SP e outras 10 cidades do mundo que podem ficar sem água como a Cidade do Cabo

Copo sob torneiraUm quarto das principais cidades do mundo enfrentará problemas hídricos. GETTY IMAGES

A Cidade do Cabo enfrenta uma situação nada invejável como a primeira grande cidade da era moderna a ficar sem água potável. No entanto, esse é apenas um exemplo extremo de um problema sobre o qual especialistas vêm alertando há muito tempo: a escassez de água.

Apesar de cobrir 70% da superfície do planeta, a água doce, especialmente a potável, não é tão abundante assim: responde por só 3%. Mais de 1 bilhão de pessoas enfrentam problemas de acesso a ela, e, para 2,7 bilhões, ela falta ao menos um mês por ano.

Uma pesquisa com as 500 maiores cidades do mundo, publicada em 2014, estima que uma em cada quatro estão em uma situação de “estresse hídrico”, como define a Organização das Nações Unidas (ONU) quando o abastecimento anual cai abaixo de 1,7 mil m³ por pessoa.

De acordo com projeções chanceladas pela ONU, a demanda por água doce vai superar o abastecimento em 40% em 2030, graças a uma combinação entre as mudanças climáticas, a ação humana e o crescimento populacional.

Não é uma surpresa, portanto, que a situação na Cidade do Cabo seja apenas a ponta do iceberg. Em todos os continentes, grandes centros urbanos enfrentam essa escassez e correm contra o tempo em busca de uma solução. Conheça a seguir outras 11 cidades que podem ficar sem água.

São Paulo

A capital paulista passou por uma situação dramática em 2014 e 2015, quando seu principal conjunto de reservatórios, o sistema Cantareira, atingiu seu menor nível da história. A Sabesp, companhia paulista de abastecimento, passou a puxar a água que ficava abaixo dos canos de captação, no chamado “volume morto”, e reduziu a pressão nas bombas – o que fez com que partes da cidade ficassem desabastecidas. Também houve campanhas para a redução do consumo.

Reservatório seco em São PauloNo auge da última seca, a paisagem nos reservatórios de São Paulo era desoladora. GETTY IMAGES

Em dezembro de 2015, com a volta das chuvas, o Cantareira saiu finalmente do “volume morto”.

O governo paulista atribuiu a crise à forte seca que atingiu a região, mas uma missão da ONU criticou as autoridades estaduais por “falta de investimentos e planejamento adequados”.

Nos últimos anos, a situação das represas melhorou, mas especialistas afirmam que a possibilidade de uma nova crise segue presente.

Bangalore

Autoridades da cidade indiana tiveram problemas para lidar com a expansão imobiliária após Bangalore tornar-se um centro de tecnologia e enfrentam dificuldades para cuidar dos sistemas hídrico e de saneamento.

Polluted lake in BangaloreOs lagos de Bangalore são muito poluídos. GETTY IMAGES

O encanamento antigo precisa de uma reforma urgente: um relatório do governo federal revelou que a cidade desperdiça metade de sua água potável.

Como a China, a Índia tem sérios problemas de poluição em seus cursos d´água, e Bangalore não é diferente: um inventário dos lagos da cidade revelou que 85% tinham água que poderia ser usada apenas para irrigação e resfriamento industrial. Nenhum tinha água potável ou adequada para banho.

Pequim

O Banco Mundial classifica como situação de escassez hídrica quando moradores de uma determinada localidade recebem menos de 1 mil m³ de água por pessoa. Em 2014, os mais de 20 milhões de habitantes de Pequim receberam apenas 145 m³.

Cabras em leito de rioAs secas deixaram os leitos de curso d’água visíveis nos arredores de Pequim. GETTY IMAGES

A China abriga 20% da população mundial, mas tem apenas 7% da água doce do mundo. Um estudo da Universidade de Columbia (EUA) estima que as reservas do país caíram 13% entre 2000 e 2009.

Também há a questão da poluição: dados oficiais de 2015 mostram que 40% da água de superfície de Pequim estava poluída a ponto de não poder ser usada nem para a agricultura nem pela indústria.

Autoridades chinesas tentaram lidar com o problema com projetos de desvio de cursos d’água e programas educacionais. Também aumentaram os preços para indústrias com grande demanda hídrica.

Cairo

Crucial para o desenvolvimento de uma das grandes civilizações do passado, o rio Nilo está enfrentando problemas nos dias de hoje. É a fonte de 97% da água do Egito, mas também o destino de uma quantidade crescente de resíduos agrícolas e residenciais sem tratamento.

Poluição no NiloO Nilo atende 97% da demanda por água do Egito. GETTY IMAGES

A Organização Mundial da Saúde aponta que o Egito é o oitavo país do mundo em mortes ligadas à poluição hídrica entre os países com renda de nível médio-baixa (quando a renda nacional bruta per capita fica entre o equivalente a R$ 3.335 e R$ 13.113).

A ONU estima que o país sofrerá com crises hídricas graves em 2025.

Jacarta

Como muitas cidades costeiras, a capital da Indonésia enfrenta a ameaça da elevação do oceano – cerca de 40% da cidade agora está abaixo do nível do mar, segundo o Banco Mundial.

Área inundada em JacartaA perfuração ilegal de poços tem deixado a capital da Indonésia mais vulnerável a inundações. GETTY IMAGES

Mas, em Jacarta, o problema piorou com a ação humana: com mais da metade dos 10 milhões de habitantes sem acesso a água encanada, a perfuração ilegal de poços prolifera e esvazia as reservas subterrâneas.

A situação é agravada pelo fato de os aquíferos não serem reabastecidos pelas fortes chuvas, porque o concreto e o asfalto impedem que a água seja absorvida pelo solo.

Moscou

Um quarto das reservas de água doce do mundo estão na Rússia, mas o país enfrenta sérios problemas de poluição por conta do legado industrial da era soviética. Isso é especialmente preocupante para a capital, Moscou, onde 70% do abastecimento vem de reservas de superfície.

Rio em MoscouA capital russa enfrenta sérios problemas de poluição. GETTY IMAGES

Órgãos regulatórios afirmam que entre 35% e 60% de todas as reservas de água potável do país não atendem os padrões sanitários mínimos.

Istambul

Dados do governo turco mostram que o país vive tecnicamente uma situação de estresse hídrico, porque o abastecimento per capital caiu abaixo de 1,7 mil m³ em 2016. Especialistas locais alertam que a situação pode piorar até 2030.

Lago secoUma seca de 10 meses secou este lago próximo a Istambul. AFP

Nos últimos anos, áreas muito populosas como Istambul (14 milhões de habitantes) passaram a enfrentar períodos de falta d’água nos meses mais secos. Os níveis dos reservatórios caíram abaixo de 30% da capacidade no início de 2014.

Cidade do México

Faltar água não é uma novidade para os 21 milhões de habitantes da capital do México. Para um a cada cinco, as torneiras só funcionam por algumas horas por semana, e, para 20%, só há abastecimento em parte do dia.

Mulas com galões de águaA falta de acesso à água corrente é um problema comum para quem mora na capital do México. AFP

A cidade importa cerca de 40% da sua água de fontes distantes, mas não tem nenhuma operação de larga escala para reciclar água que já foi utilizada. Perdas por problemas na rede são estimadas em 40%.

Londres

De todas as cidades do mundo, a capital do Reino Unido, Londres, não é a primeira que viria à mente quando se fala de escassez hídrica. Com uma precipitação anual de 600 milímetros, menos do que a média de Paris e cerca de metade da média de Nova York, Londres atende 80% da demanda com seus rios.

Cano estourado em LondresNa capital do Reino Unido, o índice de desperdício de água é de 25%. GETTY IMAGES

Segundo a prefeitura local, a cidade está próxima do limite de sua capacidade e deve enfrentar problemas de abastecimento em 2025 e crises sérias em 2040.

Tóquio

A capital do Japão, Tóquio, tem níveis de precipitação semelhantes aos de Seattle, apelidada de Cidade Chuvosa pelos americanos. As chuvas estão, no entanto, concentradas em apenas quatro meses do ano. A água precisa ser coletada e armazenada, já que pode haver secas no restante do ano.

Arena de sumô Ryogoku KokugikanEsta arena de sumô é um dos muitos locais que reutilizam água da chuva

Autoridades locais fizeram justamente isso: ao menos 750 edifícios públicos e privados têm sistemas de coleta e reuso de água da chuva.

Com mais de 30 milhões de habitantes, Tóquio depende de reservas de superfície (rios, lagos e neve) para 70% de seu abastecimento. Investimentos recentes na rede têm como meta reduzir o desperdício para 3%.

Miami

O Estado da Flórida, nos Estados Unidos, está entre os cinco mais chuvosos todos os anos. Mas está anunciando uma crise em sua cidade mais famosa, Miami.

Um resultado não previsto para o projeto de drenagem de seus pântanos é que a água do Oceano Atlântico contaminou o aquífero Biscayne, a principal fonte de água da cidade.

Mar em MiamiA contaminação por água do mar é uma ameaça às reservas hídricas de Miami. GETTY IMAGES

Ainda que o problema tenha sido detectado nos anos 1930, a água do mar ainda se infiltra, especialmente porque a cidade americana tem sido vítima de uma elevação do nível do mar cada vez mais acelerada, superando as barreiras subterrâneas instaladas nas últimas décadas.

Cidades vizinhas também enfrentam o mesmo problema – Hallande Beach, a alguns quilômetros ao norte, teve de fechar seis de seus oito poços por causa da invasão da água salgada.

Fonte – BBC Brasil de 11 de fevereiro de 2017

Faxinalenses do Paraná

Faxinalenses do Paraná

Enquanto aumentam os impactos sobre seu modo de vida centenário, os faxinalenses crescem como força identitária. Suas áreas estão entre as mais preservadas do estado

Onde há faxinal, há mata. Quase todos os pontos verdes no mapa do Paraná, exceto a área da Serra do Mar e das grandes unidades de conservação, guardam em si pequenos territórios nascidos da relação do homem com a floresta. Essas comunidades existem há pelo menos 200 anos, e por quase todo esse tempo permaneceram em um estado de delicado equilíbrio entre o uso e a preservação do que a natureza dispõe: a atividade econômica e a vida em comunidade.

A única cerca existente é a que circunda os faxinais, servindo de divisa entre as roças de alimentos, situadas do lado de fora e o faxinal em si: área que pode variar de 200 a 1,5 mil hectares onde ficam as casas, a mata e os pastos de criação. Cada um é dono de seus bois, cavalos, porcos e ovelhas, mas a terra é de uso comum, e todos os animais vivem à solta. Também a floresta é comunitária: dela os moradores extraem pinhão, erva-mate e plantas medicinais.

Nos anos 1970, com a expansão de grandes lavouras, os faxinalenses viram o início da desestruturação do seu modo de vida. Em 1997, o governo estadual do Paraná criou uma categoria específica de proteção dos seus territórios: as Áreas Especiais de Uso Regulamentado (Aresur), que não apenas delimitam os faxinais como possibilitam recompensar as comunidades com o ICMS Ecológico.

Existem hoje 28 dessas áreas no estado. Parece bom, mas ali é criado outro problema. “As Aresur foram criadas de cima para baixo, sem que nos consultassem”, diz Hamilton José da Silva, liderança no Faxinal dos Ribeiros, em Pinhão. “Na hora de delimitar os faxinais, houve muita perda de território.” Não bastasse isso, nem sempre as comunidades recebem a cota que lhes cabe do ICMS Ecológico. Ou porque as prefeituras repassam menos do que deveriam, ou simplesmente porque destinam a verba a outro uso.

Por quase uma década os faxinalenses estiveram à mercê das regras desse jogo, até o momento em que, pela primeira vez, se reuniram para discutir seus interesses comuns. Foi em 2005, com um encontro no município de Irati, que reuniu mais de 200 faxinalenses, que eles se reconheceram como comunidade, compartilhando do mesmo modo de vida, da mesma cultura e dos mesmos objetivos. Disso nasceu a Articulação Puxirão dos Povos Faxinalenses, hoje o principal meio de pressão sobre o poder público desas comunidades. Já no ano seguinte ao desse encontro, conseguiram do governo do Paraná o reconhecimento oficial como comunidade tradicional.

Foto: Marcio Isensee Sá

Foto: Marcio Isensee Sá

Foto: Marcio Isensee Sá
Foto: Marcio Isensee Sá
Foto: Marcio Isensee Sá
Foto: Marcio Isensee Sá
Foto: Marcio Isensee Sá
Foto: Marcio Isensee Sá

Ameaças e organização

Enquanto aumentaram os impactos sobre seu modo de vida centenário, os faxinalenses cresceram como força identitária. No centro do Paraná, as monoculturas de milho e soja estão mais perto do que nunca, contribuindo para o desmatamento das florestas nativas, entre elas as de araucárias, e para a contaminação da água com agrotóxicos, quando não para o esgotamento das fontes hídricas.

“Temos relatos de riachos que secaram”, conta Amantino Beija, um dos coordenadores da Articulação Puxirão. Amantino vive no faxinal Meleiro, em Mandirituba. Nos arredores de Curitiba, a água dos faxinais também está sendo sugada, mas pelo cultivo de pínus eeucalipto – um problema a mais para os faxinalenses da região.

Perto da capital, outro desafio é trabalhar com os jovens. As escolas do campo, nas quais as crianças faxinalenses poderiam desfrutar de um conteúdo e uma prática curriculares voltados à comunidade, ainda são um sonho. “Os professores vêm todos de fora e dizem que os alunos precisam estudar e abandonar nosso modo de vida para ser alguém na vida”, diz Amantino. A comunidade acaba sofrendo com a venda de terras, por parte das gerações mais novas, para a criação de chácaras de veraneio. “As pessoas da cidade compram área de faxinal e não procuram saber como é a vivência da comunidade, inclusive cercando suas terras”, relata Amantino, ressaltando que, com isso, moradores mais antigos ficam sem pasto para os animais, tendo que recorrer à ração.

A implantação dos mecanismos já existentes, ainda que não sejam ideais, é um dos marcos da luta. “A Aresur oferece muitas vantagens, mas precisa ser bem discutida com a gente”, diz Hamilton. No último levantamento feito por organizações parceiras da Articulação Puxirão, foi registrada a existência de 227 faxinais no Paraná, mas apenas 30 fazem parte da articulação, dada a falta de recursos para conectar comunidades tão distantes geograficamente. Para as comunidades faxinalenses, Puxirão significa mutirão, o que traduz bem não só o modo como cuidam de suas criações, mas como percebem o território.

Foto: Marcio Isensee SáVista da região do Faxinal Meleiros no distrito de Areia Branca do Assis, Mandirituba.
Foto: Marcio Isensee SáAdonias Bernardino Sena, de 70 anos, nasceu na Bahia e vive nos faxinais há 40 anos.
Comunidades faxinalenses
  • Onde estão: os faxinais estão espalhados por todo o estado, mas aqui tratamos dos que estão próximos de Curitiba
  • Atividades: pastoreio em áreas coletivas e criação de pequenos animais.Roçado, extração de pinhão, erva-mate e medicamentos na mata
  • Por que lutam: pela correta implantação das reservas legais de uso sustentável nas quais estão inseridos
  • Ameaças: expansão das monoculturas de soja, milho, pínus e eucalipto. Perda de terras e redução dos territórios. Contaminação das águas, desmatamento de agroflorestas
  • Como se organizam: Articulação Puxirão de Povos Faxinalenses, participação nos conselhos estadual e nacional de povos e comunidades tradicionais
Fonte – Xavier Bartaburu, Fotos de Marcio Isensee Sá, Reporter Brasil de 27 de janeiro de 2018

Glifosato. Cientistas argentinos descobrem danos ao crescimento ovariano de crustáceos

Cientistas argentinos descobriram que tanto o glifosato como os herbicidas a base de glifosato afetam o crescimento ovariano dos crustáceos, durante novos estudos revisados por pares in vivo e in vitro sobre a espécie modelo: o caranguejo de estuário Neohelice granulata.

A reprodução de crustáceos é um processo complexo, que implica o crescimento ovariano em fêmeas adultas, durante o período crítico anterior à desova (denominado como período pré-reprodutivo). Durante este período, os ovócitos imaturos (pré-vitelogênicos) se desenvolvem em oócitos maduros (vitelogênicos), que acumulam uma grande quantidade de gema (por exemplo, lipoproteínas constitutivas do vitelo), que em parte se sintetiza pelos mesmos ovócitos. Além disso, este processo é regulado por vários hormônios, alguns secretados pelo sistema nervoso (por exemplo, neuro-hormônios) e outras por células endócrinas específicas, localizadas em vários tecidos, incluído o ovário.

O glifosato é atualmente um dos herbicidas mais utilizados em todo o mundo, especialmente nos países onde a agricultura representa um elemento importante na produção nacional de produtos básicos, como no caso da Argentina. Recentemente, os pesquisadores deste país caracterizaram vários efeitos do glifosato, puros e formulados, sobre o crescimento ovariano do caranguejo de estuário Neohelice granulata. Esta espécie de crustáceo foi amplamente estudada durante os últimos 30 anos, em relação a quase todos os seus aspectos biológicos. De fato, N. granulata foi considerada uma espécie modelo, representativa de uma grande quantidade de grupos de crustáceos.

Um dos ensaios realizados sobre o caranguejo N. granulata foi a exposição das fêmeas durante o inverno, ou seja, nos três meses do período pré-reprodutivo que o ovário necessita para amadurecer, antes da desova durante a primavera. Ao final do período de exposição, observou-se uma incidência significativa da reabsorção de ovócitos no ovário dessas fêmeas expostas à formulação de glifosato Roundup Ultramax, que tem uma concentração de glifosato (como o ingrediente ativo) de 0,2 mg/L, uma concentração que pode ser encontrada no meio ambiente.

Além disso, o conteúdo diminuído de vitelogenina por grama de ovário também foi encontrado nas mesmas fêmeas. Este último efeito também foi verificado in vitro, após incubar peças isoladas do ovário com a mesma formulação comercial e a mesma concentração utilizada in vivo. Por outra parte, por meio da avaliação da incorporação de um aminoácido radiomarcado às proteínas de ovário, é possível estabelecer, em comparação com um grupo de controle, que uma inibição parcial da síntese de proteínas foi a responsável pela diminuição do conteúdo de vitelogenina observado tanto in vivo como in vitro.

O glifosato, como ingrediente ativo das formulações comerciais, é responsável pelos efeitos nocivos?

Em ensaios adicionais, os pesquisadores buscaram elucidar a contribuição real do glifosato, em si mesmo, aos efeitos nocivos sobre o ovário dos caranguejos, causados pela formulação comercial ensaiada. A isto, um novo ensaio in vivo foi realizado durante todo o período pré-reprodutivo. Assim como se notou com a formulação comercial, observou-se uma incidência significativa de reabsorção de oócitos, mas com uma concentração mais alta (1 mg/l). Tomados em conjunto, os resultados obtidos tanto com o glifosato puro como com o formulado sugerem a existência de alguns efeitos sinérgicos entre o glifosato puro e os coadjuvantes apresentados na formulação comercial ensaiada.

O glifosato puro não reduziu o conteúdo de vitelogenina por grama de ovário, mas um novo efeito do herbicida aparentemente mascarado na formulação comercial, devido aos efeitos inibidores que esta formulação causou na síntese de vitelogenina, foi o aumento do tamanho dos pré-vitelogênicos imaturos, ovócitos, ao final do ensaio in vivo. Os dois efeitos causados pelo glifosato puro (reabsorção de oócitos e aumento do tamanho de ovócitos pré-vitelogênicos) também corroboraram, mediante ensaios in vitro, expondo pedaços de ovário isolados a uma concentração de glifosato de 0,2 mg/l. O aumento anormal no tamanho dos ovócitos imaturos foi consistente com um possível efeito disruptor endócrino causado pelo glifosato puro, provavelmente alterando a secreção e/ou o mecanismo de transdução de um ou mais hormônios que controlam o crescimento ovariano nos crustáceos. Esta hipótese está atualmente sob verificação.

Este estudo foi apoiado por subsídios do CONICET (PIP2015) e da Universidade de Buenos Aires (programa científico UBACYT 2016).

Os autores do trabalho são os pesquisadores Luciana Avigliano, Ivana S. Canosa, Daniel A. Medesani e Enrique M. Rodríguez, pertencem ao Departamento de Biodiversidade e Biologia Experimental, FCEN, Universidade de Buenos Aires. Instituto de Biodiversidade, Biologia Experimental e Aplicada(IBBEA), CONICET-UBA. Cidade Universitária de Buenos Aires, Argentina.

Fontes – Graciela Vizcay Gomez, America Latina en Movimiento (ALAI) / tradução Cepat / IHU de 11 Fevereiro 2018

Quanto vale: entenda o preço de cada material e seu impacto na economia dos catadores

wietse?

A importância da reciclagem para diminuir os impactos do consumo e da geração de lixo não é novidade para ninguém. Ainda assim, pesquisas indicam que serviços de coleta seletiva são oferecidos em menos de 20% dos municípios brasileiros.

O levantamento é o Ciclosoft 2016, feito pela associação sem fins lucrativos Cempre(Compromisso Empresarial para Reciclagem), que também aponta para a concentração dos serviços no Sul e no Sudeste: dos 1055 municípios com coleta seletiva no país, 421 ficam na região Sul e 434 na Sudeste, somando 81% do total.

As cooperativas de catadores têm uma função importantíssima dentro desse cenário, trabalhando em mais da metade das cidades em que há a coleta do lixo reciclável.

Para nortear os coletores que precisam vender os recicláveis para cooperativas ou outros programas de coleta, o CEMPRE criou uma tabela de valores separada por cidades e tipo de material. Os valores representam o pagamento em Reais por Tonelada de material.

(Legenda: P = prensado L = limpo I = inteiro C = cacos UN = unidade)

Com esses números em mente, fica mais fácil entender por que os catadores dão atenção especial às latinhas de alumínio: Enquanto elas chegam a valer 3700 reais por tonelada (ou R$3,70 por quilo), a tonelada de garrafa PET, segundo material de maior valor, rende no máximo R$ 1780, ou R$ 1,78 por quilo.

Latinha é bom demais. Lembra verão, festa, carnaval. Latinha é reciclável, é sustentável, é geração de renda. Latinha é empoderamento. Latinha gela rápido, preserva o sabor e é pura praticidade e estilo.

Fonte – Hypeness

Uma ameaça subestimada: poluição terrestre com microplásticos

Fibras poliacrílicas no solo. CRÉDITO: Anderson Abel de Souza MachadoFibras poliacrílicas no solo. CRÉDITO: Anderson Abel de Souza Machado

Minúsculas partículas de plástico também representam uma ameaça para as criaturas em terra e podem ter efeitos prejudiciais semelhantes ou mesmo mais problemáticos do que nos nossos oceanos.

Pesquisadores do Leibniz-Institute of Freshwater Ecology e Inland Fisheries (IGB) e seus colegas de Berlim alertam: o impacto dos microplasticos nos solos, sedimentos e nas águas doces pode ter um efeito negativo a longo prazo sobre os ecossistemas terrestres em todo o mundo.

Agora é amplamente aceito que os microplásticos contaminam nossos oceanos e prejudicam os habitats costeiros e marinhos. E, no entanto, o efeito que os fragmentos de plástico têm nos ecossistemas “em terra firme” é pouco conhecido

Esta questão é objeto de uma investigação iniciada pelo IGB, em parceria com a Freie Universität Berlin, que analisa os estudos individuais anteriores sobre o tema dos microplásticos em relação ao efeito nos ecossistemas terrestres. “Embora apenas algumas pesquisas tenham sido realizadas nesta área, os resultados até o momento são relevantes: fragmentos de plástico estão presentes praticamente em todo o mundo e podem desencadear muitos tipos de efeitos adversos. Os efeitos observados anteriormente de microplasticos e nanoplásticos em ecossistemas terrestres em todo o mundo indicam que esses ecossistemas também podem estar em séria ameaça “, explica o pesquisador do IGB, Anderson Abel de Souza Machado, que lidera o estudo.

Mais de 400 milhões de toneladas de plástico são produzidos globalmente a cada ano. Estima-se que um terço de todos os resíduos de plástico acabe em solos ou nascentes. A maior parte deste plástico se desintegra em partículas menores que cinco milímetros, referidas como microplásticas, e se separa ainda mais em nanopartículas, com menos de 0,1 micrometro de tamanho. Na verdade, a poluição microplástica terrestre é muito maior do que a poluição microplástica marinha – uma estimativa de quatro a 23 vezes mais, dependendo do meio ambiente. O esgoto, por exemplo, é um fator importante na distribuição de microplásticos. De fato, 80 a 90 por cento das partículas contidas nos esgotos, como as fibras de vestuário, persistem nas lamas. As lamas de esgoto são então aplicadas em campos como fertilizantes, o que significa que milhares de toneladas de microplásticos terminam em nossos solos a cada ano.

Efeito potencialmente tóxico em muitos organismos

Alguns microplásticos exibem propriedades que podem ter efeitos prejudiciais diretos sobre os ecossistemas. Por exemplo, as superfícies de pequenos fragmentos de plástico podem transportar organismos que causam doenças e atuam como um vetor que transmite doenças no meio ambiente. Os microplásticos também podem interagir com a fauna do solo, afetando suas funções de saúde e solo. As minhocas, por exemplo, fazem suas tocas de forma diferente quando os microplásticos estão presentes no solo, afetando a condição física do solo e a condição do solo.

De um modo geral, quando as partículas de plástico se quebram, ganham novas propriedades físicas e químicas, aumentando o risco de terem um efeito tóxico sobre os organismos. E quanto mais provável é que os efeitos tóxicos ocorram, maior o número de espécies potencialmente afetadas e funções ecológicas.

Os efeitos químicos são especialmente problemáticos no estágio de decomposição, conforme observado pela equipe de autores liderada por Anderson Abel de Souza Machado. Por exemplo, aditivos como ftalatos e lixiviação de Bisfenol A em partículas de plástico. Estes aditivos são conhecidos por seus efeitos hormonais e podem potencialmente interromper o sistema hormonal não apenas de vertebrados, mas também de vários invertebrados.

Além disso, partículas de tamanho nanométrico podem causar inflamação; eles podem atravessar ou mudar barreiras celulares, e até mesmo atravessar membranas altamente seletivas, como a barreira hematoencefálica ou a placenta. Dentro da célula, eles podem desencadear mudanças na expressão de genes e reações bioquímicas, entre outras coisas. Os efeitos a longo prazo dessas mudanças ainda não foram suficientemente explorados. No entanto, já foi demonstrado que, ao passar os nanoplásticos da barreira hematoencefálica, têm um efeito que altera o comportamento nos peixes.

Partículas de plástico já detectadas em muitos alimentos

Os seres humanos também ingerem microplásticos por meio de alimentos: já foram detectados não apenas em peixes e frutos do mar, mas também em sal, açúcar e cerveja. Pode ser que a acumulação de plásticos em organismos terrestres já seja comum em todos os lugares e, os pesquisadores especulam, mesmo entre aqueles que não “ingerem” seus alimentos. Por exemplo, pequenos fragmentos de plástico podem ser acumulados em leveduras e fungos filamentosos.

A ingestão e absorção de pequenos microplásticos pode ser o novo fator de estresse a longo prazo para o meio ambiente. No entanto, no momento, há uma falta de métodos padronizados para a determinação de microplasticos em ecossistemas terrestres, a fim de produzir uma avaliação precisa da situação. Muitas vezes, é um processo difícil e intensivo em mão-de-obra para detectar pequenos fragmentos de partículas de plástico em solos, por exemplo.

O novo estudo IGB destaca a importância de dados confiáveis e cientificamente baseados em comportamentos de degradação e os efeitos de microplásticos. Estes dados são necessários para poder responder eficazmente à contaminação por microplásticos e ao risco que eles representam para os ecossistemas terrestres – onde, afinal, a maioria dos resíduos de plástico que entra no ambiente se acumula.

Referência

de Souza Machado AA, Kloas W, Zarfl C, Hempel S, Rillig MC. Microplastics as an emerging threat to terrestrial ecosystems. Glob Change Biol. 2018;00:1–12.https://doi.org/10.1111/gcb.14020

Fontes – Forschungsverbund Berlim / tradução e edição Henrique Cortez, EcoDebate de 12 de fevereiro de 2018

 

 

Árvores na paisagem urbana – um guia para os planejadores e autoridades

Árvores na paisagem urbana - um guia para os planejadores e autoridades, via www.tdag.org.uk
 

Tree and Design Action Group é um grupo que compartilha a visão coletiva de que a localização das árvores, e todos os benefícios que elas trazem, pode ser garantida para as gerações futuras se influenciarmos o planejamento, projeto, construção e gestão de nossa infraestrutura e espaços urbanos.

As árvores fazem os lugares funcionarem e parecerem melhores. Além de desempenhar um papel no microclima de nossos bairros, as árvores também podem ajudar a criar condições para o sucesso econômico. O guia Trees in the Townscape apresenta uma abordagem atual para a arborização urbana, disponibilizando às autoridades e profissionais, princípios e referências necessários para alcançar o potencial da vegetação no ambiente urbano.

Esta é uma abordagem que aceita o ritmo correspondente aos desafios de nossos tempos. Trees in the Townscape oferece um conjunto abrangente de 12 princípios orientados para a ação que podem ser adaptados aos diferentes contextos de cada cidade.

A quem o guia é destinado?

Os 12 princípios foram pensados para todos os envolvidos em tomar ou influenciar as decisões que moldam os espaços e lugares em que vivemos. Eles são particularmente relevantes para os membros locais eleitos, políticos e grupos da comunidade. O guia também é útil para profissionais que usam seus conhecimentos técnicos para melhorar o ambiente construído, como, por exemplo, arquitetos, engenheiros, paisagistas e urbanistas.

Como foram desenvolvidos os 12 princípios?

Este guia foi desenvolvido pelo Tree and Design Action Group com base em mais de 40 entrevistas e uma ampla consulta com os profissionais envolvidos na criação e manutenção do ambiente construído, incluindo arquitetos, urbanistas, engenheiros civis, seguradoras, desenvolvedores, designers, especialistas em sustentabilidade, ecologistas, acadêmicos e organizações não lucrativas especializados em engajamento comunitário e sustentabilidade.

 

Veja, a seguir, uma breve descrição de cada um dos 12 princípios:

Plano

1- Conheça os recursos da vegetação
Criar e manter registros de fácil uso da cobertura florestal existente, da natureza e da condição da “população” de árvores.

2- Tenha uma estratégia abrangente
Produzir, adotar e implementar uma estratégia de colaboração para a proteção, desenvolvimento e gestão da cobertura vegetal urbana que esteja em sintonia com as necessidades e aspirações locais.

3 – Incorpore a vegetação em políticas e outros planos urbanos
Adotar normas claras para a proteção, cuidados e plantio de árvores em planos locais.

Projeto

1- Crie locais adequados para as árvores
Crie lugares onde espécies de árvores podem prosperar e oferecer sua gama completa de benefícios sem causar incômodo às pessoas.

2- Escolha as espécies certas
Selecione e use as espécies adequadas aos diferentes contextos.

3- Busque múltiplos benefícios
Aproveite toda a gama de benefícios das árvores pode gerar como parte de um sistema de infraestrutura verde local, focando nas principais aspirações locais.

Plantio / proteção

1- Adquira exemplares saudáveis
Plante árvores saudáveis e vigorosas que foram devidamente condicionadas a prosperar no ambiente em que elas serão destinadas a viver.

2- Forneça solo, ar e água despoluídos
Certifique-se de que as árvores têm acesso aos nutrientes, oxigênio e água de que necessitam para realizar o seu potencial genético de crescimento e longevidade.

3- Envolva as partes interessadas

Trabalhe com as partes interessadas – profissionais e comunitárias políticos locais – para defender o valor das árvores na paisagem urbana.

Gerenciamento / monitoramento

1- Assuma uma abordagem de gerenciamento de bens
Informe todas as decisões de planejamento, gestão e investimento com detalhes sobre os custos e o valor gerado pelas árvores.

2- Tenha consciência dos riscos (em vez de ter medo deles)
Adote uma abordagem equilibrada e razoável em relação à gestão da segurança.

3- Ajuste a gestão segundo suas necessidades
Realize uma manutenção proativa e personalizada na vegetação para garantir melhores benefícios em resposta às necessidades locais.

Para acessar o guia completo, clique aqui.

Fontes – Paisagem, Arquitetura e Cidade  / Landscape Interface Studio / ArchDaily

Quebradeiras de coco babaçu

Quebradeiras de coco babaçuBarradas ao tentar entrar nas fazendas onde fazem a colheita tradicional do coco, maranhenses discutem território. Foto: Carolina Motoki

Barradas ao tentar entrar nas fazendas onde fazem a colheita tradicional do coco, maranhenses discutem território

Do babaçu, nada se perde. Da palha, cestos. Das folhas, o teto das casas. Da casca, carvão. Do caule, adubo. Das amêndoas, óleo, sabão e leite de coco. Do mesocarpo, uma farinha altamente nutritiva. “A gente diz que a palmeira é nossa mãe”, resume Francisca Nascimento, coordenadora-geral do Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu. O tempo que o cacho com os cocos leva para cair é de exatos 9 meses. E é quando caem que entram em ação as quebradeiras de coco babaçu, grupo de cerca de 300 mil mulheres espalhadas em comunidades camponesas do Maranhão, Piauí, Tocantins e Pará, em uma área de convergência entre o Cerrado, a Caatinga e a Floresta Amazônica, especialmente rica em babaçuais. Há gerações essa tem sido a rotina dessas trabalhadoras: passar o dia coletando os cocos e quebrando-os ao meio para extrair sobretudo suas amêndoas, da qual se produz um dos óleos mais versáteis da natureza.

No entanto, a maior parte dos babaçuais está em grandes fazendas. As quebradeiras estão dispostas a mudar esse quadro. De violências sofridas durante décadas por essas mulheres, e resultado da sua ampla organização, foi criada a Lei Babaçu Livre, implantada pela primeira vez em 1997 no município maranhense de Lago do Junco. Outros municípios seguiram o exemplo e o Tocantins aprovou a lei em nível estadual. Basicamente, ela proíbe a derrubada de palmeiras e garante o acesso e o uso comunitário dos babaçuais por parte das quebradeiras, mesmo se estiverem em terras privadas. São raros, porém, os municípios nos quais a lei é cumprida – além dos esforços em revogá-la por parte de fazendeiros. “Eles estão dizendo que babaçu é praga”, ironiza Francisca.

Cenas de violência se repetem em todas as comunidades: as quebradeiras saem de casa para coletar os cocos e se deparam com uma cerca que as separa dos babaçuais. Quando a cerca não é eletrificada, há um capanga cobrando o acesso às terras. O pagamento pode ser metade das amêndoas colhidas. Não raro, a intimidação inclui ameaças de morte e outras formas de violência, inclusive sexual.

As cercas foram erguidas nos últimos 40 anos por fazendeiros interessados em usar aquelas terras para a criação de gado e o cultivo de soja e eucalipto, muitas vezes por meio de incentivos públicos. Quanto às palmeiras, ou são derrubadas para a abertura de pastos e lavouras, ou permanecem ali, cercadas e inacessíveis às quebradeiras. “Eles fazem por maldade mesmo”, argumenta Francisca. “Não é porque precisam do babaçu, é porque não querem deixar a área aberta.”

Foto: Gustavo OharaFoto: Gustavo Ohara

Foto: Ana MendesFoto: Ana Mendes

Foto: Marcio VasconcelosFoto: Marcio Vasconcelos

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Foto: Carolina Motoki Foto: Carolina Motoki

Foto: Ana Mendes Foto: Ana Mendes

Foto: Carolina MotokiFoto: Carolina Motoki

Território das quebradeiras

A luta é antiga. As dificuldades impostas levaram as quebradeiras a se organizar: o MIQCB, rede de cooperativas, associações e comissões dedicada à luta pelo direito das comunidades que extraem o babaçu, tem mais de 20 anos. Desde então, a Lei Babaçu Livre tem sido a principal bandeira das quebradeiras.

Foto: Gustavo OharaDo babaçu se faz cestos, farinha, teto para as casas, carvão, adubo e óleo, além de sabão e leite de coco. “A palmeira é nossa mãe”, diz Francisca. Foto: Gustavo Ohara

De poucos anos pra cá, no entanto, a reivindicação começou a ser outra. Mulheres do Maranhão passaram a participar de uma articulação estadual que reúne indígenasquilombolas e outros tipos de comunidades camponesas, na Teia de Povos e Comunidades Tradicionais. No aprendizado com os outros grupos, perceberam que seu modo de vida, sem um território garantido, permanecerá ameaçado e violentado.Suas vidas submissas aos desmandos de fazendeiros.

“Por mais que a gente não falasse assim, mas era esse sentimento de território que fazia a gente dizer: vamos pegar o nosso coco. Usamos estratégias para isso. Uma delas foi a lei que garantia a nossa presença nos babaçuais”, relembra Rosenilde Gregório dos Santos Costa, 55 anos, também integrante do MIQCB. Além da luta pela terra via reforma agrária, outra frente foi a tentativa tímida de demarcação de reservas extrativistas. Até então, havia quatro Resex na zona dos babaçuais, todas criadas em 1992, apenas uma regularizada até hoje – a do Quilombo do Frechal, no Maranhão. Nas outras, os fazendeiros se empenharam em fracionar suas terras, de modo a impedir a desapropriação.

Foto: Ana MendesVitória Balbina, de 40 anos, participa de uma articulação estadual que reúne mulheres indígenas, quilombolas e outras comunidades. Foto: Ana Mendes

Em 2016, um dos encontros da Teia foi no Centro dos Pretinhos, comunidade de quebradeiras do município de Dom Pedro,no Maranhão, cercada por grandes fazendas. “Lá tem só o espaço das casas”, diz Sheila da Silva Lima, 21 anos. O encontro teve como mote a frase “Não existe babaçu livre com terra presa”. A ideia tem se espalhado pelos outros estados.

“A implantação de grandes projetos está matando as nossas águas e a nossa terra, e assim a gente morre junto, mata a nossa cultura e a nossa história. Nós somos comunidades tradicionais, sim. Não é só um trabalho ser quebradeira, temos um jeito de nos relacionar com os babaçuais”, disse Rosa, no último encontro da Teia, em dezembro de 2017. “Estamos discutindo território”, diz Francisca. O sonho é de uma terra que inclua as quebradeiras e outras comunidades tradicionais, unidas em favor do cuidado dos babaçuais, pois deles dependem. “A quebradeira, antes de ser quebradeira, é negra, é indígena, é branca”, afirma Francisca, evocando suas múltiplas identidades para lembrar que a luta é comum. E comum, se fortalece. “Quanto mais eles ameaçarem, mais a gente vai mostrar que tem força.”

Comunidade de quebradeiras de coco babaçu

  • Onde estão: nos estados do Pará, Tocantins, Maranhão e Piauí. Na chamada Mata dos Cocais, área de transição entre a Caatinga, o Cerrado e a Amazônia
  • Atividades: coleta de coco babaçu e seu beneficiamento em óleo, sabão e farinha. Coleta de alimentos na mata, roçado, criação de pequenos animais
  • Por que lutam: pelo livre acesso aos babaçuais e se inicia discussão sobre direitos territoriais como comunidades tradicionais
  • Ameaças: cercamento do território por fazendeiros e grileiros; avanço do agronegócio; envenenamento das palmeiras de babaçu; violência
  • Como se organizam: em associações, cooperativas e articulações locais; Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu – MIQCB

Fonte – Xavier Bartaburu, colaboraram Ana Mendes e Carolina Motoki, Repórter Brasil de 27 de janeiro de 2018

Fim de importações chinesas de plástico pode ser oportunidade

Em 2016, o país asiático importou 8 milhões de toneladas de plástico. Foto ONU: Martine Perret

A China decidiu deixar de importar plástico deixando países como Reino Unido e Estados Unidos com menos soluções para o seu desperdício.

No fim do ano passado, a China decidiu parar de importar plástico para reciclar de outros países, deixando várias nações ocidentais à procura de soluções. A notícia foi celebrada num artigo de opinião da agência ONU Meio Ambiente, que foi assinado por Verena Balke.

Segundo ela, em nível global apenas 14% de todo o plástico é reciclado. As máquinas atuais não são capazes de separar o plástico, por isso muito deste material era comprimido e enviado para a China, onde era tratado manualmente.

Importações

Em 2016, o país asiático importou 8 milhões de toneladas de plástico.

Esta prática teve efeitos desastrosas na saúde das pessoas na China. E segundo o artigo, a nação asiática decidiu, em dezembro, terminar com estas importações. Países como os Estados Unidos e o Reino Unido têm agora de encontrar uma solução. Nestas primeiras semanas, algumas nações têm optado por enterrar o lixo ou queimá-lo, mas a agência da ONU acredita que devem ser usadas outras praticas.

Verena Balke diz que “a decisão da China não deve significar que o problema do desperdício de plástico é transferido para outros países ou enterrado em lixeiras.”

Mas este momento deve ser usado como um ponto de mudança para desenvolver práticas sustentáveis e aumentar as taxas de reciclagem em países que exportam lixo.

Políticas

Balke diz que os governos devem “usar a oportunidade para cortar o desperdício de plástico onde ele começa” e desenvolver um conjunto de políticas que ajudem a transformar as economias em motores de sustentabilidade.

A especialista diz que a investigação na área ainda é limitada,  mas que a ONU Meio Ambiente e a Parceria Para a Ação pela Economia Verde, Page, lideram esta área, fornecendo dados concretos e conselhos sobre novas iniciativas.

Em 22 de fevereiro, a Page organiza um evento sobre este tema, lançando três novos documentos sobre políticas industriais ambientais.

Segundo o Worldwatch Institute, os cidadãos dos países da América do Norte  e da Europa produzem, em média, 100 quilos de plástico por ano.

Fonte – Alexandre Soares, ONU News de 08 de fevereiro de 2018

Partículas ultrafinas de aerossol intensificam as chuvas na Amazônia

Partículas ultrafinas de aerossol intensificam as chuvas na AmazôniaEstudo publicado na Science revela que, na floresta tropical, as partículas de poluição emitidas pelas cidades afetam substancialmente a formação das nuvens de tempestade (fotos: GOAmazon e Projeto CHUVA)

Um estudo divulgado no dia 25 de janeiro na revista Science revelou como a presença atmosférica de partículas ultrafinas de aerossol – aquelas com diâmetro menor do que 50 nanômetros (ou bilionésimos de metro) – pode intensificar o processo de formação de nuvens e também as chuvas que caem sobre a região amazônica.

De acordo com os autores do artigo, sempre se acreditou que essas nanopartículas tinham papel desprezível na regulação do ciclo hidrológico – o que, de fato, é verdade em regiões continentais poluídas, como as cidades europeias, norte-americanas ou mesmo São Paulo. Na Amazônia, porém, seu papel é diferente.

“A descoberta permite compreender melhor como a poluição urbana afeta os processos relacionados à formação de tempestades convectivas na Amazônia e deve aumentar a acuidade dos modelos climáticos e de previsão do tempo”, disse Luiz Augusto Toledo Machado, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e coautor do estudo.

A investigação teve início em 2014 e foi conduzida no âmbito da campanha científica Green Ocean Amazon (GOAmazon).

O apoio da FAPESP ao trabalho agora publicado se deu por meio de três projetos – um coordenado por Henrique de Melo Jorge Barbosa, professor do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (IF-USP), outro por Paulo Artaxo, também do IF-USP, e o terceiro por Machado.

Como explicou Barbosa, os dados usados no artigo foram coletados durante a estação chuvosa de 2014 – entre os meses de março e abril –, período em que a Amazônia está livre das queimadas e, portanto, em que a única fonte de poluição relevante é a cidade de Manaus.

“Manaus é uma cidade com cerca de 2 milhões de habitantes, mais de 500 mil veículos e abastecida por termelétricas. É, portanto, uma grande fonte poluidora cercada de floresta pristina. Nosso principal sítio experimental foi instalado em Manacapuru – cidade situada a 80 quilômetros da capital amazônica e que, alternadamente, recebe a pluma de poluição carregada pelos ventos alísios e também ar limpo da floresta”, disse Barbosa.

Com o auxílio de instrumentos capazes de medir a concentração de aerossóis na atmosfera e calcular o tamanho das partículas, bem como o de radares que medem o tamanho das gotículas de nuvem, a quantidade de chuva e a velocidade com que o vapor é levado da superfície terrestre para a nuvem, o grupo comparou como ocorria o processo de convecção (movimento vertical dos gases causado pela transferência de calor) e de formação de nuvens quando a pluma de Manaus estava ou não presente sobre Manacapuru.

“As partículas de aerossol são essenciais no processo de formação de nuvens porque são elas que oferecem uma superfície para o vapor d’água se condensar. As gotículas formadas pela condensação são pequenas, mas elas acabam colidindo umas com as outras e, assim, crescendo. As gotas aumentam de tamanho e, quando ficam pesadas o suficiente, precipitam”, explicou Barbosa.

Normalmente, apenas as partículas maiores do que 50 nanômetros atuam como núcleos de condensação de nuvens (CCN, na sigla em inglês). Segundo os pesquisadores, é mais fácil para o vapor se condensar nas partículas grandes por ser menor a menor tensão superficial, a força de atração entre as moléculas de água que permite aos mosquitos pousar na superfície de um lago.

“Em cidades mais poluídas, ou na época seca na Amazônia, há muitas partículas na atmosfera e, portanto, existe uma forte competição pelo vapor d’água que emana da superfície terrestre. Portanto, a população de gotículas que se forma tem maior número e menor tamanho do que teria se não houvesse poluição. Assim, ela demora mais tempo até crescer o suficiente para chover”, explicou Machado.

Por esse motivo, acrescentou o pesquisador, a nuvem acaba se desenvolvendo muito no sentido vertical e, como a parte de cima é mais fria, ocorre a formação de gelo. “A intensa formação de gelo favorece o desenvolvimento de tempestades, ou seja, de nuvens intensas com raios”, disse.

O processo descrito pelo pesquisador é conhecido pelos especialistas em clima como cloud invigoration, algo como intensificação da nuvem. O trabalho publicado na Science revelou que na região amazônica as nanopartículas também podem influenciar nesse processo, o que era desconhecido.

Como na floresta tropical a umidade relativa e a temperatura do ar são muito altas, e como há poucas partículas grandes na atmosfera no período chuvoso, o vapor em excesso acaba se condensando também nas nanopartículas e o processo de cloud invigoration ocorre na parte baixa da nuvem, onde a água está no estado líquido. Esse processo de formação de gotas de chuva libera calor latente que acelera o movimento vertical do ar, aumentando a intensidade da tempestade.

“Para se ter uma ideia, a velocidade do vento dobrava quando havia muitas nanopartículas na atmosfera”, disse Rodrigo Souza, professor da Universidade do Estado do Amazonas (UEA) que também participou do estudo.

Trabalhos de modelagem foram feitos pelo grupo para confirmar a hipótese levantada com base nos dados atmosféricos coletados. O modelo atmosférico usado foi o Weather Research and Forecasting (WRF), um programa de última geração, mas que falhava em representar alguns aspectos importantes do ciclo hidrológico da Amazônia por ter sido desenvolvido com base em observações do hemisfério Norte.

“Foi preciso adaptar o modelo para a nossa região”, disse o professor Helber Gomes, da Universidade Federal de Alagoas (Ufal).

Preenchendo lacunas

“Nunca entendemos como podem ocorrer aguaceiros tão frequentes na Amazônia se a região tem tão poucos núcleos de condensação de nuvens – algo na ordem de 300 ou 350 partículas por centímetro cúbico [São Paulo, por exemplo, chega a ter de 10 mil a 20 mil]. Mas é porque nunca havíamos considerado o papel dessas partículas ultrafinas de aerossol”, comentou Artaxo, coautor do artigo.

De acordo com o pesquisador, a descoberta mostra que os cientistas que estudam as regiões tropicais não devem se basear apenas em conceitos desenvolvidos em países de clima temperado. “Precisamos olhar para as particularidades da Amazônia. É possível que no passado, quando a atmosfera global ainda não estava poluída pelas emissões humanas, esse fenômeno de intensificação de tempestades também ocorresse em outras regiões do planeta. Mas não sabemos ao certo e precisamos aprofundar as investigações”, disse Artaxo.

Na avaliação de Machado, os achados deverão alterar não apenas os modelos climáticos como também o modo como teorias são formuladas e dados atmosféricos são coletados.

“Agora que foi mostrada a importância das nanopartículas no processo de intensificação da chuva nunca mais vamos estudar as nuvens da mesma maneira. Isso modifica a forma de pensar todo o processo”, comentou.

O grupo ainda pretende trabalhar em novos dados e modelos para investigar até que ponto as conclusões válidas para a Amazônia podem ser extrapoladas para outras regiões do globo. “Sabemos que é preciso uma energia brutal para levar todo esse vapor d’água para 12 a 14 quilômetros de altura. Essa energia vem do sol e está disponível na Amazônia”, disse Artaxo.

O trabalho de coleta e análise dos dados contou com a participação de cientistas do Brasil, Estados Unidos, Israel, China e Alemanha. Parte das medidas foi feita com o avião americano Gulfstream-1 (G1), pertencente ao Pacific Northwest Laboratory (PNNL).

Também apoiaram a campanha GOAmazon a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam) e o Departamento de Energia dos Estados Unidos (DoE, na sigla em inglês), além de outros parceiros.

Realizado em 2014 e 2015, o experimento teve entre seus objetivos investigar o efeito da poluição urbana de Manaus sobre as nuvens amazônicas e avançar no conhecimento sobre os processos de formação de chuva e a dinâmica da interação entre a biosfera amazônica e a atmosfera. Com base nos achados, os pesquisadores pretendem estimar mudanças futuras no balanço radiativo, na distribuição de energia, no clima regional e seus impactos para o clima global (leia mais em: http://agencia.fapesp.br/18691).

O artigo Substantial Convection and Precipitation Enhancement by Ultrafine Aerosol Particles (don: 10.1126/science.aan8461), de Jiwen Fan, Daniel Rosenfeld, Yuwei Zhang, Scott E. Giangrande, Zhanqing Li, Luiz A. T. Machado, Scot T. Martin, Yan Yang, Jian Wang, Paulo Artaxo, Henrique M. J. Barbosa, Ramon C. Braga, Jennifer M. Comstock, Zhe Feng, Wenhua Gao, Helber B. Gomes, Fan Mei, Christopher Pöhlker, Mira L. Pöhlker, Ulrich Pöschl e Rodrigo A. F. de Souza, pode ser lido em http://science.sciencemag.org/content/359/6374/411.

Fonte – Karina Toledo,  Agência FAPESP de 25 de janeiro de 2017

ABNT divulga nova norma de acessibilidade em edificações

ABNT divulga nova norma de acessibilidade em edificações, © Carlos Martinez, via Flickr. CCCarlos Martinez, via Flickr

Associação Brasileira de Norma Técnica divulgou no dia 11 deste mês a nova Norma Brasileira NBR 9050, referente à acessibilidade em edificações, mobiliário, espaços e equipamentos urbanos. Válida a partir do dia 11 de outubro, a nova norma estabelece critérios e parâmetros técnicos a serem observados no projeto, construção, instalação e adaptação do meio urbano e rural em relação à acessibilidade universal.

O documento aborda, em suas mais de 160 páginas, desde critérios de sinalização em espaços públicos até parâmetros de ergonomia para mobiliário e equipamentos urbanos e intervenções em bens tombados pelo patrimônio histórico.

Visando tornar o documento acessível a todos a Secretaria Nacional de Promoção dos Direitos da Pessoa com Deficiência disponibilizou a Norma completa em sua página. Clique aqui para acessá-la.

Fonte – ArchDaily