Cerrado. O laboratório antropológico ameaçado pela desterritorialização

Altair Barbosa analisa os movimentos de variadas formas de vida ao longo de eras no Cerrado e como a ação do ser humano contemporâneo é uma ameaça a todas

O Cerrado brasileiro abriga não só riqueza em termos de fauna e flora. Destruir esse bioma significa mexer com questões geológicas e hídricas que trará repercussões a todo o Brasil. Além disso, pode significar uma perda arqueológica e de formas de vidas que existem há milênios. É por isso que o antropólogo Altair Sales Barbosa propõe um olhar mais complexo sobre o bioma. “O sistema do Cerrado, dos chapadões centrais do Brasil, pela posição geográfica, pelo caráter florístico, faunístico, geomorfológico e pela história evolutiva, constitui o ponto de equilíbrio desses variados ambientes”, exemplifica.

Nesta entrevista concedida à IHU On-Line por e-mail, além de detalhar o bioma do Brasil central, observa como o ser humano vai agindo nesse ambiente, promovendo modificações com objetivos apenas econômicos e desconsiderando a dinâmica de todo Cerrado. “Nos tempos atuais da nossa contemporaneidade, também sem levar em consideração a vocação da terra e a vocação cultural do que ainda resta de autêntico na cultura do Homem do Cerrado, uma nova onda globalizada de invasões chegou e está se instalando”, alerta. E, segundo Barbosa, isso tem gerado consequências num ritmo nunca antes visto, afetando formas de vida no campo e na cidade. “Com o incremento da tecnologia e o avanço do capital, comunidades inteiras são desestruturadas e desabrigadas, criando o fenômeno da desterritorialização”, completa.

Altair Sales Barbosa possui graduação em Antropologia pela Pontificia Universidad Católica de Chile, doutorado em Arqueologia Pré-Histórica pela Smithsonian Institution – National Museum of Natural History, de Washington, Estados Unidos. É coordenador do projeto Enciclopedia Virtual do Cerrado pelo Instituto Histórico e Geográfico de Goiás, do qual é sócio titular.

No dia 16 de maio, das 19h30min às 22, ele profere a conferência O Sistema Biogeográfico do Cerrado, as comunidades tradicionais e cultura, dentro da programação do evento Os biomas brasileiros e a teia da vida, promovido pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU. Veja a programação completa.

Confira um trecho da entrevista. A versão completa será publicada no Cadernos IHU ideias.

IHU On-Line – Como compreender as formas de vida no Cerrado, desde a perspectiva biológica à relação com os povos?
Altair Sales Barbosa – Fisiograficamente, o Brasil possui sete grandes matrizes ambientais. Essas matrizes foram denominadas por Ab’Saber , em 1977, como Domínios Morfoclimáticos e Fitogeográficos. Outros estudos as denominam Biomas, embora o conceito de bioma não seja muito apropriado, pois tende a enfatizar ou realçar um clímax vegetacional, muitas vezes não corroborado pela história evolutiva do espaço em questão. A partir de 1992, tenho sugerido a utilização do conceito biogeográfico, classificando cada grande matriz ambiental como um sistema. Essas grandes matrizes ambientais podem ser agrupadas da forma seguinte: Sistema Biogeográfico Amazônico; Sistema Biogeográfico Roraimo-Guianense; Sistema Biogeográfico das Caatingas; Sistema Biogeográfico Tropical Atlântico; Sistema Biogeográfico dos Planaltos Sul-Brasileiros; Sistema Biogeográfico das Pradarias Mistas Subtropicais, e por último temos o Sistema Biogeográfico do Cerrado.

Atualmente, o modelo fisiográfico sofreu modificações, por questões não ambientais, mas de geopolítica ou especificamente políticas e econômicas. Para ilustrar, citamos o caso do Pantanal Mato-Grossense, que não passa de um subsistema integrante do Sistema do Cerrado. Entretanto, como existe um movimento social crescente para incluir o Cerrado como Patrimônio Nacional, movimento este que entra em contradição com o Planejamento Econômico do Brasil, que considera o Cerrado área de expansão da fronteira agrícola, desmembrou-se o Pantanal deste ambiente, transformando-o em Patrimônio Nacional. No entanto, não significa que esteja livre da expansão agropastoril, trata-se apenas de uma ilusão ou artifício.

Cerrado e suas relações

O Sistema Biogeográfico do Cerrado está situado nos planaltos centrais do Brasil, onde imperaram climas tropicais de caráter subúmido, com duas estações ¬-¬ uma seca, outra chuvosa. Constitui o grande domínio do Trópico Subúmido, coberto por uma paisagem que constitui um mosaico de tipos fisionômicos que varia desde campos até áreas florestadas.

Estas sete matrizes ambientais formam, na maior parte dos casos, intrincados sistemas ecológicos interdependentes. O sistema do Cerrado, dos chapadões centrais do Brasil, pela posição geográfica, pelo caráter florístico, faunístico, geomorfológico e pela história evolutiva, constitui o ponto de equilíbrio desses variados ambientes, uma vez que se conecta, por intermédio de corredores hidrográficos, com esses e com outros ambientes continentais. Os chapadões centrais do Brasil, cobertos pelo Sistema Biogeográfico do Cerrado, constituem a cumeeira do Brasil e também da América do Sul, pois distribuem significativa quantidade de água que alimenta as principais bacias hidrográficas do continente.

O Cerrado abrange os Estados de Goiás, Tocantins, Mato Grosso do Sul e Distrito Federal. Inclui a parte sul e leste de Mato Grosso, oeste da Bahia, oeste e norte de Minas Gerais, sul e leste do Maranhão, grande parte do Piauí e prolonga-se em forma de corredor até Rondônia e, de forma disjunta, ocorre em certas áreas do nordeste brasileiro e em parte de São Paulo. Ecologicamente, relaciona-se às Savanas, e há quem afirme que o cerrado seja configuração regionalizada destas. Entretanto, este ambiente possui uma história evolutiva muito diferente das savanas africanas e australianas.

No Brasil, o cerrado e os campos recebem denominações diferentes, de acordo com a região: Gerais, em Minas e Bahia; Tabuleiro, na Bahia e outras áreas do Nordeste; e ainda Campina, Costaneira e Carrasco, dependendo da região. Nenhuma dessas designações populares reflete sua totalidade ecológica, referindo-se apenas a uma modalidade fisionômica, às vezes, associada a uma ou outra configuração geomorfológica. Por estas razões, o paradigma puramente botânico não tem sido suficiente para demonstrar a totalidade e a importância ecológica do Cerrado, já que destaca ou enfatiza apenas parcelas fragmentadas de sua composição. Quando isso acontece, o caráter da biodiversidade, elemento marcante da ecologia do Cerrado, não recebe a importância merecida, nem sequer pode ser compreendida em seus aspectos fundamentais.

A utilização do paradigma Biogeográfico tem demonstrado ser um referencial de grande importância para que se possa entender o Cerrado, em sua globalidade. Compreendendo os diversos matizes, tanto abertos e ombrófilos , como subsistemas interatuantes e integrantes decisivos de um sistema maior, o conceito Biogeográfico tem ressaltado a importância que o Cerrado exerce para o equilíbrio dos demais ambientes do continente, além de demonstrar que a principal característica da sua biocenose é a interdependência dos componentes aos diversos ecossistemas.

Populações do passado

O Cerrado exerce papel fundamental na vida das populações pré-históricas que iniciaram o povoamento das áreas interioranas do continente sul-americano. Na região do Cerrado, essas populações desenvolveram importantes processos culturais que moldaram estilos de sociedades bem definidas, em que a economia de caça e coleta imprimiu modelos de organização espacial e social com características peculiares. Os processos culturais indígenas, que se seguiram a este modelo, trouxeram pouca modificação à fisionomia sociocultural e, embora ocorresse o advento da agricultura incipiente, exercida nas manchas de solo de boa fertilidade natural, existentes no Cerrado, a caça e a coleta, em particular a vegetal, ainda constituíam fatores decisivos na economia dessas sociedades.

A partir do século XVIII, o panorama regional começou a sofrer sensíveis modificações, com o incremento da colonização que se embrenha pelo interior do país, em busca de ouro, pedras preciosas e índios escravos. Nesse contexto, e a partir dessa data, surgiram os primeiros aglomerados urbanos, e a exploração mais intensa dos recursos minerais que começava a se incrementar já provocava os primeiros sinais de degradação. Findo o ciclo da mineração, a região do Cerrado permaneceu economicamente dedicada à criação extensiva de gado e à agricultura de subsistência.

Alguns desses modelos econômicos ainda subsistem em espaços localizados até os dias atuais, e outros modelos mais simples, baseados no extrativismo, são adotados por populações caboclas, habitantes atuais de espaços restritos. O isolamento que a região manteve em relação às áreas mais populosas e economicamente dinâmicas do Brasil, até meados da década de 1960, fez com que este quadro permanecesse basicamente inalterado, fato que a implantação de Brasília alterou consideravelmente, desestruturando os sistemas sociais implantados e causando entropias de ordem biológica e geológica.

Agricultura

O potencial agrícola que o Cerrado demonstra, associado ao fato de ser uma das últimas reservas da terra capaz de suportar, de modo imediato, a produção de grãos e a formação de pastagens ligado ao desenvolvimento das técnicas modernas de cultivo, tem atraído recentemente grandes investimentos e criado modificações significativas, do ponto de vista da infraestrutura de suporte. O fato da não existência de uma política global para a agricultura tem provocado o êxodo rural e o crescimento desordenado dos núcleos urbanos. Todos esses fatores, em seu conjunto, têm como consequências situações nocivas ao meio ambiente natural e social, com perspectivas preocupantes.

Fauna e flora

A região do Cerrado não pode ser entendida como uma unidade zoogeográfica particularizada, porque não apresenta esta característica, tampouco pode ser considerada uma unidade fitogeográfica , por não se tratar de uma área uniforme em termos de paisagem vegetal. O mais correto é correlacionar os diversos fatores que compõem sua biocenose e defini-la como um Sistema Biogeográfico. Um sistema que abrange áreas planálticas, o Planalto Central Brasileiro, com altitude média de 650 metros, clima tropical subúmido de duas estações, solos variados e um quadro florístico e faunístico extremamente diversificado e interdependente. A fauna variada do Cerrado, que transita noutros ambientes, por exemplo, a caatinga, tem sua maior concentração registrada no Sistema Biogeográfico do Cerrado, em virtude das possibilidades alimentares durante todo ciclo anual.

Há um estrato gramíneo que sustenta uma fauna de herbívoros durante boa parte do ano, enquanto não está seco. Antes de aparecerem as flores, as queimadas naturais, por um lapso de tempo, provêm os animais com cálcio e sais minerais. Logo aparecem as flores que, durante uma determinada época, substituem como alimento as gramíneas. O final das floradas coincide com o início da estação chuvosa, que faz rebrotar os pastos secos e a maturação de várias espécies frutíferas. Acompanhando os herbívoros e atrás, também, de recursos vegetais, animais com outros hábitos formam uma complexa cadeia. Em termos vegetais, este sistema é complexo e nunca pode ser entendido como uma unidade, pois há o predomínio do cerrado stricto sensu como paisagem vegetal, mas há também seus variados matizes, como campo e cerradão, além de formações florestadas, como matas e matas ciliares e ainda são comuns as veredas e ambientes alagadiços.

As áreas florestadas são constituídas pelas matas ciliares que ocorrem nas cabeceiras dos pequenos córregos e rios, em suas margens, como também se espalham em áreas mais extensas acompanhando as manchas de solo de boa fertilidade natural. Por exemplo, as matas do rio Claro e outras vertentes do Paranaíba e o outrora chamado “Mato Grosso de Goiás”. As veredas e ambientes alagadiços são mais abundantes, a partir do centro da área nuclear (sudoeste de Goiás), toma a direção norte e leste e sul e, à medida que se aproxima do Pantanal Mato-Grossense, ficam mais evidentes os ambientes alagadiços com contornos diferenciados.

Um cerrado de muitos sistemas

Nessa perspectiva, o Sistema Biogeográfico do Cerrado pode ser subdividido em subsistemas específicos, caracterizados pela fisionomia e composição vegetal e animal, além de outros fatores, que apresentam a seguinte organização: Subsistema dos Campos, Subsistema do Cerrado Stricto Sensu; Subsistema do Cerradão; Subsistema das Matas; Subsistema das Matas Ciliares; Subsistemas das Veredas e Ambientes Alagadiços.

Essa diversidade de ambiente é um fator muito importante para a diversificação faunística, permitindo a ocorrência de animais adaptados a ambientes secos e, também, a ambientes úmidos. Da mesma forma, propicia tanto a ocorrência de formas adaptadas a áreas ensolaradas e abertas, como favorece a ocorrência de formas ombrófilas. Esses fatores atribuem ao Sistema Biogeográfico do Cerrado um caráter singular, distinguindo-o pela diversidade de formas vegetais e animais.

Desterritorialização

Nos tempos atuais da nossa contemporaneidade, também sem levar em consideração a vocação da terra e a vocação cultural do que ainda resta de autêntico na cultura do Homem do Cerrado, uma nova onda globalizada de invasões chegou e está se instalando. Isso tem gerado forte impacto sobre o meio ambiente e causado a desestruturação da população rural e urbana, num ritmo nunca visto na história da humanidade. Com o incremento da tecnologia e o avanço do capital, comunidades inteiras são desestruturadas e desabrigadas, criando o fenômeno da desterritorialização.

Fonte – João Vitor Santos, IHU de 13 de março de 2017

Atlas revela que latifúndio supera as áreas protegidas

Alta Floresta

A operação Carne Fraca da Polícia Federal, realizada na sexta-feira (17), abriu uma fresta para o Brasil espiar como funciona a cadeia da pecuária brasileira. Nas escutas dos operadores e barões desse império do atraso –que o BNDES quis transformar em campeões mundiais despejando nele bilhões– apareceu até o ministro da Justiça escolhido por Michel Temer, Osmar Serraglio.

Serraglio, do mesmo PMDB que lota a base parlamentar do presidente da República com latifundiários, andou dizendo que índios não precisam de mais terras indígenas (Tis). Na sua visão interessada de ruralista, “terra não enche barriga”.

Entenda-se da fala do ministro, que tem sob sua alçada a Funai: vamos parar com a demarcação de Tis. Aí vai sobrar mais terra para a gente.

Não é de hoje que o pessoal do agronegócio propagandeia que o Brasil tem um excesso de áreas protegidas, conceito que reúne unidades de conservação às Tis para designar aquela parte do território em que prevalece a preservação de vegetação nativa. O suposto exagero estaria impedindo a agricultura de se expandir.

Na realidade, são as grandes propriedades que predominam, como mostra o Atlas da Agropecuária Brasileira (www.imaflora.org/atlasagropecuario ) que será lançado nesta segunda-feira (20). A façanha informática realizada pela ONG Imaflora em parceria com a Esalq-USP aglutina informações de 20 bases de dados separadas para traçar em detalhe a malha das terras públicas e propriedades rurais do país.

De acordo com o novo Atlas, as áreas protegidas cobrem 27% do território nacional, ou 2,32 milhões de quilômetros quadrados (km2). É um número portentoso, sem dúvida, que aliás deveria orgulhar os brasileiros pelo tamanho da contribuição para salvar a natureza do planeta, mas não sustenta a tese de que índios e mato ocupam tanta terra que estariam impedindo o avanço dos “heróis do agropop”.

As terras privadas, afinal, abarcam 53% do solo brasileiro. São 4,53 milhões de km2 (isso sem incluir os assentamentos rurais do Incra, outros 400 mil km2). E, desses 4,53 milhões de km2, 2,34 milhões de km2 são grandes propriedades, ou 28% do total, um ponto percentual acima da parcela de áreas protegidas.

É verdade que parte dessas propriedades particulares não pode ser desmatada, pois a lei estipula que devem ter uma reserva legal de vegetação natural (20% a 80% do total, dependendo da região) e áreas de preservação permanente, como uma faixa de mata ao longo de rios e riachos. Mas isso se faz em benefício também dos próprios produtores rurais: são as áreas florestadas que lhes garantem a água para plantações e gado.

O Atlas do Imaflora e da Esalq está em franca contradição com o famigerado relatório “Alcance Territorial da Legislação Ambiental e Indigenista”. O trabalho coordenado em 2009 por Evaristo Eduardo de Miranda, da Embrapa Monitoramento por Satélite, dizia que só 29% do território nacional estavam disponíveis para a agropecuária, o restante ocupado por unidades de conservação, terras indígenas, quilombos etc.

Parece que agora a parte mais atrasada do agronegócio, pecuaristas à frente, tem mais coisas para explicar que essa discrepância de números.

Fonte – Marcelo Leite, Folha de S. Paulo de 19 de março de 2017

Poluição é responsável por uma em cada cinco mortes de crianças

Criança em um pequeno comércio na Índia (Foto: Jorge Royan/Wikimmedia Commons)Criança em um pequeno comércio na Índia (Foto: Jorge Royan/Wikimmedia Commons)

Um mundo em que a poluição é responsável por uma em cada cinco mortes de crianças. Essa não é uma realidade prevista para o futuro, mas uma estatística do presente, parte de um novo relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS). Entre as principais causas para a morte anual de mais de 1,7 milhão de crianças com menos de cinco anos estão a poluição do ar, a água contaminada e a falta de saneamento. As principais doenças são diarreia, malária e pneumonia. O objetivo da agência da ONU é mostrar que essas mortes poderiam ser evitadas a partir de soluções já disponíveis.

“Um ambiente poluído é mortal, particularmente para jovens crianças”, afirmou Margaret Chan, diretora-geral da OMS, na ocasião do lançamento dos estudos “Herdando um Mundo Sustentável: Atlas sobre a Saúde das Crianças” e “Não polua o meu futuro! O impacto do Meio Ambiente na Saúde das Crianças”. “Seus órgãos e sistemas imunológicos em desenvolvimento, corpos menores e vias aéreas tornam as crianças especialmente vulneráveis ao ar e água sujos”, disse.

Segundo um dos relatórios, 570 mil crianças com menos de cinco anos morrem no mundo por infecções respiratórias, como a pneumonia. Diversas doenças são atribuídas à poluição do ar em ambientes fechados e abertos, bem como ao fumo passivo. Além de métodos de cocção poluentes, como a madeira e o carvão, por exemplo, essa população sofre com os gases emitidos pelos veículos, ainda restritos ao uso de combustíveis fósseis.

Ambientes urbanos têm alta relevância

Segundo a OMS, há soluções disponíveis para reduzir a perda de tantas crianças. Entre as sugestões, estão políticas de planejamento urbano e de transporte para criar espaços seguros de lazer e reduzir a poluição, melhorias nas condições de habitação, para garantir o uso de combustíveis limpos no preparo de alimentos, e combater a proliferação de mofos e pragas, além de outros investimentos em saneamento e higiene.

Com o planeta vivendo um crescimento constante na urbanização, as cidades têm papel cada vez mais relevante na saúde de crianças e jovens. Segundo a ONU, quase metade da população urbana do planeta tem menos de 30 anos, índice que chega a 66% na África. Mas a infraestrutura básica para garantir meios urbanos saudáveis ainda está distribuída de forma muito desigual. Cerca de 880 milhões de pessoas vivem em favelas e moradias informais.

Outro problema enfrentado por essa população é o desenho urbano. As mortes no trânsito têm alto impacto nos números: 135 mil crianças de até 15 anos morreram em 2012, por exemplo. Entre os jovens de 15 a 29 anos, trata-se da principal causa de morte.

O planejamento urbano tem papel importante na busca por ambientes mais seguros e meios de transporte sustentáveis, que contribuem para reduzir a poluição do ar, tão fatal para as crianças. Como destacado nas primeiras frases deste texto, todas essas mortes estão ocorrendo agora. É preciso agir.

Fonte – Bruno Felin, The City Fix Brasil de 09 de março de 2017

Plantando ar saudável: uma solução natural para solucionar a poluição e o calor nas cidades

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A natureza é capaz de ajudar as cidades a enfrentar problemas como o ar muito sujo ou muito quente? Com base em um novo relatório divulgado pela The Nature Conservancy – em colaboração com C40 Cities Climate Leadership Group – a resposta parece ser um qualificado “sim”.

O relatório “Planting Healthy Air” (Plantando Ar Saudável, em tradução livre) identifica o potencial retorno do investimento do plantio de árvores em 245 cidades globais, que atualmente abrigam cerca de um quarto da população urbana do mundo. Através da coleta e análise de informações geoespaciais sobre a cobertura florestal, de material particulado e densidade populacional, e alavancando os estudos existentes, o estudo estima o escopo de árvores de rua atuais e futuras para tornar o ar urbano mais saudável. Os benefícios que as árvores poderiam dar às cidades serão ainda mais cruciais no futuro, conclui o estudo, já que um quarto de milhão de pessoas pode morrer a cada ano devido ao aquecimento urbano até 2050, a menos que as cidades tomem medidas proativas para se adaptarem ao aquecimento global

TNC-cooler-cities(Árvores urbanas, cidades resfriadas: O cimento e o concreto das cidades absorve a energia do sol e a irradia de volta para o ambiente, esquentando o ar nas cidades. As árvores fornecem sombras e previnem que o concreto esquente, além de resfriar o ar pela transpiração de água. As árvores podem resfriar bairros em cerca de 4º Fahrenheit)

Enquanto as árvores já existentes da cidade limpam e resfriam o ar para mais de 50 milhões de pessoas, um investimento global de U$ 100 milhões por ano em plantio de árvores e manutenção poderia favorecer até 77 milhões de pessoas com cidades mais frias e oferecer para 68 milhões de pessoas reduções consideráveis de partículas de poluição do ar. Novas árvores nas cidades oferecem impacto potencial grande,  mas manter árvores existentes da cidade é muito importante, pois muitas cidades globais estão perdendo suas árvores, devido ao desenvolvimento, às pragas, agentes infecciosos, e a falta de orçamento para manutenção.

O relatório “plantando ar saudável” e o website com um mapa interativo fornecem, por meio dos estudos de caso das cidades que o relatório utiliza, recursos para aqueles interessados em utilizar a natureza para melhorar o ar. Esses estudos podem auxiliar líderes urbanos e oficiais de saúde pública a endereçar tópicos importantes sobre arborização e qualidade do ar, tais como quais cidades e quais bairros podem ser mais auxiliados, a fração do problema de qualidade do ar que pode ser resolvida pelas árvores, quanto investimento é necessário, e onde as árvores equivalem ao custo-benefício. Em muitas cidades, um bairro individual pode oferecer um retorno muito maior sobre o investimento do que a média da cidade, e os mapas do relatório são uma ferramenta útil para os líderes da cidade decidirem onde fazer um investimento em árvores na cidade.

TNC-better-airÁrvores urbanas, melhor qualidade do ar: árvores nas cidades podem remover partículas de poluição na vizinhança imediata. E quando plantadas entre uma fonte de poluição e a construção de um apartamento, escola ou hospital, as árvores podem ajudar a proteger a saúde das pessoas.

Para aqueles que buscam maneiras de encaminhar os desafios da qualidade e calor do ar, a arborização urbana é a única solução que resolve os dois problemas simultaneamente. Além disso, as árvores fornecem benefícios como habitat da vida selvagem, controle de inundações, redução dos níveis de carbono e locais para lazer, que podem ter valor significativo para a cidade. Apesar de a arborização urbana sozinha não resolver os desafios do calor e da poluição, é uma solução que pode ser posta em prática hoje e é comparável em custo e eficácia em soluções como limitar o tráfego de automóvel, pintar telhados de branco ou instalar purificadores em chaminés.

No lugar certo, árvores podem ajudar a deixar nosso ar mais saudável e nossas cidades mais verdes e habitáveis.

Visite nature.org/healthyair para explorar o mapa interativo.

Fonte –  TheCityFix / TheCityFixBrasil de 23 de novembro de 2016

sosma divulga qualidade da água em 184 rios, córregos e lagos

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A Fundação SOS Mata Atlântica apresenta neste Dia Mundial da Água um panorama sobre a qualidade da água de 240 pontos de coleta distribuídos em 184 rios, córregos e lagos de bacias hidrográficas do bioma. Apenas 2,5% dos locais avaliados possuem qualidade boa, enquanto 70% estão em situação regular e 27,5% com qualidade ruim ou péssima. Isso significa que 66 pontos monitorados estão impróprios para o abastecimento humano, lazer, pesca, produção de alimentos, além de não terem condições de abrigar vida aquática. Nenhum dos pontos analisados foi avaliado como ótimo.

O levantamento foi realizado em 73 municípios de 11 estados da Mata Atlântica, além do Distrito Federal, entre março de 2016 e fevereiro de 2017. Os dados foram obtidos por meio de coletas e análises mensais de água realizadas por 194 grupos de voluntários do programa “Observando os Rios”, com patrocínio da Ypê.

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“A principal causa da poluição dos rios monitorados é o despejo de esgoto doméstico junto a outras fontes difusas de contaminação, que incluem a gestão inadequada dos resíduos sólidos, o uso de defensivos e insumos agrícolas, o desmatamento e o uso desordenado do solo”, afirma Malu Ribeiro, especialista em Recursos Hídricos da Fundação SOS Mata Atlântica.

De acordo com ela, a qualidade regular em 70% dos pontos é um grave alerta. Além, disso, a indisponibilidade de água decorrente dos maus usos dos recursos hídricos é intensificada pela falta de atualização da legislação ambiental.

“É fundamental aperfeiçoar a legislação que trata do enquadramento dos rios, de forma a excluir os de Classe 4 da norma nacional. Essa classe, que na prática permite a existência de rios mortos por ser extremamente permissiva em relação a poluentes, mantém muitos em condição de qualidade péssima ou ruim, indisponíveis para usos”, acrescenta Malu.

Comparativo 2016-2017

O estudo comparou os resultados do monitoramento de 152 pontos fixos de coletas, distribuídos por cinco estados – Alagoas, Paraíba, Pernambuco, Rio de Janeiro e São Paulo –, além do Distrito Federal. Foram consideradas as médias dos indicadores mensais do Ciclo 2016 (março de 2015 a fevereiro de 2016) e do Ciclo 2017 (março de 2016 a fevereiro de 2017).

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Os indicadores apontam uma diminuição de pontos com qualidade ruim, passando de 54 (35,5%) para 48 (31,6%), mas um aumento de locais com água péssima, de 1 (0,7%) para 3 (2%). O estudo também destaca um aumento na qualidade regular, passando de 94 (61,8%) para 97 (63,8%), e nos pontos com qualidade boa, de 3 (2%) para 4 (2,6%).

“Essa leve tendência de melhora está associada a fatores climáticos, já que o aumento no volume e na vazão dos rios na região Sudeste no último ano contribuiu para a diluição de poluentes. Entretanto, tivemos a perda de qualidade em 15 pontos, sendo 13 localizados em capitais, resultado dos baixos índices de coleta e tratamento de esgoto”, explicou Malu Ribeiro.

Metodologia

Os dados das análises desse estudo seguem a metodologia de monitoramento por percepção da qualidade da água, especialmente elaborada para a Fundação SOS Mata e que tem como base o Índice de Qualidade da Água (IQA).

Para a medição dos parâmetros definidos no IQA, a SOS Mata Atlântica desenvolveu um kit de análise que é utilizado em campo por voluntários do projeto “Observando os Rios”. Os indicadores apurados são reunidos em um sistema online de dados georreferenciados, que totaliza e disponibiliza o resultado obtido em cada ponto de coleta pelos grupos de monitoramento em tempo real.

São avaliados 16 parâmetros do IQA: temperatura da água, temperatura do ambiente, turbidez, espumas, lixo flutuante, odor, material sedimentável, peixes, larvas e vermes vermelhos, larvas e vermes brancos, coliformes totais, oxigênio dissolvido (OD), demanda bioquímica de oxigênio (DBO), potencial hidrogeniônico (pH), fosfato (PO4) e nitrato (NO3). A totalização dos indicadores medidos resulta na classificação da qualidade da água, em uma escala que varia entre: ótima, boa, regular, ruim e péssima.

Sobre o Observando os Rios

O programa surgiu em 1991, com uma campanha que reuniu 1,2 milhão de assinaturas em prol da recuperação do Rio Tietê e originou o primeiro projeto de monitoramento da qualidade da água por voluntários, o “Observando o Tietê”. Para agregar outras bacias hidrográficas, a iniciativa foi ampliada e passou a se chamar “Observando os Rios”. Em nova fase, com o patrocínio da Ypê, o projeto agora tem como objetivo formar 10 grupos de monitoramento da qualidade da água em cada um dos 17 estados da Mata Atlântica. Atualmente, são 212 grupos de monitoramento que analisam a qualidade da água em 257 pontos, 197 rios, em 80 municípios dos estados de SP, RJ, ES, BA, MG, PB, PE, AL, CE, SC, PR, RN e DF envolvendo cerca de 3,4 mil pessoas.

Fonte – SOSMA 22 de março de 2017

Atlas Agropecuário revela a malha fundiária do Brasil

Mapa da malha fundiária do Brasil

Uma colaboração entre o Imaflora, o GeoLab da Esalq / USP (Projeto Fapesp 2016/17680-2) e a KTH (Suécia) resultou na criação de uma base de dados georreferenciada da malha fundiária de todo o Brasil. Englobando aproximadamente 6,7 milhões de polígonos, a malha recobre todo o território nacional e, pela primeira vez, oferece aberta e publicamente para a sociedade uma visão do conjunto das terras públicas e dos imóveis privados do país.

A malha fundiária utiliza 20 categorias de bases de dados oficiais incluindo, por exemplo, as áreas protegidas nacionais e estaduais, as bases de imóveis e de assentamentos do INCRA e os polígonos de imóveis do CAR (Cadastro Ambiental Rural), que juntas recobrem 80% do país. Para as áreas sem recobrimento foi realizada uma modelagem complementar que (i) considera essa porção do território como sendo terra privada, (ii) estima os limites dos imóveis rurais a partir dos dados do Censo Agropecuário do IBGE de 2006, (iii) reproduzindo a distribuição de tamanho dos imóveis rurais censitados em cada município ou setor censitário.  A cobertura desta área (20% do território) com uma malha fundiária probabilística é essencial para cobrir territórios desconhecidos e desconsiderados nos levantamentos censitários existentes.

Assim, a malha fundiária disponibilizada apresenta o recobrimento de todo o território nacional, sendo a melhor aproximação a respeito do tamanho, da localização e da distribuição das terras públicas e dos imóveis privados brasileiros e pode ser visualizada e baixada livremente no site do projeto Atlas da Agropecuária Brasileira.

A compilação revela algumas surpresas, como a abrangência das pequenas propriedades (menores que 4 módulos ficais), onde está presente a agricultura familiar. Quando comparada ao Censo Agropecuário de 2006, que ainda é a principal referência nos estudos atuais sobre a agropecuária nacional, encontramos 1 milhão de imóveis a mais nesta categoria. Os números obtidos se aproximam dos registros de ITR disponíveis na base do CAFIR, indicando que, ou por sub amostragem ou pela criação de novos imóveis a partir de 2006, a agricultura familiar é mais importante em número de imóveis do que estima o Censo.

Também revela que as grandes propriedades ocupam área similar à soma de todas as médias e pequenas propriedades (descontando-se as dos assentamentos) e também representam um valor próximo da soma das áreas protegidas do país, entre terras indígenas e áreas de conservação. Também ficam evidentes as assimetrias de distribuição de terras entre os Estados. Enquanto o Rio Grande do Sul tem 2% do território com áreas públicas protegidas, 1% dedicada a assentamentos e 89% ocupada por propriedades privadas; o Amazonas possui 52% da área protegida, 4% em assentamentos, 35% da terra pública ainda não destinada e 6% com terra privada.

Além disso, a malha aponta a existência de 86 milhões de hectares de terras públicas não destinadas, entre terras não tituladas do Programa Terra Legal e Glebas Públicas Federais e Estaduais. A área corresponde à soma dos Estados de São Paulo e Minas Gerais. Desse total, 98% estão localizados no Bioma Amazônia, principalmente nos estados do Amazonas (62%) e do Pará (15%), justamente em regiões desses estados caracterizadas pelo desmatamento e onde a fronteira agropecuária tem avançado nos últimos anos.

Da forma como foi desenvolvida, à medida que forem surgindo novas bases ou as bases existentes forem atualizadas, é possível gerar atualizações imediatas. Com isto, fica à disposição uma malha fundiária abrangente pela cobertura de todo o território nacional, inclusiva por considerar tanto o domínio público como o privado e que trata automaticamente diversos problemas que inevitavelmente surgem da compilação de grande número de fontes de dados. Outro aspecto importante é o fato desta malha ser disponível e os seus critérios de sobreposição serem abertos, poderem ser discutidos publicamente e isto gerar novas versões aprimoradas da própria malha.

Este é mais um produto do Atlas da Agropecuária Brasileira, um projeto que vem sendo desenvolvido por dois anos pelo Imaflora e pelo GeoLab da Esalq / USP. De acordo com Luís Fernando Guedes Pinto (do Imaflora), “além dos estudos produzidos, em uma página da internet o Atlas organizará e disponibilizará informações secundárias e originais sobre a geografia da agropecuária nacional. Nos próximos meses disponibilizará novas informações como o uso da terra, a aptidão agrícola, a distribuição, produção e produtividade das culturas em séries históricas, além de outras informações ambientais e sociais relevantes para o desenvolvimento rural e a conservação dos recursos naturais, como o desmatamento e o cumprimento do Código Florestal”.

O professor Gerd Sparovek do GeoLab acrescenta que “o Atlas fornecerá informações e análises para uma melhor compreensão da agropecuária brasileira e poderá apoiar decisões e a formulação de políticas públicas e privadas para o setor”.

Resumo da distribuição da terra estimada no Brasil

Categoria fundiária Área (milhões ha) Área (%)
Áreas protegidas 232 27%
Terras Públicas Não Destinadas 86 10%
Terras Privadas 453 53%
Pequenas propriedades (<4MF)* 114 13%
Médias propriedades (entre 4 e 15 MF) 104 12%
Grandes propriedades (>15MF) 234 28%
Assentamentos 40 5%
Outros 38 5%
Brasil 850 100%

*Fora de assentamentos

Resumo da distribuição da terra estimada no Brasil por estado

UF Área protegida Não destinada Terra privada Assentamento Outros Área do Estado (Mha)
AC 46% 19% 25% 10% 1% 17
AL 6% 0% 84% 3% 6% 3
AM 52% 35% 6% 4% 4% 154
AP 68% 13% 7% 9% 3% 13
BA 7% 0% 87% 3% 4% 56
CE 5% 0% 83% 6% 6% 15
DF 61% 8% 13% 4% 14% 1
ES 4% 0% 91% 1% 5% 4
GO 4% 0% 90% 2% 4% 33
MA 20% 6% 59% 10% 5% 33
MG 4% 0% 89% 1% 6% 59
MS 4% 0% 92% 1% 3% 36
MT 19% 5% 70% 5% 2% 89
PA 51% 10% 23% 9% 6% 127
PB 1% 0% 89% 4% 6% 6
PE 4% 0% 85% 4% 7% 10
PI 10% 1% 82% 5% 3% 25
PR 5% 0% 85% 2% 8% 20
RJ 14% 0% 73% 1% 12% 4
RN 1% 0% 82% 9% 7% 5
RO 45% 11% 34% 8% 2% 25
RR 62% 17% 14% 5% 2% 22
RS 2% 0% 89% 1% 7% 27
SC 4% 0% 86% 1% 9% 10
SE 1% 0% 83% 7% 8% 2
SP 8% 0% 81% 1% 10% 25
TO 15% 5% 73% 4% 4% 29
BR 27% 10% 53% 5% 5% 850

Acesse aqui o Atlas da Agropecuária Brasileira

Confira as notícias sobre o Atlas na Folha de S. Paulo e CBN.

Fonte – Imaflora de 20 de março de 2017

Melhor uso de recursos naturais renderia US$2 tri para economia

Mineração de cascalho; recursos naturaisMineração de cascalho (zozzzzo/Thinkstock)

Se as tendências atuais continuarem, o uso anual de recursos per capita crescerá mais de 70% em meados do século, alerta relatório da ONU

Escassez de água, poluição do ar e do solo, desmatamento, perda de biodiversidade, desertificação, bilhões de toneladas de resíduos descartados todos os anos…A lista crescente de problemas ambientais tem um denominador comum: o nosso padrão insustentável de produção e consumo.

É como se as gerações do presente estivessem escrevendo a fórmula para o caos na Terra daqui a algumas décadas. Não precisa ser assim. Tudo depende de como extraímos, usamos e descartamos os recursos naturais que o Planeta generoso nos oferta.

Um uso mais inteligente e eficiente, além de reduzir a pressão ambiental, pode trazer benefícios econômicos anuais da ordem de US$ 2 trilhões, superior ao PIB da Itália, revelam dados de um novo relatório produzido pelo Painel de Recursos Internacional, um grupo de especialistas em meio ambiente da ONU.

Segundo o estudo, com esse ganho econômico, o mundo poderia compensar os custos de implementação de medidas de mitigação e adaptação às mudanças climáticas.

Uma conta que não para de crescer

Ao longo dos últimos 50 anos, os seres humanos vêm alterando os ecossistemas em um ritmo mais acelerado e intenso do que em qualquer outro período da história humana.

Tendo em vista que a população global deverá crescer 28% até meados do século, a conta ecológica vai aumentar sobremaneira — estimativas apontam que 71% mais recursos per capita serão necessário até 2050.

Sem ações urgentes para aumentar a eficiência, a utilização global de metais, biomassa, minerais, areia e outros materiais aumentará de 85 para 186 bilhões de toneladas por ano até 2050, o que soma ainda mais para a dívida ecológica.

O relatório “Eficiência de Recursos: Implicações Potenciais e Econômicas”, lançado nesta semana na reunião do G20 em Berlim destaca que a utilização mais sustentável dos materiais e da energia não só cobriria o custos para manter o aquecimento da Terra abaixo de 2 graus Celsius, evitando os piores efeitos das mudanças climáticas, mas poderia contribuir para o crescimento econômico e a criação de emprego.

Por exemplo, entre 2005 e 2010, um programa britânico reciclou e reutilizou sete milhões de toneladas de lixo destinados ao aterro sanitário. Esse movimento evitou a emissão de seis milhões de toneladas de dióxido de carbono e poupou perto de 10 milhões de toneladas de materiais virgens e mais de 10 milhões de toneladas de água.

Também aumentou as vendas dos negócios em US$ 217 milhões, reduziu os custos empresariais em US$ 192 milhões e criou 8.700 postos de trabalho.

“Este é um ambiente ganha-ganha”, disse Erik Solheim, Chefe de Ambiente da ONU. “Usando melhor os recursos do planeta, vamos injetar mais dinheiro na economia para criar empregos e melhorar os meios de subsistência. E, ao mesmo tempo, criaremos os fundos necessários para financiar uma ação climática ambiciosa”.

Além de benefícios econômicos, a análise também mostra que a eficiência reduziria o uso de recursos globais em cerca de 28% em 2050 em comparação com as tendências atuais.

O relatório constatou, ainda, que os ganhos econômicos da eficiência dos recursos serão distribuídos de forma desigual. A extração mais lenta de recursos poderia reduzir as receitas e afetar os empregos em alguns setores, como mineração e pedreiras.

Mas mesmo com essas considerações, os países ganharão mais com a mudança de políticas para facilitar a transição para práticas mais eficientes do que por continuar a apoiar atividades predatórias.

Fonte – Vanessa Barbosa, Exame de 17 de março de 2017

Cada árvore importa: cidades passam a priorizar a arborização urbana

Joinville. (Foto: Mariana Gil/WRI Brasil Cidades Sustentáveis)Joinville. (Foto: Mariana Gil/WRI Brasil Cidades Sustentáveis)

Além de contar pessoas, automóveis e quilômetros de infraestrutura, as cidades hoje começam a contar árvores. As florestas urbanas, se inseridas no planejamento dos municípios, significam mais uma ferramenta de combate às mudanças climáticas. Além disso, a artificialidade e a falta de conexão com a natureza que muitas cidades apresentam estão relacionadas diretamente a diversos problemas de saúde da população.

As árvores nas cidades sempre foram queridas pela população por embelezar os espaços públicos. No entanto, elas contribuem de maneira muito mais ampla, com impacto na sustentabilidade econômica, social e ambiental das cidades. Através de pesquisas imobiliárias, é possível perceber que as pessoas são atraídas por ruas ou bairros mais verdes, onde elas preferem viver e trabalhar. Além dos atributos visuais, um espaço arborizado pode diminuir o estresse ao criar ambientes mais calmos e propícios ao exercício físico e o transporte ativo.

Em relação ao clima, as árvores auxiliam no conforto térmico associado à umidade do ar e, claro, à sombra – podem contribuir com a economia de até 10% na energia gasta para regular a temperatura de um prédio -, ajudam na melhoria da qualidade do ar e na redução da poluição. Elas também absorvem água, melhorando, assim, a infiltração da água no solo, diminuindo o risco de enchentes e erosões. É por todas essas razões que hoje priorizar a arborização urbana é também priorizar a qualidade de vida da população.

Com a colaboração do Fórum Econômico Mundial, um laboratório do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) desenvolveu o Green View Index (GVI) ou Treepedia, uma métrica que avalia e compara as copas das árvores das cidades. O GVI foi calculado com o auxílio do Google Street View, que mediu o quão densa é a cobertura das copas das árvores ao analisar imagens das ruas. Até agora são 12 cidades ao redor do mundo já estudadas: Boston, Geneva, Londres, Los Angeles, Paris, Nova York, Sacramento, Seattle, Tel-Aviv, Toronto, Turin e Vancouver.

Carlo Ratti, diretor do laboratório Senseable City, do MIT, afirma que, ainda que as cidades sempre precisarão de grandes projetos de infraestrutura, pequenas mudanças como plantar árvores também podem causar um grande impacto nas áreas urbanas: “À medida que muitas cidades experienciam altas temperaturas, maior frequência de tempestades e contínua poluição do ar, o bem-estar das nossas árvores urbanas nunca foi tão importante”. O Treepedia também tem o objetivo de permitir que a população conheça a localização e tamanho das árvores de suas comunidades e possa ajudar a classificar, rastrear e ainda advogar por mais delas.

Ainda que Vancouver seja a cidade do Treepedia com maior percentual de cobertura (25.9%), a cidade de Nova York, com 13.5%, ganha destaque. Há mais de um ano a metrópole desenvolve um programa que visa mapear cada árvore, uma por uma. O Departamento de Parques da cidade, com a ajuda de 2,3 mil voluntários, registrou mais de 685 mil árvores de rua de cinco bairros, com estatísticas sobre as espécies, saúde, largura do tronco, latitude e longitude e as coordenadas GPS de cada uma. O Tree Map, uma mapa interativo, possibilita que o usuário descubra todas as informações de cada árvore localizada nas ruas da cidade.

Fazer da arborização um plano diretor

Curitiba. (Foto: Mariana Gil/WRI Brasil Cidades Sustentáveis)Curitiba. (Foto: Mariana Gil/WRI Brasil Cidades Sustentáveis)

As cidades brasileiras também acompanham a tendência mundial de priorizar o cuidado com as florestas urbanas. Curitiba, que já foi considerada a cidade mais verde da América Latina, devido a seus tantos espaços arborizados e sua abordagem de cuidados ao meio ambiente, segue, desde 2013, o Plano de Arborização Pública. Ele consiste em ações preventivas e de manutenção das milhares de árvores localizadas em vias públicas da cidade.

Desde lá, 139 mil árvores foram plantadas para atender ao plano, que exige um planejamento com base em critérios técnicos e científicos. As mudas plantadas em vias públicas são selecionadas de acordo com o porte, arquitetura de copa, resistência a pragas e doenças, adaptabilidade ao clima, sistema de raízes e pela presença de flores ou frutos. Além disso, 80% das árvores são de espécies nativas.

Segundo a prefeitura, o departamento de Produção Vegetal realiza o monitoramento permanente das árvores plantadas em espaços públicos da cidade. Por ano, são recebidos 15 mil pedidos de corte ou poda de árvores em vias públicas e, em média, 25% são liberados. Cada árvore suprimida é substituída por duas em locais próprios.

Porto Alegre oficializou seu Plano Diretor de Arborização em 2006 para implantação da política de plantio, preservação, manejo e expansão da arborização na cidade. O plano tem o objetivo de orientar e estabelecer parâmetros como, por exemplo, ter, no mínimo, 40% de área vegetada nos passeios públicos. De acordo com o último Censo do IBGE, a capital gaúcha está entre as 15 cidades mais arborizadas do país, com cerca de um milhão de árvores.

Há quase 1 ano, milhares delas foram danificadas por um temporal que transformou a paisagem de diversos pontos de Porto Alegre ao derrubar centenas de árvores. Com ventos que atingiram até 120 km/h, o fenômeno mostrou à cidade a importância da preservação e do resguardo dos espaços verdes. Também deixou claro o papel fundamental que as árvores têm em relação à resiliência climática no perímetro urbano. Locais com alta concentração de árvores, como o Parque da Redenção e o Parque Marinha do Brasil, serviram como barreiras contra a força dos ventos, evitando que os estragos fossem maiores.

Porto Alegre já tem lançada a sua Primeira Estratégia de Resiliência, documento resultado de um trabalho que teve início quando a cidade foi selecionada pela Fundação Rockefeller para participar do Desafio 100 Cidades Resilientes. A estratégia reúne recomendações e ações para preparar a capital gaúcha para enfrentar situações de risco e adversidades naturais ou causadas pelo homem.

Um plano em desenvolvimento

(Foto: Mariana Gil/WRI Brasil Cidades Sustentáveis)(Foto: Mariana Gil/WRI Brasil Cidades Sustentáveis)

Joinville está em processo de elaboração do seu plano de arborização. A cidade começou esse trabalho já na década passada, porém o processo estava parado. As preocupações climáticas e o advento do Plano de Mobilidade Urbana (PlanMOB) da cidade, que estimulou esforços para promover o transporte a pé e de bicicleta, levaram o município a reativar os estudos. Segundo Luiz Fernando Hagemann, arquiteto e urbanista membro da equipe de elaboração do plano, a expectativa é que o Plano Diretor de Arborização seja decretado ainda no primeiro semestre deste ano. O processo de construção da ferramenta foi constituído de diversas etapas:

  • Análise das recomendações da ONU e de pesquisas feitas na cidade;
  • Verificação das diretrizes do PlanMOB e do Plano Diretor de Transportes Ativos (PDTA);
  • Pesquisa científica e também consultas de referência de planos de outras cidades. Curitiba, Maringá (OI?) e Porto Alegre foram fortes parâmetros, segundo Luiz. Belém, Fortaleza, Recife, Erechim e Goiânia também foram consultadas;
  • Atualização de diagnósticos realizados em 2005. Um estudo preliminar identificou uma redução de aproximadamente 30% no número de árvores na área central da cidade;
  • Reuniões com a Secretaria de Meio Ambiente e com o Conselho de Meio Ambiente.

O trabalho está atualmente em processo de revisão do texto e construção dos mapas. “Entre as ações iniciais, será forçada a qualificação de plantio de vegetação nas centralidades dos bairros estabelecidas pelo PDTA. Haverá previsão de programas de plantio e produção conjunta com agricultores. Também será dado um maior rigor nas multas”, explicou Luiz.

Fonte – 

Adotar o princípio de precaução é determinante para preservar o Pantanal

lgpastana

Apesar de o cultivo de soja não ter se expandido pelo Pantanal no mesmo ritmo em que esse tipo de cultura se desenvolveu em outros ecossistemas, nos dois biomas que contornam as áreas alagadas do Pantanal, o Cerrado e a Amazônia, crescem os cultivos de soja e o uso de fertilizantes, diz o geólogo Pierre Girard à IHU On-Line. Segundo ele, embora a plantação de soja não seja “um sucesso” nas áreas alagadas por conta da dinâmica ecológica da região, ainda assim há interesse pelo plantio dessa cultura em virtude da “terra plana” e da “rentabilidade da soja ser bastante grande”.

Na entrevista a seguir, concedida pessoalmente à IHU On-Line, Girard explica que é possível drenar as terras pantaneiras para viabilizar o cultivo de grãos. Contudo, antes de adotar essa prática, pontua, a questão “é saber por quanto tempo a soja será rentável, porque a história nos mostra que o Brasil já passou por vários ciclos, e agora estamos no ciclo da soja, mas ninguém sabe se esse será um ciclo perene, se irá se manter por 25 anos, ou se de repente, por uma razão qualquer, os chineses decidirem não mais comer carne e, com isso, não precisarão mais da nossa soja para alimentar suas galinhas e porcos”.

O pesquisador também comenta e critica o desenvolvimento e a construção das Pequenas Centrais Hidrelétricas – PCHs no Pantanal e adverte que o “princípio de precaução, que é uma postura ética frente ao impacto sobre o meio ambiente, deve ser levado em conta. Se nada for feito, essas pequenas centrais hidrelétricas vão gerar muitos impactos”.

Na noite de ontem, 20-03-2017, ele proferiu a conferência Pantanal brasileiro: características, biodiversidade e delimitações para a sua proteção, dentro da programação do evento Os biomas brasileiros e a teia da vida, promovido pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU. Veja a programação.

IHU On-Line – Ao comentar os fatores que ameaçam o Pantanal hoje, o senhor mencionou o aumento do desmatamento e o uso de pesticidas e fertilizantes. A que se deve isso? A agricultura, especialmente a soja, tem sido introduzida no Pantanal?

Pierre Girard – Na planície pantaneira não existe ainda muita plantação de soja nem agricultura mecanizada, porque a inundação anual não facilita esse tipo de agricultura, embora esse tipo de plantação esteja se estabelecendo aos poucos na borda do Pantanal. A pecuária extensiva foi se desenvolvendo ali justamente porque é possível remover o gado quando há inundações.

Para estabelecer a agricultura no Pantanal, é preciso desenvolver um trabalho de drenagem. Algumas pessoas começaram a fazer isso na região de Cáceres (MT), em uma área relativamente grande, de nove mil hectares, de uma forma não muito bem regularizada, e com todas as dificuldades técnicas que o desenvolvimento dessa atividade implica. Então, para produzir soja na região, é preciso fazer investimentos e uma manutenção constante no sistema de drenagem.

Hoje em dia pensamos que os agricultores estão lucrando com a agricultura, mas quem está lucrando mais são as pessoas que fornecem as máquinas e os insumos agrícolas. Então, a plantação de soja ainda não é, nem foi um sucesso nessa região, apesar de o Mato Grosso ser um estado que dá apoio aos agricultores.

As universidades acompanham a situação da região, mas não é missão da universidade fazer monitoramento da qualidade da água do pantanal

Mas isso não quer dizer que não existam pesticidas no Pantanal. Na verdade nós não sabemos muito sobre isso, porque não há programas de monitoramento, mas sabemos que nas regiões em volta do Pantanal tem bastante soja. No Cerrado e em toda a região do planalto que está junto ao Pantanal, tem muita soja, milho, e para manter essas plantações são utilizados muitos fertilizantes, como Roundup. Esses pesticidas já foram encontrados em sedimentos, ao serem analisados por programas de pesquisa. O que sabemos é que quanto mais perto esses pesticidas estão do Pantanal, mais provável é que eles passem a estar no próprio Pantanal. Agora, para termos mais informações, seria preciso ter programas de monitoramento, porque o Pantanal é um patrimônio nacional. Essa questão teria que ser pensada pelo poder público, porque as universidades acompanham a situação da região, mas não é missão da universidade fazer monitoramento da qualidade da água do Pantanal.

IHU On-Line – Apesar das dificuldades em desenvolver a agricultura no Pantanal, o senhor percebe que há um interesse dos agricultores em desenvolver o cultivo de grãos, por exemplo, na região? Por que há esse interesse?

Pierre Girard – Porque tem terra plana e extensa e porque a rentabilidade da soja é bastante grande, ou seja, trata-se de uma operação comercial. Então, uma vez que se faça o processo de drenagem da terra, um investimento inicial e a manutenção constante, os agricultores veem uma rentabilidade no cultivo de soja.

A questão toda é saber por quanto tempo a soja será rentável, porque a história nos mostra que o Brasil já passou por vários ciclos e agora estamos no ciclo da soja, mas ninguém sabe se esse será um ciclo perene, se irá se manter por 25 anos, ou se de repente, por uma razão qualquer, os chineses decidirem não mais comer carne e, com isso, não precisarão mais da nossa soja para alimentar suas galinhas e porcos. Essas são coisas que podem acontecer.

IHU On-Line – A expansão de soja para o Cerrado e para a Amazônia impacta o Pantanal de algum modo?

Pierre Girard – Impacta de forma indireta. No Cerrado, a plantação de soja ocorre na bacia do Alto Paraguai; ou seja, na mesma região em que nascem os afluentes dos rios que formam a planície alagada do Pantanal, há cultivo intensivo de soja e também de pasto. Nos anos 80 houve formação de pasto na região do rio Taquari, o que causou muita erosão e transporte de sedimentos e resultou no assoreamento da planície do rio.

Na Amazônia a situação é um pouco diferente, porque a chuva que ocorre tanto no Rio Grande do Sul como no Pantanal, depende da Amazônia. Então, à medida que se desmata a Amazônia para se plantar pasto ou soja, as chuvas diminuem, isso porque essas novas plantações não têm a mesma capacidade de gerar chuva que a floresta tem. Então, o Pantanal, para existir, depende do ciclo das águas, ou seja, tem que chover bem durante uma parte do ano para que o Pantanal exista. Em Cuiabá, por exemplo, às vezes ficamos 120 dias sem chuva; 90 dias é bastante comum. Se a chuva minguar durante o período das cheias, não tem inundação, e se não tem inundação, não tem mais Pantanal. É a inundação anual que faz com que o Pantanal seja como ele é. Desde a década de 70 o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – INPE já mostrou que as chuvas no Sul, no Centro-Oeste e no Sudeste dependem da Amazônia.

À medida que enviamos a fronteira da floresta mais para o Norte, a tendência é que tenhamos efeitos ao Sul

O arco do desmatamento da Amazônia vem pelo Norte do Mato Grosso, pelo Sul do Pará, e por Rondônia, que já foi conhecida como o estado da floresta, mas é hoje o estado do pasto. Então, o ritmo de desmatamento é bem grande, e, à medida que enviamos a fronteira da floresta mais para o Norte, a tendência é que tenhamos efeitos ao Sul: é como se estivéssemos colocando a floresta mais longe de nós e a consequência disso é que estamos perdendo umidade. Se você vai a uma floresta nova, de aproximadamente 30 anos, em Mato Grosso, e conversa com as pessoas, elas afirmam que há 20 anos chovia mais. É claro que ao redor das cidades, onde há mais florestas, chove mais, mas dentro da cidade, não.

IHU On-Line – Há incentivos fiscais por parte dos estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul para que esses investimentos agrícolas aconteçam na região?

Pierre Girard – Que eu saiba não há incentivos diretos na forma de um programa, como ocorreu nos anos 70 para abrir o Cerrado, via o Proálcool, por exemplo. Apesar disso, as pessoas decidem investir na agricultura por conta da rentabilidade, porque veem isso como uma operação comercial. Como todo mundo sabe que a rentabilidade da soja é grande, é fácil conseguir dinheiro para iniciar essa atividade e na sequência estabelecer uma fazenda e começar a produção. Muitas pessoas que vivem em cidades como Lucas de Rio Verde (MT) fizeram isso: migraram quando o Cerrado já estava aberto para produção agrícola, mas ainda tinha terra, e investiram nesse tipo de atividade. Hoje em dia a situação é mais difícil, porque a terra é muito mais cara nessas regiões. Na fronteira com a Amazônia, a terra não tem tanto valor, mas há um movimento de expansão que é ligado ao capital.

IHU On-Line – Um tema que tem sido denunciado no Brasil é a compra de terras brasileiras por grupos estrangeiros. Isso tem ocorrido no Pantanal?

Pierre Girard – Isso acontece na borda do Pantanal e no Cerrado, com certeza. No Pantanal existem muitas pessoas que têm fazendas imensas, nas quais há recursos de ativos de estrangeiros. ONGs internacionais também compraram terras no Pantanal. A ideia dessas ONGs é promover a conservação, mas elas podem receber ativos de estrangeiros, de fundos internacionais etc. Eu acredito que não há muito interesse por terras para desenvolver a pecuária como uma operação comercial, porque o gado do Pantanal não é muito rentável. Como a produção agrícola também é baixa, é menos provável que se compre terra para investir nessa finalidade. Existem algumas minas no Pantanal sul, e uma parte delas deve ter relações com ativos estrangeiros, e o mesmo deve ocorrer com a terra onde estão essas minas.

É provável que se fizéssemos um levantamento fundiário, conseguiríamos saber que percentual de terras já foi adquirido por empresas estrangeiras, mas não é fácil de mapeá-las. Por exemplo, um amigo meu está fazendo um levantamento na região e só conseguiu ter acesso de quem são os donos de 75% das terras do Pantanal. Ou seja, não é fácil saber de quem é a terra. Isso se deve, em parte, porque estamos falando de um território de 140 mil quilômetros quadrados, ou seja, de uma extensão que é mais ou menos do tamanho da Inglaterra. Além disso, as ocupações dessas terras são antigas e a propriedade da terra se perde no tempo.

As terras em geral no Pantanal servem para pecuária e para o turismo: fazendas imensas que trabalham com pecuária também estão desenvolvendo o turismo. A mineração ocupa pouco espaço no Pantanal. Então, acredito que os estrangeiros estão comprando terra ou via ONGs, para preservá-las, ou para investir no turismo, porque há uma possibilidade de que esse tipo de atividade seja interessante para o Pantanal.

IHU On-Line – Outra fonte de ameaça ao Pantanal são as barragens e as Pequenas Centrais Hidrelétricas – PCHs. Quantas existem ao longo do bioma e quais suas implicações para o sistema fluvial e o ciclo hidrológico?

Pierre Girard – Esse é um tema que estudo mais diretamente. Quando falamos de pequenas centrais hidrelétricas, todo mundo pensa que essas PCHs são de fato pequenas. No entanto, temos que entender que a dimensão de uma PCH é de até 30 mil megawatts em termos de produção de energia, e elas têm um plano de água de 13 quilômetros quadrados; ou seja, inunda-se uma terra relativamente grande para desenvolver as PCHs, o que indica que elas não são tão pequenas assim.

Como hoje quase todos os potenciais hidrológicos já foram aproveitados, especialmente nas regiões em que havia grandes quedas d’água, para viabilizar as PCHs é preciso construir um muro grande no rio para a água cair do alto, ou seja, são construídos muros de 20 metros de altura, o que nos indica que não são muros tão pequenos. Digo isso para desfazer essa ideia de que as PCHs são pequenas.

Hoje em dia existem quatro ou cinco grandes hidrelétricas no Pantanal, que não se encaixam nesse modelo de PCHs. No total existem 41 PCHs em funcionamento na bacia do Alto Paraguai, que é a região que abastece o Pantanal, ou seja, onde os rios formadores começam. Além dessas, outras 96 PCHs foram planejadas ou estão em construção.

IHU On-Line – Essa região comporta todas essas PCHs?

Pierre Girard – Se a Agência Nacional de Energia Elétrica – ANEEL designou a construção delas, deve ter algum lugar para construí-las. Ainda não se sabe se todas de fato serão construídas, porque tudo isso depende de operações comerciais, mas o fato é que todas as áreas com potenciais de gerar energia já estão demarcadas. A questão é que são muitas PCHs para pouca coisa: cada uma das 41 PCHs produz aproximadamente 1.100 megawatts de energia, e essas 96 que serão construídas vão produzir menos do que isso. Estima-se que elas produzirão 900 megawatts de energia, ou seja, cada uma vai ter uma produção de energia muito pequena.

O problema é que não conhecemos os impactos cumulativos de todas essas centrais. Uma pequena central hidrelétrica não precisa obrigatoriamente realizar um estudo de impacto ambiental, segundo determina a Secretaria de Meio Ambiente de Mato Grosso e a Comissão Interinstitucional de Educação AmbientalImasul de Mato Grosso do Sul. Mesmo assim, se o estudo de impacto ambiental for feito, ele será local, e mesmo que fossem apontados impactos, não poderíamos sugerir que uma determinada PCH fosse instalada em outro local, porque o que determina a região em que a PCH será construída, é a área potencial para gerar energia. Nesse sentido, a ANEEL já determinou os locais em que as PCHs deverão ser construídas.

De todo modo, os impactos cumulativos não são vistos no estudo de impacto ambiental e ainda não temos nenhuma estratégia implementada para verificar esses efeitos. Apesar disso, podemos observar que cada uma dessas PCHs gera um impacto sobre a rota dos peixes, que muitas vezes são comercializados: na bacia do Paraná quase não existem mais peixes para serem pescados, o que indica que na parte do Alto Paraguai é provável que aconteça o mesmo. Cada uma dessas barragens gera um impacto sobre a hidrologia dos rios. Será que isso será suficiente para causar algum impacto no Pantanal de modo geral? Essa é uma questão a ser estudada. Mas com certeza cada uma dessas barragens capta sedimentos e nutrientes que deveriam chegar ao Pantanal, e os efeitos disso são conhecidos no resto do mundo: quando tiramos sedimentos dos rios, eles vão invadir outro lugar. Então, se o Pantanal é uma planície de deposição e começa a ser erodido, isso terá impactos. Mas a questão é que não temos estudos para prever isso por enquanto.

De todo modo, se esperarmos que todas as PCHs sejam construídas, será tarde demais para voltar atrás. Então, o princípio de precaução, que é uma postura ética frente ao impacto sobre o meio ambiente, deve ser levado em conta. Se nada for feito, essas pequenas centrais hidrelétricas vão gerar muitos impactos. Quando iniciei minha pesquisa sobre as PCHs, em 2002, existiam nove PCHs; hoje, são mais de 40. Ou seja, trata-se de uma operação lucrativa, porque o Estado facilita o financiamento desse tipo de empreendimento e garante a compra de energia.

Vale a pena o Brasil comprometer a integridade ecológica do Pantanal para ter esse retorno energético tão baixo?

IHU On-Line – E esse tipo de PCH gera algum benefício para a população local?

Pierre Girard – Muito pouco, só durante a construção, porque boa parte da mão de obra já vem junto com a construtora responsável pela obra. Depois que a PCH está pronta, são contratadas três pessoas que serão responsáveis por operar a central hidrelétrica. Portanto, não tem benefício econômico local, porque a ideia é ligar essas PCHs com o Sistema Interligado Nacional.

A maior parte das PCHs está em Mato Grosso, mas não é essa a região que tem maior demanda de energia elétrica, ao contrário, são as regiões sul e sudeste que precisam de mais energia. Além do mais, essas PCHs vão gerar pouca energia, portanto nos períodos de seca não vão auxiliar o Brasil, porque elas são a fio d’água, ou seja, não têm reservatório para armazenar água por longos períodos. Então nos perguntamos se vale a pena o país comprometer a integridade ecológica do Pantanal para ter esse retorno energético tão baixo. Não seria melhor o Brasil investir em energia solar? A geração de energia a partir do bagaço de cana-de-açúcar já produz mais energia do que a que será gerada por essas PCHs.

IHU On-Line – Alguns ambientalistas têm dito que há mais políticas públicas para outros ecossistemas, como a Amazônia, mas faltam políticas públicas para biomas como o Pantanal. Concorda com essa crítica?

Pierre Girard – Concordo, mas existem razões para isso, por exemplo, o espaço midiático da Amazônia é muito maior, assim como o espaço político que a Amazônia ocupa é muito maior em relação ao Pantanal. Se olharmos o tamanho da Amazônia no Brasil e na América do Sul, e o tamanho do Pantanal em território, veremos que há muita diferença: o Pantanal representa 4% do país, enquanto a Amazônia ocupa praticamente 30% do território.

Se perdermos o Pantanal, os impactos serão muito mais locais. Obviamente seria uma tragédia para quem vive lá, mas se perdermos a Amazônia, será uma tragédia para toda a América do Sul. Embora exista muito mais espaço político para a Amazônia, nada impede que se dê a devida atenção para o Pantanal. O Estado brasileiro assumiu um compromisso com o Pantanal há 30 anos, ao considerá-lo patrimônio nacional, mas até hoje não existe uma lei para a região, e o Estado quase perdeu o título de reserva da Biosfera porque não fazia nada pelo bioma. Então, nesse sentido, há um déficit de atenção.

IHU On-Line – As mudanças climáticas já estão impactando o Pantanal?

Pierre Girard – O Pantanal, nessa questão que é ligada às mudanças climáticas, tem uma função interessante: como é uma planície alagada, no Pantanal evapora bastante água, e para evaporar, a água precisa de calor, assim, de certa forma, o Pantanal funciona como um sistema de refrigeração. Mas aí você vai perguntar como o Pantanal funciona como um sistema de refrigeração, se lá faz tanto calor. O ponto é que sem água, o calor seria ainda mais intenso e a seca seria ainda mais dura. Justamente por isso, é fundamental preservar esse regime hidrológico no Pantanal com inundações extensas. O aquecimento global, nos próximos anos, vai aumentar muito as ondas de calor e a tendência é que o mesmo ocorra no Pantanal. Então, dado que o Pantanal é suscetível a mudanças climáticas, temos que preservá-lo, e essa preservação pode ser feita com o envolvimento das populações locais, que serão as mais atingidas.

IHU On-Line – Já é possível perceber essas alterações de temperatura no Pantanal por conta das mudanças climáticas?

Pierre Girard – O que percebemos mais é o aumento da estação de seca e o deslocamento do período de início da temporada de chuvas, que têm começado mais tarde. Essas mudanças se referem às alterações relacionadas à mudança climática. Além disso, os registros de 100 anos atrás mostram que em cidades como Campo Grande e Cuiabá houve um aumento de um grau na temperatura. Se os nossos amigos do INPE estão certos, a temperatura continuará aumentando [risos].

Assista na íntegra a conferência proferida pelo professor Pierre Girard:

Pierre Girard é professor da graduação e da pós-graduação do Instituto de Biociências da Universidade Federal de Mato Grosso – UFMT. É graduado em Geologia pela McGill University, no Canadá, mestre em Geologia Dinâmica, com enfoque em hidrologia, pela Université Pierre et Marie Curie, Paris VI e Écoles des Mines de Paris, e doutor em Hidrologia Isotópica pela Université du Québec à Montréal – UQAM.

Fonte – Patricia Fachin, IHU de 21 de março de 2017

Os humanos não conseguem parar de quebrar recordes de emissão de carbono

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O clima está mudando, em parte pelos humanos atirando gases de efeito estufa na atmosfera. Uma maioria esmagadora dos cientistas climáticos concordam com essa declaração. E eles concordam porque olham para modelos climáticos a longo prazo, para emissões de carbono, executam vários testes e veem que uma coisa leva à outra. Não gosto de escrever artigos sérios sobre mudança climática porque é exasperador. Mas tem coisa que eu preciso noticiar: como de costume, estamos no caminho certo para um ano de quebra de recorde.

O Met Office, agência climática do Reino Unido, prevê que chegaremos a 410 partes por milhão de dióxido de carbono atmosférico pela primeira vez desde que os registros são feitos. A mudança de 2016 para 2017 não é tão alta quanto a de 2015 para 2016 (eba!), mas ainda assim é o nível mais alto de dióxido de carbono atmosférico já registrado. Além disso, 2016 foi o primeiro ano nos registros em que os níveis estiveram acima de 400 ppm durante todo o ano, um patamar no qual provavelmente ficaremos permanentemente.

Estou prestes a explicar a mudança climática. De novo. Se você já está convencido, pule alguns parágrafos. Se não, prepare-se para alguns fatos agonizantes tirados principalmente de sites governamentais e antigos artigos do Gizmodo.

A Terra é um sistema dinâmico e equilibrado com oceanos, florestas, gelo polar e atmosfera, cada um deles desempenhando um papel diferente na manutenção do clima e dos níveis de dióxido de carbono. Normalmente, as plantas, o oceano e o solo sugam o carbono de coisas como os animais e os fogos naturais, via fotossíntese ou dissolvendo-o. Mas nós, humanos, cortamos várias dessas plantas e acrescentamos carbono extra ao queimar combustíveis fósseis para abastecer nossos carros, aquecer nossas casas etc. Isso significa que essas tais “pias” de carbono apenas consomem metade dos gases de efeito estufa, diz o Met Office, e a outra metade vai para a atmosfera, onde cria uma camada isoladoraque mantém o calor preso na Terra. Eu já mencionei que eu odeio escrever sobre mudanças climáticas?

Esse dióxido de carbono excedente e outros gases, como o metano, levam ao aquecimento da Terra — as temperaturas médias globais agora estão cerca de 1,5º C acima das temperaturas no século XIX. Isso pode não parecer muito, mas essas mudanças sutis podem levar a coisas ruins. A longo prazo, podemos ver o derretimento do gelo polar, mais inundações costeiras e padrões climáticos cada vez mais estranhos. É principalmente nossa culpa, também. Se você observar o quão rápido normalmente leva para a Terra esquentar tanto assim, perceberá que está bastante claro que somos os responsáveis pelo aquecimento. Os vulcões não são o maior problema. Nem os ciclos solares. Como diz a EPA, “mudanças recentes não podem ser explicadas por causas naturais sozinhas”.

Se isso soa familiar, desculpe-me, mas várias pessoas não acham que seja uma ameaça séria. Já estou me encolhendo imaginando os emails que vou receber com links para o blog de algum cientista anti-mudança climática com afirmações incorretas ou sem base alguma.

As previsões do Met Office não deveriam ser recebidas com leveza — o seu modelo perfeitamente previu os níveis de carbono de 2016, conforme medidos no Observatório Mauna Loa, no Havaí. A previsão do ano passado é a linha azul, a linha preta é o que aconteceu, e a laranja, a previsão para este ano.

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O gráfico sobe e desce graças às estações, mas nos últimos 60 anos os altos e baixos sempre parecem estar um pouco mais altos do que os do ano anterior. E se esse gráfico não parece um problema, eis o que acontece quando você reduz o zoom para observar os níveis de carbono ao longo dos últimos 60 anos — a tal “curva de Keeling”.

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Talvez, para você, só pareça que os níveis de carbono sempre estiveram crescendo. Eles não estiveram sempre crescendo. Eis a aparência do gráfico se você diminui o zoom para, digamos, as últimas centenas de milhares de anos.

donwno4m1b8diqarle1iÀ direita, a seta branca aponta o nível atual de dióxido de carbono atmosférico, enquanto a laranja, o nível em 1950 (Imagem: NASA)

Tudo isso para dizer que a notícia que eu tenho para você hoje é o mesmo de sempre — o nível de dióxido de carbono na atmosfera está disparando como sempre, e 2017 está no caminho certo para ter o maior nível de carbono já registrado na atmosfera, como sempre. O dióxido de carbono não é exatamente o único gás de efeito estufa ruim (há o metano, entre outros), mas se a curva de Keeling não é convincente o bastante para você, não tenho certeza do que mais poderá convencê-lo. Eu sugeriria olhar para aquele quadrinho do xqcd mais uma vez.

Ao todo, 195 países assinaram o Acordo de Paris, afirmando que fariam o melhor para manter as emissões baixas, para conseguirmos manter o aquecimento total “apenas” 2º C acima dos níveis pré-industriais. As pessoas parecem ter entrado em acordo que manter abaixo de 2º C e, com sorte, de 1,5º C de aquecimento nos preveniria de efeitos mais catastróficos da mudança climática. É claro, o presidente de um certo país não parece acreditar na evidência que suas próprias agências produzem. Talvez ele mude de ideia.

Então, nós escrevemos uma história como essa ano passado, e um dos comentários mais votados foi “o que você quer que eu faça?” Boa pergunta. 1. Escreva cartas para o seu congressista, o presidente, qualquer um que te represente, e diga a eles que essa é uma questão importante. Convença seus amigos a fazer o mesmo. 2. Se você dirigir, tente dirigir menos. Use o transporte público. Compre um carro elétrico ou energeticamente eficiente. Convença seus amigos a fazer o mesmo. 3. Use mais eletrônicos de energia eficiente. Veja como você está aquecendo e resfriando sua casa, para economizar energia. Convença seus amigos a fazer o mesmo. 4. Arme-se de conhecimento sobre mudança climática. Ignore os trolls, convença as pessoas que estão indecisas.

Isso é tudo o que eu tenho para dizer.

Fonte – Ryan F. Mandelbaum, Gizmodo de 07 de março de 2017