CVMR – Central de Valorização vai expandir área de coleta de recicláveis em Maringá

O espaço vai atender sete cooperativas que fazem a reciclagem de materiais como garrafas pet, papel, papelão, latas, vidros, entre outros resíduos

A primeira etapa da Central de Valorização de Materiais Recicláveis (CVMR) foi entregue nesta quinta-feira (21) para as cooperativas de Maringá. A utilização do espaço e a entrega de 5 caminhões até o final do mês para auxiliar a coleta desses materiais vai ampliar a área urbana da coleta de recicláveis de 52% para 80% até dezembro.

O espaço vai atender sete cooperativas que fazem a reciclagem de materiais como garrafas pet, papel, papelão, latas, vidros, entre outros resíduos. A área é composta por dois barracões com mais de 700 metros quadrados, localizada no Parque Industrial II e vai ter caminhões, máquinas de reciclagem, funcionários, além da infraestrutura necessária para que as organizações atuem de forma mais segura e ágil.

Nessa primeira etapa foram entregues os equipamentos para o processamento de papel e papelão. A previsão de funcionamento com todas as etapas entregues é para o final do ano, e a meta de volume de material (plástico, papel e papelão) é de 400 toneladas por mês. A expectativa é que sejam atendidas 200 famílias com essa estrutura.

A Central é resultado da iniciativa público-privada que reúne a administração municipal, Sindibebidas e parceiros, além da Secretaria Estadual de Meio Ambiente. Para a construção e operacionalização da CMVR, o Sindibebidas representando os demais parceiros, investiu R$ 2,5 milhões com a contrapartida da administração municipal em cerca de R$ 650 mil.

O espaço vai atender as seguintes cooperativas: CooperMaringá, CooperNorte, CooperCanção, CooperAmbiental, CooperCicla, CooperVidros e CooperPalmeiras.

O secretário de Saneamento, José Miguel Grillo, lembrou da história do convênio, que já poderia ter iniciado há dois anos, mas não aconteceu por uma questão técnica que inviabilizou uma das parcerias. “Maringá é pioneira no interior do Paraná a formalizar esse tipo de convênio e entregar esse benefício para as 200 famílias que vão trabalhar aqui e para a comunidade, que será beneficiada com mais esse cuidado com o meio ambiente. O Sindibebidas honrou o compromisso firmado, nós fizemos nossa parte e hoje estamos inaugurando esse espaço. Agradeço em nome de todas as cooperativas por todo esse avanço conquistado nos últimos anos”, disse, lembrando que o município contrata atualmente 5 cooperativas que já providenciaram a documentação necessária para a parceria.

Para o diretor do Sindibebidas, Luiz Roberto Santos, hoje é mais uma etapa conquistada. “Há cerca de 3 anos e meio estamos lidando com esse processo de parceria em Maringá, fomos muito bem recepcionados e atendidos sempre, e agora estamos entregando esse benefício. Que os catadores aproveitem a oportunidade que estão tendo. O investimento até agora foi de R$ 2,5 milhões e vamos investir até 2017 um total de R$ 22 milhões em sete municípios do Paraná. Agradeço às indústrias e empresas que propiciaram este momento”, afirmou, acrescentando que as operações devem ter início em agosto, após ser providenciada toda a documentação necessária para a utilização do prédio.

O presidente da Coopercentral, Tercivaldo Joaquim dos santos, falou em nome das cooperativas. “É um sonho de mais de 10 anos que está se tornando realidade. Agora é pé no chão e vamos trabalhar para ampliar a reciclagem em Maringá e na região, porque vamos atender um raio de 100km, começando também por Sarandi e Paiçandu”.

Para o procurador do Trabalho, Fábio Alcure, é um orgulho pessoal inaugurar esse espaço. “Desde o princípio buscamos conhecer o projeto para saber se era bom, e essa união de esforços foi essencial para conquistarmos o benefício aos catadores. Este projeto é muito rico do ponto de vista social, é um projeto muito bom. Temos que fazer com que dê certo e a esperança é grande que vamos colher bons frutos”.

O secretário estadual de Meio Ambiente, Antônio Carlos Bonetti, agradeceu todos os parceiros e afirmou que um momento como esse tem que ser muito comemorado. “O projeto é muito importante pela responsabilidade que temos enquanto Estado de preservar o meio ambiente, mas o mais importante é o cunho social. Parabéns às famílias que vão exercer essa atividade tão nobre e aos parceiros que deram condições para mais essa ação de sustentabilidade”, destacou.

Preparação

Os catadores vão receber treinamento de Segurança do Trabalho e para o manuseio do maquinário, passando já a atuar com a nova estrutura. Os equipamentos são de alta tecnologia, visando um melhor aproveitamento dos materiais a serem processados, e de acordo com as exigências do mercado. Este é um projeto socioambiental, de acordo com a Política Nacional de Resíduos Sólidos e pioneiro no Brasil, tendo a comercialização em rede e gestão compartilhada.

Um dos destaques e benefícios é que a questão ambiental é favorecida com a retirada do meio ambiente das embalagens pós consumo, gerando com isto trabalho e renda para os catadores e principalmente a inclusão social. Uma das características da Central é a visão socioambiental, tendo seu eixo baseado na responsabilidade compartilhada entre a indústria, poder público e catadores de materiais recicláveis.

Estado

O projeto foi aprovado pelo Governo do Paraná, com investimentos da iniciativa privada previstos em aproximadamente R$ 20 milhões, e a implantação até o final de 2017 de sete Centrais nas cidades de Maringá, Londrina, Cascavel, Francisco Beltrão, Guarapuava, Ponta Grossa e região de Curitiba.

O Paraná terá uma rede de coleta de embalagens vazias como garrafas, papel e papelão, plásticos, metais e outros materiais destinados à reciclagem. As Centrais de Valorização de Materiais Recicláveis (CVMRs) serão implantadas no Estado e cada uma atenderá municípios que estão em um raio de 100 quilômetros da unidade-sede.

As CVMRs são resultados de Termo de Compromisso da Secretaria Estadual do Meio Ambiente e Recursos Hídricos com o setor de Embalagens e de Bebidas, responsável pelos custos da implantação e funcionamento das Centrais. Os sindicatos das Indústrias de Bebidas do Paraná e o de Embalagens representam hoje mais de 100 outras organizações socais deste ramo industrial envolvidas no programa de Logística Reversa do Governo do Estado.

Fonte – Secretaria de Comunicação de Maringá de 21 de julho de 2016

Vídeo – FUNVERDE

Produção de alimentos é suficiente, mas ainda há fome no país, diz pesquisador

Conferência Green Rio 2015 discute estratégias para a economia verde e o setor de alimentos orgânicos no Jardim Botânico (Fernando Frazão/Agência Brasil)

Estudo revela que o Brasil produz mais que o suficiente para alimentar sua população, mas a desigualdade de renda e o desperdício fazem com que 7,2 milhões ainda sejam afetadas pelo problema Arquivo/Agência Brasil

A produção nacional de alimentos é suficiente para os mais de 204 milhões de brasileiros, mas a desigualdade de renda e o desperdício ainda fazem com que 7,2 milhões de pessoas sejam afetadas pelo problema da fome no país, revela estudo conduzido pelo professor Danilo Rolim Dias de Aguiar, pesquisador do Departamento de Economia do Campus Sorocaba da Universidade Federal de São Carlos.

“Temos uma concentração de renda muito grande. Se, por um lado, temos pessoas passando fome, por outro, temos o problema da obesidade, que é cada vez maior. Haveria, então, um problema ligado à renda e à educação, que estaria dificultando o acesso aos alimentos. Aí também entra a questão das perdas”, disse Aguiar.

Na pesquisa, Aguiar fez um levantamento sobre o que é produzido no país, pegando os principais alimentos – arroz, feijão, trigo, ovos, leite, milho, soja, banana, açúcar, mandioca e carnes de frango, de porco e bovina – e os transformou em um indicador comum que permitisse uma comparação mais adequada entre eles, calculando todos os itens em número de calorias ou proteínas.

Segundo o pesquisador, a quantidade média necessária para consumo individual por dia, e que foi considerada neste estudo, é de 2 mil calorias e 51 gramas de proteína.

“Peguei tudo aquilo que ficou no Brasil para consumo humano e transformei isso em calorias e proteínas. O que verificamos foi que, em termos de calorias e proteínas, temos mais que [o suficiente para] as necessidades humanas aqui no Brasil. Se pegarmos calorias, que é uma situação um pouco pior, chegamos, em 2013, com 118% das necessidades individuais, uma folga de quase 20%. Em termos de proteína, teríamos uma folga de mais de 60%, ou seja, estariam sobrando alimentos”, explicou Aguiar.

Comida jogada no lixo

Desperdício de alimentos é um dos fatores que contribui para agravar a questão da fome Arquivo/Agência Brasil

Em entrevista à Agência Brasil, o pesquisador disse que muitas pessoas ainda passam fome no Brasil principalmente pela dificuldade de acesso à alimentação. Apesar de o país ocupar o quinto lugar no ranking mundial da obesidade, ainda há mais de 7 milhões de pessoas passando fome e 30 milhões de subnutridos.

No estudo, Aguiar analisa também o volume de produtos exportados pelo Brasil. Para o professor, o volume de alimentos exportados poderia, por exemplo, alimentar duas vezes toda a população brasileira. Quando se transforma o total que é vendido para o exterior em calorias, percebe-se que a quantidade seria suficiente para alimentar quase 700 milhões de pessoas.

“Peguei todos os produtos que o Brasil exporta, como milho, soja, carne bovina e carne de frango, transformei em calorias e proteínas e dividi pelas necessidades de cada pessoa para saber quantas poderiam ser alimentadas no exterior com as exportações brasileiras. Em 2013, as proteínas que o país exportou dariam para nutrir 700 milhões de pessoas. Em termos de calorias, seriam 380 milhões de pessoas. Aquilo que estamos vendemos lá fora seria capaz de alimentar duas vezes a população brasileira em termos de calorias e três vezes em termo de proteínas”, detalhou Aguiar.

No entanto, isso não ocorre em realidade porque muito do que é exportado pelo Brasil vira comida para animais, disse o professor. “Isso não está alimentando tanta gente porque boa parte do que se exporta – como milho e soja – não vai virar diretamente comida para pessoas, mas comida para animais.”

O pesquisador classifica de “cruel” essa situação em que “as pessoas de baixa renda acabam concorrendo com os animais, porque aquilo que poderia ser utilizado para alimentação humana vai para a alimentação animal, pois as pessoas de maior renda querem cada vez mais consumir carne. Como resultado disso, o preço dos produtos básicos sobe, porque há pouco, e fica cada vez mais difícil o acesso por parte dos pobres”.

Políticas públicas

carne

Brasileiros estão produzindo muito mais carne do que arroz e feijão porque a carne dá mais rentabilidade, diz o professor Danilo Aguiar, do Campus Sorocaba da Universidade Federal de São Carlos Arquivo/Agência Brasil

Para Aguiar, políticas públicas são necessárias para diminuir o consumo de carne. Ele destacou que o crescimento do consumo da carne é acompanhado pelo aumento da crise ambiental, já que, por exemplo, a produção da carne bovina é responsável por 10% das emissões de gases de efeito estufa na atmosfera e é o principal emissor do agronegócio.

De acordo com o pesquisador, outro problema relacionado ao aumento do consumo de carne no país é que muito da produção de milho e soja, por exemplo, acaba sendo destinado à alimentação dos animais.

“Por que os produtores brasileiros estão produzindo muito mais carne do que arroz e feijão? É porque isso, para eles, dá maior rentabilidade. Temos que ter políticas que incentivem a produção de alimentos que atinjam as classes de renda mais baixa e que sejam menos danosas ao meio ambiente.”

Aguiar alertou, no entanto, que essas políticas precisam ser articuladas mundialmente. “Temos que entrar com políticas, mas articuladas em termos mundiais. Não dá para o Brasil tomar uma decisão unilateral, de não querer produzir tanta carne, se o mundo inteiro quer comprar carne. Tem que haver uma articulação maior para que se atinjam esses objetivos. E uma coisa que vai ajudar muito é a educação. Cerca de 99% das pessoas não têm noção se aquilo que elas estão comendo tem algum impacto ambiental.”

Fonte – Elaine Patricia Cruz / Edição Nádia Franco, Agência Brasil de 16 de julho de 2016

O custo ambiental de comer carne

O custo ambiental de comer carne

Na medida em que as ciências ambientais avançam, é cada vez mais evidente que o apetite humano por carne animal agrava a maioria dos problemas ambientais, como o desmatamento, a erosão, a escassez de água potável, a contaminação atmosférica e da água, a mudança climática e a perda de biodiversidade, a injustiça social, a desestabilização das comunidades e a expansão das doenças”.

 

Gostemos ou não, comer carne é um problema para todos no planeta.

Pergunte se comer carne é um assunto de preocupação pública e verá que a maioria das pessoas fica surpresa. Comer ou não carne (ou o quanto) é um tema pessoal, dirão. Talvez haja algumas implicações para o seu coração, especialmente se você tem sobrepeso. No entanto, não é um tema público importante que se espera que os candidatos à Presidência ou o parlamento abordem, como a educação, a economia e a saúde da população.

Inclusive, se você é um dos poucos que reconhecem que comer carne tem importantes implicações ambientais, estas podem parecer relativamente pequenas. Sim, houve relatórios sobre a derrubada da mata tropical para favorecer os latifundiários, e as pastagens nativas estão sendo destruídas pela pecuária. Mas, até pouco tempo, poucos ambientalistas tinham apontado que comer carne tem a mesma importância que os assuntos abordados pelo Greenpeace ou Amigos da Terra.

Na medida em que as ciências ambientais avançam, é cada vez mais evidente que o apetite humano por carne animal agrava a maioria dos problemas ambientais, como o desmatamento, a erosão, a escassez de água potável, a contaminação atmosférica e da água, a mudança climática e a perda de biodiversidade, a injustiça social, a desestabilização das comunidades e a expansão das doenças.

Como é que um tema aparentemente pequeno como o consumo individual de carne passou tão rapidamente das margens da discussão sobre a sustentabilidade ao centro do debate? Em primeiro lugar, porque o consumo de carne per capita mais do que duplicou no último meio século, apesar do aumento da população mundial. Por conseguinte, a demanda de carne se multiplicou por cinco. O que aumentou a pressão sobre a disponibilidade de água, terras, pastos, fertilizantes, energia, a capacidade de tratamento de resíduos (nitratos), e a maior parte dos limitados recursos do planeta.

Desmatamento

O desmatamento foi o primeiro dano ambiental importante causado pelo desenvolvimento da civilização. Grandes superfícies de matas foram cortadas para dedicá-las à agricultura, que incluía a domesticação tanto de plantas comestíveis como de animais. Os animais domésticos requerem muito mais superfícies que as plantações para produzir a mesma quantidade de calorias, mas isso não importou realmente durante os 10.000 anos em que sempre existiram mais terras para descobrir e expropriar. Em 1990, no entanto, o Programa de Fome no mundo, da Brown University, calculou que as plantações mundiais, se fossem distribuídas equitativamente e sem destinar uma porcentagem importante ao gado, poderiam fornecer uma dieta vegetariana para 6 bilhões de pessoas, ao passo que uma dieta abundante em carne, como a dos moradores dos países ricos, podia alimentar somente 2,6 bilhões.

Em outras palavras, com uma população atual de 6,4 bilhões, isso quer dizer que já padecemos de um déficit de terras, agravado pela sobre-exploração pesqueira dos oceanos, que estão sendo rapidamente arruinados. A curto prazo, a única maneira de alimentar toda a população mundial, se continuarmos comendo carne na mesma porcentagem ou se a população mundial continuar crescendo ao ritmo previsto (8,9 bilhões em 2050), é derrubar mais matas. A partir de agora, a questão se obtemos nossas proteínas de calorias de animais ou de plantas tem implicações diretas sobre a quantidade de mata restante que precisamos arrasar.

Na América Central, 40% das matas tropicais foram cortadas ou queimadas nos últimos 40 anos, principalmente para pastagens do gado para o mercado de exportação, muitas vezes para a carne dos hambúrgueres dos Estados Unidos. A carne é muito cara para os pobres nos países exportadores de carne, mas, no entanto, em muitos casos, os pastos para o gado substituíram as formas de agricultura tradicional muito produtivas.

Os relatórios do Center for International Forestry Research destacam que o rápido crescimento nas vendas de carne bovina brasileira acelerou a destruição da mata tropical da Amazônia.

A destruição das campinas foi acelerada com a expansão das manadas de animais domesticados, e o meio ambiente no qual viviam os animais selvagens como bisontes e antílopes foi pisoteado e replantado com monoculturas de plantas forrageiras para o gado.

As reservas de água doce

A água doce, da mesma maneira que a terra, parecia inesgotável durante os primeiros 10 milênios da civilização. Desse modo, parecia não importar a quantidade de água que uma vaca consumia. Porém, há alguns anos, os especialistas calcularam que nós, seres humanos, consumimos a metade da água doce disponível no planeta, deixando a outra metade para ser dividida entre um milhão ou mais de espécies. Em razão de dependermos de muitas dessas espécies para a nossa própria sobrevivência (fornecem todo o alimento que comemos e o oxigênio que respiramos, entre outros serviços), esse monopólio da água apresenta um dilema. Se analisarmos em detalhe, espécie por espécie, descobrimos que o uso mais significativo da água se deve aos animais que criamos para carne. Uma das maneiras mais fáceis para reduzir a demanda de água é consumir menos carne.

A dieta comum de uma pessoa no ocidente requer 16.000 litros de água por dia (para dar de beber aos animais, irrigar as plantações, processar, lavar e cozinhar, entre outros usos). Uma pessoa com uma dieta vegetariana requer somente 1.100 litros diários.

Um relatório do Instituto Internacional de Gestão da Água, após assinalar que 840 milhões de pessoas no mundo sofrem desnutrição, recomenda produzir mais alimentos com menos água. O relatório destaca que são necessários 550 litros de água para produzir suficiente farinha para uma ração de pão nos países em desenvolvimento, mas até 7.000 litros de água para produzir 100 gramas de carne bovina.

Se você toma banho uma vez por dia, e cada banho dura uma média de sete minutos, utilizando oito litros por minuto, gastará 19.300 litros por ano para um banho diário. Quando você compara esse número com a quantidade que a Fundação para a Educação da Água calcula que é utilizada na produção de cada quilo de carne bovina (20.515 litros), perceberá algo extraordinário. Hoje, você poderia poupar mais água não comendo um quilo de carne que deixando de tomar banho durante um ano inteiro.

Manejo de resíduos

O aterro de resíduos, da mesma maneira que a oferta de água, parecia que não tinha limites. Sempre havia novos lugares onde jogar o lixo, e durante séculos a maior parte dos dejetos se decompuseram convenientemente ou desapareceram de vista. Assim como não nos preocupou a quantidade de água que uma vaca consome, tampouco a quantidade que excreta. Mas, hoje, os resíduos de nossos colossais estábulos superam a capacidade de absorção do planeta. Os rios que recebem resíduos pecuários vertem tal quantidade de nitrogênio em bahias e golfos que já contaminaram grandes áreas do mundo marinho.

As enormes estâncias de animais, que podem alojar centenas de milhares de porcos, frangos e bois, produzem quantidades imensas de resíduos. Para dizer a verdade, ao menos nos Estados Unidos, estas “Fábricas de Gado” geram 130 vezes mais resíduos que toda a população.

Consumo energético

O consumo de energia, até há muito pouco, parecia um assunto dos frigoríficos, que nada tinha a ver com a carne e o leite de seu interior. Contudo, quanto prestamos mais atenção na análise do ciclo de vida dos objetos que compramos, é evidente que a viagem do filé até chegar a nosso refrigerador consumiu quantidades surpreendentes de energia. Podemos começar o ciclo com a plantação dos cereais para alimentar o gado, que requer grandes quantidades de produtos químicos agrícolas derivados do petróleo. Posteriormente, é preciso acrescentar o combustível requerido para transportar o gado aos matadouros e dali para os mercados. Hoje, a maior parte da carne consumida percorre milhares de quilômetros. E, em seguida, após ser congelada ou posta no frigorífico, precisa ser cozinhada.

São necessários 8,3 litros de petróleo para produzir um quilo de carne bovina alimentada com ração nos Estados Unidos. Parte da energia foi consumida no estábulo ou nos transportes e armazenamento frigorífico, mas a maior parte foi consumida em fertilizantes de milho e na soja para ração, com a qual são alimentadas as cabeças de gado. O consumo médio anual de carne bovina de uma família de quatro pessoas requer 983 litros de petróleo.

Em termo médio, são necessárias 28 calorias de energia de combustíveis fósseis para produzir uma caloria de proteína de carne para o consumo humano, ao passo que se fazem necessárias 3,3 calorias de energia de combustíveis fósseis para produzir uma caloria de proteína de cereais para o consumo humano.

A transição da agricultura mundial, de cereais para alimentos a cereais para ração, representa uma nova forma de maldade humana, com consequências possivelmente maiores e mais prolongadas no tempo que qualquer das más ações anteriores infligidas pelos homens contra seus semelhantes. Hoje, mais de 70% dos cereais e da soja produzida nos Estados Unidos são destinados à alimentação do gado, em sua maior parte para o gado. Alimentar com cereais os animais é muito ineficiente e é um uso absurdo dos recursos.

Mudança climática

O aquecimento do planeta se deve ao consumo de energia, na medida em que as principais fontes de energia contêm carbono que, ao se queimar, emitem dióxido de carbonos e outros gases contaminantes. Como já se destacou, a produção e a comercialização da carne precisam do consumo de grande quantidade de tais combustíveis. No entanto, a gado também emite diretamente gases de efeito estufa, como um subproduto da digestão. O gado emite importantes quantidades de metano, um potente gás de efeito estufa.

Uma tonelada de metano, o principal gás de estufa emitido pela pecuária, tem um potencial de aquecimento do planeta de 23 toneladas de dióxido de carbono por cada tonelada de metano. Uma vaca leiteira produz aproximadamente 75 quilogramas de metano por ano, equivalentes a mais de 1,5 tonelada de dióxido de carbono. A vaca, é claro, faz isto de forma natural. Mas, as pessoas tendem a esquecer, parece, que a pecuária é uma indústria. Derrubamos as matas, cultivamos as plantas forrageiras transgênicas e alimentamos o gado de forma industrial. É uma empresa humana, não natural. Somos muito eficientes, e por isso as concentrações atmosféricas de metano aumentaram em 150% em relação a 250 anos atrás, ao passo que as concentrações de dióxido de carbono cresceram só 30%.

Há uma estreita relação entre a dieta humana e as emissões de metano da pecuária. Ao crescer ou diminuir o consumo de carne bovina, também aumentará ou se reduzirá o número de cabeças e as emissões de metano relacionadas. A América Latina registra as maiores emissões de metano per capita, atribuíveis principalmente às grandes quantidades de gado dos países exportadores de carne, como Brasil e Argentina.

A produção de alimentos das terras de cultivo cresce menos que a população. Quando Paul Ehrlich advertiu há três décadas que “centenas de milhões” de pessoas morreriam de fome, provavelmente exagerou, por agora. (Só morreram de fome dezenas de milhões). A revolução verde, uma injeção de fertilizantes e técnicas de fabricação em série, aumentou os rendimentos das colheitas e só atrasou a escassez. Isso, combinado com uma utilização mais intensiva das terras cultiváveis através da irrigação e o uso massivo de fertilizantes e praguicidas químicos baseados nos combustíveis fósseis, nos permitiu guardar o passo mais ou menos com o crescimento da população durante outra geração. A estabilização da população não se produzirá antes de outro meio século, e só nos resta uma alternativa importante: reduzir drasticamente o consumo de carne, porque a conversão das áreas de pastos para plantações de alimentos aumentará a quantidade de alimentos produzida.

Doenças

As enfermidades transmissíveis não se deslocam de um lugar para o outro sozinhas, é preciso haver um vetor de transmissão, seja a água suja, o sangue infectado de ratos e insetos ou a carne contaminada.

Os resíduos animais contêm agentes patogênicos que causam doenças como a Salmonella, E. coli, Cryptosporidiume coliformes fecais, que podem estar de 10 a 100 vezes mais concentrados que nas fezes humanas. Mais de 40 doenças podem ser transferidas aos seres humanos através de estrume. Um relatório do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos estima que 89% da carne moída dos hambúrgueres contêm vestígios de E. coli.

As doenças do estilo de vida, especialmente as coronárias, não eram consideradas um problema “ambiental” há uma geração. Mas, hoje, é evidente que a maioria dos problemas de saúde pública é ambiental e não genético. Além disso, a maioria das doenças evitáveis são o resultado das complicadas relações entre os seres humanos e seu meio ambiente, e não de causas singulares. As doenças coronárias se relacionam com a obesidade resultante do consumo excessivo de açúcar, sal e gordura (especialmente gordura animal) e da falta de exercício resultante de um mapa urbano baseado no automóvel. Os problemas ambientais do crescimento suburbano, a contaminação atmosférica, o consumo de combustíveis fósseis e as péssimas políticas de uso do solo são também fatores que agravam as doenças cardíacas e o câncer.

A ironia do sistema de produção de alimentos é que milhões de consumidores endinheirados nos países desenvolvidos morrem das doenças da opulência, os ataques cardíacos, as apoplexias, os diabetes e o câncer, causadas por se encherem de carne bovina e de outros animais, alimentados com cereais e soja transgênica, ao passo que os pobres do Terceiro Mundo morrem por causa de doenças da pobreza, porque lhes é negado o acesso às terras para cultivar os cereais com os quais alimentar diretamente suas famílias.

Não só a mortalidade por doenças coronárias é mais baixa nos vegetarianos que nos não vegetarianos, como também as dietas vegetarianas também tiveram êxito em frear as doenças do coração. Os dados científicos demonstram uma relação positiva entre a dieta vegetariana e a redução do risco por obesidade, doenças das artérias coronárias, hipertensão, diabetes e alguns tipos de câncer.

Albert Einstein, mais conhecido por seus trabalhos em física e matemáticas que por seu interesse pelo mundo vivente, uma vez disse: “Nada beneficiará tanto a saúde humana e aumentará as oportunidades de sobrevivência da vida na Terra como uma dieta vegetariana”. Não acreditamos que apenas se referia à alimentação. Neste artigo, não dissemos nada sobre o papel da carne na dieta, ainda que haveria muito a ser dito, além das doenças do coração. Também não abordamos a ética do vegetarianismo ou os direitos dos animais. O propósito dessas supressões não é se omitir dessas preocupações, mas destacar que apenas com base em fundamentos ecológicos e econômicos, comer carne já é uma ameaça para a espécie humana.

A era de uma alimentação baseada fundamentalmente na carne passará, assim como a do petróleo, e ambos declínios estão estreitamente relacionados.

Fontes – Mundo Nuevo / Rebelión / Tradução Cepat / IHU / EcoDebate de 18 de julho de 2016

Estudo revela que 30% dos solos do mundo estão degradados

Principais fatores são o desequilíbrio de nutrientes e a perda de matéria orgânica

Ameaças como compactação, desequilíbrio de nutrientes e perda de matéria orgânica atingem quase um terço das terras do Planeta. Um amplo estudo envolvendo 600 pesquisadores de 60 países mostrou que mais de 30% dos solos do mundo estão degradados. Coordenado pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), o trabalho publicou seus resultados no livro “Estado da Arte do Recurso Solo no Mundo” (Status of the world´s soil resources).

O relatório traz uma perspectiva global sobre as condições atuais do solo, seu papel na prestação de serviços ecossistêmicos, como produção de água e sequestro de carbono, bem como sobre as ameaças à sua contribuição para a produção desses serviços. Segundo a pesquisadora da Embrapa Solos, Maria de Lourdes Mendonça Santos Brefin, membro do comitê editorial e coordenadora da publicação para a América Latina e Caribe, a perspectiva é de que a situação possa piorar se não houver ações concretas que envolvam indivíduos, setor privado, governos e organizações internacionais. “A principal conclusão do livro não é boa. O índice de degradação no mundo é alto e provocado principalmente por erosão, compactação, perda de matéria orgânica e desequilíbrio de nutrientes”, revela a pesquisadora.

“Essas quatro ameaças têm a mesma origem: a exploração cada vez maior da terra por parte do ser humano, geralmente combinada com as mudanças climáticas”, afirma Miguel Taboada, diretor do Departamento de Solos do argentino Instituto Nacional de Tecnologia Agropecuária (INTA).

Perdas anuais de culturas causadas por erosão foram estimadas em 0,3% da produção. Se o problema continuar nesse ritmo, uma redução total de mais de 10% poderá acontecer até 2050. A erosão em solo agrícola e de pastagem intensiva varia entre cem a mil vezes a taxa de erosão natural e o custo anual de fertilizantes para substituir os nutrientes perdidos pela erosão chega a US $ 150 bilhões.

Outro problema que ameaça o solo é sua compactação, que pode reduzir em até 60% os rendimentos mundiais das culturas agrícolas. “No mundo, a compactação tem degradado uma área estimada de 680.000 km2 de solo, ou cerca de 4% da área total de terras”, revela Lourdes, que também compôs o grupo de 27 especialistas do Painel Técnico Intergovernamental do Solo (ITPS) da Organização das Nações Unidas. O pisoteio dos rebanhos e a cobertura insuficiente do solo pela vegetação natural ou pelas culturas são responsáveis pela compactação de 280.000 km2 na África e Ásia, uma área maior do que o território da Nova Zelândia.

Os danos causados pela compactação do solo são de longa duração ou mesmo permanentes. Uma compactação que aconteça hoje pode levar à redução da produtividade das culturas até 12 anos mais tarde.

No entanto, o maior obstáculo para melhorar a produção de alimentos e as funções do solo em muitas paisagens degradadas é a falta de nutrientes, especialmente nitrogênio e fósforo, bem como insumos orgânicos. Toda a África, à exceção de três países, retira mais nutrientes do solo a cada ano do que é devolvido por meio do uso de fertilizantes, resíduos da produção, estrume e outras matérias orgânicas.

Em outras áreas, a oferta excessiva de nutrientes contamina o solo e os recursos hídricos e contribui para as emissões de gases de efeito estufa. Em 2010, as emissões de óxido nitroso dos solos agrícolas provocadas pela adição de fertilizantes sintéticos foram equivalentes a 683 milhões de toneladas de CO2.

Pesquisa e legislação são a solução

O livro não aponta só os problemas. O relatório mostra caminhos sobre como lidar com essas ameaças ao solo, tanto no âmbito de políticas públicas como trazendo recomendações técnicas.

Para interromper a degradação do solo é necessário focar em quatro pilares definidos pela União Europeia: aumento do conhecimento, pesquisa, integração da proteção do solo na legislação existente e um novo instrumento legal (lei). “Um bom exemplo de instrumento legal é o Ato de Conservação do Solo, promulgado em 1935, nos Estados Unidos”, revela o italiano Luca Montanarella, cientista do Centro Conjunto de Pesquisa da União Europeia. “O Ato reverteu a tendência negativa de erosão massiva no Meio-Oeste americano nos últimos 80 anos,” diz.

Especialistas afirmam que os instrumentos legais precisam ser reforçados pelo aumento das atividades de conscientização e educação, assim como é preciso reforçar o investimento em pesquisa e tecnologias de recuperação. Para eles, desenvolver essa estratégia pode reverter a tendência de degradação do solo no mundo e deve ser o objetivo para o manejo sustentável da terra.

“Existe evidência de que a humanidade está perto dos limites globais para fixação total de nitrogênio e os limites regionais para o uso de fósforo”, diz Maria de Lourdes. “Portanto, devemos agir para estabilizar ou reduzir o nitrogênio e uso de fósforo de fertilizantes, aumentando simultaneamente o uso de fertilizantes em regiões com deficiência de nutrientes”. De acordo com a cientista da Embrapa, aumentar a eficiência de nitrogênio e a utilização de fósforo pelas plantas é um requisito fundamental para atingir esse objetivo.

Evitar a degradação

A publicação recomenda oito técnicas para evitar a degradação do solo: minimizar o revolvimento, evitando a colheita mecanizada; aumentar e manter uma camada protetora orgânica na superfície do solo, usando grãos de cobertura e resíduos desses grãos; cultivo de uma grande variedade de espécies de plantas – anuais e perenes − em associações, sequências e rotações que podem incluir árvores, arbustos, pastos e grãos; usar espécies bem adaptadas para resistir aos estresses bióticos e abióticos e com boa qualidade nutricional, plantadas no período apropriado; aumentar a nutrição dos grãos e a função do solo, usando rotação de grãos e uso criterioso de fertilizantes; assegurar o manejo integrado de pestes, doenças e sementes usando práticas apropriadas e pesticidas de baixo risco quando necessário; gerenciamento correto do uso da água e, por último, controlar as máquinas e o tráfego nas propriedades a fim de evitar a compactação. Essas oito práticas combatem com eficiência a erosão, o desequilíbrio de nutrientes, a perda de matéria orgânica e a compactação.

Ações no Brasil

A Embrapa, ao lado do Tribunal de Contas da União (TCU), reuniu em 2012 em Brasília, autoridades brasileiras e mundiais durante três dias de debates sobre solos. Na ocasião foi elaborada a Carta de Brasília, com recomendações aos tomadores de decisão sobre o manejo e conservação da terra.

Outra importante ação estratégica é a implementação do Programa Nacional de Solos do Brasil (Pronasolos), que reúne um grupo de especialistas a fim de criar instrumentos para a governança dos solos no Brasil. O Programa é capitaneado pela Embrapa Solos atendendo a uma resolução do TCU e envolve dez centros de pesquisa da Embrapa, quatro universidades, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais (CPRM) e o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa).

De acordo com Maria de Lourdes Mendonça, o Pronasolos será um marco da retomada do País no conhecimento mais detalhado de seus solos. O Programa também possibilitará a construção e a gestão de uma infraestrutura de dados de solos unificada, a formação e o resgate de competências em pedologia, o fortalecimento das instituições envolvidas e uma estratégia eficiente de transferência de tecnologias. A Embrapa Solos procura parceiros privados para implantar o programa.

O documento elaborado pelos membros do projeto prevê a inclusão do Pronasolos no Plano Plurianual do Mapa, com recursos diretos por meio de uma Fundação e contratação, pela Embrapa, de equipe mínima permanente de pedólogos. O programa ainda será incluído na nova Lei de Conservação de Solos e Água.

Fontes – Embrapa / FAPEAM / EcoDebate de 18 de julho de 2016

Foto – Cláudio Capeche

Fritjof Capra – Energia e transgênicos como questões na humanização do desenvolvimento 4/6

Fritjof Capra (Viena, Áustria, 1 de fevereiro de 1939) é um físico teórico e escritor que desenvolve trabalho na promoção da educação ecológica. Foto e informações da Wikipedia

Humanizar o desenvolvimento do mundo, segundo Capra, significa a introdução de valores da dignidade humana e da sustentabilidade ecológica para dentro do processo de desenvolvimento.

Isto é o que os lideres da sociedade civil global têm proposto no Fórum Social Mundial. A visão alternativa proposta por esta sociedade civil, ou movimento de justiça global vê o desenvolvimento como um processo criativo, característico de toda vida, um processo de aumento de capacitação, onde a coisa mais importante que se precisa fazer é exercer controle sobre os recursos locais.

Nesta visão, o processo de desenvolvimento não é puramente um processo econômico.

É também um processo social, ecológico e ético, um processo multidimensional e sistêmico. Os atores primários do desenvolvimento são instituições da sociedade civil, baseadas na vizinhança ou em interesses comuns.

Porque as pessoas são diferentes e os lugares onde vivem são diferentes, nós podemos esperar que o desenvolvimento produza diversidade cultural de todos os tipos.

O processo por onde isso ocorrerá será muito diferente do atual sistema de comércio global. Será baseado na mobilização de recursos locais para satisfazer necessidades locais e alimentado pela dignidade humana e sustentabilidade ecológica.

Na agricultura, uma coalizão em escala mundial de ONGs foi formada para resistir a apressada e descuidada introdução de transgênicos e para promover a prática de uma agricultura sustentável.

À medida que a lacuna entre os anúncios da indústria biotécnica e as realidades da alimentação biotecnológica tornam-se ainda mais aparente nos últimos anos, a resistência contra os alimentos transgênicos cresceu e transformou-se num movimento político mundial.

Os anúncios da biotecnologia desenham um bravo novo, um mundo no qual a agricultura não mais dependerá de químicos e assim não mais danificará o meio ambiente. Alimentação será a melhor e mais segura do que foi antes, a fome mundial desaparecerá. Não se fala em redistribuição de riqueza. Deverá haver alguma mágica no meio do caminho.

Uma linguagem similar foi usada pelas mesmas corporações agro-químicas quando promoveram uma nova era de químicos para agricultura alardeada como “Revolução Verde” décadas atrás.

Desde aquela época o lado escuro da agricultura tornou-se dolorosamente evidente. Hoje é bem sabido que aquela revolução não ajudou nem agricultores, nem a terra, nem consumidores.

Os efeitos em longo prazo do uso excessivo da química na agricultura tem sido um desastre para a saúde do solo e para saúde humana, para as nossas relações sociais e para todo ambiente natural sobre o qual nosso bem estar e futura sobrevivência dependem.

Os proponentes da biotecnologia freqüentemente argumentam que as sementes de transgênicos são cruciais para alimentar o mundo. Entretanto, as agências de desenvolvimento sabem há muito tempo que as raízes da causa da fome ao redor do mundo não estão relacionadas com a produção de alimentos.

São a pobreza, a desigualdade e falta de acesso a alimento e terra. Se essas causas estruturais não forem abordadas, a fome persistirá pouco importando que tecnologia será utilizada. Mesmo nos Estados Unidos, hoje existem entre 20 e 30 milhões de pessoas mal alimentadas!

A verdade simples é que a maioria das inovações relativas a alimentos biotecnológicos tem sido orientada pelo lucro, não pela necessidade. Por exemplo, grãos de soja sofreram intervenção da engenharia para resistir especificamente ao herbicida glifosato, produzido pelas própria empresas de sementes.

Tecnologias como estas aumentam a dependência dos agricultores sobre produtos que são patenteados e protegidos por “direitos de propriedade intelectual”, o que faz as velhas práticas da agricultura de reprodução, estocagem e divisão de sementes uma prática ilegal.

Há fortes indicações que uso descontrolado de colheitas transgênicas não irá apenas falhar na solução do problema da fome, mas, ao contrário, poderá perpetuá-la e agravá-la.

Se sementes transgênicas continuarem a ser desenvolvidas e manipuladas exclusivamente por corporações privadas, agricultores pobres não poderão adquiri-las. Se a indústria biotécnica continuar a proteger seus produtos através de patentes que impeçam de estocar e comercializar sementes, os pobres se tornarão, no futuro, dependentes e marginalizados. Sem falar no que pode acontecer potencialmente com os ecossistemas.

Os riscos da atual biotecnologia na agricultura são uma conseqüência direta da falta de uma perspectiva ecológica dentro da indústria biotécnica. Modificações genéticas de colheitas são feitas com uma pressa inacreditável e transgênicos são plantados maciçamente sem testes apropriados de curto e longo prazo dos impactos sobre os ecossistemas e sobre a saúde humana.

Estas colheitas de transgênicos, não-testadas e potencialmente perigosas espalham-se por todo planeta criando riscos irreversíveis; infelizmente estes riscos são freqüentemente colocados de lado pelos geneticistas cujo conhecimento e treinamento ecológico é mínimo.

Nas suas tentativas de patentear, explorar e monopolizar todos os aspectos da biotecnologia as grandes corporações agro-químicas tem comprado semente e empresas biotécnicas e tem se re-estilizado como “corporações da ciência da vida”.

As fronteiras tradicionais entre as indústrias farmacêuticas, agro-químicas e biotecnológicas estão desaparecendo rapidamente na medida que se fundem para formar conglomerados gigantescos sob a bandeira da ciência da vida. O que todas estas chamadas “corporações da ciência da vida” tem em comum é o reduzido conhecimento da vida baseado numa crença errada que a natureza pode estar sujeita ao controle humano.

Ignoram a autogeração e a auto-organização dinâmica, que é a essência da vida, e ao invés disso redefinem organismos vivos como máquinas que podem ser manuseadas de fora, patenteadas e vendidas como recursos industriais. Assim, a própria vida tornou-se a última “commodity” (mercadoria).

Em anos recentes, os problemas de saúde causados pela engenharia genética assim como seus problemas sociais, ecológicos e éticos tornaram-se todos muito aparentes, e há agora um movimento global crescente muito rápido que rejeita esta forma de tecnologia.

Fonte – Roberto Naime, Fritjof Capra e os transgênicos, EcoDebate de 24 de maio de 2016

 

Por que o consumo de água aumentou?

 

Dizem várias fontes de informação, neste início de junho, que a economia de água em condomínios na cidade de São Paulo caiu de 82% – que chegara a registrar em abril de 2015 – para 32% em abril de 2016, com o fim dos incentivos da Sabesp. É pena que a disposição para economizar, na maior parte, advenha só das vantagens financeiras para quem economiza, com pouca ou nenhuma relação com a necessidade maior de contribuir para a economia de um bem escasso. Os números de agora são inferiores até aos do período fevereiro de 2013/janeiro de 2014. E o recuo se deveria às notícias de “fim da crise” de abastecimento e retirada de subsídios para a economia.

Estranho, porque a seca e o calor afetaram os reservatórios de São Paulo. Dos 6 mananciais abastecedores, 4 chegaram ao menor índice de chuvas desde os anos 30. No Cantareira, houve apenas 3,9 milímetros em 28 dias de abril. E, ao mesmo tempo, aumentava a demanda por água, como registrou editorial deste jornal (29/3). Por essas e outras, o Estado já busca água em Minas Gerais e tem de discutir com o Rio de Janeiro o uso dos recursos do Rio Paraíba do Sul. Já foi até encaminhado à Assembleia Legislativa do Estado o projeto para o Plano de Recursos Hídricos do Estado, que garanta os usos múltiplos.

Não são problemas só nossos. Segundo relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Eco-Finanças, 23/5), o crescimento rápido da demanda, o alto consumo, a desertificação, a degradação do solo, os efeitos de mudanças do clima “estão estressando” os recursos naturais e impedindo que sejam compensados pela recuperação natural do meio ambiente: “Com a tendência atual, a humanidade terá dificuldade para alimentar-se nas próximas décadas”, porque “a escassez hídrica ameaça bilhões de pessoas, principalmente nos países mais pobres”, pois “já se observa um colapso na produção de comida”. E a América Latina é um dos lugares mais problemáticos, principalmente nas regiões que mais dependem da água que escorre dos Andes – e que está diminuindo.

Quase um quarto das mortes no mundo decorre de “riscos ambientais”, diz a Organização Mundial da Saúde (OMS) – entre eles a água de má qualidade, proveniente de locais de trabalho em condições precárias, banheiros e chuveiros inadequados, tubulações perfuradas, etc. Talvez a cidade que mais se tenha adequado às necessidades seja Nova York, onde em cinco anos foram aplicados quase US$ 2,5 bilhões para melhorar as condições do sistema de abastecimento de água. Isso incluirá o fechamento para reparos do Aqueduto Delaware, por onde passam mais de 80 bilhões de litros de água por dia para a rede de água de quase 11 mil quilômetros de extensão. Na usina de tratamento, que manda água para mil estações, foram investidos mais de US$ 1,5 bilhão (The New York Times, 24/3).

Diante de números tão graves, é quase inacreditável que esteja em tramitação no Brasil a Proposta de Emenda Constitucional 65/2012, que dispensa de licenciamento ambiental (Terra, 28/5) projetos de obras públicas, inclusive no setor de água. Os estudos prévios de impacto passariam a implicar autorização para executá-los. Tudo tão absurdo que o Instituto dos Advogados do Brasil aprovou moção de repúdio ao texto, que, a seu ver, desrespeita a própria Constituição. Configuraria uma espécie de “bolsa empreiteira”. A moção foi encaminhada ao Congresso Nacional.

Na área rural, a situação seria tão grave quanto esta, principalmente no Nordeste. Em recente seminário (Comunicação do Ministério do Meio Ambiente, 28/4) discutiu-se a situação do Semiárido, onde, por exemplo, 74,2% das áreas de Sergipe já são de terra degradada; e apenas 17% da vegetação originária da Caatinga permanece – quando seriam utilizáveis com manejo adequado dos recursos naturais em 13% da área. Já se conhecem ali projetos sustentáveis, como o do barramento zero ou o do fogão ecológico. No Polo Gesseiro da região do Araripe, Nordeste brasileiro, conseguiu-se, com programas adequados, reduzir para pouco mais de 20% do que era o consumo de água.

Muitos cientistas insistem na implantação de um vasto plano de fontes solares em telhados, para avançar com os projetos de combate à fome na região. Até mesmo porque as áreas de desertificação já avançaram 11 mil quilômetros quadrados em Pernambuco (Rema Brasil, 23/11/2015); a represa de Sobradinho chegou a entrar no volume morto, quando tem potencial de acumulação de água equivalente a 14 vezes o da Baía da Guanabara; o Rio São Francisco, com vazão histórica de 3 mil metros cúbicos por segundo, baixou até a 900 metros cúbicos. Para isso contribuem até a redução de águas da Amazônia vindas pelas correntes na atmosfera e a redução de água no subsolo do Cerrado. Desde 2004 já desapareceram 1.200 pequenos afluentes do São Francisco. Estiagens prolongadas no Cerrado têm reduzido as safras de grãos (Estado, 11/5). E podem prolongar-se até 2017 (O Popular, 27/4).

O Rio São Francisco já não tem mais volume necessário para a geração de energia (www.fundaj.gov.br, 21/10/2015). Técnicos sugerem difundir experiências do Instituto Nacional do Semiárido, como as de Santana do Seridó, onde já se tratam 258 mil litros de água para uma população de 2.526 pessoas (Rema, 3/12/2015), irrigação de bancadas de forragem de palma, estoques de feijão guandu e sorgo para o gado – além de urgência com projetos de captação de águas de chuvas, reutilização de água tratada de esgotos, impedir o desperdício e apressar projetos contra desmatamento. Não basta esperar pela transposição de águas, projeto iniciado em 2007, que deveria estar concluído em 2012 e já custou uma fortuna.

É preciso ter urgência. Convém lembrar que o Deserto do Saara já teve, há 5 mil anos (EcoViagem, 31/3), o maior lago de água doce do mundo, com 360 mil quilômetros quadrados. Hoje, tem 1.350, menos de 1%.

UNEP – Green economy report.

Fonte – Washington Novaes, O Estado de S. Paulo de 03 de junho de 2016

 

O preço real do petróleo e o custo para o meio ambiente

“Assim como a Idade da Pedra não acabou por falta de pedras,
a Era do Petróleo chegará ao fim, não por falta de óleo”
Sheikh Ahmed-Zaki Yamani

Os combustíveis fósseis foram os catalizadores do crescimento econômico dos últimos 250 anos. A Revolução Industrial e Energética começou com a utilização do carvão mineral e avançou com o petróleo e o gás.

O petróleo é uma fonte energética criada pela natureza, em um processo geoquímico que durou milhões de anos, a partir da decomposição de matéria orgânica. Houve muitos ciclos na Terra para que essa riqueza ficasse estocada no solo e no subsolo. Em pouco mais de 100 anos, metade das jazidas já foram exploradas e, no ritmo atual, a outra metade pode ser arrancada das entranhas da Terra em outros 100 anos.

Três colheres de óleo contêm o equivalente à energia média de oito horas de trabalho humano. A força produtiva movimentada pelo petróleo equivale, em média, a 50 escravos para cada habitante do Planeta. Nos Estados Unidos esta relação atinge 200 escravos por pessoa. Sem o petróleo a capacidade produtiva do mundo cairia dramaticamente. Toda a agricultura moderna, com fertilizantes, defensivos agrícolas, agrotóxicos e os combustíveis para o transporte dependem do petróleo. Sem uma energia equivalente, a fome no mundo reinaria soberana.

Mas o petróleo é uma fonte finita e as reservas mais baratas já foram exploradas. O gráfico acima mostra que depois da Segunda Guerra até 1973 (os chamados 30 anos gloriosos) o preço do petróleo era “quase de graça”. Essa energia abundante e barata possibilitou que o crescimento econômico do mundo fosse o maior de toda a história humana. A despeito das desigualdades, a civilização deu um grande salto de bem-estar neste período.

Mas a partir de 1974, as crises jogaram o preço real do petróleo para cima. As guerras do Yom Kippur e do Irã-Iraque fizeram o preço disparar entre as metades das décadas de 1970 e 1980. Com o fim da Guerra Fria e a maior oferta internacional de combustíveis, o preço do petróleo caiu para níveis bastante baixos na virada do milênio.

Porém, os preços do petróleo voltaram a subir no início dos anos 2000 e bateram o recorde histórico em 2008 (apresentando um segundo pico em 2011) em decorrência da maior demanda mundial, especialmente da China e de outros países emergentes. A recessão econômica de 2009 foi provocada em grande parte pelo aumento do preço do petróleo. Este aumento incentivou as empresas petrolíferas a investir em novas descobertas e a explorar outros tipos de combustível, como as areias betuminosas (Tar sands) do Canadá e o gás de xisto (shale oil). O fato é que o alto preço dos combustíveis fósseis incentivou o aumento da oferta. Como a economia internacional não cresceu no ritmo esperado, houve excesso de oferta e escassez da demanda e os preços caíram muito em 2015 e começo de 2016. Houve uma crise geral no setor petroleiro. No caso do Brasil, além dos escândalos de corrupção na Petrobras, o atual preço do petróleo inviabiliza a exploração do pré-sal.

Tudo indica que os preços do petróleo vão voltar a subir nos próximos anos e décadas, pois a economia mundial está viciada em combustíveis fósseis e a produção caminha para o Pico do Petróleo (energia escassa e com altos custos de extração). Atualmente as empresas petrolíferas estão em crise pois os preços estão baixos e os custos estão altos. Mas elas confiam que vão poder recuperar os prejuízos no futuro.

Porém, existe um outro problema, pois todo o sucesso econômico gerado pela queima de combustíveis fósseis lançou toneladas de CO2 na atmosfera, agravando o efeito estufa e acelerando o aquecimento global. De meados do século XX até os dias atuais a temperatura média do globo subiu mais de 1º C, mais do que em todo o período do Holoceno (10 mil anos). O Acordo de Paris, assinado na COP21, estabelece como limite máximo 2º C, mas de preferência 1,5º C. Portanto, o mundo precisa reduzir as emissões de gases de efeito estufa (GEE).

Diante da pressão mundial, até grandes companhias de petróleo já começam a se adaptar à realidade mundial. A Exxon Mobil, bastião do ceticismo com o aquecimento global, realizou várias reuniões de acionistas que exigem maior empenho na exposição da vulnerabilidade dos negócios em face da mudança climática. Outras companhias com a Chevron e a Total anunciaram que planejam elevar a 20%, até 2036, o investimento em atividades independentes de carbono. Há propostas de reinvestir lucros na sua conversão em empresa de energias renováveis. No Brasil, a Petrobras, enrolada em escândalos e na nacionalista bandeira “o petróleo é nosso”, tem feito pouco para diversificar sua produção.

Os países do G7 (EUA, Japão, Alemanha, França, Reino Unido, Itália, Canadá e mais União Europeia) estabeleceram pela primeira vez um prazo para o fim da grande maioria dos subsídios para os combustíveis fósseis. Na cúpula de Tokyo, em maio de 2016, os líderes das sete economias capitalistas mais avançadas do planeta estabeleceram a data de 2025 para acabar com os subsídios para o carvão, o petróleo e o gás.

Porém, a Agência Internacional de Energia prevê que os combustíveis fósseis vão continuar dominando a matriz energética mundial e as emissões de GEE vão continuar aumentando até 2040, como mostra o gráfico abaixo.

A concentração de GEE na atmosfera já ultrapassou 400 partes por milhão (ppm). Esse nível é o mais alto, pelo menos nos últimos 800 mil anos. Antes da Revolução Industrial e Energética a concentração de CO2 na atmosfera estava em 280 ppm. O gráfico abaixo mostra que no ritmo atual de emissões a temperatura na Terra pode subir cerca de 5º C até o ano de 2100. Para que a temperatura fique abaixo de 1,5º C seria preciso uma redução significativa das emissões.

Artigo de Damian Carrington, no jornal The Guardian, mostra que se todo o estoque de combustíveis fósseis for usado, o Planeta pode se aquecer em até 10º C, o que causaria danos irreparáveis e poderia levar ao colapso da civilização humana. Com base em trabalho publicado na revista Nature Climate Change, a queima de todas jazidas comprovadas de combustíveis fósseis – um impacto da emissão de toneladas 5 toneladas de emissões de carbono – elevaria a temperatura em 8º C até 2300. Quando se adiciona o efeito de outros gases de efeito estufa, o aumento sobe para 10º C.

O aquecimento previsto pelos modelos não é uniforme em todo o globo. No ártico, os níveis mais elevados de CO2 elevaria a temperatura a 17º C, com outro 3º C de outros gases de efeito estufa. Isto provocaria o degelo na região, liberando a bomba de metano aprisionada no permafrost. Isto teria o efeito de aumentar ainda mais a temperatura global.

Este cenário é catastrófico e levaria à acidificação dos solos e dos oceanos, provocaria inundações em algumas regiões e grandes secas em outras e elevaria o nível dos oceanos em pelos menos 10 metros, o que afetaria a maioria das regiões litorâneas do mundo. A vida na Terra estaria comprometida. Portanto, é melhor nos livrarmos dos combustíveis fósseis antes que ele nos deixe em uma situação perigosa e irreversível.

Referências

ALVES, JED. Desinvestimento em combustíveis fósseis e o fim dos subsídios. Ecodebate, RJ, 05/06/2015

ALVES, JED. O mito do pré-sal como redenção nacional. Ibase, Rio de Janeiro, Revista Trincheiras, agosto 2015

ALVES, JED. Desobediência civil para libertar-se dos combustíveis fósseis. Ecodebate, RJ, 04/05/2016

Damian Carrington. World could warm by massive 10o C if all fossil fuels are burned, The Guardian, 23/05/2016

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE

Fonte – EcoDebate de 08 de julho de 2016

Fritjof Capra – Energia e transgênicos como questões na humanização do desenvolvimento 3/6

Fritjof Capra (Viena, Áustria, 1 de fevereiro de 1939) é um físico teórico e escritor que desenvolve trabalho na promoção da educação ecológica. Foto e informações da Wikipedia

O conceito de desenvolvimento como é aplicado hoje tem dois significados. Para os biólogos desenvolvimento é uma característica fundamental para toda a vida. Sistemas vivos, os organismos, ecossistemas ou sistemas sociais se desenvolvem.

Crescem, amadurecem e criam novas formas e novos padrões de comportamento. As ciências da vida também nos ensinam que o desenvolvimento de um sistema vivo, tipicamente inclui um período de rápido crescimento físico.

Este é um período pertinente a um organismo jovem. Nos ecossistemas esta é a fase inicial que é caracterizada pela expansão rápida e pela colonização do território.

Este rápido crescimento é sempre seguido por um crescimento mais lento, pela maturação, e finalmente pelo declínio e decadência ou, nos ecossistemas, chamado de sucessão.

Quando nós estudamos a natureza podemos ver muito claramente que crescimento indefinido e irrestrito é insustentável. Por exemplo, há rápido crescimento com células cancerosas, mas não se sustenta porque as células morrem quando o organismo hospedeiro morre.

Vemos que, embora crescimento seja uma característica fundamental da vida, crescimento indefinido não é sustentável. Mas é importante notar que mesmo sem expansão física, pode haver desenvolvimento porque pode haver aprendizado e maturação ocorrendo sem crescimento físico.

O segundo significado do desenvolvimento é aquele usado por economistas e políticos, sendo muito diferente. A primeira coisa que percebemos é o diferente uso gramatical do verbo “desenvolver”.

Nas ciências da vida é usado como um verbo intransitivo todos os sistemas vivos desenvolvem-se; organismos vivos desenvolvem-se; pessoas desenvolvem-se. Há um senso de desdobramento, de percepção do nosso potencial.

Economistas usam o verbo “desenvolver” como verbo transitivo, “pessoas desenvolvem as coisas”. Há uma categoria completa de pessoas de negócios que se proclamam desenvolvimentistas e saem por aí desenvolvendo coisas. Desenvolvem propriedades, como sítios, terras, edifícios e outros.

O outro fenômeno extraordinário é a categorização do mundo inteiro numa única dimensão. Países e pessoas são “desenvolvidos” ou eles estão “se desenvolvendo” ou eles são “subdesenvolvidos”.

É exatamente como a tabela de um campeonato de futebol, com os países ricos figurando em primeiro e antes de todos os Estados Unidos e os países pobres no final.

Não é de espantar que 25% das crianças americanas agora vivem abaixo da linha de pobreza; que os EUA gastam mais em prisão do que em educação superior, e que é o único país industrial que tem a pena de morte.

A gigantesca diversidade da existência humana agora está concentrada numa simples dimensão chamada “desenvolvimento” a qual é freqüentemente medida simplesmente em receita “per capita”.

É um conceito absolutamente assustador que pessoas inteligentes vivendo neste mundo espantosamente diverso, tenham permitido que tal construto intelectual se tornasse tão poderoso.

Quando nós olhamos detalhadamente para o conceito de desenvolvimento econômico podemos observar três características básicas:

1. Desenvolvimento é um conceito do hemisfério norte. A tabela de classificação entre “desenvolvido/em desenvolvimento/subdesenvolvido”, está arquitetada conforme um critério do hemisfério norte. Os países que são desenvolvidos são aqueles que adotaram o estilo de vida industrial do hemisfério norte. Assim, desenvolvimento é um conceito profundamente monocultural. Ser um país em desenvolvimento significa obter sucesso nas suas aspirações de se tornar como os do hemisfério norte.

2. Desenvolvimento significa desenvolvimento econômico. Não há outras aspirações sociais ou valores culturais permitidos a entrar no caminho deste desenvolvimento. Se puderem co-existir com o desenvolvimento melhor, se não puderem serão exterminados.

3. O desenvolvimento econômico é um processo de cima para baixo, descendente. Decisão e controle encontram-se firmemente na mão de especialistas, administradores do capital internacional, burocratas de governos, do banco mundial, do Fundo Monetário Internacional (FMI), e outros.

Em resumo existem três características do desenvolvimento na forma como é correntemente representada no palco mundial, é nortista, puramente econômico e descendente.

Fonte – Roberto Naime, Fritjof Capra e os transgênicos, EcoDebate de 19 de maio de 2016

 

Algas obrigam a Flórida a declarar estado de emergência

Cianobacteria

Algas se reproduziram devido a despejo de água com ‘excesso de nutrientes’ em rio

O paraíso com sol e praia que os moradores e turistas da costa leste da Flórida (EUA) normalmente aproveitam no verão foi invadido por uma massa verde viscosa e com um cheiro horrível.

A proliferação de algas tóxicas, que por seu aspecto foram batizadas de “guacamole”, está prejudicando a economia local.

O governador Rick Scott declarou estado de emergência para quatro condados que dependem fortemente do turismo.

Estas algas, além disso, têm o potencial de destruir os ecossistemas da região, como explica o pesquisador Henry Briceño, da Universidade Internacional da Flórida.

Algas em St. Lucie

Concentração de algas se dá principalmente onde há pouca circulação de água, perto de resorts e casas de praia

“É um espetáculo dantesco. As águas nos canais e rios têm um tapete verde, um limo cinzento e um cheiro de amônia”, descreve Briceño à BBC Mundo, o serviço em espanhol da BBC.

As algas “guacamole” afetam desde o estuário do rio St. Lucie – onde há hotéis, residências privadas e clubes de iates – à lagoa Indian River, que abarca as localidades de Stuart, Port St. Lucie e Fort Pierce, e a parte das famosas praias de Palm Beach.

Outros quatro condados foram obrigados a fechar praias e viram uma enorme queda na chegada de turistas nos últimos dias.

“Isso destruiu nossa economia local e nosso modo de vida. Nossos cidadãos estão demandando ação rápida”, disse a representante local Sarah Heard, do condado de Martin.

E como chegou-se a esta situação?

Cianobacteria

Cienobactéria é tóxica e contato com água deve ser evitado

Algas

A “guacamole” é um tipo promitivo de alga, uma cianobactéria, microoganismo fotossintético de aspecto verde-azulado e viscoso, que se multiplicou nestes quatros condados, principalmente na água doce, mas, em menor medida, na água salgada.

Em qualquer corpo de água do mundo existem algas, mas a reprodução deste microorganismo neste caso foi fora do comum.

Isso se deve ao fato de que uma represa no lago Okeechobee, a oeste de West Palm Beach, estava liberando, até 1º de julho, cerca de 85 metros cúbicos de água por segundo, informou o Corpo de Engenheiros do Exército americano.

“Essas águas têm altos conteúdos de nutrientes, especialmente fósforo e nitrogênio, e isso faz disparar a floração das algas”, explica Henry Briceño.

“As algas estão ali em concentrações muitos pequenas, mas quando chega esse excesso de comida, de boa qualidade, a multiplicação dispara e ocorre muito rapidamente.”

Dique Herbert Hoover

O dique Herbert Hoover, do lago Okeechobee, é por onde está sendo liberada a água com fósforo e nitrogênio que deu origem à proliferação de algas

A liberação controlada de água ocorreu porque o lago Okeechobee, o maior corpo de água da região, alcançou antes do início das chuvas, 4,5 metros de altura – e seu limite é 5,4 metros.

“Depois de ver as algas, nos sentimos obrigados a tomar medidas. Mas temos que permanecer vigilantes na gestão do nível do Lago Okeechobee”, disse o coronel Jason Kirk, do Corpo de Engenheiros.

Esta semana o fluxo de água foi diminuído de 85 para 33 metros cúbicos por segundo.

Potencial mortal

As “guacamoles” só puderam se reproduzir deste jeito por causa da água da represa e seu conteúdo excepcional de fósforo e nitrogênio – devido aos restos de fertilizantes da indústria agrícola regional, e em menor medida pelos químicos usados para a manutenção da grama nos campos de golf.

“Muitos desses nutrientes não são utilizados pelas plantas e todo esse excesso termina arrastado pelas água da chuva para os rios e terminam no lago”, disse Briceño.

Barcos rodeados por algas

Além do aspecto e do cheiro, a água com cianobactérias tem o potencial de destruir a fauna e a flora

Essas algas também devem causar problemas para a fauna e flora local.

“Ela vão apodrecer e vão tapar toda a fauna e flora que há no fundo destas baías. (…) Se este efeito continuar, chegará um momento em que as destruirão totalmente”, explica Briceño.

Foi o que ocorreu na baía de Chesapeake, no noroeste dos EUA, que na década de 1970, quando os baixos níveis de oxigênio na água provocaram a morte de milhares de peixes.

Que fazer?

O condado de St. Lucie lançou uma advertência para que os habitantes e turistas das zonas afetadas evitem qualquer contato com as citobactérias devido a seus efeitos para a saúde humana.

Suas toxinas podem afetar o fígado, o sistema nervoso e a pele. Ingerir a água contaminada pode causar dor abdominal, náuseas, diarreia e vômito.

Também não se pode consumir peixe das áreas afetadas e de seus arredores.

Peixe morto na areia

Grande presença de água pode levar à mortandade de peixes

Mas o lago Okeechobee continuará desaguando no rio St. Lucie enquanto continuar chovendo. Por isso, uma solução seria elevar sua capacidade com o dique que o contém ou levar a água até o Golfo do México.

“Não podemos perder de vista a necessidade de que o governo federal inicie de imediato as reparações do dique Herbert Hoover para que possa ser alcançada uma solução de longo prazo”, disse o governador da Flórida, Rick Scott.

O dique tem 80 anos e enfrenta problemas estruturais que geraram inflitrações e uma capacidade limitada.

Briceño recomenda “reduzir a quantidade de água enviada e pensar se é possível armanezar água nos lagos ao norte de forma temporal”.

Fonte – BBC Brasil de 06 de julho de 2016

Aumento do nível dos oceanos foi o mais rápido dos últimos 3.000 anos

O aumento do nível do mar é, para a comunidade científica atual, algo tão verdadeiro quanto era a Terra girar ao redor do sol para Bruno e Galileu. No entanto, não há o mesmo consenso sobre a origem desta elevação e, em particular, o ritmo do aumento das águas. Agora, dois estudos paralelos olharam para o passado e o futuro dos oceanos. Para trás, o mar subiu mais rápido no século XX do que nos 3.000 anos anteriores. Para a frente, se as emissões não forem drasticamente reduzidas agora, o nível do mar pode subir cerca de um metro no restante do século.

Faltava contexto aos sucessivos trabalhos que foram analisando o aumento dos níveis do mar em escala planetária. Apresentar um número sem colocá-lo no contexto da história do planeta pouco informa sobre a gravidade ou a normalidade dessa elevação ou o papel dos seres humanos nele. Portanto, o trabalho de uma dúzia de investigadores de várias universidades é algo novo: mostram os centímetros que o mar subiu nos últimos séculos chegando até o presente.

Usando dados de 24 locais, incluindo Muskiz e Urdaibai na costa vasca espanhola, do rastro que foi deixando o mar na terra, os pesquisadores publicam na revista PNAS quanto mudou o nível do mar nos últimos três milênios. Para confirmar suas estimativas, usaram 66 registros de marés de todos os continentes, com alguns que remonta a 1700. Com esses 300 anos puderam validar seus cálculos para o período restante.

“O aumento no século XX foi extraordinário no contexto dos últimos 3.000 anos”, diz o professor de ciências da Terra da Universidade de Rutgers (EUA) e principal autor do estudo, Robert Kopp em uma nota. Especificamente, sempre com algum grau de incerteza, o nível do mar subiu 14 centímetros no século passado. O número, sem o contexto, pode parecer pequeno. Mas é quase o dobro do máximo alcançado em 2700 anos. Ou seja, mais do que a elevação total, o alarmante é a velocidade com que ela aconteceu.

O estudo também mostra outro fenômeno que agrava esses 14 centímetros. Desde o início da era atual, há 2.000 anos, o nível do mar tem variado muito ao longo do tempo, mas para terminar onde estava. Até o século VIII, o mar subiu lentamente cerca de 7 centímetros. Mas, desde então, e especialmente depois do ano 1000, a água não deixou de baixar até se recuperar no XIX.

As variações respondem, de acordo com os autores do estudo, às mudanças na temperatura média global. Assim, de 1000 a 1400, período em que o planeta esfriou cerca de 0,2 °, os oceanos aumentaram cerca de 8 centímetros. Por isso, o aquecimento global iniciado com a Revolução Industrial também coincide com o aumento do nível do mar acelerado, uma subida que, como recorda Kopp, “foi ainda mais rápida nas últimas duas décadas”. Na verdade, de acordo com os autores, se fosse eliminada a mudança climática da equação, o nível do mar não teria subido, mas diminuído.

Um segundo trabalho, também publicado na PNAS, olha para a frente. Partindo da evolução do nível do mar, pesquisadores do Instituto para a Pesquisa do Impacto Climático de Potsdam (PIK, Alemanha) e do Instituto de Geociências do CSIC na Espanha, projetaram até onde subirão as águas no restante do século empurradas pelo aumento da temperatura, fruto do aquecimento global.

Mesmo alcançando as metas de redução de emissões assinadas na Cúpula de Paris, o nível do mar vai subir entre 20 e 60 centímetros. E isso no cenário mais positivo. Caso não seja cumprido nem mesmo o que foi decidido na capital francesa, os oceanos poderiam subir entre 85 e 130 centímetros.

“Com tantos gases de efeito estufa já emitidos, não podemos impedir que os mares subam, mas poderíamos reduzir substancialmente o ritmo que vão subir se deixássemos de usar combustíveis fósseis”, diz o pesquisador do PIK e coautor da pesquisa, Anders Levermann.

O estudo também identifica as principais fontes de aumento do nível do mar, dando uma estimativa de seu grau de responsabilidade. Assim, levam em conta a expansão térmica. Com o aumento da temperatura, a água é aquecida e, consequentemente, se expande. Este fenômeno vai contribuir com entre 15 e 19 centímetros até 2100, dependendo do cenário de emissões que tenha sido conseguido nesse momento.

Enquanto isso, o degelo dos glaciares das grandes cordilheiras poderia contribuir com até 11 cm de elevação do nível do mar. A perda de massa gelada e a diminuição de seus glaciares vão fazer com que a Groenlândia contribua com outros 27 cm no pior dos casos. Na Antártida, os pesquisadores reconhecem ter mais dificuldades para modelar sua evolução, mas calculam uma margem de contribuição entre 6 e 13 centímetros. As quatro origens de aumento do nível do mar parecem ter a mesma fonte, em todos os casos: o aquecimento global antropogênico.

Fonte – Miguel Ángel Criadom, El País de 23 de fevereiro de 2016