Por que bananas podem correr risco de extinção – e o que fazer

Banana de MadagascarSerá que a banana de Madagascar pode salvar os demais tipos de banana das pragas? RALIMANANA

Ela só existe em Madagascar, na África, onde ficam os últimos cinco pés adultos da planta na natureza.

Cientistas dizem que a espécie precisa ser preservada, pois pode conter o segredo para manter as bananas em segurança no futuro.

A maioria das bananas consumidas pelo mundo são do tipo Cavendish, grupo da banana nanica. Essas bananas são especialmente vulneráveis a uma praga conhecida como mal do Panamá. Também estão sujeitas à doença as bananas prata e maçã, bastante populares no Brasil.

Pesquisadores tentam desenvolver novas variedades que sejam ao mesmo tempo saborosas e resistentes à praga.

A banana selvagem de Madagascar se desenvolveu isolada, já que o país é uma ilha no Índico, e pode ter propriedades especiais.

Bananeira de Madagascar

Uma das últimas bananeiras selvagens nas matas de Madagascar. RALIMANANA

Richard Allen, assessor do Jardim Botânico Real de Kew, em Londres, diz que a espécie (Ensete perrieri)pode ter desenvolvido uma resistência a secas e ao mal do Panamá.

“Ela não sofre com o mal do Panamá, então, talvez tenha traços genéticos que a protejam da doença”, afirma.

“Não saberemos até pesquisar a banana, mas não poderemos fazer a pesquisa até que ela esteja a salvo.”

Pesquisadores do jardim botânico procuraram a planta em Madagascar e concluíram que ela está praticamente extinta na natureza.

Eles esperam que a inclusão da espécie na lista vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza trará visibilidade ao tema.

Hélène Ralimanana, do jardim botânico londrino, diz que a planta integra o rico ecossistema de Madagascar.

“É muito importante conservar a banana selvagem porque ela tem grandes sementes que podem oferecer uma oportunidade para encontrar um gene que melhore a banana cultivada”, afirmou.

Se a banana selvagem for protegida, haverá como coletar as sementes e analisar a composição genética da planta.

A banana de Madagascar produz sementes dentro da fruta, ou seja, não é comestível.

Mas cruzamentos com a planta podem gerar um novo tipo de banana que seja comestível e resistente.Por que as b

ananeiras são vulneráveis à doença?

Bananas se reproduzem por clonagem, portanto, há pouca variação genética entre seus diferentes tipos.

Se a doença atinge uma planta, pode rapidamente afetar toda a população dessa variedade.

Por enquanto, os mercados oferecem a fruta em abundância. Mas a situação pode mudar no futuro.

A doença que ataca a Cavendish está, por enquanto, confinada à Ásia. Se chegar às Américas, pode liquidar as plantações por todo o mundo.

Isso já ocorreu nos anos 1950 com um tipo de banana chamado Gros Michel. Acredita-se que a música “Yes! We Have No Bananas” (Sim! Não temos bananas), do trompetista americano Louis Prima, tenha sido inspirada na falta de bananas Gros Michel, afetadas pelo mesmo fungo por trás do mal do Panamá.

Essas bananas foram substituídas pelas Cavendish, batizadas em homenagem a William Cavendish, o sexto Duque de Devonshire, na Inglaterra.

Planos municipais de resíduos sólidos esbarram em interesses econômicos e políticos

Aterro localizado no município de Minas do Leão, a 80 km de Porto Alegre. Foto: MPRS

No maravilhoso mundo das leis, desde 2014 não haveria mais um só lixão no Brasil. É o que determina a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), em vigor desde agosto de 2010. Mas no Brasil de verdade, os lixões a céu aberto ainda são o destino do lixo gerado em 1.552 (27,8%) dos 5.570 municípios brasileiros, segundo levantamento de 2016 da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe).

A lei determinou ainda que até 2012 todos os Estados e municípios apresentassem seus planos de resíduos sólidos, indicando como cada região iria gerenciar o lixo que produz. Mas segundo o Perfil dos Municípios Brasileiros 2017, divulgado nesta terça-feira (10) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), pouco mais da metade dos municípios (54,8%) possuem um Plano Integrado de Resíduos Sólidos. Como punição, as administrações municipais ficam proibidas de receberem verbas federais para as áreas de saneamento e limpeza urbana. Isso sem falar nas consequências jurídicas para os gestores, que afinal estão descumprindo a lei.

O assunto foi discutido durante a 7.ª edição do evento “Cidade Bem Tratada”, que ocorreu no início de junho em Porto Alegre, na sede do Ministério Público do Rio Grande do Sul. “Eu vejo que a implementação da PNRS neste momento está praticamente parada. Hoje o maior esforço [dos prefeitos] é para adiar os prazos da política nacional de resíduos sólidos, que se altere a legislação para adiar esta questão para gestões posteriores”, afirma Rogério Menezes, Secretário do Meio Ambiente de Campinas e presidente da Associação Nacional de Órgãos Municipais de Meio Ambiente (ANAMMA).

Rogério descreve um cenário de falta de recursos, em que os prefeitos precisam apagar um incêndio por dia. Mas ele mesmo afirma que este não é o principal entrave. Muitas vezes são os interesses políticos e econômicos que se impõem, como mostra o relato que Rogério ouviu de um secretário municipal de um importante município brasileiro: “Ele foi chamado atenção pelo prefeito porque estava ampliando a coleta seletiva, e isso estava prejudicando o acordo com o aterro sanitário, diminuindo o número de toneladas que eram aterradas”.

Atualmente, 58,4% do lixo produzido no Brasil vai parar em aterros sanitários. São locais preparados para receber o lixo, que vai sendo recoberto com terra de tempos em tempos. Teoricamente, o aterro tem que implementar uma série de medidas para reduzir os impactos ambientais, como a impermeabilização do solo, a compactação do lixo e a drenagem do chorume e do biogás gerados no processo de decomposição.

Ou seja, um aterro já é bem melhor do que um lixão, este sim completamente ilegal. Mas o objetivo da Política Nacional de Resíduos Sólidos é fazer com que apenas aqueles materiais cuja reutilização é inviável (material hospitalar, por exemplo) sejam encaminhados para os aterros, o que representa 10% do lixo produzido no Brasil. O restante seria reciclado e reinserido na cadeia produtiva ou encaminhado para compostagem e geração de energia (no caso dos resíduos orgânicos). Uma lógica que incomoda empresas com raízes profundas nas estruturas administrativas, de acordo com Rogério Menezes: “Você tem acordos políticos que passam pelos grandes aterros, que são um item de despesa do poder público muito grande. Então a gente observa uma resistência na mudança. Quando você tiver um processo de coleta seletiva que atinja em um quarto de uma cidade, você vai ter perdas expressivas para aqueles que fizeram de enterrar lixo o seu negócio”.

Uma capital como Porto Alegre, por exemplo, com 1,4 milhão de habitantes, paga R$ 3 milhões por mês para enterrar o lixo produzido pela população em um aterro sanitário em Minas do Leão, a 100 km de distância. O contrato de 3 anos com a Companhia Riograndense de Valorização de Resíduos prevê um valor de R$ 67,18 por tonelada de resíduo aterrado. Quanto menos lixo, menos dinheiro a empresa recebe.

“Você tem acordos políticos que passam pelos grandes aterros, que são um item de despesa do poder público muito grande. Então a gente observa uma resistência na mudança. Quando você tiver um processo de coleta seletiva que atinja em um quarto de uma cidade, você vai ter perdas expressivas para aqueles que fizeram de enterrar lixo o seu negócio”, diz Rogério Menezes, presidente da Associação Nacional de Órgãos Municipais de Meio Ambiente (Anamma).

Faltam profissionais qualificados

Quando há vontade política, muitos gestores se deparam com outro problema: a falta de profissionais qualificados para criar e implementar os planos municipais de resíduos sólidos. Segundo o presidente da ANAMMA, mais de um terço dos municípios não têm sequer um profissional técnico na área ambiental no seu quadro de funcionários. Dependendo do tamanho da cidade, com sorte haverá um engenheiro civil que vai se desdobrar entre as diversas secretarias.

Bárbara Cavalcanti, que é Coordenadora da Câmara Temática de Resíduos Sólidos da Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental (Abes), confirma que faltam profissionais qualificados para colocar em prática o PNRS: “Somos um país que é um continente, veja quantos municípios nós temos e as carências. Existe realmente uma falta de técnicos capacitados, que têm o compromisso mas não tem a capacidade técnica para fazer um projeto de um aterro sanitário, para desenvolver um plano intermunicipal de resíduos. Mas digo também que esta realidade está mudando”. Em suas andanças pelo interior do país, Bárbara percebe um pequeno movimento de profissionais que foram para as capitais estudar ecologia, engenharia ou algum curso técnico na área ambiental, e que voltam para trabalhar nas cidades de origem.

A Câmara coordenada por Bárbara tem a missão de acompanhar, auxiliar e também cobrar dos gestores a criação e implementação de planos intermunicipais de resíduos sólidos. Os planos intermunicipais são alternativas para os municípios menores, que podem se reunir em consórcios para reduzir custos. Bárbara busca ser compreensiva com as dificuldades dos prefeitos, mas diz que não há desculpa para ficar de braços cruzados: “Não aceito o município dizer que não vai implementar um plano só porque não tem dinheiro. Porque tem ações básicas que o município é obrigado a fazer e tem condições de fazer, que é implementar um processo de educação ambiental, uma nova consciência ambiental na questão de resíduos, para que cada cidadão assuma sua parcela de compromisso no resíduo que ele gera”.

O inferno dos gestores

A lei que estabeleceu a PNRS apostou em princípios louváveis – porém pouco realistas – para garantir o cumprimento de suas metas. Um deles é o da responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida dos produtos. Ou seja: poder público, fabricantes, importadores, distribuidores, comerciantes… todos devem fazer a sua parte para garantir o recolhimento, reciclagem, reintrodução e, em último caso, o descarte dos resíduos. Estas responsabilidades devem ser definidas formalmente através de acordos setoriais.

A promotora de Justiça de Defesa do Meio Ambiente de Porto Alegre, Annelise Monteiro Steigleder, acompanhou de perto a formulação de um destes acordos: o de logística reversa de embalagem geral, firmado em 2015. De acordo com o Ministério do Meio Ambiente, o acordo tem o objetivo de garantir a reintrodução no ciclo produtivo de embalagens “compostas de papel e papelão, plástico, alumínio, aço, vidro, ou ainda pela combinação destes materiais, como as embalagens cartonadas longa vida, por exemplo”.

Lixão da Estrutural, desativado esse ano. Foto: Wilson Dias/ABr.

Mas em um universo com tantos atores e tantas especificidades técnicas, a responsabilidade que deveria ser compartilhada acaba negligenciada por todos os lados: “A própria definição conceitual de responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida dos produtos é uma incógnita. Nós que trabalhamos com isso diariamente temos muita dificuldade de saber do ponto de vista jurídico o que é de responsabilidade do fabricante, porque quando falamos de fabricante não é só o fabricante do produto, é o fabricante do insumo, da embalagem, é aquele que usa da embalagem para fabricar o refrigerante, e aí nós temos os distribuidores, os importadores, os comerciantes, sendo que dentro dos comerciantes alguns deles também são fabricantes. É inacreditável. Quanto mais a gente se aproxima desse assunto, mais enlouquecedor ele se torna. É um inferno para qualquer gestor público que quer tentar organizar minimamente o assunto”, desabafa a promotora diante da plateia.

Annelise Steigleder afirma que a lei tem muitos gargalos, entre eles a falta de dados sobre as embalagens produzidas no Brasil. Se não se sabe o que está sendo gerado, como controlar a destinação? A promotora também defende que as empresas sejam proibidas de introduzir no mercado embalagens que não têm viabilidade econômica para reciclagem. É o caso de alguns pacotes de salgadinhos e de bolachas recheadas, em que o custo de reciclagem é tão alto que ninguém tem interesse comercial em reaproveitar. “Os produtos chegam a estes municípios, as pessoas conseguem ter acesso a estes produtos industrializados, mas estas vias de logística não são utilizadas para devolução das embalagens. Quando não encontra mercado consumidor, não podem ser reinseridas na cadeia produtiva, se tornam custos sociais e todos nós na sociedade acabamos pagando por isso”.

Fonte – Fernanda Wenzel, O Eco de 10 de julho de 2018

Paris pondera tornar transportes públicos gratuitos para reduzir poluição do ar

Metro

A presidente da Câmara de Paris, Anne Hidalgo, encomendou um estudo para examinar a possibilidade de tornar os transportes públicos gratuitos.

presidente da Câmara de Paris, Anne Hidalgo, anunciou que encomendou um estudo para examinar a possibilidade de tornar os transportes públicos gratuitos na capital, à semelhança do que já acontece em algumas pequenas cidades do país.

“Decidi pedir a três dos meus assistentes para realizarem um grande estudo sobre o assunto, que envolverá peritos franceses e estrangeiros”, disse a presidente, que acredita que a questão relativa à exequibilidade do esquema “merece ser colocada sem preconceitos ou dogmatismo”.

“A questão do transporte gratuito é uma das chaves para a mobilidade urbana, em que o lugar dos carros poluidores deixa de ser central. Muitas cidades estão a analisá-la.”

Anne Hidalgo explicou que a medida só seria implementada se fosse economicamente viável e admitiu que “atualmente, nada nos diz que seria possível”. Os resultados do estudo serão conhecidos até ao final do ano.

Também o governo alemão está a considerar esta ideia como uma estratégia para a redução da poluição atmosférica e do tráfego. O País de Gales, no Reino Unido, encontra-se atualmente a testar um serviço gratuito de autocarros aos fins de semana e a capital da Coreia do Sul, Seul, tem tornado os transportes públicos gratuitos durante as horas de ponta dos dias em que a densidade de partículas poluentes no ar atinge níveis considerados prejudiciais para a saúde.

Paris

Na comuna francesa de Niort, os autocarros são gratuitos para os seus 125 mil habitantes desde setembro do ano passado. Segundo Jérôme Baloge, presidente da Câmara Municipal, este sistema aumentou o número de passageiros em 130% nalgumas rotas e reduziu ligeiramente o número de carros nas estradas, custando à cidade pouco mais do que quando os passageiros tinham de comprar bilhetes. Contudo, o presidente admitiu que tornar os metros, autocarros, elétricos e comboios suburbanos gratuitos numa cidade grande era uma ideia muito mais radical e revolucionária.

O estudo encomendado pela presidente também vai investigar a possibilidade da criação de uma taxa de circulação urbana para desencorajar os automobilistas de conduzirem na capital. Os apoiantes desta medida afirmam que ela poderia ajudar a financiar a gratuitidade dos transportes públicos.

Entretanto, Anne Hidalgo quer tornar o transporte público gratuito pelo menos para determinados grupos de pessoas. A Câmara Municipal irá decidir se o passe Navigo mensal será gratuito para os cidadãos com mais de 65 anos que recebam menos de 2200€ por mês (3400€ para casais).

Outras cidades do país também estão de olho nesta ideia. Dunquerque, no norte de França, comprometeu-se a adotar a medida revolucionária já em setembro de 2018.

“Não estamos só a redistribuir o poder de compra”, disse o presidente da Câmara, Patrick Vergriete. “Estamos também a livrar-nos de desigualdades ao fornecer melhor acesso aos empregos e às instalações para atividades de lazer.”

Fonte – The UniPlanet de 05 de junho de 2018

Oito brasileiros são contaminados por dia por agrotóxicos. Confira mais 7 dados assustadores sobre o assunto!

Oito brasileiros são contaminados por dia por agrotóxicos. Confira mais 7 dados assustadores sobre o assunto!

Já contamos aqui, no The Greenest Post, que o Brasil permite concentração 5 mil vezes maior de agrotóxico na água usada na agricultura do que países da Europa. Mas este está longe de ser o único dado alarmante revelado na publicação Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia, da pesquisadora Larissa Mies Bombardi, que trabalha no Laboratório de Geografia Agrária da USP. Quer ver? Confira, abaixo, outras conclusões assustadoras da pesquisa.

1. O PERIGO POR TRÁS DO FEIJÃO E DA SOJA

O limite máximo de resíduos de agrotóxicos permitidos nos alimentos que chegam à mesa do consumidor também é discrepante, se compararmos Brasil e União Europeia. Por aqui, permiti-se concentração 400 vezes maior do inseticida Malationa no feijão que é servido à população e índice 200 vezes maior do herbicida Glifosato na soja.

2. LIBERADOS AQUI, PROIBIDOS LÁ

O Brasil permite o uso de 504 agrotóxicos em suas atividades agrícolas. Destes, 30% já são proibidos na União Europeia. Alguns (pasmem!) não são permitidos por lá há mais de uma década, por conta de seus comprovados danos à saúde dos seres humanos e do meio ambiente. Por aqui, ao contrário, não só são permitidos como estão na lista dos agrotóxicos mais usados.

3. PARA FICAR ESPERTO NO MERCADO

Ainda segundo o estudo, no ranking dos alimentos consumidos no Brasil que possuem maior concentração dos agrotóxicos proibidos na União Européia estão, respectivamente, soja, citrus, milho, café e cana-de-açúcar. Portanto, vale ter o dobro de esforço para evitar seu consumo!

4. LIBERADOS LÁ, MAS MUITO MAIS AQUI

Até quando os agrotóxicos são permitidos também na União Europeia, a concentração dos mesmos nas atividades agrícolas é muito mais permissiva no Brasil. Para ter uma ideia, no caso do Glisofato, por exemplo, que é um dos agrotóxicos mais consumidos por aqui, a União Europeia autoriza o uso de até 2 quilos da substância por hectare agrícola, enquanto o Brasil permite até 9 quilos. Ou seja, 450 vezes mais.

5. AGROTÓXICO NÃO TEM PÚBLICO-ALVO

100% da população está exposta aos malefícios dos agrotóxicos. Segundo o estudo, 8 brasileiros são contaminados por dia por essas substâncias. Os trabalhadores rurais, claro, são as principais vítimas, seguidos por pessoas que vivem em regiões próximas às plantações e, na sequência, por consumidores finais. E o mais assustador: para cada caso de contaminação notificado, estima-se que 50 (!) não foram registrados. Ou seja, o número de prejudicados é ainda maior do que conseguimos prever.

6. A SITUAÇÃO SÓ PIORA

Desde 2008, somos o país campeão em uso de agrotóxicos. É isso mesmo: consumimos 20% de todo o agrotóxico comercializado mundialmente, abocanhando o (triste!) título de nação que mais usa esse tipo de substância (comprovadamente!) maléfica à saúde. E, infelizmente, não devemos deixar a liderança desse ranking tão cedo. O estudo mostrou que, nos últimos 15 anos, aumentamos em 194% o uso de agrotóxicos em nossas atividades agrícolas. Isso que é 7×1!

7. O GOVERNO INCENTIVA

Como se não bastasse permitir, o governo brasileiro ainda incentiva o comércio de agrotóxicos. Isso porque empresas produtoras desse tipo de substância têm 60% de desconto no imposto relativo à circulação de mercadorias no Brasil, entre outros benefícios. Ou seja, na contramão dos países europeus, que adotam leis cada vez mais severas para o uso de agrotóxicos na agricultura, colocamos cada vez mais veneno no nosso prato – inclusive para poder aumentar a produtividade e exportar mais alimentos para fora.

Até quando?

Fonte – Débora Spitzcovsky, The Greenest Post de 02 de julho de 2018

‘Uma ameaça a uma série de direitos humanos’, diz ONU sobre ‘PL do Veneno’

“As mudanças podem enfraquecer significativamente os critérios para aprovação de pesticidas”, ressaltou a ONU. WESTEND61 VIA GETTY IMAGES

Em carta enviada ao governo, organização alerta que 5 dos 10 pesticidas mais vendidos no Brasil não são autorizados em diversos outros países devido a seus riscos à saúde humana ou ecossistemas.

A Organização das Nações Unidas (ONU) divulgou na noite da última quarta-feira (11) o comunicado enviado ao governo brasileiros em que manifesta preocupação com o Projeto de Lei 6299/02, que sugere uma série de mudanças na atual Lei dos Agrotóxicos, batizado por ativistas e críticos de “Pacote do Veneno”.

Na carta enviada em junho, relatores das Nações Unidas alertam que as mudanças, caso sejam aprovadas, podem violar direitos humanos de trabalhadores rurais, comunidades locais e consumidores de alimentos produzidos com ajuda de agrotóxicos.

“As mudanças podem enfraquecer significativamente os critérios para aprovação do uso experimental e comercial de pesticidas, representando uma ameaça a uma série de direitos humanos”, disseram os especialistas no relatório enviado ao chanceler brasileiro, Aloysio Nunes Ferreira, e ao presidente da Câmara, Rodrigo Maia.

Relatores apontam que o PL torna mais flexível uma série de regras para o uso e registro de produtos tóxicos no País — o que poderia enfraquecer a regulação e o controle de produtos perigosos, além de aumentar seu consumo no Brasil e no mundo, já que o Brasil é um grande exportador de alimentos.

A carta ainda cita dados do Ministério da Saúde. Apenas no ano de 2017 foram registrados 5.501 casos de intoxicação com agrotóxicos, o que representa uma média de 15 pessoas intoxicadas por dia. O número é quase o dobre do registrado 10 anos atrás. Destes casos, 150 pessoas morreram no Brasil como resultado do envenenamento apenas no ano passado. A carta complementa:

Trata-se de uma estimativa conservadora sobre os impactos adversos desses produtos na saúde humana, diante dos dados limitados disponíveis sobre envenenamentos e impactos na saúde de exposição crônica a pesticidas perigosos.

A ONU também lembrou que cinco dos 10 pesticidas mais vendidos no Brasil (são eles: Atrazina, Acefato, Carbendazim, Paraquat, Imidacloprida) não são autorizados em diversos outros países devido a seus riscos à saúde humana ou ecossistemas.

“Enquanto a União Europeia limita em 0,1 miligrama por litro a quantidade máxima de glifosfato a ser encontrada na água potável, o Brasil permite 5 mil vezes mais, de acordo com dados da academia brasileira”, ressaltou o texto publicado ontem.

Aprovação de pesticidas pelo Ministério da Agricultura

Um dos pontos criticados no projeto, a ONU alertou sobre o perigo de concentrar a fiscalização e aprovação de novos produtos no Ministério da Agricultura. Atualmente, a aprovação e o registro requerem o aval das autoridades federais de saúde, meio ambiente e agricultura: Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) e Ministério da Agricultura.

O texto retira essa atribuição da Anvisa e do Ibama, que apenas poderiam dar “apoio técnico” ao Ministério da Agricultura.

“As preocupações se referem ao fato de que as enormes capacidades financeiras do lobby da agricultura no Brasil poderiam facilmente controlar as decisões adotadas com este novo arranjo institucional”, disseram os especialistas da ONU.

“O uso de agrotóxicos afeta não somente a agricultura, mas traz claros riscos para a saúde humana e para o meio ambiente, devendo a competência de avaliação dos riscos provocados nessas áreas ser exercida pelos órgão correlatos”, criticou a Anvisa em nota publicada em junho deste ano. A agência ainda afirma que o projeto desvaloriza e desmonta todo o trabalho da agência e do PARA (Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos) que avaliam continuamente os níveis de resíduos de agrotóxicos nos alimentos consumidos pela população, inclusive coletando alimentos nas redes atacadistas e varejistas — trabalho que não é feito pelo Ministério da Agricultura.

O Ibama também enviou ao Ministério do Ambiente no final de abril uma nota técnica afirmando que as mudanças propostas são “inviáveis ou desprovidas de adequada fundamentação técnica e, até mesmo, contrariam determinação Constitucional”.

Sentido oposto do mundo

Os especialistas da ONU alertaram que, apesar de diversos países incentivarem e investirem cada vez mais na agricultura orgânica, o Brasil continua estimulando o uso de agrotóxicos por meio de incentivos fiscais.

O decreto 7.660 de dezembro de 2011, exemplifica a carta, estabeleceu total de isenção fiscal para produtos industrializados para a produção e venda de pesticidas, e o acordo 100/97 do Conselho Nacional de Política Fazendária (Confaz) reduz em 60% a base usada para calcular impostos sobre a circulação de bens e serviços para produtos utilizados na agricultura, como o agrotóxico.

“Estamos preocupados com o fato de que as múltiplas mudanças propostas às diretrizes legais e institucionais existentes para os pesticidas no Brasil enfraqueçam significativamente os mecanismos de proteção que são vitais para garantir os direitos humanos dos trabalhadores da agricultura, das comunidades vivendo em áreas onde os pesticidas são usados e da população que consome alimentos produzidos com o apoio desses produtos químicos”, concluíram os especialistas.

A Comissão Especial na Câmara aprovou o PL no dia 25 de junho, em meio à Copa e a portas fechadas. Ele segue agora para ser apreciado pelo plenário da Câmara, ainda sem data para a votação.

Fonte – Luiza Belloni, HuffPost de 12 de julho de 2018

França inclui proteção do ambiente e da biodiversidade no artigo 1º da Constituição

Chapim-azul

O ministro da Transição Ecológica, Nicolas Hulot, anunciou que a proteção do ambiente, da biodiversidade e do clima serão consagrados no primeiro artigo da Constituição francesa.

No dia 20 de junho, o ministro francês da Transição Ecológica, Nicolas Hulot, anunciou que a proteção do ambiente, da biodiversidade e do clima será consagrada no primeiro artigo da Constituição francesa.

“Esta inclusão fará da preservação do ambiente um princípio fundamental da República, junto aos princípios da igualdade de género e do secularismo”, explica o site do governo francês.

Adotada no dia 27 de junho, a alteração proposta pelo relator-geral Richard Ferrand será submetida à apreciação da Assembleia Nacional a partir do dia 10 de julho.

“[É necessário] adaptar a nossa legislação, a nossa democracia e as nossas instituições aos verdadeiros desafios do séc. XXI”, defendeu Nicolas Hulot.

“O primeiro artigo define os princípios fundamentais da República; tem um alcance normativo muito mais forte do que o artigo 34 [anteriormente proposto pelo primeiro-ministro]. O Conselho Constitucional constrói a sua jurisprudência a partir desses princípios fundamentais”, disse Richard Ferrand.

A WWF saudou esta decisão, dizendo que “permitirá que o ambiente, o clima e a biodiversidade pesem mais na balança que rege o Conselho Constitucional”.

Fonte – The UniPlanet de 03 de julho de 2018

Fazendeiros investem em agricultura orgânica após adoecerem com uso de agrotóxicos

Fazendeiros investem em agricultura orgânica após adoecerem com uso de agrotóxicosFoto: Creative Commons/eliasfalla

Para aqueles que ainda duvidam de que, além de mais saudável (tanto para o ser humano quanto para o meio ambiente), a agricultura orgânica é também mais eficiente (e, portanto, mais lucrativa) do que a tradicional – que utiliza fertilizantes artificiais, aditivos e agrotóxicos –, apresentamos  Blaine Schmaltz, fazendeiro no estado de Dakota do Norte, nos Estados Unidos.

No ano de 1993, ele estava aplicando herbicida no campo, quando parou para checar o nível do tanque de pulverização e acabou desmaiando. Após o episódio, ele foi hospitalizado por meses com dificuldades respiratórias, dores e coceiras musculares e insônia. Seu diagnóstico? Asma ocupacional! “O médico pediu para eu abandonar a agricultura e avisou que, caso eu não o fizesse, não viveria por mais 10 anos”, revela Schmaltz.

Durante a recuperação, Blaine começou a ler sobre a agricultura orgânica e começou a transição para continuar com sua profissão. Após iniciar o cultivo de trigo, grãos e linhos de maneira 100% orgânica, seus sintomas desapareceram.

Segundo o diretor da Associação de Produtores Orgânicos, Kate Mendenhall, essa é uma história comum para muitos fazendeiros que tiveram que escolher entre seu ganha pão e a saúde. Alguns passaram pela perda de membros da família antes de tomarem essa decisão. E a pergunta que não quer calar é: precisa chegar a esse ponto?

Fonte – Jéssica Miwa, The Greenest Post de 01 de julho de 2018

Como eles conseguiram resultados

sadEm casa. Débora Campos mudou radicalmente sua relação com os plásticos

Mudança de atitude ainda esbarra na intolerância dos consumidores, mas histórias mostram o caminho

Pouco a pouco a influencer de gastronomia Débora Campos, 43, autora do blog Viverdequê?, foi comprando potes de vidro e inutilizando os plásticos que tinha em casa. O processo todo levou cerca de dois anos. “Consegui eliminar principalmente na cozinha. Comecei a usar utensílios de inox, bambu e outros materiais. Comprei sacolas de tecido e uso caixas para trazer os alimentos pra casa. Às vezes não consigo em tudo, mas a gente tem que fazer nossa parte o máximo possível”, conta.

Dessa forma, Débora acredita que contribui para não gerar tanto lixo para a cidade. Em Belo Horizonte, a maior parte dos resíduos gerados pelos moradores vai para um aterro em Sabará, na região metropolitana. Por dia, são aterradas, em média, 2.120 t. Segundo a Superintendência de Limpeza Urbana (SLU), de todo esse lixo doméstico e público, 49% são resíduos orgânicos, que poderiam ser reaproveitados, e 35% são materiais recicláveis (papel, metal, plástico e vidro). Isso significa que somente 16% de todo o lixo gerado na capital deveria ir parar nos aterros.

Alguns restaurantes na cidade também já estão se preocupando com isso. No entanto, conforme os proprietários, muitas vezes as iniciativas esbarram na má vontade dos clientes. No Las Chicas Vegan, canudos deixaram de ser levados à mesa, a menos que o cliente peça. “Já atendi uma cliente que ficou brava, dizendo que tinha que ter canudo na mesa senão queimava a boca (com gelo)”, diz a chef Gabi Andrade. (Hahaha, esse pessoal. Quanto mimimi! Ai, minha boquinha é delicadinha, vai queimar com gelinho, uiuiui. Oras, peça sem gelo! Quanto draminha! Tudo para justificar ser acomodado e não mudar seus péssimos hábitos para melhorar o planeta. Típico de humanos acomodados, que em qualquer pesquisa se dizem preocupados com o planeta, mas na hora de mudar seus hábitos, nada!)

A proprietária e sócia do restaurante Topo do Mundo, Ludmila Tamietti, também já passou pela mesma situação. Em um sábado, por exemplo, mais de 200 canudos chegavam a ser usados. Com o incentivo dos movimentos contra os plásticos, a proprietária estima uma redução de mais de 50% no uso. Ela diz que, quando possível, oferece o canudo de papel. Antes o restaurante era localizado na serra da Moeda, unidade de conservação ambiental. (Canudo de papel, para não derreter, tem que ser laminado internamente com plástico, daí a solução é pior do que o problema inicial, porque este papel junto com o plástico não pode ser reciclado nem com plástico nem com papel. Piorou, e muito!)

Segundo Ludmila, tem cliente que questiona por ter que beber direto no copo e acha que é “economia porca” do estabelecimento. “Nossa máquina de lavar também esteriliza. Falta conscientização. O consumidor não percebeu que pequenas atitudes têm um impacto grande. Muitas vezes é o filho que convence o pai”, revela.

Uma vida com menos ou quase nenhum lixo plástico não é utopia, como mostra a designer gráfica florianopolitana Cristal Muniz, 26, autora do blog Um Ano Sem Lixo.

Em resumo, ela conta que parou de usar descartáveis, faz seus próprios cosméticos e produtos de limpeza e compra comida a granel levando embalagens de pano ou vidro. “Resumidamente, eu passei a aplicar a regra dos cinco erres. Recusar aquilo que não precisava (brindes e comprovantes de banco); reduzir aquilo que eu precisava; reutilizar em vez de usar descartáveis (como absorventes, barbeador, copos, guardanapos); reciclar aquilo que eu não consigo reutilizar, recusar ou reduzir e compostar o lixo orgânico”, conta. No próximo mês, Cristal lançará um livro sobre o estilo de vida lixo zero e um canal no YouTube.

Minientrevista

Isabel Domingos

Professora

Universidade de Lisboa

Pelo volume de plástico produzido e usado hoje, a senhora acredita que reciclagem total é utopia?

Sim. Porque sabemos que, quando existe reciclagem (e há muitos países onde tal não ocorre), ela é muito pouco eficiente. A solução desse problema global não pode, de forma alguma, depender dessa alternativa. Além disso, o plástico é um mundo de diversidade, que tem, igualmente, impactos diversos.

Quais possíveis soluções você vislumbra para esse grande problema?

Necessariamente, a redução imediata. Paralelamente, deviam concentrar-se todos os esforços em encontrar soluções para reduzir a quantidade produzida e investir em pesquisas para desenvolver alternativas ao uso do plástico.

Como mudar esse cenário diante de uma indústria do plástico tão forte?

Há setores em que pode não existir substituto para o plástico e tem que se investir no desenvolvimento de novos materiais que possam substituí-lo. A indústria tem tido enorme preocupação, mas não existe obrigação. Os decisores políticos, de todo o mundo, têm que adotar essa como uma prioridade. Não há outra solução. Continuar não é aceitável nem possível.

Quais impactos econômicos isso poderia gerar? É economicamente viável?

Claro que iria gerar impactos econômicos elevados! Um sistema de produção dependente do plástico não poderia sobreviver se amanhã fosse proibida sua utilização, e, do ponto de vista social, seria calamitoso. Não seria economicamente viável acabar com o plástico amanhã, mas tem que se começar imediatamente a adotar medidas eficientes para reduzir. Investir no desenvolvimento de alternativas ao seu uso e dar um tempo para a indústria se adaptar à mudança. Mas é obrigatório começar a mudança.

Fonte – Litza Mattos, O Tempo de 17 de junho de 2018

A solução nunca será a reciclagem e, sim, a não geração do resíduo! Traduzindo: não use, não use, não use! Troque sacola plástica de uso único por sacola retornável, portanto, permanente, que pode ser utilizada por décadas. Não passe o vexame de usar canudo de mamona, não use, simplesmente, não use. Escolha produtos com embalagem de vidro retornável, de alumínio, que é reciclado em quase sua totalidade, escolha produtos sem sobreembalagem… Pequenas mudanças que no final, farão toda a diferença globalmente.

Sociedade precisa aceitar e absorver o combate ao desmatamento por meio de ações concretas

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Em razão da extensão e da gravidade do problema, “o combate ao desmatamento tem de ser uma pauta que precisa ser priorizada por ações dos governos nos seus diversos níveis, mas ela precisa mais ainda ser aceita e absorvida pela sociedade”. É o que defende o agrônomo Claudio Almeida. Para exemplificar o que deve ser feito, diz que empresas, consumidores e produtores precisam entender e participar do processo “através do rastreamento da origem dos produtos, de maneira que produtos que tenham origem em áreas de desmatamento ilegal não consigam ter acesso ao mercado”.

No que tange aos governos, eles “precisam mostrar que o combate ao desmatamento terá prioridade dentro de suas ações e que haverá recursos humanos e financeiros”. Em entrevista concedida por e-mail à IHU On-LineAlmeida alerta que “se não houver uma sinalização política clara neste sentido, mesmo com boas políticas e planos, os resultados podem não ter o retorno esperado”.

O agrônomo ressalta “a importância do sistema de monitoramento para o combate ao desmatamento, pois somente com a existência de uma base de dados sólida, confiável, pública e com acesso livre a toda a sociedade é possível conhecer a extensão e a localização do desmatamento, e assim estudar, planejar e implementar o combate ao desmatamento”. O mais recente monitoramento por satélite realizado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – Inpe revelou que, em 2017, o desmatamento na Amazônia e no Cerrado ainda se encontra em patamares na casa dos milhares de km2 anuais: respectivamente 6.947 km2 e 7.408 km2.

“Há uma queda dos valores anuais do desmatamento, com relação a 2010. Contudo, é importante ressaltar que o valor encontrado para a Amazônia ainda é quase o dobro da meta estabelecida para ser alcançada até 2020, que é de 3.587 km2”, avalia. Em relação ao bioma Cerrado, “ainda que os valores de 2016 e 2017, respectivamente 6.777 km2 e 7.408 km2, estejam abaixo da meta estabelecida pelo governo brasileiro, que é de 9.420 km2, ainda são valores bastantes significativos, o que aponta para uma necessidade de continuar o combate ao desmatamento”. As causas do desmatamento nos dois biomas estão relacionadas principalmente à expansão da fronteira agrícola brasileira.

Claudio Almeida é graduado em Agronomia pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro – UFRRJ, mestre em Sensoriamento Remoto pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – Inpe e doutor em Geomática pela Université de Montpellier – França. É tecnologista sênior do Inpe. Foi chefe do Centro Regional da Amazônia entre janeiro de 2009 e dezembro de 2012. Atua no monitoramento da floresta Amazônica e transferência de tecnologia de monitoramento florestal para países tropicais.

IHU On-Line – O último monitoramento por satélite feito pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – Inpe na Amazônia e no Cerrado revela quais dados sobre o desmatamento nessas regiões?

Claudio Almeida – O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – Inpe/MCTICrealiza o monitoramento por satélite do desmatamento por corte raso na Amazônia Legal desde 1988, com uma área mínima mapeada de 6,25 hectares. Para o Cerrado, o monitoramento remonta ao ano 2000, sendo produzido de maneira bienal até 2012 e anual a partir de 2013. Uma olhada nos gráficos contendo as taxas anuais de desmatamento mostra uma queda nos valores a partir de 2004, tanto para a Amazôniacomo para o Cerrado, conforme ilustram as figuras a seguir:

Taxas anuais de desmatamento na Amazônia Legal (Foto: Inpe)
Incrementos anuais de desmatamento no Cerrado (Foto: Inpe)

Enquanto na Amazônia Legal o desmatamento é concentrado em principalmente três estados (Mato GrossoPará e Rondônia), no Cerrado há uma dispersão em vários estados, com maiores valores para Minas GeraisGoiásMato GrossoTocantinsMaranhão e Bahia.

Seguindo uma política de dados abertos, o Inpe, de maneira pioneira, desde 2004 disponibiliza os resultados de seus projetos de monitoramento através de sua web page nos seguintes endereços: Amazônia (clique aqui) e Cerrado (clique aqui).

Os valores ainda se encontram em patamares na casa dos milhares de km2 anuais, sendo que, para o ano de 2017, foram 6.947 km2 para a Amazônia Legal e 7.408 km2 para o bioma Cerrado.

IHU On-Line – O saldo do desmatamento nesses biomas é positivo ou negativo, tendo em vista a comparação entre o monitoramento atual com os realizados a partir de 2010?

Claudio Almeida – Há uma queda dos valores anuais do desmatamento, com relação a 2010. Contudo, é importante ressaltar que o valor encontrado para a Amazônia ainda é quase o dobro da meta estabelecida para ser alcançada até 2020, que é de 3.587 km2, logo, ainda há um duro trabalho à frente para reduzir esta taxa. Quanto aos valores apontados para o bioma Cerrado, ainda que os valores de 2016 e 2017, respectivamente 6.777 km2 e 7.408 km2, estejam abaixo da meta estabelecida pelo governo brasileiro, que é de 9.420 km2, ainda são valores bastantes significativos, o que aponta para uma necessidade de continuar o combate ao desmatamento.

IHU On-Line – Qual a situação do desmatamento no Cerrado e quais as causas?

Claudio Almeida – A preocupação com o desmatamento no Cerrado deve ser observada do ponto de vista comparativo. Enquanto a Amazônia, que tem uma extensão territorial muito maior que a do Cerrado, apresenta pouco mais de 780 mil km2, o Cerrado já ultrapassou 1 milhão de km2 de perda de vegetação nativa. Logo, comparativamente, o desmatamento no Cerrado hoje é mais impactante do que na Amazônia.

“Comparativamente, o desmatamento no Cerrado hoje é mais impactante do que na Amazônia” Claudio Almeida

Quanto às causas do desmatamento, em ambos os biomas, estão principalmente ligadas à expansão da fronteira agrícola brasileira. O Projeto TerraClass, desenvolvido em parceria entre Inpe e Embrapa [Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária], tem mapeado o uso da terra nas porções desmatadas da Amazônia e do Cerrado, e há um claro predomínio do uso dessas áreas desmatadas em atividades como pecuária e agricultura. Para um claro entendimento desta ocupação, é preciso continuar monitorando esse uso da terra, para que possamos acompanhar como estão sendo utilizadas estas áreas, inclusive com análises que permitam identificar se existem processos de intensificação do uso nas áreas já desmatadas, o que permite uma maior produção dentro da mesma área.

Para a Amazônia, foram divulgados dados de uso da terra para os anos de 2004, 2008, 2010, 2012 e 2014, em breve serão divulgados dados históricos de 1991 e 2000 e, no momento, está em negociação a execução de novos mapeamentos que, além da participação do Inpe e da Embrapa, contará também com participação do Ibama [Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis]para os anos de 2016 e 2018.

Para o Cerrado, o TerraClass já divulgou dados de 2013, e recentemente foi aprovado um projeto com recursos do Banco Mundial para o mapeamento de 2016, 2018 e 2020. Agora é muito importante fazer gestão junto ao governo brasileiro de maneira a garantir recursos para que o TerraClass possa continuar fazendo o mapeamento do uso da terra, não somente para estes dois biomas, mas para todo Brasil e de maneira continuada.

IHU On-Line – Por quais razões a agricultura tem avançado no Cerrado, especialmente no Maranhão, no Tocantins, no Piauí e na Bahia? O avanço do agronegócio é a principal causa do desmatamento no bioma ou há outras razões?

Claudio Almeida – Como apontado pelo TerraClass Cerrado, as áreas convertidas de vegetação nativa estão sendo usadas principalmente em pecuária (68%) e agricultura (27%). Essas conversões estão ligadas à expansão da fronteira agrícola brasileira. O Brasil é um grande produtor de grãos, e as terras dos estados do MaranhãoTocantinsPiauí e Bahia, conhecidas pelo acrônimo Matopiba, são muito próprias ao tipo de agricultura voltada para a produção de grãos em larga escala. Assim o setor agrícola vem crescendo fortemente nestas regiões. Por exemplo, a produção de grãos no Brasil era em torno de 60 milhões de toneladas/ano no início dos anos 1990 e atualmente já ultrapassa a barreira dos 120 milhões de toneladas/ano. Esse crescimento se dá de duas maneiras: pela adoção de novas tecnologias que aumentam a produtividade e também pela inclusão de novas áreas para produção. O grande desafio que se apresenta ao setor agrícola brasileiro é continuar aumentando sua produção, mas sem expandir a área ocupada.

“O monitoramento contínuo de todos os biomas brasileiros permite à sociedade observar e conhecer as mudanças que eles sofrem” Claudio Almeida

IHU On-Line – Como os dados do monitoramento por satélite podem contribuir para enfrentar o desmatamento no Cerrado e na Amazônia?

Claudio Almeida – Monitorar alguma coisa significa observar o estado desse objeto durante um intervalo de tempo visando a identificar as alterações do mesmo durante esse período. O monitoramento contínuo de todos os biomas brasileiros permite à sociedade observar e conhecer as mudanças que eles sofrem, por exemplo, quanto à supressão de vegetação, à localização dessa supressão e à maneira como é utilizada a área depois da supressão da vegetação.

Todas estas informações são oferecidas à sociedade através do monitoramento dos biomas realizado pelo Inpe. Os dados sobre o estudo do meio ambiente pela comunidade científica são fundamentais para se compreender causas e efeitos das alterações nos biomas e também para que os governos, em suas várias instâncias, possam planejar e acompanhar o resultado de políticas públicas, entre elas o combate ao desmatamento. Por exemplo, todas as ações do PPCDAm [Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal] e do PPCerrado [Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento e das Queimadas no Cerrado], que são planos de combate ao desmatamento na Amazônia e no Cerrado,são pautadas pelos resultados dos sistemas de monitoramento do Inpe, que permitem quantificar e localizar o desmatamento em tempo quase real.

IHU On-Line – Os dados de monitoramento por satélite feitos pelo Inpe têm sido utilizados pelo Ministério do Meio Ambiente e pelo Ibama ou governos estaduais para pensar alternativas ao desmatamento nesses biomas?

Claudio Almeida – Sim. Os dados do monitoramento do Inpe são a base sobre a qual as ações do PPCDAm e do PPCerrado são planejadas e executadas. Por exemplo, as ações de fiscalização empreendidas a campo pelo Ibama são planejadas e executadas a partir dos dados do projeto Deter [Detecção de Desmatamento em Tempo Real], que monitora diariamente a Amazônia e o Cerrado, apontando os alertas de desmatamento e degradação da vegetação nesses biomas. Os dados do Deter são consumidos de maneira automática pelo Ibama, ou seja, à medida que o Inpe produz novos alertas de desmatamento e degradação, eles são automaticamente incorporados ao banco de dados do Ibama, que assim acompanha em tempo real e pode planejar e executar ações de fiscalização. Esses dados também ficam disponíveis aos governos estaduais e municipais, bem como a toda a sociedade civil.

IHU On-Line – Como o Brasil tem tratado a questão do desmatamento nesses biomas? Que tipo de iniciativas são propostas para que o desmatamento seja reduzido?

Claudio Almeida – O combate ao desmatamento em uma área do tamanho da Amazônia e do Cerrado é uma atividade complexa e por vezes muito cara devido à extensão territorial e à complexidade, pois esses dois biomas juntos representam cerca de 73% do território brasileiro. Mas o estado brasileiro, através de diversos órgãos, vem atuando no combate ao desmatamento. O PPCDAm e o PPCerrado, por exemplo, são planos que reúnem 13 ministérios, em que cada um está responsável por ações específicas que têm por finalidade a queda do desmatamento. O PPCDAm e o PPCerrado estão estruturados em quatro eixos: Ordenamento Fundiário e TerritorialMonitoramento e Controle; Fomento às Atividades Produtivas Sustentáveis; e Instrumentos Normativos e Econômicos. Em cada um desses eixos, são propostas várias ações, como, por exemplo, o projeto Deter, que o Inpe criou e vem executando desde 2004, e que faz o monitoramento em tempo “quase real”.

Da mesma forma, existem muitas outras iniciativas visando ao combate ao desmatamento, como a do Serviço Florestal Brasileiro do MMA [Ministério do Meio Ambiente], que está implementando o Cadastro Ambiental Rural – CAR, dentro dos quatro eixos do PPCDAm e do PPCerrado. Outra importante ação em desenvolvimento pelo Inpe é o início do monitoramento do desmatamento para os outros biomas (Caatinga, Mata Atlântica, Pampa e Pantanal), e com essa iniciativa haverá dados sobre o desmatamento em todo o território nacional.

“É preciso que empresas, consumidores e produtores entendam e participem desse processo através do rastreamento da origem dos produtos, de maneira que produtos que tenham origem em áreas de desmatamento ilegal não consigam ter acesso ao mercado” Claudio Almeida

IHU On-Line – Que tipo de política seria necessária para barrar o desmatamento no Cerrado?

Claudio Almeida – O combate ao desmatamento tem de ser uma pauta que precisa ser priorizada por ações dos governos nos seus diversos níveis, mas ela precisa mais ainda ser aceita e absorvida pela sociedade. Por exemplo, é preciso que empresas, consumidores e produtores entendam e participem desse processo através do rastreamento da origem dos produtos, de maneira que produtos que tenham origem em áreas de desmatamento ilegal não consigam ter acesso ao mercado. Além disso, os governos precisam mostrar que o combate ao desmatamento terá prioridade dentro de suas ações e que haverá recursos humanos e financeiros. Se não houver uma sinalização política clara neste sentido, mesmo com boas políticas e planos, os resultados podem não ter o retorno esperado.

IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?

Claudio Almeida – Gostaria de ressaltar a importância do sistema de monitoramento para o combate ao desmatamento, pois somente com a existência de uma base de dados sólida, confiável, pública e com acesso livre a toda a sociedade é possível conhecer a extensão e a localização do desmatamento, e assim estudar, planejar e implementar o combate ao desmatamento.

Fonte – Patricia Fachin, Edição Vitor Necchi, IHU de 06 de julho de 2018

WWF-Brasil lança revista com artigos sobre o Pantanal

A revista é uma oportunidade para que diversos públicos possam conhecer a beleza e a riqueza da maior área úmida do planeta. Foto: André Dib/WWF-Brasil.

Muitas espécies da fauna pantaneira contribuem para o equilíbrio dos ecossistemas, com seu comportamento curioso e muitas vezes desconhecido. As particularidades dos animais e também das plantas — comuns ou recém-descobertos, nativos ou “naturalizados” — estão na revista Ciência Pantanal, lançada pela organização WWF-Brasil, que reúne artigos escritos por pesquisadores de todo o Brasil.

A revista é uma oportunidade para que diversos públicos possam conhecer a beleza e a riqueza da maior área úmida do planeta. Além disso, a publicação trata também dos esforços para a conservação das cabeceiras dos rios pantaneiros e ressalta a importância dos sistemas de drenagem em funcionamento na planície, para entender os possíveis impactos das atividades humanas. “Todos esses temas são detalhados por especialistas, ilustrados com fotos e gráficos, em linguagem acessível, para informação dos interessados na conservação da natureza e da cultura pantaneira”, diz o coordenador do Programa Cerrado Pantanal do WWF-Brasil, Júlio César Sampaio.

Fontes – Assessoria de Comunicação do WWF-Brasil / Sabrina Rodrigues, O Eco de 04 de julho de 2018