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O fracking é só uma ilusão

Em um movimento que ainda não foi percebido na maior parte do Brasil, mas que se alastra de forma organizada na região sul, a rejeição à tecnologia conhecida como fraturamento hidráulico (ou fracking), para extrair gás natural em terra, segue ganhando musculatura, conseguindo que várias municipalidades — principalmente no Paraná — tenham proibido esse tipo de atividade.

O movimento é completamente atípico, olhando para a atual composição de forças políticas que atuam no Brasil. Afinal, congrega no mesmo grupo lideranças rurais (que habitualmente se agrupam à direita do espectro partidário) e ambientalistas (que na totalidade ocupam a faixa esquerda). Além disso, tem um expressivo apoio da Cáritas, uma organização católica quase sempre também identificada com a esquerda da Igreja e de forte influência principalmente dos cleros da Holanda e da Alemanha.

A Cáritas já existe no Brasil há quase 60 anos e tem muita tradição em iniciativas comunitárias, como essa que ocorre contra a tecnologia do fracking. Trata-se de uma organização vinculada diretamente à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

Todos esses grupos convivem dentro de uma entidade chamada Coesus — Coalizão Não Fracking Brasil pelo Clima, Água e Vida. O denominador comum de todos eles é a luta contra o fracking, que é visto como algo que atenta contra a vida. Na visão das lideranças da Coesus, para extrair o gás natural em terra, utilizando o fracking, é necessário injetar no subsolo volumes enormes de água, milhões e milhões de litros, a altíssima pressão, misturados com areia e um coquetel de mais de 720 substâncias químicas, muitas delas consideradas como prejudiciais à saúde humana e dos animais.

Parte dos resíduos permanece no subsolo contaminando os aquíferos. A parte que retorna à superfície contaminaria os rios e nascentes, o solo e o ar, além de provocar câncer nas pessoas e animais. O produto dessa agressão à natureza seria o gás natural. Vale a pena tanto sacrifício? Na opinião da Coesus, não. Além disso, onde o fraturamento hidráulico é aplicado para extrair o gás, o solo torna-se infértil para a agricultura e são registrados severos problemas de saúde, como má formação congênita, esterilidade nas mulheres e homens, abortos e doenças crônicas respiratórias. Isso une fortemente a Igreja, os ruralistas e os ambientalistas, em um movimento organizado e eficiente, que ainda não é conhecido na maior parte do País.

Agora, por exemplo, um encontro reuniu em Curitiba representantes do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul com membros da Cáritas Brasileira, quando foi feito um balanço a respeito do trabalho da Coesus e os avanços já conseguidos em vários municípios do Sul do País. Também foram debatidas as ações e estratégias para conter as mudanças climáticas e a sua incidência sobre a agricultura familiar e a economia popular e solidária. Nesse encontro, Reginaldo Urbano Argentino, presidente da Cáritas do Paraná, definiu com clareza o objetivo do movimento: “Ajudar a erradicar tudo o que atenta contra a Vida existente em nosso planeta, a nossa Casa Comum como define a ‘Laudato Si’, é o caminho para construir uma verdadeira sociedade igualitária e democrática e um mundo sustentável”.

O envolvimento de lideranças religiosas na Coesus não se limita à católica Cáritas. Um dos coordenadores da reunião de Curitiba foi o pastor Werner Fuchs, da Rede Evangélica Paranaense de Ação Social (Repas). Na realidade, as lideranças do setor energético não têm a menor ideia a respeito da eficiente costura política e comunitária que está sendo lentamente feito por todas as organizações que trabalham dentro da Coesus. Não se pode adivinhar o que vai acontecer, mas é quase certo que, por absoluta arrogância e miopia política dessas lideranças, quando acordarem para o problema já não haverá mais condições para correr atrás daquilo que vão considerar como  o seu prejuízo, tamanha será a consistência da resistência ao fraturamento hidráulico em muitas regiões.

Embora este site não tenha preconceito contra as energias em geral, admite que olha para o fracking com muita desconfiança. Não há qualquer tipo de envolvimento do “Paranoá Energia” com as organizações que integram a Coesus, mas este site entende que o trabalho dessa frente ampla tem méritos, pois iniciou uma discussão da qual a sociedade brasileira não participava.

É importante, sim, debater a questão do fracking, principalmente naquelas comunidades rurais que serão atingidas pela extração do gás. Pensando bem, não há a menor necessidade em agredir a natureza dessa forma, só para extrair uma certa quantidade de gás natural. Se o Brasil tiver bom senso, o melhor que pode fazer é deixar o gás quieto sob a terra, buscando outras maneiras para fomentar o desenvolvimento econômico. As atuais e futuras gerações merecem essa homenagem.

Fonte – Paranoá Energia de 24 de agosto de 2016

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