Retireiros do Araguaia

Retireiros do Araguaia

Comunidades que criam gado livre em um dos melhores pastos naturais do país são cercadas por plantações de soja e ameaçados por grileiros

Desde que chegaram às margens do rio Araguaia movidos pela expansão agrícola dos anos 1940, os retireiros puderam usufruir de um dos melhores pastos naturais do país. Todo ano, quando acaba a temporada de chuvas, o rio volta ao seu leito, transformando a área antes alagada em um grande campo verde, úmido e enriquecido pelos nutrientes deixados pelo rio Araguaia, no Mato Grosso. A esse terreno, dá-se o nome de “varjão”, e foi nele que há quase 80 anos se instalaram os “retiros”. O nome é dado aos pontos onde cada criador instala sua casa, roça e curral para alimentar o gado durante a estiagem. É lá que eles ficam até que voltem as chuvas, por volta de outubro.

Nos retiros, cada cabeça tem seu dono, mas o campo é de todos. Ou era.

O Vale do Araguaia guarda intensos conflitos . Nos anos 1960, essa região mato-grossense que fica entre o Cerrado e a Amazônia começou a receber fazendas agropecuárias, implantadas com incentivo fiscal do governo militar. Foi naquelas terras que Ariosto da Riva, conhecido por “desbravar” áreas no estado, instalou a fazenda Suiá Missú, com meio milhão de hectares, onde antes viviam índios Xavante, transferidos pelo governo para longe dali em 1966.

Foi dessa região que Dom Pedro Casaldáliga, bispo de São Félix do Araguaia, denunciou ao mundo a existência de trabalho escravo contemporâneo no Brasil.

No início do século 21, grandes lavouras se expandiram, cobiçando o solo fértil e plano das margens do Araguaia. Justo as terras dos retireiros, que, embora sejam propriedade da União, passaram a ser objeto de fraude de titulação – a famosa grilagem de terras. “Ao contrário dos índios, a proteção legal para os retireiros é muito precária”, diz Wilson Rocha, procurador do Ministério Público Federal que atuou por quatro anos junto a essacomunidade . “Quando chegou o agronegócio, eles não tinham terras garantidas.”

Foto: Marcio Isensee Sá

Foto: Marcio Isensee Sá

Foto: Marcio Isensee Sá

Foto: Marcio Isensee Sá

Foto: Marcio Isensee Sá

Foto: Marcio Isensee Sá

Tensão

De olho no avanço da soja e do arroz, famílias da região com grande poder político começaram a cercar os varjões com cercas de arame, não só reduzindo a área das pastagens como também impedindo o acesso do gado à água do rio. Os retireiros, em resposta, entraram em 2003 com o pedido de criação da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mato Verdinho, área de 110 mil hectares que teria a função de regularizar o uso tradicional das terras, que continuariam sendo públicas.

De lá para cá, o embate só aqueceu, chegando ao clímax em 2013. Foi quando os que se diziam proprietários de terra fecharam durante uma semana os acessos à cidade de Luciara, fizeram barricadas e queimaram a casa de dois líderes retireiros. Uma delas foi a de Jossiney Evangelista. “Fui ameaçado de morte. Pensei até em largar essa luta minha”, ele diz.

O clima na região era de bastante tensão. Um ano antes, os índios Xavante conseguiram a desintrusão e a retomada de seu território, a terra indígena Maraiwãtsédé. “O ódio aos índios se estendeu aos retireiros”, afirma Claudia Araújo, que foi agente da Comissão Pastoral da Terra no Araguaia. Mas a luta continuou, agora acrescida de novos antagonistas: parte da população da cidade de Luciara e até mesmo entre os próprios retireiros.

“Os grileiros usaram a população como massa de manobra e também geraram medo nos retireiros”, afirma Jossiney. Resultado: o processo de criação da reserva travou. “Em 2014, tentamos uma estratégia diferente”, diz Wilson Rocha. “Entramos com um pedido de Taus [Termo de Autorização de Uso Sustentável] à Secretaria de Patrimônio da União”. Segundo o procurador, a secretaria respondeu bem, dando o primeiro passo para a criação de um território retireiro: expediu uma portaria declarando 1,6 milhão de hectares como sendo de interesse da União. Três meses depois, porém, o mesmo órgão revogou a decisão.

O motivo do recuo seria pressão política, segundo a secretária na época responsável pela revogação, Cassandra Nunes. A pressão veio de prefeitos e deputados, muitos dos quais “exaltados”, segundo ela. Cassandra acredita que “o alarido teria sido menor se não tivéssemos delimitado uma área tão grande, o que trouxe ainda mais tensão a um clima que já era de polarização em todo o país”.

“Uma das razões que me fez rever essa portaria foi pensar em uma área menor, que excluísse terras já protegidas, e ao mesmo tempo trabalhar com mais calma na definição desse território, já que estávamos em transição no Governo Federal”, ela diz. De fato, em 2016, foi dado início a um novo estudo de campo na região, que gerou um relatório mais apurado daquele que talvez venha a se tornar um território de uso coletivo dos retireiros. Fernando Campagnoli, coordenador-geral da Amazônia Legal na época, diz que “agora a SPU tem todos os elementos técnicos para recolocar essa portaria”.

Mas, enquanto isso, o agronegócio avança. “A soja já está lá pertinho”, avisa o líder Jossiney. As lavouras ainda não invadiram o território retireiro, mas os criadores já sentem seu impacto: “Elas [plantações de soja] estão sugando muita água do rio. As cheias do Araguaia diminuíram e o varjão está sofrendo.”

Sem acesso ao rio, os retireiros foram obrigados a abrir cacimbas, covas escavadas no chão para reter água para o gado beber. Não é exatamente uma boa solução, pois as cacimbas se tornam um lamaçal podendo até matar os animais atolados. “Eu vivo é do gado, eu como é do gado”, lamenta Jossiney, lembrando que esta é a única fonte de renda dos retireiros. O que leva, segundo ele, à mais triste das soluções: “Muitos estão pegando empréstimo em banco” e, assim, as áreas comuns acabam ainda mais cercadas e reduzidas.

Foto: Marcio Isensee SáOs retireiros percorrem, diariamente, grandes distâncias para encontrar as vacas e bezerros, criados livres.
Foto: Marcio Isensee SáFamílias de retireiros, como a de Thiago Oliveira Sales, vivem do pastoreio do gado nos chamados retiros.

Comunidade de retireiros do Araguaia

  • Onde estão: nordeste no Mato Grosso, na região conhecida como Vale do Araguaia
  • Atividades: pastoreio do gado nos chamados retiros em áreas coletivas; roçados
  • Por que lutam: pela garantia do uso tradicional das várzeas do rio Araguaia, terras da União
  • Ameaças: expansão do agronegócio, grilagem, violência; perda de terras e cercamento do território; impedimento de acesso a água; oposição de fazendeiros e moradores de Luciara
  • Como se organizam: Associação dos Retireiros do Araguaia, participação em conselhos estadual e nacional de povos e comunidades tradicionais, articulação com o Ministério Público Federal em Mato Grosso
Fonte – Xavier Bartaburu, Fotos Marcio Isensee Sá, do Vale do Araguaia (MT), Repórter Brasil de 27 de janeiro de 2018

Aumento no consumo de ultraprocessados pode elevar incidência de câncer, diz pesquisa

Imagem mostra mulher comendo pão com hamburguerPães industrializados estão na lista de alimentos que aumentariam risco da doença, segundo o estudo. GETTY IMAGES

Qual a relação entre alimentos ultraprocessados e o câncer?

Pesquisadores da Universidade Sorbonne, em Paris, apontam a possibilidade de essa ligação ser grande em um estudo recém-publicado no British Medical Journal, uma das mais influentes publicações sobre medicina no mundo.

O estudo classifica como ultraprocessados produtos como doces, refrigerantes, nuggets e pães produzidos em série e, a partir de resultados obtidos junto a 105 mil pessoas acompanhadas, apontou que quanto mais alimentos desse tipo elas consumiam, maior ficava o risco de câncer.

“Os resultados sugerem que o consumo em expansão acelerada de alimentos ultraprocessados pode gerar uma carga crescente de câncer nas próximas décadas”, alerta.

Os cientistas ponderam, no entanto, que as descobertas precisam ser “confirmadas por outros estudos de grande escala” e que a pesquisa foi necessária para estabelecer o que poderia estar por trás da relação entre a doença e esses alimentos.

O que conta como ultraprocessado, segundo o estudo:

– Pacotes de pães produzidos em série

– Petiscos doces ou salgados embalados, incluindo batatas fritas

– Barras de chocolate e doces

– Refrigerantes e bebidas açucaradas

– Almôndegas, empanados de aves e peixes (nuggets) processados

– Macarrão e sopas instantâneos

– Comidas congeladas

– Alimentos feitos principalmente ou totalmente de açúcar, óleos e gorduras

O NHS, serviço de saúde pública britânico, explica que um problema sério dos ultraprocessados é a quantidade excessiva de sal, açúcar e gordura acrescentada nos alimentos “para aumentar seu sabor e estender sua validade, ou, em alguns casos, alterar a estrutura da comida. (…) Comprar comida processada faz as pessoas ingerirem mais açúcar, sal e gordura do que o recomendado, já que elas podem não ter consciência de o quanto (esses ingredientes) foram acrescentados nos alimentos”.

Latas de refrigeranteRefrigerantes e outras bebidas com açúcar também deixaram os pesquisadores em alerta. GETTY IMAGES

Câncer e alimentação

Os pesquisadores de Sorbonne aplicaram questionários para identificar em que consistia a alimentação dos participantes do estudo (em sua maioria mulheres de meia-idade), acompanhados em média durante cinco anos.

Os resultados mostraram que à medida que a proporção de alimentos ultraprocessados na dieta aumentasse 10%, a quantidade de câncer detectada aumentaria 12%.

Durante o estudo, uma média de 18% da dieta dos participantes era composta de comida ultraprocessada. Foram identificados casos de câncer em uma proporção de 79 a cada 10 mil pessoas por ano. Segundo os pesquisadores, aumentar a proporção de alimentos processados em 10% provocaria nove casos extras de câncer por ano nesse universo.

‘Sinal de alerta’

O estudo está longe de trazer conclusões definitivas sobre a relação entre ultraprocessados e o câncer.

E também não pode afirmar que esses produtos são a causa da doença – já que outros fatores, além da alimentação, aumentavam o risco de câncer no grupo pesquisado.

Os que consumiam muitos alimentos ultraprocessados eram, por exemplo, menos ativos, ingeriam mais calorias em geral e eram mais propensos a fumar e tomar contraceptivos orais, fatores considerados de risco.

Doces industrializadosEfeitos dos ultraprocessados na saúde ainda não são plenamente entendidos pelos cientistas.

Ainda que os especialistas tenham ajustado suas análises para levar isso em conta, os pesquisadores disseram que seu impacto “não pode ser excluído inteiramente”.

“Já se sabe que comer muitos desses alimentos pode levar a ganho de peso, e sobrepeso e obesidade também podem aumentar o risco de câncer. Por isso, é difícil separar os efeitos de dieta e peso”, diz a professora Linda Bauld, especialista em prevenção no Câncer Research UK, ONG britânica que financia pesqusias nessa área.

Ao mesmo tempo, o estudo foi alvo de críticas e questionamentos.

O médico Ian Johnson, do Instituto Quadram, do Reino Unido, que realiza pesquisa nas áreas de alimentação e saúde, diz que o estudo “identificou algumas associações bastante fracas”.

Ele também criticou a imprecisão do termo ultraprocessado.

“O problema é que a definição de alimentos ultraprocessados que eles usaram é tão ampla e mal definida que é impossível decidir exatamente quais são as relações causais observadas, se é que existe alguma”, afirma.

Mesmo os comentários dos pesquisadores no próprio estudo do British Medical Journal advertem contra conclusões precipitadas.

Ao comentar o estudo, Martin Lajous e Adriana Monge, do Instituto Nacional de Saúde Pública do México, observaram que ainda “estamos muito longe de compreender as implicações completas do processamento de alimentos para a saúde e o bem-estar”.

O estudo, segundo eles, traz simplesmente “uma perspectiva inicial” sobre o assunto.

Fonte – James Gallagher, BBC Brasil de 15 de fevereiro de 2018

A criativa solução da Noruega para acabar com o lixo plástico nos oceanos

A Noruega tem o que especialistas consideram o melhor sistema de reciclagem de garrafas plásticas do mundo.

Ali, quase 600 milhões de garrafas foram recicladas em 2016 – uma taxa de reciclagem de 97%.

No Brasil, para efeitos de comparação, a proporção é de 50%.

No país europeu, funciona assim: lojas instalam máquinas que recompensam clientes que devolvem garrafas plásticas.

“Quando você compra uma garrafa de refrigerante… você paga uma coroa norueguesa a mais e, quando a colocamos na máquina, recuperamos o dinheiro”, diz uma cliente.

O esquema reduz a necessidade de se produzir mais plástico.

“Uma garrafa pode ser reciclada mais de uma vez. Na verdade, 12 vezes. Separamos as transparentes das coloridas. As transparentes são usadas para criar novas garrafas”, diz Kjell Clav Maldum, diretor da Infinitum, de reciclagem de embalagens plásticas.

“As coloridas são usadas para produzir outros materiais plásticos”, completa ele.

Mas quem paga por isso?

As fabricantes de bebidas. É voluntário, mas quem adere ao sistema paga menos imposto.

Fonte – BBC Brasil de 14 de fevereiro de 2018

Geraizeiros do Vale Das Cancelas

Geraizeiros do Vale Das Cancelas

Famílias que viviam nas chamadas “terras livres” lutam para retomar áreas que foram judicialmente apropriadas por fazendas

Um fenômeno peculiar atinge o norte de Minas Gerais, lá onde vive o povo contado por Guimarães Rosa: a grilagem judicial. A prática de falsificar documentos e processos para transformar terras públicas em privadas, identificada no local pela pesquisadora Sandra Gonçalves Costa, da Universidade de São Paulo, remonta as décadas de 1920 e 1930. Foi quando elites locais, com acesso ao aparato jurídico e burocrático da recém-criada República brasileira, começaram a titular como privadas as “terras livres” dos Gerais. A prática se estendeu pelo século seguinte.

O uso da expressão “terras livres” diz muito. Eram livres as terras porque não tinham cercas e eram de uso comum das comunidades camponesas. Eram livres as comunidades que viviam em uma relação de interdependência umas com as outras e com o Cerrado. São as comunidades geraizeiras, que hoje decidiram retomar seus territórios. Nas chapadas, lugares mais altos, criam o gado e outros animais soltos. É onde também buscam frutos, plantas medicinais e caça. Nas margens dos pequenos cursos de água, plantam.

Na região do Vale das Cancelas, em 13 processos analisados, de um total de 36 referentes à divisão e demarcação nas terras da Comarca de Grão Mogol, a pesquisadora Sandra identificou mais de 1 milhão de hectares de terras públicas que se tornaram privadas.

Demorou ainda para que a expulsão batesse na porta da família de Lurdes da Costa, hoje com 55 anos. Ela lembra que uma empresa de reflorestamento estava atrás das suas terras. Era 1974, segundo conta. Foi durante o regime militar, entre as décadas de 1960 e 1980, que o governo de Minas Gerais, por meio de agências de incentivo, arrendou as terras de uso comum das comunidades geraizeiras para que empresas plantassem eucalipto com dinheiro público. Sob o nome de reflorestamento, as monoculturas destinavam-se para a produção de carvão para siderúrgicas, e estão presentes até hoje.

Com a pressão, Lurdes, os cinco irmãos e os pais saíram fugidos da região de Grão Mogol. Foram morar nas ruas de Montes Claros. Lá, o pai desapareceu. Ela se separou da mãe e dos irmãos – só os reencontrou em 1981. Invisíveis e fugindo da violência, geraizeiros e geraizeiras perderam os laços com a terra da qual viviam. Perderam a liberdade e a paz.

No caminho de buscar entender os porquês da sua história, Lurdes retornou em 2006 para os Gerais, onde montou seu barraco e uma pequena roça, com criação de animais. Quis retomar o modo de vida que foi obrigada a deixar na infância e lutar pelo seu direito à terra.

Foto: Gui Gomes

Foto: Gui Gomes

Foto: Gui Gomes

Foto: Gui Gomes

Foto: Gui Gomes

Foto: Gui Gomes

Foto: Gui Gomes

Foto: Gui Gomes

Foto: Gui Gomes

Foto: Gui Gomes

Foto: Gui Gomes

Foto: Gui Gomes

Foto: Gui Gomes
Foto: Gui Gomes
Foto: Gui Gomes
Foto: Gui Gomes

Apropriação e retomada

Em inquérito civil, o Ministério Público Federal aponta apropriação privada de terras públicas de uso das comunidades geraizeiras a cinco empresas: a Florestas Rio Doce – empresa que Lurdes nomeia como responsável pela expulsão de sua família –, a Norflor Empreendimentos Agrícolas, a Floresta Minas Reflorestamento e a Rio Rancho Agropecuária. Essa última é de propriedade do ex-governador e ex-deputado federal por Minas em três legislaturas, Newton Cardoso, e seu filho Newton Cardoso Júnior, também deputado federal (PMDB-MG).

A apropriação também é identificada em projetos de mineração. Foi assim que Adair de Almeida, geraizeiro de 43 anos, soube que perderia as terras de seus pais, “sem direito a nada”. Como nos anos 1970, por volta de 2010 manipulações, ameaças e intimidações bateram à porta dele e de seus vizinhos. As comunidades geraizeiras se viram cada vez mais encurraladas. Sem a terra, o trabalho se destinou ao corte de cana e à colheita de café, no sul de Minas e em São Paulo, ou nos próprios empreendimentos criados.

Em uma luta contra a fome, a miséria e a seca, geraizeiros e geraizeiras do Vale das Cancelas decidiram iniciar a retomada das suas terras, quando o prazo de arrendamento concedido às empresas de eucalipto expirou. Em novembro de 2015, as comunidades realizaram a autodemarcação de seu território tradicional e declararam a proteção dos cerca de 228.000 hectares de Cerrado e de suas águas nos municípios de Grão Mogol, Padre Carvalho e Josenópolis, assim como da cultura de seu povo, dos costumes e das trocas realizadas.

Um ano depois, 120 famílias geraizeiras ocuparam uma área da Fazenda Buriti Pequeno, produtora de eucalipto, para pressionar por seus direitos.

Ali, com a retomada das atividades tradicionais, Adair começa a ver a diferença: “Quando tem muito animal, a gente percebe que está voltando ao normal”, explica. A tensão não deixa de existir. No acampamento da comunidade São Francisco, área retomada em outubro de 2017, o enfrentamento se dá há anos com a empresa AJR Energética, da família do empresário João Lima Gel e do grupo Floresta Minas Empreendimentos. Agora, as comunidades são alvo de um processo de reintegração de posse que não se difere muito do que já foi levado a cabo num passado recente.

“Todos os dias as terras devolutas vêm sendo griladas por mineradoras e empresas de reflorestamento”, denuncia Adair. Além delas, a Diferencial Energia recebeu em 2017 a licença de instalação – sem consulta prévia, denunciam as comunidades geraizeiras – ao projeto da termelétrica de Grão Mogol, que gerará energia a partir do eucalipto fornecido pela Norflor. No mesmo ano, o governo de Minas regulamentou a Política Estadual de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais do Estado de Minas Gerais. A luta não para, a próxima é para que a lei saia do papel.

Foto: Gui GomesNascida e criada na região, Adelina Xavier de Moraes, de 79 anos, sofre com a pressão das mineradoras.
Foto: Gui GomesAs comunidades são vítimas da grilagem judicial – a prática de falsificar documentos e processos para tornar terras públicas em privadas.
Comunidades geraizeiras do Vale das Cancelas
  • Onde estão: norte de Minas Gerais
  • Atividades: criação de gado solto nos Gerais, roçado, coleta de alimentos e plantas medicinais no Cerrado
  • Por que lutam: pela retomada de seus territórios de uso tradicional, privatizados judicialmente
  • Ameaças: a grilagem, monocultura de eucalipto e empresas de energia
  • Como se organizam: ocupações das fazendas que se instalaram sobre seus territórios, movimentos sociais, como o Movimento dos Atingidos por Barragens, apoio da Comissão Pastoral da Terra e articulações com outras comunidades e atores políticos
Fonte – Jessica Mota, fotos Gui Gomes, do Vale das Cancelas (MG), Repórter Brasil de 27 de janeiro de 2018

Os recordes climáticos de 2017 e o legado da atual geração

O Brasil teve um número recorde de incêndios florestais em 2017

Em janeiro de cada ano, o MET Office, a agência britânica de pesquisas e previsões sobre meteorologia e mudanças climáticas, atualiza seu decadal forecast, i.e., sua previsão climática para os próximos dez anos. O título do último comunicado, “Previsão para os próximos cinco anos indica mais aquecimento”[1], nada tem de novo. Dada a dinâmica inercial do aquecimento global, sabemos que “mais aquecimento está em curso e ocorrerá mesmo sem mais gases de efeito estufa”, para dizê-lo nos termos de James Hansen[2]. O que é novo, ainda que não surpreendente, na declaração do MET Office é a possibilidade de estourarmos já nos próximos cinco anos a meta de aquecimento que o Acordo de Paris, em vigor desde novembro de 2016, almejava não ultrapassar neste século: “Há uma pequena chance (cerca de 10%) de que ao menos um ano no período [2018-2022] possa exceder 1,5º C  acima dos níveis pré-industrais (1850-1900). É a primeira vez que tão altos valores vêm à baila nessas previsões”.

Para o novo relatório do IPCC, com publicação prevista para outubro de 2018, mas divulgado em seu estado de rascunho pela Agência Reuters em 18 de janeiro passado,  “há um alto risco” desse limite de 1,5º C ser ultrapassado até 2040. O contraste de datas entre o MET e o IPCC é apenas aparente porque, como o MET esclarece, há um intervalo de alguns anos entre o aquecimento ultrapassar momentaneamente 1,5º C (2018-2022) e instalar-se acima desse patamar, o que deve ocorrer na segunda metade do próximo decênio. Da mesma maneira, antes de atingir em 2015 o nível agora irreversivelmente ultrapassado de 1º C, chegamos a “queimá-lo” pela primeira vez em 2010, como mostra a Figura 1

Figura 1
Figura 1 – Evolução das anomalias de temperatura (ºC) no primeiro semestre de 2016 em relação ao período 1880-1899. Fonte: “Record-Breaking Climate Trends Briefing”, 19/VII/2016. Goddard Institute for Spatial Studies (GISS), Nasa <https://svs.gsfc.nasa.gov/12305>.

Além disso, a preposição até na locução “até 2040” (by 2040) do IPCC indica um cauteloso termo limite, um terminus ante quem, e pode significar uma data qualquer nos próximos dois decênios. Na realidade, ela indica uma data provável já no próximo decênio, pois, segundo a Reuters, o texto ainda em revisão do IPCC afirma[3]:

“Estima-se que a humanidade poderia ainda emitir tão somente 580 bilhões de toneladas [Gigatoneladas ou Gt] de gases de efeito estufa [GEE] para ter uma chance maior que 50% de limitar o aquecimento a 1,5º C – o que equivale a um prazo de 12 a 16 anos mantido o nível atual das emissões desses gases”.

Se tomarmos por base o ano de 2016, quando, segundo o Emission Database for Global Atmospheric Research (EDGAR), as emissões globais de GEE atingiram 53,4 GtCO2-eq, ultrapassaremos esse limite de 580 Gt nos próximos 10 a 11 anos.

Essas estimativas do MET e do IPCC são corroboradas por uma terceira e por uma quarta projeção. Em 2016, o Climate Central, uma ONG nascida de um encontro de climatologistas na Yale University, afirmava que, “mantido o nível atual de emissões (RCP8,5), podemos cruzar o limiar de 1,5º C em 10 a 15 anos, isto é, em algum momento entre 2025 e 2030[4]. A quarta projeção, enfim, publicada em setembro de 2017 na Geophysical Research Letters, propõe que, se a Oscilação Interdecenal do Pacífico (IPO[5]) tornar-se positiva ou permanecer negativa, atingiremos +1,5º C em 2026 ou em 2031, conforme mostra a Figura 2.

Figura 2
Figura 2 – Projeções de ultrapassagem de +1,5º C nas temperaturas médias superficiais terrestres e marítimas combinadas acima da média das temperaturas pré-industriais (1850-1900), segundo a fase positiva (2026) ou negativa (2031) da Oscilação Interdecenal do Pacífico (IPO). Fonte: Alvin Stone, “Paris 1.5º C target may be smashed by 2026” GeoSpace, 9/V/2017. Baseado em Benjamin J. Henley, Andrew D. King, “Trajectories toward the 1.5º C Paris target: Modulation by the Interdecadal Pacific Oscillation”. Geophys. Research Letters 8/V/2017.

2017 no contexto da aceleração das mudanças climáticas

Lembremos que os 20 anos mais quentes dos registros históricos, iniciados em 1880, ocorreram justamente nos 20 anos decorridos entre 1998 e 2017. E os 4 anos mais quentes dessa série de 137 anos incidem no quatriênio 2014-2017. Como se insere nessa aceleração o ano de 2017? Como seria de se esperar num quadro de aceleração das mudanças climáticas, 2017 quebrou vários recordes. Mas talvez nenhum ano dos registros históricos tenha se mostrado mais rico que o ano passado em número e variedade de sintomas de aceleração de nossa trajetória rumo a uma degradação socioambiental catastrófica. Em 18 de janeiro de 2018, a Organização Meteorológica Mundial (OMM) declarou que “2015, 2016 e 2017 foram confirmados como os três anos mais quentes dos registros globais, sendo que 2017 foi o ano mais quente sem um El Niño”. Isso se traduziu em ondas de calor sem precedentes. Queensland e New South Wales, na Austrália, bateram o recorde de calor, com temperaturas próximas de 50º C.

Na Europa, “Lúcifer”, como foi chamada a onda de calor europeu de 2017, bateu, na zona mediterrânea, o recorde de intensidade da onda de calor europeu de 2003[6]. Em junho de 2017, Las Vegas bateu seu recorde de temperatura, atingindo 47º C. Em julho, na cidade chinesa de Xi’an, o termômetro atingiu por oito dias temperaturas acima de 40º C. Em Xangai, ele subiu a 40,9º C, em Trupan, a 49º C, em Shaanxi, a 44,7º C,  temperaturas todas que romperam novos recordes históricos no país. Em Jales, no estado de São Paulo, em 11 de setembro de 2017, a temperatura ainda invernal chegou a 37,2º C. Na capital, ela chegou nesse mesmo dia a 31,9º C, recorde batido apenas por 2016, quando chegou a 33º C<[7].

O ano de 2017 quebrou recordes também no que se refere a eventos meteorológicos extremos e inundações. Houve no ano passado 17 tempestades nomeadas, 10 furacões e seis furacões de categoria 3 ou mais alta, todos esses números acima da média histórica. Em agosto, o furacão Harvey que se abateu sobre Houston e região, no Texas (EUA), trouxe a maior quantidade de chuvas dos registros históricos (1.539 mm) ao longo de quatro dias nesse país, causando pela terceira vez, após 2001 e 2015, uma inundação supostamente esperada “a cada 500 anos”. Em setembro, o Irma devastou o Caribe, com ventos de até 297 km/h que se mantiveram por 37 horas, a mais longa duração registrada no mundo. Apenas nos EUA, enquanto tais eventos extremos, incêndios e inundações trouxeram prejuízos de US$ 144 bilhões em 2005, os piores até então, 2017 trouxe prejuízos de US$ 306 bilhões[8].

Níveis igualmente sem precedentes de incêndios florestais ocorreram nos EUA, Europa (Portugal, Espanha, França, Itália, Romênia), Austrália e na Ásia do Sudeste. O Brasil teve em 2017 um número recorde de incêndios florestais na série histórica, iniciada em 1999. “A análise dos locais onde os incêndios ocorreram mostra que, neste ano, o fogo aumentou em áreas de floresta natural, avançando em pontos onde antes não havia registro de chamas, e atingindo unidades de conservação e terras indígenas. Entre todos os biomas, o Cerrado foi o que teve mais unidades de conservação atingidas, contabilizando 75% de toda a destruição nas áreas protegidas”.

Até 18 de dezembro, haviam sido registrados “cerca de 272 mil focos de fogo, 46% a mais do que em 2016 e acima do recorde anterior, de 2004, quando foram detectados 270 mil pontos de calor. Incêndios criminosos destruíram 986 mil hectares de unidades de conservação (…). O número ficou próximo do registrado no ano passado, quando foram destruídos cerca de 1 milhão de hectares. Nas terras indígenas, os focos aumentaram 70% e ultrapassaram 7 mil”[9].

Quanto ao branqueamento de corais, o Coral Reef Watch da National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA) afirmou em seu boletim de janeiro de 2018 que o Terceiro Evento Global de Branqueamento de Corais, terminado em junho de 2017, é o primeiro a perdurar três anos consecutivos[10]. Esse evento “permanece o mais longo, o mais amplo e possivelmente o mais danoso evento de branqueamento de corais jamais registrado. Ele afetou mais corais que qualquer outro evento de branqueamento anterior”[11].

Salto sem precedentes no aquecimento oceânico

A mais inequívoca assinatura do aquecimento médio global é a temperatura dos oceanos, pois sua faixa superficial absorve mais de 90% do calor excedente produzido pelas crescentes concentrações atmosféricas de gases de efeito estufa.  Aqui, a aceleração é igualmente evidente. Sabemos que “metade do aumento do calor absorvido no oceano globalmente desde 1865 foi acumulado desde 1997”[12]. Sabemos também que o aumento do calor contido no oceano entre 1992 e 2015 quase dobrou em relação ao aumento ocorrido nas três décadas anteriores (1960 – 1990)[13], como mostra a Figura 3.

Figura 3
Figura 3 – Calor contido nos oceanos (Ocean heat content, OHC) entre 1950 e 2015 (em 10²² Joules)[14]. Fonte: Paul Horn, Inside Climate News, baseado em Lijing Cheng et al., “Improved estimates of ocean heat content from 1960 to 2015”. Science Advances, 10/III/2017

Mais que aceleração, o ano de 2017 foi, em toda a série histórica, o ano do grande salto no aquecimento nos oceanos até a profundidade de dois mil metros[15]. A Figura 4 mostra as anomalias crescentes na energia térmica em Joules do oceano em relação ao período de referência, 1981-2010.

Figura 4
Figura 4 – Anomalias nas temperaturas oceânicas (0 a 2000 m) em relação ao período de base 1981-2010 (em  10²² joules). Fonte: Lijing Cheng & Jiang Zhu, “2017 was the Warmest Year on Record for the Global Ocean”. Advances in Atmospheric Sciences, 34, março, 2018, pp, 261-263, baseados em dados do Institute of Atmospheric Physics (IAP) da Academia de Ciências da China.

O que se vê aqui é outra demonstração da aceleração em curso do aquecimento global, e talvez a mais irrefutável porque as mudanças climáticas nos oceanos são livres de “ruídos” meteorológicos de curto prazo, típicos da atmosfera. Entre 1958 e 1995, todos os anos mostram um oceano mais frio que a temperatura oceânica do período 1981-2010. Mas a partir de 1998, todos os anos foram mais quentes em relação a esse período de referência. Segundo o Instituto de Física Atmosférica (IAP) da China, os últimos cinco anos foram os mais quentes das medições disponíveis, com 2017 ocupando o topo do pódio. Em 2017, afirmam Lijing Cheng e Jiang Zhu:

“A faixa superior de 2 mil metros dos oceanos foi 1,51 x 1022 Joules mais quente do que 2015, o segundo ano mais quente, e 19,19 x 1022 Joules acima do período de referência climatológica, 1981 – 2010. Para se ter uma comparação, a geração total de energia elétrica na China em 2016 equivale a 0,00216 x 1022 Joules, ou seja, ela foi 699 vezes menor que o aumento líquido de calor no oceano em 2017”.

Eis a progressão do aquecimento oceânico nos últimos cinco anos, sempre em relação ao período de referência (1981-2010):

  1. 2017: 19,19 × 1022 J
  2. 2015: 17,68 × 1022 J
  3. 2016: 17,18 × 1022 J
  4. 2014: 16,74 × 1022 J
  5. 2013: 16,08 × 1022 J

Observe-se que 2017 registra um salto sem precedentes em relação a 2016 e em relação também a qualquer outro intervalo anual no período quinquenal em exame. Trata-se de um salto de 2,01 x 1022 J entre 2016 e 2017, quando o maior intervalo anterior (de 2015 em relação a 2014) foi de 0,94 x 1022. Como advertem ainda Cheng e Zhu, “o aumento na temperatura do oceano em 2017 resultou em uma elevação média de 1,7 milímetro do nível do oceano”, sendo que outro tanto se deveu ao degelo, numa elevação média total de 3,4 mm em 2017[16].

A aceleração das mudanças climáticas e o descumprimento do Acordo de Paris

As mensurações e as projeções acima citadas, em meio a uma profusão de dados convergentes, demonstram à saciedade que as mudanças climáticas estão se acelerando. Salvo para os que acreditam que a Terra é plana ou que o capitalismo pode-se tornar sustentável, essa evidência não está mais sujeita a discussão. Sua mais elementar demonstração encontra-se nas taxas de aumento médio anual das concentrações atmosféricas de gases de efeito estufa (GEE) desde 1991:

Concentrações atmosféricas de CO2-eq (GEE) em partes por milhão (ppm) e aumento médio anual em cada período (dois decênios e o quinquênio 2011-2016)

Figura 5
Fonte: NOAA Annual Greenhouse Gas Index (AGGI)

A aceleração das taxas de aumento das concentrações atmosféricas de GEE nos últimos 25 anos implica correlativa aceleração do aquecimento global (tal como mostra, acima, a Figura 1). E dado que o aquecimento atmosférico e marítimo afeta negativamente os ecossistemas, a biodiversidade, a economia, a segurança energética, hídrica e alimentar das sociedades, além de intensificar os eventos meteorológicos extremos, a ação de agentes patogênicos, a letalidade por ondas de calor extremo e a elevação do nível do mar, pode-se concluir com razoável segurança que, em termos socioambientais, o próximo decênio será pior que este que se aproxima de seu fim.

Quão capazes seremos de atenuar essa piora, eis algo que (ainda) depende da lucidez e da coragem política das sociedades de abandonar os combustíveis fósseis antes que eles nos destruam. Por enquanto, as sociedades deixam-se iludir por seus governos, que se comprometem a diminuir as emissões a cada COP, enquanto mantêm o pé bem fundo no acelerador dos combustíveis fósseis. O relatório de novembro de 2017 da PBL Netherlands Environmental Assessment Agency adverte que, dois anos após a assinatura do Acordo de Paris e um ano após sua entrada em vigor (4/11/2016), dois terços dos países mais emissores de GEE nem se colocaram em marcha na direção de atingir suas metas climáticas compromissadas em Paris[17].

O ano de 2017 foi também o ano em que Donald Trump decidiu abandonar explicitamente o Acordo, enquanto a Alemanha desistiu de suas metas de redução de emissões de GEE para 2020. Como declarou ao The Financial Times Tobias Austrup, do Greenpeace da Alemanha, “isso prejudica a credibilidade da Alemanha, mas prejudica também o inteiro processo internacional sobre o clima. Por que outros países deveriam manter suas metas climáticas se nós não as mantemos?”[18]. De fato, 25 dos 28 países da União Europeia não estão se movendo na direção de cumprir suas próprias metas. Para Femke de Jong, diretor do Carbon Market Watch, “os governantes da União Europeia, que se retratam como líderes climáticos, deveriam colocar seu dinheiro onde está sua boca, tratando de fechar as brechas na legislação climática europeia e pressionando por mais ambição”[19]. O Brasil, sétimo maior emissor de GEE do mundo, realizou a proeza do desacoplamento negativo: o PIB diminuiu enquanto as emissões antropogênicas brasileiras de GEE aumentaram 8,9% em 2016 em relação a 2015, “com crescimento expressivo da contribuição do desmatamento na poluição climática gerada pelo país”[20].

Um esforço de guerra sem precedentes

Segundo o que reporta a Reuters do já citado relatório do IPCC, ainda inédito:

“Não há precedentes históricos na escala de mudanças requeridas no uso de energia para transitar dos combustíveis fósseis a energias renováveis, e para as reformas na agropecuária e na indústria, de modo a que [o aquecimento médio global] permaneça abaixo do limite de 1,5º C.  (…)”

Para desviarmos de nosso curso, seria hoje necessário, portanto, um esforço de guerra maior que qualquer outro já empreendido na história do capitalismo. O que está ocorrendo, contudo, é um esforço de guerra das petroleiras e da rede corporativa dela dependente no sentido de desinformar e manter paralisada nossa civilização termo-fóssil. Eis o último resultado desse esforço: em 2017, as emissões antropogênicas globais de CO2 aumentaram ainda cerca de 2% (entre 0,8% e 3%) e 3,5% na China, com novo incremento do consumo de carvão nesse país[21].

A que distância estamos de uma aceleração irreversível ou mesmo de uma transição abrupta das mudanças climáticas, capaz de condenar a civilização contemporânea a um colapso socioambiental? Não é ainda dado sabê-lo. Mas sabemos que em 2017 diminuíram ainda mais as chances já diminutas de evitar o perigo que motivou o Acordo de Paris, vale dizer, a catástrofe climática de um aquecimento médio global superior a 2º C acima do período pré-industrial, nível que pode desencadear e tornar inelutáveis aquecimentos sucessivos. Segundo Michael Mann, Robert Jackson e um número crescente de cientistas, essa catástrofe pode-se tornar realidade dentro de dois decênios[22]. Por aterrorizante e iminente que seja, tal perspectiva não tem suscitado as “mudanças requeridas no uso de energia” exortadas pelo IPCC. Ao contrário, segundo a Energy Information Administration (EIA), em 2017 o consumo mundial de petróleo ultrapassou 98,39 milhões de barris de petróleo por dia (MMbb/d), contra 96,95 MMbb/d em 2016.

Segundo a Agência Internacional de Energia (AIE), “a demanda por petróleo aumentará nos próximos cinco anos, superando em 2019 o marco simbólico dos 100 MMbb/d e atingindo 104 MMbb/d até 2022”[23]. Nos cálculos da EIA, o marco dos 100 milhões de barris por dia será superado já em 2018[24].

Os jovens, que sofrerão em breve as consequências brutais desse consumo, terão razão de desprezar a atual geração de adultos, a primeira que pode saber cientificamente o que o futuro nos reserva e a última que ainda pode fazer algo para evitá-lo, mas está preferindo deixar um legado de indiferença ou de retóricas tranquilizantes de “desenvolvimento sustentável”. 2017 é o retrato em miniatura desse legado.

 

Referências

[1] Cf. MET Office, “Five-year forecast indicates further warming”, 31/I/2018
https://www.metoffice.gov.uk/news/releases/2018/decadal-forecast-2018.

[2] Cf. James Hansen, “Why I must speak out about climate change”. Ted Talk, 2012 https://www.ted.com/talks/james_hansen_why_i_must_speak_out_about_climate_change#t-384684.

[3] Cf. Alister Doyle, “Warming set to breach Paris accord’s toughest limit by mid century: draft”. Reuters, 18/I/2018.

[4] Cf. Climate Central Research Report, “Flirting with the 1.5°C Threshold”. 20/IV/2016
http://www.climatecentral.org/news/world-flirts-with-1.5C-threshold-20260.

[5] A Oscilação Interdecenal do Pacífico (IPO) é uma oscilação de longo prazo (15 a 30 anos) nas temperaturas superficiais do Oceano Pacífico. Embora suas interações com outras variáveis climáticas, tais como a Oscilação Sul do El Niño (ENSO) e a Oscilação Decadal do Pacífico (PDO), não sejam ainda bem entendidas, é sabido que as fases positiva e negativa do IPO afetam a força e a frequência dos fenômenos de El Niño e La Niña. Cf. M. J. Salinger, J.A. Renwick & A.B. Mullan, “Interdecadal Pacific Oscillation and South Pacific climate”. International Journal of Climatology, 30/XI/2001: “O IPO é uma fonte significativa de variação climática nas escalas decenais de tempo em toda região do SO do Pacífico, num contexto que inclui aumentos da temperatura média superficial do planeta”.

[6] Cf. Bob Berwyn, “Europe’s Hot, Fiery Summer Linked to Global Warming, Study Shows”. Inside Climate News, 27/IX/2017: “The summer of 2003 is still the hottest on record for the whole of Europe, although 2017 was hotter in the Mediterranean region”.

[7] Cf. Reinaldo José Lopes e Carlos Fioravanti, “Ondas de calor mais intensas, longas e frequentes”. Revista Pesquisa Fapesp, XII/2017, pp. 26-29.

[8] Cf. Chris Fawkes, “Is climate change making hurricanes worse?”. BBC, 30/XII/2017.

[9] Cf. Cleide Carvalho, “Brasil termina 2017 com número recorde de queimadas desde 1999”. O Globo, 18/XII/2017.

[10] Cf. NOAA, “U.S. coral reefs facing warming waters, increased bleaching. Hotter-than-normal ocean temperatures continue for 3rd consecutive year”. 20/VI/2016.

[11] Cf. NOAA, “Coral bleaching during & since the 2014-2017 Global Coral Bleaching Event. Status and an Appeal for Observations”. 16/I/2018.

[12] Cf. Peter J. Gleckler et al., “Industrial-era global ocean heat uptake doubles in recent decades”. Nature Climate Change, 6, 18/I/2016, pp. 394-398.

[13] Cf. Lijing Cheng et al., “Improved estimates of ocean heat content from 1960 to 2015”. Science Advances, 10/III/2017.

[14] O Joule (J) é, aqui, a unidade de energia dissipada como calor quando uma corrente elétrica de um ampere passa pela resistência de um ohm por um segundo. Em termos práticos, é a energia requerida para aumentar a temperatura de 1 ml de água até 0,24 oC.

[15] Cf. Lijing Cheng & Jiang Zhu, “2017 was the Warmest Year on Record for the Global Ocean”.
Advances in Atmospheric Sciences, 34, março, 2018, pp, 261-263.

[16] Cf. Rebecca Lindsey, “Climate Change: Global Sea Level, NOAA, 11/IX/2017: “Sea level continues to rise at a rate of just over one-eighth of an inch (3.4 mm) per year, due to a combination of melting glaciers and ice sheets, and thermal expansion of seawater as it warms”.

[17] Cf. “Two-thirds of major emitting countries not on track to reach Paris climate proposals”. PBL Netherlands Environmental Assessment Agency, 1/XI/2017.

[18] Cf. Akshat Rathi, “If Germany can’t hit its own climate goals to help the world, can anybody else?”. Quartz,  10/I/2018.

[19] Cf. Arthur Neslen, “Only Sweden, Germany and France among EU are pursuing Paris climate goals, says study”. The Guardian, 28/III/2017 e Carbon Market Watch, EU Climate Board. Policy Briefing, III/2017 (em rede).

[20] Cf. Sistema de Estimativa de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SEEG). http://plataforma.seeg.eco.br/total_emission.

[21] Cf. Corinne Le Quéré et al., “Global Carbon Budget 2017”. Earth System Science Data, 13/XI/2017: “For 2017, preliminary data indicate a renewed growth in EFF [Emissões de combustíveis fósseis] of +2.0 % (range of 0.8 % to 3.0 %)”. Veja-se também “Analysis: Global CO2emissions set to rise 2% in 2017 after three-year ‘plateau’, CarbonBrief, 13/XI/2017.

[22] Vejam-se, entre outros, Michael E. Mann, “Earth Will Cross the Climate Danger Threshold by 2036”. Scientific American, 1/IV/2014; R. B. Jackson, P. Friedlingstein, J. G. Canadell, R.M. Andrew, “Two or three degrees: CO2 Emissions and Global Temperature Impacts”. The Bridge on Energy, the Environment, and Climate Change, 3/VII/2015.

[23] Cf. AIE, “Energy Snapshot”, 6/IV/2017.

[24] Cf. EIA, “Short-Term Energy Outlook”, 9/I/2018.

Luiz Marques é professor livre-docente do Departamento de História do IFCH /Unicamp. Pela editora da Unicamp, publicou Giorgio Vasari, Vida de Michelangelo (1568), 2011 e Capitalismo e Colapso ambiental, 2015, 2aedição, 2016. Coordena a coleção Palavra da Arte, dedicada às fontes da historiografia artística, e participa com outros colegas do coletivo Crisálida, Crises SocioAmbientais Labor Interdisciplinar Debate & Atualização (crisalida.eco.br).

Fonte – Texto Luiz Marques, Fotos DIVULGAÇÃO IBAMA, edição de imagem Paulo Cavalheri, Jornal da UNICAMP de 05 de fevereiro de 2017

Como destruição do Cerrado ameaça ‘floresta de cabeça para baixo’ e abastecimento de aquíferos

Vídeo: Davi Boarato

Segundo maior bioma da América do Sul, o Cerrado tem papel central na distribuição das águas que abastecem boa parte do Brasil. É nele que nascem vários dos rios que integram seis das principais bacias hidrográficas brasileiras – Parnaíba, Paraná, Paraguai, Tocantins-Araguaia, São Francisco e Amazônica -, e mais de cem espécies diferentes de frutas, das quais apenas 40 são exploradas comercialmente.

O equilíbrio desse ecossistema, contudo, está ameaçado pelo avanço da agricultura em larga escala.

Segundo o Ministério do Meio Ambiente, cerca de 20% das espécies de plantas e animais exclusivas ao bioma já foram extintas, e ao menos 137 espécies de animais da região correm o risco de desaparecer.

“A gente não tem mais aquele habitat natural, porque esse tipo de vegetação deu lugar às lavouras: à soja, ao milho, ao feijão, ao arroz – e eles não têm a mesma função ecológica do Cerrado”, alerta Mauro Alves de Araujo, técnico agrícola especializado na identificação de espécies vegetais.

Boa parte das últimas áreas de Cerrado se encontra na região conhecida como Matopiba (que engloba trechos do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia) – considerada uma das últimas fronteiras agrícolas do país.

“A gente está trocando árvore por herbácea, e isso na matemática (da ecologia) é cruel”, acrescenta Araujo.

O Cerrado é um dos biomas mais antigos e biodiversos do mundo. Começou a se formar há pelo menos 40 milhões de anos e abriga centenas de espécies de animais e plantas que só existem lá.

Para sobreviver às longas secas que ocorrem na região, muitas árvores locais desenvolveram sistemas de raízes extremamente profundas e ramificadas.

Graças a essas raízes, várias espécies do bioma jamais perdem as folhas, nem mesmo no auge da estiagem.

As raízes podem ser muito mais extensas que as copas das árvores, o que faz com que o Cerrado seja conhecido como “floresta de cabeça para baixo”.

Árvores presentes no bioma – entre as quais buriti, pequi, jatobá e baru – garantem ainda uma dieta rica para os habitantes da região.

Fonte – BBC Brasil de 08 de fevereiro de 2017

SP e outras 10 cidades do mundo que podem ficar sem água como a Cidade do Cabo

Copo sob torneiraUm quarto das principais cidades do mundo enfrentará problemas hídricos. GETTY IMAGES

A Cidade do Cabo enfrenta uma situação nada invejável como a primeira grande cidade da era moderna a ficar sem água potável. No entanto, esse é apenas um exemplo extremo de um problema sobre o qual especialistas vêm alertando há muito tempo: a escassez de água.

Apesar de cobrir 70% da superfície do planeta, a água doce, especialmente a potável, não é tão abundante assim: responde por só 3%. Mais de 1 bilhão de pessoas enfrentam problemas de acesso a ela, e, para 2,7 bilhões, ela falta ao menos um mês por ano.

Uma pesquisa com as 500 maiores cidades do mundo, publicada em 2014, estima que uma em cada quatro estão em uma situação de “estresse hídrico”, como define a Organização das Nações Unidas (ONU) quando o abastecimento anual cai abaixo de 1,7 mil m³ por pessoa.

De acordo com projeções chanceladas pela ONU, a demanda por água doce vai superar o abastecimento em 40% em 2030, graças a uma combinação entre as mudanças climáticas, a ação humana e o crescimento populacional.

Não é uma surpresa, portanto, que a situação na Cidade do Cabo seja apenas a ponta do iceberg. Em todos os continentes, grandes centros urbanos enfrentam essa escassez e correm contra o tempo em busca de uma solução. Conheça a seguir outras 11 cidades que podem ficar sem água.

São Paulo

A capital paulista passou por uma situação dramática em 2014 e 2015, quando seu principal conjunto de reservatórios, o sistema Cantareira, atingiu seu menor nível da história. A Sabesp, companhia paulista de abastecimento, passou a puxar a água que ficava abaixo dos canos de captação, no chamado “volume morto”, e reduziu a pressão nas bombas – o que fez com que partes da cidade ficassem desabastecidas. Também houve campanhas para a redução do consumo.

Reservatório seco em São PauloNo auge da última seca, a paisagem nos reservatórios de São Paulo era desoladora. GETTY IMAGES

Em dezembro de 2015, com a volta das chuvas, o Cantareira saiu finalmente do “volume morto”.

O governo paulista atribuiu a crise à forte seca que atingiu a região, mas uma missão da ONU criticou as autoridades estaduais por “falta de investimentos e planejamento adequados”.

Nos últimos anos, a situação das represas melhorou, mas especialistas afirmam que a possibilidade de uma nova crise segue presente.

Bangalore

Autoridades da cidade indiana tiveram problemas para lidar com a expansão imobiliária após Bangalore tornar-se um centro de tecnologia e enfrentam dificuldades para cuidar dos sistemas hídrico e de saneamento.

Polluted lake in BangaloreOs lagos de Bangalore são muito poluídos. GETTY IMAGES

O encanamento antigo precisa de uma reforma urgente: um relatório do governo federal revelou que a cidade desperdiça metade de sua água potável.

Como a China, a Índia tem sérios problemas de poluição em seus cursos d´água, e Bangalore não é diferente: um inventário dos lagos da cidade revelou que 85% tinham água que poderia ser usada apenas para irrigação e resfriamento industrial. Nenhum tinha água potável ou adequada para banho.

Pequim

O Banco Mundial classifica como situação de escassez hídrica quando moradores de uma determinada localidade recebem menos de 1 mil m³ de água por pessoa. Em 2014, os mais de 20 milhões de habitantes de Pequim receberam apenas 145 m³.

Cabras em leito de rioAs secas deixaram os leitos de curso d’água visíveis nos arredores de Pequim. GETTY IMAGES

A China abriga 20% da população mundial, mas tem apenas 7% da água doce do mundo. Um estudo da Universidade de Columbia (EUA) estima que as reservas do país caíram 13% entre 2000 e 2009.

Também há a questão da poluição: dados oficiais de 2015 mostram que 40% da água de superfície de Pequim estava poluída a ponto de não poder ser usada nem para a agricultura nem pela indústria.

Autoridades chinesas tentaram lidar com o problema com projetos de desvio de cursos d’água e programas educacionais. Também aumentaram os preços para indústrias com grande demanda hídrica.

Cairo

Crucial para o desenvolvimento de uma das grandes civilizações do passado, o rio Nilo está enfrentando problemas nos dias de hoje. É a fonte de 97% da água do Egito, mas também o destino de uma quantidade crescente de resíduos agrícolas e residenciais sem tratamento.

Poluição no NiloO Nilo atende 97% da demanda por água do Egito. GETTY IMAGES

A Organização Mundial da Saúde aponta que o Egito é o oitavo país do mundo em mortes ligadas à poluição hídrica entre os países com renda de nível médio-baixa (quando a renda nacional bruta per capita fica entre o equivalente a R$ 3.335 e R$ 13.113).

A ONU estima que o país sofrerá com crises hídricas graves em 2025.

Jacarta

Como muitas cidades costeiras, a capital da Indonésia enfrenta a ameaça da elevação do oceano – cerca de 40% da cidade agora está abaixo do nível do mar, segundo o Banco Mundial.

Área inundada em JacartaA perfuração ilegal de poços tem deixado a capital da Indonésia mais vulnerável a inundações. GETTY IMAGES

Mas, em Jacarta, o problema piorou com a ação humana: com mais da metade dos 10 milhões de habitantes sem acesso a água encanada, a perfuração ilegal de poços prolifera e esvazia as reservas subterrâneas.

A situação é agravada pelo fato de os aquíferos não serem reabastecidos pelas fortes chuvas, porque o concreto e o asfalto impedem que a água seja absorvida pelo solo.

Moscou

Um quarto das reservas de água doce do mundo estão na Rússia, mas o país enfrenta sérios problemas de poluição por conta do legado industrial da era soviética. Isso é especialmente preocupante para a capital, Moscou, onde 70% do abastecimento vem de reservas de superfície.

Rio em MoscouA capital russa enfrenta sérios problemas de poluição. GETTY IMAGES

Órgãos regulatórios afirmam que entre 35% e 60% de todas as reservas de água potável do país não atendem os padrões sanitários mínimos.

Istambul

Dados do governo turco mostram que o país vive tecnicamente uma situação de estresse hídrico, porque o abastecimento per capital caiu abaixo de 1,7 mil m³ em 2016. Especialistas locais alertam que a situação pode piorar até 2030.

Lago secoUma seca de 10 meses secou este lago próximo a Istambul. AFP

Nos últimos anos, áreas muito populosas como Istambul (14 milhões de habitantes) passaram a enfrentar períodos de falta d’água nos meses mais secos. Os níveis dos reservatórios caíram abaixo de 30% da capacidade no início de 2014.

Cidade do México

Faltar água não é uma novidade para os 21 milhões de habitantes da capital do México. Para um a cada cinco, as torneiras só funcionam por algumas horas por semana, e, para 20%, só há abastecimento em parte do dia.

Mulas com galões de águaA falta de acesso à água corrente é um problema comum para quem mora na capital do México. AFP

A cidade importa cerca de 40% da sua água de fontes distantes, mas não tem nenhuma operação de larga escala para reciclar água que já foi utilizada. Perdas por problemas na rede são estimadas em 40%.

Londres

De todas as cidades do mundo, a capital do Reino Unido, Londres, não é a primeira que viria à mente quando se fala de escassez hídrica. Com uma precipitação anual de 600 milímetros, menos do que a média de Paris e cerca de metade da média de Nova York, Londres atende 80% da demanda com seus rios.

Cano estourado em LondresNa capital do Reino Unido, o índice de desperdício de água é de 25%. GETTY IMAGES

Segundo a prefeitura local, a cidade está próxima do limite de sua capacidade e deve enfrentar problemas de abastecimento em 2025 e crises sérias em 2040.

Tóquio

A capital do Japão, Tóquio, tem níveis de precipitação semelhantes aos de Seattle, apelidada de Cidade Chuvosa pelos americanos. As chuvas estão, no entanto, concentradas em apenas quatro meses do ano. A água precisa ser coletada e armazenada, já que pode haver secas no restante do ano.

Arena de sumô Ryogoku KokugikanEsta arena de sumô é um dos muitos locais que reutilizam água da chuva

Autoridades locais fizeram justamente isso: ao menos 750 edifícios públicos e privados têm sistemas de coleta e reuso de água da chuva.

Com mais de 30 milhões de habitantes, Tóquio depende de reservas de superfície (rios, lagos e neve) para 70% de seu abastecimento. Investimentos recentes na rede têm como meta reduzir o desperdício para 3%.

Miami

O Estado da Flórida, nos Estados Unidos, está entre os cinco mais chuvosos todos os anos. Mas está anunciando uma crise em sua cidade mais famosa, Miami.

Um resultado não previsto para o projeto de drenagem de seus pântanos é que a água do Oceano Atlântico contaminou o aquífero Biscayne, a principal fonte de água da cidade.

Mar em MiamiA contaminação por água do mar é uma ameaça às reservas hídricas de Miami. GETTY IMAGES

Ainda que o problema tenha sido detectado nos anos 1930, a água do mar ainda se infiltra, especialmente porque a cidade americana tem sido vítima de uma elevação do nível do mar cada vez mais acelerada, superando as barreiras subterrâneas instaladas nas últimas décadas.

Cidades vizinhas também enfrentam o mesmo problema – Hallande Beach, a alguns quilômetros ao norte, teve de fechar seis de seus oito poços por causa da invasão da água salgada.

Fonte – BBC Brasil de 11 de fevereiro de 2017

Faxinalenses do Paraná

Faxinalenses do Paraná

Enquanto aumentam os impactos sobre seu modo de vida centenário, os faxinalenses crescem como força identitária. Suas áreas estão entre as mais preservadas do estado

Onde há faxinal, há mata. Quase todos os pontos verdes no mapa do Paraná, exceto a área da Serra do Mar e das grandes unidades de conservação, guardam em si pequenos territórios nascidos da relação do homem com a floresta. Essas comunidades existem há pelo menos 200 anos, e por quase todo esse tempo permaneceram em um estado de delicado equilíbrio entre o uso e a preservação do que a natureza dispõe: a atividade econômica e a vida em comunidade.

A única cerca existente é a que circunda os faxinais, servindo de divisa entre as roças de alimentos, situadas do lado de fora e o faxinal em si: área que pode variar de 200 a 1,5 mil hectares onde ficam as casas, a mata e os pastos de criação. Cada um é dono de seus bois, cavalos, porcos e ovelhas, mas a terra é de uso comum, e todos os animais vivem à solta. Também a floresta é comunitária: dela os moradores extraem pinhão, erva-mate e plantas medicinais.

Nos anos 1970, com a expansão de grandes lavouras, os faxinalenses viram o início da desestruturação do seu modo de vida. Em 1997, o governo estadual do Paraná criou uma categoria específica de proteção dos seus territórios: as Áreas Especiais de Uso Regulamentado (Aresur), que não apenas delimitam os faxinais como possibilitam recompensar as comunidades com o ICMS Ecológico.

Existem hoje 28 dessas áreas no estado. Parece bom, mas ali é criado outro problema. “As Aresur foram criadas de cima para baixo, sem que nos consultassem”, diz Hamilton José da Silva, liderança no Faxinal dos Ribeiros, em Pinhão. “Na hora de delimitar os faxinais, houve muita perda de território.” Não bastasse isso, nem sempre as comunidades recebem a cota que lhes cabe do ICMS Ecológico. Ou porque as prefeituras repassam menos do que deveriam, ou simplesmente porque destinam a verba a outro uso.

Por quase uma década os faxinalenses estiveram à mercê das regras desse jogo, até o momento em que, pela primeira vez, se reuniram para discutir seus interesses comuns. Foi em 2005, com um encontro no município de Irati, que reuniu mais de 200 faxinalenses, que eles se reconheceram como comunidade, compartilhando do mesmo modo de vida, da mesma cultura e dos mesmos objetivos. Disso nasceu a Articulação Puxirão dos Povos Faxinalenses, hoje o principal meio de pressão sobre o poder público desas comunidades. Já no ano seguinte ao desse encontro, conseguiram do governo do Paraná o reconhecimento oficial como comunidade tradicional.

Foto: Marcio Isensee Sá

Foto: Marcio Isensee Sá

Foto: Marcio Isensee Sá
Foto: Marcio Isensee Sá
Foto: Marcio Isensee Sá
Foto: Marcio Isensee Sá
Foto: Marcio Isensee Sá
Foto: Marcio Isensee Sá

Ameaças e organização

Enquanto aumentaram os impactos sobre seu modo de vida centenário, os faxinalenses cresceram como força identitária. No centro do Paraná, as monoculturas de milho e soja estão mais perto do que nunca, contribuindo para o desmatamento das florestas nativas, entre elas as de araucárias, e para a contaminação da água com agrotóxicos, quando não para o esgotamento das fontes hídricas.

“Temos relatos de riachos que secaram”, conta Amantino Beija, um dos coordenadores da Articulação Puxirão. Amantino vive no faxinal Meleiro, em Mandirituba. Nos arredores de Curitiba, a água dos faxinais também está sendo sugada, mas pelo cultivo de pínus eeucalipto – um problema a mais para os faxinalenses da região.

Perto da capital, outro desafio é trabalhar com os jovens. As escolas do campo, nas quais as crianças faxinalenses poderiam desfrutar de um conteúdo e uma prática curriculares voltados à comunidade, ainda são um sonho. “Os professores vêm todos de fora e dizem que os alunos precisam estudar e abandonar nosso modo de vida para ser alguém na vida”, diz Amantino. A comunidade acaba sofrendo com a venda de terras, por parte das gerações mais novas, para a criação de chácaras de veraneio. “As pessoas da cidade compram área de faxinal e não procuram saber como é a vivência da comunidade, inclusive cercando suas terras”, relata Amantino, ressaltando que, com isso, moradores mais antigos ficam sem pasto para os animais, tendo que recorrer à ração.

A implantação dos mecanismos já existentes, ainda que não sejam ideais, é um dos marcos da luta. “A Aresur oferece muitas vantagens, mas precisa ser bem discutida com a gente”, diz Hamilton. No último levantamento feito por organizações parceiras da Articulação Puxirão, foi registrada a existência de 227 faxinais no Paraná, mas apenas 30 fazem parte da articulação, dada a falta de recursos para conectar comunidades tão distantes geograficamente. Para as comunidades faxinalenses, Puxirão significa mutirão, o que traduz bem não só o modo como cuidam de suas criações, mas como percebem o território.

Foto: Marcio Isensee SáVista da região do Faxinal Meleiros no distrito de Areia Branca do Assis, Mandirituba.
Foto: Marcio Isensee SáAdonias Bernardino Sena, de 70 anos, nasceu na Bahia e vive nos faxinais há 40 anos.
Comunidades faxinalenses
  • Onde estão: os faxinais estão espalhados por todo o estado, mas aqui tratamos dos que estão próximos de Curitiba
  • Atividades: pastoreio em áreas coletivas e criação de pequenos animais.Roçado, extração de pinhão, erva-mate e medicamentos na mata
  • Por que lutam: pela correta implantação das reservas legais de uso sustentável nas quais estão inseridos
  • Ameaças: expansão das monoculturas de soja, milho, pínus e eucalipto. Perda de terras e redução dos territórios. Contaminação das águas, desmatamento de agroflorestas
  • Como se organizam: Articulação Puxirão de Povos Faxinalenses, participação nos conselhos estadual e nacional de povos e comunidades tradicionais
Fonte – Xavier Bartaburu, Fotos de Marcio Isensee Sá, Reporter Brasil de 27 de janeiro de 2018

Glifosato. Cientistas argentinos descobrem danos ao crescimento ovariano de crustáceos

Cientistas argentinos descobriram que tanto o glifosato como os herbicidas a base de glifosato afetam o crescimento ovariano dos crustáceos, durante novos estudos revisados por pares in vivo e in vitro sobre a espécie modelo: o caranguejo de estuário Neohelice granulata.

A reprodução de crustáceos é um processo complexo, que implica o crescimento ovariano em fêmeas adultas, durante o período crítico anterior à desova (denominado como período pré-reprodutivo). Durante este período, os ovócitos imaturos (pré-vitelogênicos) se desenvolvem em oócitos maduros (vitelogênicos), que acumulam uma grande quantidade de gema (por exemplo, lipoproteínas constitutivas do vitelo), que em parte se sintetiza pelos mesmos ovócitos. Além disso, este processo é regulado por vários hormônios, alguns secretados pelo sistema nervoso (por exemplo, neuro-hormônios) e outras por células endócrinas específicas, localizadas em vários tecidos, incluído o ovário.

O glifosato é atualmente um dos herbicidas mais utilizados em todo o mundo, especialmente nos países onde a agricultura representa um elemento importante na produção nacional de produtos básicos, como no caso da Argentina. Recentemente, os pesquisadores deste país caracterizaram vários efeitos do glifosato, puros e formulados, sobre o crescimento ovariano do caranguejo de estuário Neohelice granulata. Esta espécie de crustáceo foi amplamente estudada durante os últimos 30 anos, em relação a quase todos os seus aspectos biológicos. De fato, N. granulata foi considerada uma espécie modelo, representativa de uma grande quantidade de grupos de crustáceos.

Um dos ensaios realizados sobre o caranguejo N. granulata foi a exposição das fêmeas durante o inverno, ou seja, nos três meses do período pré-reprodutivo que o ovário necessita para amadurecer, antes da desova durante a primavera. Ao final do período de exposição, observou-se uma incidência significativa da reabsorção de ovócitos no ovário dessas fêmeas expostas à formulação de glifosato Roundup Ultramax, que tem uma concentração de glifosato (como o ingrediente ativo) de 0,2 mg/L, uma concentração que pode ser encontrada no meio ambiente.

Além disso, o conteúdo diminuído de vitelogenina por grama de ovário também foi encontrado nas mesmas fêmeas. Este último efeito também foi verificado in vitro, após incubar peças isoladas do ovário com a mesma formulação comercial e a mesma concentração utilizada in vivo. Por outra parte, por meio da avaliação da incorporação de um aminoácido radiomarcado às proteínas de ovário, é possível estabelecer, em comparação com um grupo de controle, que uma inibição parcial da síntese de proteínas foi a responsável pela diminuição do conteúdo de vitelogenina observado tanto in vivo como in vitro.

O glifosato, como ingrediente ativo das formulações comerciais, é responsável pelos efeitos nocivos?

Em ensaios adicionais, os pesquisadores buscaram elucidar a contribuição real do glifosato, em si mesmo, aos efeitos nocivos sobre o ovário dos caranguejos, causados pela formulação comercial ensaiada. A isto, um novo ensaio in vivo foi realizado durante todo o período pré-reprodutivo. Assim como se notou com a formulação comercial, observou-se uma incidência significativa de reabsorção de oócitos, mas com uma concentração mais alta (1 mg/l). Tomados em conjunto, os resultados obtidos tanto com o glifosato puro como com o formulado sugerem a existência de alguns efeitos sinérgicos entre o glifosato puro e os coadjuvantes apresentados na formulação comercial ensaiada.

O glifosato puro não reduziu o conteúdo de vitelogenina por grama de ovário, mas um novo efeito do herbicida aparentemente mascarado na formulação comercial, devido aos efeitos inibidores que esta formulação causou na síntese de vitelogenina, foi o aumento do tamanho dos pré-vitelogênicos imaturos, ovócitos, ao final do ensaio in vivo. Os dois efeitos causados pelo glifosato puro (reabsorção de oócitos e aumento do tamanho de ovócitos pré-vitelogênicos) também corroboraram, mediante ensaios in vitro, expondo pedaços de ovário isolados a uma concentração de glifosato de 0,2 mg/l. O aumento anormal no tamanho dos ovócitos imaturos foi consistente com um possível efeito disruptor endócrino causado pelo glifosato puro, provavelmente alterando a secreção e/ou o mecanismo de transdução de um ou mais hormônios que controlam o crescimento ovariano nos crustáceos. Esta hipótese está atualmente sob verificação.

Este estudo foi apoiado por subsídios do CONICET (PIP2015) e da Universidade de Buenos Aires (programa científico UBACYT 2016).

Os autores do trabalho são os pesquisadores Luciana Avigliano, Ivana S. Canosa, Daniel A. Medesani e Enrique M. Rodríguez, pertencem ao Departamento de Biodiversidade e Biologia Experimental, FCEN, Universidade de Buenos Aires. Instituto de Biodiversidade, Biologia Experimental e Aplicada(IBBEA), CONICET-UBA. Cidade Universitária de Buenos Aires, Argentina.

Fontes – Graciela Vizcay Gomez, America Latina en Movimiento (ALAI) / tradução Cepat / IHU de 11 Fevereiro 2018

Quanto vale: entenda o preço de cada material e seu impacto na economia dos catadores

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A importância da reciclagem para diminuir os impactos do consumo e da geração de lixo não é novidade para ninguém. Ainda assim, pesquisas indicam que serviços de coleta seletiva são oferecidos em menos de 20% dos municípios brasileiros.

O levantamento é o Ciclosoft 2016, feito pela associação sem fins lucrativos Cempre(Compromisso Empresarial para Reciclagem), que também aponta para a concentração dos serviços no Sul e no Sudeste: dos 1055 municípios com coleta seletiva no país, 421 ficam na região Sul e 434 na Sudeste, somando 81% do total.

As cooperativas de catadores têm uma função importantíssima dentro desse cenário, trabalhando em mais da metade das cidades em que há a coleta do lixo reciclável.

Para nortear os coletores que precisam vender os recicláveis para cooperativas ou outros programas de coleta, o CEMPRE criou uma tabela de valores separada por cidades e tipo de material. Os valores representam o pagamento em Reais por Tonelada de material.

(Legenda: P = prensado L = limpo I = inteiro C = cacos UN = unidade)

Com esses números em mente, fica mais fácil entender por que os catadores dão atenção especial às latinhas de alumínio: Enquanto elas chegam a valer 3700 reais por tonelada (ou R$3,70 por quilo), a tonelada de garrafa PET, segundo material de maior valor, rende no máximo R$ 1780, ou R$ 1,78 por quilo.

Latinha é bom demais. Lembra verão, festa, carnaval. Latinha é reciclável, é sustentável, é geração de renda. Latinha é empoderamento. Latinha gela rápido, preserva o sabor e é pura praticidade e estilo.

Fonte – Hypeness