Padrão de consumo atual é insustentável para população de 7 bilhões

Foto: Marcos Santos/USP ImagensFoto: Marcos Santos/USP Imagens

Em palestra da série USP Talks, pesquisadores alertam para a necessidade de mudar o sistema socioeconômico e nosso modo de vida para reverter mudanças climáticas

O sistema socioeconômico construído e adotado pela humanidade desde a Primeira Revolução Industrial, em 1750, possui um padrão de consumo insustentável para um mundo com 7 bilhões de pessoas como o atual, e mais ainda para a população que se estima que habitará a Terra daqui a poucas décadas, de 9 a 10 bilhões de indivíduos.

A afirmação é do professor Paulo Artaxo, do Instituto de Física (IF) da USP, que, junto do professor Frederico Brandini, do Instituto Oceanográfico (IO) da USP, participou do USP Talks na quarta-feira, 30 de novembro, para tratar do tema Mudanças Climáticas: a Terra daqui a 100 anos.

“Quando a China, Índia e África, que juntas têm hoje mais de 3 bilhões de habitantes, resolverem ter o mesmo padrão de consumo dos países desenvolvidos – e isso não vai demorar -, não precisa ser muito inteligente para perceber que não vai dar certo. Precisamos mudar o sistema”, defende Artaxo, que é referência mundial no estudo da física aplicada a problemas ambientais.

O professor afirma não ver maior desafio para a ciência e a humanidade do que as mudanças climáticas, pois elas colocam em xeque nossa estrutura socioeconômica e nosso modo de viver. “Ainda tem gente que diz não acreditar nas mudanças climáticas, como o presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump. Mas ele representa grandes interesses, assim como qualquer presidente. Não é uma questão de acreditar ou não, não é religião. As mudanças estão aí.”

“Quando a China, Índia e África resolverem ter o mesmo padrão de consumo dos países desenvolvidos – e isso não vai demorar -, não precisa ser muito inteligente para perceber que não vai dar certo. Precisamos mudar o sistema”

O professor ainda chama a atenção para um dilema ético causado pelas mudanças climáticas: “Temos o direito de causar a extinção em massa de inúmeras espécies que dividem o planeta conosco?”. De acordo com Artaxo, 40 bilhões de toneladas de gases estufa são lançadas na atmosfera todos os anos, uma taxa que ainda está em ascensão. Isso já gerou um aumento de 1ºC na temperatura média do planeta – no Brasil, o aumento foi de 1,5º a 1,8º, uma mudança crítica para ecossistemas como a Amazônia.

A floresta amazônica é um importante recurso para adiar os efeitos das mudanças climáticas, por ser o que se chama de uma bomba biológica, isto é, um grande sistema de retenção de carbono. Isso se dá porque o tronco das árvores necessita de enorme quantidade desse elemento para se formar. Porém, o professor Artaxo alerta que essa capacidade de armazenamento está se esgotando, pois as árvores não crescem para sempre, e árvores novas estão sendo sistematicamente desmatadas. “O Brasil desmatou, no último ano, 8 mil quilômetros quadrados de floresta primária na Amazônia. É uma quantidade enorme.”

Oceanos

O professor Frederico Brandini explica que, assim como a Amazônia, os oceanos também caracterizam uma bomba biológica, em virtude da absorção do carbono pelas algas unicelulares que os habitam. Além disso, eles são uma bomba de solubilidade, pois o dióxido de carbono (CO2) é muito solúvel em água, especialmente nos mares gelados próximos aos polos, que têm maior capacidade de dissolução da molécula e, por serem mais densos, levam-na ao fundo do oceano.

Porém, a capacidade da bomba biológica dos oceanos também está se esgotando, pois as algas concentram-se numa faixa limitada deles, aquela que recebe luz. Segundo o professor, apenas os 100 metros superficiais (cerca de 2% do oceano) são iluminados pela radiação solar.

Ao mesmo tempo a bomba de solubilidade é sobrecarregada pela desmedida emissão de carbono das atividades humanas, e, quanto mais carbono no fundo dos oceanos, mais ácida fica a água. “Hoje, a acidez da água dos oceanos é 30% maior do que 150 anos atrás. Isso prejudica, por exemplo, os corais, que são formados por substâncias básicas como o carbonato de cálcio. Estamos matando os recifes de coral”, afirma Brandini, estudioso da área de Oceanografia Biológica.

“Hoje, a acidez da água dos oceanos é 30% maior do que 150 anos atrás. Isso prejudica, por exemplo, os corais, que são formados por substâncias básicas como o carbonato de cálcio. Estamos matando os recifes de coral”

Esse esgotamento da capacidade da retenção de carbono das bombas biológicas é preocupante. De acordo com Brandini, 30% do gás carbônico absorvido fica retido nas florestas, outros 30% nos oceanos e o restante é o que ele chama de “carbono perdido”. “Não se sabe para onde vai essa porcentagem, é possível que parte dela fique presa às nossas roupas, por exemplo. A questão é que os outros 60% vão deixar de ser fixados pelas árvores e pelos oceanos, então teremos ainda mais gases estufa na atmosfera, o que vai agravar o aquecimento global.”

Há ainda outros problemas da ação humana para o equilíbrio dos oceanos. Brandini afirma que algumas substâncias presentes em cosméticos e remédios não são metabolizadas por nosso organismo e, uma vez excretadas, chegam aos oceanos por meio do esgoto. “Essas substâncias ficam por décadas circulando na água, há peixes e outros seres vivos espalhados pelos mares do mundo todo contaminados por elas”, explica. Além disso, o professor ressalta os impactos da poluição sonora e luminosa causada pelo homem. “O oceano não é um universo visual, a maior parte dele é escura. Os seres marinhos se comunicam principalmente pelo som ou por mecanismos químicos, e estamos desequilibrando isso também.”

Há esperança?

Com ressalvas, os professores se mostram otimistas em relação à possibilidade de superarmos as mudanças climáticas. Artaxo afirma que iniciativas como o Acordo de Paris, aprovado por 195 países em 2015, embora bem intencionadas, são insuficientes. O acordo prevê uma redução de 32% da emissão de gases estufa com o objetivo de limitar a no máximo 2ºC o aumento da temperatura média do planeta.

“Essa redução está longe de acontecer e, mesmo se acontecesse, não seria possível alcançar a meta proposta. Além disso, o aumento da temperatura global em 2ºC representaria no Brasil um aumento da ordem de 3ºC a 3,5ºC, em média. Imagine o que aconteceria em cidades como Cuiabá e Manaus.” Entretanto, se a ação do homem se mantiver como a atual pelos próximos 100 anos, o professor afirma que a temperatura média do planeta poderia aumentar de 5ºC a 7º C, o que seria uma catástrofe.

De acordo com Artaxo, um caminho para lidar com as mudanças climáticas, mais do que tratados internacionais, é uma mudança radical em nossa sociedade, desde os padrões de consumo até a política. “Temos que rever a forma como medimos o sucesso de um país. Por que, em vez de relacionar sucesso ao que é produzido pela indústria – portanto estimulando produção e consumo insustentáveis-, não medimos a felicidade da população com o sistema implementado?”

Além dessa ideia, que já é posta em prática no Butão, país do sul da Ásia, o professor sustenta a necessidade de um sistema global de governança. “Um presidente pensa no que vai acontecer nos quatro anos de seu mandato, assim como um empresário pensa no lucro de sua empresa naquele ano. Precisamos começar a pensar que todos dividimos a mesma casa, acabar com o conceito de ‘país’ e implementar políticas públicas globais em relação ao meio ambiente.”

“Precisamos começar a pensar que todos dividimos a mesma casa, acabar com o conceito de ‘país’ e implementar políticas públicas globais em relação ao meio ambiente”

Apesar de parecer utópico, os professores dão exemplos práticos para mostrar que a mudança é possível. Artaxo lembra que já possuímos tecnologia suficiente para produzir carros 70% a 90% mais eficientes que os atuais, enquanto Brandini fala de energias alternativas que poderiam ser exploradas pelo Brasil, como a eólica, a solar e a das marés, tecnologias que não são comparativamente caras e cujas fontes existem em abundância no País. Artaxo defende também o desmatamento zero para manter a capacidade de retenção carbônica da Amazônia, e Brandini afirma que “se tivéssemos uma educação de qualidade, não seria necessário educação ambiental, pois as pessoas saberiam da importância do meio ambiente”.

Ambos confiam na capacidade do ser humano de superar dificuldades, por meio de esforço, conscientização e da ciência – a qual Artaxo defende que deveria ter maior influência em decisões políticas e na elaboração de políticas públicas. “As baleias já foram a maior commodity do planeta, pois o óleo de sua gordura era o que iluminava as cidades da Europa. Se não tivéssemos descoberto o petróleo, elas teriam sido extintas. Depois o petróleo trouxe outros tantos problemas, mas, como já fizemos antes, podemos resolvê-los”, diz Brandini.

A oitava e última edição do USP Talks em 2016 ocorreu na tarde de quarta-feira, 30 de novembro, no Teatro Eva Herz da Livraria Cultura. A série de eventos é uma iniciativa das Pró-Reitorias de Graduação e de Pesquisa da USP, em parceria com o jornal O Estado de S. Paulo e apoio da Livraria Cultura. Mais informações na página do Facebook.

Fonte – Diego C. Smime, Jornal da USP de 01 de dezembro de 2016

Livro – Uma Encomenda para um Novo Mundo

“Dinheiro nunca valeu sem belos lugares. Sempre achei absurdo a existência de pessoas que querem apenas se enfurnar em escritórios, indústrias ou nas suas fazendas empoeiradas com cheiro de estrume e agrotóxico. Normalmente quem fazia isso objetivava ter dinheiro para poder sair de férias e passear em belos lugares, que sem conservação seriam nada. Era estranho o sistema que fomos forçados a viver. O que vale a pena na vida é a beleza. Não é?.”

Thomas Waldmann acorda do coma em um futuro muito distante daquele que possui recordações de ter vivido. Descobre um mundo renovado, onde as questões socioambientais são primordiais. Neste novo cenário o Brasil tornou-se o mais admirável país do mundo e as pessoas são educadas e altruístas. Enquanto recupera a memória Thomas desvenda seus vínculos e segredos implicados nessas modificações desconcertantes. Venha se aventurar nessa trajetória de vida de 350 anos, distribuídas em capítulos que alternam momentos do passado e do presente.

Uma Encomenda para um Novo Mundo
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Autor – Deco Sampaio
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2016

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Amarga indústria do açúcar

Recentes documentos revelam que a indústria do açúcar pagou para cientistas na década de 1960 para minimizar a ligação entre o açúcar e as doenças cardíacas e ainda promover a gordura saturada como a culpada destas doenças

Os documentos internos da indústria do açúcar, recentemente descobertos por um pesquisador da Universidade da Califórnia, em San Francisco, e publicados na JAMA Internal Medicine, sugerem que cinco décadas de pesquisas sobre o papel da nutrição e doenças cardíacas, pode ter sido largamente manipulado pela indústria do açúcar.

“Eles conseguiram descarrilar a discussão sobre o açúcar por décadas”, disse Stanton Glantz, professor de medicina na U.C.S.F  e  autor do artigo no JAMA Internal Medicine.

Os documentos mostram que um grupo comercial denominado Sugar Research Foundation, hoje conhecida como Associação do Açúcar, pagou a três cientistas da Harvard o equivalente a cerca de US $ 50 mil em dólares atuais para publicar uma pesquisa em 1967 sobre a doença do açúcar, gordura e coração.

Os estudos utilizados na revisão foram escolhidos a dedo pelo grupo do açúcar, e o artigo, que foi publicado no prestigiado New England Journal of Medicine, minimizou a ligação entre o açúcar e a saúde do coração e reforçou o papel da gordura saturada.

Os pesquisadores, que sob os padrões atuais agiram de forma completamente irresponsável, nunca reconheceram que foram financiados.

Os cientistas de Harvard e os executivos do açúcar com quem eles colaboraram não estão mais vivos. Um dos cientistas que foi pago pela indústria do açúcar foi D. Mark Hegsted, que passou a se tornar o chefe de nutrição no Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, onde em 1977 ele ajudou a elaborar o precursor para as diretrizes alimentares do governo federal. Outro foi o Dr. Fredrick J. Stare, o presidente do departamento de nutrição de Harvard.

Em uma declaração respondendo ao relatório do jornal JAMA, a Associação do Açúcar disse que a revisão de 1967 foi publicada num momento em que as revistas médicas normalmente não exigem que os pesquisadores divulguem fontes de financiamento. O New England Journal of Medicine não exigia divulgações financeiras até 1984.

A indústria “deveria ter exercido maior transparência em todas as suas atividades de pesquisa”, disse a declaração da Associação do Açúcar. Mesmo assim, defendeu a pesquisa financiada pelo setor como desempenhando um papel importante e informativo no debate científico. Ele disse que várias décadas de pesquisas concluíram que o açúcar “não tem um papel na doença cardíaca”.

Mesmo que o tráfico de influências revelado nos documentos remonta a quase 50 anos, relatórios mais recentes mostram que a indústria de alimentos continuou a influenciar a ciência da nutrição.

No ano passado, um artigo no The New York Times revelou que a Coca-Cola, maior produtora mundial de bebidas açucaradas, havia fornecido milhões de dólares em financiamento para pesquisadores que buscavam minimizar a ligação entre bebidas açucaradas e obesidade.

Em junho, a Associated Press informou que os fabricantes de doces estavam financiando estudos que alegavam que as crianças que comem doces tendem a pesar menos do que aqueles que não comem.

As revelações são importantes porque o debate sobre os danos relativos ao açúcar e da gordura saturada continuam atéhoje, disse Glantz.

Por muitas décadas, os funcionários da saúde incentivaram os americanos a reduzir sua ingestão de gordura, o que levou muitas pessoas a consumir alimentos com baixo teor de gordura e com alto teor de açúcar, oque alguns especialistas culpam agora por alimentar a crise de obesidade.

“Foi uma coisa muito inteligente por parte da indústria de açúcar, porque os documentos de revisão, especialmente se você obtê-los publicados em um jornal muito proeminente, tendem a moldar a discussão científica global”, disse ele.

Dr. Hegsted usou sua pesquisa para influenciar as recomendações dietéticas do governo, que enfatizou a gordura saturada como um condutor de doença cardíaca, enquanto caracterizava o açúcar como calorias vazias ligadas à cárie dentária.

Hoje, os avisos de gordura saturada continuam a ser uma pedra angular nas diretrizes alimentares do governo, embora nos últimos anos a American Heart Association , a Organização Mundial de Saúde e outras autoridades de saúde também começaram a alertar que o excesso de açúcar pode aumentar o risco de doença cardiovascular.

Marion Nestle, professora de nutrição, estudos de alimentos e saúde pública na Universidade de Nova York, escreveu um editorial que acompanha o novo jornal, no qual ela disse que os documentos forneciam “evidências convincentes” de que a indústria açucareira havia iniciado pesquisas “expressamente para exonerar o açúcar como Principal fator de risco para doença coronariana “.

“Eu acho que é terrível”, disse ela. “Você nunca vê exemplos que sejam tão flagrantes.”

Marion Nestle denunciou recentemente, em seu livro controverso Soda Política: que a Coca-Cola doou nos últimos anos,  1,5 milhões sem fins lucrativos  – para promover a mensagem de que é um estilo de vida sedentário, e não dieta, o que está por trás do excesso de peso.

O atual presidente do Departamento de Nutrição na Universidade de Harvard, Dr. Walter Willet, explicou que o que aconteceu na universidade na década de 60 seria impensável hoje, dado o reforço das regras de conflito de interesse, mas acredita que o estudo de Glantz é um bom lembrete de “por que a investigação deve ser apoiada por fundos públicos em vez de depender de financiamento da indústria.”

Dr. Willett disse que os pesquisadores tinham dados limitados para avaliar os riscos relativos de açúcar e gordura.

“Com os dados que temos hoje, temos demonstrado que os carboidratos refinados e especialmente bebidas açucaradas são fatores de risco para doenças cardiovasculares, mas que o tipo de gordura na dieta também é muito importante”, disse ele.

O jornal JAMA Internal Medicine contou com milhares de páginas de correspondências e outros documentos que Cristin E. Kearns, um pós-doutorado da U.C.S.F., descobriu em arquivos em Harvard, na Universidade de Illinois e em outras bibliotecas.

Os documentos mostram que, em 1964, John Hickson, um alto executivo da indústria de açúcar, discutiu um plano com outros na indústria para mudar a opinião pública “por meio de nossos programas de pesquisa e informação”.

Na época, os estudos começaram a apontar para uma relação entre dietas ricas em açúcar e as altas taxas de doença cardíaca no país. Ao mesmo tempo, outros cientistas, incluindo o fisiologista proeminente Ancel Keys, estavam investigando uma teoria concorrente de que era a gordura saturada e o colesterol dietético que representavam o maior risco para doenças cardíacas.

Hickson propôs contrariar os achados alarmantes sobre o açúcar com a pesquisa financiada pela indústria. “Então podemos publicar os dados e refutar os nossos concorrentes”, escreveu ele.

Manipulação da Pesquisa

Em 1965, o Sr. Hickson financiou os investigadores de Harvard para escrever uma revisão sobre os estudos anti-açúcar. Ele pagou um total de US $ 6.500, o equivalente a US$ 49.000 hoje. O Sr. Hickson selecionou os papéis para que revisassem e deixou claro que queria que o resultado fosse favorável ao açúcar.

O Dr. Hegsted de Harvard tranquilizou os executivos de açúcar. “Estamos bem cientes de seu interesse particular”, escreveu ele, “e vamos cobrir isso como nós podemos.”

Enquanto trabalhavam em sua revisão, os pesquisadores de Harvard compartilharam e discutiram os primeiros rascunhos com o Sr. Hickson, que respondeu que estava satisfeito com o que eles estavam escrevendo. Os cientistas de Harvard tinham descartado os dados sobre o açúcar  e deram muito mais credibilidade aos dados envolvendo gordura saturada.

“Deixe-me assegurar-lhe que este é o que nós tínhamos em mente, e estamos ansiosos para a sua  impressão”, escreveu Hickson.

Depois que a revisão foi publicada, o debate sobre o açúcar e a doença cardíaca morreram, enquanto as dietas de baixo teor de gordura ganharam o aval de muitas autoridades de saúde, disse Glantz.

“Pelos padrões de hoje, eles se comportaram muito mal”, disse ele.

Fontes – nytimes / responsabilidadsociosanitaria / Nosso Foco de 25 de novembro de 2016

Ártico em perigo e o clima global ameaçado

O derretimento do gelo no oceano Ártico poderá causar mudanças profundas ao redor do mundo, aponta novo relatórioFoto: O derretimento do gelo no oceano Ártico poderá causar mudanças profundas ao redor do mundo, aponta novo relatório

Não é novidade que a porção de gelo no Oceano Ártico, que cobre boa parte do Polo Norte terrestre, vem diminuindo consideravelmente de tamanho nas últimas décadas por conta do aumento da temperatura média na região que, por sua vez, acelera o degelo. Nos últimos dois anos, a extensão da cobertura de gelo no Ártico atingiu recordes negativos históricos, sintoma dos recordes sucessivos de altas temperaturas pelo mundo desde 2013. Nesse cenário, o degelo acelerado dos mares do Polo Norte não chega a ser surpreendente, a despeito de ter todos os motivos para ser lamentado.

Entretanto, cientistas e observadores estão surpresos com o comportamento da cobertura de gelo no Ártico no começo desta temporada de frio na região, iniciada há pouco mais de um mês. Geralmente, no período de seis meses que o Polo Norte não recebe luz direta do Sol (outono e inverno no Hemisfério Norte), a queda da temperatura no ar e na água resulta na expansão da área congelada do oceano Ártico. Nos últimos anos, com o aumento das temperaturas mesmo na temporada fria, a expansão da área congelada tem sido relativamente menor.

Neste ano, ao que tudo indica, o cenário tem sido bem diferente: o ritmo de expansão da cobertura de gelo no Ártico está irregular, sendo que, em alguns momentos, ele tem sido negativo – ou seja, ao invés de aumentar, essa cobertura congelada está diminuindo de tamanho, mesmo na temporada mais fria do ano.

“As temperaturas ridiculamente quentes no Ártico em outubro e novembro são totalmente fora do normal em 68 anos de acompanhamento”, aponta Jennifer Francis, cientista climática da Rutgers University, ao site Climate Central.

Evolução da cobertura congelada do oceano Ártico ao longo de 2016, comparada com a média dos anos 1980, 1990 e 2000 e com os anos de 2007 e 2012, a partir de dados do satélite JAXA (crédito: Zack Labe/Climate Central)Evolução da cobertura congelada do oceano Ártico ao longo de 2016, comparada com a média dos anos 1980, 1990 e 2000 e com os anos de 2007 e 2012, a partir de dados do satélite JAXA (crédito: Zack Labe/Climate Central)

O aquecimento das últimas décadas resultou no degelo de porções congeladas mais antigas, que foram substituídas nas temporadas frias por porções congeladas mais recentes, que tendem a ser mais frágeis e passíveis de ruptura e derretimento na temporada quente. Na medida em que as temperaturas aumentam na temporada fria, o gelo que se forma é ainda mais frágil.

O Ártico é uma das regiões mais afetadas pela mudança do clima. O ritmo de aumento da temperatura média é duas vezes maior que a média global. Estima-se que o oceano Ártico poderá ser livre de gelo durante os verões a partir de 2030 e, se o ritmo de aquecimento global forçar um aumento em torno dos 3 graus Celsius até o final do século XXI com relação aos níveis pré-Revolução Industrial, o cenário pode ser assim também durante o inverno.

O degelo no Ártico trará impactos globais que ainda estão sendo analisados pela ciência, mas um impacto garantido desse processo é o desaparecimento do ecossistema que existe nessa grande porção congelada do planeta. O Arctic Resilience Report, publicado na última sexta-feira (25/11) pelo Conselho Ártico (organização intergovernamental que reúne governos, ONGs e universidades dos países da região ártica), traz a primeira análise compreensiva sobre a situação da região ártica e as perspectivas naturais e humanas nas próximas décadas.

Baseado em cinco anos de pesquisa científica, o relatório identifica 19 pontos de inflexão (ou de mudanças estruturais) que podem ser observados no ecossistema ártico e afetá-lo profundamente nos próximos anos e décadas, enfraquecendo a capacidade de sobrevivência da fauna, flora e das comunidades humanas tradicionais da região ártica. Os pontos de inflexão ocorrem quando um sistema natural, como a cobertura de gelo polar, passa por mudanças repentinas e devastadoras que acarretam efeitos profundos – e, muitas vezes, irreversível – sobre os ecossistemas de seu entorno.

O estudo não apenas identifica esses pontos, mas explora as conexões entre eles, de maneira a examinar os fatores que podem suportar a resiliência e a adaptação das comunidades e dos sistemas naturais nessa região. “Uma das descobertas mais importantes deste estudo é que as mudanças estruturais estão acontecendo de maneira que existe o perigo de que uma mudança possa engatilhar outras, com efeitos inesperados”, explica Johan L. Kuylenstierna, diretor executivo do Instituto Ambiental de Estocolmo, uma das instituições envolvidas na pesquisa.

Entender os processos atuais e projetar as mudanças possíveis no futuro é fundamental para garantir a sobrevivência do ecossistema ártico nas próximas décadas, aponta Johan Rockström, do Centro de Resiliência de Estocolmo e um dos líderes do projeto. “Compreendemos poucos sobre como as mudanças estruturais integram umas com as outras. Se várias mudanças se reforçam, os resultados poderiam ser potencialmente catastróficos. A variedade de efeitos que podemos observar significa que as pessoas e as políticas devem estar preparadas”.

Rockström alerta também para o efeito maior que as alterações no Ártico poderão acarretar para o resto do planeta. “Esperamos também que algumas dessas mudanças desestabilizem o clima global, com impactos potencialmente maiores”.

Para muitas comunidades árticas, o esforço de adaptação já é parte do desafio cotidiano. O relatório aponta que muitas perderam sua subsistência e estão lutando para sobreviver ou para manter sua identidade cultural. “A mudança do clima está estressando severamente a subsistência dos povos árticos, e a capacidade de construir resiliência dessas comunidades frente a esses estresses é bem limitada”, diz Miriam Hultric, uma das autoras do estudo. “Sem uma rápida ação para conter a mudança do clima, reduzindo as emissões de carbono, a resiliência do Ártico será superada”.

Fonte – Bruno Toledo, Página 22 de 28 de novembro de 2016

Mediterrâneo acumula cerca de 1,4 mil toneladas de plásticos

97% dos resíduos marítimos achados por pesquisadores no Mediterrâneo foram plásticos97% dos resíduos marítimos achados por pesquisadores no Mediterrâneo foram plásticos. Foto: iStock

A superfície do Mar Mediterrâneo, sobretudo em zonas litorâneas, abriga cerca de 1.455 toneladas de resíduos plásticos que são uma grave ameaça para as espécies marinhas, a saúde e a economia.

Esta é a principal conclusão de um estudo publicado na revista “Environmental Research”, no qual seus autores advertem que “em menos de 100 anos estes resíduos plásticos passaram a fazer parte do ecossistema marinho”.

Os resultados, obtidos por uma equipe de cientistas liderada pelo Conselho Superior de Pesquisas Científicas (CSIC) espanhol no marco do projeto de pesquisa NIXE III, revelam a presença de resíduos plásticos em todas as amostras marinhas tomadas.

“97% dos resíduos marítimos achados nestas amostras foram plásticos”.

Durante várias viagens realizadas em 2011 e 2013, os pesquisadores repetiram pelo Mediterrâneo os percursos históricos que Luis Salvador da Áustria realizou há 100 anos, a fim de comparar resultados.

A primeira das expedições foi realizada desde as ilhas Baleares até os mar Adriático, enquanto a segunda foi desde as Baleares ao mar Jônico.

Foram analisadas 70 amostras da superfície marinha e os dados mostram, que de média, continham cerca de 147,5 mil partículas de plástico por quilômetro quadrado.

Estes resultados em todo Mediterrâneo daria um número de cerca de de 1.455 toneladas de plástico.

“Estas partículas supõem uma grave ameaça para o ecossistema marinho e poderiam ter grandes consequências na saúde humana e nas atividades econômicas”, explica Luis F. Ruiz-Orelhudo, pesquisador do CSIC.

O tamanho dos plásticos localizados é variado embora em todas as amostras foram encontrados microplásticos -de menos de 5 milímetros-, e as partículas mais abundantes são aquelas que medem ao redor de 1 milímetro.

Os plásticos sofrem um processo de fragmentação quando se encontram em mares e quanto menor é seu tamanho aumentam os organismos para os quais está disponível a partícula e, portanto, sua repercussão na cadeia alimentar”, afirma Ruiz-Orelhudo.

É imprescindível -aponta o pesquisador- fazer um acompanhamento da poluição por plásticos dos mares, conhecer as possíveis zonas de acumulação, apesar de variabilidade das correntes no Mediterrâneo, e apresentar nova informação aos modelos de distribuição.

Fontes – EFE / Portal Terra de 28 de setembro de 2016

Quando a cidade vira uma grande horta

Essbare Stadt Andernach

Andernach, no oeste da Alemanha, aproveita canteiros, terrenos baldios e até rotatórias de trânsito para plantar frutas e verduras. Enquanto moradores enchem a sacola, iniciativa reduz vandalismo e atrai turistas.

As abobrinhas acabaram – quase todas colhidas. Só sobraram uma ou outra meio amareladas. Para compensar, a abóbora é gigantesca. “Não colheram ainda”, diz a senhora Pfeiffer, que aproveitou o dia ensolarado para passear com o cão. “Espero que eu possa beliscar umas uvas”, diz, piscando, e sai apoiada no andador. O cachorro cheira algumas plantas, mas, antes de tentar levantar a perna, sua dona dá um puxão na coleira e o faz desistir da ideia.

Ao longo das históricas muralhas da cidade de Andernach, prosperam os pés de ameixas, marmelo e caqui – quase esquecidos perto dos tradicionais morangos e vagens. A alguns metros de distância, entre o repolho e couve-rábano, uma placa avisa que os vegetais ainda não estão prontos para serem colhidos.

“Não temos mais nenhum problema com vandalismo desde que plantamos vegetais comestíveis nos canteiros”, conta Karl Werf, funcionário do Juizado de Menores de Andernach e co-organizador do projeto Cidade Comestível.

Colheita autorizada

Brilhando no sol, as uvas verdes dão água na boca para quem passa por ali, mesmo que só estejam boas para colher dentro de algumas semanas. “Com nossa Cidade Comestível, captamos a tendência do momento”, diz Werf. “As pessoas têm cada vez mais prazer em explorar a cidade e mexer na terra.”

defaultÉ permitido pegar, mas só quando as verduras estiverem prontas para colher

Qualquer um pode plantar hortas em terrenos baldios, rotatórias de trânsito e faixas de grama. Seja acelga ou repolho, os diversos vegetais servem não apenas para embelezar a cidade às margens do Reno, mas também para torná-la mais ecológica. Em pequenas praças e à beira de alguns edifícios, é possível encontrar caixas de madeira com várias espécies de ervas. Os moradores colhem o que a cidade planta.

“Já levei alface e couve-rábano”, conta uma mulher que aproveita a pausa de almoço para tomar um pouco de sol em um banco perto dali. Enquanto isso, uma mãe leva o filho em um carrinho pela trilha de terra. Ela considera incrível a ideia de que cada um pode se servir do que quiser.

Quando passeia, ela conta que sempre presta atenção para ver se acha alguma fruta madura. Questionada se a sujeira dos animais que passam por ali diminui o apetite pelos vegetais e frutas frescas, ela discorda. “Mesmo se isso acontecesse, não. Gatos e doninhas frequentam o meu jardim. Os fazendeiros também usam fertilizantes – qualquer coisa, é só lavar”, afirma.

Mais turistas

O interesse pela “Andernach Comestível” é enorme. Karl Werf acompanha equipes de reportagem e delegações internacionais pelas ruas, para atrair mais atenção às hortas da cidade. Em uma área longe do centro, vegetais e frutas são cultivados comercialmente – sem estufa, em consonância com as estações do ano.

defaultNo chão, agora há verduras – no lugar de lixo

Trata-se de um jardim utilizado para ensino, um modelo para a chamada permacultura. Espécies raras e ameaçadas de porcos, galinhas, vacas e ovelhas também são criadas ali. E esses produtos regionais e sasonais ainda rendem dinheiro.

Além disso, o conceito atrai turistas. “Viemos a Andernach especialmente para conhecer a Cidade Comestível”, diz um casal da região da Renânia-Palatinado. “A gente se interessa muito por arbustos. Nosso jardim é cheio deles. Não temos rosas, só cardos e repolho”, explicam.

Vestindo chapéus e levando mochilas, eles caminham pelo portão da cidade e seguem a rota sinalizada. Os canteiros urbanos precisam de muitos cuidados, porém, economiza-se tempo através do projeto integral, explica o co-organizador Karl Werf. Orgulhoso, ele conta sobre turistas que perguntam pelo nome das plantas floridas nas hortas da cidade – e que, na verdade, são batatas ou ervas aromáticas.

No meio dos canteiros, alguns homens capinam e aram a terra. O projeto também tem um aspecto social: pessoas há muito tempo sem emprego e refugiados preparam-se para uma vida de trabalho – o que é uma abordagem sustentável e holística, explica Karl Werf.

“Gosto de trabalhar aqui porque assim posso ter um dia a dia regrado”, conta um funcionário que prefere se manter anônimo. Mesmo que todo mundo possa vê-lo ajoelhado diariamente por entre flores e verduras, ele não se sente confortável para falar sobre o fato de estar desempregado. Mas com o trabalho, afirma ele, é possível devolver algo à sociedade que o apoia financeiramente nos tempos difíceis.

Fonte – DW

Ministério da Saúde lança o Relatório Nacional de Vigilância em Saúde de Populações Expostas a Agrotóxicos

O Ministério da Saúde, através da Secretaria de Vigilância em Saúde, lançou recentemente o Relatório Nacional de Vigilância em Saúde de Populações Expostas a Agrotóxicos.

O texto é uma grande compilação de dados e análises sobre uso de agrotóxicos, intoxicações e suas decorrências, como suicídios. Fala ainda sobre a política de vigilância das populações expostas, nos municípios prioritários e grandes regiões. A questão da contaminação da água também abordada.

É um material para se entender a realidade dos agrotóxicos no Brasil, chocar-se diante de tamanho absurdo e ter sempre à mão para agir.

Fonte – Campanha permanente contra os agrotóxicos e pela vida de 01 de outubro de 2016

Cientistas apontam 10 ações políticas para proteger polinizadores

Cientistas apontam 10 ações políticas para proteger polinizadoresAbelhas são responsáveis por polinizar mais de 50% das plantas das florestas tropicais e 73% de todas as culturas agrícolas do mundo. Foto: AFP

Animais como as abelhas garantem produção de alimentos no mundo, mas estão em declínio; entre as medidas está a regulação de pesticidas

Um novo artigo na revista Science, produzido por uma equipe internacional de 12 cientistas, com participação brasileira, aponta 10 ações políticas que os governos de todo o mundo devem tomar para proteger os animais polinizadores.

Os serviços prestados pelos polinizadores são considerados pelos cientistas fundamentais para a produção de alimentos – especialmente no caso das abelhas, que são responsáveis por polinizar mais de 50% das plantas das florestas tropicais e 73% de todas as culturas agrícolas do mundo.

Mas os polinizadores estão sofrendo um declínio de grande escala, de acordo com uma recente avaliação global realizada pela Plataforma Intergovernamental de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES) – um órgão que fornece base técnica e científica à Convenção da Diversidade Biológica, apelidado pelos pesquisadores de “IPCC da Biodiversidade”.

As 10 medidas para proteção dos polinizadores – que incluem a regulação de pesticidas, o incentivo a sistemas agrícolas diversificados e o monitoramento de longo prazo – tiveram base em um exaustivo estudo produzido pelo IPBES e foram definidas por um grupo de 12 cientistas, incluindo três pesquisadoras brasileiras.

A publicação teve a participação de Carmen Pires, da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, Blandina Viana, do Instituto de Biologia da Universidade Federal da Bahia e Adriana Lopes, da Universidade Federal de Pernambuco.

De acordo com Carmen, o objetivo da equipe era sugerir 10 ações políticas claras e bem definidas para que os governos possam combater o problema do declínio dos polinizadores e assim proteger a produção de alimentos.

Segundo ela, o conjunto de recomendações é parte de um relatório produzido pelo IPBES, cujo resumo foi aprovado na última reunião da COP da Biodiversidade, em Kuala Lumpur e que será discutido na próxima COP, no México.

“É um documento muito robusto. Nós produzimos o sexto capítulo, que trata das políticas públicas que devem ser realizadas para reduzir os impactos sobre os polinizadores. Por isso a Science nos convidou para produzir o artigo”, disse Carmen ao Estado.

A primeira das recomendações é estabelecer padrões mais restritivos na regulação dos pesticidas. “Hoje, se você observar, apenas a abelha europeia, a Apis mellifera, é utilizada para as análises de impacto de agrotóxicos. Precisamos que protocolos de outras espécies entrem nessas análises. Também é preciso avaliar os efeitos indiretos e não letais dos agrotóxicos, porque hoje só se avalia os impactos a partir da toxicidade aguda, isto é, se o produto mata ou não o inseto”, disse Carmen.

Os cientistas também recomendam promover o manejo integrado de pragas. Antes de decidir pelo uso de um pesticida, o produtor deve observar o nível de dano que realmente é causado pela praga. “É preciso monitorar. Se uma lagarta na soja não causa real dano econômico, não vale à pena aplicar o pesticida. É preciso também escolher produtos menos tóxicos para as abelhas e sempre começar pelo controle biológico: produtos químicos devem ser o último recurso.”

Os governos também devem incluir os impactos indiretos e não-letais nas análises de riscos de sementes transgênicas, além de regulamentar os fluxos de polinizadores manejados.

“No Brasil temos uma legislação para importação de agentes de controle biológico. Não se pode simplesmente trazer uma nova espécie de abelhas que não existe no Brasil sem uma avaliação de riscos. Mas, de modo geral, os países não têm essa regulamentação”, declarou Carmen.

Outra ação recomendada pelos cientistas é desenvolver incentivos para que agricultores se beneficiem ao trocar agroquímicos por serviços fornecidos pelos ecossistemas.

“É preciso premiar quem protege os polinizadores, em vez de punir quem não protege. Se o produtor consegue produzir sem agrotóxicos, manter áreas de vegetação natural e controlar o uso de pesticidas, ele tem que ser incentivado.”

A polinização, segundo os pesquisadores, deve ser levada em conta pelos serviços de apoio ao agricultor, mostrando que ela é um fator central para a produção. “As empresas de extensão rural devem reconhecer a importância da polinização como um insumo agrícola importante. O serviço de extensão público tem que ser fortalecido e orientar sobre pragas, pesticidas, mas também sobre a proteção dos polinizadores.”

Os cientistas também recomendam o apoio aos sistemas agrícolas diversificados. “Nós precisamos fortalecer a agricultura de base ecológica. Vários trabalhos científicos mostram que áreas pequenas e diversificadas – com mais vegetação natural e culturas intercaladas – protegem mais o polinizador que as áreas de monoculturas. É preciso incentivar o que chamamos de ‘intensificação ecológica'”, disse Carmen.

Os governos também devem conservar e restaurar a “infraestrutura verde” – uma rede de hábitats entre os quais os polinizadores podem se mover -, em paisagens agrícolas e urbanas. “Investir na infraestrutura verde permite que os polinizadores se movam entre os ambientes. É preciso ter manchas de vegetação natural e corredores até mesmo nas paisagens urbanas – como se faz em algumas cidades americanas, onde se plantam flores melíferas nos jardins”, explicou Carmen.

As últimas recomendações consistem em desenvolver sistemas de monitoramento de longo prazo de polinizadores e financiar pesquisas sobre a melhora de rendimento na agricultura orgânica, diversificada e ecologicamente intensificada.

“Sentimos falta de dados de monitoramento de longo prazo, para saber se as comunidades de abelhas estão ou não diminuindo. Só é possível tomar decisões com esse tipo de dados. E é preciso criar um fundo global para pesquisa para promover a agricultura que tem base na intensificação ecológica”, disse.

10 ações para proteger os polinizadores:

1 – Estabelecer padrões mais restritivos na regulação dos pesticidas.

2 – Promover o manejo integrado de pragas.

3 – Incluir efeitos indiretos e não-letais nas avaliações de riscos de sementes transgênicas

4 – Regulamentar a importação de polinizadores manejados

5 – Desenvolver incentivos para que agricultores se beneficiem ao trocar agroquímicos por serviços fornecidos pelos ecossistemas

6 – Serviços de extensão para orientação de produtores devem reconhecer a polinização como um insumo importante da agricultura

7 – Apoiar sistemas agrícolas diversificados

8 – Conservar e restaurar a “infraestrutura verde” – uma rede de hábitats entre os quais os polinizadores podem se mover -, em paisagens agrícolas e urbanas

9 – Desenvolver monitoramento de longo prazo de polinizadores

10 – Financiar pesquisa sobre a melhora de rendimento na agricultura orgânica, diversificada e ecologicamente intensificada

Fonte – Fábio de Castro, Estadão de 28 de novembro de 2016

Golpe na Anvisa: para agência, agrotóxico na comida é “aceitável”

Nota de repúdio da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida à publicação pela Anvisa do PARA 2013-2015.

A Anvisa publicou na última sexta-feira (25) um novo relatório do Programa de Avaliação de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos (PARA). O PARA cumpriu, nas edições de 2010 a 2012, um papel importantíssimo, oferecendo à população acesso à informação de que havia agrotóxico nos alimentos que chegam à mesa. Em 2010, por exemplo, soubemos pelo PARA que em 37% dos alimentos não foram encontrados resíduos de agrotóxicos. Esse número caiu para 22%, em 2011, e depois voltou a 35% e 37% nas duas edições de 2012.

Desde então, o consumo de agrotóxicos no Brasil subiu 11%, atingindo 914 mil toneladas em 2014. As intoxicações por agrotóxicos agrícola notificadas subiram 17%, chegando a 4423 registros em 2014.

Mas, surpreendentemente, o relatório da Anvisa que analisa os resíduos de agrotóxicos entre 2013 e 2015 mostra que a situação está ótima. 42% das amostram estão limpas, e “apenas”  1% das amostras representa risco agudo à saúde. Nesse caso, recomenda a agência, lavagem com água corrente com bucha ou escovinha pode reduzir o nível de agrotóxicos.

Será possível?

Há vários problemas no relatório do PARA 2013-2015. Vamos colocar apenas alguns deles:

  • De acordo com dados do Ibama (2014), 56% do consumo de agrotóxicos no Brasil se concentra em duas substâncias: glifosato e 2,4-D. Nenhuma das duas foi testada no PARA. Além disso, o número total de agrotóxicos testados diminuiu.
  • Para cada cultura, a quantidade de amostras por ingrediente ativo é irregular. Por exemplo, para o arroz, 746 amostras foram testadas para o Tebuconazol, mas somente 247 para o Tiametoxam. Neste caso, é muito difícil fazer afirmações estatísticas, e tirar conclusões seguras.
  • A conclusão de que apenas 1% dos alimentos analisado representa risco agudo à saúde oculta diversos outros riscos. O primeiro deles é das doenças crônicas, como câncer, depressão, suicídio, doença celíaca e outras que aparecem ao longo de muitos anos de exposição. Outra falha grave é desconsiderar a multiexposição, já que, como mostra o próprio relatório, uma grande parte das amostras apresenta mais de um agrotóxico. Não se sabe os efeitos disso para a saúde.
  • Além disso, a conclusão que de cada 100 amostras, uma possui risco de causar doença aguda, é gravíssima, e não significa um nível de “segurança alimentar aceitável”, como afirma o relatório.
  • O Sindiveg estima que 20% dos agrotóxicos são contrabandeados. Como estes venenos “desconhecidos” estão sendo avaliados?

Nossa campanha já vem denunciando graves problemas de atuação da Anvisa no sentido de atender aos interesses empresariais, e virar as costas para a população. Este relatório apresenta uma clara tentativa de ocultar os problemas causados pelos agrotóxicos no Brasil. Afirmar a lavagem de alimentos como possível solução é um perigo para a sociedade, e demonstra um gravíssimo retrocesso no PARA, e na Anvisa em geral. A quase totalidade dos agrotóxicos possuem ação sistêmica, ou seja, operam “por dentro” e não na superfície dos vegetais.

Seguiremos atentos e denunciando que é o modelo do agronegócio que torna nossa agricultura insustentável e quimicamente dependente. Sementes transgênicas degeneram nossa biodiversidade e levam ao uso de mais agrotóxicos, que por sua vez intoxicam que planta e quem come. Seguimos firmes afirmando a agroecologia como única forma de produção de alimentos saudáveis para o Brasil e mundo.

Fonte – Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida de 27 de novembro de 2016