Por Luciana Constantino - Agência FAPESP - 13 de julho de 2026 - Estudo analisou…

Da sabedoria ancestral às embalagens inteligentes – como a ciência continua aprendendo com a natureza
Por FUNVERDE – 15 de julho de 2026 – Muito antes da eletricidade, já existiam reservatórios naturais para conservar alimentos – Imagem gerada por IA
Quando pensamos em conservar alimentos, a primeira imagem que vem à mente é a geladeira elétrica.
No entanto, durante milhares de anos a humanidade conseguiu armazenar água, frutas, verduras e outros alimentos utilizando apenas materiais encontrados na natureza.
Muito antes da invenção dos motores elétricos, do gás refrigerante e dos modernos equipamentos de refrigeração, povos que viviam em regiões áridas da África, do Oriente Médio e da Ásia desenvolveram uma solução extremamente engenhosa baseada apenas em barro, água, areia e vento.
Conhecida atualmente como Zeer Pot, ou simplesmente “geladeira do deserto”, essa tecnologia continua sendo estudada por universidades e centros de pesquisa por sua eficiência, simplicidade e sustentabilidade.
Uma tecnologia baseada em uma lei da Física
O sistema é extremamente simples.
Um vaso de barro menor é colocado dentro de outro maior.
Entre eles é adicionada areia constantemente umedecida com água.
Os alimentos permanecem no recipiente interno, protegido por uma tampa ou pano úmido.
À primeira vista parece apenas um conjunto de vasos de cerâmica.
Na realidade, trata-se de um sofisticado sistema de refrigeração evaporativa.
À medida que a água presente na areia evapora através dos poros do barro, ela precisa absorver energia para mudar do estado líquido para o gasoso.
Essa energia é retirada do próprio vaso interno e dos alimentos armazenados em seu interior.
O resultado é uma redução significativa da temperatura, que pode chegar a 10 a 15°C abaixo da temperatura ambiente, dependendo da umidade relativa do ar e da circulação de vento.
Quanto mais quente e seco for o ambiente, maior será a eficiência do sistema.
Muito antes da geladeira que conhecemos hoje
Embora hoje seja conhecida como “geladeira do deserto”, a utilização da evaporação para resfriamento acompanha a humanidade há milhares de anos.
Existem registros históricos de recipientes de barro utilizados para manter água fresca no Egito Antigo, na Pérsia, na Índia e em diversas regiões do Oriente Médio.
Mais recentemente, essa técnica ganhou notoriedade mundial através do inventor nigeriano Mohammed Bah Abba, que aperfeiçoou o sistema tradicional para auxiliar pequenos agricultores na conservação de frutas e hortaliças em comunidades sem acesso à energia elétrica.
Seu trabalho recebeu reconhecimento internacional justamente por reduzir o desperdício de alimentos e melhorar a segurança alimentar de milhares de famílias.
Depois de milhares de anos, o desperdício de alimentos continua sendo um desafio
Segundo a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), aproximadamente um terço dos alimentos produzidos no mundo é perdido ou desperdiçado.
Grande parte dessas perdas ocorre logo após a colheita, principalmente em regiões onde não existe infraestrutura adequada de armazenamento e refrigeração.
É justamente nesse cenário que tecnologias simples, como o refrigerador de barro, continuam apresentando enorme relevância social e ambiental.
O ensinamento da natureza para a ciência
O mais interessante é perceber que a ciência moderna não abandonou esses princípios.
Ao contrário.
Ela passou a estudá-los profundamente para desenvolver novas tecnologias capazes de conservar alimentos utilizando menos energia e gerando menos desperdício.
Hoje, laboratórios em diversos países pesquisam novos materiais capazes de controlar temperatura, umidade, gases naturais do amadurecimento e até a proliferação de microrganismos.
É a mesma filosofia utilizada pelos antigos povos do deserto, agora aplicada com o auxílio da engenharia de materiais.
Da argila às embalagens inteligentes
Um bom exemplo dessa evolução tecnológica é o desenvolvimento das chamadas embalagens inteligentes.
Entre elas destaca-se o d2pAM™, tecnologia distribuída no Brasil pela RES Brasil.
Trata-se de um aditivo incorporado durante a fabricação da embalagem plástica que confere propriedades antimicrobianas à superfície do material, reduzindo a presença de determinados microrganismos conforme ensaios realizados de acordo com normas internacionais.
A tecnologia não substitui as boas práticas de higiene nem dispensa os cuidados na conservação dos alimentos, mas pode contribuir para aumentar a proteção das embalagens durante sua utilização.
Outra inovação é o d2pEA™, também disponibilizado pela RES Brasil.
Esse aditivo atua adsorvendo o gás etileno, um hormônio natural produzido por frutas e hortaliças durante o processo de amadurecimento.
Ao reduzir a concentração desse gás no interior da embalagem, o amadurecimento ocorre de forma mais lenta, aumentando o tempo de conservação dos alimentos, reduzindo perdas logísticas e diminuindo o desperdício ao longo da cadeia de abastecimento.
Enquanto o vaso de barro controla a temperatura, as embalagens inteligentes passam a controlar também fatores químicos e microbiológicos, ampliando ainda mais a vida útil dos produtos.
Uma mesma missão em épocas diferentes
Apesar da enorme diferença tecnológica, existe um objetivo comum entre essas soluções.
Há milhares de anos, o desafio era impedir que os alimentos estragassem antes do consumo.
Hoje, esse desafio permanece exatamente o mesmo.
A diferença é que a ciência dispõe de novos materiais, novos conhecimentos e novas ferramentas para continuar reduzindo perdas e aumentando a eficiência dos sistemas alimentares.
Em outras palavras, a inovação não substituiu o conhecimento tradicional; ela evoluiu a partir dele.
A linha do tempo da conservação sustentável dos alimentos
Há milhares de anos – Povos antigos utilizam barro, água e evaporação para conservar alimentos naturalmente.
Séculos XIX e XX – A Física explica os fenômenos da evaporação, da transferência de calor e da termodinâmica.
Século XXI – A engenharia de materiais desenvolve embalagens inteligentes capazes de controlar microrganismos, umidade e gases do amadurecimento.
Economia Circular – O objetivo deixa de ser apenas conservar alimentos e passa a incluir a redução do desperdício. menor consumo de energia, embalagens recicláveis, maior eficiência logística, menor emissão de carbono e uso mais inteligente dos recursos naturais.
O que a FUNVERDE pode fazer?
A história da “geladeira do deserto” nos mostra que a sustentabilidade não depende apenas de tecnologias sofisticadas.
Muitas vezes, as soluções mais inteligentes já estavam presentes na natureza e foram desenvolvidas por povos que aprenderam a conviver com ambientes extremamente desafiadores.
Hoje, a ciência continua esse caminho, incorporando novos materiais e novas tecnologias às embalagens, aos sistemas de armazenamento e à logística de alimentos.
O objetivo permanece o mesmo: conservar melhor, desperdiçar menos e utilizar os recursos naturais de forma mais eficiente.
Para o INSTITUTO FUNVERDE, esse é um excelente exemplo de como o conhecimento tradicional e a inovação tecnológica podem caminhar juntos na construção de uma economia verdadeiramente circular, em que cada avanço científico busca não apenas aumentar a eficiência, mas também reduzir impactos ambientais e promover uma relação mais equilibrada entre desenvolvimento e natureza.
Referências
- Massachusetts Institute of Technology (MIT D-Lab)
- Practical Action – Evaporative Cooling Technologies
- FAO – Food Loss and Food Waste
- World Vegetable Center
- RES Brasil – Tecnologias d2pAM™ (antimicrobiano) e d2pEA™ (controle de etileno)
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