Respirar ar de SP por 2 horas é igual a fumar um cigarro

Vista do horizonte de São PauloAnálise de São Paulo aponta que os níveis de partículas finas inaláveis está 90% acima dos níveis seguros (filipefrazao/Thinkstock)

Pesquisa inédita busca comparar a exposição do paulistano durante sua vida à poluição do ar com os impactos do cigarro

Respirar o ar de São Paulo por duas horas no trânsito é o mesmo que fumar um cigarro. Ao longo de 30 anos na capital, o pulmão dessa pessoa pode ficar igual ao de um fumante leve (que consome menos de dez cigarros por dia).

É o que revelam dados preliminares, obtidos pelo jornal O Estado de S. Paulo, de uma pesquisa inédita que busca comparar a exposição do paulistano durante sua vida à poluição do ar com os impactos do cigarro.

O trabalho, liderado pelo médico patologista Paulo Saldiva, analisa corpos que foram levados ao Serviço de Verificação de Óbitos (SVO) e mede a quantidade de carbono no pulmão, ao mesmo tempo em que investiga a vida do paciente.

“Antigamente, quando em uma necropsia a gente via um pulmão cheio de carbono, preto, o mais provável é que se trataria de um fumante. Hoje não dá para dizer isso. E o que esse estudo está mostrando é o quanto respirar o ar de São Paulo é equivalente a fumar e tem impacto cumulativo”, explica a bióloga Mariana Veras, do Laboratório de Poluição do Ar da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP).

Entrevistas feitas com parentes estão ajudando a compor esse quadro de como se dá a exposição dos paulistanos. São questões como: onde vivia, onde passou a maior parte da vida, qual era a atividade profissional, quanto tempo levava em deslocamentos no trânsito, se fumava ou era fumante passivo.

“Um motorista de caminhão ou um guarda de trânsito vai ter um quadro diferente de quem só se expõe de casa ao trabalho e passa o dia inteiro no ar condicionado com janela fechada. Estamos buscando a correlação entre a quantidade de preto no pulmão, o padrão de vida e o tempo em transporte”, diz Mariana.

Pelo menos 2 mil pulmões já foram avaliados e cerca de 350 selecionados para compor o estudo – são os que contam com entrevistas mais detalhadas.

Os dados ainda estão sendo tabulados e devem ser concluídos nas próximas semanas, mas foram antecipados em razão da Assembleia das Nações Unidas para o Meio Ambiente, que começou ontem e vai até amanhã, e tem como tema a luta antipoluição.

Segundo a ONU Meio Ambiente e a Organização Mundial de Saúde, cerca de 7 milhões de pessoas morrem por ano em decorrência de poluição do ar (e metade é interna, como a de fogões a lenha e aquecimentos caseiros a carvão). Segundo as entidades, mais de 80% das cidades têm níveis de poluição acima dos recomendáveis.

A análise de São Paulo aponta que os níveis de partículas finas inaláveis (material particulado ou MP 2,5) está 90% acima dos níveis seguros, de 10 microgramas/m³.

A concentração média anual da cidade é de 19 microgramas/m³. A ONU Meio Ambiente elegeu o combate à poluição como principal ação para se atingir os objetivos do desenvolvimento sustentável e no combate às mudanças climáticas.

“A poluição é o problema que está mais perto das pessoas. Elas sentem, respiram, é imediato. É mais provável ter impacto sobre a vida das pessoas enquanto andam ou fazem compras do que as mudanças climáticas. É uma das coisas que mais matam hoje no mundo”, disse ao Erik Solheim, diretor executivo da ONU Meio Ambiente, durante a Conferência do Clima das Nações Unidas, na Alemanha, em novembro. “Por outro lado, tudo o que se faz para reduzir a poluição também é benéfico no combate às mudanças climáticas.”

Na prática

Não é de hoje que poluição afeta a rotina dos paulistanos. A gestora ambiental Annabella Andrade, de 50 anos, pedala todos os dias até o trabalho, mas, quando o tempo está seco, usa máscara como as de hospitais para se proteger da fuligem.

“Dependendo do lugar, ainda coloco lenço por cima”, diz ela, que mora perto do Elevado Presidente João Goulart, o Minhocão, e trabalha na Avenida Paulista, ambos na região central.

Para reduzir o impacto da poluição, Annabella trabalha como voluntária de uma associação que quer transformar o Minhocão em um parque. “Quando o elevado está fechado, podemos abrir as janelas.”

Dona de uma banca próxima da Estação Marechal Deodoro do Metrô, Mainara Bortolozzo, de 25 anos, também sente o impacto. “Saio imunda daqui – no rosto, nas mãos”, conta.

Obesidade

Pouco relacionada com a poluição, a obesidade, também está sendo observada pelo grupo de pesquisa do laboratório da USP. Já havia a suspeita de que a poluição provoca desarranjo hormonal e estudos epidemiológicos relacionam os poluentes a uma redução do metabolismo.

Como isso é muito difícil de isolar e medir no nível individual, os pesquisadores trabalharam com camundongos expostos a uma concentração de MP 2,5 – semelhante à medida em média por dia em São Paulo.

Descobriram que afeta a saciedade. “Os animais, e sugerimos que o mesmo deve ocorrer com humanos, não ficavam saciados mesmo com a quantidade habitual. A poluição diminui a sensibilidade ao hormônio leptina, que regula a saciedade”, diz Mariana. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Fontes – Giovana Girardi, Estadão Conteúdo / Exame de 05 de dezembro de 2017

Aeroporto de Pequim cancela quase uma centena de voos devido à poluição

Estudantes usando máscaras devido à poluição atmosférica atravessam uma rua em Jinan, China - 24/12/2015Estudantes usando máscaras devido à poluição atmosférica atravessam uma rua em Jinan, China – 24/12/2015 (STR/AFP)

O governo municipal decretou alerta laranja (o 2º mais alto). Quantidade de poluentes no ar é 20 vezes superior ao recomendado pela OMS

O Aeroporto Internacional de Pequim cancelou nesta sexta-feira 83 voos e adiou outros 143 devido aos elevados níveis de poluição atmosférica que atingem desde esta manhã a capital chinesa, informou a televisão estatal.

O governo municipal decretou o alerta laranja (o segundo mais alto de uma escala com quatro níveis). A poluição atinge um nível 20 vezes superior ao máximo recomendado pela Organização Mundial de Saúde.

Desde as 6h locais, Pequim regista uma concentração de partículas PM2.5 – as mais finas e suscetíveis de se infiltrarem nos pulmões – superior a 500 microgramas por metro cúbico.

Uma nuvem de poluição cobre grande parte do nordeste da China há várias semanas, numa situação “normal” para a época, visto que a ativação do aquecimento central implica o aumento da queima de carvão, a principal fonte de energia no país.

Quase meia centena de cidades e duas províncias emitiram alertas por poluição.

Fontes – Agência Brasil / Veja de 25 de dezembro de 2017

Unicef alerta para danos de poluição ao cérebro dos bebês

Bebê usa máscara para evitar poluição em Pequim, na ChinaBebê: os vínculos da poluição do ar com a asma, bronquite e outras doenças respiratórias são conhecidos há bastante tempo (Kevin Frayer/Getty Images)

Segundo relatório, a contaminação “tem um impacto no aprendizado das crianças, de sua memória, sua capacidade linguística e motora”

poluição atmosférica é perigosa para o desenvolvimento cerebral dos bebês, um flagelo que afeta a Ásia em particular, afirma um relatório do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).

O continente asiático totaliza 16 das 17 milhões de crianças com menos de um ano que estão expostas a níveis críticos de poluição, ao menos seis vezes acima dos níveis considerados salubres.

A Índia lidera a lista dos países com o maior número de bebês expostos à poluição, à frente da China, de acordo com o relatório “Perigo no Ar” publicado pelo Unicef.

A contaminação “tem um impacto no aprendizado das crianças, de sua memória, sua capacidade linguística e motora”, disse à AFP Nicholas Rees, autor do documento.

Os vínculos da poluição do ar com a asma, bronquite e outras doenças respiratórias são conhecidos há bastante tempo.

“Mas um número crescente de pesquisas científicas destaca um novo risco potencial representado pela contaminação do ar para a vida e o futuro das crianças: o impacto no cérebro em desenvolvimento”, afirma o documento do Unicef.

O relatório ressalta a relação entre a poluição e as funções cerebrais como a memória e o QI (quociente de inteligência) verbal e não verbal, os resultados dos testes e outros problemas neurológicos.

As partículas finas da contaminação urbana podem afetar a barreira hematoencefálica (BHE), a membrana que protege o cérebro de substâncias tóxicas, e acentuar os riscos de doenças como Parkinson e Alzheimer entre os idosos.

O Unicef faz um apelo aos governos para que aumentem a luta contra a poluição e reforcem a proteção das crianças, em particular com o uso de máscaras e sistemas de filtração de ar.

Fontes – AFP / Exame de 06 de dezembro de 2017

Ranking aponta as 10 empresas mais responsáveis pela poluição plástica nos oceanos

Ranking aponta as 10 empresas mais responsáveis pela poluição plástica nos oceanos

Foto: John Schneider/Creative Commons

Estima-se que, até 2017, terá mais plástico do que peixes no oceano. Muitas marcas já se mostram preocupadas com esse dado e tentam reduzir o impacto causado por suas operações ao produzir peças feitas com o lixo que vem do oceano. Até uma máquina que recolhe esse tipo de resíduo dos mares já foi construída por um bilionário. Toda iniciativa é válida!

Agora uma ação do Greenpeace e da ONG #breakfreefromplastic estudou as praias da Filipinas e rankeou as 10 principais empresas responsáveis pela poluição dos oceanos mundo afora. Isso porque o país é o terceiro que mais recebe plástico de todos os lugares do mundo, segundo o Greenpeace.

Abaixo, você confere a lista:

  1. Nestle
  2. Unilever
  3. PT Torabika Mayora
  4. Universal Robina Corporation
  5. Procter & Gamble
  6. Nutri-Asia
  7. Monde Nissin
  8. Zesto
  9. Colgate Palmolive
  10. Liwayway

A lista deixa claro o grande impacto que multinacionais estão causando no planeta por conta de suas operações. “Eles poderiam, por exemplo, praticar uma responsabilidade estendida, onde empresas substituem embalagens não reutilizáveis e não recicláveis por novos sistemas, como os refis”, explica Abigail Aguilar, ativista do Greenespeace na Filipinas.

O estudo foi realizado ao longo de uma semana, quando um grupo de pessoas limpou a praia e auditou o lixo encontrado. No total, foram quase 55 mil resíduos recolhidos e estudados. Sapatos, canudos, sacolas, garrafas… a natureza do lixo variou bastante, mas o material era quase sempre o mesmo: plástico.

Isso prova uma máxima importante: quando jogamos algo fora, não há “fora”, esse material irá permanecer em nosso planeta e, uma hora ou outra, irá impactar nosso meio ambiente. E você, como anda consumindo?

Fonte – Jéssica Miwa, The Greenest Post de 25 de outubro de 2017

Qual é a origem do plástico que polui os oceanos?

plásticos oceano

Antes de tudo é preciso saber de onde a poluição vem para evitá-la

Os oceanos do mundo estão se afogando em plástico. A Ellen MacArthur Foundation estima que, até 2050, os mares terão mais peso em plástico do que em peixes.

Isso se confirmando ou não, sabemos que a vida selvagem marinha está sofrendo muito com os efeitos da poluição plástica atual. Os animais frequentemente se sufocam com o lixo flutuante e muitos ingerem esses resíduos, confundindo-os com alimentos. O plástico entra na cadeia alimentar e estima-se que quem come frutos do mar regularmente ingere cerca de 11 mil pedaços de microplástico por ano. O microplástico está presente na água da torneira do mundo inteiro, no sal, nos alimentos, na cerveja e no ar.

Mas de onde é que todo esse plástico vem? Um artigo de Louisa Casson, do Greenpeace do Reino Unido, explica que existem três fontes principais de poluição plástica oceânica. São elas:

1. Nosso lixo

plástico oceano

Você pode ter boas intenções ao jogar uma garrafa de água de plástico na lixeira de recicláveis, mas é bem provável que ela nunca seja reciclada. Dos 480 bilhões de garrafas de bebidas plásticas vendidas, apenas em 2016, menos de metade foi coletada para reciclagem e, desse montante, apenas 7% foi transformado em plástico novamente.

O resto permanece na terra indefinidamente. Uma parte fica em aterros sanitários ou em lixões, mas é comum o vento carregar o resíduo leve desses locais até rios ou mares ou a redes de drenagem urbana, o que faz com que o plástico eventualmente chegue ao mar. O mesmo acontece com o lixo deixado nas praias, nos parques e nas ruas das cidades.

“Os principais rios ao redor do mundo carregam aproximadamente 1,15 milhão a 2,41 milhões de toneladas de plástico para o mar todos os anos – isso é equivalente a até 100 mil caminhões de lixo”, diz Casson.

2. Esfoliantes

pequenos pedacinhos de plástico

Muitos cosméticos e produtos para cuidados com a pele contêm pequenos pedacinhos de plásticoBoa parte dos esfoliantes e até mesmo alguns cremes dentais podem conter microesferas de plástico. Após o uso, essas bolinhas vão pelo ralo e, mesmo em locais com tratamento de esgoto, não podem ser filtradas por serem muito pequenas. Essa água chega a rios e mares e os resíduos plásticos acabam comidos por pequenos peixes ou incorporados pelo plâncton.

Outro grande problema que está apenas começando a chamar atenção pública é o das microfibras – tecidos sintéticos liberam minúsculas fibras de plástico a cada lavagem.

3. Vazamento industrial

Nurdles

Você já ouviu falar em nurdles? Eles são pequenas bolinhas plásticas utilizadas na manufatura de vários itens plásticos. Ao contrário dos resíduos plásticos que se decompõe até se tornarem microplásticos, os nurdles são feitos já com um tamanho reduzido (cerca de 5 mm de diâmetro). Eles são a maneira mais econômica de transferir grandes quantidades de plástico para fabricantes de uso final do material em todo o mundo. Os Estados Unidos produzem cerca de 27 bilhões de quilos de nurdles por ano.

O problema é que navios e trens despejam acidentalmente essas bolinhas plásticas em estradas ou no mar; ou a parte que sobra da produção não é tratada adequadamente. Se alguns milhares de nurdles caem no mar ou numa rodovia, é praticamente impossível fazer a limpeza. Em uma pesquisa realizada no início de 2017, foram encontrados nurdles em 75% das praias do Reino Unido.

Mas além dessas fontes apontadas no artigo da Louissa Casson, a ONG OrbMediaainda aponta outras fontes inusitadas:

4. Lavagem das roupas

Lavagem das roupas

Você sabia que as fibras têxteis sintéticas, assim como o exemplo do poliéster, são feitas de plástico? O problema é que durante a lavagem dessas roupas de fibras sintéticas, por meio do choque mecânico, o microplástico se desprende e acaba sendo enviado para esgotos, indo parar em no ambiente e em corpos hídricos, como, por exemplo, o próprio oceano.

5. Ar

poliéster

As fibras têxteis de tecido sintético plástico também vão parar no ar. Um estudo de 2015, realizado em Paris, na França, mostrou que, a cada ano, cerca de três a dez toneladas de fibras plásticas atingem a superfícies das cidades. Uma das explicações é que apenas o atrito de um membro com o outro vestido por roupas de fibras têxteis sintéticas plásticas já seria o suficiente para dispersar o microplástico na atmosfera. Essa poeira de microplástico pode ser inalada, ir parar no mar, juntar-se ao vapor e ir se depositar na sua xícara de café e no seu prato de comida, por exemplo.

6. Atrito dos pneus

de onde vem o plástico dos oceanos

Os pneus de carros, caminhões e outros veículos são feitos de um tipo de plástico chamado estireno butadieno. Ao passarem pelas ruas, o atrito desses pneus com o asfalto gera emissão de 20 gramas de microplástico a cada 100 quilômetros percorridos. Para se ter uma ideia, na Noruega, é emitido um quilo de microplástico de pneu por ano por pessoa.

7. Tintas látex e acrílicas

Tinta

A tinta utilizada em casas, veículos terrestres e navios desprende-se destes por meio de intempéries e vai parar no oceano, formando uma camada bloqueadora de microplástico na superfície oceânica.

A isto, podemos acrescentar as tintas látex e acrílicas utilizadas em artesanatos e os pincéis lavados nas pias.

8. E a solução?

A poluição plástica do oceano é o resultado de um sistema profundamente distorcido, em que a fabricação de um produto não biodegradável pode continuar sendo feita sem controle, mesmo não havendo métodos de processamento dos resíduos efetivos ou seguros (não se pode contar com a reciclagem neste caso, uma vez que apenas 9% de todo o plástico produzido desde a década de 1950 foi reciclado).

Encontrar uma solução, escreve Casson, exige chegar à origem do problema. Precisamos que os governos levem isso em conta isso. A Costa Rica, por exemplo, prometeu eliminar todos os plásticos de uso único em 2021. As empresas precisam ser responsáveis pelo ciclo de vida completo de seus produtos, incluindo a coleta e a reutilização. Segundo The Guardian, marcas são hostis ao uso de plástico reciclado por questões estéticas – outro tipo de barreira que precisa ser quebrada.

É necessário que haja campanhas contínuas sobre consumo que eduquem as pessoas sobre o impacto de plásticos de uso único em todas as partes do mundo. É preciso evitar produtos com embalagens desnecessárias, cobrar para que empresas mudem suas posturas e apostar na reutilização. Lojas e mercados devem receber incentivos governamentais para oferecerem opções de reabastecimento sem novos pacotes, e por aí vai… Existem ideias e é importante que elas sejam colocadas em prática antes que os mares sejam cada vez mais engolidos por plásticos.

Se você quer saber como pode reduzir o seu uso de plástico confira a matéria “Como reduzir o uso de plástico? Confira dicas imperdíveis“.

E para descartar seus resíduos corretamente, consulte quais são os postos de coleta mais próximos de sua residência.

Fontes – Treehugger / Orbmedia / eCycle

Poluição do ar está associada à mortalidade por cânceres não pulmonares

Detalhe de árvores em primeiro plano e ao fundo vista da poluição na cidade de São Paulo. Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Detalhe de árvores em primeiro plano e ao fundo vista da poluição na cidade de São Paulo. Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Um estudo epidemiológico em larga escala associa alguns poluentes do ar com morte por câncer de rim, bexiga e colorretal

A poluição do ar é classificada como cancerígena para os seres humanos, devido à sua associação com o câncer de pulmão, mas há pouca evidência de associação com o câncer em outros sítios corporais. Em um novo estudo prospectivo em larga escala, liderado pelo Instituto de Saúde Global de Barcelona (ISGlobal), uma instituição apoiada pela Fundação “la Caixa” e pela Sociedade Americana do Câncer, os pesquisadores observaram uma associação entre alguns poluentes do ar e a mortalidade por câncer do rim, bexiga e colorretal.

O estudo, publicado em Environmental Health Perspectives, incluiu mais de 600 mil adultos nos EUA que participaram do Estudo de Prevenção do Câncer II e que foram acompanhados por 22 anos (de 1982 a 2004). A equipe científica examinou as associações de mortalidade por câncer em 29 locais com exposição residencial a longo prazo a três poluentes ambientais: PM2,5, dióxido de nitrogênio (NO2) e ozônio (O3).

Mais de 43.000 mortes por câncer não pulmonar foram registradas entre os participantes. O PM2,5 esteve associado à mortalidade por câncer de rim e bexiga, com aumento de 14 e 13%, respectivamente, para cada aumento de 4,4 ?g / m3 na exposição. Por sua vez, a exposição ao NO2 foi associada à morte por câncer colorretal, com um aumento de 6% por cada incremento de 6,5 ppb. Não foram observadas associações significativas com câncer em outros locais.

Michelle Turner, pesquisadora da ISGlobal e primeira autora do estudo, explica que “embora vários estudos associem câncer de pulmão com poluição do ar, ainda há poucas evidências de associações em outros sites de câncer”.

“Esta pesquisa sugere que a poluição do ar não foi associada à morte pela maioria dos cânceres não pulmonares, mas as associações com câncer de rim, bexiga e colorretal merecem mais investigação”, ela acrescenta.

Referência

Ambient Air Pollution and Cancer Mortality in the Cancer Prevention Study II. Turner MC, Krewski D, Diver WR, Pope CA 3rd, Burnett RT, Jerrett M, Marshall JD, Gapstur SM. Environ Health Perspect. 2017 Aug 21;125(8):087013.

Fontes – Barcelona Institute for Global Health (ISGlobal) / tradução e edição Henrique Cortez, EcoDebate de 01 de novembro de 2017

Fragmentos plásticos estão presentes em 83% de água da torneira de todo mundo

Fragmentos plásticos estão presentes em 83% de água da torneira de todo mundoFoto: iStock by Getty Images

No Brasil, 9 em 10 amostras continham microplásticos

Ao longo de dez meses a Orb Media realizou uma investigação sobre o plástico em água de torneiras em diversos lugares do mundo. Os resultados foram surpreendentes pois 83 por cento das amostras coletadas continham fibras de plástico, também chamadas de microplásticos. Segundo os autores do estudo, estamos vivendo na ‘Era Plástica’ e a contaminação provavelmente não está limitada somente à nossa água.

Segundo a Orb Media este foi o primeiro estudo científico público do tipo e contou com a parceria de um pesquisador da Escola de Saúde Pública da Universidade de Minnesota, nos EUA. Os autores da pesquisa testaram a água da torneira nos Estados Unidos, Europa, Indonésia, Índia, Líbano, Uganda, Equador e Brasil.

Segundo os pesquisadores, os microplásticos que contaminam nossas águas vêm de uma variedade de fontes, entre elas estão as roupas sintéticas, as poeiras de pneus e até mesmo plásticos encontrados em produtos de higiene e beleza, como pastas de dente e cosméticos. “Foram produzidos mais plástico nos últimos dez anos do que em todo o século passado”, alerta o relatório.

Microplástico presente em produtos esfoliantes | Foto: iStock by Getty Images

No estudo os Estados Unidos foram os recordistas com 94% de amostras com plástico na água da torneira. Os pesquisadores detectaram as fibras plásticas até mesmo na sede da Agência de Proteção Ambiental norte-americana, edifícios do Congresso e na Trump Tower em Nova York. Já o Líbano e a Índia apresentaram as maiores quantidades de contaminação. A Europa tinha o mínimo, porém, os plásticos foram encontrados em 72% das amostras lá.

No Brasil

Em parceria com a Orbi Media, o jornal à Folha também participou do estudo enviando 10 amostras de água da cidades de São Paulo. Segundo matéria publicada no site do jornal, 9 entre 10 amostras continham fragmentos de plástico com números semelhantes aos encontrados ao redor do mundo.

O texto enfatiza que apesar dos brasileiros não possuírem o hábito de beber água diretamente da torneira, ainda a utilizamos para cozinhar. Além disso, os pesquisadores alertam que os plásticos provavelmente já estão presentes em nossa comida.

Fonte – CicloVivo de 08 de setembro de 2017

A exposição de gestantes à poluição do ar influencia o desenvolvimento do feto

Exposição ao ar poluído antes ou durante a gravidez altera a estrutura da placentaAlterações causadas pela poluição atmosférica podem limitar a nutrição e o crescimento do feto, aponta estudo feito por pesquisadores da USP (foto: Phelipe Janning / Agência FAPESP)

Exposição ao ar poluído antes ou durante a gravidez altera a estrutura da placenta

A exposição de gestantes à poluição do ar durante a gravidez influencia o desenvolvimento do feto. A criança pode apresentar baixo peso ao nascer, além de ter aumentada a possibilidade de apresentar determinadas doenças na vida adulta, de acordo com estudos realizados no Brasil e no exterior. Os mecanismos moleculares por trás desses impactos da poluição na gestação, contudo, ainda não estavam completamente elucidados.

Um grupo de pesquisadores da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) constatou agora que a exposição a poluentes atmosféricos, antes ou durante a gravidez, altera algumas características da placenta, além de causar distúrbios em um sistema hormonal relacionado ao fluxo sanguíneo uteroplacentário e diminuir os níveis de fatores envolvidos no processo de formação placentária.

Os resultados do estudo, realizado no âmbito de um Projeto Temático e do doutorado de Sônia de Fátima Soto, feito com Bolsa da FAPESP, foram publicados na revista PLOS ONE.

“Observamos que a exposição a poluentes antes e/ou durante a gravidez desencadeia alguns fenômenos inflamatórios ao longo do desenvolvimento da placenta que comprometem seu crescimento. Isso possivelmente interfere na transferência de nutrientes e de oxigênio da mãe para o feto”, disse Joel Claudio Heimann, professor da FMUSP e orientador de Soto, à Agência FAPESP.

Os pesquisadores realizaram um experimento em que expuseram ratas Wistar – linhagem albina da espécie Rattus norvegicus –, antes de acasalarem e ficarem prenhes, tanto ao ar filtrado como ao ar poluído com concentração de material particulado fino (menor que 2,5 micrômetros) de 600 microgramas (μg) por metro cúbico (m3), utilizando para isso um equipamento chamado concentrador de partículas finas ambientais de Harvard (CPFAH). O tamanho de partícula foi determinado com base nas exposições ambientais reais na Região Metropolitana de São Paulo.

Os animais foram divididos em quatro grupos. O primeiro foi exposto ao ar filtrado antes e durante a gravidez, o segundo foi colocado em contato com ar filtrado antes da gravidez e com ar poluído durante a gravidez, um terceiro grupo foi submetido ao ar poluído antes da gravidez e ao ar filtrado durante a gravidez, e o quarto, ao ar poluído antes e durante a gravidez.

Para simular as condições reais de exposição de mulheres à poluição do ar antes e durante a gravidez em cidades como São Paulo, antes da gravidez os animais foram colocados em contato com ar poluído durante uma hora cinco vezes por semana por três semanas seguidas. A partir do sexto dia de prenhez, o número de exposições foi de sete vezes por semana.

As placentas dos animais foram coletadas no 19º dia de gravidez, dissecadas e pesadas de modo a avaliar os efeitos dos poluentes em sua estrutura e no sistema hormonal renina-angiotensina (RAS) uteroplacentário.

Os resultados das análises indicaram que a exposição ao ar poluído antes e/ou durante a gravidez diminuiu a massa, o tamanho e a área superficial da placenta e causou alterações no sistema RAS.

Estudos anteriores apontaram que distúrbios nesse sistema podem levar a uma redução do fluxo sanguíneo uteroplacentário. Além disso, a angiotensina II (AngII) – um peptídeo que faz parte desse sistema – é um potente regulador da migração e invasão de trofoblasto – camada de células epiteliais que forma a parede externa da blástula dos mamíferos (blastocisto) e atua na implantação e nutrição do embrião – no início da gravidez.

A invasão da vasculatura materna pelo trofoblasto é um pré-requisito para o estabelecimento de uma placenta normal e a continuação da gravidez, explicaram os pesquisadores.

“Constatamos que a exposição das ratas prenhes à poluição antes e/ou durante a gravidez causou alterações no sistema renina-angiotensina dos animais. Mas são necessários novos estudos para elucidarmos mecanismos moleculares adicionais”, disse Heimann.

Interferência na formação da placenta

Os pesquisadores também avaliaram os efeitos da exposição ao ar poluído em fatores que influenciam o processo de formação da placenta, como o fator de crescimento de transformação beta 1 (TGFβ1) e o fator de crescimento endotelial vascular (VEGF-A).

Diversos estudos sugeriram que o TGFβ1 tem um papel na invasão da mucosa que recobre a face interna do útero (endométrio). E, nos mamíferos, o TGFβ1 pode regular uma variedade de funções celulares, incluindo proliferação, diferenciação, morte programada (apoptose) e invasão de células placentárias.

O VEGF-A também desempenha um papel na formação da placenta ao modular a angiogênese, ligando-se a seus dois receptores: tirosina quinase 1 relacionada a fms (Flk-1) e tirosina quinase 1 hepática fetal (Flt-1). As análises moleculares indicaram que a exposição ao ar poluído diminuiu o conteúdo de TGFβ1 e Flk-1 na placenta dos animais.

A porção materna da placenta das ratas expostas a ar poluído antes da gravidez e a ar filtrado durante a gravidez, comparada com a daquelas colocadas em contato com ar poluído antes e durante a gravidez, apresentou diminuição nos níveis de angiotensina II (AngII) e seus receptores AT1 (AT1R) e AT2 (AT2R).

Na porção fetal da placenta das ratas expostas a ar filtrado antes da gravidez e a ar poluído durante a gravidez, a ar poluído antes da gravidez e a ar filtrado durante a gravidez e a ar poluído antes e durante a gravidez, os níveis de AngII também diminuíram. Contudo, a AT1R aumentou no grupo de animais expostos a ar filtrado antes da gravidez e a ar poluído durante a gravidez.

A expressão do gene VEGF-A foi menor no grupo de ratas expostas a ar poluído antes e durante a gravidez em comparação com os animais colocados em contato com ar filtrado antes e durante a gravidez.

Essas alterações indicam um possível comprometimento da invasão de trofoblasto e na angiogênese (formação de novos vasos sanguíneos) da placenta, explicou Heimann.

“Isso pode ter consequências para a interação entre mãe e feto, como também limitar a nutrição e o crescimento fetal”, afirmou.

O artigo Exposure to fine particulate matter in the air alters placental structure and the renin-angiotensin system (doi: 10.1371/journal.pone.0183314), de Sônia de Fátima Soto, Juliana Oliveira de Melo, Guilherme D’Aprile Marchesi, Karen Lucasechi Lopes, Mariana Matera Veras, Ivone Braga de Oliveira, Regiane Machado de Souza, Isac de Castro, Luzia Naôko Shinohara Furukawa, Paulo Hilário Nascimento Saldiva e Joel C. Heimann, pode ser lido em http://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0183314.

Fonte – Elton Alisson, Agência FAPESP  de 30 de outubro de 2017

Poluição é mais mortal que guerra, fome e cigarro

A poluição ambiental – de ar poluído à água contaminada – mata mais pessoas todos os anos do que todos os conflitos armados e violência no mundo todo. Mata mais que cigarro, fome e desastres naturais. Mais que AIDS, tuberculose e malária juntos.

Mas como isso pode ser possível? Uma a cada seis mortes prematuras no mundo no ano de 2015 (9 milhões de pessoas) são atribuídas a doenças causadas por exposição tóxica, de acordo com estudo publicado na revista de medicina Lancet em meados de outubro.

O custo financeiro de doenças relacionadas à poluição é igualmente massivo, custando US$4,6 trilhões em perdas anuais, cerca de 6,2% da economia global.

“Há muitos estudos sobre poluição, mas nenhum que tenha recebido os fundos ou atenção como a AIDS ou mudanças climáticas”, aponta o epidemiologista Philip Landrigan, reitor da Icahn School of Medicine (Nova York) e pesquisador principal do trabalho.

O relatório marca a primeira tentativa de reunir dados sobre doenças e mortes causadas por toda forma de poluição combinada.

“Poluição é um problema massivo que as pessoas não enxergam porque elas estão olhando para partes espalhadas dela”, diz Landrigan.

Para piorar a situação, essas 9 milhões de mortes prematuras são apenas uma estimativa, e o número de pessoas mortas pela poluição com certeza é maior. Este número deve crescer assim que mais pesquisas forem realizadas e novos métodos para avaliar os impactos negativos forem desenvolvidos.

Regiões do mundo como a África Subsaariana ainda precisam instalar sistemas de monitoramento da poluição do ar. Já a poluição do solo tem recebido uma atenção mínima. E ainda há muitas toxinas em potencial que são ignoradas nesses escassos monitoramentos. Menos de metade das 5 mil novas substâncias que estão sendo espalhadas pelo mundo desde 1950 já foram testadas para avaliar se são seguras ou se são tóxicas.

Fogo no rio Cuyahoga (EUA) em 1969

“No ocidente, retiramos chumbo da gasolina, então pensamos que o problema do chumbo estava resolvido. Nos livramos dos rios que queimam [com óleo e outros poluentes], limpamos os locais mais tóxicos. E então essas discussões ficaram em segundo plano”, explica Richard Fuller, alertando que justamente no período da explosão industrial em países em desenvolvimento, os países desenvolvidos abandonaram a causa. Fuller é diretor da Pure Earth, ONG internacional que se dedica à despoluição dos países em desenvolvimento.

“Em certo sentido, esses países olham para o ocidente procurando por exemplos e discussões, e nós as abandonamos”, lamenta Fuller.

Países mais poluídos


A poluição de Pequim pode ser vista do espaço

A Ásia e África são as regiões que mais colocam as pessoas em situação de risco, segundo a pesquisa, enquanto a Índia está em primeiro lugar na lista de países individuais em pior situação.

Uma em cada quatro mortes prematuras na Índia em 2015, ou 2,5 milhões, foram atribuídas à poluição. O meio ambiente da China ficou em segundo lugar como mais mortal, com mais de 1,8 milhões de mortes prematuras (20% das mortes).

Vários outros países como Bangladesh, Paquistão, Coreia do Norte, Sudão do Sul e Haiti também observam 20% de suas mortes relacionadas com doenças vindas da poluição.

Mesmo assim, muitos países pobres têm tornado o controle da poluição a prioridade número um. A Índia tem tomado medidas recentes como diminuir a emissão de gases poluentes de veículos e fábricas e limitar ocasionalmente o número de carros nas ruas de Nova Deli. O país, porém, ainda tem tomado medidas muito tímidas quando se trata de queimadas de plantações, incêndios de lixo e poeira de construção, além do enorme uso de combustíveis fósseis poluentes.

Lei dos fogos de artifício

Uma medida curiosa adotada pela cidade de Nova Deli no festival Diwali, que caiu no dia 19 de outubro, foi proibir residentes de lançarem fogos de artifício. O grande feriado é comemorado com presentes, doces e rojões. Mesmo assim, a lei não foi respeitada, e os moradores acordaram neste 20 de outubro com a cidade envolta em uma fumaça acre e altos níveis de uma partícula perigosa no ar, a PM 2,5. Estas partículas não só podem causar doenças debilitantes como câncer de pulmão e asma, como também podem desencadear paradas cardíacas e acidentes vasculares cerebrais. A concentração da PM 2,5 no ar foi de 900 partes por milhão, 90 vezes superior ao limite estabelecido pela Organização Mundial da Saúde.

“Mesmo com o surgimento de normas melhores, os níveis de poluição continuam aumentando”, afirma Schamhavi Shukla, pesquisador do Centro de Ciência e Ambiente de Nova Deli.

Poluição do solo, ar e água

Para chegar aos resultados do estudo, os pesquisadores usaram métodos estabelecidos pela Agência de Proteção Ambiental dos EUA para acessar dados de campo sobre testes da poluição do solo, ar e água realizados pelo Global Burden of Disease.

O Global Burden of Disease é um estudo em andamento feito por instituições como a Organização Mundial da Saúde, o Instituto de Métricas da Saúde e a Universidade de Washington (EUA).

Comparação com outras causas de morte

A estimativa de 9 milhões de mortes causadas pela poluição é 1,5 vezes maior que o número de pessoas que morrem por fumar; 3 vezes maior que o número de pessoas mortas pela AIDS, tuberculose e malária combinadas; mais de 6 vezes o número de pessoas mortas em guerras e por outras formas de violência.

Talvez o problema seja ignorado por muitos porque ele afeta principalmente uma maioria que é ignorada: os mais pobres. A maioria das mortes, 92%, acontecem em países de baixa e média renda, onde políticos estão mais preocupados em fazer a economia crescer e construir infraestrutura básica. Regulamentações nesses países costumam ser fracas e as indústrias se apoiam em tecnologias ultrapassadas e poluentes.

Mesmo em países ricos onde a poluição não é gritante, é a parte mais pobre da população que fica mais exposta à poluição, segundo a pesquisa.

Indústria poluidora x crescimento da economia


Smog perto de Nova Deli 2016

“O que as pessoas não percebem é que a poluição causa danos para as economias. Pessoas que estão doentes ou mortas não podem contribuir economicamente”, diz Fuller.

“Há esse mito de que você precisa deixar que a indústria polua ou então não há desenvolvimento. Isso não é verdade”, acrescenta ele. Uma prova disso é que cada dólar investido no controle da poluição do ar nos EUA desde 1970 representa uma ganho de US$30 em produtividade e saúde para o país. Remover o chumbo da gasolina nos anos 1980 significou uma economia acumulada de US$6 trilhões, de acordo com pesquisas do Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA.

O Banco Mundial declarou que reduzir todos os tipos de poluição deve ser uma prioridade global, e em dezembro de 2017 a ONU deve organizar sua primeira conferência sobre poluição.

“A ligação entre poluição e pobreza é muito clara. E controlar a poluição poderia nos ajudar a cuidar de muitos outros problemas, da mudança climática à desnutrição”, afirma Ernesto Sanchez-Triana, especialista em meio ambiente do Banco Mundial.

Fontes – Phys.org / Juliana Blume, Hypescience de 20 de outubro de 2017

Poluição do ar reduz o potencial de geração de energia solar na China

A China está expandindo rapidamente seu fornecimento de energia solar, esperando satisfazer 10% das necessidades de eletricidade do país com energia solar até 2030. Mas há um problema: a severa poluição do ar está bloqueando a luz do sol, reduzindo significativamente a produção da energia solar, particularmente nas partes norte e leste do país.

Esta questão é pior no inverno, quando – de acordo com pesquisas da Universidade de Princeton – a poluição do ar nessas regiões bloqueia cerca de 20% da luz solar que chegaria às matrizes do painel solar, em média. Isso faz com que o efeito da poluição atmosférica no inverno, sobre a produção de energia solar, seja tão significativo como o das nuvens, que há muito tem sido considerado o principal impedimento para a produção de energia solar.

Publicado no Proceedings of the National Academy of Sciences, o estudo mostra que, nas áreas mais poluídas do norte e leste da China, a poluição por aerossóis está reduzindo o potencial de geração de eletricidade solar em até um quilowatt-hora por metro quadrado por dia, ou até 35 por cento. Isso é suficiente para alimentar uma aspiradora por uma hora, lavar 12 quilos de roupa ou trabalhar em um laptop por até 10 horas.

A combustão de combustíveis fósseis aumenta as concentrações de aerossóis na atmosfera. Outros pesquisadores reconheceram que esses aerossóis, que incluem sulfato, nitrato, partículas de carbono preto e compostos orgânicos, estão contribuindo para o escurecimento solar em grandes partes da China. Mas nenhuma pesquisa anterior calculou apenas quanto os aerossóis na atmosfera estão reduzindo a eficiência da energia solar da China.

Para calcular a quantidade de radiação do sol que atinge os arrays solares no chão, os cientistas usaram o chamado modelo de desempenho solar fotovoltaico, combinado com dados de satélite de instrumentos da NASA que medem a irradiância do sol e analisam componentes de aerossóis e nuvens na atmosfera. Eles realizaram nove análises separadas, que abrangeram de 2003 a 2014 e cobriram toda a China, para comparar o impacto dos aerossóis em comparação com as nuvens na geração de energia solar com e sem tecnologia que rastreia o sol à medida que se move através do céu.

As descobertas do estudo deveriam estimular países como a China e a Índia a reduzir as emissões de aerossóis, de modo que reduzam a poluição e, assim, aumentem sua geração de energia solar mais rapidamente, além dos já conhecidos benefícios para a saúde. Existe também potencial para um ciclo virtuoso: expandir a produção de energia solar poderia reduzir a dependência de combustíveis fósseis, reduzindo assim as próprias emissões que prejudicam a produção de energia solar. Isso enviaria mais eletricidade solar para a rede – o que, por sua vez, deveria reduzir ainda mais a necessidade de combustíveis fósseis.

As descobertas também podem ajudar a determinar onde construir novos arrays solares. A poluição por aerossóis na China está fortemente concentrada em regiões industrializadas e urbanizadas, enquanto áreas remotas e pouco povoadas têm ar mai limpo. Se a pesquisa pode quantificar o quanto a poluição do ar está reduzindo a produção de energia solar, os formuladores de políticas podem pesar os custos de transmissão de eletricidade de regiões mais limpas para mais sujas, avaliando os benefícios de produzir mais energia construindo arrays onde mais luz solar atinge o solo.

Para o próximo projeto, os pesquisadores estão ampliando suas análises para outras regiões do mundo, incluindo a Índia, que sofre de níveis de poluição do ar tão altos quanto os da China. Além de como os poluentes atmosféricos na atmosfera reduzem a geração de eletricidade ao absorver a luz solar, eles também examinarão como os poluentes do ar podem reduzir a geração de energia, sujando os próprios painéis solares.

Referência

“Reduction of Solar Photovoltaic Resources Due to Air Pollution in China”, de Xiaoyuan Li, Fabian Wagner, Wei Peng, Junnan Yang e Denise L. Mauzerall, em Proceedings of the National Academy of Sciences. http://www.pnas.org/content/early/2017/10/23/1711462114

Fontes – Princeton University, Woodrow Wilson School of Public and International Affairs, tradução e edição Henrique Cortez, EcoDebate de 25 de outubro de 2017