O clima na era dos humanos

Pode a mente humana dominar o que a mente humana criou?
Paul Valéry

O planeta Terra foi formado há cerca 4,5 bilhões de anos. Os primeiros seres vivos (estromatólitos) datam de 3,8 bilhões de anos. Esses primeiros seres vivos eram bem simples. Centenas de milhões de anos depois surgiram os organismos invertebrados. As esponjas foram os primeiros animais invertebrados a surgir na Terra, há 650 milhões de anos e há 520 milhões de anos surgiram os primeiros vertebrados. As grandes variações climáticas dificultavam a sobrevivência dos seres vivos.

65,5 milhões de anos, época que marca o fim do período Cretáceo (K) e o início do Paleógeno (Pg) ocorreu uma grande extinção em massa da vida na Terra. A extinção “K-Pg” é muito conhecida devido ao desaparecimento dos dinossauros, mas vitimou também 75% das espécies. Isto ocorreu devido ao impacto de um asteroide com a Terra, o que ficou evidente com a descoberta de uma enorme cratera soterrada em Chicxulub, no Estado de Iucatã, México, medindo cerca de 180 quilômetros de diâmetro. O asteroide que caiu no México tinha mais de 10 quilômetros de diâmetro e o impacto dele com a Terra liberou energia equivalente a da explosão de cinco bilhões de bombas atômicas como as usadas sobre Hiroshima. A mudança abrupta do clima global levou à extinção total dos dinossauros e de grande parte da vida na Terra.

O período mais quente dos últimos 500 milhões de anos aconteceu no chamado “Máximo Térmico do Paleoceno-Eoceno” (MTPE ou PETM em inglês). Em apenas 20 mil anos, a temperatura média terrestre aumentou em 6º C, com um correspondente aumento do nível do mar, bem como um aquecimento dos oceanos. As concentrações de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera aumentaram significativamente, provocando escassez de oxigênio nas profundezas oceânicas, provocando grandes extinções de vida marinha. Durante o MTPE foram liberadas nos oceanos e na atmosfera entre 1.500 e 2.000 gigatoneladas de carbono num lapso de tempo de mil anos, o que é equiparável às atuais emissões antrópicas.

A partir do Máximo Térmico do Paleoceno-Eoceno (MTPE) as temperaturas começaram a cair continuamente até ficar abaixo do nível atual. O gênero Homo, que inclui os humanos modernos, surgiu a cerca de 2,5 milhões de anos, evoluindo de ancestrais australopitecíneos e o surgimento do Homo habilis. Nota-se que o gênero Homo surgiu e evoluiu em um clima com temperaturas iguais ou menores do que as atuais. Nestes 2 a 3 milhões de anos houve diversos períodos glaciais e interglaciais que variavam entre 10 e 15 mil anos, sendo que, na maioria do tempo, o clima oscilava entre zero e cerca de 4º C para baixo. Mas também houve pequenos períodos em que a temperatura ficou acima da média do século XX.

O Homo Sapiens surgiu na África há cerca de 200 mil anos, se espalhando pelo Planeta por volta de 90 mil anos atrás. Enquanto o Homo Sapiens ainda estava na África tropical, ocorreu o período Eemiano, entre 130.000 e 110.000 anos, sendo o último período interglacial antes do Holoceno, no qual o clima era mais quente do que o de hoje e o nível do mar estava entre 5 a 6 metros mais alto do que o nível atual.

Entre 350 mil e 20 mil anos atrás, também habitou a Terra o homem de Neandertal que viveu na Europa e partes do oeste da Ásia. Eles coexistiram no tempo com o Homo sapiens, mas com poucos contatos, embora os neandertais compartilhem 99,7 por cento de seu DNA com os humanos modernos, apesar de apresentarem diferenças morfológicas muito específicas. Os Neandertais foram extintos no último período glacial que ocorreu após o período Eemiano.

O último período glacial, também conhecido como Idade do Gelo, ocorreu durante a última parte do Pleistoceno, de aproximadamente 110.000 a 10.000 atrás. Esta glaciação foi a última acontecida na Terra, marca fim do período Pleistoceno e foi quando o aumento do gelo permitiu a travessia (Estreito de Bering) do ser humano da Ásia para a América do Norte. Um evento que quase exterminou os seres humanos foi a “catástrofe de Toba”, que ocorreu de 70 mil a 80 mil anos atrás, em decorrência de um evento vulcânico no Lago Toba, em Sumatra, na Indonésia, que pode ter reduzido a população humana mundial a algo em torno de 10 mil pessoas. Foi no período mais frio do último período glacial que os Neandertais foram extintos.

Mas o clima mudou com o fim do Pleistoceno e o início do Holoceno. A temperatura subiu e se manteve surpreendentemente estável nos últimos 10 mil anos, com uma variação de 0,5º C para cima ou para baixo da média do século XX. Foi nesse período que houve o grande avanço da história humana. A estabilidade climática foi fundamental para o sucesso da Revolução Agrícola e o avanço da pecuária que possibilitou a vida sedentária, o surgimento das cidades e o avanço da escrita e da civilização.

Segundo Jared Diamond, no livro “Armas, Germes e Aço” a cultura floresceu no período Neolítico, cerca de 8.500 a.C., iniciando-se com a domesticação de plantas e animais, em função da alta fertilidade do solo e do ecossistema do Crescente Fértil(região da Mesopotâmia e Oriente Médio). Excedente de alimentos, aumento populacional, sedentarismo, mais gente para pensar, inovações tecnológicas, exploração dos metais, fabricação de armas, excedente de produtos agrícolas e de animais, aumento das trocas (escambo), surgimento do comércio, invenção da roda e da escrita, formação de aldeias e cidades, organização política, tudo isso, permitiu um grande avanço do tamanho da população e da melhoria das condições de vida.

Assim, é necessário reforçar que o Holoceno (últimos 10 mil anos) foi um período de grande estabilidade climática e que manteve temperaturas abaixo do período Eemiano (entre 130.000 e 110.000 anos) e acima do último período glacial (entre 110.000 a 10.000 atrás). Porém, esse período excepcional, em que o clima ajudou o desenvolvimento humano, está chegando ao fim, exatamente pelo poder exponencial das atividades antrópicas.

O gráfico abaixo mostra que a concentração de CO2 na atmosfera variou de 185 a 280 partes por milhão (ppm) nos últimos 800 mil anos, antes da Revolução Industrial e Energética. A variação de CO2 na atmosfera é a principal responsável pela mudança da temperatura entre os períodos mais quentes e os períodos glaciais.

Após o início do uso generalizado dos combustíveis fósseis (carvão mineral,petróleo e gás) a concentração de CO2 na atmosfera subiu para 400 ppm em 2015, acelerando o aquecimento da atmosfera. Isto quer dizer que o clima na Terra deve voltar para o nível do período Eemiano que estava pelo menos 2º C acima da média do século XX e o nível do mar estava entre 5 e 6 metros acima do nível atual.

Com a crescente emissão de gases de efeito estufa (GEE), o clima na Terra caminha para um nível sem precedentes nos últimos 3 milhões de anos. Se as emissões de GEE continuarem a temperatura do Planeta pode chegar a 4,5º C acima da média do século XX (cerca de 5º C acima da média do Holoceno) até 2100. Isto levaria à elevação do nível dos oceanos e à inundação de amplas áreas costeiras, inclusive de grandes cidades ao redor do mundo, afetando diretamente a vida de pelo menos 500 milhões de pessoas.

O gráfico mostra que existe uma relação muito forte entre as emissões de carbono e o aumento da temperatura global. Entre 1880 e 1900 a temperatura estava 0,2ºC abaixo da média da temperatura do século XX. Entre 1901 e 1950 a média da temperatura ficou 0,15ºC abaixo da média do século passado e entre 1951 a 2000 ficou 0,15ºC acima da média. Portanto, houve um aumento de temperatura, mas que alguns céticos consideravam como efeito natural.

Porém, o ano de 1998 foi o mais quente do século XX e ficou 0,63ºC acima da média secular. E o que estava ruim, piorou muito no século XXI, pois a temperatura em 2015 ficou 0,90ºC acima da média do século XX, um acréscimo de 0,27ºC em apenas 17 anos. Para os incrédulos, e surpreendentemente, os três primeiros meses de 2016 tiveram um aumento climático extremamente elevado, não antecipado por ninguém e nenhum modelo estatístico. O aumento da temperatura em relação à média do século XX foi de 1,04ºC em janeiro, de 1,21ºC em fevereiro e de 1,22ºC em março de 2016, segundo dados da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA). Ou seja, em relação ao final do século XIX, o aumento da temperatura no primeiro trimestre de 2016 ficou quase 1,5ºC mais elevada, o que é a meta de limite máximo de aumento da temperatura proposta pelo Acordo de Paris para o ano de 2100. No primeiro semestre de 2016 a temperatura ficou 1,05ºC. acima da média do século XX. É a primeira vez que se registra um semestre com temperatura acima de 1ºC. Tudo isto acendeu o alerta e os ambientalistas estão falando em emergência climática.


Mesmo que o Acordo de Paris, da COP-21, seja colocado em prática, a temperatura pode chegar a 3,5ºC acima da média do século XX e 4ºC acima da média do Holoceno. As consequências seriam desastrosas de qualquer maneira. No caso de a temperatura ficar em 2ºC acima da média do século XX até 2100 já seria problemático. E o pior é que o aumento deve continuar no século XXII. Isto quer dizer que o futuro da civilização está em sério perigo.

Em artigo publicado mês passado no periódico Atmospheric Chemistry and Physics Discussion, o cientista James Hansen e colegas (2016) confirmam que o aumento da temperatura em 2ºC pode ser extremamente perigoso, pois pode gerar super-furacões e elevar o nível do mar, no longo prazo, em vários metros, ameaçando as áreas costeiras em geral, especialmente as mais povoadas.

Ou seja, desde o surgimento do gênero Homo, há cerca de 2,5 milhões de anos, o clima nunca ficou tão quente como se projeta para o final do século XXI. Será pior no século XXII. Na maior parte de sua história, o Homo Sapiens viveu em temperaturas menores do que as atuais. O clima atual é uma situação totalmente atípica e que a humanidade nunca viveu desde que desceu das árvores e passou a derrubá-las. Uma súbita mudança climática pode levar a civilização ao colapso.

Para mudar este quadro, libertar-se dos combustíveis fósseis é essencial. Porém, está cada vez mais evidente que não basta mudar a matriz energética, descarbonizar a economia e promover uma maquiagem verde no processo de produção e consumo. É preciso, urgentemente, colocar na ordem do dia o debate sobre os meios de se promover o decrescimento das atividades antrópicas. A meta de redução da pobreza deve ser alcançada pelo decrescimento das desigualdades sociais e não pelo crescimento econômico desenfreado.

Como afirmei em outro artigo: a economia depende da ecologia e não o contrário. Os desastres, geralmente, não são naturais, já que o maior desastre em curso é o aquecimento global provocado pelas exponenciais emissões de gases de efeito estufa. Não é a natureza que está ameaçando o ser humano. O ser humano está se autodestruindo ao aquecer a temperatura do Planeta. E o pior é que muitas espécies inocentes podem desaparecer no Antropoceno devido à irresponsabilidade e ganância humanas.

Referências

Fonte – José Eustáquio Diniz Alves, Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas, EcoDebate de 27 de julho de 2016

VIAPAR informa – Desvio na BR 376

A partir  de  segunda-feira,  o tráfego da BR 376,  perímetro urbano do município de Castelo Branco, será desviado para uma pista lateral, sentido Maringá-Paranavaí.

O desvio permanecerá até o final do ano.

As mudanças se fazem necessárias devido as obras de duplicação.

Fonte – Assessoria de comunicação da VIAPAR de 25 de agosto de 2016

Brasil, paraíso dos agrotóxicos

O País concentra 20% do mercado mundial, um cenário que poderia ser revisto se houvesse vontade

A colheita brasileira na safra 2015/16 sofreu várias traulitadas climáticas. Diversas regiões e culturas tiveram queda de produção em longos períodos de seca durante a vegetação, altos índices pluviométricos na colheita, e recentes episódios de geadas em zonas cafeeiras.

Com isso, a produção de grãos, prevista em meados do ano passado para registrar novo recorde (210 milhões de toneladas), segundo a última estimativa da Conab, deverá cair 10%, não passando dos 190 milhões, sendo as maiores quedas em feijão (22%), milho (17%) e soja (7%).

A cultura do café, no sul de Minas Gerais, sofreu geadas nos últimos meses, de menor impacto na colheita em fase final, mas capaz de prejudicar as duas próximas safras.

Em conversa com agricultores do sudoeste paulista, revelo que em 2015 a indústria de agrotóxicos, “mas pode-me-chamar-de-produtos-para-defesa-vegetal”, vendeu no Brasil US$ 9,6 bilhões, entre herbicidas, fungicidas e inseticidas. Segundo seu sindicato, queda de 21,5% em relação a 2014. Justificam o fato pelo câmbio, contrabando e atrasos nos recursos do crédito rural.

Acreditem somente no primeiro fator. Os demais foram mínimos. Tomando-se os períodos do ano mais expressivos na compra de agroquímicos, em 2015 o dólar registrou uma apreciação de 45% sobre o real em relação a 2014. O dobro da queda ocorrida no faturamento da indústria. Vale dizer, em reais, a moeda que sai do bolso dos agricultores, a indústria faturou 28 bilhões em 2014 e 34 bilhões no ano passado. Cresceu.

Continua-se, pois, aplicando monstruosidades de agrotóxicos nas lavouras brasileiras, o que perdurará enquanto predominarem o brutal poder de divulgação da indústria e os temores e comodismo de nossos agricultores.

O mercado mundial de pesticidas é estimado em US$ 45 bilhões. Mesmo com a queda, o Brasil ainda representa fatia de mais de 20%. Perto de um bilhão de litros é usado em nossas lavouras, 1/3 deles para a soja.

Tenho insistido que não precisaria ser assim, conceito que levo em todas andanças. Mais uma vez: é possível manter e mesmo fazer crescer a produção, diminuindo a dependência de agrotóxicos através de técnicas agrícolas milenares.

Nem toco aqui nos comprovados malefícios aos ecossistemas e saúde humana, sobretudo em países emergentes e pobres, onde vige sangrento vale-tudo. Deixo-os a julgamento em códigos criminais.

Refiro-me aos sensíveis bolsos plantadores, que poderiam ser poupados conhecessem a infinidade de tecnologias produzidas a partir de matérias orgânicas e manejos redutores do uso excessivo de agrotóxicos e fertilizantes químicos.

Mas empaca. Sim, razões e conceitos empacam nos hábitos e costumes dos agricultores, massificados pelo assédio do exército de agrônomos dos fabricantes, que os fazem temer perdas na lavoura.

Mais ou menos como o caboclo que depois de matar a cobra pisou tanto em sua cabeça, furou a sola do sapato, e absorveu o veneno.

O professor Jules Pretty, da Universidade de Essex, no Reino Unido, é uma boa referência para o assunto. Ele e equipe realizaram trabalho de pesquisa em 24 países da África e da Ásia comprovando manutenção dos níveis de produtividade com redução no uso de agrotóxicos, através de Manejo Integrado de Pragas e Doenças (IPM, na sigla em inglês), rotação de culturas, armadilhas biológicas.

Daí ter-me impressionado a importância que o pesquisador, em seus livros e artigos, dá à educação e ao efeito demonstração obtido no que ele chama de “Farmer Field Schools”, pulverização de campos experimentais para que agricultores possam comprovar, fora de suas lavouras, a efetividade desses produtos e técnicas poupadores.

Tivesse o Brasil governo legítimo voltado ao desenvolvimento social e iniciativa privada menos rentista, quantos assentamentos e núcleos de agricultura familiar poderiam se transformar em “Campos de Ensino de Agricultores”?

Nem pensar. Basta ver que o silábico governador de São Paulo propõe vender as poucas fazendas experimentais pertencentes a tradicionais instituições de pesquisas.

Fora todos! E fica proibido silabar e usar mesóclise.

Fonte – Rui Daher, CartaCapital de 16 de agosto de 2016

O fracking é só uma ilusão

Em um movimento que ainda não foi percebido na maior parte do Brasil, mas que se alastra de forma organizada na região sul, a rejeição à tecnologia conhecida como fraturamento hidráulico (ou fracking), para extrair gás natural em terra, segue ganhando musculatura, conseguindo que várias municipalidades — principalmente no Paraná — tenham proibido esse tipo de atividade.

O movimento é completamente atípico, olhando para a atual composição de forças políticas que atuam no Brasil. Afinal, congrega no mesmo grupo lideranças rurais (que habitualmente se agrupam à direita do espectro partidário) e ambientalistas (que na totalidade ocupam a faixa esquerda). Além disso, tem um expressivo apoio da Cáritas, uma organização católica quase sempre também identificada com a esquerda da Igreja e de forte influência principalmente dos cleros da Holanda e da Alemanha.

A Cáritas já existe no Brasil há quase 60 anos e tem muita tradição em iniciativas comunitárias, como essa que ocorre contra a tecnologia do fracking. Trata-se de uma organização vinculada diretamente à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

Todos esses grupos convivem dentro de uma entidade chamada Coesus — Coalizão Não Fracking Brasil pelo Clima, Água e Vida. O denominador comum de todos eles é a luta contra o fracking, que é visto como algo que atenta contra a vida. Na visão das lideranças da Coesus, para extrair o gás natural em terra, utilizando o fracking, é necessário injetar no subsolo volumes enormes de água, milhões e milhões de litros, a altíssima pressão, misturados com areia e um coquetel de mais de 720 substâncias químicas, muitas delas consideradas como prejudiciais à saúde humana e dos animais.

Parte dos resíduos permanece no subsolo contaminando os aquíferos. A parte que retorna à superfície contaminaria os rios e nascentes, o solo e o ar, além de provocar câncer nas pessoas e animais. O produto dessa agressão à natureza seria o gás natural. Vale a pena tanto sacrifício? Na opinião da Coesus, não. Além disso, onde o fraturamento hidráulico é aplicado para extrair o gás, o solo torna-se infértil para a agricultura e são registrados severos problemas de saúde, como má formação congênita, esterilidade nas mulheres e homens, abortos e doenças crônicas respiratórias. Isso une fortemente a Igreja, os ruralistas e os ambientalistas, em um movimento organizado e eficiente, que ainda não é conhecido na maior parte do País.

Agora, por exemplo, um encontro reuniu em Curitiba representantes do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul com membros da Cáritas Brasileira, quando foi feito um balanço a respeito do trabalho da Coesus e os avanços já conseguidos em vários municípios do Sul do País. Também foram debatidas as ações e estratégias para conter as mudanças climáticas e a sua incidência sobre a agricultura familiar e a economia popular e solidária. Nesse encontro, Reginaldo Urbano Argentino, presidente da Cáritas do Paraná, definiu com clareza o objetivo do movimento: “Ajudar a erradicar tudo o que atenta contra a Vida existente em nosso planeta, a nossa Casa Comum como define a ‘Laudato Si’, é o caminho para construir uma verdadeira sociedade igualitária e democrática e um mundo sustentável”.

O envolvimento de lideranças religiosas na Coesus não se limita à católica Cáritas. Um dos coordenadores da reunião de Curitiba foi o pastor Werner Fuchs, da Rede Evangélica Paranaense de Ação Social (Repas). Na realidade, as lideranças do setor energético não têm a menor ideia a respeito da eficiente costura política e comunitária que está sendo lentamente feito por todas as organizações que trabalham dentro da Coesus. Não se pode adivinhar o que vai acontecer, mas é quase certo que, por absoluta arrogância e miopia política dessas lideranças, quando acordarem para o problema já não haverá mais condições para correr atrás daquilo que vão considerar como  o seu prejuízo, tamanha será a consistência da resistência ao fraturamento hidráulico em muitas regiões.

Embora este site não tenha preconceito contra as energias em geral, admite que olha para o fracking com muita desconfiança. Não há qualquer tipo de envolvimento do “Paranoá Energia” com as organizações que integram a Coesus, mas este site entende que o trabalho dessa frente ampla tem méritos, pois iniciou uma discussão da qual a sociedade brasileira não participava.

É importante, sim, debater a questão do fracking, principalmente naquelas comunidades rurais que serão atingidas pela extração do gás. Pensando bem, não há a menor necessidade em agredir a natureza dessa forma, só para extrair uma certa quantidade de gás natural. Se o Brasil tiver bom senso, o melhor que pode fazer é deixar o gás quieto sob a terra, buscando outras maneiras para fomentar o desenvolvimento econômico. As atuais e futuras gerações merecem essa homenagem.

Fonte – Paranoá Energia de 24 de agosto de 2016

Os transgênicos e as hidrelétricas

Em seu artigo titulado Transgênicos e Hidrelétricas publicado no Estadão o professor José Goldemberg, enfatiza beneficio dos transgênicos e disse que eles são feitos para proteger plantas de pragas.

Discordo do ilustre cientista, a começar por ele dizer vantagens não verdadeiras dos transgênicos . Sabe se que o único transgênico plantado para essa finalidade no Brasil é Milho Bt. Assim o Doutor esqueceu ou fez esquecer que para essa finalidade se introduz um gene na planta que produz toxina mata insetos, fazendo a planta funcionar como fosse um inseticida!! A toxina Bt, como mata insetos, ela intoxica o próprio humano. Frequentemente é citado na literatura que o risco para humano fica tão grande ate ser fatal. Um exemplo dessas variedades de milho Bt é a variedade milho MO 810, que é proibida para uso humano pelo próprio pais produtor e pela França, Alemanha, Inglaterra e outros países europeus. Infelizmente a variedade é autorizada no Brasil, e quem autorizou não se preocupou em nos fazer de simples cobaias!!. Em países pobres da África foi rejeitado até como presente. A Zâmbia preferiu ver seu povo sofrer de fome de que morrer envenenado!!. Além de matar insetos invasores, a toxina Bt mata insetos úteis, como abelha de mel e outros polinizadores necessários para que a planta formar frutas.

Quando esse tipo de transgênico morre ao final de estação de crescimento, suas raízes deixam para o solo resíduos tóxicos que matam bactérias fixadoras do nitrogênio e transforma o solo em um ambiente envenenado para crescimento da bactéria fixadora do Azoto que forma fertilizante. Assim, impede crescimento de qualquer cultura leguminosa. O fabricante desse transgênico gasta milhões de reais empregando todos os tipos de propagandas em todas as formas e todos os níveis levando ao mais alto nível o custo das sementes transgênicas, que chega a ser 130 vezes mais cara do que o preço normal. Os pequenos agricultores enganados e iludidos pela propaganda, quando não podem pagar dívidas, correm para um destino trágico que é o suicídio. Há muitos casos conhecidos da Índia, que chegou num ano só a 180 mortos.

É bom um físico falar sobre hidrelétricas, mas é questionável que se afirme dogmaticamente sobre transgênicos. E por que ele escolheu transgênicos para os associar às hidrelétricas? Será como uma fachada que esconde o mal dos transgênicos? Isto me lembra manifesto assinado por cem ganhadores de Nobel em favor de transgênicos escondendo atrás arroz dourado. Entre esses Nobel, físicos, químicos, e até letras, e além de tudo três mortos!!

Me lembro também de um químico que foi a dez anos atrás à Câmara de Deputados, argumentando e pedindo para liberar soja transgênica, e não pelos resultados científicos, que nunca foram apresentados nem existiam, mas para não prejudicar agricultores que contrabandearam soja, conforme registros de ata da Câmara. O nome dele é Hernan Chaimovich, diretor do Instituto de Química da USP na época e atual Presidente do CNPq. A Monsanto ganhou com liberação da soja transgênica nada menos de duzentos (200) milhões de dólares.

Nagib Nassar, Professor emérito da Universidade de Brasília, Presidente fundador da fundação FUNAGIB, EcoDebate de 23 de agosto de 2016

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Transgênicos e hidrelétricas

Recentemente cem cientistas que receberam o Prêmio Nobel em várias áreas do conhecimento assinaram um apelo à organização ambiental Greenpeace para que abandone sua campanha, que já dura muitos anos, contra a utilização de culturas transgênicas para a produção de alimentos. Transgênicos são produtos em que são feitas alterações do código genético que lhes dão características especiais, como as de protegê-los de pragas, resistir melhor a períodos de seca, aumentar a produtividade e outros.

O sucesso do uso de transgênicos é evidente em muitas culturas, como na produção de soja, da qual o Brasil é um exemplo. Contudo, quando se começou a usar produtos transgênicos, objeções foram levantadas, uma vez que as modificações genéticas poderiam ter consequências imprevisíveis. O Greenpeace tornou-se o campeão das campanhas contra o seu uso, que foi banido em vários países.

As objeções iniciais tinham como base dois tipos de consideração: luma, de caráter científico, que foi seriamente investigada por cientistas; el outra, de caráter mais geral, com base no “princípio da precaução”, que nos diz basicamente que cabe ao proponente de um novo produto demonstrar que ele não tem consequências inconvenientes ou perigosas. O “princípio da precaução” tem sido usado para barrar, com maior ou menor sucesso, a introdução de inovações.

Esse princípio tem um forte componente moral e político e tem sido invocado de forma muito variável ao longo do tempo. Por exemplo, ele não foi invocado quando a energia nuclear começou a ser usada, há cerca de 60 anos, para a produção de eletricidade; como resultado, centenas de reatores nucleares foram instalados em muitos países e alguns deles causaram acidentes de grandes proporções. Já no caso de mudanças climáticas que se originaram na ação do homem – consumo de combustíveis fósseis e lançamento na atmosfera dos gases que aquecem o planeta –, ele foi incorporado na Convenção do Clima em 1992 e está levando os países a reduzir o uso desses combustíveis.

A manifestação dos nobelistas argumenta que a experiência mostrou que as preocupações com possíveis consequências negativas dos transgênicos não se justificam e opor-se a eles não faz mais sentido.

Nuns poucos países, o “princípio da precaução” tem sido invocado também para dificultar a instalação de usinas hidrelétricas, tendo em vista que sua construção afeta populações ribeirinhas e tem impactos ambientais. Esse é um problema de fato sério em países com elevada densidade populacional, como a Índia, cujo território é cerca de três vezes menor que o do Brasil e a população, quatro vezes maior. Qualquer usina hidrelétrica na Índia afeta centenas de milhares de pessoas. Não é o caso do Brasil, que tem boa parte de seu território na Amazônia, onde a população é pequena. Ainda assim, a construção de usinas na Amazônia para abastecer as regiões mais populosas e grandes centros industriais no Sudeste tem enfrentado sérias objeções de grupos de ativistas.

A construção de usinas hidrelétricas no passado foi planejada com reservatórios. Quando esses reservatórios não são feitos, a produção de eletricidade varia ao longo do ano. Para evitar isso são construídos lagos artificiais, que armazenam água para os períodos do ano em que chove pouco.

Até recentemente quase toda a eletricidade usada no Brasil era produzida por hidrelétricas com reservatórios, que garantiam o fornecimento durante o ano todo mesmo chovendo pouco. Desde 1990 essa prática foi abandonada por causa das queixas das populações atingidas nas áreas alagadas. As hidrelétricas passaram a ser construídas sem reservatórios – isto é, “a fio d’água” –, usando apenas a água corrente dos rios. É o caso das usinas de Jirau, Santo Antônio e Belo Monte, cujo custo aumentou muito em relação à eletricidade produzida: elas são dimensionadas para o fluxo máximo de águas dos rios, que se dá em alguns meses, e geram muito menos nos meses secos.

Houve nesses casos um superdimensionamento do problema. De modo geral, para cada pessoa afetada pela construção de usinas, mais de cem pessoas são beneficiadas pela eletricidade produzida. Sucede que os poucos milhares de pessoas atingidas vivem em torno da usina e se organizaram para reclamar compensações (em alguns casos são instrumentadas por grupos políticos), ao passo que os beneficiados, que são milhões, vivem longe do local e não são organizados.

Cabe ao poder público avaliar os interesses do total da população, comparar os riscos e prejuízos sofridos por alguns e os benefícios recebidos por muitos. Isso não tem sido feito e o governo federal não tem tido a firmeza de explicar à sociedade onde estão os interesses gerais da Nação.

Isso se verifica também em outras grandes obras públicas, como estradas, portos e infraestruturas em geral. Um exemplo é o Rodoanel Mário Covas, em torno da cidade de São Paulo, cuja construção enfrentou fortes contestações tanto de atingidos pelas obras como de alguns grupos ambientalistas. A firmeza do governo de São Paulo e os esclarecimentos prestados viabilizaram a obra, hoje considerada positiva pela grande maioria: retira dezenas de milhares de caminhões por dia do tráfego urbano de São Paulo e reduz a poluição lançada por eles sobre a população.

O que se aprende neste caso deveria ser aplicado às hidrelétricas da Amazônia, que têm sido contestadas por alguns grupos de ambientalistas não suficientemente informados. Cabe aqui uma ação como a que foi tomada pelos nobelistas em relação aos transgênicos e aceitar hidrelétricas construídas com as melhores exigências técnicas e ambientais, incluindo reservatórios, sem os quais elas se tornam pouco viáveis, abrindo caminho para o uso de outras fontes de energia mais poluentes, como carvão e derivados de petróleo.

José Goldemberg, Presidente da FAPESP, foi presidente da CESP

Estava engasgada com esta matéria, mas me recuso a falar mal de meus ídolos. Mas, já que alguém falou, claro que estou postando.

Faltou falar sobre a opinião equivocada sobre as hidrelétricas, em um momento em que devemos migrar para energia realmente limpa, como solar e eólica, defender hidrelétricas é tão século passado. Esquece-se o José que hidrelétricas destroem terras férteis, tão necessárias e escassas no planeta, destroem ecossistemas inteiros, que são extintos sem descobrirmos curas para doenças em plantas destes locais alagados, para citar só um exemplo.

Para onde foram as andorinhas?

Produzido em parceria pelo ISA e pelo Instituto Catitu para ser exibido durante a Conferência do Clima de Paris (COP-21), o filme Para Onde Foram as Andorinhas? teve pré-lançamento no último dia 16 de agosto, em evento no Cinesala em São Paulo.

Apresentado e aplaudido também em eventos paralelos à Conferência Oficial, e na Zona de Ação Climática, espaço da militância da sociedade civil, em Paris, os debates contaram com expressiva participação do público.

Com roteiro de Paulo Junqueira, do ISA, e Mari Corrêa, do Instituto Catitu, que também é a diretora, o filme mostra de forma sensível como os povos que habitam o Parque Indígena do Xingu, em Mato Grosso, estão percebendo e sentindo em seu dia a dia os impactos das mudanças do clima: seja em sua base alimentar, em seus sistemas de orientação no tempo, em sua cultura material e em seus rituais. Eles estão preocupados com futuro de seus netos, das novas gerações. Com o mundo que vão deixar de herança para eles.

Hoje, no Parque Indígena do Xingu, em Mato Grosso, vivem 6 500 índios de 16 povos diferentes, que com seu tradicional sistema de manejo do território garantem a preservação das florestas. Entretanto, no entorno do Parque a realidade é outra. Com 86% das florestas convertidas principalmente em soja, milho e pasto, os últimos 30 anos foram de devastação ambiental no entorno e as consequências no clima, nos animais, na agricultura estão sendo sentidas pelos índios.
Cigarras não cantam mais. Borboletas e andorinhas sumiram

Os sinais estão por toda parte. As cigarras não cantam mais anunciando que a chuva está por vir. Também desapareceram as andorinhas que voavam em bandos para anunciar o início das chuvas. As borboletas, que visitavam as aldeias avisando que o rio ia começar a secar, sumiram. São alguns exemplos do que está acontecendo. Antigamente não era assim, eles dizem. Mas o aumento do calor, a falta de chuvas, o desmatamento no entorno do Parque e até a construção de barragens são apontados como causas dessas mudanças. O fogo, antes restrito à roça, hoje, se alastra com muita facilidade, atingindo grandes áreas do Parque, exigindo que os índios se mobilizem e adotem novas técnicas e equipamentos para controlar o fogo.

O calor intenso também está matando as frutas e alimentos que fazem parte da culinária dos povos xinguanos estão desaparecendo, caso de algumas espécies de mandioca e batata. Até os pés de pequi, fonte de alimento e fundamental no ritual da furação de orelhas dos Waurá, estão sendo atacados por pragas que os xinguanos não conheciam. Preocupados, acreditam que vão passar fome no futuro, porque as plantações não vão resistir. E temem que as futuras gerações tenham que depender da comida dos brancos.

Fonte – Inês Zanchetta, Isa / Observatório do Clima de 22 de agosto de 2016

Planeta perde 33 mil hectares de terra fértil por dia

O mundo perde 12 milhões de hectares de terra fértil por ano, equivalente a 33 mil hectares diários, de 30 a 35 vezes mais do que a proporção histórica. Estudos científicos calculam que a superfície terrestre em condições de seca passou de 10% para 15% no começo dos anos 1970, para mais de 30% no início de 2000, e que esses números continuarão aumentando.

Embora as secas ocorram em todas as partes, a África parece ser o continente mais prejudicado. Segundo a Convenção das Nações Unidas para a Luta Contra a Desertificação (UNCCD), dois terços das terras africanas são desertas ou áridas.O desafio é enorme para o segundo maior continente do planeta, com 1,2 bilhão de habitantes distribuídos em 54 países, que foi a região mais afetada em 2015-2016 pelo fenômeno climatológico El Niño.

“Em nível mundial, as secas são cada vez mais graves, mais frequentes, têm maiores duração e extensão espacial. Seu impacto é cada vez maior, e inclui o deslocamento humano em massa e a migração. A seca atual é evidência”, afirmou Daniel Tsegai, funcionário da UNCCD, na Conferência sobre a Seca na África, organizada por esse organismo e pelo governo da Namíbia, que termina hoje, em Windhoek, capital desse país.

A Conferência insiste na “resiliência diante da seca”. Tsegai destacou à IPS que “a resiliência diante da seca se define simplesmente como a capacidade de um país para sobreviver secas consecutivas e recuperar as condições prévias. Para começar, há quatro aspectos na seca, o meteorológico (clima), o hidrológico (águas superficiais), o agrícola (cultivo) e o socioeconômico (as consequências para os seres humanos)”.
Para Tsegai, os principais obstáculos para se conseguir a resiliência diante da seca na África são:

1. Falta de uma adequada base de dados que inclua clima, recursos hídricos – superficiais e subterrâneos –, umidade do solo e incidências de secas passadas e seus impactos;

2. Má coordenação entre os diversos setores e atores relevantes em um país e entre países de uma região;

3. Baixo nível de capacidade para aplicar medidas de redução do risco de seca, especialmente em nível local;

4. Falta de vontade política para implantar políticas nacionais contra a seca;

5. O elemento econômico da preparação para a seca não é bem investigado.

Quanto aos objetivos da UNCCD, Tsegai apontou que essa Convenção procura melhorar a produtividade da terra, restaurá-la ou preservá-la para estabelecer um uso mais eficiente da água e melhorar as condições de vida das populações afetadas pela seca e a desertificação, destacando algumas das estratégias que podem ser adotadas para aumentar a resiliência diante da seca.

Primeiro, uma mudança na maneira de lidar com o problema. Devemos mudar a forma de pensar sobre a seca, explicou. “A seca já não é mais um evento isolado e nem mesmo uma crise. Será mais frequente, grave e de maior duração. É um risco constante”, ressaltou.“Portanto, temos que deixar de ser reativos e ser proativos, passar do enfoque da gestão da crise para a gestão de riscos, do enfoque fragmentado para um mais coordenado e integrado. Tratar a seca como uma crise implica tratar os sintomas e não as causas”, alertou Tsegai, acrescentando que, “em resumo, o caminho a seguir é o desenvolvimento de uma política nacional contra a seca baseada nos princípios da redução do risco”.

Em segundo lugar é necessário fortalecer os sistemas de controle e de alerta das secas. Também é importante avaliar a vulnerabilidade do país diante do fenômeno e realizar perfis de risco: quem será afetado, em que áreas e quais serão os impactos.As medidas de redução do risco incluem o desenvolvimento de sistemas de irrigação sustentável para os cultivos e o gado, acompanhamento e medição do abastecimento de água e seus usos, reciclagem e reutilização das águas, possibilidade de cultivos mais tolerantes à seca e ampliação de seguros das colheitas.

Tsgai espera cinco resultados da Conferência de Windhoek:

1. Um documento de estratégia comum em nível de África para fortalecer a preparação do continente diante da seca, que possa ser aplicado e compartilhado entre os países;
2. Que leve ao desenvolvimento de políticas nacionais integradas destinadas à construção de sociedades mais resilientes à seca, baseadas no uso sustentável e na gestão dos recursos naturais (terra, floresta, biodiversidade, água, energia, etc.);
3. Espera-se que os países acordem um protocolo que seja vinculante e que será apresentado na Conferência Ministerial Africana sobre o ambiente, em 2017, para sua aprovação na Cúpula da União Africana (UA);
4. Os resultados da Conferência serão apresentados aos governantes da UA para obter seu apoio;
5. E também que a fortaleça as alianças e a cooperação Sul-Sul para apoiar o desenvolvimento de políticas nacionais e a melhora das já existentes sobre gestão da seca.

Fonte – Baher Kamal, Envolverde/IPS de 19 de agosto de 2016

Imagem – alexanderjacob77

 

‘Epidemia de câncer’? Alto índice de agricultores gaúchos doentes põe agrotóxicos em xeque

O agricultor Atílio Marques da Rosa, de 76 anos, andava de moto quando sentiu uma forte tontura e caiu na frente de casa em Braga, uma cidadezinha de menos de 4 mil habitantes no interior do Rio Grande do Sul.

“A tontura reapareceu depois, e os exames mostraram o câncer”, conta o filho Osmar Marques da Rosa, de 55 anos, que também é agricultor.

Seu Atílio foi diagnosticado há um ano com um tumor na cabeça, localizado entre o cérebro e os olhos. Por causa da doença, já não trabalha em sua pequena propriedade, na qual produzia milho e mandioca.

Para ele, o câncer tem origem: o contato com agrotóxicos, produtos químicos usados para matar insetos ou plantas dos quais o Brasil é líder mundial em consumo desde 2009.

“Meu pai acusa muito esse negócio de veneno. Ele nunca usou, mas as fazendas vizinhas sempre pulverizavam a soja com avião e tudo”, diz Osmar.

O noroeste gaúcho, onde seu Atílio mora, é campeão nacional no uso de agrotóxicos, segundo um mapa do Laboratório de Geografia Agrária da USP, elaborado a partir de dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Para especialistas que lidam com o problema localmente, não há dúvidas sobre a relação entre o veneno e a doença.

“Diversos estudos apontam a relação do uso de agrotóxicos com o câncer”, diz o oncologista Fábio Franke, coordenador do Centro de Alta Complexidade em Oncologia (Cacon) do Hospital de Caridade de Ijuí, que atende 120 municípios da região.

Um dos principais problemas é que boa parte dos trabalhadores não segue as instruções técnicas para o manejo das substâncias.

“Nós sempre perguntamos se usam proteção, se usam equipamento. Mas atendemos principalmente pessoas carentes. Da renda deles não sobra para comprar máscaras, luvas, óculos. Eles ficam expostos”, diz Emília Barcelos Nascimento, voluntária da Liga Feminina de Combate ao Câncer de Ijuí.

Anderson Scheifler, assistente social da Associação de Apoio a Pessoas com Câncer da cidade (Aapecan), corrobora: “Temos como relato de vida dessas pessoas um histórico de utilização excessiva de defensivos agrícolas e, na maioria das vezes, sem uso de proteção”.

‘Alarmante epidemia’

Um estudo realizado na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) comparou o número de mortes por câncer da microrregião de Ijuí com as registradas no Estado e no país entre 1979 e 2003 e constatou que a taxa de mortalidade local supera tanto a gaúcha, que já é alta, como a nacional.

De acordo com o Inca (Instituto Nacional de Câncer), o Rio Grande do Sul é o Estado com a maior taxa de mortalidade pela doença. Em 2013, foram 186,11 homens e 140,54 mulheres mortos para cada grupo de 100 mil habitantes de cada sexo.

O índice é bem superior ao registrado pelos segundos colocados, Paraná (137,60 homens) e Rio de Janeiro (118,89 mulheres).

O Estado também é líder na estimativa de novos casos de câncer neste ano, também elaborada pelo Inca – 588,45 homens e 451,89 mulheres para cada 100 mil pessoas de cada sexo.

Em 2014, 17,5 mil pessoas morreram de câncer em terras gaúchas – no país todo, foram 195 mil óbitos.

Anualmente, cerca de 3,6 mil novos pacientes são atendidos na unidade coordenada por Franke. Se incluídos os antigos, são 23 mil atendimentos.

Destes, 22 mil são bancados pelo SUS (Sistema Único de Saúde) – os cofres públicos desembolsam cerca de R$ 12 milhões por ano para os tratamentos.

Segundo o oncologista, a maioria dos doentes vem da área rural – mas o problema pode ser ainda maior, já que os malefícios dos agrotóxicos não ocorrem apenas por exposição direta pelo trabalho no campo, mas também via alimentação, contaminação da água e ar.

“Se esses números fossem de pacientes de dengue ou mesmo uma simples gripe, não tenho dúvida de que a situação seria tratada como a mais alarmante epidemia, com decreto de calamidade pública e tudo. Mas é câncer. Há um silêncio estranho em torno dessa realidade”, afirma o promotor Nilton Kasctin do Santos, do Ministério Público da cidade de Catuípe.

“Milhares de pessoas estão morrendo de câncer por causa dos agrotóxicos”, acrescenta ele, que atua no combate aos produtos.

Procurado pela BBC Brasil, o Sindiveg (Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Vegetal), que representa os fabricantes de agrotóxicos, encaminhou o questionamento para a Andef (Associação Nacional de Defesa Vegetal), que responde basicamente pelas mesmas empresas.

Em nota, a Andef afirma que “toda substância química, sintetizada em laboratório ou mesmo aquelas encontradas na natureza, pode ser considerada um agente tóxico” e que os riscos à saúde dependem “das condições de exposição, que incluem: a dose (quantidade de ingestão ou contato), o tempo, a frequência etc.”.

O texto afirma ainda que “o setor de defensivos agrícolas apresenta o grau de regulamentação mais rígido do mundo”.

Salto no consumo

A comercialização de agrotóxicos aumentou 155% em dez anos no Brasil, apontam os Indicadores de Desenvolvimento Sustentável (IDS), estudo elaborado pelo IBGE no ano passado – entre 2002 e 2012, o uso saltou de 2,7 quilos por hectare para 6,9 quilos por hectare.

O número é preocupante, especialmente porque 64,1% dos venenos aplicados em 2012 foram considerados como perigosos e 27,7% muito perigosos, aponta o IBGE.

O Inca é um dos órgãos que se posicionam oficialmente “contra as atuais práticas de uso de agrotóxicos no Brasil” e “ressalta seus riscos à saúde, em especial nas causas do câncer”.

Como solução, recomenda o fim da pulverização aérea dos venenos, o fim da isenção fiscal para a comercialização dos produtos e o incentivo à agricultura orgânica, que não usa agrotóxico para o cultivo de alimentos.

Márcia Sarpa Campos Mello, pesquisadora do instituto e uma das autoras do “Dossiê Abrasco – Os impactos dos Agrotóxicos na Saúde”, ressalta que o agrotóxico mais usado no Brasil, o glifosato – vendido com o nome de Roundup e fabricado pela Monsanto – é proibido em toda a Europa.

Segundo ela, o glifosato está relacionado aos cânceres de mama e próstata, além de linfoma e outras mutações genéticas.

“A Organização Mundial da Saúde (OMS) afirma que 80% dos casos de câncer são atribuídos à exposição de agentes químicos. Se os agrotóxicos também são esses agentes, o que já está comprovado, temos que diminuir ou banir completamente esses produtos”, defende.

Procurada, a Monsanto afirma que “todos os usos de produtos registrados à base de glifosato são seguros para a saúde e o meio ambiente, o que é comprovado por um dos maiores bancos de dados científicos já compilados sobre um produto agrícola”.

A empresa diz ainda tratar-se de “um dos herbicidas mais usados no mundo, por mais de 40 anos e em mais de 160 países”, e que “nenhuma associação do glifosato com essas doenças é apoiada por testes de toxicologia, experimentação ou observações”.

Três vezes mais

Segundo a Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), o brasileiro consome até 12 litros de agrotóxico por ano.

A bióloga Francesca Werner Ferreira, da Aipan (Associação Ijuiense de Proteção ao Ambiente Natural) e professora da Unijuí (Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul), alerta que a situação é ainda pior no noroeste gaúcho, onde o volume consumido pode ser três vezes maior.

Ela conta que produtores da região têm abusado das substâncias para secar culturas fora de época da colheita e, assim, aumentar a produção. É o caso do trigo, que recebe doses extras de glifosato, 2,4-D, um dos componentes do “agente laranja”, usado como arma química durante a Guerra do Vietnã, e paraquat.

Segundo o promotor Nilton Kasctin do Santos, este último causa necrose nos rins e morte das células do pulmão, que terminam em asfixia sem que haja a possibilidade de aplicação de oxigênio, pois isso potencializaria os efeitos da substância.

“Nada disso é invenção de palpiteiro, de ambientalista de esquerda ou de algum cientista maluco que nunca tomou sol. Também não é invenção de algum inimigo do agronegócio. Sabe quem diz tudo isso sobre o paraquat? O próprio fabricante. Está na bula, no rótulo”, alerta o promotor.

No último ano, 52 pessoas morreram por intoxicação por paraquat em terras gaúchas, segundo o Centro de Informação Toxicológica do Estado.

No Brasil, 1.186 mortes foram causadas por intoxicação por agrotóxico de 2007 a 2014, segundo a coordenadora do Laboratório de Geografia Agrária da USP, Larissa Bombardi.

A estimativa é que para cada registro de intoxicação existam outros 50 casos não notificados, afirma ela. A pesquisa da professora aponta ainda que 300 bebês de zero a um ano de idade sofreram intoxicação no mesmo período.

A Syngenta, fabricante do paraquat, não se manifestou sobre os casos de intoxicação e afirmou endossar o posicionamento da Andef.

Fonte – Paula Sperb, BBC Brasil / IHU de 23 de agosto de 2016

FRACKING: Uma Fratura no Clima

O aumento significativo da presença das termelétricas a gás nos EUA e recentemente também no Brasil é um fator preocupante. Não apenas porque, como qualquer outro combustível fóssil, o subproduto da queima do gás natural é o CO2, o que faz com que um número maior dessas unidades de produção elétrica contribua para agravar o efeito estufa, mas também pelo fato de o aumento da demanda ter levado a um crescimento da exploração não-convencional do gás, incluindo a chamada fratura hidráulica, ou fracking. Há uma variedade enorme de impactos associados a esta técnica, de contaminação do lençol freático à produção de sismos. Mas neste artigo, ao invés de abordar essa variedade de impactos, nos propomos a fazer uma crítica ao principal (pseudo-)argumento levantado para defender o uso do gás natural como fonte de energia: o de que, comparado a outras fontes fósseis, ele seria “menos poluente” ou de que ele poderia servir como uma “ponte” (“bridge fuel”) por supostamente produzir menores emissões.

Há algo no ar além do CO2

O crescimento da demanda por gás natural, indevidamente defendido como um “mal menor” em relação aos outros combustíveis fósseis, tem levado à expansão do fracking mundo afora.

No que diz respeito a contribuir para o aquecimento global, há muito mais coisas no céu do que o dióxido de carbono (CO2). Outros gases de efeito estufa, isto é, substâncias que interagem com a radiação infravermelho que a Terra emite para o espaço podem contribuir significativamente para tornar o que já é grave, gravíssimo. É o caso do metano (CH4) e do óxido nitroso (N2O), gases que ocorrem na natureza em proporções muito pequenas, e dos halocarbonetos, que não existiam em nossa atmosfera até serem produzidos e emitidos pela humanidade. O metano é o principal subproduto da fermentação entérica, daí a pecuária responder por grande parte de suas emissões, mas também, por ser o principal componente do gás natural, é a substância mais relevante quando lidamos com as ditas emissões fugitivas.

É possível estabelecer uma relação entre a contribuição relativa desses gases para o aquecimento global e a contribuição do CO2, definindo uma grandeza (adimensional) conhecida como potencial de aquecimento global, ou GWP, da sigla em inglês. Esta grandeza depende da escala de tempo considerada, pois cada gás tem um tempo de residência diferente na atmosfera. O metano tem uma vida média na atmosfera de 12,4 anos, significativamente mais curta do que o CO2 e em virtude disso, seu efeito é muito intenso a curto prazo. De acordo com o 5º Relatório de Avaliação (AR5, Myhre et al. 2013) do Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC), o GWP-20 (potencial de aquecimento global na escala de 20 anos) para o metano, sem considerar feedbacks do ciclo do carbono, é igual a 84 (86 se tais mecanismos de retroalimentação forem computados), ou seja, cada molécula de metano lançada na atmosfera terá, passados 20 anos, contribuído diretamente 84 vezes (86 vezes, considerando-se os feedbacks) para o desequilíbrio energético planetário. Numa escala mais longa, esse efeito é menor, mas ainda assim muito significativo: o GWP-100 dessa substância é 28, sem incluir os feedbacks, ou 34, se incluirmos estes efeitos (IPCC, 2013).

Em virtude dessa propriedade, as emissões antrópicas de metano, mesmo este gás permanecendo em concentrações bem mais baixas do que o dióxido de carbono, têm contribuído significativamente para o aquecimento global. Ainda de acordo com o AR5, enquanto as concentrações de CO2 chegaram, em 2011, a 391 partes por milhão ou ppm (Estas concentrações devem ultrapassar de longe 400 ppm, na média anual, ao final de 2016), as concentrações de CH4 eram mais de 200 vezes menores, ficando, em 2011, em 1803 partes por bilhão (ou ppb, sendo 1 ppm = 1000 ppb). Como os valores pré-industriais de concentração de metano na atmosfera eram bem menores (722 ppb), o aumento desde então foi de impressionantes 150%. Essas concentrações alteradas contribuem com uma forçante radiativa de 0,48 W/m2, um valor equivalente a pouco mais de um quarto daquele associado ao excedente de CO2 (1,82 W/m2), o que não é nada desprezível (Como discutimos noutros textos do blog, forçante radiativa, ou forçamento radiativo, é uma medida do desequilíbrio energético provocado por algum agente, como gases de efeito estufa, aerossóis, mudança no uso do solo, isto é, a quantidade de energia por unidade de área e por unidade de tempo acrescentada – se positiva – ou subtraída – se negativa – no balanço energético global).

Gás natural: um “mal menor”?

Produzido tanto na fermentação entérica dos ruminantes quanto na decomposiçao de matéria orgânica em lixões e esgotos, o metano (CH4) é o principal composto do gás natural e ele escapa para a atmosfera em grandes quantidades durante a prospecção, extração e distribuição de óleo e gás.

As informações acima são importantes a fim de que não se compre acriticamente a ideia de que o gás natural é “mais limpo” ou “mais amigável para o clima” do que outras fontes fósseis de energia. Esta, obviamente, é uma conclusão decorrente de um fato: o de que, na queima, uma quantidade menor de CO2 é produzida, por unidade de energia, quando o combustível adotado é o gás natural. Para sermos mais precisos, segundo dados da Administração de Informações sobre Energia dos EUA (EIA 2016), as emissões de CO2 associadas à queima de gás natural são de 43,1% a 48,8% menores do que as de carvão betuminoso e antracito, respectivamente.

Ora, já é inaceitável trocarmos um combustível que produza emissões colossais de CO2 (o carvão em qualquer uma de suas versões) por outro, mesmo a queima deste resulte em emissões que sejam “apenas” a metade. Afinal, “meio colossal” continua a ser algo muito grande, especialmente quando a crise climática nos impõe cortes profundos, radicais e rápidos nas emissões deste gás. Mas quando as emissões fugitivas e o elevado potencial de aquecimento global do metano entram na conta, vê-se claramente que não faz sentido a tentativa de vendê-lo como algo “limpo”.

Segundo Alvarez et al. (2012), a taxa de vazamento de gás (desde a extração no poço até o usuário final) considerada pela Agência de Proteção Ambiental dos EUA (a EPA) é de 2,4%. Ora, considerando-se que 90% do gás natural é composto de metano e que o GWP-100 com feedbacks desta substância é 34, conclui-se que o efeito climático do gás natural, na escala de 100 anos, considerando-se as emissões fugitivas é nada menos que 71,3% maior do que ignorando-as. Na escala de 20 anos, então, já que o GWP-20 com feedbacks para o metano é 86, o efeito das emissões fugitivas é de quase triplicar (aumento de 184%) o impacto climático do gás natural, fazendo com que, a curto prazo, seu efeito seja maior do que o de qualquer forma de carvão, mesmo considerando esta estimativa da EPA (relativamente modesta) para a taxa de vazamento. A longo prazo (100 anos), seu impacto ainda assim permanece comparável ao do carvão (0,31 kg de CO2 por kWh para o gás natural versus 0,32 kg de CO2 por kWh para carvão betuminoso ou 0,35 kg de CO2 por kWh para antracito). Não é à toa que Alvarez et al. (2012) concluem que é inviável, como estratégia de mitigação, uma permuta de derivados de petróleo por gás natural como combustível veicular, dado que seriam necessários quase 300 anos (quando finalmente o efeito do metano seria significativamente diminuído) para que se pudesse contar com o benefício de uma forçante radiativa reduzida.

Ainda segundo Alvarez et al. (2012), o limiar para o qual o dano climático do gás natural excederia o do carvão na escala de 100 anos seria de 3,2%, mas este dado precisa ser corrigido, considerando as estimativas de GWP apresentadas pelo AR5, que jogaram para cima a influência climática do metano. Nossas estimativas são de que com emissões fugitivas da ordem de 2,8% (ligeiramente acima dos 2,4% estimados pela EPA), o gás natural já se iguala ao lignito em termos de impacto climático na escala de 100 anos e que, a curto prazo, emissões fugitivas muito pequenas, da ordem de 1%, já seriam capazes de colocar, na escala de 20 anos, o gás natural em pé de igualdade com o carvão betuminoso.

Enfim, o fracking

Pela própria natureza da técnica, a tendência é que as emissões fugitivas sejam bem maiores na extração de gás via fracking do que no caso do gás convencional. Na Pensilvânia e em outros estados dos EUA em que o fracking se disseminou, o tipo de cena mostrado aqui (gás chegando pelas torneiras de água) se tornou comum. Fonte da foto: Al Jazeera.

Até agora ele permanecia fora de nossa discussão e que tudo o que debatemos até o momento diz respeito ao gás natural de forma genérica, convencional ou não. Eis que entra o fracking e o dano para o clima associado ao gás natural se aprofunda de vez.

Como se não bastasse todo o conjunto de impactos que ampliam a vulnerabilidade dos sistemas naturais e humanos face as mudanças climáticas, especialmente o uso excessivo e a contaminação da água, recurso que se tornará cada vez mais valioso para consumo humano e produção alimentícia em um planeta aquecido, é preciso considerar que o fracking provavelmente já está levando a um aumento das emissões fugitivas.

Allen et al. (2013) mostraram que as emissões, especialmente de poços fraturados excedem significativamente as estimativas da EPA. Segundo Glancy (2013), os valores de emissões fugitivas de todas as formas de gás não-convencional excedem aqueles do gás convencional. No caso do gás de folhelho, ainda segundo este autor, as emissões fugitivas chegariam a ser 133% maiores. Karion et al. (2013) apontam porcentagens de emissões fugitivas da ordem de 8,9%. Schneising et al. (2014) mostram claramente que os inventários de emissões sobre duas regiões de grande produção de gás natural usando as técnicas de fratura hidráulica estavam sendo grandemente subestimadas e que emissões fugitivas da ordem de 9% e 10% ocorriam nos sítios estudados.

Para além dos demais impactos, portanto, o fracking torna o gás natural uma bomba climática terrível. Do ponto de vista do impacto em 100 anos, emissões fugitivas da ordem de 10% já seriam capazes de elevar o impacto climático deste combustível ao dobro do associado ao antracito e mais do dobro do associado a qualquer outra variedade de carvão. Com o elevado GWP-20, que chega a 86 sendo incluídos os feedbacks climáticos, o impacto de curto prazo do gás natural proveniente de fracking pode chegar a quase 5 vezes o impacto da queima do carvão mineral.

O surrealismo do gás natural e fracking no Brasil

Se termelétricas a gás como a CGTF, localizada no Ceará, pertencente à ENEL, mesmo grupo italiano que controla a distribuidora de energia do estado (a Coelce) proliferarem, haverá uma enorme pressão para disseminação do fracking no Brasil, a fim de atender à demanda crescente de gás natural. É preciso, portanto, barrar a expansão dessas usinas, qualquer que seja o combustível usado. Nenhuma nova unidade geradora de eletricidade que não utilize fonte renovável não deve ser aceita em nosso país.

A análise feita até aqui em geral mostra paralelos entre o gás natural e outras fontes fósseis e demonstrou-se claramente que, do ponto de vista climático, as contas em defesa do gás como alternativa simplesmente não fecham, especialmente quando se trata de gás não-convencional e de fracking. Este paralelo geralmente encontra sentido porque muitos países estão debatendo e aplicando uma política de incrementar o uso do gás natural como uma suposta “ponte” entre outras fontes fósseis, como o carvão, e as renováveis. O que se demonstra aqui é que essa tese da “ponte” (“bridge fuel”) é inteiramente falaciosa e que é necessário que os EUA e demais países desenvolvidos apostem imediatamente numa rápida e completa transição de suas matrizes energéticas, abandonando as fontes fósseis em seu conjunto.

Mas o que dizer de países em que a suposta “ponte” sequer tem um ponto de partida? Por exemplo, qual a justificativa de se referir ao gás natural como “menos poluente”, utilizada por exemplo pelo governador do Ceará Camilo Santana para defender redução da alíquota de ICMS para incentivar novas termelétricas a gás para seu estado, num contexto em que a presença do carvão (e também do óleo) na matriz brasileira é (felizmente) pequena? Quando sequer o falso debate de “substituir carvão por gás” é apresentado, já que não se cogita de forma alguma o fechamento das termelétricas a carvão no contexto do nefasto avanço das termelétricas a gás? É evidente, portanto, que neste caso a falácia é ainda maior e o avanço do gás natural e do fracking são ainda mais trágicos e injustificáveis do que nos EUA e outros países capitalistas centrais. Trata-se evidentemente de uma manobra das corporações de energia suja, bloqueando soluções energéticas justas e democráticas exatamente em países que têm vocação clara para uma matriz energética 100% isenta de carbono.

A conclusão a que se pode chegar é que é inadmissível que assistamos no Brasil, bem como em qualquer outro país cuja matriz não é dominada pelo carvão, ao crescimento do gás natural como suposta alternativa, especialmente em sendo sua produção baseada na fratura hidráulica. Mesmo que não se consiga romper imediatamente com o predomínio da lógica de mercado aplicada à geração de eletricidade no Brasil, expressa nos leilões de energia, é inadiável uma política de restringir a inscrição somente a fontes renováveis nesses leilões. O avanço das termelétricas, sejam a carvão, óleo ou gás, e os impactos das extrações desses combustíveis, incluindo seu impacto climático, precisam ser detidos.

Referências

Allen, D. T.; Torres, V. M.; Thomas, J.; Sullivan, D. W.; Harrison, M.; Hendler, A.; Herndon, S. C.; Kolb, C. E.;Fraser, M. P.; Hill, A. D.; Lamb, B. K.; Miskimins, J.; Sawyer, R. F.; Seinfeld, J. H. (2013): Measurements of methane emissions at natural gas production sites in the United States Proc. Natl. Acad. Sci. U. S. A., 110 ( 44)17768– 17773, DOI: 10.1073/pnas.1304880110

Alvarez RA, Pacala SW, Winebrake JJ, Chameides WL, Hamburg SP (2012): Greater focus needed on methane leakage from natural gas infrastructure. Proc Natl Acad Sci USA 109(17), 6435–6440.

EIA (2016): Carbon Dioxide Emissions Coefficients, disponível em https://www.eia.gov/environment/emissions/co2_vol_mass.cfm.

Glancy, R.P. (2013): Quantifying Fugitive Emission Factors from Unconventional Natural Gas Production Using IPCC Methodologies. Disponível em http://www.ipcc-nggip.iges.or.jp/tsu/intern_report/TSU_InternshipReportRyan.pdf

IPCC, 2013: Climate Change 2013: The Physical Science Basis. Contribution of Working Group I to the Fifth Assessment Report of the Intergovernmental Panel on Climate Change [Stocker, T.F., D. Qin, G.-K. Plattner, M. Tignor, S.K. Allen, J. Boschung, A. Nauels, Y. Xia, V. Bex and P.M. Midgley (eds.)]. Cambridge University Press, Cambridge, United Kingdom and New York, NY, USA, 1535 pp.

Karion, A., et al. (2013),Methane emissions estimate from airborne measurements over a western United States natural gas field, Geophys. Res. Lett., 40(16),4393–4397, doi:10.1002/GRL.50811.

Myhre, G., D. Shindell, F.-M. Bréon, W. Collins, J. Fuglestvedt, J. Huang, D. Koch, J.-F. Lamarque, D. Lee, B. Mendoza, T. Nakajima, A. Robock, G. Stephens, T. Takemura and H. Zhang (2013): Anthropogenic and Natural Radiative Forcing. In: Climate Change 2013: The Physical Science Basis. Contribution of Working Group I to the Fifth Assessment Report of the Intergovernmental Panel on Climate Change [Stocker, T.F., D. Qin, G.-K. Plattner, M. Tignor, S.K. Allen, J. Boschung, A. Nauels, Y. Xia, V. Bex and P.M. Midgley (eds.)]. Cambridge University Press, Cambridge, United Kingdom and New York, NY, USA.

Schneising, O., J. P. Burrows, R. R. Dickerson, M. Buchwitz, M. Reuter,
H. Bovensmann (2014): Remote sensing of fugitive methane emissions from oil and gas production in North American tight geologic formations. Earth’s Future. DOI: 10.1002/2014EF000265.

Fonte – Alexandre Costa – Ph.D. em Ciências Atmosféricas, Professor Titular da Universidade Estadual do Ceará no blog o que você faria se soubesse o que sei

Ministério da Saúde da Itália restringe uso de glifosato

Decreto retira autorizações de comercialização de mais de 85 herbicidas e proíbe seu uso em que hajam pessoas expostas.

O decreto elaborado pela ministra de Saúde da Itália estabeleceu que seja retiradas as autorizações de comercialização de mais de 85 produtos fitossanitários que contêm glifosato como substância ativa.

Nesta segunda (22), a ministra de Saúde da Itália, Beatrice Lorenzin, publicou um decreto para retirar as autorizações de comercialização de mais de 85 produtos fitossanitários que contêm glifosato como substância ativa.

Glifosato é o nome de um herbicida patenteado pela Monsanto em 1974, que tem efeitos cancerígenos comprovados e denunciados internacionalmente.

A decisão também inclui a proibição do uso da substância em áreas “frequentadas pelo público ou por grupos vulneráveis, como parques, jardins, quadras esportivas e recreativas, áreas com brinquedos para crianças e centros de saúde”.

A partir da vigência deste decreto, a Itália estabelece a obrigação de que os produtos que contenham a substância sejam etiquetados com advertências até 20 de setembro.

Roberto Montalvo, presidente da Coldiretti, a principal organização de empreendedores agrícolas da Europa, com mais de 1,5 milhão de associados, afirmou que, com esta decisão, “a Itália se coloca na vanguarda na Europa e no mundo no que se refere a políticas de segurança alimentar e ambiental”.

A Coalizão Stop Glifosato afirmou que “a Itália e outros países europeus têm proibido esta prática, mas não o suficiente”.

“É necessária a proibição total do uso de glifosato na agricultura, mas também é necessário proibir a importação de trigo tratado com este herbicida, para proteger nossa saúde e a produção de trigo na Europa que tem os mais altos padrões de proteção ambiental”, declarou em nota.

Histórico na Europa

Ele começou a ser combatido mais efetivamente depois de 2015, quando a Agência Internacional para Pesquisa sobre o Câncer (IARC, dependente da OMS) o catalogou como “provavelmente cancerígeno para humanos”.

Diante disso, a União Europeia aprovou sua comercialização até finais de 2017, à espera dos ditames finais da Agência Europeia de Produtos Químicos, mas propôs restringir a utilização de herbicida em parques, praças e outros espaços públicos.

Também foi proibida a utilização de glifosato imediatamente antes das colheita de produtos agrícolas.

Brasil

Desde 2008, o Brasil ocupa o primeiro lugar no ranking mundial de consumo de agrotóxicos. De acordo aos dados divulgados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), nos últimos dez anos o mercado de agrotóxicos no Brasil cresceu 190%.

Em dossiê apresentado pela Abrasco e pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) em 2015, afirma-se que 70% dos alimentos in natura consumidos no Brasil estão contaminados por agrotóxicos. Segundo a Anvisa, 28% desses alimentos contêm substâncias não autorizadas.

Cada brasileiro cabe uma média de 5,2 litros de venenos por ano, o equivalente a duas garrafas e meia de refrigerante, ou a 14 latas de cerveja. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), entre os países em desenvolvimento, os agrotóxicos causam, anualmente, 70 mil intoxicações agudas e crônicas.

Ameaça legislativa

Além de o cenário atual ser crítica, é possível que haja a aprovação do Projeto de Lei nº 6299/2002, o PL dos Venenos, como é denominado por defensores da produção sem agrotóxicos. Ele traz um conjunto de propostas de alteração da lei nº 7802/1989, que rege o tema, e fará com que se amplie o uso e o consumo dos agrotóxicos no território nacional.

A proposta altera o nome de “agrotóxicos” para “defensivos fitossanitários” e traz outras armadilhas, como a criação de uma CNTFito, instituição semelhante à Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) que teria a função de avaliar quais agrotóxicos seriam liberados para utilização, retirando do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e da Anvisa a atribuição de realizar o processo de avaliação de pedidos de liberação comercial.

O PL também propõe a limitação da atuação das unidades federativas sobre o tema, o que dificultaria a criação de leis estaduais para restringir o uso desses produtos.

Fonte – Camila Rodrigues da Silva, Notas Periodismo Popular, tradução María Julia Giménez, IHU de 24 de agosto de 2016