1ria. Uma tonelada de alum\u00ednio consome 15 a 16 mil kilowatts-hora. Para se ter uma ideia, na m\u00e9dia, o consumidor brasileiro consome, por domic\u00edlio, 180 kilowatts-hora por m\u00eas, o que \u00e9 baixo. N\u00f3s ainda estamos vivendo uma situa\u00e7\u00e3o muito pr\u00f3xima da miserabilidade em termos energ\u00e9ticos para a popula\u00e7\u00e3o. N\u00f3s temos uma demanda a ser satisfeita com equipamentos eletrodom\u00e9sticos. Satisfeita n\u00e3o construindo grandes usinas hidrel\u00e9tricas para as empresas eletrointensivas, mas para conseguirmos equilibrar a qualidade de vida, que se deve fundamentalmente a uma heran\u00e7a hist\u00f3rica: a de sermos um dos pa\u00edses com a pior distribui\u00e7\u00e3o de renda do mundo.<\/span><\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #008000;\">Uma das piores distribui\u00e7\u00f5es de renda e uma das piores distribui\u00e7\u00f5es de eletricidade do mundo &#8230;<\/span><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\"><strong>Bermann \u2013<\/strong> Eu chamo o programa de universaliza\u00e7\u00e3o de &#8220;Luz para quase todos&#8221;. N\u00e3o \u00e9 para todos, \u00e9 para quase todos. Desde que estejam pr\u00f3ximos da rede para extens\u00e3o, tudo bem. Mas, para o sujeito distante, s\u00f3 agora \u00e9 que se come\u00e7a a pensar em sistemas de produ\u00e7\u00e3o descentralizada. A percep\u00e7\u00e3o ainda \u00e9, infelizmente, de pegar e estender a rede. Mas o custo de extens\u00e3o da rede \u00e9 muito alto. Principalmente, se voc\u00ea pegar e atravessar 15 quil\u00f4metros para atender duas, tr\u00eas casas. O l\u00f3gico seria a ado\u00e7\u00e3o de energia descentralizada em escala menor, que seja mais bem controlada pela popula\u00e7\u00e3o. Mas isso n\u00e3o passa pela cabe\u00e7a porque define inclusive uma outra rela\u00e7\u00e3o social. Eu tamb\u00e9m chamo esse programa de \u201cConta de luz para todos\u201d, porque de repente voc\u00ea fica ref\u00e9m de uma companhia e necessariamente paga conta de luz, quando voc\u00ea poderia criar uma situa\u00e7\u00e3o de autonomia energ\u00e9tica.<\/span><\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #008000;\">O senhor poderia explicar melhor quais s\u00e3o as alternativas para a popula\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que todos n\u00f3s crescemos dentro de uma l\u00f3gica em que recebemos a conta da luz e pagamos a conta da luz; apertamos um bot\u00e3o na parede e a luz se faz. A realidade est\u00e1 exigindo que sejamos mais criativos e tenhamos mais largura de racioc\u00ednio. Quais s\u00e3o as alternativas para o cidad\u00e3o comum, especialmente o de regi\u00f5es mais afastadas?<\/span><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\"><strong>Bermann \u2013<\/strong> Depende muito do acesso \u00e0 tecnologia existente no local ou na regi\u00e3o. Hoje, por exemplo, temos no Rio Grande do Sul uma experi\u00eancia de queimar casca de arroz para gerar energia. O calor da queima da casca de arroz aquece a \u00e1gua, a \u00e1gua se transforma em vapor e esse vapor \u00e9 injetado num tubo e gira uma turbina produzindo energia el\u00e9trica. N\u00e3o tem nada de fant\u00e1stico nisso, esse processo \u00e9 conhecido h\u00e1 muito tempo, mas, puxa vida, eu estou t\u00e3o acostumado a simplesmente acender e apagar o bot\u00e3o &#8230; Vou ficar agora me preocupando se tem combust\u00edvel? Existe um lado meio tr\u00e1gico da popula\u00e7\u00e3o em geral que \u00e9 o comodismo: deixa que resolvam por mim. Ent\u00e3o, quando voc\u00ea me pergunta sobre alternativas, depende do que a gente est\u00e1 falando. Existem alternativas promissoras deixando de produzir mais mercadorias eletrointensivas. Como tamb\u00e9m \u00e9 promissor ter esquemas de financiamento para que o pequeno empres\u00e1rio adquira um painel fotovoltaico (placa que transforma luz solar em energia el\u00e9trica) ou uma usina de gera\u00e7\u00e3o e\u00f3lica (transforma\u00e7\u00e3o de vento em energia el\u00e9trica). E use essa tecnologia que est\u00e1 dispon\u00edvel para satisfazer as suas necessidades, sem necessariamente ficar ligado a uma grande linha de transmiss\u00e3o, de distribui\u00e7\u00e3o, puxando energia n\u00e3o sei de onde.<\/span><\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #008000;\">O que o senhor diria para a parcela da popula\u00e7\u00e3o brasileira que faz afirma\u00e7\u00f5es como estas: &#8220;Ah, se n\u00e3o construir Belo Monte n\u00e3o vai ter luz na minha casa&#8221;, ou &#8220;Ah, esses ecochatos que criticam Belo Monte usam Ipad e embarcam em um avi\u00e3o para ir at\u00e9 o Xingu ou para a Europa fazer barulho&#8221;. O que se diz para essas pessoas para que possam come\u00e7ar a compreender que a quest\u00e3o \u00e9 um pouco mais complexa do que parece \u00e0 primeira vista?<\/span><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\"><strong>Bermann \u2013<\/strong> N\u00e3o \u00e9 verdade que n\u00f3s estamos \u00e0 beira de um colapso energ\u00e9tico. N\u00e3o \u00e9 verdade que n\u00f3s estamos na imin\u00eancia de um \u201capag\u00e3o\u201d. N\u00f3s temos energia suficiente. O que precisamos \u00e9 priorizar a melhoria da qualidade de vida da popula\u00e7\u00e3o aumentando a disponibilidade de energia para a popula\u00e7\u00e3o. E isso se pode fazer com alternativas locais, mais pr\u00f3ximas, n\u00e3o centralizadas, com a altera\u00e7\u00e3o dos h\u00e1bitos de consumo. \u00c9 importante perder essa refer\u00eancia que hoje nos marca de que esse tipo de obra \u00e9 extremamente necess\u00e1rio porque vai trazer o progresso e o desenvolvimento do pa\u00eds. Isso \u00e9 uma fal\u00e1cia. \u00c9 claro que, se continuar desse jeito, se a previs\u00e3o de aumento da produ\u00e7\u00e3o das eletrointensivas se concretizar, vai faltar energia el\u00e9trica. Mas, cidad\u00e3os, se informem, procurem pressionar para que se abram canais de participa\u00e7\u00e3o e de processo decis\u00f3rio para definir que pa\u00eds n\u00f3s queremos. E h\u00e1 os que dizem: \u201cAh, mas ele est\u00e1 querendo viver \u00e0 luz de velas &#8230;\u201d. N\u00e3o, eu estou dizendo que a gente pode reduzir o nosso consumo racionalizando a energia que a gente consome; a gente pode reduzir os h\u00e1bitos de consumo de energia el\u00e9trica, proporcionando que mais gente seja atendida, sem construir uma grande, uma enorme usina que vai trazer enormes problemas sociais, econ\u00f4micos e ambientais. \u00c9 importante a percep\u00e7\u00e3o de que, cada vez que voc\u00ea liga um aparelho el\u00e9trico, a televis\u00e3o, o computador, ou a luz da sua casa, voc\u00ea tenha como refer\u00eancia o fato de que a luz que est\u00e1 chegando ali \u00e9 resultado de um processo penoso de expuls\u00e3o de pessoas, do afastamento de uma popula\u00e7\u00e3o da sua base material de vida. E isso \u00e9 absolutamente conden\u00e1vel, principalmente se forem ind\u00edgenas e popula\u00e7\u00f5es tradicionais. Mas tamb\u00e9m diz respeito \u00e0 nossa pr\u00f3pria vida. \u00c9 necess\u00e1rio ter uma percep\u00e7\u00e3o cr\u00edtica do nosso modo de vida, que n\u00e3o vai se modificar amanh\u00e3, mas ela precisa j\u00e1 estar na cabe\u00e7a das pessoas, porque n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 energia, \u00e9 uma s\u00e9rie de recursos naturais que a gente simplesmente n\u00e3o considera que est\u00e3o sendo exauridos e comprometidos. \u00c9 necess\u00e1rio que desde a escola as crian\u00e7as tenham essa discuss\u00e3o, incorporem essa discuss\u00e3o ao seu cotidiano. Eu tamb\u00e9m tenho uma dificuldade muito grande de chegar aqui na minha sala e n\u00e3o ligar logo o computador para ver emails, essas coisas. Confesso que tenho. Mas eu tamb\u00e9m percebo uma grande satisfa\u00e7\u00e3o quando eu consigo n\u00e3o fazer isso. E essa percep\u00e7\u00e3o da satisfa\u00e7\u00e3o \u00e9 uma coisa cultural, pessoal, subjetiva. Mas ela precisa ser percebida pelas pessoas. De que o nosso mundo n\u00e3o existe apenas para nos beneficiarmos com essas &#8220;comodidades&#8221; que a energia el\u00e9trica em particular nos fornece. Agora isso exige um esfor\u00e7o, e a gente vive num mundo em que esse esfor\u00e7o de perceber a vida de outra forma n\u00e3o \u00e9 incentivado. Por isso \u00e9 dif\u00edcil. E por isso, para quem quer construir uma usina, quer se dar bem, quer ganhar voto, quer manter a situa\u00e7\u00e3o de privil\u00e9gio, seja local ou nacional, para essas pessoas \u00e9 muito f\u00e1cil o convencimento que \u00e9 praticado com rela\u00e7\u00e3o a essas obras. Por mais que eu tenha sempre chamado a aten\u00e7\u00e3o para o car\u00e1ter absolutamente il\u00f3gico da usina, das quest\u00f5es que envolvem a l\u00f3gica econ\u00f4mico e financeira dessa hidrel\u00e9trica, para o absurdo que \u00e9 a utiliza\u00e7\u00e3o do dinheiro p\u00fablico para isso, para a refer\u00eancia \u00e0 necessidade de se precisar, num futuro pr\u00f3ximo, enfrentar um ritmo violento de custo de vida, emitindo moeda para sustentar empreendimentos como esse, \u00e9 muito dif\u00edcil fazer com que as pessoas compreendam a rela\u00e7\u00e3o dessa situa\u00e7\u00e3o com as grandes obras. E Belo Monte \u00e9 mais um instrumento disso. Eu n\u00e3o sou catastrofista, n\u00e3o tenho a percep\u00e7\u00e3o mal\u00e9fica da hidroeletricidade. N\u00e3o demonizo a hidroeletricidade. Eu apenas constato que, da forma como ela \u00e9 concebida, particularmente no nosso pa\u00eds nos \u00faltimos anos, \u00e9 uma das bases da injusti\u00e7a social e da degrada\u00e7\u00e3o ambiental. Se n\u00e3o \u00e9 pensando em voc\u00ea, voc\u00ea necessariamente vai precisar pensar nas gera\u00e7\u00f5es futuras. Este \u00e9 o recado para o leitor: \u00e9 preciso repensar a rela\u00e7\u00e3o com a energia e o modelo de desenvolvimento, \u00e9 preciso mudar o nosso perfil industrial e tamb\u00e9m \u00e9 preciso mudar a cultura das pessoas com rela\u00e7\u00e3o aos h\u00e1bitos de consumo. N\u00f3s precisamos mudar a rela\u00e7\u00e3o que nos leva a uma cega exaust\u00e3o de recursos.<\/span><\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #008000;\">O senhor acha que a Dilma tem essa obstina\u00e7\u00e3o com Belo Monte, em parte, por teimosia?<\/span><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\"><strong><\/strong><strong>Bermann \u2013<\/strong> Ela \u00e9 muito cabe\u00e7a dura.<\/span><\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #008000;\">\u00c0s vezes eu acho que as quest\u00f5es subjetivas t\u00eam um peso maior do que a gente costuma dar. N\u00e3o sei &#8230;<\/span><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\"><strong><\/strong><strong>Bermann \u2013<\/strong> \u00c9, mas eu tamb\u00e9m n\u00e3o sei, n\u00e3o tenho nenhuma proximidade maior com o que ela est\u00e1 pensando agora. O que eu sei \u00e9 que, no dia a dia, l\u00e1 no minist\u00e9rio, ela demonstrava uma capacidade muito reduzida de ouvir. Ela pode at\u00e9 ouvir, mas as coisas na cabe\u00e7a dela j\u00e1 est\u00e3o postas.<\/span><\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #008000;\">Por que o senhor saiu do governo em 2004?<\/span><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\"><strong><\/strong><strong>Bermann \u2013<\/strong> Porque venceu o contrato, e eu achei que n\u00e3o valia a pena continuar. H\u00e1 conhecidos meus que foram na mesma \u00e9poca que eu e est\u00e3o at\u00e9 hoje em Bras\u00edlia. N\u00e3o est\u00e3o mais no minist\u00e9rio, mas est\u00e3o em Bras\u00edlia. Acho que Bras\u00edlia \u00e9 uma cidade com um v\u00edrus letal, que \u00e9 a &#8220;Brasilite&#8221;. A &#8220;Brasilite&#8221; se comp\u00f5e de um verme que entra no umbigo e toma a barriga da pessoa de forma a ela achar que \u00e9 o centro do universo. A partir da\u00ed, mudam as rela\u00e7\u00f5es pessoais, o que a pessoa era e o que ela passa a ser. Eu mesmo perdi muitos amigos que come\u00e7aram a empinar o queixo. Fazer o qu\u00ea? E isso faz parte do \u201cmodus vivendi\u201d brasiliense. Basta voc\u00ea ter um terno e uma gravata que voc\u00ea \u00e9 doutor. Eu acho que a gente n\u00e3o vai muito longe alimentando isso.<\/span><\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #008000;\">O senhor participou da elabora\u00e7\u00e3o do programa de Lula na campanha de 2002 e participou do primeiro ano de governo. Est\u00e1 desiludido?<\/span><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\"><strong>Bermann \u2013<\/strong> Eu n\u00e3o aceito quando me definem como: &#8220;Ah, voc\u00ea tamb\u00e9m \u00e9 daqueles que est\u00e3o desiludidos, est\u00e3o chateados &#8230;&#8221;. Tem essa conota\u00e7\u00e3o, n\u00e9? Em absoluto. Eu n\u00e3o estou desiludido, chateado, bronqueado. Eu estou indignado!<\/span><\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #008000;\">Quando o senhor se desfiliou do PT?<\/span><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\"><strong>Bermann \u2013<\/strong> Ah, quando o bigode do Sarney estava aparecendo muito nas fotos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #008000;\">Fonte &#8211; Eliane Brum, Revista \u00c9poca de 31 de outubro de 2011<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sabemos que 99,9% dos leitores se assustar\u00e3o com o tamanho do texto e simplesmente n\u00e3o ler\u00e3o, o que \u00e9 uma pena, mas n\u00e3o podemos fazer nada, a n\u00e3o ser publicar este texto esclarecedor sobre os interesses escondidos na constru\u00e7\u00e3o de belo monte e outras tantas monstruosidades no pa\u00eds. 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