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Na nova onda tecnológica, produção de alimentos migra do campo para armazéns automatizados

Manjericão produzido com tecnologia patenteada pela Plenty. Manjericão produzido com tecnologia patenteada pela Plenty. PHOTO: PLENTY

Em um armazém reformado na Baía de San Francisco, torres de plástico com 20 metros de altura produzem cabeças de alface, rúcula e ervas, iluminadas por luzes LED multicoloridas que dão ao barracão uma sensação futurista.

Um grupo de empresários e investidores da tecnologia, entre eles os bilionários Jeff Bezos e Eric Schmidt, estão apostando que esse tipo de estrutura pode redefinir como legumes, hortaliças e frutas são cultivados para consumo local.

Se tudo correr como planejado, o armazém de quase cinco mil metros quadrados administrado pela Plenty United Inc. produzirá até 1.400 toneladas de vegetais por ano. Nos próximos meses, a empresa planeja começar a comercializar localmente os produtos frescos cultivados e não enviá-los para outros locais.

“Estamos cultivando para as pessoas, não para os caminhões”, diz Matt Barnard, 44 anos, um dos fundadores e diretor-presidente da empresa, que antes trabalhava com investimento em tecnologia e cujo pai produz cerejas e maçãs em Wisconsin.

A Plenty faz parte de uma onda de “startups” que busca transformar parte do varejo de hortifrútis dos Estados Unidos, um mercado que movimenta US$ 49 bilhões ao ano, migrando as lavouras produzidas a céu aberto para armazéns gigantes, fábricas abandonadas e contêineres de transporte reaproveitados. Essas instalações fechadas são equipadas com sensores que medem a temperatura e a umidade, sistemas automatizados que bombeiam água e nutrientes e faixas de luzes LED que fornecem energia — sem a necessidade de luz solar ou de solo.

Empresas como a Plenty, AeroFarms LLC e Freight Farms Inc. já captaram dezenas de milhões de dólares, impulsionadas pela queda nos custos da iluminação LED e nos sistemas de aquecimento e resfriamento. As startups têm a meta de produzir para restaurantes e supermercados das redondezas durante o ano todo, eliminando as dificuldades provocadas pelas estações e mudanças climáticas que regem a produção das lavouras tradicionais.

Levar séculos de engenharia agrícola para dentro de recintos fechados não é uma tarefa fácil. Os custos de equipar armazéns com alta tecnologia, além dos altos preços de imóveis urbanos, dificultam uma equiparação com os custos de alimentos cultivados no campo.

A produção agrícola em recintos fechados pode ter menos impacto ambiental que a agricultura convencional, dizem seus defensores, embora seja difícil avaliar a diferença com precisão. Os sistemas da Plenty reutilizam a água, evitam em grande parte os pesticidas e podem reduzir o uso de combustível em tratores e no transporte para entregar os produtos; mas os sistemas de controle climático e luzes LED adicionam custos no consumo de energia.

A empresa não divulga seus custos nem permitiu que seus sistemas fossem fotografados.

Algumas startups agrícolas estão repensando suas estratégias. A BrightFarms Inc., que tem sede em Nova York, cancelou planos para uma grande estufa em Washington, D. C. e uma outra fazenda no alto de um edifício em Nova York, devido aos custos e ao tempo necessário para obter alvarás e licenças. A FarmedHere LLC, com sede em uma antiga fábrica no subúrbio de Chicago, fechou as portas por seis meses para revisar seu modelo.

Até mesmo a gigante tecnológica Alphabet Inc., controladora do Google, tentou produzir alimentos em ambientes fechados, mas abandonou o projeto em 2015, depois de não conseguir a eficiência necessária no consumo de energia.

A Plenty acredita que pode reduzir os custos ao produzir em grandes armazéns instalados em regiões de propriedades baratas fora dos grandes centros urbanos e melhorar a eficiência através da utilização de uma técnica chamada aprendizagem de máquina, pela qual computadores analisam grandes conjuntos de dados para tomar decisões.

Para colocar seu primeiro armazém em operação, a Plenty arrecadou US$ 26 milhões entre investidores de peso, incluindo fundos que investem em nome de Bezos, diretor-presidente da Amazon.com Inc., e Schmidt, presidente do conselho executivo da Alphabet. Firmas de investimento, entre elas a DCM Ventures e a Finistere Ventures LLC, também contribuíram.

A Plenty, fundada em 2014, precisará levantar muito mais capital para cumprir os planos de operar 60 fazendas nas regiões das principais cidades dos EUA e mais de 300 no mundo todo.

Alguns investidores no setor agrícola dizem que grandes fazendas em ambientes fechados vão ter dificuldades para equilibrar operações de capital intensivo com os preços baixos que os consumidores esperam pagar por alface e outros vegetais.

“O conceito de armazém ainda apresenta questões ambientais ligadas ao aquecimento e resfriamento, o que pode ser extremamente caro”, diz Todd Dagres, sócio da empresa de capital de risco Spark Capital. A Spark investiu na Freight Farms, empresa que instala equipamentos de estufa em contêineres de transporte marítimo para produzir hortifrútis em fazendas de menor escala, que são mais eficientes, segundo Dagres.

Barnard disse que a Plenty pode hoje produzir 150 vezes mais alface por metro quadrado por ano que uma lavoura ao ar livre, e usando 1% da água. Ele se recusou a especificar os preços esperados para seus produtos, mas disse que este ano a Plenty deve ser capaz de cultivar e comercializar alface e ervas ao mesmo custo que as versões cultivadas em campo.

Fnte – Jacob Bunge e Eliot Brown, The Wall Street Journal de 15 de fevereiro de 2017

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