Já ameaçadas, as abelhas agora têm outro inimigo com que se preocupar: fungicidas

abelha-melWikimedia Commons

Não é segredo algum que as abelhas têm passado por apuros. Ontem mesmo, a Bombus affinis se tornou a primeira abelha nos Estados Unidos continentais oficialmente listada no Endangered Species Act, criado para proteger espécies sob risco de extinção. Mas essa é apenas a ponta do iceberg para nossas amiguinhas barulhentas, que, diferentemente de suas primas vespas, só querem polinizar plantas com seus pequenos corpos peludos. Infelizmente, as melhores abelhas, as de mel (Apis mellifera L.), estão lidando com mais uma ameaça à sua existência, enquanto as vespas apenas relaxam e veem o caos.

De acordo com uma nova pesquisa publicada em 21 de março, no Journal of Economic Entomology, o fungicida iprodiona, normalmente usado em pomares de amendoeiras, podem matar as abelhas de mel dentro de aproximadamente dez dias após exposição à substância. As abelhas de mel, que normalmente vivem por 122 dias, são alguns dos mais importantes polinizadores que temos; Então, a menos que você esteja torcendo por uma situação como a do 6º episódio da 3ª temporada de Black Mirror, isso é uma má notícia.

“Considerando que esses fungicidas podem ser aplicados quando as abelhas de mel estão presentes em pomares de amendoeiras, nossas descobertas sugerem que as abelhas podem enfrentar perigo significativo da aplicação de químicos, mesmo quando aplicados com responsabilidade”, disse Juliana Rangel, co-autora do estudo e professora assistente de apicultura na Texas A&M University, em um comunicado.

abelha-mel-2Abelha europeia polinizando uma flor (Wikimedia Commons)

A equipe usou um túnel de vento para testar como vários fungicidas, incluindo o iprodiona, afetariam abelhas de mel. Os fungicidas, em vários níveis de dosagem e velocidade, foram esguichados através do túnel de vento, enquanto um grupo de controle de abelhas não recebeu tal tratamento. Os pesquisadores descobriram que as abelhas expostas ao iprodiona, pela substância em si ou por alguma combinação com outros fungicidas, morreram em taxas duas ou três vezes maiores que as abelhas que não foram expostas, após dez dias. Neste momento, ainda é incerto por que esse fungicida particularmente é tão perigoso para a saúde das abelhas de mel. Tudo o que sabemos é que, por várias razões, isso é ruim. Muito ruim.

“A abelha de mel (Apis mellifera L.) contribui com US$ 17 bilhões com a economia dos Estados Unidos, especialmente ao polinizar colheitas de agricultura muito importantes, incluindo a da amêndoa, que é completamente dependente da polinização da abelha de mel para a produção do fruto”, escreveram os pesquisadores. “Ao proteger pomares de amendoeiras de diversas pragas e patógenos, tratamentos químicos pesados são usados durante o crescimento dos frutos. Entretanto, apesar de seu uso unânime, os efeitos dos vários pesticidas usados repetidamente nos pomares de amendoeiras na saúde da abelha de mel não são bem compreendidos.”

Com sorte, o estudo irá encorajar produtores a considerarem outras alternativas ao fungicida, ou protocolos de spray que minimizem a exposição à abelha de mel. Enquanto isso, por várias razões, incluindo não apenas este fungicida, mas também pesticidas, doenças e mudança climática, as abelhas de mel continuam a morrer aos montes, nos aproximando cada vez mais de nosso colapso inevitável como espécie.

Então, pois é… Salvem as abelhas, se não…

Fontes – Rae Paoletta, Journal of Economic Entomology / Gizmodo de 22 de março de 2017

Araucária. A floresta disseminada pelos índios e que hoje vive ameaçada

Flávio Zanette destaca que a mata de araucária deveria ser considerada um bioma pelas inúmeras formas de vida que se estabelecem ao seu redor

O legado dos povos originais para as populações atuais é imensurável. Entretanto, um dos problemas da humanidade hoje é não só não reconhecer esse legado, como ainda destruí-lo. É mais ou menos o que ocorre com a floresta de araucária, presente do norte do Rio Grande do Sul até o estado do Paraná. “A araucária dependeu dos índios para sua disseminação e agora depende de nós para sua preservação”, destaca o professor da Universidade Federal do Paraná – UFPR Flávio Zanette, que se dedica a pesquisar essas florestas. O problema é que essa preservação não ocorre como deveria. No início dos anos 1940, a mata de araucária compunha 15% do território gaúcho, 25% do território catarinense e 35% do paranaense. Em menos de 80 anos, foi reduzida a 1,5% no Rio Grande do Sul, em torno de 3% em Santa Catarina, e no Paraná, conforme o levantamento feito pela Fundação de Ciências Florestais, não chega a 1,5% de mata virgem em relação ao original.

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line, o professor explica por que a araucária é tão cobiçada. “Sua fragilidade é seu grande valor econômico e por isso os proprietários das terras não deixariam uma só árvore em pé, se a legislação permitisse”, detalha. Para ele, a floresta segue ameaçada “porque nossa política pública referente à espécie só se preocupa em impedir a derrubada, mas não fomenta o plantio”. Zanette ainda ressalta que esses bosques poderiam ser considerados um bioma específico. “Se justifica pela grande área que ocupa, pela quase exclusividade do Brasil e pelas inúmeras particularidades da espécie e das que convivem com ela”, diz.

Flávio Zanette é graduado em Engenharia Agronômica pela Universidade Federal do Paraná – UFPR, mestre em Fitotecnia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS e doutor em Fitotecnia pela Universite de Clermont II. Atualmente é professor da UFPR, onde atua no Laboratório de Micropropagação Vegetal, pesquisando técnicas de enxertia da araucária.

No dia 14 de junho, das 19h30min às 22h, ele profere a conferência Bioma Araucária: riquezas e fragilidades de um bioma ameaçado, dentro da programação do evento Os biomas brasileiros e a teia da vida, promovido pelo IHU. Veja a programação completa.

IHU On-Line – A floresta de araucária , que tecnicamente, seguindo com a classificação do IBGE , está inserida como ecossistema no bioma da Mata Atlântica, pode ser considerada um bioma? Por quê?

Flávio Zanette – Recentemente, numa defesa de tese, manifestei meu desejo de ver um dia o bioma Araucária fazer parte dos biomas brasileiros. Se justifica pela grande área que ocupa, pela quase exclusividade do Brasil e pelas inúmeras particularidades da espécie e das que convivem com ela.

IHU On-Line – Quais as riquezas e fragilidades da mata de araucária? E por que é tão ameaçada?

Flávio Zanette – Bastaria falar da araucária e do xaxim , que vivem neste bioma há muitas dezenas de milhões de anos. Sua fragilidade é seu grande valor econômico e por isso os proprietários das terras não deixariam uma só árvore em pé, se a legislação permitisse. Está ameaçada porque nossa política pública referente à espécie só se preocupa em impedir a derrubada, mas não fomenta o plantio. Como todo o ser vivo, necessita de renovação da população, pois um dia todos morrerão de velhos. Araucária não é peça de museu, é necessário fomentar seu plantio, pois ela não se regenera no interior da floresta porque necessita de luz.

IHU On-Line – Quais os impactos da degradação da araucária noutros biomas e ecossistemas?

Flávio Zanette – Com o desaparecimento da araucária, seu ecossistema certamente será afetado pelo comportamento das espécies parceiras. E, principalmente, muitas espécies animais seriam afetadas.

IHU On-Line – Quais os maiores desafios para a preservação da araucária?

Flávio Zanette – Preservá-la pelo uso com base no conhecimento científico/técnico atual e elaborações de políticas de fomento, especialmente para produção de pinhões.

IHU On-Line – E em que medida a ecologia em torno da araucária pode inspirar reflexões sobre as inúmeras e complexas relações que compõem a teia da vida no planeta?

Flávio Zanette – O quanto tempo uma espécie vegetal já vive no planeta tendo superado todas as mudanças climáticas que ocorreram. Isto poderia ocorrer também conosco!

IHU On-Line – Como as mudanças climáticas, a poluição e até a diminuição da fauna, como populações de passadores, podem impactar no desenvolvimento das araucárias?

Flávio Zanette – A araucária dependeu dos índios para sua disseminação e agora depende de nós para sua preservação. A fauna se beneficia muito das sementes da araucária, mas pouco ou nada pode fazer para salvá-la.

Fonte – João Vitor Santos, IHU de 13 de março de 2017

Imagem – Hoffmann, J. S.

Pampa é um bioma em permanente transformação

Uma palestra que tratou da formação do Pampa e da questão dos recursos hídricos marcou a abertura de um amplo ciclo de estudos promovido pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU. Na noite de quarta-feira (15/3), o professor Rafael Cabral Cruz, da Fundação Universidade Federal do Pampa (Unipampa), proferiu a conferência Bioma Pampa: gestão de recursos hídricos e conservação das águas. Desafios e possibilidades, dando início ao evento Os biomas brasileiros e a teia da vida, que se estende até junho.

Cruz, no início de sua palestra, disse que não havia certezas para repassar. “Queria poder dar informações positivas, mas trago notícias tristes, fruto de pesquisas e da minha militância como ambientalista”, afirmou. O roteiro que desenvolveu para a palestra foi uma síntese “das incertezas, dos desafios e dos problemas vivenciados dentro do bioma Pampa.”

O propósito de sua palestra era discutir a água no bioma, mas, para tanto, Cruz entendeu que era preciso discutir antes o próprio bioma. Assim, apresentou um panorama da formação da região. “O bioma do início do século 20, quando se começou a discutir preservação ambiental, não tem nada a ver com o bioma de quando o ser humano chegou à região, assim como é muito diferente de quando os colonizadores chegaram”, garantiu. “Isso tudo afeta a água.”

Quatro ciclos

O Pampa teve quatro grandes ciclos de transformação ambiental. No primeiro deles, extinguiu-se a fauna formada por animais de grande porte, como um tipo de tatu cujo tamanho equivalia ao de um automóvel. Para compreender o que ocorreu na região, é necessário retroceder até a África. Na Savana africana, o ser humano se desgastava muito para conseguir alimentos, então sobrava pouca energia para reprodução. Com o tempo, desenvolveu maneiras de se alimentar mais e se cansar menos.

Animais muito rápidos não conseguem manter a velocidade elevada por tempo prolongado. O ser humano é menos veloz, mas sustenta a marcha por mais tempo. Ao perceberem que os animais fogem do fogo, começaram a queimar as savanas, de maneira a conduzir a presa na direção dos caçadores, que acabavam abatendo o animal cansado. “Isso aumentou a eficiência da caça e a economia de energia, fazendo com que o ser humano se espalhasse pelo planeta, chegando até aqui”, descreve Cruz. Isso causou o primeiro grande ciclo de transformação do Pampa.

O ser humano chegou à região que compreende o Pampa no final da época geológica chamada pleistoceno (cerca de 18.000 a 12.000 anos atrás.). O clima era rigorosamente frio e seco, e o nível do mar estava ao menos cem metros abaixo do atual. No holoceno (período que data de cerca de 11,5 mil anos até o presente), o clima era quente e úmido, e o nível do mar, alto. Essas características redundaram em uma tropicalização do Brasil e em uma certa estabilidade dessas condições. A paisagem era aberta, sujeita ao pisoteio dos mamíferos de grande porte da época, o que acabava gerando um controle da vegetação.

Dados do palinograma do município de São Francisco de Assis revelam a concentração e a taxa de acumulação de partículas carbonizadas da região. A presença desses elementos era pequena, mas constante, até cerca de 12.000 anos atrás, quando se registra a chegada dos primeiros seres vivos provenientes da África. A partir daí, as taxas aumentaram de maneira drástica e contínua, até atingir um máximo por volta de 9.000 anos atrás. Conforme Cruz, há uma sincronia entre o aumento da presença de partículas carbonizadas e a extinção da megafauna, há cerca de 8.000 anos. Com o fim do pisoteio dos grandes mamíferos, a vegetação campestre passou a ser substituída por outro tipo adaptado ao fogo.

Chegada dos europeus

O segundo grande ciclo se inicia com a chegada dos europeus ao Pampa, particularmente os jesuítas, que reintroduzem na fauna animais de grande porte. Eles aportaram no Brasil em 1549. Entre 1626 e 1634, fundaram 18 reduções no território do atual Rio Grande do Sul. Em 1638, abandonaram uma estância onde havia 5 mil cabeças de gado. O naturalista espanhol Félix de Azara (1742-1821) estimou que, em 1700, havia 48 milhões de cabeças no Pampa. Ele também descreveu que a queima dos campos, o pastoreio e o pisoteio estavam eliminando capins mais altos, desta forma abrindo espaço para espécies invasoras como malva e cardo.

A terra ficou degradada, por conta do volume de gado, que compactou o solo, mas a degradação não prosseguiu por três fatores: a indústria do charque, que levou à matança intensiva do gado; os cercamentos das propriedades, a partir de 1870; e o manejo de lotação. Isso gerou controle populacional do rebanho.

Revolução verde

A terceira grande transformação verificada no Pampa começou com a chamada revolução verde, quando imigrantes alemães e italianos introduziram a agricultura em regiões do Rio Grande do Sul na segunda metade do século 19. Esse processo, caracterizado pela substituição de ecossistemas nativos por agroecossistemas, teve grande impacto sobre a Mata Atlântica, que passou a ser suprimida para dar espaço à lavoura. A interferência no ambiente natural se intensificou depois da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), quando houve uma conversão da indústria bélica para a produção de maquinário agrícola. “A fábrica de tanques passou a fazer tratores; a que produzia TNT e gás Sarin, agrotóxicos”, descreve Cruz.

Das culturas que preponderam no bioma Pampa, a que desperta maior preocupação é a soja. O crescimento desse cultivo “está em ritmo violento nas áreas de campo, e isso altera o ciclo hidrológico”, alerta Cruz, sempre salientando o quanto as transformações do uso da terra afetam o comportamento hídrico. Além disso, a perda da biodiversidade favorece o aparecimento de pragas, o que demanda o uso de mais agrotóxicos. “A produtividade dos pomares está diminuindo em razão do uso excessivo de veneno”, observa. Outra consequência é a eutrofização e contaminação de ecossistemas terrestres e aquáticos. “Há resíduos de agrotóxicos em bacias de água do Rio Grande do Sul.”

Mudanças climáticas

A quarta etapa de transformação do Pampa é marcada pelas mudanças climáticas antropogenicamente induzidas, ou seja, derivadas de atividades humanas. “Perdemos controle local sobre o que vai acontecer conosco”, afirma Cruz. Trata-se de um problema de escala global, cuja solução depende de uma mobilização mundial.

Ele apontou uma série de fenômenos que evidenciam o problema. O aquecimento global está acontecendo. Há excesso de chuvas concentradas em poucos meses, e o encharcamento diminui a produtividade da lavoura. “Isso cria mais fungos na lavoura, tanto que o agrotóxico mais usado no ano passado foi fungicida”, observa. Na cidade, aumenta a ocorrência de enchentes. Nas encostas, acontecem deslizamentos. “Catástrofes levam à desestruturação da sociedade”, projeta.

Os problemas decorrentes das mudanças climáticas são globais. “Populações do norte da África migram para Europa não por causa de guerra, mas devido à falta de água”, aponta. No Pampa, Cruz observa que está ocorrendo um processo de savanização, caracterizado pela ocorrência de uma estação seca e outra chuvosa.

O pesquisador salienta que as duas primeiras fases de transformações do Pampa – a chegado do ser humano à região e a reintrodução da fauna de grande porte pelos europeus –, por serem longas, permitiram que o ambiente se adaptasse à interferência humana. As outras duas – a revolução verde e as mudanças climáticas –, no entanto, provocaram grandes transformações em pouco tempo. “Não há genética que dê respostas rápidas de adaptação, então ocorre a degradação do ambiente”, descreve.

O cenário é nada alvissareiro não apenas pelos efeitos das mudanças climáticas, mas também por conta da inépcia do poder público no que tange às questões hídricas. “No Brasil, não há cultura de monitoramento das águas dos rios, o que impede que se faça gestão hídrica”, acusa Cruz. “Temos um quadro de incerteza geral. É preciso ter humildade em dizer que nossas ferramentas não dão mais a segurança que a sociedade necessita em gestão hídrica.” O pesquisador aponta que o desafio da hidrologia moderna é criar uma hidrologia adaptada às mudanças climáticas. A solução passa pelo comprometimento público e pelo espírito coletivo para cobrar ações do estado.

Ciclo de estudos

A discussão promovida pelo IHU sobre os biomas brasileiros gerou um ciclo de estudos que abrange diferentes áreas de conhecimento, em perspectiva transdisciplinar, agregando interesses especialmente dos Programas de Pós-Graduação em Biologia e em Geologia da Unisinos, bem como das disciplinas e atividades acadêmicas voltadas para ética/bioética ambiental, ecologia e sustentabilidade. A programação inclui conferências sobre biomas brasileiros, em articulação com questões de biologia, ecologia, ecologia integral, ética ambiental, ecoteologia, mudanças climáticas; atividades artísticas e culturais; exibição de vídeos sobre os seis principais biomas brasileiros; ciclo de estudo em Educação à distância (EAD); publicação impressa e digital de um número especial da revista IHU On-Line, de Cadernos IHU Ideias e Cadernos Teologia Pública, bem como publicação de entrevistas e notícias sobre o mesmo tema no site do IHU.

A programação completa do ciclo pode ser acessada aqui.

Fonte – Vitor Necchi, IHU de 18 de março de 2017

Entenda como microplástico presente em ‘quase tudo’ está matando os oceanos

Partículas microscópicas liberadas por roupas sintéticas e pneus passam por sistemas de tratamento de água e vão parar no marPartículas microscópicas liberadas por roupas sintéticas e pneus passam por sistemas de tratamento de água e vão parar no mar

De pneus a roupas e cosméticos, o microplástico se encontra praticamente em todos os objetos do dia a dia. E seu impacto sobre as águas do planeta é catastrófico: calcula-se que, dos 9,5 milhões de toneladas de matéria plástica que flutuam nos mares, até 30% sejam compostos por partículas minúsculas. Invisíveis a olho nu, elas constituem uma fonte de poluição mais grave do que se pensava, como mostra o mais recente relatório da International Union for Conservation of Nature (IUCN).

“Nossas atividades diárias, como lavar roupas e andar de carro, contribuem significativamente para a poluição que sufoca os nossos oceanos, tendo efeitos potencialmente desastrosos para a rica diversidade que vive neles e para a saúde humana”, afirma a diretora geral da IUCN, Inger Andersen.

Segundo o estudo da organização, cerca de dois terços do microplástico encontrado nos oceanos são originados dos pneus de automóveis e das microfibras liberadas na lavagem de roupa. Outras fontes poluidoras são a poeira urbana, marcações rodoviárias e os barcos.

Perigo invisível

As imagens de tartarugas presas em redes de pescar e pássaros com anéis de latas de cerveja em volta do pescoço há muito correm mundo. O problema do microplástico, contudo, é invisível, só tendo sido recentemente detectado como tal. Assim, ainda se sabe relativamente pouco sobre sua escala e verdadeiro impacto ambiental.

Ao contrário do lixo plástico convencional, que se degrada na água, o microplástico já é lançado no ambiente em partículas tão microscópicas que driblam os sistemas de filtragem das estações de tratamento de água. É exclusivamente nesse tipo de dejeto que o relatório da IUCN se concentra.

A atual quantidade de microplástico nas águas é de 212 gramas por ser humano, o equivalente a se cada pessoa do planeta jogasse uma sacola plástica por semana no oceano.

Ingeridos por peixes e outros animais marinhos, os minigrãos podem ter sério impacto sobre seus sistemas digestivos e reprodutivos, e há sérias suspeitas de que acabem chegando aos humanos, cadeia alimentar acima.

Ao pensar em lixo nos oceanos costumamos lembrar de macroplástico, como sacolinhas. Mas o microplástico, liberado quando lavamos roupas sintéticas também prejudica o meio ambiente

Maus hábitos de consumo

Como lembra João de Sousa, diretor do Programa Marinho Global do IUCN, as estratégias globais de combate à poluição marítima se concentram em reduzir o tamanho dos fragmentos do lixo plástico convencional. No entanto essa concepção precisa ser revista.

“As soluções devem incluir design de produtos e de infraestrutura, assim como o comportamento do consumidor. Pode-se projetar roupas sintéticas que liberem menos fibras, por exemplo, e os consumidores também podem agir, optando por tecidos naturais, em vez de sintéticos.”

Segundo outros especialistas, contudo, essa estratégia não tem o alcance necessário, e se precisa também abordar outros hábitos de consumo. Para Alexandra Perschau, da campanha “Detox” da organização ambiental Greenpeace na Alemanha, o real problema não é o tipo de casaco que se compra, mas sim quantos.

“O sistema de moda como um todo é o problema, é excesso de consumo”, comentou à DW. “Em diversos levantamentos, seja na Ásia ou na Europa, grande parte dos consumidores admite possuir mais roupas no armário do que precisam, mas continua comprando mais e mais.”

A produção mundial de vestuário dobrou a partir do ano 2000, excedendo os 100 bilhões de peças em 2014, de acordo com uma sondagem da Greenpeace. Além disso, atualmente as peças de vestuário tende a ser de difícil reciclagem.

“Temos cada vez mais peças confeccionadas com fibras mistas de poliéster e algodão, portanto nem temos como reciclá-las devidamente. No momento a tecnologia não está tão avançada que possamos separar esses tipos de fibras”, explica Perschau.

Entre a moda e meio ambiente

O relatório da IUCN saúda os esforços para banir as microesferas de plástico dos produtos cosméticos, inspirados por relatórios recentes. Trata-se de uma “iniciativa bem-vinda”, porém com impacto restrito, uma vez que esse tipo de material só responde por 2% da poluição com microplástico.

Em vez disso, seria necessária uma investida mais ampla e de impacto real contra as atividades geradoras das minúsculas partículas, segundo Maria Westerbos, diretora da Plastic Soup Foundation, que luta para que se pare de despejar matéria plástica no oceano.

“Somos todos responsáveis: é a ciência, a indústria, são os legisladores – e os consumidores. Todos nós precisamos fazer algo. Todos estamos usando plástico e todos o jogamos fora”, pleiteia Westerbos, sugerindo o desenvolvimento de tecidos que não desfiem e a adoção de novos filtros nas máquinas de lavar roupa – que só devem ser usadas com carga completa e de preferência com sabão líquido.

Perschau, da Greenpeace, acrescenta a importância de aumentar a vida útil das roupas. Em vez de jogar fora as que não se deseja mais, faria mais sentido trocá- las por outras ou entregá-las nas lojas de segunda mão. “Não estamos dizendo que não se deva usar roupa da moda, mas sim ser mais inteligente, vivendo de acordo com os próprios desejos sem comprometer os recursos do planeta.”

Com 7 bilhões de seres humanos e uma população crescente, será preciso mudar nossas atitudes em relação ao plástico, se quisermos salvar os oceanos, observa Westerbos:

“Não compre maçãs embaladas em plástico, não use sacolas plásticas descartáveis, nem canudinhos para descarte imediato. Há um monte de modos de evitar usar plástico, vamos começar por aí”

Nota do Instituto IDEAIS

Microplástico é resultado da degradação que acontece durante a degradação dos plásticos convencionais de origem fóssil e do plástico polietileno de origem renovável, no Brasil conhecido como plástico verde. Estes plásticos, em pedaços, atraem substâncias tóxicas e segundo algumas pesquisas, são ingeridos por plânctons que por sua vez são comidos por peixes e podem estar contaminando os peixes que as pessoas consomem. Os falsos plásticos biodegradáveis, oxibiodegradáveis, de fonte renovável etc não certificados e suas fraudes também se enquadram como geradores de microplásticos.

Plásticos biodegradáveis (oxibiodegradáveis, hidrossolúveis e hidrobiodegradáveis) certificados em conformidade com normas ABNT, OPA, AFNOR, BS e IDEAIS não atraem substâncias tóxicas por que durante o estágio da degradação deixam de ser plásticos. Eles atraem a água, são colonizados por microrganismos aquáticos e são completamente biodegradado, resultando sempre em água, biomassa e Dióxido de Carbono. Estes modernos tipos de plásticos não entram na cadeia alimentar. Exija a certificação ABNT, OPA e IDEAIS do seu fornecedor de plásticos fabricados com aditivos oxibiodegradáveis e da European Bioplastics para os plásticos hidrobiodegradáveis e compostáveis se esta for sua escolha.

Fontes – Louise Osborne, DW / UOL de 28 de fevereiro de 2017

Boletim do Instituto IDEAIS de 28 de março de 2017

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Não é só com carne: leite com ureia e óleo em vez de azeite estão entre fraudes de alimentos no Brasil

Agentes no RSAgentes durante operação do Ministério Público no Rio Grande do Sul. MP-RS

Adulterar um produto para obter ganhos comerciais não é particularidade da indústria da carne no Brasil, como foi exposto pela operação Carne Fraca, da Polícia Federal. Estudos e ações pontuais mostram que o crime é praticado para maquiar outros alimentos que chegam à mesa dos brasileiros.

Quase ao mesmo tempo em que policiais federais levavam mais de 30 pessoas à prisão por receber propinas ou adicionar substâncias maléficas à carne, uma ação no Rio Grande do Sul que não teve a mesma repercussão tratava de um caso semelhante. Conheça esse e outros problemas com produtos básicos do dia a dia.

Laticínios vencidos

Na última semana, uma operação do Ministério Público do Rio Grande do Sul (MP-RS) com outras entidades cumpriu cinco mandados de prisão e quatro de busca e apreensão contra produtores de laticínios que adulteravam lotes já impróprios para o consumo.

Segundo as investigações, empresas locais vinham adicionando substâncias para diminuir a acidez e eliminar micro-organismos de laticínios vencidos. E, no creme de leite, acrescentavam água para amolecer o produto envelhecido e ressecado.

Foi a 12ª fase das operações “Leite Compen$ado”, que começaram em 2013. E hoje a operação integra um programa maior de segurança alimentar criado pela Promotoria gaúcha, tamanho era o número de denúncias e processos judiciais de irregularidades com alimentos.

Leite embalagemUreia e formol em laticínios são encontrados em análises

Ao todo, 167 pessoas – na maioria produtores e distribuidores do Rio Grande do Sul – foram denunciadas e respondem a processos criminais em razão das ações do Ministério Público. Dessas, 16 foram condenadas por adulteração do leite e organização criminosa.

Indústrias e transportadoras já assinaram nove Termos de Ajustamento de Conduta (TAC) com o MP, que, além de compromissos firmados, abrangem indenizações que somam mais de R$ 10 milhões.

Desde então, diferentes substâncias já foram encontradas nos laticínios; entre elas, ureia e formol. Um comunicado da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) divulgado durante operações passadas alertou sobre o potencial cancerígeno do formol; já a ureia, em doses razoáveis, tem baixa toxicidade.

“A maioria das adulterações ocorre para aumentar a longevidade dos produtos”, explica Caroline Vaz, coordenadora do Centro de Apoio Operacional de Defesa do Consumidor do MP-RS.

Mesmo após cinco anos de operações, Vaz diz que as denúncias continuam: “Quando descobrimos e coibimos um novo golpe, os grupos inventam uma nova técnica para adulterar os produtos”.

Ela alerta para os problemas de fiscalização: há situações criminosas – como a revelada na operação da PF -, mas também defasagem por falta de fiscais.

Azeite que é óleo

Azeites que não são extravirgem ou que nem sequer podem ser classificados como azeite (e, sim, óleo), já foram denunciados pela Associação Brasileira de Defesa do Consumidor (Proteste), que testa produtos desde 2002.

Resultados recém-divulgados mostram que de 24 marcas testadas, sete ditas extravirgem na verdade são misturas de óleos refinados, segundo a pesquisa. São elas: Tradição, Figueira da Foz, Torre de Quintela, Pramesa, Lisboa, além de duas que conseguiram na Justiça não ter seus nomes divulgados. Já outra marca (Beirão) não continha azeite extravirgem, como descrito na embalagem.

“Consumidores estão pagando mais por um produto que não tem a qualidade que se anuncia”, critica Sonia Amaro, advogada e representante da Proteste.

Enquanto o azeite extravirgem é benéfico para a saúde, aumentando o colesterol bom (HDL), o óleo é prejudicial, pois eleva, por exemplo, o mau colesterol (LDL).

Até o momento, a Natural Alimentos, responsável pela importação e envasamento da marca Lisboa, afirmou que não foi notificada pela Proteste e que a partir desse ano apenas comercializará azeites extravirgem importados aprovados por órgãos controladores nos países de origem.

Já a empresa Olivenza, da marca Torre de Quintela, disse que desconsidera a análise da Proteste, pois fez testes próprios da qualidade do produto. Os documentos foram encaminhados à reportagem e serão repassados à Proteste.

As demais marcas não tinham respondido à reportagem até a publicação deste texto.

Produtos adulterados

A organização científica independente US Pharmacopeia monitora um banco de dados sobre fraudes de alimentos, que serve para mostrar tendências de adulteração em vários países. A pedido da BBC Brasil, a entidade fez um breve levantamento sobre o Brasil.

Peixe fraudadoFraude de peixe em amostras de Manaus

Registros de adulteração da carne começaram em 2015, segundo a organização. E o caso do leite tem sido um problema persistente. Além de ureia e formol, há ainda adição de água oxigenada.

A Anvisa diz que pequenas quantidades de água oxigenada no leite não trazem riscos à saúde. Mas não há evidências sobre consumo em altas doses da substância.

Numa análise com leite de cabra na Paraíba, 40% das 160 amostras continham leite de vaca. Os resultados de 2012 foram publicados na revista American Dairy Science Association.

Um estudo publicado no periódico Food Chemistry revelou que 13% das amostras de mel no Brasil eram acrescidas de xarope de açúcar.

Outra pesquisa publicada no Journal of Heredity identificou fraude na substituição de espécies de peixes em Manaus.

E há ainda relatórios sobre a adulteração do café com casca da própria planta, além de soja e milho, que são mais baratos.

Em setembro do ano passado, uma ação pontual do Procon-MG indicou que 30,7% de 241 marcas de café analisadas continham impurezas acima do limite.

Café no BrasilOutros grãos ou partes do próprio pé de café são acrescentados em produtos comercializados

Controle do café

Segundo o engenheiro agrícola José Braz Matiello, pesquisador da Fundação Procafé, as adulterações do café afetam o gosto da bebida, mas não causam males à saúde.

“O café é torrado a temperaturas próximas a 260 graus, eliminando quaisquer organismos eventualmente maléficos, diferentemente do que pode ocorrer com outros alimentos ou bebidas consumidos in natura e sem tratamento térmico”, explicou por e-mail.

Desde 1989, a Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic) faz análises anuais com 3 mil amostras do mercado. O diretor-executivo Nathan Herszkowicz explica que o programa começou em decorrência do alto índice de fraudes verificado à época.

A Abic então criou o Selo de Pureza e definiu que o limite tolerado de impurezas é de 1% da amostra total, com penalidades que vão de advertência a denúncia ao Ministério Público.

Nos testes iniciais, resíduos eram encontrados em até 25% das amostras de café. Atualmente, Herszkowicz afirma que o índice não chega a 1%.

“A adulteração mais comum continua a ser a adição da casca do café, que é um resíduo usado para reduzir o custo do produto”, explica.

Pressões na legislação

Normas de vigilância definem regras e punições sobre fraudes em produtos. Mas pelo menos dois projetos de lei querem tornar crime hediondo a adulteração de alimentos.

O projeto de lei do Senado 228, de 2013, está na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania desde setembro do ano passado. Já o PL 6248/2013 não tem movimentação desde 2015.

Enquanto isto, organizações como a Proteste pressionam por mudanças na lei visando a proibir determinados aditivos em alimentos. Esse é o caso do amarelo tartrazina, um corante que provoca reações alérgicas.

Ele é encontrado em produtos consumidos por crianças, como biscoitos salgados e doces, além de refrigerantes e sucos.

“Há anos pressionamos pelo banimento desse corante, mas ainda seguimos brigando por isso”, contou Sonia Amaro.

O Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor lembrou que as normas brasileiras sobre corantes são mais permissivas do que as de outros países, como os Estados Unidos.

Soja no Mato Grosso do SulPlantação em Mato Grosso do Sul; agrotóxicos são amplamente usados no Brasil. Paulo Fridman

Esse é o caso de corantes chamados amarelo crepúsculo, banido na Finlândia e Noruega; azul brilhante, proibido na Alemanha, Áustria, França, Bélgica, Noruega, Suécia e Suíça; vermelho 40, não permitido na Alemanha, Áustria, França, Bélgica, Dinamarca, Suécia e Suíça; entre outros.

O mesmo acontece para determinados agrotóxicos aplicados em vegetais e frutas que chegam aos consumidores brasileiros. Há anos, uma lista de pesticidas banidos em alguns países é comercializada no Brasil.

Exemplos são do acefato, um dos mais vendidos no país e que pode ter efeitos no sistema endócrino, e o herbicida paraquat, que foi proibido até na China, que costuma ser permissivo com leis ambientais.

Carne no BrasilEscândalo da carne revelou que produtos eram adulterados no Brasil. Reuters

Mas o problema dos agrotóxicos, na verdade, é maior. A Proteste testou ano passado 30 amostras de supermercados e feiras do Rio de Janeiro e de São Paulo. Em 14%, os níveis de pesticidas estavam acima dos recomendados pela Anvisa. Em 37%, havia substâncias nem sequer autorizadas.

Fonte – Flávia Milhorance, BBC Brasil de 21 de março de 2017

Blairo Maggi representa como ninguém o agronegócio brasileiro

A velha raposa cuidando do galinheiro. Thomas Hawk

O ministro da Agricultura, doutor Blairo Maggi, chamou de “idiotice” a acusação, apresentada pela Polícia Federal, de que um frigorífico do grupo BRF estivesse usando papelão nas suas salsichas. Faz sentido.
Maggi bate duro. É um bilionário do agronegócio, já foi chamado de Rei da Soja (título que herdou do pai) e a ONG Greenpeace presenteou-o com a “Motosserra de Ouro”. Conhece o mundo dos negócios e o da política. Chegou ao Senado pela gambiarra da suplência e ao governo de Mato Grosso pelo voto popular.

Representa como ninguém o agronegócio brasileiro com seu efeito modernizador do campo e sua importância para a economia. Quando estourou a Operação Carne Fraca, ele era o homem certo no lugar certo. Em poucos dias, verificou-se que adulterara o próprio produto.
Maggi ameaçou desnecessariamente o governo chileno, mas esse talvez seja o seu viés de senhor das terras. O ministro tornou-se patético quando acompanhou o coral dos agromandarins. Trata-se de uma casta capaz de gastar os tubos para publicar um manifesto “em defesa da proteína nacional”. Essa charanga considera o desastre uma coisa pontual, produto de “desvios de conduta” que “devem ser repudiados e combatidos”. Intitulam-se “associações de proteínas.”

A economia internacional modernizou o agronegócio brasileiro obrigando-o a respeitar padrões de qualidade. Contudo, quando operam no mundo do poder brasileiro, os empresários fogem do século 21 e aninham-se na primeira metade do 20, quando seus antecessores administravam matadouros.

O “desastre” começou há três anos, quando o auditor Daniel Gouvêa Teixeira foi afastado das suas funções depois de ter denunciado malfeitorias ocorrida no Paraná. Em seguida ele foi à Polícia Federal, contou o que sabia e assim nasceu a “Carne Fraca”. Na sua narrativa das excelências do governo, Maggi revelou que exonerou os superintendentes do ministério no Paraná (Gil Bueno) e em Goiás (Julio Cesar Carneiro).
Tudo bem, mas quem nomeou os dois foi Blairo Maggi. O doutor Gil Bueno foi apadrinhado pela base de apoio do governo, mesmo sabendo-se que o Ministério Público dizia o seguinte a seu respeito: “Recebeu para si, 67 vezes, em razão do cargo de fiscal federal agropecuário (…) vantagem indevida para deixar de praticar ato de ofício”. Nomeá-lo, vê-se agora, foi “idiotice”.

Em Goiás, na região do interesse de Maggi, foi nomeado outro filho da base. Quadro do PTB, Carneiro disputa eleições desde 2004, sem sucesso. Ele não é do ramo, mas o ex-diretor do serviço de inspeção era. Está preso preventivamente. Não há nada de pontual em situações desse tipo. São esquemas.

Os grandes grupos exportadores respeitam as exigências impostas pelo mercado internacional, mas convivem com o atraso que Blairo Maggi conhece de cor e salteado.

A Operação Carne Fraca começou com um lastimável grau de amadorismo megalômano e espetaculoso da Polícia Federal, mas isso não convida empresários, mandarins e ministros a adotarem a postura arrogante dos empreiteiros no nascedouro da Lava Jato. Como ensina um velho provérbio napolitano, “seja honesto, até mesmo por esperteza”

Fonte – Folha de S. Paulo de 22 de março de 2017

O rio que agora tem os mesmos direitos que os seres humanos: Whanganui

É o primeiro rio do mundo que tem, legalmente, os mesmos direitos que os seres humanos.

O Parlamento da Nova Zelândia aprovou, dia 15 de março, o reconhecimento do rio Whanganui como tendo personalidade jurídica, o que significa que se tornou no primeiro rio do mundo a ter, legalmente, os mesmos direitos que os seres humanos.

Os Maori, um povo nativo da Nova Zelândia, veneram o rio Whanganui e, desde 1870, que tentavam obter este reconhecimento para o rio, o terceiro mais longo do país.

Graças a este reconhecimento, o Whanganui poderá ser representado em processos judiciais, estando os seus direitos assegurados por dois intermediários: um membro da tribo Maori e um membro da monarquia constitucional neozelandesa.

“O rio como um todo é extremamente importante para as pessoas que são do rio e que vivem junto a ele”, disse Adrian Rurawhe o deputado que representa os Maori. “O bem-estar do rio está diretamente relacionado com o bem-estar das pessoas, portanto é verdadeiramente importante que lhe seja reconhecida uma entidade própria”.

Foi também atribuído ao rio uma compensação financeira de 80 milhões de dólares (75 milhões de euros) e 30 milhões de dólares (28 milhões de euros) para melhorar a “saúde” do rio, conta o Público.

Fonte – UniPlanet de 16 de março de 2017

A histórica e eterna entrega da terra brasilis ao estrangeiro

Mozar Dietrich analisa o que está por trás da proposta de flexibilizar a regra para venda de terras brasileiras a estrangeiros

Com a empáfia do conquistador que quer se apossar do mundo, o europeu chega ao Brasil e começa a tecer as estratégias para tomar esse chão como seu. Basta uma rápida folheada nos livros de História do Brasil para perceber que, mesmo fixados aqui, tanto portugueses quanto seus descendentes já nascidos no país sempre cederam à corte do estrangeiro que estava de olho na riqueza de suas terras. Para o advogado Mozar Dietrich, essa gênese se atualiza hoje na proposta do governo de Michel Temer de flexibilizar as regras para venda de propriedades a não brasileiros. “A cobiça sobre o Brasil é imensa, pois, além do Pré-Sal, temos a Floresta Amazônica, as maiores jazidas de ferro e nióbio do mundo, terras com imenso potencial agrícola, pois somos o país com a maior área de insolação/ano do mundo, extensas praias para instalação de parques eólicos, e, no caso do nosso Pampa, imensas áreas cobiçadas pelas empresas produtoras de pasta de celulose”, completa.

Na entrevista, concedida por e-mail à IHU On-Line, Mozar analisa as consequências dessas ações sobre os biomas brasileiros. E dispara: “o risco para o país é imenso, trata-se de um atentado à soberania nacional”. Além disso, observa que primeiro se quer vender a terra e depois a intenção é flexibilizar a legislação ambiental para assegurar a exploração mercantil. “Mesmo que essas empresas consigam adquirir terras com as mudanças nas legislações, se mantidas as atuais exigências ambientais, elas dificilmente obterão autorização para o plantio, pois não há como harmonizar monocultivo de eucaliptos em vasta escala com proteção ambiental”, alerta.

Mozar Artur Dietrich é advogado, foi diretor de Cidadania do Governo do Estado do Rio Grande do Sul na gestão Olívio Dutra, entre 1998 e 2001, assessor especial do ministro do Desenvolvimento Agrário no primeiro mandato de Lula, e superintendente Estadual do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária – Incra-RS, entre 2006 e 2010.

De março a junho, o Instituto Humanitas Unisinos – IHU promove o ciclo de palestras Os biomas brasileiros e a teia da vida. Veja a programação completa.

IHU On-Line – Como compreender as questões de fundo na proposta de mudança de regras para venda de terras no Brasil para estrangeiros? Por que as terras brasileiras interessam?

Mozar Dietrich – Primeiramente, precisamos elucidar alguns pontos deste tema candente. Ele não é, absolutamente, um tema novo. O Brasil já nasceu vendido para os estrangeiros, pois as capitanias hereditárias não eram nada mais do que doação de praticamente todas as terras brasileiras para estrangeiros. Falido o sistema das capitanias, passou-se ao processo de concessões de sesmarias. Inicialmente também eram feitas doações de áreas de até dez léguas quadradas (aproximadamente 430 mil hectares), tanto para nacionais, quanto para estrangeiros.
Em 1808, Dom João VI alargou ainda mais esse processo de concessão de sesmarias a estrangeiros.

Em 1850, com a primeira Lei de Terras do Brasil, a Lei 601, pela primeira vez, já em 350 anos de existência do Brasil, passou-se a restringir um pouco essas concessões a estrangeiros. Essa Lei também criou a Faixa de Fronteira, com 6 léguas de largura (66 Km). Nessa faixa não podiam ser vendidas terras para estrangeiros sem o prévio consentimento do Conselho de Defesa Nacional. Desse momento em diante, os governos brasileiros, antes abertamente favoráveis à venda de terras a estrangeiros, passaram a impor algumas restrições. Isto ocorreu no bojo de um crescente nacionalismo no mundo, que se acentuou no início do século XX. Os Estados passaram a buscar o aumento de suas possessões e não a entrega das mesmas aos estrangeiros.

Na Constituição Federal de 1934, criou-se uma figura nova, a faixa de segurança, que era de 100 Km de largura em nossas fronteiras, e, depois, na Constituição de 1937, aumentou-se a Faixa de Fronteira para 150 Km de largura, que é a mesma de nossos dias, pois foi reafirmada pela Constituição de 1988. Todas essas constituições, no entanto, impuseram uma condição para a venda de terras nas faixas de fronteiras para estrangeiros: que fosse previamente consultado o então Conselho de Segurança Nacional, atual Conselho de Defesa Nacional. Sem essa consulta, prévia, os negócios, mesmo concretizados, eram nulos. Esta legislação ainda vige, apesar de abertamente ser burlada e não existirem mecanismos eficazes de fiscalização de irregularidades, como, por exemplo, cartórios que simulam vendas legais a estrangeiros à margem da lei, omitindo dados sobre a nacionalidade ou usando laranjas para titular as terras adquiridas.

Além da zona de fronteira

No restante do país, entretanto, fora da faixa de fronteira, sempre houve uma maior liberalização de venda de terras para estrangeiros, com algumas restrições. Essas restrições legais, no entanto, carregam várias contradições. Por exemplo, áreas com até três módulos (No Sul e Leste isto representa algo em torno de 80 hectares. Já no Centro e Norte pode chegar a 450 hectares) podem ser vendidas a estrangeiros sem nenhuma restrição. Para adquirir áreas de 3 até 50 módulos, que é o limite, já há necessidade de procedimentos especiais e fiscalizados por cartórios e pelo Incra.

No entanto, por outro lado, essas legislações afirmam, desde o Império, que os estrangeiros não podem adquirir mais do que um quarto da área dos municípios, e pessoas de uma mesma nacionalidade não podem adquirir mais do que 40% deste um quarto. Ora, aplicando-se essas “restrições” a um município como São Félix do Xingu, no Pará, por exemplo, os estrangeiros podem comprar cerca de 2.105.325 hectares desse município. Isto é de uma largueza absurda. Tanto é assim que este instituto foi mantido na proposta de abertura total que o governo Temer agora pretende implantar.

Outra contradição é que tais vendas eram até mesmo facilitadas e mesmo utilizadas como política pública. Veja o exemplo da doação que o Império fez à Royal Ferry, empresa inglesa que construiu a ferrovia RS–SP. Essa empresa simplesmente ganhou uma faixa de terras de 10 Km de largura ao longo de toda a via nos dois lados. Imagine-se uma faixa de terras de 20 Km de largura do RS a SP doada para estrangeiros. Foi essa concessão e o trabalho de expulsar os posseiros e moradores dessa área (índios, negros, mestiços, cafuzos) que gerou a Revolta do Contestado , em Santa Catarina, no início do século XX, que terminou num banho de sangue de toda essa população pobre.

Ataque a povos indígenas

Outro exemplo ainda mais grotesco e triste é o do Serviço de Proteção ao Índio e Localização de Trabalhadores Nacionais, o SPILTN, mais conhecido por SPI (órgão federal antecessor da Fundação Nacional do Índio – Funai). O SPI é de triste memória por ter sido tomado por grandes casos de corrupção, torturas e morte de índios e venda de patrimônios florestais e de terras indígenas, mas nunca é lembrado pelas outras três siglas de seu nome, o LTN, de Localização de Trabalhadores Nacionais. E isto foi o mais grave da ação do SPILTN, pois cabia-lhe a política pública de assentar, nas terras já ocupadas pelos índios, os ditos trabalhadores nacionais (negros, mulatos, cafuzos, caipiras, sertanejos, caboclos – os filhos de ninguém, segundo Darcy Ribeiro ).

Esses trabalhadores nacionais eram de fato jogados sobre as terras indígenas e sobre os próprios índios. Mas, enquanto isto, os trabalhadores estrangeiros (migrantes alemães, italianos, japoneses, poloneses) eram assentados largamente em terras que a União ou os estados iam liberando para esses estrangeiros. Eram as grandes colonizações por trabalhadores estrangeiros que foi largamente aplicada em todo século XIX e parte do XX. Contudo, a bem da verdade, essas concessões de terras a estrangeiros eram pequenas, lotes de colonizações em torno de 40 hectares. Muito diferente do que o atual governo pretende ao alargar para 100.000 ou 200.000 hectares a liberação de vendas de terras a estrangeiros.

Freio para aquisições

Outro ponto importante a destacar inicialmente e que desnuda e denuncia a indecência desta atual proposta do governo Temer em escancarar as terras brasileiras aos estrangeiros, é que, mesmo que já haja na legislação atual a liberação de venda de terras para estrangeiros dentro da faixa de fronteira, há o limite expresso em leis de somente vender até 3 mil hectares por adquirente. E essa limitação já vem desde 1850 e se fortaleceu século XX adentro. Ou seja, até agora, um estrangeiro pode, sim, comprar dentro da faixa de fronteira até 3 mil hectares, isto somando todas as terras que ele venha a adquirir. O que se quer agora é passar simplesmente de 3 para 100 ou 200 mil.

Assim, a grosso modo, podemos dizer que desde 1850 há um certo freio à aquisição de terras por estrangeiros. Pelo menos na faixa de fronteira, que é uma área considerável de nosso país, pois representa 27% das terras brasileiras e que ainda possuem uma oferta ou possibilidade de aquisição, pois são áreas ainda grandes e pouco habitadas, onde mora menos de 5% de nossa população.

E essa legislação impunha um certo freio à liberação de venda de terras aos estrangeiros, apesar de ser elástica, pois há casos vergonhosos no Brasil, como as extensas áreas do oeste da Bahia já ocupadas por fazendeiros norte-americanos, ou extensas áreas de litoral nordestino, de praias paradisíacas, já de propriedade e cercadas por empresas hoteleiras europeias, sem falar no vergonhoso Caso Jari (em pleno regime militar). Mas, como o governo atual já está vendendo a Petrobras e o Pré-Sal, nossa maior riqueza, a venda de terras aos estrangeiros é um problema menor para esses entreguistas. A cobiça sobre o Brasil é imensa, pois, além do Pré-Sal, temos a Floresta Amazônica, as maiores jazidas de ferro e nióbio do mundo, terras com imenso potencial agrícola, pois somos o país com a maior área de insolação/ano do mundo, extensas praias para instalação de parques eólicos, e, no caso do nosso Pampa, imensas áreas cobiçadas pelas empresas produtoras de pasta de celulose, que enxergam no Pampa uma imensa monocultura de eucaliptos.

IHU On-Line – No que consiste especificamente a proposta de mudança de regras para venda de terras a estrangeiros que está na pauta do governo de Michel Temer?

Mozar Dietrich – Basicamente, as diferenças entre as legislações já centenárias no Brasil sobre aquisição de terras por estrangeiros e as propostas de mudança dessas legislações pelo atual governo são as seguintes:

Não há mais diferenciação de tamanho de propriedade a ser adquirida dentro da faixa de fronteira ou fora dela. Mesmo em faixas de fronteira se poderá adquirir áreas com centenas de milhares de hectares. Apenas é mantida a exigência de que tais aquisições, em faixa de fronteira, tenham o assentimento prévio do Conselho de Defesa Nacional. Esse assentimento do Conselho, no entanto, não é nenhum problema ou entrave, pois a absoluta maioria dos conselheiros são membros do governo, além do presidente e do vice. Os membros militares do Conselho, que poderiam representar uma oposição com viés nacionalista, que poderiam se opor à venda de nosso território até mesmo por simples questões geopolíticas, são minoria.

a) As legislações atuais são relativamente exigentes quanto à caracterização do que seja uma empresa estrangeira e empresa nacional. Para ser empresa nacional tem que ter sede no Brasil, ter capital e acionistas majoritariamente brasileiros. Já a proposta de Temer subverte esses conceitos totalmente. Diz que “as restrições estabelecidas na Lei não se aplicam às pessoas jurídicas brasileiras, ainda que constituídas ou controladas direta ou indiretamente por pessoas privadas, físicas ou jurídicas estrangeiras”. Ou seja, é um engodo, pois pessoas jurídicas brasileiras, mesmo que constituídas fora do Brasil, controladas direta ou indiretamente por estrangeiros, não são consideradas estrangeiras. Como assim, uma empresa “brasileira”, constituída fora do Brasil, com capital e sócios majoritariamente estrangeiros, não é estrangeira? É quase um escárnio. E mais: diz ainda a proposta que “a proibição não se aplica às Companhias de Capital Aberto com ações negociadas em bolsa de valores no Brasil ou no exterior”. Ora, qualquer companhia, mesmo estrangeira que possua negócios em qualquer bolsa de valores, estará livre da lei para adquirir terras no Brasil. Me parece que tudo está permitido. Assim, essa nova lei vai permanecer somente para dar uma roupagem de oficialidade ao ato, mas é um ato completamente entreguista de nossas terras.

b) Pode parecer estranho, mas não é, o fato de a proposta manter a dispensa de qualquer autorização para a aquisição por estrangeiros quando se tratar de imóveis com áreas não superiores a dez módulos. Ou seja, até dez módulos (cerca de 1.500 hectares no Centro e Norte) não precisará autorização. Nas legislações atuais essa liberalidade é sobre áreas com até três módulos. Contudo, na legislação atual, para um estrangeiro adquirir áreas de 3 a 50 módulos tem que realizar um procedimento junto aos cartórios e Incra. A proposta atual, por um lado, libera geral até 1.500 hectares e, por outro, silencia sobre tetos máximos acima desses 1.500. Portanto, não é estranho, trata-se de uma cortina de fumaça para esconder o “liberou geral”.

IHU On-Line – Durante sua passagem pelo Incra, o senhor combateu a compra de terras por empresas estrangeiras. Como se deu essa resistência e quais os obstáculos que tiveram de ser enfrentados?

Mozar Dietrich – Na verdade, a única ação que procuramos aplicar no Incra, no período de 2006 a 2010, foi a de que se respeitassem as leis. Recebemos na ocasião uma série de denúncias de que empresas do setor de celulose estavam adquirindo e registrando em cartórios locais centenas de áreas no bioma Pampa (todas em faixa de fronteira). Notificamos as empresas e os cartórios, conforme determina a Lei, para que viessem ao Incra realizar o procedimento de análise desses negócios e para que o Incra encaminhasse os processos ao assentimento prévio do Conselho de Defesa Nacional.

Nossa grande surpresa foi constatar que já havia centenas de áreas adquiridas e a maioria registrada em cartórios, tudo de forma ilegal. Uma das empresas, inclusive, criou uma subsidiária brasileira para dar caráter nacional ao ato, mas o sócio presidente era o mesmo da empresa-mãe multinacional. Mesmo que os procedimentos fossem irregulares, as empresas se comprometeram seguir, a partir de então, procedimentos legais. Ocorre que tais procedimentos requerem uma complexa ação, como a análise das cadeias dominiais, análise de contratos, pareceres jurídicos. Tudo foi feito da maneira correta e acabou que emitimos pareceres ao Conselho de Defesa Nacional dando conta das irregularidades e crimes cometidos, inclusive pelos cartórios, e opinamos pelo indeferimento das solicitações e a nulidade de todos os negócios feitos.

Isto causou uma grande e furiosa reação, pois a maioria dessas centenas de áreas já havia sido paga, os antigos proprietários já haviam saído das terras, e as empresas já estavam inclusive plantando eucaliptos, a maioria ainda sem licenças ambientais. Houve uma correria à Brasília de bancadas ruralistas pressionando o Ministério do Desenvolvimento Agrário e o próprio Conselho de Defesa Nacional. Vários deputados inclusive, além de atacar o Incra, que estava apenas cumprindo e fiscalizando a lei, propuseram até mudanças na legislação de faixa de fronteira, alegando que no Rio Grande do Sul não havia mais a necessidade dessas ressalvas em nossas fronteiras. Os procedimentos se arrastaram por anos e tudo ficou sobrestado. As empresas alegaram perda de ativos e prejuízos e abandonaram inclusive projetos de construção de plantas de celulose em municípios da Fronteira Oeste. Recentemente, uma matéria jornalística mostrou uma imensa parcela de produtores rurais que caíram no engodo do plantio de eucaliptos, e agora não há mercado para essas vendas e suas terras estão praticamente inutilizadas.

Até o presente momento, essas mobilizações não tiveram êxito na alteração legal e na facilitação da compra de terras por estrangeiros. Frente ao atual quadro, no entanto, se o governo Temer conseguir modificar a tal ponto as legislações como se comentou antes, tudo cairá por terra; nossas fronteiras, que já são abertas, serão escancaradas aos estrangeiros.

IHU On-Line – Que relação é possível se estabelecer entre a proposta de mudança de regras para venda de terras para estrangeiros e a flexibilização de licenciamentos ambientais, defendidos pelo atual governo?

Mozar Dietrich – A necessidade de flexibilização dos licenciamentos ambientais para a exploração de monoculturas de eucaliptos no bioma Pampa, por exemplo, é das principais reivindicações desses setores. Mesmo que essas empresas consigam adquirir terras com as mudanças nas legislações, se mantidas as atuais exigências ambientais, elas dificilmente obterão autorização para o plantio, pois não há como harmonizar monocultivo de eucaliptos em vasta escala com proteção ambiental. Simplesmente não há como.

Esta foi mais uma tentativa dessas empresas junto ao Incra na ocasião. Buscaram o órgão com projetos de plantio consorciado com outras culturas, com criação de gado bovino e ovino. Tinham o descaramento de afirmar que esses consórcios eram possíveis nos dois a três primeiros anos, mas depois não eram mais possíveis, pois as florestas se fechavam e só mais eucaliptos permaneciam. A ideia de seus belos powerpoints na ocasião era obter a anuência do Incra para os licenciamentos ambientais. Ficou evidente que era mais um engodo e o Incra não deu sua anuência aos licenciamentos.

IHU On-Line – De que forma a liberação de terras a estrangeiros se configura como uma ameaça ao bioma Pampa?

Mozar Dietrich – Certamente o Pampa será o bioma mais afetado por essa nova legislação, pois 100% do Pampa se situa na Faixa de Fronteira brasileira. As terras do Pampa são em sua maioria muito férteis e se prestam para várias culturas com plena observância dos ditames de proteção ambiental. A produção de gado de corte e leiteiro já tem séculos e convive harmonicamente com o Pampa. A crescente produção de frutíferas e oleaginosas também é assim. A maior ameaça que, diga-se de passagem, já está acontecendo, é a monocultura do eucalipto.

Mesmo com as legislações atuais, que já vimos são um pouco permissivas, essa triste realidade de desertos verdes de eucaliptos já impera em imensas áreas em nosso Estado, imagine com uma lei que libera total, que não impõe freios. Não deixa de ser estranha, além de triste, essa obsessão do governo Temer de entregar tudo a estrangeiros. O Pré-Sal, nossa maior riqueza, já foi. Os maiores recursos do orçamento da União estão sendo drenados para pagar juros dos rentistas mundiais, por isto necessitam retirar dos gastos sociais, da saúde, da educação, da segurança, da previdência. Agora, querem vender nossas terras, com um pálido e mentiroso discurso de que isto trará investimentos da ordem de 45 bilhões de dólares nos próximos anos.

O risco para o país é imenso, trata-se de um atentado à soberania nacional. E o estranho é que o Brasil está indo na direção contrária à do mundo, pois os demais países estão se fechando, no mínimo economicamente, e jamais sequer falam em vender suas terras.

IHU On-Line – Como a produção em terras geridas por empresas multinacionais pode impactar na produção agrícola do Pampa?

Mozar Dietrich – Na verdade, este impacto já está ocorrendo em vasta escala. Quem viaja pelo Rio Grande do Sul, na região do Pampa, que praticamente é a metade sul do estado, depara-se com imensas e infindáveis plantações de monocultura de eucaliptos. Mas das estradas ainda não se tem a noção real do quadro. Quem tem acesso à ferramenta Google Earth pela Internet pode fazer um passeio aéreo pelo Pampa Gaúcho e verá o que de fato já está ocorrendo, e que, no meu entender, é desastroso.

As imensas manchas verdes que se estendem para todas as regiões são monoculturas de eucaliptos que já destruíram imensos nichos ecológicos do Pampa, e isto inexoravelmente. Essa imensa massa verde, que não produz nada de alimentos, somente pasta de celulose para exportação, traz pelo menos três grandes e graves consequências:

a) Uma alteração grande e repentina nas cadeias produtivas e sociais das regiões, contribuindo para o êxodo rural, a destruição de cadeias produtivas já instaladas, a diminuição da produção de alimentos. Milhares de produtores rurais estão vendendo ou arrendando suas terras para o plantio de eucaliptos. Esse processo inclusive já vem promovendo uma reconcentração de terras na região, mesmo em regiões onde o Instituto Nacional de Reforma Agrária, o Incra, já promovera redistribuições de terras.

b) Um grande impacto nos processos de recarga dos lençóis freáticos, inclusive no Aquífero Guarani , pois, a par de não haver comprovação de que plantios de eucaliptos secam e drenam solos, é consenso que o consumo de água por esses vegetais equivale ao índice pluviométrico do Pampa como um todo. Eucalipto pode não secar o solo diretamente, mas seca indiretamente, pois consome todo o volume de chuvas que cai na região, impedindo a infiltração de excedentes no subsolo. Por sua vez, isto altera os fluxos dos cursos d’água, inclusive secando córregos e riachos. Isto é um agravamento de um fenômeno já visto há décadas nas grandes regiões de plantio de arroz, em nossa Fronteira Oeste, onde se verificam inúmeros arroios que secaram. O problema, portanto, é das monoculturas em larga escala.

c) A destruição total do solo, tanto por seu esgotamento devido à monocultura dos eucaliptos, quanto ao que resta após as colheitas. Muito se fala nos desertos verdes onde há os monocultivos dos eucaliptos, mas pouco se fala dos desertos dos tocos que restam após a colheita, que tornam a terra absolutamente impraticável, a não ser mediante grandes investimentos. Trata-se de uma terra morta com o plantio dos eucaliptos e uma terra arrasada após a colheita, que se presta, quando muito, a mais uma safra de eucaliptos. Existe um caso emblemático que exemplifica isto. Em 2006, o Incra-RS recebeu da União uma área de terras de 25 hectares próxima ao centro de Pelotas, para o assentamento de famílias que poderiam produzir hortigranjeiros. Contudo, tratava-se de uma área onde houvera um plantio de eucaliptos. Na Autarquia a área era conhecida como a “Área dos Tocos”. O Incra acabou tendo que desistir da área, pois a mesma tinha seu valor de mercado em torno de R$ 300.000,00, ao passo que o orçamento de maquinário para o destoque e recuperação de solo ultrapassava os R$ 500.000,00. Ou seja, plantar monoculturas de eucaliptos destrói a flora, a fauna e a própria terra. Sob qualquer aspecto, trata-se de um deserto, que infelizmente avança sobre o Pampa.

IHU On-Line – Quais os desafios para se aliar preservação à produção de alimentos no Pampa?

Mozar Dietrich – O bioma Pampa não é uma região de baixa produção, de terras pouco produtivas, ou de secas sazonais, como costumam alardear os que mantêm e defendem as estruturas agrárias da região, essencialmente composta por grandes latifúndios. Costuma-se dizer que a metade Sul do estado (Bioma Pampa) é a metade pobre, ao passo que a metade Norte é a parte rica. Este discurso esconde nitidamente o objetivo de impedir ou atacar o processo de reforma agrária, parcelamento e redistribuição de terras na região.

Quem ataca os processos de reforma agrária quer manter latifúndios que serviriam somente para a produção de gado de corte em sistema extensivo. A metade Norte do Estado é rica exatamente porque nela foi feito um quase completo processo de parcelamento, com as imensas colonizações. Foi isto que propiciou o crescimento e a riqueza, minifúndios e população. Portanto, com relação à metade Sul, o que existe na verdade é o contrário do que se propala. Trata-se de terras altamente produtivas, ricas em mananciais de água, clima excelente para determinadas culturas, como se vê recentemente com a uva, frutíferas, produção de leite.

Mas, desgraçadamente, ainda são imensos e inumeráveis latifúndios. Assim, o grande desafio é transformar a prática dos monocultivos em larga extensão, e daí não se pode somente criticar o eucalipto, mas também a soja e outras monoculturas. O desafio é a diversidade de plantios, com culturas que se adaptam ao solo e ao clima, como também tem sido o exemplo da olivicultura, de cooperativas de produção de uva, leite e seus derivados. O desafio também é o de planejar ambientalmente as regiões, preservando corredores ecológicos, áreas de mananciais, de recarga de aquíferos, e demais Áreas de Preservação Permanente.

Essencialmente o grande desafio é desconcentrar a terra, redistribuindo-a para implantar regiões de agricultura familiar. É necessário também povoar ou repovoar o Pampa, pois a baixíssima concentração humana na região também é um entrave ao desenvolvimento com sustentabilidade.

IHU On-Line – Além do Pampa, que outros biomas podem ser impactados pela liberação da venda de terras a estrangeiros?

Mozar Dietrich – Não há como evitar que todos nossos biomas sejam atingidos drasticamente por essa medida. Além do Pampa, já citei outros dois biomas que já estão sofrendo esses impactos: a Mata Atlântica, pela pressão imobiliária/hoteleira sobre nosso maravilhoso litoral nordestino, que já incrustou feudos naquelas praias, mesmo ilegalmente, e o Cerrado no oeste baiano, onde se sucedem imensas e contíguas “farms” norte-americanas, produzindo soja ao estilo cowboy.

Acredito, no entanto, que o maior alvo e cobiça estrangeira seja a Floresta Amazônica, pois ela agrega as maiores potencialidades tanto de flora, quanto de minérios do planeta. O fato já recentemente consumado, também absolutamente vergonhoso e triste para todos nós brasileiros, é o caso da Golden Sun, empresa mineradora de ouro canadense, que recebeu do governo Temer a liberação de extração de ouro na grande volta do Xingu, parte do rio que secou com o fechamento das comportas de Belo Monte .

A Golden Sun já se instalou ali e começou a operar, mesmo contra a pressão dos povos indígenas da região. A Funai alega que não deu anuência para essa mineração. Especialistas dizem que o montante de dejetos e rejeitos dessa mineração será maior do que o da Samarco, cujas barragens se romperam e causaram o maior desastre ecológico da história do Brasil. Mas, ao que parece, o governo Temer ignora tanto as legislações quanto os efeitos dessa ação. E os índios não têm conseguido barrar o processo, nem da Belo Monte, e nem agora da extração de ouro.

IHU On-Line – Em que medida a discussão sobre a terra no campo pode impactar no debate sobre a terra urbana? E por que é tão importante discutir sobre posse da terra, seja no campo ou na cidade?

Mozar Dietrich – A questão da posse da terra é uma das maiores ficções do Direito no Brasil. Somos de uma tradição jurídica, ensinam nossos doutos, na qual se diz que a posse é mais importante do que a propriedade. Quem ensina isto sempre utiliza o exemplo do usucapião , onde de fato o posseiro acaba ganhando a terra em detrimento do proprietário que não cuidava de sua posse. Ocorre que isto é somente verdadeiro em pequenas causas, de um pequeno posseiro contra um pequeno proprietário. Quando passamos as grandes lides, onde grupos de posseiros reivindicam áreas de terras ocupadas sobre latifúndios rurais, ou latifúndios urbanos mantidos por imobiliárias ou proprietários que especulam nos mercados de terras, daí a posse vira pura ficção mesmo.

Nessas situações o normal é haver decisão judicial contrária aos posseiros e despejos de massas de pobres. Nesses casos nossos juízes privilegiam a propriedade e não a posse. Por quais razões? Este tema deveria ser debate permanente e profundo tanto na sociedade, quanto nos tribunais, quanto nas academias, pois o país ainda possui imensos vazios populacionais, tanto rurais, quanto urbanos, ao passo que temos imensas massas humanas ainda sem terras para plantar ou mesmo morar. Mas, infelizmente, se dá o contrário em nosso país, até mesmo porque as bancadas ruralistas e seus parceiros são maioria no Congresso.

Função social da terra

Nossa Constituição é explícita e forte ao anunciar que a propriedade, e aí está incluída a propriedade urbana, tem que cumprir sua função social, caso contrário deve ser desapropriada e destinada a assentamentos urbanos ou rurais. Mas o Incra não tem forças suficientes, nem é dotado por instrumentos e normativas robustas para fazer frente a essa realidade, nem temos exemplos de prefeitos que tenham assumido essas lutas para distribuir terras urbanas com mais justiça e igualdade.

Resultado disto é que o Coeficiente de Gini tem demonstrado que a concentração de terras tem aumentado no Brasil, mesmo após todos os esforços feitos pelos governos anteriores ao atual. Somos um dos países com a maior concentração de renda do mundo e certamente o de maior concentração de terras. O que esperar que aconteça com as medidas já anunciadas pelo governo Temer e mais esta agora de abrir completamente nosso mercado de terras aos estrangeiros? Não precisa ser vidente ou especialista para ver o que vai acontecer. Nos próximos anos o Coeficiente de Gini irá mostrar que aumentou a concentração de terras, tanto urbanas, quanto rurais. Certamente.

Fonte – João Vitor Santos, IHU de 13 de março de 2017

Araucária não é peça de museu. Sem manejo adequado, elas serão extintas e vão virar somente uma fotografia

Foto: Aniele Nascimento/Gazeta do Povo

“Está comprovado experimentalmente e descritivamente que a araucária não se regenera dentro da floresta. Essa conversa de preservar a araucária é o equivalente a compreendê-la como peça de museu, mas planta não é peça de museu, que você limpa bem, coloca conservante, tira a poeira e ela dura milhares de anos”, afirma o engenheiro agrônomo.

A exploração madeireira e a legislação ambiental estão entre as principais causas que têm contribuído para que a araucária integrasse a lista das espécies em extinção. Prova disso é que no início dos anos 1940 a mata de araucária compunha 15% do território gaúcho, 25% do território catarinense e 35% do paranaense.

Contudo, em menos de 80 anos, essa mata nativa foi reduzida a “1,5% no Rio Grande do Sul, em torno de 3% em Santa Catarina, e no Paraná, conforme o levantamento feito pela Fundação de Ciências Florestais, não chega a 1,5% de mata virgem em relação ao original”, informa Flávio Zanette à IHU On-Line.

Nos últimos 30 anos, o engenheiro agrônomo tem estudado e acompanhado o desenvolvimento de araucárias nos três estados e frisa que, em função da legislação ambiental, a qual proíbe o corte das araucárias e exige uma série de certificações para aprovar o corte das espécies plantadas pelos produtores rurais, tem havido uma prática comum nesses três municípios: o corte antecipado da araucária. “Quem tinha uma área de terra começou a cortar todas as mudas de araucária que nasciam, justamente para não perder aquele espaço, porque uma vez que as araucárias crescessem, elas não poderiam ser cortadas. Esse tipo de atitude passou a ser muito normal no Paraná, em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul, porque os agricultores ficaram revoltados por não poder explorar o espaço da propriedade plantado com araucária”, relata.

Favorável à proibição da “retirada indiscriminada” da araucária, a fim de evitar a exploração ilegal, Zanette também faz críticas à legislação ambiental, porque ela “se esqueceu da outra parte, quer dizer, além de proibir, a legislação deveria garantir uma política de incentivo ao plantio”. Segundo ele, as pesquisas recentes têm demonstrado que a simples preservação das araucárias em mata fechada não garante a preservação das espécies, ao contrário, a sombra da mata fechada tem dificultado o desenvolvimento de novas plantas. “Nós fizemos experimentos plantando araucária na sombra, no sol e em pleno sol, porque é absolutamente sabido por qualquer biólogo ou fisiologista vegetal, que a araucária é uma das plantas que exige muita luz para crescer, ou seja, ela não se desenvolve abaixo de uma determinada intensidade luminosa. Consequentemente, aquelas belas florestas que existem em São José dos Ausentes, e também no caminho de Caxias do Sul para o litoral, são museus de 50 ou 70 anos. Por isso, tenho afirmado que daqui a 120 anos, se não houver replantio da araucária, ela ficará só em fotografia”, adverte.

Na entrevista a seguir, concedida por telefone à IHU On-Line, Flávio Zanette propõe novas formas de preservar a mata de araucária e explica sua proposta de desenvolver as espécies a partir de pomares enxertados e de um processo de seleção de matrizes de araucárias que produzam mais de 100 pinhas todo o ano, garantindo a produção do pinhão, que atualmente está decaindo. “Se está provado que ramos novos de pinheiro só se formam até quando a planta tem 60 anos, basta ver que a grande maioria dos pinheiros que temos por aí em nossas florestas têm mais de 60 anos e não estão mais formando ramos novos. Então, se não nascem mais galhos novos e a cada ano eles vão caindo e diminuindo, a tendência é diminuir a produção”, alerta.

Flávio Zanette é graduado em Engenharia Agronômica pela Universidade Federal do Paraná – UFPR, mestre em Fitotecnia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS e doutor em Fitotecnia pela Universite de Clermont II. Atualmente é professor da UFPR, onde atua no Laboratório de Micropropagação Vegetal, pesquisando técnicas de enxertia da araucária.

IHU On-Line – A araucária está na lista das espécies que corre risco de extinção. Desde quando as matas de araucária estão sendo diminuídas no Brasil e qual é a probabilidade de essa planta entrar em extinção no país?

Flávio Zanette – A ameaça de extinção da araucária iniciou durante a exploração madeireira no país, nos anos 1940. Contudo, antes de falar sobre isso, vou explicar como se dá o processo de extinção. Uma espécie da fauna é considerada ameaçada de extinção – e isso eu confirmei recentemente com representantes da CTNBio – quando ela está em níveis críticos no sentido de que não é mais possível garantir a sobrevivência da espécie, portanto ela estará em processo de extinção.

Com o vegetal o processo é diferente, especialmente para plantas perenes que são nativas de um local e, portanto, não são cosmopolitas, ou seja, não se reproduzem em vários locais do mundo – milho e feijão, por exemplo, nunca estarão ameaçados de extinção.

No caso das araucárias nativas, elas têm seus sítios definidos, a exemplo do Hemisfério Sul – falando da angustifólia, que é espécie que se reproduz nessa região. Essas plantas estão desaparecendo, não há mais quase nada no Paraguai e existem algumas na Argentina. No Espírito Santo e no Rio de Janeiro elas também estão sumindo, e ainda restam algumas em Minas Gerais, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

Então, como disse anteriormente, a ameaça de extinção começou com o início da exploração madeireira. Nos próximos dias vou publicar um livro que está no prelo, intitulado Por que a araucária está em extinção? Por que a legislação atual não salva a araucária? Perspectivas de sustentabilidade da araucária pelo uso.

A araucária está ameaçada porque neste período todo, desde o início do século passado, mais precisamente na década de 1940, quando começou a intensa retirada da araucária, não houve equivalente reposição. Já vou adiantar que no livro que irei publicar está comprovado experimentalmente e descritivamente que a araucária não se regenera dentro da floresta. Essa conversa de preservar a araucária é o equivalente a compreendê-la como peça de museu, mas planta não é peça de museu, que você limpa bem, coloca conservante, tira a poeira e ela dura milhares de anos. A araucária é confundida com rabanete ou com inseto ou com outra espécie de ciclo curto, mas a mesma regra não vale para a araucária em termos de tempo, pois ela é uma planta que vive de 100 a 200 anos. Portanto, a extinção não será vista pela nossa geração.

As araucárias vivas, que estão envelhecendo, a cada ano produzem safras menores de pinhões e isso está acontecendo porque diminuem os galhos da planta, ela vai ficando velha, alguns galhos vão caindo, e sabemos que não são formados novos galhos na araucária depois que a planta atinge 60 anos. Os últimos galhos só crescerão na ponta dos ramos já formados, mas, obviamente, a cada um ou dois anos os ramos vão caindo e, consequentemente, não se formam novos ramos. Portanto, diminuirá o número de pinhões, porque o pinhão não é jabuticaba; ele só se forma onde houver crescimento dos ramos.

Desse modo, quanto aos pinhões, a tendência é diminuir a produção. Você pode até perguntar sobre o pinhão que cai no meio da floresta, mas esses vão ser comidos pelas cotias, pela gralha azul. Hoje, o processo comum de reprodução de araucária se dá com o pinhão que cai em torno da árvore-mãe, pois o vento só carrega o pólen, não carrega o pinhão, assim ele cai no local e nascerá sem problemas. Entretanto, hoje temos provas empíricas de que pinheiros dentro da floresta, embaixo de belas matrizes com 14 ou 16 anos, são da grossura do meu polegar, quando uma planta de 12 anos deveria estar mais ou menos com 60 centímetros de diâmetro.

“No cenário atual de legislação, pesquisa e política pública, a araucária não está ameaçada de extinção; ela já está em extinção”

IHU On-Line – O que tem ocasionado esse baixo desenvolvimento da araucária?

Flávio Zanette – A sombra, e isso já é claríssimo nos estudos que estamos desenvolvendo. Nós fizemos experimentos plantando araucária na sombra, no sol e em pleno sol, porque é absolutamente sabido por qualquer biólogo ou fisiologista vegetal, que a araucária é uma das plantas que exige muita luz para crescer, ou seja, ela não se desenvolve abaixo de uma determinada intensidade luminosa. Consequentemente, aquelas belas florestas que existem em São José dos Ausentes, e também no caminho de Caxias do Sul para o litoral, são museus de 50 ou 70 anos. Por isso, tenho afirmado que daqui a 120 anos, se não houver replantio da araucária, ela ficará só em fotografia. Portanto, no cenário atual de legislação, pesquisa e política pública, a araucária não está ameaçada de extinção; ela já está em extinção.

IHU On-Line – Quais são as demais razões desse fenômeno ou o que tem contribuído para chegarmos a esse estágio? As mudanças climáticas já são um fenômeno que impacta as araucárias?

Flávio Zanette – Estudando a questão das mudanças climáticas, recentemente comentei com os moradores da região de São Joaquim (SC) que, quando não existirem mais araucárias, dentro de dois ou três mil anos talvez, ela desaparecerá por último naquela região, por razões climáticas. Ou seja, conforme a média da temperatura subir, ela impedirá a reprodução e formação de sementes da araucária e, portanto, essa espécie irá desaparecer porque não tem regeneração. Porém a mudança climática atinge tudo, não só a araucária, e também atingirá fortemente muitas outras espécies que exigem o frio para se reproduzirem.

Então, minha tese é a de que a araucária só será salva se houver plantios, e o plantio não deve ocorrer ou porque ela é bonita, ou somente para preservá-la, mas porque ela é um grande bem econômico desses territórios. Além de fornecer madeira de qualidade incomparável a qualquer outra espécie, ela produz pinhões, algo que é de altíssimo interesse e de altíssimo rendimento para as propriedades.

Durante esses 31 anos em que estudo a araucária, desenvolvemos desde 2000, juntamente com a Embrapa, a tecnologia de fazer um pomar enxertado por meio da seleção de pinhões grandes, que coletamos em Lages, Caçador e em outras regiões. Com esse pomar será possível colher, no mínimo, depois de 30 anos de plantio, pinhão por três gerações – estou falando apenas do período de 30 a 100 anos -, que ganharão em torno de R$ 32 mil com a venda de pinhões por hectare/ano. Faça a conta e me responda qual é o outro produto agrícola que gera toda essa renda? Claro que outros produtos geram esse faturamento, mas eles têm um custo ambiental, que a araucária não gera.

“A araucária pode ser salva pelo uso, porque conseguimos provar que ela é um grande bem econômico”

IHU On-Line – Em que consiste a sua pesquisa de produção de mudas enxertadas de araucária para formar pomares? Pode nos falar da proposta de técnicas de enxerto como uma saída para estimular o plantio da espécie?

Flávio Zanette – Quando digo que a araucária pode ser salva pelo uso, é porque conseguimos provar que ela é um grande bem econômico. Ao longo desses mais de 30 anos, temos estudado formas de viabilizar o manejo adequado e concluímos, depois de fazer pinheiro de proveta, que para a araucária ser econômica devemos fazer a seleção das sementes: recentemente conseguimos provar que uma planta matriz em Lages, SC, da qual durante 30 anos foram colhidas sementes, as quais foram plantadas em outros locais a 60 quilômetros de distância, se produziram pinhões enormes, com o dobro do tamanho normal. Para termos uma ideia, o pinhão normal tem em média sete, oito gramas, e esse pinhão de que falo teve entre 14 e 16 gramas. Portanto, desenvolvemos e constatamos a possibilidade de produzir pinhões de alta qualidade plantando pinhões de alta qualidade.

Em Caçador, SC, o produtor de araucária Vânio Czerniak tem uma planta que já produziu 674 pinhas e, neste ano, produziu 539, quando na floresta se produz de 10 a 15 pinhas e, em algumas plantas mais bem situadas, sabemos que é possível produzir um pouco mais de 100 pinhas. Então, trabalhamos com um processo de seleção de matrizes de araucárias que produzam mais de 100 pinhas todo o ano. Imagine que, através de um processo de seleção das melhores matrizes de araucária, podemos passar de uma produção de 30 a 40 pinhas para 600 pinhas por araucária.

Durante a pesquisa, eu inclusive desenvolvi um processo para clonar algumas plantas, que foram clonadas in vitro, mas não fiquei satisfeito com o resultado porque o custo de produção em laboratório era muito elevado. Então, desde o ano 2000 passei a me dedicar a estudar formas de enxertar a araucária. A partir disso já surgiram teses de doutorado em que demonstramos essa experiência e produzimos um livreto publicado pela Sociedade Brasileira de Fruticultura.

Na seção de frutas nativas consta o plantio da araucária como fruteira para a produção de pinhões, e é nessa linha que falamos das técnicas de enxertia. Nesse momento nós produzimos – está sendo publicado e divulgado – um manual de como enxertar a araucária, porque nós não temos mão de obra para produzir mudas e distribuí-las, então fazemos o mais simples: uma pessoa planta o pinhão, e um ano e meio depois, usando o nosso manual de enxertia, ela mesma pode fazer o enxerto. Nós temos o que eu chamo de “jardim clonal”, onde cultivamos os pinhões selecionados dessas matrizes e enviamos as mudas até pelos Correios para quem tiver interesse em plantar araucárias.

IHU On-Line – Como é feito o plantio das mudas enxertadas?

Flávio Zanette – As mudas são cultivadas na Universidade, nesse jardim clonal, que me fornece um broto. Eu corto esse broto em pedaços e as pessoas que querem plantar a araucária fazem o enxerto seguindo o manual, que está publicado e distribuído através de uma parceria que fizemos com o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural – Senar da Federação da Agricultura. Nós temos material à vontade e podemos enviar digitalmente para quem quiser, porque com esse material em mãos, ninguém precisa comprar a muda enxertada, a pessoa mesmo enxerta e, assim, o que acontece?

Em primeiro lugar, não precisa plantar 50 fêmeas e 50 machos por hectare, mas 20 machos, que são suficientes, e 80 fêmeas, porque aí a produção já sai ganhando com 30% a mais de fêmeas. Segundo, não é preciso plantar uma ao lado da outra, a cada dois ou três metros, porque nós concluímos que a araucária, para produzir e ter muitos galhos, precisa estar de oito a dez metros de distância uma da outra. É por isso que em um hectare são plantadas somente entre 100 e 120 plantas, e após 12 anos da araucária enxertada começa a cair pinhão. Considerando essa distância entre uma planta e outra, sobra espaço numa faixa do meio para plantar trigo, soja ou qualquer outra cultura anual, ou ainda uma carreira de erva-mate, que é o binômio natural, pois a erva-mate faz parte da ombrófila mista. Na verdade, a terra será usada somente para o pinhão quando a araucária começar a produzi-lo. Portanto, é possível perceber como esse processo é economicamente interessante.

IHU On-line – Já é possível saber qual é o percentual de araucárias plantadas a partir dessa técnica?

Flávio Zanette – Orientado para a produção de pinhões, iniciei esse processo há 10 anos. Inclusive, neste ano comemoramos os 10 anos de distribuição de mudas produzidas a partir dessa técnica e realizamos uma festa para comemorar e, nos dois dias de comemoração, distribuímos 10 mil mudas de araucária. As pessoas levaram a araucária para plantar com nossas orientações e ficaram com a opção de enxertá-las daqui a um ano e meio. Neste ano também adquirimos 10 mil pinhões do Vânio Czerniak, de Caçador, daquela famosa araucária que no ano passado produziu as 674 pinhas e neste ano produziu 539, a R$ 1,00 cada pinhão, para fazermos novas mudas, porque aqui há um grande interesse em plantar mudas desta árvore.

“A legislação não incentiva o plantio”

IHU On-Line – Qual é a função ambiental das araucárias para o ecossistema como um todo?

Flávio Zanette – A araucária vale mais em pé do que deitada, porque em pé ela continuará produzindo, e quando ela morrer ou estiver velha, na fase em que produz poucos pinhões, é possível derrubá-la e teremos uma madeira excepcional, que dará nó-de-pinho – nós aqui do Sul sabemos a importância de um nó-de-pinho para jogar na lareira, uma vez que é o material vegetal mais denso que se conhece e, portanto, é uma fonte de energia com alto rendimento. Além disso, a araucária também nos dá o pinhão.

Ecologicamente, se plantarmos araucárias no campo, dentro de 25 ou 30 anos haverá um capão naquele local, porque ela é uma pioneira e, quando começar a crescer, várias aves irão se refugiar nela para se protegerem dos predadores, como o gambá. Assim, as aves ficam aninhadas ali, dormem ali e, consequentemente, jogam suas fezes ali, cultivam as sementes que caem da araucária e começam a nascer novas plantas. Com o passar do tempo o local vai virar um bosque, um capão.

IHU On-Line – O senhor afirma que a legislação é equivocada em relação à preservação da araucária. Quais os problemas que evidencia e o que seria uma política ambiental adequada para preservar as matas de araucária e incentivar sua reprodução?

Flávio Zanette – A legislação foi constituída assim: em um dado momento viu-se que não ia sobrar nenhuma araucária em pé, porque ela estava sendo derrubada e, com isso, definiu-se que era proibido derrubá-la. Assim, quem tinha uma área de terra começou a cortar todas as mudas de araucária que nasciam, justamente para não perder aquele espaço, porque uma vez que as araucárias crescessem, elas não poderiam ser cortadas. Esse tipo de atitude passou a ser muito normal no Paraná, em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul, porque os agricultores ficaram revoltados por não poder explorar o espaço da propriedade plantado com araucária. A meu ver, tem que proibir mesmo a retirada indiscriminada de araucária. O ponto é que a legislação se esqueceu da outra parte, quer dizer, além de proibir, a legislação deveria garantir uma política de incentivo ao plantio.

Além disso, se não houver um manejo adequado de derrubar algumas araucárias pelo meio da floresta, essa mata, mais cedo ou mais tarde, morrerá completamente, porque as araucárias têm idades próximas, portanto todas elas envelheceram. O mais triste é que as araucárias não caem, não tombam quando morrem, elas se decompõem, vão soltando os galhos, ficam com o tronco seco, as cascas vão caindo e, por conta disso, não se abre uma clareira quando elas morrem; desse modo, não há nem condição de nascer outra no lugar dela. É por isso que defendemos que sejam realizados estudos urgentes para que as florestas densas, fechadas com araucárias, sejam preservadas. Precisamos derrubar algumas pelo meio da mata para permitir que entre a luz e, assim, as novas plantas se desenvolvam.

A legislação não incentiva o plantio. Nós produzimos mudas e as distribuímos de graça, mas muitas pessoas as jogam fora porque não querem saber de plantar araucária por causa da legislação. Apesar disso, nesses dez anos, já conseguimos distribuir mais de 70 mil mudas em todo o Brasil, tendo em vista a produção do pinhão. No meu banco de dados, tenho o nome, o CPF, o local de plantio, o número de mudas e contato de mais de três mil pessoas. Portanto, já temos mais de três mil pessoas interessadas na nossa técnica.

IHU On-Line – Como os órgãos ambientais e parlamentares se posicionam sobre uma possível mudança na legislação?

Flávio Zanette – Essa é uma batalha que estou travando há sete, oito anos, participando de reuniões e audiências públicas para mudar a legislação. O secretário de Meio Ambiente da minha região estava bem engajado nesse projeto e agora vai trabalhar como assessor do Ministro do Meio Ambiente. Quero tentar trazer o Ministro para fazer uma discussão inteligente sobre o assunto, porque não adianta o “ecologista borboleta” dizer não pode isso ou aquilo, tem de apresentar um fundamento.

IHU On-Line – Que percentual da mata de araucária ainda existe no Brasil?

Flávio Zanette – A literatura informava que o Rio Grande do Sul tinha 15% do território com araucária, ou seja, floresta ombrófila mista, Santa Catarina tinha 25% do território, e o Paraná, 35%. Contudo, depois da exploração madeireira que ocorreu a partir da década de 1940, restou, de mata nativa, 1,5% no Rio Grande do Sul, em torno de 3% em Santa Catarina, e no Paraná, conforme o levantamento feito pela Fundação de Ciências Florestais, não chega a 1,5% de mata virgem em relação ao original. É muito pouco.

Apesar desses dados, alguns lutam para retirar a araucária da lista de espécies ameaçadas. Ao invés disso, não é muito melhor fazer uma legislação específica para a araucária do que ficar mexendo e decidindo se ela deve ou não estar na lista? Ela está mais do que na lista, ela está ameaçada.

“Nós produzimos mudas e as distribuímos de graça, mas muitas pessoas as jogam fora porque não querem saber de plantar araucária por causa da legislação”

 

IHU On-Line – Então, a queda na produção do pinhão está relacionada com o envelhecimento da araucária e o baixo plantio de novas plantas?

Flávio Zanette – É indiscutível que o volume total de produção, na sequência de quatro ou cinco anos, tem caído e a curva é descendente. O pinhão leva de 30 a 36 meses para se formar: da indução floral, passa por todo o processo de frutificação e demora um ano até formar a flor; depois de um ano, ele fecunda, aí fica mais um ano crescendo e mais um ano em maturação. Eu estudei, junto com alguns alunos, in loco, a produção do pinhão. Usamos um caminhão com plataforma elevada e acompanhamos esse processo de desenvolvimento durante três anos. Claro que se em um ano a araucária está sobrecarregada com muitas pinhas, naquele mesmo período ela está preparando os botões para a produção que irá ocorrer daqui a dois anos. O clima pode ajudar nesse processo, mas não é como as pessoas dizem, que num determinado ano tem bastante pinhão porque deu frio – nada a ver. O frio deste ano vai favorecer a indução floral para 2018, pois o pinhão de 2018 tem a ver com o inverno deste ano, enquanto o pinhão do ano que vem não tem nada a ver com o inverno deste ano, porque ele já está formado, fecundado, está crescendo e ficará maduro a partir do mês de abril do ano que vem.

Então, se está provado que ramos novos de pinheiro só se formam até quando a planta tem 60 anos, basta ver que a grande maioria dos pinheiros que temos por aí em nossas florestas têm mais de 60 anos e não estão mais formando ramos novos. Portanto, a produção está se dando naqueles galhos que estão aí. Então, se não nascem mais galhos novos e a cada ano eles vão caindo e diminuindo, a tendência é diminuir a produção.

IHU On-Line – Gostaria de acrescentar algo?

Flávio Zanette – Gostaria de insistir que deve haver pressão geral e urgente para que a legislação mude e para incentivar o plantio de araucária, porque a legislação de hoje autoriza o corte da araucária que o produtor plantou, mas a dificuldade é provar que foi ele quem plantou. Para provar isso se exige uma burocracia muito grande e complicada, se exige o relatório de um engenheiro florestal e a elaboração de um projeto. Mas o pequeno produtor, que é quem tem o grande interesse, porque quem preserva é o pequeno e não o grande, não tem condições de fazer tudo que a legislação determina.

Aproveito para registrar que perto de São Joaquim, SC, está acontecendo um encontro sobre fruticultura: um ano esse evento acontece em São Joaquim, e no outro, em Fraiburgo, SC. São Joaquim só viu a araucária como madeira, porque aquela região só se desenvolveu graças à madeira e ao extrativismo puro, mas agora eles sabem que aquela região ainda é altamente produtora de pinhão, e apesar disso nem começaram a plantar pomares de araucária para produção de pinhão. Com isso, é possível observar como é o sentimento geral em relação à araucária. Então, só pelos meios de comunicação, que foi o que sempre usei, é que convenceremos a população da importância do plantio da araucária.

Fonte – Patricia Fachin, IHU de 17 de junho de 2016

Sarmento visita Eixo Leste e conclui: situação é pior do que lhe relataram

Canal do Eixo Leste: vazão baixou a níveis insuficientes para levar água até Boqueirão (Foto: Francisco Sarmento)

Após visitar no domingo (19) todo o trecho do Eixo Leste da Transposição do Rio São Francisco que vai da quinta estação de bombeamento (EBV 5) ao deságue no rio Paraíba na zona urbana de Monteiro, passando pela EBV 6, o Professor Francisco Jácome Sarmento concluiu: “A situação geral é pior do que me relatavam”.

A pedido do blog, ele fez um relato detalhado de que tudo o que viu, fotografou e ouviu sobre como se encontram as bombas, os canais e barragens construídos em todo o percurso. É no mínimo preocupante o que Sarmento revela com autoridade de quem é, acadêmica e profissionalmente, um dos maiores especialistas do Brasil em recursos hídricos.

Acompanhe a seguir as constatações e impressões do Professor Francisco Sarmento. Confirmam o que ele dissera ao blog anteriormente de que foi feito todo um esforço para inaugurar o Eixo Leste sem a obra dispor dos instrumentos e serviços que dariam efetividade, regularidade e força ao curso d’água para alcançar, por exemplo, o quase esgotado açude de Boqueirão que abastece Campina Grande.

Bombas

Na EBV-5, das quatro bombas prevista foram instaladas duas. Ambas estavam desligadas. Indaguei ao funcionário a razão e a resposta foi risível: “O operador tirou folga”. A obra física (obra civil) da estação de bombeamento está realmente concluída. Essa EB eleva a água para um aterro com mais de 30 m de altura localizado logo atrás do prédio da estação.

Sem proteção, a erosão. Mesmo com pouca chuva (Foto: Francisco Sarmento)

No topo desse aterro são visíveis vários afundamentos que demandarão recuperação. Os taludes do aterro não estão protegidos, pois falta executar a camada de rochas que evita que a própria chuva provoque erosão naquele corpo de terra. Na situação em que se encontra atualmente, deve-se realmente rezar para que não chova (isso é um dilema) pois mesmo uma chuva de intensidade mediana poderá levar a sérios danos.

Na EBV-6 deveriam haver, assim como na EBV-5, quatro bombas instaladas. Das duas que lá se encontravam, uma apresentou problemas e foi remetida para o fabricante nos EUA para reparos. A restante estava em funcionamento. Mas também bombeando para o trecho em canal, localizado no topo de outro aterro absolutamente desprotegido dos potenciais efeitos erosivos que qualquer chuva pode causar. Ou seja, com as mesmas vulnerabilidade constatadas na EBV-5.

Canais

Há vários trechos com placas de revestimentos rompidas, inacabadas, em estado verdadeiramente precário. Mas isso não é o mais grave. Nenhum desses canais no trecho visitado (da EBV-5 até o deságue em Monteiro) apresenta qualquer sistema de drenagem executado. O sistema de drenagem se presta principalmente a evitar que, com as chuvas, a terra desça com a água e provoque assoreamento no canal ou eroda seus aterros e demais partes exposta. Além disso, falta executar praticamente toda a proteção de rochas ao longo dos trechos em aterro. Ou seja, a precária situação de vulnerabilidade à erosão possível de advir, caso chova (verificada nos aterro existentes logos após as EB’s, conforme acima mencionado), se estende também ao longo das dezenas de quilômetros de canais até o deságue em Monteiro.

Nos trechos em que os canais encontram os lagos das barragens que permitem transladar os vales (no trecho visitado, barragem Barreiro, Campos e Barro Branco) há ainda comportas a serem instaladas no emboque do canal. Além disso, conforme informei anteriormente, o sistema de operação e controle, que permite comandar propriamente o projeto (acionando comportas, controlando níveis d’água nos canais e nas barragens, etc.), sequer foi licitado. Tampouco o sistema de Operação e Manutenção da obra.

Igualmente indefinido está, no plano institucional, qual será o órgão que comandará a operação do sistema, seja o Eixo Leste, seja o Eixo Norte. Mas isso é outra história

Barragens

Conforme divulgado na imprensa, a barragem existente entre a EBV-5 e a EBV-6 (barragem Barreiro) se rompeu poucos dias antes da inauguração promovida pelo Presidente Temer. Os estragos continuam lá e não serão consertados rapidamente. Certamente levará tempo, pois o cenário não permite dizer se a erosão destruiu o maciço de terra a partir da fundação ou a partir da interface com o muro de concreto que separa o maciço de terra da parte onde se inicia o sangradouro.

Sarmento mostra buraco na parede da barragem (Foto: Francisco Sarmento)

A própria investigação não será tão rápida e, até que se saiba o que aconteceu, não se poderá prever quando a barragem poderá receber água para que o Eixo Leste opere normalmente. Atualmente, o nível de água dessa barragem é ditado pela cota em que a ruptura da parede ocorreu e essa cota é tão baixa que estão executando escavações com explosivos na margem do lago para que haja profundidade suficiente para que as bombas flutuantes possam continuar funcionando.

Após a EBV-6 há ainda duas outras barragens: Campos e Barro Branco. Para minha surpresa constatei que ambas foram acometidas do mesmo problema que levou à ruína parcial da barragem Barreiro. No caso de Barro Branco, a gravidade das infiltrações obrigou a execução emergencial de um “engordamento” da parede da barragem onde o problema surgiu. A execução emergencial levou ao deslocamento do muro de concreto da comporta da barragem. Em Campos, conforme dito, também ocorreram problemas dessa natureza e foram usadas proteções feitas com camadas de rochas.

Como consequência disso, as três barragens (Barreiro, Campos e Barro Branco) não podem ser enchidas até o nível operacional normal. Para contornar o problema foram deslocadas as bombas doadas pelo governo de São Paulo, que se encontravam auxiliando na então inconclusa EBV-4 (não visitei essa EB nessa ida de ontem), para que possam fazer o bombeamento complementar nas barragens de Barreiro e Campos. Ocorre que esse conjunto de bombas, tendo que atender aos dois reservatórios, foi dividido em dois grupos, reduzindo assim a quantidade de água que chega ao rio Paraíba. O volume de água que desemboca em Monteiro é da ordem de apenas algumas dezenas de litros por segundo, ou seja, um montante hídrico ínfimo comparado não apenas com a capacidade do Eixo Leste, mas com a própria severidade da crise atualmente vivenciada exige.

Recuperação Ambiental

Por onde se transita, ao longo da obra, veem-se montanhas e montanhas de material oriundo das escavações que deverá ser remanejado para locais devidamente autorizados pelo órgão ambiental (Ibama) para que se tenha um mínimo de recomposição da paisagem que, como dito, ratifica tratar-se de uma obra inconclusa. Uma analogia: é mais ou menos como um edifício em fase de conclusão onde todo o entulho ainda se encontra nos vários pisos construídos.

Montanhas de entulhos permanecem na área da obra (Foto: Francisco Sarmento)

As principais conclusões em relação ao constatado diretamente em campo são:

  • É imprevisível o prazo para que o Eixo Leste efetivamente possa funcionar transferindo volumes de água suficientes para aplacar a crise hídrica vivenciada na bacia do Rio Paraíba e entorno.
  • A população, que festeja efusivamente a pequena lâmina de água que transita nos canais no trecho visitado, não tem nenhuma percepção dessas anomalias nem dos risco que envolvem essas barragens, à exceção de alguns mais esclarecidos, dentre as várias pessoas com quem conversei, que estranham a presença das bombas instaladas em flutuantes (nas barragens de Barreiro e de Campos), a que chamam “gambiarras”.
  • É inevitável a conclusão de que, nos últimos meses, a execução da obra foi ditada pela orientação de fazer a água chegar, deixando-se de lados serviços importantes, como execução dos sistemas de drenagem dos canais, proteção de taludes de aterro, instalação e operacionalização de comportas de controle das barragens e seu enchimento lento, concomitante à observação do comportamento das mesmas, como mandam as normas de segurança etc.
  • Em outras palavras, o que está lá é tão precário que bastou uma semana de funcionamento para que as improvisações impusessem uma drástica redução na vazão transferida.
  • Temo que o trecho não visitado não esteja em condições diferentes, pois, como a EBV-5 estava inoperante, certamente todas as demais, desde o São Francisco (lago de Itaparica) – EBV-1, EBV-2, EBV-3 e EBV-4 – também se encontrem desligadas (conclusão óbvia, pois, caso contrário a água “empossaria” na EBV-5 fazendo transbordar (mais uma vez) os canais.

Por fim, gostaria de explicar que, entre o segundo semestre de 2016 e até bem pouco tempo, quando indagado por jornalistas sobre a solução para a crise hídrica na Paraíba, sempre respondi que nos restava apenas rezar, pois a transposição não chegaria a tempo.

Em setembro do ano passado, essa certeza aumentou com o recebimento de fotos que me foram enviadas por um amigo. O estágio então retratado não permitiria ao técnico mais otimista acreditar que a obra viesse a ser concluída a tempo.

Depois dessa visita, percebo claramente que os executores da obra trabalharam nesse intervalo não com o objetivo – impossível de ser alcançado – de concluí-la, mas sim de fazer a água chegar de qualquer maneira ao destino, na data politicamente estabelecida.

Espero que a obra seja de fato concluída e que possamos contar a sustentabilidade operacional do Eixo Leste, e em 2018, com o Eixo Norte, para o bem de todos, pois não há alternativa para milhões de pessoas que esperam por isso.

Em anexo, algumas fotografias que documentam a viagem, dentre elas o “buraco” deixado pela ruptura da barragem Barreiro, as bombas flutuantes do reservatório Campos (foto com módulos azuis). Tenho cerca de 100 fotos se precisar de alguma específica, basta informar.

Fonte – Francisco Sarmento, Jornal da Paraíba de 20 de março de 2017

E daí, não só o atual presidente inaugura a obra mas dias depois o ex-presidento e a ex-presidenta – ou seria ex-presidanta? – fazem uma “inauguração popular” – traduzindo, campanha antecipada -. É muita gente querendo a paternidade de tão pouca – e porca – obra.