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Não há água para tanta soja

“Assistimos ao avanço da soja em velocidade quase meteórica sobre vastíssimas áreas de pastagem nativa no RS”. (Foto: Marco Weissheimer/Sul21)

O 8º Fórum Mundial da Água que recentemente reuniu de chefes de Estado e representantes da sociedade civil organizada em Brasília, não recebeu o devido lugar na mídia. Afinal, por que o tema nos preocuparia se temos as maiores reservas mundiais de água doce (12%), mesmo que 70% dela estejam na bacia amazônica? Por que nos preocuparíamos com estiagens ou ações de conscientização e racionalização do uso da água? E, vamos ser sinceros, porque tratar disso agora se temos copa do mundo e eleições nos próximos meses? Isso sem falar na infindável série de casos de corrupção e violência que alimenta a pauta da imprensa e nossas preocupações mais cotidianas.

Apesar das inúmeras pautas, é urgente tratar deste tema. E, ao fazer isso, é fundamental compreender as implicações da relação entre o uso dos recursos hídricos e nosso modelo de produção agropecuária e, mais amplamente, de desenvolvimento econômico. Utilizar 72% ou 10% da água doce para fins agropecuários, leia-se especialmente produção de commodities, não é uma mera distinção percentual ou interpretativa sobre usos da água doce disponível. Afinal de contas, há quem insista em transformar mais uma das nossas vantagens comparativas (disponibilidade de água doce e solo fértil, por exemplo) em um trunfo econômico e político capaz de nos alçar em voos mais altos em relação aos indicadores de desenvolvimento. Duvido!

A conversão de bilhões de litros de água em produtos agropecuários, particularmente em commodities, ainda não encontra eco na sociedade, embora esta mesma sociedade esteja assustada com a velocidade das mudanças climáticas e seus efeitos imediatos, como é o caso do racionamento de água por longos períodos, a perda de safras e a morte de animais, fatos cada vez mais corriqueiros e impactantes especialmente naqueles municípios em que a economia gira entorno da agropecuária. Isso tem se tornado um verdadeiro drama, antes quase circunscrito ao semiárido nordestino. Não se enganem, eventos como este que assistimos atualmente em vastas áreas da metade sul do Rio Grande do Sul serão recorrentes e especialmente danosos se continuarmos introduzindo monocultivos e outras formas insustentáveis de manejo do solo, da água e de outros recursos naturais.

Insistir na transformação de boa parte do Bioma Pampa gaúcho em áreas destinadas a silvicultura ou, ainda mais recentemente, em extensos plantios de soja não deixa apenas a população e os recursos ambientais existentes e envolvidos menos resilientes, mas, também, muito mais vulneráveis econômica e socialmente uma vez que o apetite chinês por commodities agrícolas e/ou os protecionismos econômicos podem impactar negativamente o próprio desenvolvimento local e regional. Por conta de eventos econômicos semelhantes a estes, boa parte das propaladas “poupanças verdes” tornaram-se “passivos ambientais”, impondo não apenas mudanças na paisagem mas, também, alterações significativas em relação ao uso do solo e da própria água.

Para coroar, assistimos ao avanço da soja em velocidade quase meteórica sobre vastíssimas áreas de pastagem nativa e sobre áreas destinadas à produção de arroz na quase totalidade dos municípios da metade sul do Rio Grande do Sul. Trata-se de um processo muito claro de sojicização da agricultura, com impactos também evidentes na disponibilidade ou potencial hídrico dos municípios da metade sul, talvez nunca antes tão impactados uma vez que não tínhamos a mesma clareza acerca das mudanças climáticas. Claro que estabelecer e sustentar uma relação causal única e inequívoca entre a sojicização da agricultura e os efeitos da estiagem não parece muito producente. Ainda menos producente seria negá-la!

Vejamos… Seria pura coincidência que, entre os municípios da metade sul que recentemente decretaram situação de emergência (reconhecida ou não pela Defesa Civil) em função da falta de chuvas, a área cultivada com soja tenha passado de pouco mais de 50 mil hectares em 2007 para mais de 220 mil hectares em 2015? As alterações não são apenas na paisagem. São, antes de tudo, questões que dizem respeito ao próprio desenvolvimento destes municípios e da região como um todo. Alguns dirão em alto e bom som: tem a China, que consome mais de 50% da soja produzida no Rio Grande do Sul, boa parte dela produzida em solo antes coberto e protegido pela vegetação e pastagem nativa, outra parte em áreas alagadas de arroz. Sim, estamos destinando solo fértil, água doce, suor, conhecimento e amplos recursos públicos para sustentar (alguns entendem como baratear) a consolidação ainda mais cristalina do poderio econômico da China sobre o mundo, especialmente sobre os países pobres e emergentes no que diz respeito às importações de commodities agrícolas, para não falar na compra de terras e outras estratégias associadas à produção de alimentos.

Disso tudo, o que nos resta? Resta não naturalizar que as estiagens e, especialmente seus efeitos nefastos sobre os recursos naturais e as populações, só serão abrandados quando a chuva voltar. Reconhecer que nossa ação antrópica, especialmente quando resulta na transformação de solos férteis e água em produtos de baixíssimo ou nenhum valor agregado, como é o caso das commodities agrícolas, impacta o dia a dia das pessoas, sua qualidade de vida e também o desenvolvimento como um todo. A insustentabilidade do modelo agrícola vigente acaba sendo insustentável sob todos os aspectos. Durma com um barulho desses!

Marcelo Conterato é Professor do Departamento de Economia e Relações Internacionais (DERI) e do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Rural (PGDR) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). É integrante do Grupo de Pesquisa em Agricultura Familiar e Desenvolvimento Rural (GEPAD).

Fonte – Sul21 de 28 de março de 2018

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