Já estou preparado para uma vida sem água. E você?

Minha mãe disse que, quando acabar a água do sistema Cantareira, que abastece a região onde moro aqui em São Paulo, posso ir tomar banho e lavar roupa na casa dela, suprida pelo sistema Guarapiranga.

A pergunta não foi um cutucão político, pois ela não acompanha muito os debates da vida pública. Creio que teve motivação mais prosaica. Pois, dessa forma, pode ver mais o filho que anda tão ocupado que não tem mais tempo para comer as coxinhas e as empadinhas que ela faz.

Perguntou quando isso deve acontecer. No que respondi, final de outubro.

– Mas isso é logo depois das eleições, né?
– É…
– Mas o pessoal sabe disso?
– Sabe…

Fazendo reportagens pelo interior do Brasil, tive que, por vezes, me virar com pouca água limpa e muitos baby wipes.

Em Timor Leste, numa incursão mato adentro, fiquei cinco dias sem banho. Não me pergunte como.

Realizando coberturas em áreas desérticas ou áridas, aprendi truques milenares para usar um cantil por dia para tudo.

Reaproveitar roupas usadas sem precisar lavar é uma arte.

Usar paninhos com produtos de limpeza que dispensam água em móveis e no chão, um conhecimento útil.

Captar água das raras chuvas para regar plantas, ecologicamente bonito.

Limpar pratos sem água, um sucesso.

Não tenho carro, então dane-se a mangueira. Bike suja é bike de luta.

Rasparei o cabelo. Direi que é charme.

Suco? Chupe fruta!

Café? Coma o pó!

Dar descarga, para quê? Deixa juntar, oras! Deu nojinho? São Paulo é para os fortes, mano!

E aprenderei as técnicas de Pai Mei a fim de controlar a transpiração.

Se tudo falhar, comando uma marcha dos paulistas bons em direção à Terra da Água Prometida. Afinal, somos ou não um povo bandeirante? Pode ser Rondônia, onde transformaremos tudo em um grande shopping center. O Acre será o estacionamento.

É isso.

Vem em mim, novembro, que estou pronto para você.

Fonte – Blog Sakamoto de 18 de setembro de 2014

Boa sorte paulixtas e paulixtanos. Vocês são apenas o começo, o aviso. Em breve todos nos país estaremos na mesma situação. E aí perguntamos, quem está economizando? Quem está plantando árvores na mata ciliar ou nas nascentes? Quem está construindo coletores de água de chuva para uso secundário? Quem está multando os gastões? Ninguém! O sapo está sendo cozido em água morna, até o triste fim da humanidade…

Ipê amarelo

Os ipês amarelos do bosque sensorial começaram a florescer e dar sementes.

Fotos deste domingo.

O projeto bosque sensorial teve início em 2009 e o projeto mata ciliar que teve início em 2004. Os dois são patrocinados exclusivamente pela VIAPAR – Rodovias Integradas do Paraná.

O Sobreiro

Como comentamos anteriormente no post “Você conhece o sobreiro?”, não conseguimos encontrar fotos que tiramos do nosso sobreiro.

Neste domingo, enquanto fazíamos a identificação das árvores do bosque sensorial, que estamos plantando desde 2009, tiramos outras fotos.

O sobreiro abaixo tem uns dois anos.

Este ano plantaremos mais uns 10 ou 20 sobreiros. Depende da disponibilidade do viveiro.

O projeto bosque sensorial teve início em 2009 e o projeto mata ciliar que teve início em 2004. Os dois são patrocinados exclusivamente pela VIAPAR – Rodovias Integradas do Paraná.

Conheça o trabalho de Cheida em defesa do meio ambiente e das cidades sustentáveis

Água limpa, ar puro, comida sem veneno, cidade menos barulhenta. Isso é boa parte do que um médico deseja ao seu paciente. Como médico e ambientalista, o deputado estadual e candidato à reeleição, Luiz Eduardo Cheida (PMDB), defende que a saúde e o meio ambiente são partes de um mesmo todo.

“Por isso, faço na política o que antes fazia em meu consultório de médico”, explica Cheida, que por dois mandatos atuou como secretário estadual do Meio Ambiente e Recursos Hídricos do Paraná.

Em sua gestão a frente do Meio Ambiente, Cheida conta que sempre defendeu a lógica da sustentabilidade: crescer, sem destruir. “Afinal, queremos nosso planeta para hoje e para sempre”, reafirma Cheida.

Para ele, a questão ambiental é, antes de tudo, uma questão social e que tem ligações com a economia, segurança, justiça, trânsito, agricultura e demais áreas do saber humano.

“Na tentativa de inverter a lógica da preservação, tentei aprovar um projeto de lei de minha autoria para remunerar o agricultor que preserva nascentes e rios, ao invés de apenas punir quem faz o errado. Finalmente, há dois anos, o Pagamento por Serviços Ambientais foi aprovado como lei”, relata Cheida.

Confira algumas ações de Cheida em prol da saúde das pessoas, das cidades e do meio ambiente:

Água limpa

Lei que determina a devolução de remédios vencidos às farmácias, e destas aos fabricantes, impedindo que sua química polua nossas águas;

Projeto de Lei obrigando a SANEPAR analisar, na água tratada pela empresa, a presença de antibióticos, anti-inflamatórios, agrotóxicos e outros produtos químicos;

Programa O Rio da Minha Rua – idealizado por Cheida, juntamente com técnicos da Secretaria do Meio Ambiente, o programa prevê ações integradas para promover ações nas bacias hidrográficas para a conservação e a qualidade ambiental dos rios urbanos;

Plano de Prevenção, Preparação e Resposta Rápida a Emergências Ambientais (P2R2) com foco nas áreas suscetíveis à contaminação;

Paraná Sem Lixões, programa que está eliminando os lixões do PR;

Critérios para o licenciamento ambiental de mais de 10 mil embarcações que, potencialmente, poluíam o oceano e os rios do estado;

Instalou os Comitês de Bacias Hidrográficas e iniciou a cobrança pelo uso da água, revertendo os recursos para a recuperação da própria bacia;

Determinou estudos para recuperação do Lago Igapó, em Londrina;

Programa Mata Ciliar, que plantou 110 milhões de árvores nativas nas margens de nossos rios e, foi considerado pela ONU o maior programa do mundo de recomposição de matas ciliares;

Programa Paraná Biodiversidade – o primeiro a trabalhar na formação de corredores florestais e adequação ambiental das propriedades inseridas nas bacias hidrográficas;

Licitou o contratou o 1º Inventário Florestal do Paraná que será concluído em 2015;

Incluiu, pela primeira vez na história, o Paraná no Conselho Mundial da Água.

Ar puro

Procurando melhorar a qualidade do ar criou:

O 1º Inventário de Emissões de Gases de Efeito Estufa do PR;

A Coordenadoria de Mudanças Climáticas da Secretaria do Meio Ambiente do Paraná;

O Fórum Estadual de Mudanças Climáticas, onde os paranaenses decidem e opinam sobre a qualidade do ar que respiramos;

Cidade menos barulhenta

Fez leis que limitam o som nos cinemas e nos carros. Para ele, os ouvidos das crianças ainda estão em formação e surdez por barulho é irreversível.

Comida sem veneno

É autor da lei que implantou a Merenda Escolar Orgânica em todas as escolas do Paraná ;

A Lei que determina gôndolas diferenciadas nos supermercados para produtos sem agrotóxicos;

A Lei que está retirando das propriedades o BHC e venenos proibidos ou vencidos;

O Projeto de Lei que proíbe a pulverização de veneno por aviões;

O Projeto de Lei que determina a inspeção periódica dos pulverizadores de agrotóxicos;

Como secretário do Meio Ambiente fez o Paraná saltar de 12º para 1º colocação mundial no recolhimento de embalagens de agrotóxicos, reduzindo a contaminação dos solos e águas.

Outras ações

É autor da Lei que obriga empresas potencialmente poluidoras a contratarem técnicos em meio ambiente;

A descentralização do licenciamento ambiental aos municípios, garantindo a instalação de novos negócios, empregos e tributos;

A proibição da pesca com redes nas represas do Paraná,

Incentivou a piscicultura e o turismo nas cidades;

Garantiu a aprovação dos planos diretores de Matinhos e Guaratuba;

Promoveu a 1ª Conferência Sobre Lixo Marinho no Litoral;

Foi favorável à sinalização permanente das áreas para banho de mar e pesca no Litoral, evitando acidentes com artefatos de pesca.

É autor da lei que proíbe matar cães e gatos para controle populacional;

Criou a Rede Estadual de Direitos Animais (REDA);

Criou o Jardim Botânico de Londrina, entre mata nativa, riachos e cachoeiras, com uma área protegida de 1 milhão de metros quadrados;

Criou o Programa Ciclo Paraná para incentivar o uso da bicicleta no Estado;

É autor da Lei que torna obrigatória a construção de ciclovias em todas as rodovias e avenidas do Paraná.

Fonte – Assessoria de comunicação do Cheida. Saiba mais sobre os projetos do Cheida no site www.cheida.com.br

Nível do Sistema Cantareira cai para 10,1%

O nível do Sistema Cantareira caiu 0,4 pontos percentuais e passou de 10,5% na sexta-feira (5) para 10,1% na segunda (8), de acordo com dados da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp). Desde maio, quando a reserva técnica começou a ser usada (volume morto), a água que fica abaixo do nível de captação dos reservatórios baixou de 26,7% para 10,1%.

O índice pluviométrico diário foi nulo de domingo (7) para segunda (8), segundo a Sabesp, e no acumulado do mês foi registrada uma precipitação de 30,1 milímetros (mm). A média histórica para setembro é de 91,9 mm.

Até o dia 15 de maio, a Sabesp utilizava o volume útil que estava em apenas 8,2%. A partir do dia 16 foi iniciado o uso da reserva técnica. Com a entrada de 182,5 bilhões de litros de água foram acrescidos 18,5% sobre o volume total do sistema (982,07 bilhões de litros), representando 26,7%.

Em agosto, 76% dos clientes conseguiram reduzir o consumo de água na região metropolitana de São Paulo e cumpriram a meta estabelecida pela empresa por meio do programa de bônus.

Segundo levantamento divulgado ontem pela Sabesp, em 51% dos imóveis houve redução acima de 20% (com direito ao bônus) e outros 25% com diminuição no consumo, sem atingir à meta. Já 24% aumentaram o consumo de água que é calculado com a média dos 12 meses que vai de fevereiro de 2013 a janeiro de 2014. A Sabesp destaca que a adesão gerou uma economia de 3.900 litros de água por segundo.

Fonte e imagem – Planeta Sustentável de 09 de setembro de 2014

Baixou o volume, mesmo tendo uma chuva na semana anterior, com 22,2 milímetros de precipitação. O Sistema Cantareira já está com mais de 100 dias de queda de volume, uma situação preocupante porque abastece 6,5 milhões de pessoas na grande São Paulo. E mesmo assim, 1/4 da população aumentou o consumo de água. Isso é suicídio, imbecilidade, falta de ligação com a realidade. Todos vivem dentro do mundo das novelas, futebol, shoppings e esquecem que sem água, não há vida.

“Mudança climática já é irreversível”, diz relatório da ONU

Relatório de 127 páginas será publicado oficialmente em novembro, mas vazou para a imprensa nesta semana

A mudança climática é uma realidade e já se tornou irreversível. A conclusão é de um grande relatório da Organização das Nações Unidas (ONU), que será publicado oficialmente em novembro, mas que vazou para a imprensa nesta semana.

“A emissão contínua de gases de efeito estufa provocará um maior aquecimento e, de longo prazo, mudanças em todos os componentes do sistema climático, aumentando a probabilidade de um impacto severo, generalizado e irreversível para as pessoas e os ecossistemas”, diz o relatório.

Se as emissões de gases de efeito estufa não forem limitadas, “há riscos de a mudança climática ser alta ou muito alta até o final do século XXI”. Além disso, os especialistas advertem que é provável que, em breve, as temperaturas subam mais de 2 graus Celsius em relação à média, chegando a uma variação de até 3,7 graus.

Outra conclusão do relatório é a de que os esforços para combater as alterações climáticas têm sido insuficientes. “As mudanças climáticas que já ocorreram tiveram impactos generalizados e consequentes sobre os sistemas naturais e humanos.”

O relatório de 127 páginas resume outros três relatórios do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC). Como o documento será lançado em novembro, após uma conferência da ONU em Copenhague, ele ainda pode sofrer alterações.

Fonte e imagem – Portal do Meio Ambiente de setembro de 2014

Conhecem aquela canção infantil? Vamos adaptar à situação: A canoa virou, pois deixaram ela virar, foi por causa da humanidade, que não soube economizar (recursos naturais). Todos foram avisados, mas continuaram com seu consumismo desenfreado. Agora, até quem nem nasceu irá pagar por nossos atos. Causa e consequência, sempre.

Perda de água chega a quase 40% nas maiores cidades do Brasil

A cada 10 litros de água tratada nas 100 maiores cidades do país, 3,9 litros (39,4%) se perdem em vazamentos, ligações clandestinas e outras irregularidades. O índice de perda chega a 70,4% em Porto Velho e 73,91% em Macapá. Os números são do Ranking do Saneamento, divulgado esta semana pelo Instituto Trata Brasil, com base em dados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento de 2012.

O estudo considerou a perda no faturamento, ou seja, a diferença entre a água produzida e a efetivamente cobrada dos clientes. De acordo com o instituto, o indicador de referência para a perda de água por faturamento é 15%. Dos 100 municípios da lista, quatro possuem nível de perda menor ou igual ao patamar. Em 11 deles, as perdas superam 60% da água produzida.

De acordo com o presidente executivo da entidade, Édison Carlos, as perdas se refletem diretamente na capacidade de investimento das empresas e podem comprometer a expansão e qualidade dos serviços. “A perda é um reflexo da gestão da empresa. Qualquer autoridade que pensa em saneamento como um negócio, teria que atacar as perdas. Quando a empresa tem perdas muito altas, não consegue nem custear o próprio serviço”, avaliou. “Qualquer litro de água recuperado é um litro a mais que ele vai receber”, acrescentou.

Apesar dos registros, os municípios fazem pouco para reduzir as perdas de água por faturamento, de acordo com o estudo. Entre 2011 e 2012, mais da metade das cidades pesquisadas (51) não reduziu em nada as perdas ou até piorou os resultados no período. Segundo o Trata Brasil, os números sugerem que “diminuir perdas de água não vem sendo uma prioridade entre os municípios brasileiros”.

Apenas 10% dos municípios analisados na pesquisa registraram melhoria de mais de 10% na redução de perdas de água. Em média, de acordo com o levantamento, a melhora nas perdas dos municípios foi de apenas 0,05% na comparação entre 2011 e 2012.

As soluções, segundo Carlos, variam de acordo com o tamanho e as características de cada município. Em cidades com índices de perda muito elevados, por exemplo, a instalação de equipamentos como controladores de vazão e pressão tem reflexos rápidos na perda por vazamentos.

Saneamento básico

Em relação ao saneamento, o ranking mostra que, nos 100 maiores municípios do país, 92,2% da população têm acesso à água tratada. Em 22 das cidades, o atendimento chega a 100%, atingindo a universalização do serviço.

No entanto, os dados de coleta e tratamento de esgoto são bem inferiores. A média de população atendida por coleta de esgoto nas cidades avaliadas é 62,46%. Os números do tratamento são ainda menores: em média, 41,32% do esgoto do grupo de maiores cidades do país é tratado. Entre as 10 cidades com piores índices no quesito, três são capitais: Belém, Cuiabá e Porto Velho, sendo que as duas últimas têm tratamento de esgoto nulo.

Considerando acesso à água, coleta e tratamento de esgoto e o índice de perdas, o estudo fez um ranking com os 20 municípios com melhores e os 20 com piores resultados em saneamento. Além disso, o instituto traçou uma perspectiva de universalização dos serviços nos próximos 20 anos, como quer o governo federal, com base na evolução dos indicadores entre 2008 e 2012.

Entre as 20 cidades com melhores resultados, todas atingiram ou atingirão a meta nos próximos anos. No entanto, nos 20 municípios com piores notas, entre eles seis capitais, apenas um deve atingir a universalização se o ritmo de melhoria se mantiver. “É um dado preocupante, na medida em que a gente tem uma meta clara para duas décadas”, avalou Édison Carlos.

De acordo com o presidente do Trata Brasil, a situação só será revertida se as políticas de saneamento entrarem na agenda de prioridades dos gestores públicos e a população pressionar por avanços no setor. “Tem que ser prioridade, principalmente dos prefeitos, mesmo as cidades em que os serviços são operados por empresas estaduais. Isso não tira a responsabilidade dos prefeitos, que têm que brigar por metas mais rápidas e mais amplas. É preciso foco”, avaliou. “O eleitor, o cidadão, tem que cobrar. É investimento, não é milagre”, comparou.

Fonte e imagem – Planeta Sustentável de 29 de agosto de 2014

Tolerância zero em Toronto

“Porco”, “estúpido” e “egoísta” são alguns dos termos que vêm à cabeça quando se vê alguém jogando lixo no chão. E é exatamente assim que uma polêmica campanha da cidade de Toronto, no Canadá, tem chamado quem polui os espaços públicos.

Lançada no final de agosto pela prefeitura e a organização Livegreen Toronto, a nova campanha de combate ao despejo irregular de resíduos deixa explícito o que esse comportamento deplorável revela sobre as pessoas que o praticam. Nela, embalagens encontradas em praças, parques e vias são colocadas juntas para formar palavras que caracterizam bem esses indivíduos e o que se pensa deles. Um pouco na contramão da renomada polidez canadense.

Segundo os criadores, as campanhas comuns contra a poluição nas ruas apelam para a consciência ambiental ou aspectos estéticos e econômicos do problema. Esta de maneira diferente tem o objetivo de criar culpa e “envergonhar”. Resta saber se vai gerar resultados.

No Brasil, com algum sucesso relativo da fiscalização tem se apostado nas multas em algumas das principais cidades. No Rio de Janeiro, onde a a campanha Lixo Zero começou no passado, cerca 57 mil pessoas já foram multadas por jogar lixo na rua. A média é de 150 cariocas sendo flagrados diariamente por fiscais da Companhia Municipal de Limpeza Urbana e guardas municipais. O problema é que apenas 17,3 mil até agora pagaram os valores devidos – entre R$170 e R$3.400, dependendo do volume. Outros 20 mil estão com o nome sujo no Serasa por conta da infração.

Santos, no estado de São Paulo, adotou no começo de julho uma lei semelhante e já conseguiu reduzir em 33% a quantidade de resíduos que são varridos de seu centro histórico. Na capital, São Paulo, onde um um terço da geração vem da varrição dos espaços públicos, segundo a Amlurb, já se discute a adoção das multas para combater a sujeira nas ruas. Seria interessante, afinal, a cidade gasta por ano quase metade de seu orçamento de R$ 1,8 bilhão para limpeza com esse serviço e coleta nos 4.324 pontos viciados, locais onde o lixo se acumula ilegalmente.

As multas podem até funcionar, mas não seria bom também “dar nome aos bois” como os canadenses?

“Marginal” ou “deplorável”

“Preguiçoso”

“Inepto”

“Porco”

Fonte – Julio Lamas, Planeta Sustentável de 01 de setembro de 2014

Jogamos fora 30% dos alimentos que compramos, metade sem nem abrir o pacote

José Esquinas expõe o desperdício como um grave responsável pela falta de acesso aos alimentos e ressalta que com 2% do dinheiro gasto para salvar os bancos se poderia ter acabado com a fome

Depois de trabalhar 30 anos para a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), José Esquinas parece tentar ajudar a erradicar a fome com cada palavra que profere. Tachado de idealista em mais de uma ocasião, é muito claro que o objetivo que persegue não é utopia: em um mundo que produz o suficiente para alimentar 50% a mais da população mundial com comida, não entende como cerca de 40 mil pessoas morrem todos os dias por não comer.

Ele não entende, mas explica e aponta as responsabilidades: a falta de vontade política impede o acesso aos alimentos em alguns países. Refere-se à falta de ação dos líderes para evitar o desperdício. Que não regula o mercado de alimentos para acabar com a especulação e continuar a permitir a apropriação de terras. Que mantém os números da “maior pandemia da humanidade” que provoca essas “mortes silenciosas”.

Como embaixador da Campanha “Alimentos com poder”, da ONG Oxfam Intermón, que coloca o devido foco na capacidade de produção de alimentos como um meio de promover o desenvolvimento sustentável, Esquinas nos acolhe com o claro desejo de falar. Aos 68 anos, depois de passar por universidades de prestígio, confessa qual foi a mais produtiva: o campo. Escolhe um professor: seu pai. Daí, talvez, vem a sua paixão pela agricultura e dedicação para atingir seu objetivo: conseguir que ninguém sofra para encher o estômago.

Eis a entrevista.

Qual é o verdadeiro poder dos alimentos?

A alimentação é a base, sem alimentos não há vida. Mas não só isso, é muito mais. Um estômago vazio, uma pessoa com fome, vai usar toda sua capacidade criativa para tentar se alimentar. Nada mais. No entanto, quando está alimentada, utiliza toda essa energia para criar, interagir, para ajudar, para ser um membro ativo da sociedade e se desenvolver como cidadão em todos os aspectos.

Quando se fala em ajudar na erradicação da fome, é muito mais do que falar em assistência social. Não consiste apenas em entregar alimentos, mas em ajudar a pessoa a se ajudar, ajudar as populações a não ter a necessidade de pedir comida, porque eles podem produzir por si próprios. Isso envolve a ideia de sustentabilidade. Estes são os alimentos com poder.

No entanto, enquanto os esforços são feitos em todo o mundo pela erradicação da fome, os números de desperdício continuam a subir.

De acordo com a FAO, há alimento suficiente para alimentar 50% a mais de pessoas no planeta. A comida existe, está no mercado internacional, mas não alcança a boca dos famintos: é um problema de acesso. Portanto, se o problema é de acesso, é determinante a falta de vontade política.

Na Espanha, hoje, em tempos de crise, somos um dos países com maior desperdício: jogamos fora 7 milhões de toneladas de alimentos por ano, o que se traduz em 165 kg por pessoa. Jogamos fora 30% dos alimentos que compramos, e o que é ainda pior: 15% dos alimentos que são comprados são jogados sem abrir o pacote. É uma questão de prioridades.

Você diz que a fome existe por uma falta de vontade política para erradicá-la. Onde está a negligência dos líderes refletida e por que você acredita que não há uma verdadeira determinação para acabar com ela?

A fome é a maior pandemia da humanidade. Cerca de 40 mil pessoas por dia morrem de fome. Se pensarmos em qualquer outra doença, os números são absolutamente incomparáveis. Foram colocadas enormes quantidades de dinheiro para combater a gripe A. Quantos morreram ao longo dos anos investidos? 17 mil. Ou seja, menos da metade dos que morrem em um dia de fome. Se a fome fosse contagiosa, teríamos terminado com ela há muito tempo.

Quantos morreram no ataque às Torres Gêmeas? Quantos morreram nas Filipinas? Segue sendo menos do que as pessoas morrendo de fome em um único dia e, nestes casos, o mundo está virado de cabeça para baixo. Há razões para o fazer, mas seria também invertendo a lógica, no caso dos mortos por falta de comida. São mortes silenciosas.

Além do mais, com 2% do que foi gasto para resolver o problema do sistema bancário no Ocidente, poderíamos ter acabado com a fome de uma forma sustentável, incentivando a produção local. Estamos gastando em armamentos 4 bilhões de dólares por dia. Se dividirmos este valor por aqueles que morrem todos os dias, temos 100 mil euros por cada morto. Com esse dinheiro, essas pessoas poderiam viver mais de 100 anos, tendo em conta o preço dos alimentos nos países com a maior taxa de mortalidade. Em 2005, o número de obesos ultrapassou o número de famintos.

Por que a fome precisa ser vista como um problema global?

Sem a segurança alimentar, a paz não é possível, nem a segurança global: a maior ameaça à paz é a fome. Os países desenvolvidos começaram a perceber isso, introduziram pela primeira vez a questão da segurança alimentar na agenda do G8 e do G20.

A fome é um terreno fértil para os principais fatores de desestabilização que vemos no Ocidente: a violência internacional e a migração. Em um mundo globalizado, não há compartimentos estanques. Estamos em uma pequena nave espacial, circulando em torno do sol, e os recursos naturais são limitados. Se um buraco é feito nesse navio, não importa se o buraco é na África ou na Europa, você pode afundar o navio inteiro. Estamos em uma casa comum, onde, caso ocorram vazamentos e inundações na cozinha, o perigo também estará no quarto.

Um exemplo é o que aconteceu em Lampedusa . Quando muitas pessoas estão mais propensas a morrer por ficar em seu país de origem do que subindo em um barco, ninguém vai impedir que façam isso. Se um deles morrer durante a viagem, nada acontece, eles vão continuar subindo em barcos. Ninguém pode impedi-los de ir da cozinha para o quarto. Se queremos acabar com essa absoluta falta de controle, devemos ajudar a ajudar, intentar que fiquem bem onde estão e que vivam em segurança em seus países. No entanto, a Ajuda Oficial ao Desenvolvimento continua a cair.

E, em vez de atacar as causas, os cortes são colocados.

Isso é miopia política. Isso é como quando você aponta a lua e está olhando para o dedo. Voltemos às prioridades: em vez de incluir nos programas eleitorais questões importantes, estão a introduzir questões menores. Além disso, por uma questão humanitária, colocar cortes é um crime, você não pode condenar uma pessoa a morrer de fome, ou cortar os pulsos e sangrar até a morte em cima do muro. Isso pode ser legal, mas não moral.

O que é atualmente entendida como a especulação de alimentos?

A especulação no mercado futuro de alimentos é marcada pela primeira crise alimentar em 2008, que teve muitas causas. Mudar hábitos alimentares nos países emergentes, a mudança climática… Mas, sobretudo, o aumento da produção de biocombustíveis. Seu impulso em certos países provocou que em uma mesma quantidade de terra competissem dois objetivos: alimentar as pessoas e alimentar carros.

Embora venha sendo feita há décadas, a especulação de alimentos tem se intensificado desde 2008. Grandes investidores que querem fugir do mercado imobiliário encontraram refúgio na comida, pois é algo que todo mundo precisa para viver, o que a torna um bom investimento no setor.

Como é a especulação no mercado futuro de alimentos?

Grandes instituições financeiras, com capacidade para investir, decidem que podem prever que vai elevar-se o preço dos alimentos em um determinado período de tempo. Então, quando se espera que o aumento ocorra, compram a produção do agricultor antes da coleta, ou mesmo antes da subida, sob a condição de que eles mantenham no campo o que foi cultivado, até os especuladores decidirem quando pode ser feita a coleta. Assim, solicitam que a produção do agricultor fique na terra até que tenha um preço e um comprador determinados.

O agricultor recebe um alto percentual do pagamento desses produtos antes de produzir, e quando estiver pronto, você será alertado. “Eles já estão maduros, sempre que realizamos a coleta.” O primeiro comprador considera que as exigências sobre a produção podem satisfazê-lo. Se assim for, ele aprovará a coleta. Se acha que os preços não compensam, ele pedirá ao agricultor para esperar um pouco mais, até que o agricultor diga: “Ei, o produto começa a apodrecer, o que eu faço?” Em seguida, o investidor responde: “Deixe-o apodrecer, pois assim o preço vai subir”.

Essa é a especulação do mercado futuro: deixar a comida escassear para obter preços mais altos. Isso é um crime, mas é um crime legal. Uma das soluções para acabar com a fome é regular o mercado de especulação futura dos alimentos.

Em uma ocasião, você disse que foi para a ONU, com a ilusão de ser parte do lugar onde presume-se que você pode mudar o mundo. Ainda pensa isso ou saiu decepcionado?

Muitas vezes fiquei frustrado pela lentidão, burocracia, traições e por descobrir os verdadeiros ideais da FAO. Houve momentos em que eu chorei sem poder fazer nada até ver certas circunstâncias. Mas eu também vivi do outro lado. Hoje a ONU é o único fórum internacional global que pode ter discussões sobre temas específicos com atenção da mídia. Atualmente, a ONU é insubstituível. Eles não são perfeitos, mas não há nenhum outro fórum possível.

Após a Segunda Guerra Mundial, quando a instituição foi criada, foi dito: “Nós, os povos do mundo, estabelecemos um sistema para substituir as armas pelo diálogo”. Mas, no final, não foram as pessoas, e sim os governos do mundo. Os representados são os líderes dos países. Em muitos casos, eles não são democráticos, mas, apesar de serem muitas vezes os interesses de cada estado prefixados com um olho definido na próxima eleição, acima dos interesses do mundo e das gerações futuras, é importante ir além, procurar um fórum dos povos, um parlamento mundial. Não para substituir a ONU, mas para complementá-la.

Fonte – Gabriela Sánchez, El Diário / Tradução Caio Coelho, IHU Online

Imagem – Lunauna

O fim da era do desperdício

Em duas décadas, diz o economista Gesner Oliveira, em boa parte do planeta faltará água. Para evitar que isso ocorra, há apenas dois caminhos: diminuir o desperdício e aumentar a reutilização

Grandes regiões metropolitanas do mundo podem enfrentar problemas graves de falta de água. O Brasil não está livre desse risco. Para o economista Gesner Oliveira, Ph.D. pela Universidade da Califórnia em Berkeley e presidente da Sabesp entre 2007 e 2010, há duas medidas urgentes a ser tomadas para evitar que a situação atinja o nível de calamidade. A primeira é combater o desperdício. No Brasil, 37% da água tratada é desperdiçada e nem sequer chega às torneiras. A segunda é ampliar a reutilização da água, prática comum nos países que são modelo em abastecimento.

É inevitável que o mundo sofra com a escassez de água no futuro?

Se medidas urgentes não forem tomadas, é quase certo que tenhamos um problema de saneamento e de abastecimento muito grande já daqui a duas décadas. Não que a água do planeta vá acabar, claro, mas haverá problemas sérios de falta de mananciais utilizáveis nas regiões urbanas. O planeta vive um ritmo de urbanização intenso, em especial na Ásia e na África. Para lidar com isso, é preciso reduzir a perda de água tratada e reutilizá-la cada vez mais. Temos de romper com aquele paradigma da Antiguidade, quando os povos poluíam rios e açudes e iam buscar água cada vez mais longe. Essa prática, que deu origem a lindos aquedutos que ficaram para a história, não é mais viável em um planeta habitado por mais de 7 bilhões de pessoas.

O crescimento da população é a principal ameaça ao abastecimento?

Não. O que ocorre é que, de um lado, vemos uma urbanização crescente, com o surgimento de macrometrópoles formadas sem o devido planejamento. De outro, observamos o aumento da população da classe média nas economias emergentes. Isso significa que quem não consumia passou a consumir, o que aumenta a pressão sobre o sistema energético e de abastecimento. Existe ainda a questão ambiental. Desmatamentos às margens dos rios contribuem para que estes sequem. E há áreas onde os lençóis freáticos foram tão sobrecarregados que elas agora correm o risco de se tornar desérticas. Na Cidade do México, onde a água subterrânea é muito usada, isso já é uma realidade.

Em São Paulo também se vive um temor de racionamento. O governo falhou em seu planejamento? Subestimou a estiagem?

O fenômeno da estiagem tem sido tão intenso que dificilmente estaria no radar de qualquer governo ou empresa de saneamento. Mas, olhando as dificuldades climáticas que vêm ocorrendo na Califórnia e na África, por exemplo, é fundamental que comecemos a pensar numa mudança para valer – e não me refiro aqui a um plano de dois ou três anos. Falo de mudanças profundas, para os próximos vinte ou trinta anos.

Que tipo de mudanças?

O Brasil desperdiça muita água tratada. Nossa perda média é de 37%. Se o país fosse uma padaria, significaria que, de cada dez pãezinhos assados, estaria jogando 3,7 fora. É muita coisa, sobretudo para uma mercadoria tão vital. Há estados com taxas piores. No Amazonas, as perdas chegam a 70%. No Recife, em Manaus e nos municípios paulistas de Cajamar, Caieiras e Francisco Morato, o desperdício é superior a 40%. A perda média da Sabesp é de 26%, bem menor que a média nacional. Para 2019, a meta é reduzir a taxa para 17%. Ainda assim, ficaríamos acima do padrão internacional considerado bom, entre 10% e 15%.

O que causa tanto desperdício?

Há dois motivos principais. Um é físico. Quando ocorre vazamento em uma adutora, ou mesmo na rua, a água até é reabsorvida pelo solo, mas a um custo muito alto, uma vez que já havia sido tratada, transportada e foi perdida. Jogam-se fora os produtos químicos, a mão de obra e a energia que ela consumiu. Vai tudo literalmente pelo ralo. O outro motivo é comercial. O chamado “gato” não é uma prática destinada a furtar só energia elétrica. Existe o “gato” hidráulico também. Vemos com muita frequência uma tubulação batizada de “macarrão”.

Em geral, é um sistema muito malfeito e permeável, portanto contaminável, e que às vezes cruza o esgoto. Essa estrutura permite roubar água das companhias fornecedoras. Em alguns casos, esse tipo de furto chega a representar metade das perdas das empresas.

É possível chegar ao desperdício zero?

Não é vantajoso, é antieconômico. Zerar o desperdício tem um custo que não justifica a economia feita. No Japão, dado o custo e a escassez da água, vale a pena investir em perda zero – em Tóquio, menos de 5% da água tratada vai embora sem ser usada. Quando eu estava na presidência da Sabesp, ficava constrangido ao conversar com técnicos japoneses sobre os números brasileiros. Mas o Brasil tem uma enorme margem para melhorias, devido ao tamanho da sua ineficiência. É natural que estejamos discutindo o uso da reserva técnica do Sistema Cantareira, em São Paulo, e se vai chover ou não. Tudo isso é importante, são questões urgentes. O grande mérito desse debate, porém, é que ele vai contribuir para discutir estratégias de longo prazo.

E quais são as medidas fundamentais para garantir que não faltará água no futuro?

São duas. A primeira é a redução das perdas, por meio do aumento da eficiência. Ao abrirem a torneira, as pessoas precisam saber que estão usando um bem valioso. Há muito descaso com a água, talvez porque, das utilidades públicas, ela seja a mais barata. A segunda medida fundamental é ampliar a reciclagem da água que é consumida.

Como é feita essa reciclagem?

Hoje, existe no mundo um nível de tratamento tal que, ao fim dele, é possível beber a água que saiu da estação de tratamento de esgoto, ou seja, que passou pelo vaso sanitário. Pode parecer repugnante para muita gente, mas é como funciona em diversos países. E o método não tem relação com crises hídricas, tra­ta-se de uma medida usual em Israel, por exemplo. Fui lá conhecer essa experiência e posso dizer que não é uma tecnologia de outro planeta. No caso dos israelenses, compensa. Eles não têm muitas opções de captação e estão no meio do deserto. Mas pense no Brasil. Muito da água que bebemos vem de mananciais relativamente poluídos e que passam por tratamento. Algumas captações, como as dos rios Jundiaí ou Juqueri, e mesmo as das represas Billings e Guarapiranga, trazem uma água bruta, que faria passar mal quem a tomasse. Mas, depois de tratada, fica perfeita.

Qual a qualidade da água que chega pela torneira no Brasil?

Posso dizer que, em São Paulo, se a sua caixa-dágua for bem cuidada, não há nenhum risco ao tomar água da torneira. Pode não ser muito agradável porque ela talvez não tenha a mesma limpidez da água engarrafada, que cria no consumidor a ideia de que ele está tomando algo mais puro. Pode haver diferença de coloração e até de cheiro, mas, tecnicamente, trata-se de uma água boa. Embora seja levada muito em conta, a aparência não é importante. Em muitas localidades dos Estados Unidos, por exemplo, a água atende a todas as exigências de saúde, mas não tem coloração agradável.

Se a água da torneira pode ser bebida, o fato de a usarmos nos banheiros, por exemplo, não é também um desperdício?

Sim. A água adequada ao consumo humano é a mesma que usamos no banheiro ou para lavar a rua depois de uma feira. Mas para essas finalidades, digamos, menos nobres, a Sabesp mantém caminhões de água de reúso, que é água reciclada. Para lavar a rua, por exemplo, ela não precisa ter as características químicas exigidas para o consumo humano. O Metrô tem um contrato para a lavagem dos vagões que também estabelece o emprego do mesmo tipo de água. No tratamento-padrão, a água passa por desinfecção, para que microrganismos sejam retirados; coagulação, para que impurezas sejam removidas e deixadas em suspensão; e depois pelas fases de floculação, decantação, filtração e correção do pH. No Brasil, ainda se adiciona flúor, muito eficaz para controlar cáries. Claro que não é necessário acrescentar flúor à água usada para lavar as ruas. Essas medidas de reúso são fundamentais, mas ainda estão em fase inicial. Temos muito que avançar.

Seria possível fazer uma divisão do sistema de abastecimento, com uma rede de água nobre e outra menos nobre?

Sim. Isso reduziria os gastos com produtos químicos, energia e mão de obra. Por outro lado, seria preciso investir na construção dessa outra rede. O Brasil não chegou a esse ponto porque a produção de água de reúso ainda é de menos de 1%. Seria razoável que na próxima década ao menos um quarto da água consumida no país fosse de reúso.

O senhor falou que a água é a mais barata das utilidades públicas. Aumentar a tarifa é a solução?

A solução passa menos por aumentar tarifas e mais por estabelecer regras de uso que obedeçam a critérios técnicos, e não a conveniências políticas. É preciso que o assunto seja regulamentado por um órgão independente e com excelência técnica para estimular o investimento e inibir o populismo. Vale o tripé: boa regulação, bom planejamento e boa gestão. Sem esses pilares, é difícil imaginar cidades saudáveis e recursos hídricos bem aproveitados. Para atrapalhar um pouco, há um raciocínio político muito perverso que diz que esse tipo de investimento não tem visibilidade e, portanto, os dividendos políticos que ele gera não são tão grandes quanto os que rendem a construção de um viaduto, por exemplo. O grande segredo é mudar esse raciocínio e criar dividendos políticos investindo no saneamento. Ao mesmo tempo, é preciso estabelecer penalidades para políticos que deixarem a questão de lado.

A escassez de água traz também o medo do racionamento de energia, já que nossa matriz é hidrelétrica. Como evitar que isso aconteça?

Algumas medidas sinalizam possíveis caminhos a seguir. Um deles é reduzir o gasto energético do próprio sistema de abastecimento, já que o bombeamento é uma das coisas que mais consomem energia. Outra possibilidade é aproveitar a engenharia de captação de água para gerar energia. Os diferentes níveis entre as represas permitem a criação de pequenas centrais hidrelétricas. Há uma no Sistema Cantareira. Ela gera 7 megawatts, o que é pouco, mas indica um caminho. No tratamento de esgoto há geração de gases úteis na produção energética, como o metano. Além disso, o lodo originado nesse processo pode ser usado nas termelétricas e também como matéria-prima na construção ci­vil, por exemplo, na fabricação de tijolos.

É possível produzir água em laboratório?

Até onde conheço, não é um grande investimento. Os cientistas têm se voltado mais para as pesquisas de dessalinização, cujo custo vem diminuindo. Em alguns países, como a Espanha, esse tipo de abastecimento já é um importante plano B. Nas épocas do ano em que chove menos, utiliza-se mais essa água dessalinizada.

Existe algum país que sirva de modelo para o Brasil?

As peculiaridades são tantas que é difícil dizer, mas acho que esse país seria o Canadá, por ter a mesma dimensão continental e uma hidroeletricidade importante. Israel, Japão, Espanha, Austrália e Singapura também poderiam servir de inspiração – têm experiências muito positivas de saneamento e reúso.

Há um limite de vezes em que a mesma água pode ser reaproveitada?

Não, veja que maravilha. A não ser que os mananciais estejam muito poluídos. Nesse ponto, começam os problemas. Eles se tornam inúteis e há um processo de desertificação. Ou então o solo perde a capacidade de absorção e ocorrem enchentes. Na China, já é um problema sério. O consumo explodiu e a preocupação ambiental não acompanhou a economia. Já a Coreia do Sul venceu a poluição e teve experiências bem interessantes ao desenterrar rios e córregos antes canalizados. Foi uma espécie de reurbanização, cujo símbolo é o Rio Han, que renasceu.

Fonte – Mariana Barros, Planeta Sustentável de 06 de agosto de 2014

Imagem – BRJ INC.

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