Entenda a crise da baunilha que tem abalado a confeitaria mundial

Favas da baunilha, utilizada em diversos pratos da culinária mundialFavas da baunilha, utilizada em diversos pratos da culinária mundial Foto: Alex Silva|Estadão

Madagáscar, produtora de 80% da baunilha utilizada em todo o mundo, passa por problemas de clima e políticos e ameaça mercado. Confeiteiros tentam segurar eventual alta nos preços e procuram alternativas com outros fornecedores

O mundo da confeitaria está alvoroçado. Tudo por causa de um ingrediente essencial à arte dos doces, a baunilha. Há uma crise grave envolvendo o produto, que vem provocando o aumento de preços nos últimos anos. A baunilha custa hoje dez vezes mais do que custava há cinco anos. E o problema foi intensificado recentemente por causa de um ciclone que destruiu 30% das plantações em Madagáscar, o maior produtor mundial.

Baunilha é uma especiaria cara – as sementes usadas para perfumar e dar sabor aos doces são encontradas no interior de favas de um tipo de orquídea, a Vanilla planifolia. Dá um trabalho absurdo produzi-las. A polinização tem de ser feita manualmente, assim como a colheita e o processamento, que envolve lavar as favas em água quente, secar, enrolar em mantas de lã por 48 horas e depois deixar secar ao sol. Leva meses.

Com tamanha intensidade de trabalho, a produção é limitada. Por causa disso, anos atrás, a indústria substituiu a baunilha natural por um aromatizante sintético, a essência de baunilha, muito mais barato. Acontece que com a recente guinada em direção aos produtos naturais, na última década, a demanda pela baunilha natural aumentou muito – até gigantes como a Nestlé e a Hershey’s foram obrigadas a trocar a essência artificial pela baunilha natural – mas a produção ainda não cresceu. A orquídea leva cinco anos para começar a produzir e depois que a baunilha é colhida, mais dois anos para a próxima safra. O problema está sendo sentido no mundo todo.

A crise foi severamente aprofundada pelo ciclone Enawo, que atingiu Madagáscar em março. A ilha é a maior produtora da especiaria no mundo e passa por um período extremamente conturbado. O desastre natural destruiu pelo menos um terço da safra e deixou cinquenta mortos. Com isso, o preço do quilo disparou: passou de U$ 54 em 2014 para U$ 444 em 2017, segundo informações do importador Didier Jaumont, que fornece baunilha para alguns dos principais confeiteiros de São Paulo.

A cidade já começa a sentir os efeitos dessa instabilidade, pelo menos na distribuição. Nelo Linguanotto, diretor-executivo da Bombay, marca de ervas, especiarias e pimentas, teve que procurar alternativas. “Tivemos problemas de fornecimento, o que impactou a qualidade e o preço do produto”, afirma. Neto explica que a empresa trocou seus fornecedores e se voltou para outros mercados. Países como o México e a Indonésia viraram uma alternativa.

O trabalho de Viviane Wakuda, confeiteira que fornece doces yogashi para diversos restaurantes em São Paulo, já foi afetado pela crise da baunilha. Ela diz que notou a alta desde o ano passado, mas que tem segurado o repasse para os clientes. E reduziu os produtos elaborados com o ingrediente. “Meu carro-chefe é o choux cream, que leva baunilha. Mas tenho usado itens como o matchá para receitas novas”, afirma. Ainda têm baunilha mas diz que guarda como ouro.

A destruição provocada pelo ciclone não é capaz de explicar a complexidade da crise. Jaumont diz que o problema se explica também por causa da preferência do consumidor. “Os clientes querem a baunilha bourbon, que só é encontrada na região de Madagáscar.”

Problemas estruturais de Madagáscar complicam ainda mais o imbróglio. A baunilha se tornou objeto de grande desejo na ilha. Com as plantações localizadas em fazendas difíceis de policiar, e os preços elevados, os roubos são frequentes. Para evitar a vulnerabilidade das plantações, algumas empresas têm comprado lotes inteiros e colhem a baunilha antes do tempo. Isso faz com que sejam necessárias mais favas para se extrair a quantidade de vanilina, o principal composto presente nas favas, primordial fazer o extrato e a essência.

Produto vem se tornado artigo de luxo em confeitarias de São PauloProduto vem se tornado artigo de luxo em confeitarias de São Paulo Foto: Alex Silva|Estadão

Jaumont afirma, que no passado comprava favas de 17 cm a 23 cm, mas hoje é quase milagre encontrar a especiaria com mais de 15 cm.  Com a situação preocupante em Madagáscar já há especulações de que o país vai perder a posição de primeiro produtor mundial para a Indonésia.

Yes, nós temos a nossa

Yes, nós temos baunilha. A Vanila edwalli é encontrada numa faixa de terra que vai do Brasil até o México – o trajeto original deve ter sido inverso, já que a espécie é mexicana nativa. A especiaria, usada pelos astecas para perfumar o txocolat, foi levada para o mundo pelos espanhóis, assim como o cacau, entre outros produtos.

Aqui, onde chegou naturalmente, é encontrada principalmente em Goiás e conhecida como a baunilha do Cerrado. Simon Lau, chef dinamarquês radicado em Brasília, trabalha com o que chama da baunilha “original”. Ele explica que a baunilha do Cerrado é mais frutada, enquanto a bourbon é mais perfumada, porém ambas podem ser usadas da mesma forma na confeitaria e cozinha.

O chef conta que prefere usar a baunilha brasileira não apenas pelo sabor, mas também pelo charme que ela tem. A safra vai dos meses de abril a maio e, é nesse curto período que se consegue achá-la. Depois disso, a especiaria some das prateleiras.

O chef tem, inclusive, duas plantações da baunilha do Cerrado para utilização própria. Isso porque, devido ao complicado processo de polinização, existem poucas lavouras voltadas ao comércio. Ou seja, o Brasil poderia estar no mapa da baunilha, mas ainda não conseguiu profissionalizar o negócio.

Existem algumas iniciativas para estimular a produção da baunilha do Cerrado, tornando o produto sustentável e comercialmente viável, entre eles o instituto Atá.

Três formas de perfumar

Fava

A fava da orquídea Vanilla planifolia tem o interior recheado de sementes perfumadas. Cara e de difícil produção, é considerada o melhor aromatizante natural e cobiçada por confeiteiros do mundo todo. Processada manualmente, tem aroma e sabor incomparáveis.

Extrato

O extrato de baunilha é um produto natural, obtido pela infusão de fava e das sementes com bebidas como rum, uísque ou vodca. Por extrair a substância diretamente da planta, é considera-se boa alternativa para receitas.

Essência

A essência, de uso mais popular e comum nas receitas, é um aromatizante sintético, feito a partir de vanilina – não leva baunilha natural e por isso custa menos. É o preferido pela indústria de doces, mas com a onda da valorização de produtos naturais, em que embarcaram até gigantes como Nestlé e Hershey’s, vem perdendo espaço para o extrato natural.

Fonte – Matheus Prado, colaborou Isabelle Moreira Lima, O Estado de S. Paulo de 13 de setembro de 2017

Cinco vídeos da NASA explicando o aquecimento global e suas consequências

A NASA possui uma série de vídeos curtos (em inglês) intitulada ‘Minuto da Terra’, abordando o aquecimento global e as mudanças climáticas. Abaixo é apresentada uma seleção a respeito dos principais temas da ciência climática.

1. Aquecimento global

A temperatura média global da superfície da Terra aumentou no último século. E continuará aumentando no presente século, caso se mantenha inalterada a tendência de emissões de gases de efeito estufa. A temperatura média global é um entre vários indicadores do aquecimento global.

2. Gases de efeito estufa

A atmosfera é composta por gases, entre eles aqueles chamados de efeito estufa. Os gases de efeito estufa interferem na quantidade de energia absorvida e emitida pelo planeta, e com isso em todo o sistema climático. Desde a Revolução Industrial, as atividades humanas tem sido a fonte de aceleradas emissões de gases de efeito estufa para a atmosfera.

3. Fatores que influenciam o sistema climático

O desenvolvimento da ciência do clima ocorreu através do estudo dos fatores que condicionam o sistema climático da Terra, como aqueles citados pelo vídeo – vulcanismo, correntes oceânicas, ou insolação. Foi por meio do conhecimento desses fatores que a ciência avaliou as mudanças registradas no último século, concluindo que elas se devem à alteração na composição dos gases atmosféricos causada pelas atividades humanas.

4. Aumento do nível do mar

O aumento do nível do mar é uma das consequências mais críticas do aquecimento global. O nível do mar está subindo por dois motivos: de um lado, o aumento da temperatura faz as águas expandirem em volume, de outro lado, o derretimento da criosfera (como calotas polares e geleiras) adiciona mais água aos oceanos. Milhares de pessoas vivem atualmente em cidades costeiras, e inúmeras atividades humanas dependem ou estão relacionadas com essa região.

5. Groenlândia

Por que monitorar a Groenlândia é tão importante quando o assunto é aquecimento global? Em primeiro lugar, porque essa região do planeta é mais sensível às alterações no sistema climático, funcionando como um indicador do que pode estar por vir para o restante do planeta. Mas também porque as mudanças na região do Ártico tem implicações extremamente relevantes, tanto em termos do nível do mar, quanto da circulação atmosférica.

Fontes – NASA / Clima e Ciência de 07 de setembro de 2017

100 empresas são responsáveis por 71% das emissões de gases de efeito estufa do mundo

100 empresas são responsáveis por 71% das emissões de gases de efeito estufa do mundo

Desde 1988, 100 empresas foram responsáveis ​​por 71% das emissões globais de gases de efeito estufa no mundo.

Esses dados provêm de um relatório publicado pelo Carbon Disclosure Project (CDP), uma organização sem fins lucrativos. Com base na rápida expansão da indústria de combustíveis fósseis nos últimos 28 anos, eles publicaram alguns números surpreendentes sobre os principais emissores de carbono do mundo.
As emissões de gases de efeito estufa (GEE) são normalmente avaliadas por país, com China, EUA e Índia figurando como os principais emissores do mundo. Já o novo relatório do CDP tem uma abordagem diferente, rastreando as emissões para empresas específicas.
O relatório baseia-se nas emissões de carbono e metano da atividade industrial por produtores de combustíveis fósseis, representando 923 bilhões de toneladas de emissões de dióxido de carbono desde 1988, ano em que o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas foi estabelecido. Isto é mais de metade de todas as emissões globais de GEE industrial desde o início da Revolução Industrial em 1751, de acordo com o relatório.
O que torna a situação ainda pior é o fato de que apenas 25 empresas produziram mais da metade de todas as emissões industriais no período entre 1988 e 2015.
A principal emissora entre estas é a indústria estatal chinesa de carvão, seguida pela Saudi Aramco. A terceira maior emissora é a russa Gazprom. Já a brasileira Petrobras aparece na 22ª posição.
O objetivo deste relatório é equipar os investidores com uma repartição abrangente das emissões de carbono associadas aos seus laços financeiros na indústria de combustíveis fósseis.
“Isso coloca uma responsabilidade significativa sobre esses investidores por se envolverem com os maiores emissores de carbono e exortá-los a divulgar o risco climático”, disse o diretor técnico do CDP, Pedro Faria.
Tendo esses números disponíveis, podemos ter uma imagem muito mais clara dos principais influenciadores quando se trata de cumprir os objetivos estabelecidos no Acordo de Paris.
“A ação climática não se limita mais à direção dada pelos decisores políticos, é agora um movimento social, comandado por imperativos econômicos e éticos e apoiada por quantidades crescentes de dados”, afirma o relatório.
O relatório também apresenta uma visão para o futuro, descrevendo os principais passos que as empresas podem dar para a transição com sucesso para um modelo de negócios em que as emissões são limitadas.
“Se a tendência na extração de combustível fóssil continuar nos próximos 28 anos como ocorreu nos 28 anteriores, as temperaturas médias globais estarão a caminho de aumentar em torno de 4º C acima dos níveis pré-industriais até o final do século”, apresenta o relatório.
As mudanças resultantes em nosso planeta nos colocariam no caminho certo para um clima que nenhum humano que já viveu tenha experimentado, ameaçando nossa segurança alimentar e tornando regiões inteiras da Terra inadequadas para se viver.
“As empresas de combustíveis fósseis também terão de demonstrar liderança nesta transição”, afirma Faria. “Todos devemos estar conscientes da nossa responsabilidade compartilhada, o que implica aprender com o passado, mas mantendo os olhos no futuro”.
Você pode ver a lista completa das 100 empresas e ler o relatório completo aqui (em inglês).
A crise climática do século 21 foi causada por apenas 90 empresas (incluindo a Petrobrás)?

Emissões de gases pelos carros, desmatamento e queimadas são vistos como alguns dos maiores vilões causadores do aquecimento global. Mas uma nova pesquisa demonstra que os maiores culpados pela crise climática do século 21 são as empresas. Mais especificamente 90 delas, que produziram cerca de dois terços das emissões de gases de efeito estufa desde o alvorecer da era industrial. Entre esses provacadores, constam nomes como Petrobrás, Chevron, Exxon, BP, British Coal Corp, Peabody Energy e BHP Billiton.
A maioria dessas empresas está (ou já esteve) envolvida com produção de petróleo, gás ou carvão – a queima desses combustíveis fósseis intensifica o efeito estufa. Apenas sete empresas não estão envolvidas na área – eram produtoras de cimento.
Metade das emissões estimadas foi produzida nos últimos 25 anos. Nesse período, os governos e corporações já estavam conscientes de que o aumento das emissões de gases provenientes da queima de combustíveis fósseis estava causando uma mudança climática perigosa.
Atualmente, muitas dessas mesmas 90 empresas controlam reservas substanciais de combustíveis fósseis que, se forem queimados, podem colocar o mundo em um risco ainda maior de uma mudança climática alarmante.
As maiores empresas foram responsáveis por uma parcela desproporcional das emissões. Cerca de 30% delas foram produzidas por apenas 20 corporações. Os dados correspondem a oito anos de pesquisa exaustiva da Climate Accountability Institute sobre as emissões de carbono ao longo dos anos e do histórico dos grandes emissores.
Estatais
A lista de empresas conta com 31 companhias estatais, como a Petrobrás, Saudi Aramco (da Arábia Saudita), Gazprom (da Rússia) e Statoil (da Noruega). Nove eram indústrias estatais de produção de carvão em países como China, a antiga União Soviética, Coreia do Norte e Polônia.
Cálculos indicam que as empresas estatais de petróleo da União Soviética lideram as emissões de gases de efeito estufa – cerca de 8,9% do total. A China fica com o segundo lugar, sendo responsável por 8,6% das emissões globais totais. Entre as empresas não governamentais, a ChevronTexaco é líder, tendo liberado 3,5% das emissões de gases de efeito estufa até agora. A empresa é seguida pela Exxon (3,2%) e pela BP (2,5%).
O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) já alertou que, se continuarmos no ritmo atual de emissão de gases de efeito estufa, o mundo terá apenas mais 30 anos para esgotar sua “cota de carbono” – a quantidade de dióxido de carbono que poderia ser emitida sem entrar na zona de perigo, com aquecimento acima de dois graus Celsius.
 

A lista do The Guardian com infográfico de destacar: Which companies caused global warming?

A especialista em Mudanças Climáticas e Sequestro de Carbono, da Universidade Positivo (Curitiba), Mônica Pinto, que concedeu entrevista a jornalista Andrea Margon, de Vitória (ES), está preocupada com o impacto da exploração do pré-sal.

Diz ela:
“Para se ter uma ideia do impacto da indústria petrolífera, basta dizer que a Exxon Mobil, a maior companhia do mundo no negócio de petróleo e gás, tem parcela superior na emissão mundial de gases de efeito estufa – com ênfase para o dióxido de carbono – do que a maior parte de países inteiros. Em outros termos, se fosse um país, a companhia seria o sexto maior do planeta em emissões de C02, ultrapassando inclusive nações desenvolvidas como o Canadá e o Reino Unido”.

Já no caso da Petrobras, Mônica Pinto destaca:
“Passando ao caso brasileiro, a Petrobras tem se mostrado razoavelmente atenta à nova ordem. Lançou o Projeto Estratégico Mudança Climática, incorporado a seu Planejamento Estratégico 2020, em que estabelece indicadores, metas e políticas relativos às suas emissões de CO2 e à eficiência energética. Trata-se de um exercício de sensatez porque nenhum país que tenha reservas de petróleo abrirá mão de usá-las. Isso é utópico, ainda mais tendo em vista que o mundo está longe de exterminar a dependência de combustíveis fósseis, que se verifica em maior ou menor grau conforme cada Nação. O que se mostra absolutamente fundamental é investir concretamente nas alternativas viáveis no campo da geração energética renovável, com a urgência que o cenário requer. Sempre digo que se observam hoje avanços no campo da qualidade ambiental, mas não na velocidade desejável, pois a Terra tem pressa”.

De acordo com a Fortune, até o final desta década, a Petrobras deverá desbancar a Exxon Mobil como a maior petrolífera listada em bolsa em termos de receita e produção de petróleo. Para José Sergio Gabrielli, presidente da estatal, ultrapassar a norte-americana não é uma meta, apenas um possível resultado.

“Nós temos muito óleo. Nos próximos quatro ou cinco anos estaremos falando de uma companhia que terá entre 30 bilhões e 35 bilhões de barris em reserva. Ninguém no mundo – nenhuma empresa com ações listadas – possui nada parecido”, declarou Gabrielli à revista.

Já que perguntar não ofende: E em caso de vazamento, há um plano de contingência adequado à dimensão do problema?

Segundo a SOS Mata Atlântica, não. Leia mais no site deles: Plano Nacional contra vazamentos de petróleo não garante segurança da costa

Fonte – Carol Daemon de 05 de agosto de 2017

Parem de falar da ameaça das mudanças climáticas: é aqui e agora, já está acontecendo!

Flooding caused by Hurricane Harvey, southeast Texas 31 August 2017. Photograph: UPI / Barcroft Images

Furacão Harvey, furacão Irma, incêndios em nuvem de vapor (flash fires), secas: tudo isso nos diz a mesma coisa – precisamos repensar imediatamente a maneira como vivemos. Para que possamos abordar o assunto de forma adequada, vamos limitar a discussão a apenas um continente e uma semana: a América do Norte ao longo dos últimos sete dias.

Em Houston, começava o trabalho, árduo e nada romântico, de recuperaçãodaquela que os economistas anunciam como sendo provavelmente a tempestade que causou o maior prejuízo na história dos Estados Unidos, e que os meteorologistas confirmaram como sendo o evento de maior precipitação já mensurada no país – em boa parte da sua trajetória, o furacão Irma foi uma tempestade do tipo que acontece uma vez a cada 25 mil anos, o que quer dizer 12 vezes o tempo entre agora e o nascimento de Cristo. Em pontos isolados, sua intensidade foi algo que acontece uma vez a cada 500 mil anos, ou seja, algo apenas visto quando ainda vivíamos em árvores. Enquanto isso, São Francisco não só quebrava seu recorde de temperatura máximacomo esse recorde era superado em 3ºC, o que deveria ser estatisticamente impossível em uma cidade com 150 anos (ou seja, 55 mil dias) de registro de temperatura..

A mesma onda de calor quebrava recordes em toda a costa oeste, exceto nos lugares em que nuvens de fumaça geradas por imensos incêndios florestaisfaziam sombra – depois que um incêndio florestal conseguiu cruzar o enorme rio Columbia, indo do Oregon até Washington, moradores do Pacífico Noroeste relataram que a nuvem de cinzas era tão densa que lembrava a erupção do Monte St. Helens, em 1980.

Um pouco mais adentro do continente, a mesma onda de calor causava uma “secaao longo do cinturão do trigo em Dakota do Norte e Montana – a evaporação causada pelas temperaturas recorde encolheu os grãos ainda na espiga, chegando ao ponto de alguns fazendeiros acharem que sequer valeria a pena colhê-los. No Atlântico, como sabemos, o furacão Irma avançava furiosamente sobre as ilhas do Caribe (“É como se alguém com um cortador de grama vindo do céu estivesse passando por cima da ilha”, disse, chocado, um morador de St. Maarten). No momento, essa tempestade – a primeira de categoria 5, em cem anos, a atingir Cuba – está avançando sobre a costa oeste da Flórida depois de atingir o recorde de menor pressão barométrica já registrado no arquipélago Florida Keys e pode facilmente quebrar o recorde de catástrofe econômica estabelecido há dez dias pelo furacão Harvey, mudando definitivamente a psicologia da vida na Flórida pelas próximas décadas.

Ah, e enquanto o furacão Irma girava, o furacão José o seguia como um grande furacão. O Katia também se tornava uma tempestade assustadora, antes de tocar o solo da península mexicana de Yucatán quase no ponto diretamente oposto ao do epicentro do maior terremoto em cem anos no México, que tirou dezenas de vidas.

Afora o terremoto, cada um desses eventos confirma o que cientistas e ambientalistas vêm tentando nos dizer há 30 anos, sem muito sucesso, sobre o que esperar do aquecimento global. (Na realidade, há evidências bastante convincentes de que as mudanças climáticas estão provocando mais atividade sísmica, mas não precisamos forçar a barra.)

Essa longa sequência de notícias vindas de apenas um continente em uma única semana (que poderia ter sido escrita abordando outros continentes em diferentes semanas – basta ver, por exemplo, a recente enchente no sul da Ásia –) é um retrato preciso, pixel por pixel, de um mundo em aquecimento. Como já queimamos muito petróleo, gás e carvão, nós criamos nuvens gigantescas de CO2 e metano no ar; como as estruturas dessas moléculas acumulam calor, o planeta aqueceu; como o planeta aqueceu, nós podemos sofrer precipitações mais intensas, ventos mais fortes e florestas e campos mais secos. Não é nenhum mistério, de forma alguma. Não é uma onda de má sorte. Não é por causa de Donald Trump (embora ele obviamente não esteja ajudando). Não é o fogo do inferno enviado para nos punir. É física.

Imaginar que os avisos dos cientistas realmente comoveriam as pessoas talvez tenha sido esperar demais. (Quero dizer, eu escrevi The End of Nature, o primeiro livro sobre isso tudo, há 28 anos recém-completados, quando eu mesmo tinha 28 anos e quando minha teoria ainda era: “As pessoas vão ler meu livro e, com isso, elas vão mudar”). Talvez seja como aquelas recomendações de que deveríamos comer menos salgadinhos e tomar menos refrigerante – o que, a julgar pelas medidas das cinturas da maioria das pessoas, poucos de nós levam muito a sério. A não ser, talvez, quando você chega no médico e ele lhe diz: “Opa, você está com problemas”. Não se trata de: “Continue comendo porcaria e um dia você vai ter problemas”; mas, sim: “Você está com problemas já, agora. Me parece que você já teve um minienfarto ou dois”. Os furacões Harvey e Irma são os equivalentes a um desses ataques isquêmicos transitórios – sim, sua cara está paralisada de um jeito estranho do lado esquerdo, mas pode ser que você continue vivo. Talvez. Se você começar a tomar remédios, comer direito, se exercitar, dar um jeito na vida.

Esse é o ponto em que estamos agora – não na fase do aviso no maço de cigarros, mas já com a tosse desesperadora que faz cuspir sangue. Mas o que acontece se você seguir fumando? Você vai piorar, até chegar a um ponto de não continuar mais. Nós aumentamos a temperatura da Terra em pouco mais de 1°C até agora, o que já foi calor extra suficiente para causar os horrores que estamos presenciando continuamente. E com a energia já acumulada no sistema, vamos chegar a cerca de 2°C, não importa o que fizermos. Isso seria consideravelmente pior do que já está, mas talvez seja suportável, ainda que de maneira custosa.

O problema é que, se tudo continuar desse jeito, essa trajetória nos leva para um mundo 3,5ºC mais quente. Dito de outra forma, mesmo se mantivermos as promessas que fizemos em Paris (que Trump, obviamente, já se recusou a fazer), vamos construir um mundo tão quente que será impossível termos civilizações. Temos que aproveitar o momento em que estamos agora – este momento em que estamos apavorados e vulneráveis – e usá-lo para nos reorientarmos completamente. Cada um dos últimos três anos quebrou o recorde anterior de ano mais quente da história – eles são sinais vermelhos piscando e avisando: “Parem com isso”. Temos que não apenas fazer uma curva em nossa trajetória, como vislumbrado no Acordo de Paris, mas pisar com tudo no freio dos combustíveis fósseis e acelerar as energias solares (e também pensar em metáforas novas que não se refiram a motores de combustão interna).

Essa é uma corrida contra o tempo. O aquecimento global é uma crise que já vem com um limite: ou a resolvemos logo, ou não a resolveremos.

Nós somos capazes de fazer isso. Tecnologicamente, não é impossível – estudos, um após o outro, têm demonstrado que podemos chegar a 100% de energia renovável com um custo viável, mais viável a cada dia, já que o preço de painéis solares e turbinas eólicas continua caindo. Elon Musk, CEO da Tesla, está mostrando que é possível produzir carros elétricos em larga escala, diminuindo cada vez mais a possibilidade de que preços elevados afastem consumidores. Nos cantos mais remotos da África e da Ásia, camponeses estão começando a abandonar os combustíveis fósseis e recorrendo ao sol. Os dinamarqueses acabaram de vender sua última empresa petrolífera e usaram o dinheiro para construir mais turbinas eólicas. Há exemplos o suficiente para fazer com que o desespero seja visto como a fuga covarde que ele realmente é. Mas precisamos, em todos os lugares, caminhar na mesma velocidade, porque essa é, de fato, uma corrida contra o tempo. O aquecimento global é a primeira crise que já vem com um limite: ou a resolvemos logo, ou não a resolveremos. Vencê-la devagar é só uma forma diferente de perder.

Vencê-la rápido o suficiente para que isso faça alguma diferença significa, acima de tudo, combater a indústria dos combustíveis fósseis, a força mais poderosa na Terra até agora. Isso significa adiar outras iniciativas humanas e mudar o rumo de outros gastos. Ou seja, isso significa entrar em pé de guerra: não atirando nos inimigos, mas nos concentrando da mesma maneira como nações e povos se concentram quando alguém está atirando neles. E estão atirando. O que você acha que significa suas florestas estarem pegando fogo, suas ruas alagadas e seus prédios desabando?

Fontes – Bill McKibben, The Guardian /  350.org de 14 de setembro de 2017

Práticas conservacionistas podem evitar que o clima aumente a erosão no Brasil

Erosão do solo na região de Piracicaba, no interior de São Paulo (Foto: Ana Paula Hirama - Wikimedia Commons)Erosão do solo na região de Piracicaba, no interior de São Paulo (Foto: Ana Paula Hirama – Wikimedia Commons)

As mudanças climáticas podem deixar algumas lavouras do Brasil mais vulneráveis à erosão. Mas algumas medidas boas para o meio ambiente também protegem o solo da agricultura

As mudanças climáticas podem deixar algumas lavouras do Brasil mais vulneráveis à erosão. Segundo um estudo inédito coordenado pelo engenheiro ambiental André Almagro, da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, as mudanças nos regimes de chuvas têm o potencial para aumentar a vulnerabilidade de algumas regiões do Brasil à perda de solo. Os pesquisadores avaliaram os cenários até o fim do século. A análise sugere que as regiões mais afetadas, com aumento de até 109%, são o Nordeste e o Sul do Brasil. Do outro lado, reduções de até 71% na taxa de erosividade são estimadas para o Sudeste, o Centro-Oeste e o Norte do país. A pesquisa foi publicada na revista Scientific Reports.

Em entrevista a ÉPOCA, Almagro explica como esse tipo de estudo pode ser usado para orientar práticas preventivas. Com alguns cuidados, é possível proteger melhor o solo cultivado e reduzir as perdas. Essas boas práticas têm a ver com medidas de conservação ambiental.

ÉPOCA – O estudo mostra quando as mudanças climáticas podem aumentar ou diminuir o potencial de erosividade. Qual é o peso do clima em relação a outros fatores como taxa de desmatamento e práticas agrícolas no grau de vulnerabilidade dos solos?
André Almagro – Os fatores intervenientes nos processos erosivos, como chuva, topografia, tipo de solo, uso, cobertura e manejo do solo, são importantes e merecem atenção. No entanto, considerando que a erosão tem a chuva como força motriz, o clima ganha peso, uma vez que é determinante no regime das chuvas. As mudanças no clima alteram a distribuição, intensidade e frequência das chuvas, impactando diretamente na erosividade.

ÉPOCA – Como podemos usar o levantamento do potencial de erosividade? O que podemos fazer para lidar com esse risco aumentado?
Almagro – O levantamento do impacto das mudanças climáticas no potencial erosivo pode ser utilizado para a simulação de cenários, para que possamos saber o que esperar do futuro dos processos erosivos, diminuindo a vulnerabilidade e aumentando a resiliência. Mas esses dados devem ser utilizados em conjunto com demais fatores, tais como índices de seca, disponibilidade hídrica, aptidão agrícola do solo e infraestrutura local, visando ao desenvolvimento de planos de conservação de solo e água para as regiões brasileiras.
Para lidar com o aumento do potencial erosivo, devemos proteger o solo. É necessário que políticas públicas que incentivem a conservação do solo e da água sejam implementadas e efetivadas.

ÉPOCA – Quais são as boas práticas agrícolas que ajudariam a compensar o aumento no potencial de erosividade gerado pelo clima?
Almagro – Práticas conservacionistas como o terraceamento, adubação verde, manejo de pastagens [integração lavoura-pecuária-floresta], plantio direto, plantio de sementes na estação seca, controle de queimadas, recuperação de pastagens e a manutenção de áreas de preservação permanente e reservas legais são exemplos de boas práticas que devem ser adotadas na agricultura para mitigar os efeitos das mudanças climáticas, garantindo segurança alimentar e hídrica.

ÉPOCA – Qual é a importância de manter cobertura vegetal nos topos de morros?
Almagro – As áreas de topos de morro apresentam declividade acentuada e altitude elevada. A vegetação é a grande responsável pela estruturação e estabilidade do solo nessas áreas. Quando a vegetação dessas áreas é suprimida, toda a energia da chuva – que antes era dissipada pela vegetação – atinge diretamente o solo exposto e os processos erosivos ocorrem de maneira mais intensa, desestruturando o solo e podendo ocasionar deslizamentos e acidentes.

ÉPOCA – Um solo erodido se recupera algum dia?
Almagro –  Um solo erodido pode ser recuperado. A erosão é um processo lento e natural de formação do ambiente que, no entanto, é acelerado pela ação humana. Da mesma forma, a recuperação natural de áreas degradadas levaria milhares de anos, mas pode ser acelerada por tecnologias disponíveis. A recuperação de áreas degradadas, por meio de técnicas de estabilização de encostas de voçorocas, plantio de leguminosas para recuperação da fertilidade do solo, plantio de mudas arbóreas para recuperação de matas ciliares e reestruturação do solo. Todas as técnicas de recuperação, no entanto, são mais custosas que as técnicas de conservação. Elas visam recuperar o equilíbrio do sistema. Não é possível o retorno ao estado original.

ÉPOCA – Segundo o estudo, os cenários de mudanças climáticas podem levar a uma redução no potencial de erosividade do Norte do Brasil. Por outro lado, as mesmas mudanças climáticas podem aumentar a fragilidade da floresta. Com menos floresta, há mais solo exposto. Essa redução na área de floresta não aumentaria o risco de erosão na região?
Almagro – Aumentaria. Com a diminuição da erosividade e o aumento da vulnerabilidade das florestas, projeta-se uma tendência de crescimento das áreas agrícolas no Norte do Brasil. De fato, se áreas de florestas forem convertidas em áreas de cultivo, as taxas de perda de solo no decorrer do século XXI podem atingir valores maiores do que os atuais. Por isso, destaca-se a importância da manutenção das áreas de reserva legal, de preservação permanente e da aplicação das boas práticas agrícolas, para que, mesmo com o crescimento do setor, não haja prejuízos dos serviços ambientais prestados pela natureza.

Fonte – Alexandre Mansur, Blog do Planeta de 25 de agosto de 2017

Amamentação pode proteger contra dor crônica após cesariana

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A amamentação por mais de 2 meses protege contra a dor pós-cesariana crônica, com um aumento de três vezes no risco de dor crônica se a amamentação for mantida somente por 2 meses ou menos

A amamentação, após uma cesariana, pode ajudar a administrar a dor após a cirurgia. Mães que amamentaram seus bebês durante pelo menos 2 meses após a operação apresentavam três vezes menos probabilidade de sofrer dor persistente, em comparação com aquelas que amamentaram por menos de 2 meses, de acordo com uma nova pesquisa apresentada no Congresso Euroanaestesia, deste ano, em Genebra.

As cesarianas representam cerca de um quarto de todos os nascimentos no Reino Unido, EUA e Canadá. A dor crônica (que dura mais de 3 meses), após a cesariana, afeta 1 em cada 5 mães. É amplamente aceito que o leite materno é a nutrição mais importante e adequada no início da vida, e a OMS, o Departamento de Saúde do Reino Unido e o Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos EUA recomendam a amamentação exclusiva até os 6 meses de idade. “Mas até agora, pouco se sabia sobre o efeito da amamentação na experiência de dor crônica das mães após a cesariana”, afirma o pediatra Moises Chencinski, criador e incentivador do movimento Eu apoio leite materno (#EuApoioLeiteMaterno).

O estudo, de Carmen Alicia Vargas Berenjeno e colegas do Hospital Universitário Nossa Senhora de Valme, em Sevilha, Espanha, incluiu 185 mães que foram submetidas a uma cesariana no hospital, entre janeiro de 2015 e dezembro de 2016. As mães foram entrevistadas sobre os padrões de aleitamento materno e o nível de dor crônica no local cirúrgico, nas primeiras 24 e 72 horas após a cesariana, e novamente 4 meses depois. Os pesquisadores também analisaram o efeito de outras variáveis ??sobre a dor crônica, incluindo técnica cirúrgica, dor nas primeiras 24-72 horas, educação, ocupação materna e ansiedade durante a amamentação.

Quase todas as mães do estudo (87%) amamentaram seus bebês, com mais de metade (58%) relatando aleitamento materno por dois meses ou mais. “Os resultados mostraram que cerca de 1 em 4 mães (23%) que amamentaram durante dois meses ou menos ainda experimentaram dor crônica, no local cirúrgico, 4 meses pós-operatório, em comparação com apenas 8% daquelas que amamentaram por 2 meses ou mais. Essas diferenças foram notáveis, ??mesmo após o ajuste para a idade da mãe. Outras análises mostraram que as mães com educação universitária eram muito menos propensas a sofrer de dor persistente em comparação com as que tinham menos escolaridade. Os pesquisadores também descobriram que mais de metade (54%) das mães que amamentaram relataram sofrer de ansiedade”, diz o pediatra, autor do blog #EuApoioLeiteMaterno.

Os autores concluem: “esses resultados preliminares sugerem que a amamentação por mais de 2 meses protege contra a dor pós-cesariana crônica, com um aumento de três vezes no risco de dor crônica se a amamentação for mantida somente por 2 meses ou menos. O estudo fornece outra boa razão para incentivar as mulheres a amamentar. É possível que a ansiedade durante a amamentação possa influenciar a probabilidade de dor no local cirúrgico 4 meses após a operação”.

Atualmente, os autores estão analisando dados adicionais das mulheres entrevistadas, entre novembro de 2016 a janeiro de 2017, que, quando combinados com dados de todas as outras mulheres, mostram que a ansiedade está associada à dor cesariana crônica de forma estatisticamente significante.

Fonte – EcoDebate de 14 de setembro de 2017

Alemanices: Sacolas têm preço

defaultMaioria da população alemã tem hábito de utilizar sacolas reutilizáveis ou de papelão

Supermercados e lojas de roupas alemães cobram dos consumidores por sacolas de plástico ou papelão. Medida contribuiu para redução do consumo de 2 milhões de sacolas em um ano na Alemanha.

caixa passa rapidamente as compras, enquanto o cliente corre para colocar tudo dentro… da mochila. Legumes, bebidas, banana, maçã e carne vão todos para dentro da bolsa, de caixas de papelão ou de grandes sacolas reaproveitáveis. As sacolinhas de plástico tradicionais são cada vez menos utilizadas na Alemanha.

O uso de sacolas de pano ou de papelão para carregar compras é um hábito da maior parte das pessoas que vive no país. É só trazer de casa ou adquirir uma no supermercado. Sacolas plásticas, que são grandes o suficiente para uma pequena compra, são vendidas por preços entre 0,05 e 0,20 centavos de euro, mas não em todos os supermercados  – alguns já as aboliram. Sacolas de pano ou de materiais mais reforçados custam até 2 euros.

Os esforços para diminuir o uso de sacolas plásticas também se refletem em lojas de roupas e de departamentos. Se você não quiser pagar entre 10 e 20 centavos de euro por uma sacola, terá que levar a roupa nova dentro da bolsa. A cobrança pela sacola faz parte de um compromisso voluntário assumido pela Confederação do Comércio Varejista Alemão (HDE) em meados de 2016.

A mudança já é sentida. O consumo de sacolas plásticas caiu de 5,6 milhões, em 2015, para 3,6 milhões de unidades, em 2016. O principal fator para essa redução significativa é a meta estabelecida em 2015 pelo Parlamento Europeu para que os países-membros reduzam o consumo de 200 para 40 sacolas plásticas por habitante anualmente. Na Alemanha, o consumo médio anual é de 75 sacolas, segundo a organização Deutsche Umwelthilfe (DUH).

A medida não afeta o uso gratuito das tradicionais sacolinhas plásticos feitas a partir de polietileno para embalar legumes e verduras. Mas várias alternativas estão disponíveis. Para o descarte de lixo orgânico, por exemplo, há sacolas biodegradáveis, menos agressivas ao meio ambiente.

Apesar de terem fama de rígidos separadores de lixo e de promover a reciclagem, os alemães são os que mais produzem resíduos ao ano na Europa. Segundo a DHU, cada cidadão gere uma média de 213 quilos de resíduos de embalagens por ano na Alemanha, seguida de França (185 quilos), Áustria (150 quilos) e Suécia (109 quilos).

E se o consumo de sacolas plásticas diminuiu, a quantidade de resíduos de embalagens cresceu 13% na última década. Um alerta para contradições na proteção do meio ambiente.

Na coluna Alemanices, publicada às sextas-feiras, Karina Gomes escreve crônicas sobre os hábitos alemães, com os quais ainda tenta se acostumar. A repórter da DW Brasil e DW África tem prêmios jornalísticos em direitos humanos e sustentabilidade e vive há quatro anos na Alemanha.

Fonte – DW de 11 de agosto de 2017

Café da Manhã na Passarela: 130 pessoas participam em Marialva

Os pedestres receberam orientações, kit informativo, bottom e um saboroso lanche

Na manhã desta quinta-feira (21) quem utilizou a passarela da BR-376, em Marialva, entre às 7h15 e 8h15, teve uma agradável surpresa. Além de receber orientações sobre educação no trânsito, ganhou bottom e um saboroso lanche. Ao todo, 130 pedestres foram abordados. A animada entrega foi realizada por palhaços, uma iniciativa coordenada pela concessionária de rodovias VIAPAR com o apoio da Polícia Rodoviária Federal (PRF).

Uma das beneficiadas foi a jovem, Andrea Marchiori, de 31 anos. “Utilizo a passarela todos os dias. Depois que ela foi instalada ficou bem mais seguro, uma vez que o fluxo de veículos é muito grande, principalmente nos horários de pico. Mesmo assim, algumas pessoas se arriscam em meio aos ligeiros veículos”, comentou. “A empresa está de parabéns, pois além de concluir a obra está incentivando o uso”.

Apressado para não chegar atrasado ao trabalho, o operador de usinagem, Rodrigo Aparecido de Sá, 33 anos, também elogiou a construção da passarela. “Foi a melhor coisa que fizeram aqui. Passando por cima da estrada não corremos riscos de sofrer acidentes”, disse. “O bom é que ponto de ônibus ficou bem ao lado da passarela. Só não usa quem não quer”.

O supervisor do Centro de Controle e Operações (CCO) da empresa, Ronaldo Parpinelli, destacou que a iniciativa coincide com a “Semana Nacional de Trânsito”. “E a escolha deste ponto tem um motivo especial. É que nesta região está instalado um grande parque industrial onde trabalham muitas pessoas”, informou. “A campanha tem como objetivo incentivar o uso da passarela e evitar acidentes. Preservar vidas sempre é o melhor caminho”.

Investimento

A passarela, inaugurada há dois meses, foi construída pela concessionária VIAPAR ao custo de R$ 1,2 milhão. Ao todo, foram 120 dias de obras. Ela tem extensão total de 200 metros, com largura de 30 metros e 6 de altura. Está localizada no Km 188.

Fonte – Assessoria de comunicação da VIAPAR de 21 de setembro de 2017

O direito à água

Parte do mural Água, origem da vida (Autoria de Diego Rivera)Parte do mural Água, origem da vida (Autoria de Diego Rivera)4

Por que falar de direito à água? Porque cada vez mais este direito pode ser ameaçado por novas circunstâncias políticas e econômicas na sociedade brasileira. Este tópico é muito recente como reflexão e discussão no Brasil e no mundo. Basta dizer que ele nem consta da Declaração Universal dos Direitos Humanos2. Avalio que a sua ausência neste documento que nasceu depois das atrocidades da Segunda Guerra Mundial se deve ao fato de que o direito à água era visto como algo tão assegurado que sequer necessitava ser ressaltado naquela Declaração. Ele somente foi mencionado em documentos internacionais anos mais tarde nas convenções que tratam de minorias que ainda lutam por direitos sociais e individuais como mulheres, crianças e portadores de necessidades especiais. Foi apenas na primeira década deste milênio que a Organização das Nações Unidas teve este tema discutido com maior profundidade ao ter uma resolução pelo direito à água votada pelos países membros, discussão esta pautada pela Bolívia e que em sua primeira votação foi derrotada, sendo aprovada posteriormente em 2010.

É bem verdade que no Brasil este direito já estava presente no Código das Águas3, elaborado nos anos trinta do século passado, ao garantir que as águas públicas deveriam priorizar a “necessidade da vida”. Esta lei garantia o acesso a estas águas, mesmo que fosse necessário aos que dela necessitavam que caminhassem por áreas privadas que as margeassem.

Mas na prática nem sempre este direito foi assegurado aos grupos mais vulneráveis no Brasil. Hoje sabe-se que para proporcionar mão de obra barata para as fazendas de café e para as indústrias do estado de São Paulo, por exemplo, governos federais dos anos quarenta e cinquenta atrasaram obras hídricas no Nordeste como forma de pressionar a migração forçada de moradores de áreas atingidas pelas secas, em um flagrante desrespeito ao direito humano a dessedentação. Favelas e zonas rurais sempre foram relegadas ao esquecimento no acesso a água limpa e de qualidade. Basta lembrar que na última crise hídrica de São Paulo, comunidades periféricas sofreram com a falta de água enquanto as mansões dos bairros ricos da cidade continuaram com as suas piscinas cheias (não se conhece campanha publicitária da Sabesp para que piscinas não fossem abastecidas, apenas as que culpavam o “banho demorado” pelo desperdício de água). E como não lembrar dos povos indígenas do Brasil e de outros cantos do planeta que são expulsos de suas terras muitas vezes porque estas possuem água em abundância, fazendo com que estes mudem para áreas onde terão dificuldade no acesso a rios ou lagos. Isso nos leva a concluir que muitas vezes este direito é negado por interesses políticos e econômicos.

Estudos também demonstraram que por causa da dificuldade no acesso a água de qualidade para o consumo, mulheres em áreas rurais caminham por quilômetros para conseguir chegar as fontes, poços, lagos ou rios e trazê-la para suas casas em latas ou potes carregados em suas cabeças5. Este direito negado também vem vitimando milhões de crianças em todo o mundo com doenças que são transmitidas por águas contaminadas em áreas pobres das grandes cidades e em zonas rurais. Como não concluir que sem direito à água, vários outros direitos também são negados aos mais pobres ou a grupos historicamente vulneráveis. Ao furtar este direito essencial, populações precisam migrar ao seu encontro para fugir da morte e muitas vezes é a morte que encontram nesta busca.

Há um outro aspecto com relação a este assunto nem sempre mencionado: o aproveitamento político que a negação deste direito gera. No Brasil há vários casos. Embora o Nordeste sempre apareça em primeiro plano quando o assunto é a troca de favores políticos por água, como não lembrar dos chamados “políticos de bica d´água” no Rio de Janeiro6 em um passado não muito recente (década de sessenta e setenta), quando lideranças partidárias trocavam votos por bicas d´água nos morros cariocas. Também é o caso das periferias da cidade de São Paulo sua luta por água encanada em suas casas ainda em nossos dias. Há ainda o caso da transposição do Rio São Francisco, vendida como garantidora de água para parte da população nordestina, quando é do conhecimento que aquela água transposta será a garantia de irrigação para grandes plantações do agronegócio no semiárido.

A ideia de que a água é um bem comum a que todos os seres (humanos e não humanos) tem direito vem sendo ampliada basicamente porque ela é cada vez mais um alvo do mercado que nela vê uma oportunidade de lucro a perder de vista. A posse da água ou mesmo de sua distribuição por monopólios empresariais privados em um mundo cada vez mais urbano, coloca em perspectiva até que ponto os governos estão garantindo este direito fundamental para a vida. Assegurá-lo é a garantia de que outros direitos como saúde, higiene, lazer, o cultivo e o preparo de vários alimentos, etc. também serão garantidos. É preciso ressaltar que não basta ser acessível, é fundamental que seja limpa e de qualidade. Algo cada vez mais difícil devido a sua poluição por agrotóxicos no campo e detritos industriais e domésticos nas cidades.

A boa notícia é que esta discussão já vem trazendo resultados positivos em várias localidades do Brasil e do mundo no tocante a garantia do direito à água para as famílias mais carentes. Em nosso país há a tarifa social com bases de cálculo diversos, a depender do estado ou do município7. Em outros lugares existe a discussão sobre a gratuidade de uma quantidade de litros de água per capita8, com o entendimento de que isto garante outros direitos como saúde, higiene, boa alimentação, etc. Para a Organização Mundial da Saúde (OMS) é necessário o consumo mínimo per capita de cem litros diários de água. Este montante seria o suficiente para uma pessoa saciar a sede, ter uma higiene adequada e preparar os alimentos (muitas vezes não levamos em contar que a quantidade de água que possuímos vai incidir na forma como nos alimentamos). Não seria então o caso de garantir que cada cidadão e cada cidadã tenham o direito a estes 100 litros de água e somente paguem o que for consumido acima deste número de referência? O quanto seria economizado em gastos com saúde, por exemplo? Porém, mesmo a suposição deste direito está ameaçada pelo curso da privatização das empresas de distribuição de água no Brasil atualmente.

O mercado da água como uma das últimas fronteiras a ser desbravada por empresas atreladas a este novo negócio é uma realidade vivenciada por várias populações em nosso país. Não que ela não tenha sido privatizada antes em muitas localidades brasileiras, mas esta privatização não estava sob a tutela da lei e o incentivo de governos. Também não significa que sendo pública o direito a seu acesso será garantido. Muitas comunidades ainda reivindicam água em suas torneiras em estados e municípios brasileiros que monopolizam a sua posse. Entretanto, sendo pública isso torna mais fácil a pressão sobre os poderes responsáveis pela sua distribuição, por uma tarifa que contemple os ganhos dos mais pobres ou até mesmo pela distribuição de uma quantidade mínima gratuita que garanta saúde, higiene e alimentação de qualidade. Não devemos e nem podemos demonizar o mundo dos negócios privados, pois o Estado não pode a tudo prover todo o tempo, mas a água é um elemento natural basilar para manter a vida no planeta e a sua monopolização por um grupo econômico é por demais perigoso. O lucro gerado para estas empresas será imenso e há de aumentar em seus balanços anuais, pois diferentemente de outros itens comercializáveis, a água está pronta para a venda tendo como custo a sua distribuição.

A água privatizada não alcançará os que dela necessitam e priorizará apenas aqueles que podem por ela pagar. Os menos favorecidos da sociedade serão, mais uma vez, privados de um direito essencial à sua sobrevivência. Não custa sempre repetir que “água não é mercadoria”.

1 Flávio José Rocha da Silva é Doutor em Ciências Sociais pela PUC-SP e administra a página OPA-Observatório da Privatização da Água no Facebook.

2 Originalmente chamada de Declaração Universal dos Direitos do Homem

3 Confira o Código das Águas.

4 O mural Água, origem da vida, pintado pelo mexicano Diego Rivera, pode ser visitado na cidade do México.

5 Sobre este fato, há uma bela canção chamada A força que nunca seca. Composta por Chico Cesar e Vanessa da Mata, ela é cantada por Maria Bethânia em cd com título homônimo ao da canção.

6 O maior representante destes políticos foi o carioca Chagas Freitas.

7 Atualmente há no Senado um Projeto de Lei para unificar a tarifa social de água e esgoto baseada na renda do usuário. “A medida está prevista no PLS 505/2013, que cria a tarifa social de água e esgoto, com descontos inversamente proporcionais ao consumo, para famílias com renda per capita de até meio salário mínimo, cadastradas no Cadastro Único para Programas Sociais do Governo Federal. “Confira clicando aqui.

8 Outras instituições propõem quantidades diferentes. A quantidade também poderia ser calculada levando em conta a idade do consumidor, o clima local, etc.

Fonte – EcoDebate de 24 de agosto de 2017