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FS aguarda sinal verde para enterrar o CO2 do seu etanol

Por Ilana Cardial – ReSet – 10 de fevereiro de 2025 – Empresa prevê investir R$ 500 milhões em projeto pioneiro que captura o carbono da produção de biocombustíveis. Foto: FS-Biofuels-Unidade-de-Lucas-do-Rio-Verde.

A FS Biocombustíveis quer fazer o que, no Brasil, apenas árvores e petroleiras são capazes até agora: capturar carbono e estocá-lo abaixo do solo.

O projeto pioneiro será acoplado à sua produção de etanol de milho em Lucas do Rio Verde, no Mato Grosso, e a expectativa é que a planta comece a ser levantada em junho deste ano e a captura comece um ano depois – mas o caminho até lá ainda encontra desafios na regulação.

“Queremos ser o maior produtor de combustível carbono negativo do mundo”, diz Daniel Lopes, vice-presidente de sustentabilidade e novos negócios da FS.

Ou seja, a meta é que, ao longo do ciclo de vida de seu etanol de milho, mais carbono seja capturado do que o emitido.

Em outubro passado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou a lei do Combustível do Futuro.

Parte dela trata do marco regulatório da captura, uso e estocagem de carbono.

A atividade ainda não é regulamentada e depende da Agência Nacional de Petróleo (ANP), órgão sobrecarregado com diversas atribuições ligadas ao setor de energia.

A aposta da FS para cumprir com seu cronograma é que a ANP formalize um sandbox regulatório – um período de teste para as regras que permitiria que a empresa operasse esse novo sistema.

“Temos interesse em ser um projeto piloto e poder ajudar o país a montar uma regulação parruda. Vamos advogar para que seja tão boa quanto qualquer outra internacional, porque dependemos de poder vender isso internacionalmente”, diz Lopes.

A empresa afirma já ter comprovado a viabilidade geológica do local de armazenar o carbono por milhares de anos, mas a construção só virá depois de duas etapas: a aprovação do licenciamento, prevista entre março e junho deste ano, e a confirmação de ser um piloto diante da ANP.

A dívida da empresa chegou a 7,4 vezes o Ebitda (lucro antes do pagamento de juros, impostos e depreciação), índice considerado alto.

A FS reportou prejuízos no segundo e terceiro trimestres de 2024 e pausou a construção de sua quarta usina de etanol, em Querência (MT).

Ainda assim, reafirmou seu compromisso com o projeto de captura de carbono, com investimento projetado na ordem de R$ 500 milhões – R$ 170 milhões financiados pela Finep.

“Estamos trabalhando para ter um financiamento mais barato, então ainda não temos uma visão tangível do payback”, afirma o executivo. Uma nova fonte de receita deve vir da emissão de créditos de remoção de remoção, que variam entre US$ 100 e US$ 300 no mercado atualmente.

Rota tecnológica

Hoje, quem domina a expertise de captura de carbono são as big oils – ainda que sejam também elas grandes contribuintes para a emissão do gás poluente.

A Petrobras tem o maior programa de captura, uso e armazenamento de carbono (CCUS, na sigla em inglês) do mundo, em termos de volume.

A companhia separa, ainda na plataforma, o CO2 do gás natural e o injeta em seus reservatórios de petróleo em alto-mar.

A técnica é usada para aumentar a pressão interna e auxiliar na extração do combustível fóssil, e não tem como objetivo final a fixação permanente de carbono.

A petroleira está estudando construir um hub de captura e armazenamento definitivo (CCS, na sigla em inglês), que permitiria oferecer o serviço a outras empresas.

O projeto deve ser instalado no terminal de Cabiúnas, no Rio de Janeiro, e ter capacidade de capturar 100 mil toneladas de CO2 (tCO2) por ano.

Ele também é um potencial piloto da ANP.

As diferenças são várias em relação ao que a FS vem desenhando.

Ainda assim, a tecnologia em si “não é nenhuma rocket science”, diz Lopes, e a empresa já começou as compras do maquinário a ser usado.

A captura do CO2 se dá durante a fermentação do etanol de milho e, diferentemente do que ocorre no petróleo, o carbono emitido pela FS vem 98% puro e não demanda tanto na separação de outros gases, o que reduz o custo do processo.

A injeção do carbono será feita em terra, não no mar. A área usada será da propriedade FS, com uma outorga da ANP para a cessão do espaço abaixo da superfície – que pertence à União.

No primeiro projeto de bioenergia com captura e armazenamento de carbono (BECCS, na sigla em inglês) no país, a empresa espera armazenar anualmente 423 mil tCO2 ao longo de 30 anos.

Milho de baixo carbono

A principal razão para a produção de etanol de milho com baixa emissão de carbono é o sucesso da safrinha.

O produtor, que fornece matéria-prima para a companhia, planta soja e depois milho, e um efeito simbiótico entre as duas plantações permite a maior fixação de nitrogênio pela soja, explica Lopes.

O milho se beneficia desse processo e é menor a necessidade de aplicação de fertilizante, etapa em que é emitido o maior volume de CO2 no processo.

Quando se trata de processos de descarbonização, a obtenção de certificações é importante para garantir o cumprimento de determinados critérios socioambientais.

A FS produz mais de 2 bilhões de litros de etanol ao ano e, além de Lucas do Rio Verde, também gere plantas em Sorriso e Primavera do Leste, no Mato Grosso.

Ao todo, são mais de 1 mil fornecedores de milho.

“Em uma única planta, via de regra, o produtor de etanol de cana tem quatro ou cinco fornecedores. A nossa [de milho] tem 300”, diz Lopes.

A companhia tem engajado com seus fornecedores e, em cinco anos, a parcela daqueles elegíveis ao RenovaBio – principal programa de descarbonização do setor de combustíveis do Brasil – foi de 12% para 85%.

“Levando em conta o desafio de rastreabilidade do milho, é bastante honroso termos conseguido e esse feito.”

A FS foi a primeira companhia do mundo a obter a certificação de zero emissões induzidas por mudanças no uso do solo para a produção de etanol, com aval para que o biocombustível seja usado para a produção de combustível sustentável de aviação (SAF).

O certificado é emitido pelo Corsia, programa de descarbonização da Organização da Aviação Civil Internacional (ICAO).

funverde

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