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O Futuro Pós-pandemia é Do Plástico, E Ele Não Será Reciclado!

O futuro pós-pandemia é do plástico, e ele não será reciclado!

The Wall Street Journal

Mundo vive dilema entre uso de embalagens para preservar higiene e produção excessiva de lixo

A reabertura do mundo depois dos lockdowns do coronavírus está embrulhada em plástico, cuja maior parte não será reciclada.

O vírus deu uma nova base para os plásticos não reutilizáveis, antes criticados pelo lixo que eles geram. Para conter a transmissão da Covid-19, bares estão servindo bebidas em copos plásticos, supermercados embrulham frutas e produtos de padaria, antes soltos, e escritórios estão cobrindo tudo de plástico, de maçanetas a botões de elevador.

Os esforços para combater o vírus estão promovendo as vendas dos fabricantes de plásticos, que citam a pandemia para fazer lobby contra as proibições e afirmam que seus produtos preservam a higiene. Mas há um detalhe: muitos plásticos cuja demanda saltou também são os mais difíceis de reciclar.

Sacolas de supermercado, filmes e saquinhos plásticos geralmente são difíceis para o equipamento de reciclagem identificar, separar e fundir, porque são feitos de diversos tipos de plástico, ou de plástico misturado com outros materiais.

Montagem com lixos descartados pelas ruas de Paris durante a quarentena causada pela Covid-19 – Joel Saget – 18.jun.2020/AFP

As embalagens mais flexíveis feitas de um único plástico —como sacolas de polietileno— também não são recicladas porque precisam ser coletadas separadamente para evitar que as máquinas as confundam com papel.

Apesar disso, a demanda nos Estados Unidos por embalagens flexíveis —a maior parte feita de plástico– deverá saltar 10% neste ano, comparada com 3% no ano passado, segundo a firma de pesquisas Wood Mackenzie. Na Europa, o crescimento é estimado em mais de 5%, comparado com 1,5% no ano passado.

“Nossas vendas estão disparadas”, disse em entrevista Kevin Kelly, executivo-chefe da Emerald Packaging, sediada em Union City, na Califórnia, que produz sacos e embalagens para doces, legumes e outros alimentos. “Enquanto o vírus estiver por aí, as pessoas continuarão comprando produtos embalados.”

O coronavírus também aumentou as vendas de luvas e máscaras de proteção, que muitas vezes contêm plástico. Os fabricantes das máscaras tradicionais aumentaram a produção, enquanto montes de novos atores surgiram no mercado. Mas as máscaras e luvas também não podem ser amplamente recicladas, e têm sido encontradas no lixo no mundo inteiro. O governo francês disse neste mês que duplicará as multas por lixo, para reduzir o lixo plástico gerado pela Covid-19.

A aceleração do comércio eletrônico impelido pelas quarentenas esquentou as vendas de envelopes plásticos, segundo a gigante de embalagens Sealed Air Corp. A companhia também está explorando novas oportunidades para seu filme plástico usado para embrulhar carne, inclusive na China, onde espera que os mercados desistam de pendurar carne crua.

“Achamos que haverá um crescimento contínuo em termos de alimentos embalados”, disse em entrevista Sergio Pupkin, estrategista da Sealed Air, citando as crescentes preocupações com a higiene.

A fábrica de sorvetes My/Mo Mochi, em Los Angeles, começou recentemente a vender seus produtos em recipientes plásticos individuais, e poderá mantê-los. “Não sei se um dia voltaremos ao aberto e fresco”, disse o chefe de marketing Russell Barnett, citando menos desperdício de alimento e melhor higiene.

 

Mercearia em Marselha, na França, usa proteção com plástico filme para atender os clientes – Anne-Christine Poujoulat – 18.jun.2020/AFP

“Qualquer coisa que você costumava ver como um artigo fresco, agora será um artigo fresco embalado.”
Os executivos do plástico dizem que o vírus salvou seus produtos muitas vezes amaldiçoados.

“Esta sociedade está reconhecendo os benefícios do plástico que mencionamos há anos”, disse Cassie Bradley, gerente de sustentabilidade da Ineos Styrolution. “São materiais valiosos.”

Algumas proibições de sacolas de compras plásticas foram revogadas, ou multas suspensas, devido a preocupações de que alternativas reutilizáveis possam espalhar o vírus. A indústria de plástico está fazendo lobby para que mais proibições sejam abolidas.

A Associação da Indústria de Plásticos pediu recentemente que o secretário de Saúde e Serviços Humanos, Alex Azar, se manifestasse contra as proibições, dizendo que elas são “um risco para a segurança pública”.

Se a Covid-19 ofereceu uma nova janela de oportunidade, os fabricantes de plásticos ainda esperam que a pressão contra o lixo cresça em longo prazo, especialmente quando mais plástico chegar ao meio ambiente.

“Não finjo que toda a questão das embalagens de uso único vá desaparecer”, disse Kelly, da Emerald. “E não acho que devemos brincar que podemos ser recicláveis, nós temos de ser recicláveis.”

Vários fabricantes de plásticos estão trabalhando com clientes como Nestlé, Procter & Gamble e Walmart para testar se máquinas de triagem mais sofisticadas podem recuperar embalagens flexíveis colocadas em latões especiais na calçada, eliminando a necessidade de coleta separada. Um porta-voz do programa disse que mudanças no comportamento do consumidor durante a pandemia tornaram a iniciativa mais importante que nunca.

Outros, como Ineos e Sealed Air, disseram que seus investimentos em reciclagem química também são mais significativos à luz da pandemia. O processo —que durante muito tempo foi pouco adotado por usar muita energia— usa substâncias químicas ou calor para decompor plástico hoje não reciclável, para ser transformado em novo material limpo o suficiente para uso em embalagens de alimentos.

A Associação de Embalagens Flexíveis, órgão setorial dos EUA, também faz lobby por verbas federais para aperfeiçoar a infraestrutura de reciclagem. Recentemente ela escreveu a legisladores pedindo US$ 1 bilhão ao longo de cinco anos —o dobro de seu pedido antes do coronavírus— para “reverter a tendência atual de jogar material reciclável em aterros, o que foi exacerbado por esta pandemia”.

O pedido é recusado por grupos ambientalistas que dizem que seria uma fiança à indústria de plásticos. Eles preferem uma lei que exija que os donos de marcas projetem, administrem e financiem sistemas para lidar com embalagens descartadas, assim como usar uma pequena porcentagem de conteúdo reciclado em novas embalagens.

“A indústria de plásticos está vendo uma nova janela neste momento, mas será um último suspiro”, disse Scott Cassel, do Product Stewardship Institute, organização sem fins lucrativos que pretende colocar o ônus sobre os donos de marcas. “Há uma grande onda contra o uso de plásticos, e ela não vai desaparecer.”

Tradução Luiz Roberto Mendes Gonçalves – Folha

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