Por FUNVERDE - 15 de julho de 2026 - Muito antes da eletricidade, já existiam reservatórios…
Antártida verde
Camada de musgo fotografada por Amesbury na Green Island, a oeste da Península Antártica: tendência de expansão (Foto: Matt Amesbury / Universidade de Exeter)
Musgos estão ocupando áreas cada vez maiores na Península Antártica, mais uma indicação do aquecimento acelerado que está ocorrendo no sul da Terra
Quando se pensa na Antártida, o que vem à mente de quase todo mundo é uma vastidão gelada e branca, um continente distante e deserto – a não ser pelos pinguins e outros raros animais que lá vivem. Mas essa paisagem conhecida está mudando, tingindo-se de verde em alguns pontos. Um estudo realizado pela Universidade de Exeter, na Inglaterra, e publicado em maio no periódico científico americano Current Biology, mostra que, por causa do aquecimento global, os musgos estão se expandindo de maneira preocupante nas regiões antárticas mais ao norte. Isso vem ocorrendo, principalmente no verão, nas ilhas Elefante, Ardley e Green, a oeste da Península Antártica, onde está localizada a Estação Comandante Ferraz, do Brasil.
O continente mais ao sul do planeta nem sempre foi a imensidão branca que se vê atualmente. Nos períodos geológicos do Cretáceo (de 145 a 66 milhões de anos atrás) e do Eoceno (de 55 milhões a 36 milhões de anos atrás), por exemplo, a Antártida chegou a abrigar florestas em algumas regiões do seu território. Com 14 milhões de quilômetros quadrados de terra (uma vez e meia a área do Brasil) quase totalmente cobertos com uma camada de gelo de 2,1 quilômetros de espessura em média (mas que em alguns pontos pode chegar a quase 5 quilômetros), e mais 20 milhões de quilômetros quadrados de mar congelado no inverno (1,6 milhão de km2 no verão), atualmente ela tem vegetação, principalmente musgos, em apenas 0,3% de sua área.
Uma das camadas de musgo flagradas por Amesbury na Península Antártica, vista em plano mais aberto (à esq.) e em detalhe (à dir.) (Fotos: Matt Amesbury/Universidade de Exeter)
O que o trabalho dos pesquisadores britânicos indica é que essa situação pode mudar num futuro não muito distante. Eles começaram a realizar pesquisas na região há quatro anos. Na época, constataram um aumento do crescimento dos musgos no sul da Península Antártica (onde se localiza a camada mais grossa e antiga dessas plantas). Depois, eles estenderam os estudos para as três ilhas mais ao norte, analisando amostras de solo coberto por cinco espécies de musgos, recolhidas numa extensão de aproximadamente 640 quilômetros. Os cientistas verificaram que duas delas estão crescendo num ritmo entre quatro e cinco vezes mais rápido do que nas décadas passadas. “Concluímos que o fenômeno está ocorrendo em toda a península”, disse, durante a apresentação do levantamento, seu autor principal, o paleoclimatologista britânico Matt Amesbury.
Agravamento
O crescimento anormal dos musgos ocorre sobretudo no verão, e apenas nas três ilhas, quando o solo descongela, diminuindo ou cessando no inverno, quando a região volta a se congelar. O problema vem se agravando, no entanto, por causa do aquecimento global, que torna a camada de gelo do inverno cada vez mais fina e diminui sua duração. A Antártida tem se aquecido mais rapidamente que o restante do planeta. Desde 1950, a temperatura média do continente tem aumentado 0,5°C a cada década. Nas ilhas estudadas o aquecimento é ainda maior. “Nelas, o aumento de temperatura foi de 3°C nas últimas décadas”, afirma o pesquisador Jefferson Cardia Simões, do Centro Polar e Climático da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), e vice-presidente do Comitê Científico Internacional sobre Pesquisas Antárticas.
A população da ave skua, predadora de pinguins, poderá crescer com o aumento da vegetação (Foto: iStockphoto)
De acordo com ele, como a escala do fenômeno ainda é relativamente pequena, por enquanto não haverá consequências para o continente nem para o clima da região. Em relação aos seres vivos que vivem na Antártida, não existem estudos conclusivos sobre os impactos que eles poderão vir a sofrer. “A tendência é que esse processo [de crescimento das plantas] se intensifique nas próximas décadas, considerando mudanças no clima e na circulação oceânica”, observa Simões. “Se persistirem os cenários de aquecimento global apresentados pela comunidade científica, não há muito o que fazer. O sistema ambiental se adaptará a essa nova situação. Biólogos estudam no momento as consequências para a biota [o conjunto de seres vivos que habitam um determinado ambiente ecológico] na região da Península Antártica.”
A bióloga, mestre e doutora em botânica Juçara Bordin, da Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (UERGS), ressalta outro aspecto do fenômeno. “Se as áreas livres de gelo aumentam, cresce a área de solo exposto, assim como a proliferação de microrganismos que produzem dióxido de carbono (CO2) para a atmosfera, contribuindo para o aquecimento global”, explica. “O aumento da vegetação também propicia o crescimento maior de populações de aves como as skuas, que se alimentam de pinguins – ou seja, as populações deles poderão diminuir. De acordo com os estudos feitos por Amesbury, essas mudanças, combinadas com o aumento das áreas terrestres livres do gelo por causa da retração dos glaciares, produzirão alterações em larga escala no continente, tanto em termos do seu funcionamento biológico, quanto da sua aparência.”
Campos antárticos
Para o biólogo e mestre em botânica Paulo Eduardo Aguiar Saraiva Câmara, do Departamento de Botânica da Universidade de Brasília (UnB), se essa tendência de aquecimento do continente gelado continuar, a Península Antártica deverá ficar cada vez mais verde e cheia de plantas. “Assim sendo, poderá evoluir no futuro para algo como um campo, parecido com o que encontramos em regiões subantárticas ou ilhas como as Falklands/Malvinas”, observa. “Esse é um processo natural que chamamos de sucessão ecológica, mas que pode ocorrer de forma mais acelerada se o cenário climático se mantiver.”
Concepção artística da nova estação científica brasileira na Antártida: inauguração em 2018 (Foto: Divulgação)
Segundo ele, o clima na região deve ficar mais quente a cada ano e fenômenos climatológicos, como nevascas, tempestades e rajadas de vento, tendem a ocorrer de forma mais extrema e intensa. “Vale lembrar que estamos falando apenas da vegetação”, ressalva. “Diversos outros seres vivos apresentam conexão com essa vegetação antártica e seriam diretamente impactados (de forma positiva ou negativa, dependendo do grupo que considerarmos) com as possíveis mudanças.”
Além disso, existe o enorme risco de que espécies exóticas e invasoras possam também se estabelecer na Antártida. “Estudos demonstram que diversos tipos de propágulos (como sementes, por exemplo) de outras plantas chegam até lá, mas não conseguem se propagar devido às condições extremas”, diz. “Todavia, já existe uma espécie de gramínea invasora, a Poa annua L., que viceja na região da Baía do Almirantado, onde fica a Ilha Rei George, provavelmente trazida pelo homem. Com o aumento da média das temperaturas e o crescente degelo expondo uma área maior de solo, a possibilidade de essas plantas invasoras colonizarem com sucesso o continente tende a aumentar.”

Fogo e reconstrução
Às 2h de 25 de fevereiro de 2012 teve início um incêndio que destruiu 70% da Estação Antártica Comandante Ferraz (EACF), do Brasil, e matou dois marinheiros. A estação abrigava laboratórios e servia de moradia temporária para cientistas brasileiros que realizavam estudos na Antártida. A tragédia abalou as pesquisas do país no continente, mas não as paralisou. “Apenas 20% dos projetos foram afetados”, diz o pesquisador Jefferson Cardia Simões, do Centro Polar e Climático da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), vice-presidente do Comitê Científico Internacional sobre Pesquisas Antárticas.
Para manter as pesquisas até uma nova estação ser construída, foram instalados vários Módulos Antárticos Emergenciais (MAEs) perto das antigas instalações. Os pesquisadores brasileiros contam ainda com vários refúgios no continente e com o módulo científico Criosfera I, situado 2.500 quilômetros ao sul da EACF, além dos navios oceanográficos Almirante Maximiano e Ary Rongel. O Brasil está erguendo uma nova estação. O projeto arquitetônico, da empresa Estúdio 41, foi aprovado em 2014, mas, por problemas de licitação, as obras só começaram em 2016. Orçadas em US$ 99,6 milhões, elas estão a cargo da construtora China Electronics Import and Export Corporation (Ceiec). A estação deverá ser inaugurada em março de 2018.
Fonte – Evanildo da Silveira, Revista Planeta de
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