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Um Sábado Em Um Bosque Sensorial Maringaense

Um sábado em um Bosque Sensorial maringaense

Sábado é dia de… transformar um bosque de grevíleas, implementado em plena área nobre de uma cidade pujante como Maringá, em um bosque também de frutíferas e outras ervas – é claro, sem pensar em nada em troca a não ser o prazer de transformar algo bom em outro muito melhor!

Cai uma grevílea, planta-se uma frutífera!

Frutas doces, azedas ou amargas, silvestres ou exóticas.

Além de frutíferas, planta-se também outros tipos de árvores, selecionadas por sua beleza, suas propriedades, sua diversidade – sensorialmente escolhidas para satisfazer tato, visão, olfato e paladar!

Este é o belo projeto da ONG que passei, recentemente, a colaborar.

O “Bosque das Grevíleas” de Maringá tem outras características peculiares além da espécie única que lhe dá o nome. Em aproximados dois alqueires, as árvores foram plantadas em linhas e fileiras regulares permitindo, praticamente, atravessar a visão de uma via à outra através dos belos túneis de árvores que foram formados. É claro, há que se ter o cuidado em manter a relva roçada e os galhos baixos sempre podados.

E lá vamos nós, colaboradores sabatinos e apreciadores do espaço, seguindo entre árvores enfileiradas, processando informações indefinidas – quase infinitas.

Mesmo caminhando por entre as árvores de uma floresta urbana, nos sentimos seguros devida a esta propriedade da visão traspassante. Ali pode-se encontrar num passeio, sentados nos bancos de vigas e troncos e estrategicamente sempre mais ao centro do bosque, casais de todas as combinações de gêneros e opções e tragadores de fumos diversos. Há também os piqueniqueiros e suas mesas improvisadas – que pode ser a clássica toalha no chão sempre disputada por formigas –, e também fotógrafos profissionais registrando imagens de casais enamorados em roupas chiques e poses encenadas, ou crianças fofinhas e modelos sexy, aproveitando o fundo com cenários naturais.

E até hoje não vi/senti nenhum tipo de gesto agressivo/intrusivo por parte dos usuários do sítio de árvores perfiladas. É cada um na sua, respeitando a opção e espaço do outro.

São muitas as aventuras estimuladoras dos sentidos ao adentrar um bosque sensorial.
Por exemplo, nos deparamos de quando em quando com cachorros, gaviões, pica-paus, lagartos e pássaros pretos – e também insetos, picadas, revoadas –; o  som de pássaros que principiam a reaparecer por obra das fontes de novos alimento plantadas pela ONG (ainda são poucos os amigos alados, mas estão aumentando).

Flora, fauna e microbiota exalando um milhão de cheiros, advindos de óleos essenciais, capim roçado e decomposições mil – fortes, suaves, adocicados, fermentados.

Ao toque, o macio, o duro, espremido. De vez em quando um espinho perfurante.

As piadas, zumbidos, zunidos e o vento que mexe as folhas e a palhada – do chão, do meio e da copada – galhos de árvores frondosas que permitem a luz do sol adentrar disciplinadamente, misturando sombra e luz em fachos de todo tamanho, confundindo nossos olhos e nossa pele.

Enfim, é essa miríade de sensações tipo tudo-ao-mesmo-tempo-agora que faz valer a denominação de “Bosque Sensorial”.

Quando passamos lá, caminhando e plantando e suando bicas em um sábado à tarde ou passeando noutro dia qualquer, pode-se dizer que curtimos um “shinrin-yoku” – o conceito de “banho de floresta” japonês.

E neste sábado outonal de abril de 2019 não foi diferente. Esperamos quase um mês em síndrome de abstinência para podermos voltar ao bosque devido a um trabalho de manutenção da prefeitura local, serviço este realizado graças à luta da ONG. Esperamos sim, mas devido a isso pudemos apreciar o prazer estético e andarilho do capim recém-roçado e dos troncos secos retirados, trazendo mais luz e uma otimização do efeito de traspassamento do olhar através das linhas arbóreas geometricamente dispostas.

“Que delícia, tem espaço para mais 300 árvores!” Foi este o resultado verbalizado de nosso primeiro censo arbóreo do ano. Na verdade, um censo de buracos e tocos, de grevílea seca, caída, apodrecida. Nos próximos sábados muitos buracos poderão ser preparados para aninhar como berço mudas puxadas no braço, e irrigadas com água carregada em baldes por longas distâncias. Haja músculos!

E, se já não bastasse tudo isso, situações inesperadas podem acontecer!

O causo é o seguinte: eis que, neste sábado distraído, entre as atividades ecológicas que relatei e muitas fotos da natureza e dos colegas voluntários com minha humilde câmera, eis que avisto uma mulher descalça em meio às árvores.

Magra, loira, branca como leite, de vestido florido confortável/esvoaçante, muito distraída, totalmente integrada ao ambiente, absorvendo por sua própria vontade as energias da floresta – imersa de natureza praticamente em pleno centro da cidade (coisas de Maringá…)!

Por um breve instante me pareceu uma entidade translúcida, mas era apenas uma bela mulher.

Nossos caminhos estavam se cruzando (há um certo desconforto natural entre estranhos que se encontram sozinhos no meio da floresta). Depois de um sorriso leve trocado a tensão esvaneceu. Ela me questionou, curiosa, o que estávamos fazendo, o porquê das fotos… expliquei, nos despedimos e continuamos nosso caminho – eu submergindo mata adentro (me renovando), e ela saindo (já renovada).

Mas antes de sumirmos da vista e ouvidos um do outro, pude ouvir a moça loira da floresta sensorial dizendo para si mesma em voz alta:

“Maringá só falta praia, Maringá só falta praia…!”

Não há que se ter dúvidas: no próximo sábado estaremos lá!

Nota de repúdio

um grupo de reportagem de uma TV local veiculou, fogosamente há poucos dias, uma matéria “denunciando” o descaso com o Bosque devido aos troncos cortados e espalhados, sendo que era exatamente o trabalho de melhoria que há anos era necessário sendo feito. Uma semana depois, o trabalho está pronto, e o Bosque melhor que nunca! Enfim, é a superficialidade da veiculação da informação num trabalho jornalístico de péssima qualidade. Esperamos a redenção do dito grupo jornalístico se desculpando e mostrando a nova cara do Bosque e o belo trabalho que está sendo feito.

Fonte – Valdecir_Mgá

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