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Recuo abala a geleira símbolo da Patagônia

Por Pedro Côrtes* – CNN Brasil – 21 de julho de 2026 – Após décadas resistindo ao aquecimento, Perito Moreno entra em fase de recuo acelerado – A geleira Perito Moreno recuou cerca de 385 metros em 2025 – Imagem/Pedro Côrtes

A geleira Perito Moreno recuou cerca de 385 metros em 2025, a maior retração registrada em 27 anos de imagens de satélite.

O dado importa não apenas pela distância perdida, mas pelo que representa: uma das geleiras mais emblemáticas da Patagônia deixou de ser exceção.

Durante décadas, a Perito Moreno manteve a frente relativamente estável enquanto geleiras vizinhas perdiam área, espessura e volume.

Sua geometria e o terreno sob o gelo funcionavam como proteção natural, retardando uma resposta queagora se tornou visível.

Estudo publicado em 2026 na revista Progress in Physical Geography, liderado por Javier Andrade-Jiménez, identificou recuo persistente desde 2016, com taxas de até 55 metros por ano.

A geleira perdeu cerca de três quilômetros quadrados desde 1997, e quase dois terços dessa redução ocorreram na fase mais recente.

Outra pesquisa, publicada em 2025 na Communications Earth & Environment e liderada por Moritz Koch,chegou à conclusão similar.

O rebaixamento médio da superfície frontal passou de 34 centímetros por ano, entre 2000 e 2019, para 5,5 metros anuais entre 2019 e 2024.

Em um dos setores, o recuo superou 800 metros.

Os estudos medem aspectos distintos: um acompanha a posição da frente e a perda de área; o outro examina afinamento, velocidade e topografia subglacial.Juntos, mostram que a Perito Moreno não enfrenta apenas uma oscilação sazonal, mas uma mudança de regime.

Uma elevação rochosa sob o gelo e uma moraina submersa — acúmulo de sedimentos e rochas depositados pelo próprio avanço da geleira ao longo do tempo — ajudavam a manter a frente ancorada.

O aquecimento é a pressão de fundo. A profundidade do lago, o relevo subglacial e avelocidade do fluxo determinam quando e com que intensidade a geleira responde.

A estabilidade anterior não contrariava a mudança climática; apenas retardava seus efeitos visíveis.

Esse é o significado simbólico do recuo atual.

A Perito Moreno foi muitas vezes apresentada como contraponto à retração generalizada das geleiras da Patagônia.

Confundiu-se uma exceção temporária com a negação da tendência.

O IPCC considera muito provável que ainfluência humana seja o principal fator do recuo quase generalizado das geleiras desde a década de 1990.

O caso da geleira Perito Moreno não prova sozinho essa atribuição global, mas é plenamente coerente com ela.

Isso não significa desaparecimento ou colapso iminente.

Os modelos indicam risco de retração maior caso a frente ultrapasse o ponto de apoio subglacial, mas não estabelecem datas.

A Perito Moreno deixou de ser apenas um cartão-postal e o cenário de impressionantes rupturas de gelo.

Tornou-se o registro visível de uma transição.

Quando até uma geleira historicamente resistente entra em recuo recorde, o aquecimento do planeta deixa marcas cada vez mais difíceis de relativizar.

*Professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e um dos mais renomados especialistas em Clima e Meio Ambiente do país.

funverde

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