Por Viny Mathias – IGN Brasil – 20 de setembro de 2025 – País pode ser vítima de seu próprio sucesso – (Imagem: American Public Power Association/Unsplash
A história tem ares de paradoxo.
Ao inundar o mundo com painéis solares a preços imbatíveis, a China contribuiu amplamente para a aceleração da transição energética global.
Isso é uma boa notícia para o planeta, mas um verdadeiro pesadelo para a própria indústria.
Por meio de subsídios e ambição excessiva, as fábricas chinesas produziram muito além da demanda, criando um excedente que literalmente pulverizou as margens dos fabricantes.
A reação é violenta: empresas à beira da falência, prejuízos bilionários e um governo soando o alarme.
Para entender a situação, precisamos relembrar a estratégia agressiva da China para dominar o setor de tecnologia verde.
Por meio de investimentos maciços, o país conseguiu controlar mais de 80% da cadeia global de produção de painéis solares.
O resultado?
Uma capacidade de produção que agora atinge quase o dobro da demanda global.
Esse excesso de oferta levou logicamente a uma guerra de preços suicida.
De acordo com dados recentes, segundo o portal parceiro JeuxVideo, o preço do polissilício (também conhecido como silício cristalino), uma matéria-prima essencial, despencou.
Com isso, algumas empresas chinesas estão vendendo o polissilício com prejuízo, cerca de US$ 5 (R$ 26 em conversão direta) por quilo, enquanto o preço de equilíbrio do mercado é estimado em mais de US$ 24 (R$ 127).
Essa situação colocou os líderes do setor de joelhos.
Os números são alarmantes: só em 2024, estima-se que o setor tenha acumulado quase US$ 40 bilhões em prejuízos.
No primeiro semestre de 2025, seis dos maiores fabricantes chineses viram seus prejuízos acumulados dobrarem para US$ 2,8 bilhões.
A onda de falências está se acelerando, com mais de 50 empresas do setor já tendo fechado as portas em 2025.
Um verdadeiro massacre que ameaça o ecossistema pacientemente construído pela China.
Governo apita o fim do recesso
Diante desse caos, o governo chinês decidiu mudar radicalmente de tom.
A abordagem “laissez-faire” (deixar acontecer) saiu de campo e o controle autoritário entrou em cena.
O Ministério da Indústria e Tecnologia da Informação (MIIT) da China realizou uma série de reuniões de crise com líderes do setor.
A mensagem é clara: essa “competição desordenada” precisa acabar e o excesso de capacidade de produção precisa ser reduzido.
O objetivo é estabilizar os preços para garantir a sobrevivência do setor a longo prazo.
Várias medidas drásticas estão em pauta.
A mais impressionante é a criação de um fundo de US$ 7 bilhões, apoiado pelos próprios produtores de polissilício, com o objetivo de comprar e fechar aproximadamente um terço da capacidade de produção do país.
Ao mesmo tempo, Pequim pretende tornar os padrões mais rigorosos para forçar as fábricas menos eficientes e mais antigas a encerrarem suas operações.
Essa consolidação forçada pode ter efeitos rápidos.
Alguns analistas já observam uma ligeira tendência de alta nos preços dos módulos de fábrica, um sinal de que o mercado está antecipando essa grande limpeza.
Para o resto do mundo, essa decisão potencialmente marca o fim da era dos painéis solares a preços reduzidos, mas também pode permitir que outros players, especialmente na Europa e nos Estados Unidos, recuperem algum fôlego diante do rolo compressor chinês.
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