Mudanças climáticas causam alterações no comportamento de beija-flores

As mudanças climáticas podem causar a diminuição da atividade de voo de beija-flores e, consequentemente, da polinização de vegetais por esse grupo de aves.

A constatação é de um estudo realizado por pesquisadores da Universidade de Taubaté (Unitau), em colaboração com colegas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), da Escola de Engenharia de Lorena da Universidade de São Paulo (EEL-USP) e da University of Toronto Scarborough, do Canadá, durante o Projeto Temático “Assessment of impacts and vulnerability to climate change in Brazil and strategies for adaptation option”, realizado com apoio da FAPESP no âmbito de um acordo com o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

“Observamos que o aumento da temperatura causa a diminuição da taxa metabólica de beija-flores [a quantidade de oxigênio consumido necessário para produzir energia]. Com isso, cai a frequência de batimentos de asa das aves e, consequentemente, elas passam a voar menos e diminuem a procura por néctar em flores”, disse Maria Cecília Barbosa de Toledo, professora do Departamento de Biologia da Unitau e coordenadora do projeto, à Agência FAPESP.

Os pesquisadores estudaram oito espécies de beija-flor encontradas em diferentes níveis de altitude no Vale do Paraíba, no interior de São Paulo.

Duas das espécies são de baixa altitude – o beija-flor rajado (Ramphodon naevius) e o topetinho-verde (Lophornis chalybeus) –, outras duas são de alta altitude – o beija-flor de topete (Stephanoxis lalandi) e o beija-flor de papo branco (Leucochloris albicollis) –, três ocorrem ao longo de todo o gradiente elevacional do Vale do Paraíba – o beija-flor de fronte violeta (Thalurania glaucopis), beija-flor rubi (Clytolaema rubricauda) e beija-flor de garganta verde (Amazilia fimbriata) – e a última – o beija-flor preto (Florisuga fusca) – é migratória.

O grupo de aves foi escolhido porque apresenta uma alta taxa metabólica, relacionada com fatores ambientais, como temperatura e altitude.

“Estimávamos que as mudanças climáticas poderiam causar grandes impactos em espécies de beija-flor e que, por isso, podiam ser usadas como bioindicadoras”, disse Toledo.

A fim de simular os efeitos das variações climáticas nesses animais, os pesquisadores usaram como referência o gradiente climático altitudinal da região montanhosa do Vale do Paraíba, que varia de três metros – como os das cidades de Ubatuba e Caraguatatuba – a 1,8 mil metros de altitude, como o da cidade de Campos do Jordão.

Nessas regiões, com diferentes níveis de elevação altitudinal e temperatura variável entre 10 e 30 ºC, eles avaliaram a taxa metabólica em campo de beija-flores rubi (Clytolaema rubricauda) – uma das três espécies de beija-flor que ocorrem ao longo de todo o gradiente altitudinal do Vale do Paraíba.

Para isso, usaram um sistema em que o beija-flor é capturado e colocado dentro de uma câmara com um alimentador, no alto do recinto – composto por um tubo plástico contendo uma solução de sacarose a 20% –, e um poleiro que serve de balança para indicar o peso do animal.

Para conseguir se alimentar da solução de sacarose, a ave precisava pairar no ar e inserir a cabeça dentro do tubo de plástico do alimentador, que funciona como uma máscara respiratória, com passagem de 2,5 mil mililitros (ml) de ar por minuto.

Ao pairar no ar e inserir a cabeça na máscara respiratória, os pesquisadores conseguiam analisar a temperatura, além do volume de oxigênio consumido e o total de dióxido de carbono produzido pela ave durante o voo pairado.

Dessa forma, conseguiram estimar as taxas metabólicas dos pássaros em diferentes temperaturas ao longo do gradiente altitudinal do Vale do Paraíba.

“Esse sistema possibilita avaliarmos a taxa metabólica de beija-flores em atividade, que é o dado mais importante para mensurarmos os efeitos das mudanças climáticas no metabolismo dessas aves”, explicou Toledo.

Menos voo

Uma das constatações dos experimentos foi que o aumento da temperatura diminui a taxa metabólica do beija-flor rubi.

A taxa metabólica da ave foi maior em uma faixa de temperatura mais amena, entre 20.1 e 25 ºC, e menor sob temperaturas mais altas, entre 25.1 e 30 ºC, indicaram os experimentos.

Nessa faixa de temperatura mais elevada, o pássaro tende a diminuir a frequência de batimento de asas, procura mais sombra para permanecer em repouso e voa menos para manter seu metabolismo e diminuir o gasto energético, explicou Toledo.

“Essa mudança de comportamento pode causar a diminuição da polinização de vegetais por essas aves”, estimou a pesquisadora. “Os beija-flores passam a visitar menos as flores silvestres em busca de néctar e, consequentemente, deixam de transportar pólen de uma flor para outra”, estimou a pesquisadora.

Algumas espécies de beija-flor possuem preferências climáticas, apontou o estudo.

O beija-flor rubi, por exemplo, apresenta maior ocorrência no Vale do Paraíba em regiões com temperatura na faixa de 20 º a 25 ºC, e não “dá as caras” em regiões de baixa altitude durante o verão, quando a temperatura média atinge 28 ºC, disse Toledo.

“Se a temperatura aumentar, elevando a média das terras altas, provavelmente os beija-flores tentarão acompanhar essa mudança”, estimou a pesquisadora.

“Observamos durante o estudo que os beija-flores apresentam variações morfométricas em função da altitude, tais como massa, comprimento e área da asa, comprimento do bico e comprimento total. Mas ainda não sabemos se poderão sofrer mudanças morfométricas rápidas a tempo de se adaptarem às mudanças climáticas”, disse Toledo.

O aumento da temperatura, contudo, não representa um fator limitante para a sobrevivência dos beija-flores, uma vez que esse grupo de aves possui alta resistência térmica.

A temperatura corpórea dos beija-flores é em torno de 40 ºC. Dessa forma, a ave é capaz de suportar de forma confortável uma temperatura ambiente em torno de 38 ºC – considerada bastante alta –, explicou Toledo.

“Os beija-flores só conseguem manter esse estresse térmico por muito tempo, entretanto, se houver energia disponível, que é o néctar das flores. E isso representa um ponto de preocupação”, ponderou.

Um estudo realizado por pesquisadores da Escola de Engenharia de Lorena, da USP, no âmbito do projeto, identificou que a quantidade de energia disponibilizada pelas plantas para os beija-flores na região do Vale do Paraíba varia de acordo com a elevação.

Algumas espécies de plantas visitadas por beija-flores em regiões de terras altas, como Campos do Jordão, possuem néctar com maior teor de sacarose – o açúcar preferido pela ave – do que em regiões de terras baixas, como Ubatuba, apontou o estudo.

“Nossa preocupação é se as plantas visitadas pelos beija-flores serão capazes de ajustar suas concentrações de néctar em tempo de acompanhar as mudanças climáticas e continuarem fornecendo energia para essas aves”, ressaltou Toledo.

Fonte – Elton Alisson, Agência FAPESP de 26 de agosto de 2015

Imagem – LC10S

Primeiro, as abelhas, agora os beija-flores e brevemente, os humanos serão extintos.

Desmatamento cresce 152% em Mato Grosso

Clique no infográfico interativo acima.

O desmatamento em Mato Grosso voltou a crescer depois de anos em queda, registrando alta de 152% no atual calendário de monitoramento, que começou em agosto de 2014 e fechou em julho de 2015, em comparação com o mesmo período do ano anterior. O monitoramento por satélite registrou 1.036 quilômetros quadrados de desmatamento nestes 12 meses, contra 411, do período anterior (agosto de 2013 a julho de 2014). Com isso, o Mato Grosso lidera o ranking nacional de corte da floresta, sendo responsável por 31% de todo o desmatamento registrado na Amazônia Legal, que também teve aumento, de 63%. Os dados foram divulgados nesta quinta-feira, pelo Instituto do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon).

Dos oito estados que compõe a Amazônia Legal, apenas o Pará conseguiu reduzir o desmatamento em comparação ao calendário anterior. Embora o monitoramento tenha detectado 732 quilômetros quadrados de desmatamento, os esforços permitiram uma redução de 14% em comparação com o mesmo período do ano anterior, que totalizou 852 quilômetros quadrados.

Em Mato Grosso, a maior parte do desmatamento, 61% do total acumulado no último ano, aconteceu em imóveis rurais não cadastrados no Sistema Integrado de Monitoramento e Licenciamento Ambiental (SIMLAM). Uma tendência que se repete, já que no período anterior, o total nessa categoria fundiária foi de 62%.

Análise do Instituto Centro de Vida (ICV) mostra que o município de Colniza, na região noroeste de Mato Grosso, registrou 204% de aumento na comparação com os dois períodos, totalizando 171 quilômetros quadrados de retirada da floresta, entre julho ao ano passado e agosto deste ano, o que representa 17% do total detectado em Mato Grosso. Vale lembrar que, segundo dados divulgados pela Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema-MT) o município tem apenas 43% da área no Cadastro Ambiental Rural (CAR).

O ranking estadual dos municípios que mais desmataram é composto ainda por Feliz Natal (84 km²) e Juína (62 km²). Com relação ao tamanho, a análise do ICV aponta que 53% da área teve desmatamentos entre 50 e 250 hectares.

Para Alice Thuault, Diretora Adjunta do ICV, a situação demonstra um grande desafio que é a necessidade de reforçar a ação em nível municipal, citando, por exemplo, o fato de Colniza não ter aderido ao Programa Mato-grossense de Municípios Sustentáveis, cuja implementação prevê a elaboração de um plano de metas para área de gestão ambiental, fundiária e desenvolvimento de cadeias produtivas sustentáveis. “Já está provado que não é necessário mais desmatar para produzir. Mato Grosso, como maior produtor de grãos e maior rebanho bovino do Brasil, precisa assumir esse compromisso e empenhar esforços para zerar o desmatamento”, reagiu.

Entre agosto de 2014 e julho de 2015, a Amazônia Legal perdeu 3.322 quilômetros quadrados de floresta.

Fonte – Daniela Torezzan, ICV / EcoDebate de 28 de agosto de 2015

Agrotóxico: o inimigo entre nós

Seminário promovido pelo IHU e PPG em Saúde Coletiva da Unisinos evidenciou o impacto do uso de agrotóxicos no ambiente e toda a lógica que sustenta o sistema apoiado no agronegócio

“Sem agrotóxico se compromete a produção em larga escala de diversas culturas”. “As sementes transgênicas – e o uso de agrotóxicos implicado no seu cultivo – aumentam a produtividade”. Essas duas frases materializam o que pesquisadores chamam de inverdades acerca do assunto agrotóxico. Elas mascaram uma realidade, em detrimento do interesse econômico. É a lógica do capital sendo atualizada no agronegócio, que subverte a lógica natural. Essa foi a perspectiva que permeou o Seminário Agrotóxicos: Impactos na Saúde e no Ambiente, realizado na segunda-feira, 24-08.

O evento, promovido pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU e pelo Programa de Pós-graduação em Saúde Coletiva, reuniu pesquisadores, técnicos e profissionais de dentro e fora da universidade para debater os reais impactos do uso desses produtos tóxicos. E, no horizonte, tentar entender por que é tão difícil enfrentar essa lógica que estimula o seu uso. Lógica essa que faz dos agrotóxicos algo impregnado na sociedade, muitas vezes sendo naturalizado pelo ser humano.

Como professora do curso de Nutrição da Unisinos, Regina Alcântara estava atenta ao debate acerca dos efeitos nos alimentos. “Para se pensar em qualidade do alimento é fundamental discutir o uso de agrotóxicos”, disse. Sua colega, a professora Vanessa Backes, destaca que o assunto é estrutural para o conceito de segurança alimentar. “Até bem pouco tempo, segurança alimentar era quantidade de alimento”, destaca, ao perceber que é por aí que entram os argumentos para justificar usos de químicos. “Só que, felizmente, estamos percebendo que discutir a qualidade do alimento é mais importante para a segurança alimentar do que a quantidade. Precisamos de alimentos que realmente nos nutram e promovam nosso desenvolvimento por inteiro”, completa.

Na luta contra o inimigo, barata morta só no chinelo

O agrotóxico faz mal ao ambiente e a nós mesmos. Todos sabem disso, mas poucos conseguem perceber o quanto ele faz parte da vida cotidiana. Não precisa ser produtor rural ou consumidor de hortifrutigranjeiros para se expor aos agrotóxicos. “Eu, por exemplo, tento espantar a barata. Se ela não fugir, mato só no chinelo”, diz a biomédica e professora da Fundação Oswaldo Cruz – Fiocruz e da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UniRio Karen Friederich. É uma caricatura que faz, ao destacar que dentro do inseticida doméstico há elementos tóxicos, os chamados agrotóxicos urbanos. É um produto de uso doméstico que nem associamos aos agrotóxicos. Inseticidas usados como bloqueador epidemiológico pelo próprio poder público vão na mesma linha. Por exemplo, os fumacês no caso da Dengue.

E como tais substâncias são liberadas pelas autoridades?Karen destaca que, tanto para usos domésticos como para agricultura, os registros para liberação são baseados em testes que não levam em conta a complexidade das substâncias. “São testes em condições laboratoriais onde cobaias são expostas a um determinado agrotóxico e por uma só via. No ambiente, somos expostos a vários tipos de agrotóxicos. Isso gera efeitos acumulativos e essa combinação pode gerar consequências, como predisposições cancerígenas. Além do mais, também podemos absorver agrotóxicos por mais de uma via. Os efeitos podem surgir a muito longo prazo”, explica.

É por isso que órgãos como Agência Nacional de Vigilância Sanitária – Anvisa têm a missão de regulamentar, analisar, controlar e fiscalizar agrotóxicos. Mesmo os que já têm seu registro homologado. “Essa revisão é importante, pois surgem novas pesquisas que aprofundam o conhecimento sobre as substâncias. Além disso, há de se avaliar tanto efeitos agudos da exposição – quando se percebe um efeito de imediato, pouco tempo depois do contato – quanto crônicos – aqueles que podem se manifestar muito depois”, completa.

2,4-D

Atualmente, a grande preocupação dos pesquisadores é com relação à liberação da nova geração de transgênicos, resistentes ao agrotóxico 2,4-D. “Esse agrotóxico tem em sua composição substâncias que faziam parte do Agente Laranja, usado na Guerra do Vietnã”, explica. Por isso, o produto está na lista da Anvisa para reavaliação, assim como o Glifosato. “A liberação de sementes resistentes ao Glifosato aumentou em muito seu consumo. Tememos que isso ocorra com o 2,4-D, que tem um impacto ainda maior”, alerta Karen.

Uma luz do fim do túnel que se chama Pronara

E como fugir dos agrotóxicos? Para o agrônomo Leonardo Melgarejo, integrante da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural – Agapan, é preciso romper com a lógica do agronegócio. Produzir mais alinhado com princípios da agroecologia. Mas para isso é preciso consumir mais alimento agroecológico. O estímulo para isso passa por políticas públicas. É esse o objetivo doPlano Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica – Planapo. Para fazer este plano funcionar é necessária a implementação de outro, o Programa Nacional de Redução de Agrotóxicos – Pronara. “Diminuindo o uso de agrotóxicos, caminhamos para outros sistemas produtivos como a produção orgânica”, destaca.

O problema é que a pressão do agronegócio pesa sobre o poder público. Assim, os planos acabam patinando. “Mas nós, enquanto sociedade, temos nosso papel. Devemos lutar contra essa maquiagem de informação e não aceitar o retrocesso. A retirada da indicação da presença de alimentos transgênicos no rótulo de alimentos é isso. Sonega uma informação e limita o poder de escolha do consumidor”. O caminho, para Melgarejo, é buscar fóruns em que se possa fazer pressão. Defende que é preciso saber o que está sendo discutido sobre a legislação de agrotóxicos e transgênicos para buscar a implementação dos planos, rompendo a cadeia do agronegócio. “A informação é a chave. Ela nos dá protagonismo. Para isso podemos buscar entidades que nos auxiliam”, provoca, ao estimular a plateia a buscar informação e cobrar ações, por exemplo, de senadores gaúchos a respeito da mudança na legislação sobre rotulagem de alimentos transgênicos. “Informação, participação e controle social. É o que precisamos”.

Fonte – João Vitor Santos, IHU / EcoDebate de 28 de agosto de 2015

Nível do mar subiu em média 8 centímetros desde 1992

O nível do mar subiu, em média, quase 8 centímetros em todo o mundo desde 1992 devido ao aquecimento global, informou nessa quarta-feira (26) a agência especial norte-americana (Nasa, a sigla em inglês), alertando que a tendência deverá manter-se nos próximos anos.

Um grupo de cientistas da agência apresentou os mais recentes dados sobre o aumento do nível da água do mar em todo o mundo – que foi, em média, 7,62 centímetros superior ao de 1992 –, apesar de o panorama variar em diferentes regiões. Em alguns casos, o nível chegou a superar os 22 centímetros.

A Nasa também publicou um vídeo, com os dados obtidos pelos seus satélites, em que se verifica, por uma gradação de cores, a evolução em cada parte do mundo nos últimos 23 anos.

As costas da Ásia e Oceania, no Pacífico, juntamente com o Mediterrâneo Oriental e a costa da América, foram as mais prejudicadas pela subida do nível do mar.

O aquecimento global, provocado principalmente pela atividade humana, é o principal culpado pelo aumento do nível dos oceanos e dos mares, na medida em que é responsável pelo degelo da Antártida e pela subida da temperatura da água.

“É muito provável que a situação piore no futuro”, alertou Steve Nerem, geofísico da Universidade do Colorado, durante a apresentação dos dados.

Os cientistas alertaram que mesmo que sejam tomadas medidas para tentar reverter a situação, seriam necessários séculos para voltar aos níveis anteriores às alterações climáticas.

A subida do nível da água do mar põe em risco o futuro de inúmeras cidades e povoações costeiras, ameaçando fazer desaparecer uma série de ilhas e, no caso do Pacífico em especial, países inteiros.

Fonte – Agência Lusa / ABr / EcoDebate de 28 de agosto de2015

SP: ‘Não há garantia alguma de que teremos água em janeiro’

A crise no abastecimento de água em São Paulo continua bastante séria, ainda que menos propalada. Para recolocar o assunto em pauta, o Correio da Cidadania entrevistou Marzeni Pereira, ex-tecnólogo da Sabesp, justamente poucas horas depois de fazer a homologação de sua demissão. Em sua visão, a empresa tem condições técnicas de sobra, mas sua orientação ainda voltada aos lucros privados faz prevalecer, com anuência do governo, o que considera políticas “irresponsáveis”.

“Apesar de não ter aumentado os mananciais, não ter reduzido perda e não ter estimulado o reuso, a Sabesp teve uma política de aumentar a venda de água. Aqui está o problema: a curva de demanda ultrapassou a curva de oferta de água. Os mananciais não suportaram por causa disso. Qualquer estiagem um pouco mais prolongada provocaria – e se não fosse agora, seria um pouco mais para frente – a falta de água em São Paulo, em função da política de expansão da venda de água”.

Marzeni Pereira ainda discutiu uma série de questões pertinentes à crise, como a conivência dos meios de comunicação comerciais e a forma como os interesses eleitorais do governo do estado se colocaram acima da emergência de se debater a crise. Além disso, elenca outros interesses, típicos das cartilhas neoliberais, que tomaram conta da agenda de todos os governos e impedem um melhor tratamento dos problemas.

“Não é possível estarmos em pleno século 21 e termos perdas de 30%. Para isso, precisamos acabar com a terceirização no assentamento das redes de água e nas ligações entre os sistemas. Também é necessário que a Sabesp rompa com o cartel das empresas que vendem os materiais com os quais se constroem as redes, por exemplo, os fabricantes de PVC e Ferro Fundido”, criticou.

A entrevista completa com Marzeni Pereira pode ser lida a seguir.

Correio da Cidadania: Segundo dados divulgados, pela primeira vez em 31 dias os níveis da Cantareira subiram – ainda que somente 0,1% – entre domingo e segunda-feira da semana passada, atingindo cerca de 19% da capacidade de armazenamento da represa. O que isso representa?

Marzeni Pereira: Houve uma estabilização, não um aumento. Aumentou 0,1% e agora caiu novamente. Está em 18,8%, só que esse número representa um índice 10,5% negativo. Estamos usando, na verdade, 10,5% do volume morto. Ainda há outro problema: possivelmente, já entraremos na segunda parcela do volume morto. No mês de julho do ano passado, começamos a primeira parcela. Neste ano, corremos o risco de começar o mês de agosto utilizando a segunda parcela.

Correio da Cidadania: O que avalia da atual situação do abastecimento de água, lembrando que muitos especialistas previram situações bem complicadas para esse estágio do ano, e também já projetando o verão?

Marzeni Pereira: Levando em conta a resposta anterior, ainda há dois agravantes. Temos menos água este ano do que no ano passado. Agora, temos cerca de 90% da água que tínhamos há um ano atrás. Outro problema é que nesse momento os lençóis freáticos estão mais baixos do que no passado. Com menos água nas represas e nos rios, há um rebaixamento do lençol freático. Isso provoca o que chamam “efeito esponja”. Ou seja, qualquer chuva que caia, ao invés de escorrer e encher os rios e represas, acaba infiltrando e recarregando o lençol.

Isso é um problema, pois não sabemos quando vai chover. Se as chuvas se atrasarem novamente, como aconteceu entre 2014 e 2015 (quando só choveu para valer entre fevereiro e março de 2015), teremos grandes problemas e possivelmente não teremos água até fevereiro. Não há nenhuma garantia de que teremos água em janeiro, por exemplo. Se não chover, como choveu entre 2013 e 2014, vamos entrar em um estado de catástrofe aqui em São Paulo. Não está descartado o colapso do abastecimento. Estamos muito pior do que nos dois últimos anos.

Existe apenas um fator favorável em comparação aos outros períodos: o consumo. Entre 2014 e 2015, o consumo, em função da estratégia do governo estadual para ganhar as eleições – pois não quis divulgar a falta de água e afetar sua agenda eleitoral – estava maior do que agora. Tanto que estávamos fornecendo por volta de 65 mil litros por segundo, de todos os sistemas. Hoje, tiramos cerca de 55 mil litros. Ou seja, mais ou menos 16% de diferença.

O consumo do Cantareira, por exemplo, nesse mesmo período no ano passado, estava próximo dos 25 mil litros por segundo. Agora, estamos em torno de 15 mil litros. Atualmente, a quantidade de água geral é menor do que no ano passado, alguns reservatórios têm mais água do que no ano passado, só que todos eles são reservatórios pequenos em relação ao Cantareira e ao Alto Tietê. Nosso maior reservatório é o Cantareira, seu volume morto é quase três vezes maior do que a totalidade do Guarapiranga. O pessoal acha que o Guarapiranga hoje tem mais água, mas não. Hoje, é no sistema Cantareira que há mais água, apesar de estar no volume morto.

Correio da Cidadania: O que pensa dos descontos feitos para a indústria? Afetaram, ou ainda podem afetar, a qualidade de vida da população ou os considera justificáveis?

Marzeni Pereira: Precisamos ponderar essa questão dos descontos para a indústria. Isso foi uma política adotada pela Sabesp em uma época que sua direção considerava haver um concorrente: os poços, muito utilizados pela indústria. A Sabesp decidiu ir atrás desses grandes consumidores que tinham poços de abastecimento alternativo e fez a proposta para que comprassem água dela e não a tirassem dos poços. Foi uma política implementada com muita ferocidade e urgência, no período em que Gesner Oliveira foi presidente da Sabesp, entre 2007 e 2010.

Esse processo é chamado de contrato de demanda firme e privilegia quem gasta muito. Foi feito com a intenção de que tais consumidores não usem mais os poços. Do meu ponto de vista, é um absurdo oferecer descontos para que um grande consumidor utilize toda essa água potável para fins não potáveis. É uma política que a Sabesp vem adotando durante o período que chamamos neoliberal.

Considero errada a política de aumentar a oferta e vender água a qualquer custo. Se considerarmos o universo do consumo de São Paulo, não é muito representativo. É imoral, mas não muito representativo. Não significa que são os grandes consumidores que estão trazendo problemas de alto consumo, mas os grandes consumidores são parte de uma política da expansão da venda de água.

Apesar de a Sabesp e o governo do estado não terem aumentado a disponibilidade de água nos mananciais, ou seja, os mananciais mantiveram praticamente a mesma quantidade de água de 20 anos atrás, também não houve política consequente de redução de perdas nos últimos 20 anos. Na verdade, houve uma política muito moderada nesse sentido, sem a seriedade necessária. Também não há uma política de reuso de água de esgoto. Podemos dizer que nesse sentido as políticas são ridículas. Existem dentro da Sabesp metas de aumentar o Volume Utilizado (VU), o que para uma empresa voltada ao meio ambiente e à saúde publica não é nada razoável.

Resumindo: apesar disso tudo, de não ter aumentado os mananciais, não ter reduzido perda e não ter estimulado o reuso, a Sabesp teve uma política de aumentar a venda de água. Aqui está o problema: a curva de demanda ultrapassou a curva de oferta de água. Os mananciais não suportaram por causa disso. Qualquer estiagem um pouco mais prolongada provocaria – e se não fosse agora, seria um pouco mais para frente – a falta de água em São Paulo, em função da política de expansão da venda de água.

Correio da Cidadania: Diante disso, que análise você faz da gestão da Sabesp, em especial depois que começou a ser confrontada com a situação de escassez em paralelo a seus lucros?

Marzeni Pereira: Se a Sabesp não tivesse a ingerência do capital, a obrigação de aumentar lucro e arrecadação, teria dado conta da questão do abastecimento de água em São Paulo. Outro problema é que o discurso do governo, voltado para as eleições, também contribuiu. No ano passado, quando tivemos clareza de que o verão 2013/14 não proporcionou a quantidade de água que garantiria a segurança hídrica, a Sabesp elaborou um plano de rodízio para todo o ano de 2014, a fim de ter a garantia de que a água chegaria até 2015 e se, por exemplo, se houvesse menos chuva no verão de 2014/2015, haveria uma segurança mínima para garanti-la até o início de 2016.

Porém, em função das eleições, o plano não foi implantado no início do ano passado. Começou a ser implantado no meio do ano passado e de forma camuflada, sem divulgar que era um rodízio. Dizia-se que era redução de pressão e até hoje não se assume que tem rodízio. Em algumas regiões, o rodízio chega a ser 12 por 12: falta água por 12 horas e chega água por 12 horas. Em outros locais é até mais. Varia de região, de zona de pressão. Assim, a Sabesp teria condições de gerir a crise, não fossem as condições de ingerência, tanto do capital, para não haver redução de lucratividade, quanto do governo do estado, para não ter sua eleição prejudicada.

A Sabesp é a empresa mais preparada do Brasil para gerir o saneamento, tanto pelo corpo técnico que tem, quanto em relação à estrutura que nenhuma outra empresa do ramo tem no Brasil. Mas sua direção está destruindo seu próprio corpo técnico ao mandar muita gente embora, não contratar e não treinar novos profissionais. Preferem contratar empreiteiras, terceirizar e ir implementando aos poucos essa política nefasta do governo.

O governo do estado também tem essa visão de arrecadação. Ele próprio é um grande acionista e não coloca dinheiro na Sabesp e, sim, retira. Não vou dizer que retira tudo, mas parte do que lhe cabe como acionista, e isso é um problema. Para se ter uma ideia, nos últimos 11 anos, entre 2003 e 2014, a Sabesp distribuiu em dividendos 4,5 bilhões de reais. Se fosse uma empresa voltada para o saneamento e não para distribuir dividendos, teria um investimento muito grande no próprio saneamento só com esse superávit.

Porém, por não fazer o rodízio no início do ano passado, houve um outro plano implementado, o qual acho inteligente. Mas precisa ser assumido. O problema é que a Sabesp implanta um rodízio e não assume. Tem de assumir: “Sim, nós implantamos um rodízio e se não tivéssemos feito isso já teria acabado a água”.

O rodízio de horas que foi implantado agora, de fechar os registros entre 10 e 12 horas por dia, fez com que as perdas despencassem. Se, por exemplo, no setor de abastecimento já tivemos perdas de 30%, hoje pode ter caído para 20% ou 15%, pois durante a metade do dia não tem perda por vazamento. A política de redução do tempo de pressurização da rede contribuiu de forma significativa para reduzir as perdas. Por outro lado, inclui um risco de contaminação da rede.

PELAMORDAMÃETERRA! Legal essa solução, dizem que as perdas caíram pela metade sem ter consertado um único cano, apenas oferecendo água pela metade. É de chorar…

O método de pressurizar a rede durante um período do dia e fechá-la durante outro período do mesmo dia é um método que penaliza menos a população. Por exemplo, foi falado que estava previsto um rodízio de cinco dias sem água e dois dias com água, mas o que acontece é um rodízio diário de três por um, em alguns locais. Nós temos uma parte do dia (6 horas) com água e três partes do dia (18 horas) sem água, o que equivale a seis dias sem água e dois dias com água. Fica 3 por 1, o outro seria 2,5 por 1. Mas o atual rodízio – 3 por 1 –, mesmo sendo mais drástico, penaliza menos a população, porque quem tem caixa d’água – e a maioria da população de São Paulo tem – acaba armazenando-a. Quem não tem, enche os baldes. Se fosse o rodízio de 5 por 2, a penalização seria muito maior.

Um dos grandes problemas do rodízio atual de 3 por 1 é danificar de forma brutal as redes, porque há uma variação de pressão e uma frequência muito grande. No período em que a rede está pressurizada, está com 50, 60 metros de coluna de água, em alguns locais até mais. Em outros períodos está com zero, ou seja, é uma variação de pressão muito grande ao longo de um dia, e isso detona a rede. Isso pode danificar toda a malha de abastecimento da Sabesp, se continuar por um período mais longo. É o processo ao qual chamamos de fadiga, pois provoca um desgaste nas redes.

Isso ainda não foi divulgado na mídia, e talvez seja divulgado pela primeira vez: a Sabesp pode vir a sofrer no próximo período, tendo que trocar toda a sua rede se continuar no sistema de fechar e abrir todos os dias. A fadiga aumenta e as redes podem estourar. O risco é maior onde não tem sistema de admissão de ar e onde não tem ventosa.

Correio da Cidadania: Quanto ao governo estadual, como avalia suas medidas, desde que a crise da água se iniciou? Houve um movimento na direção da melhoria dessas redes, de maior cobrança sobre a empresa?

Marzeni Pereira: Eu considero que o governo continua agindo de forma irresponsável e a mídia que o blinda é conivente ou até mesmo parceira na irresponsabilidade. O que está acontecendo? Há um novo crescimento do consumo em São Paulo. Já estivemos com 50 mil litros por segundo e estamos voltando às cifras de 60 mil metros por segundo.Tal consumo pode aumentar novamente no período mais quente.

Porém, não existe nenhuma garantia de que vai chover no próximo verão. E nem estou dizendo que não vai chover, não é isso. Estou torcendo para chover. Mas não existe a garantia. Ninguém sabe dizer se vai ou não chover daqui a dois ou três meses. Na incerteza, o que deve ser feito? Deve-se agir com precaução. Essa é que deveria ser a política. Quando o governo fala que não vai faltar, está dizendo para a população ficar tranquila, que pode gastar a vontade. Não tem sentido nenhum dizer que não vai faltar água e, ao mesmo tempo, estimular a economia.

Por outro lado, precisa ser muito aliado, muito parceiro, como a mídia comercial, para esconder que o governo está sendo irresponsável com a situação atual. Imagine que nós estamos entrando na segunda parcela do volume morto do Cantareira. Entre setembro e novembro vai ser reduzida a vazão do Cantareira de 15 metros cúbicos por segundo – a de hoje – para 10.

Os outros sistemas vão ter de socorrer o Cantareira, mas já estão precisando de socorro também. O Alto Tietê, por exemplo, que tem menos água do que no ano passado, vai precisar socorrer o Cantareira. E como vai socorrer o Cantareira se não tem água? O Guarapiranga é um sistema pequeno, aumentaram seu tratamento, mas não sua capacidade de reserva. O problema não está no tratamento, está na represa que não tem capacidade, é pequena.

Portanto, não dizer para a população que a crise não passou, não dizer para a população que ainda há risco de colapso e existe um risco de contaminação da rede onde ela está sendo abastecida, é um crime. É um absurdo não dizer isso. No mínimo, o governador do estado de São Paulo deveria ser processado. Porque aqui há um crime ambiental, um crime de saúde publica e um crime de responsabilidade, todos em curso, e como ninguém fala nada? Ou, quando se fala, vemos a mídia soltar as notícias do clima antes, vinculando a crise do abastecimento apenas à falta de chuvas, de modo simplista. É um desserviço.

Correio da Cidadania: Além das questões administrativas referentes a São Paulo, você afirmou em entrevista de 2014 que a crise se devia também ao modelo de desenvolvimento e consumo, em especial ao agronegócio. Nesse sentido, o que pensa da forma como se pauta o assunto diante do público?

Marzeni Pereira: Cada vez mais o agronegócio brasileiro está aumentando sua fatia na economia e cada vez mais ganha força nos organismos políticos, especialmente no Congresso Nacional. E cada vez mais flexibiliza a legislação ambiental, veja o código florestal que sofreu um retrocesso.

Eu andei pesquisando e encontrei um dado muito interessante tirado do Ministério da Indústria e Comércio, no qual segundo os dados de exportação, apenas em 2013, com quatro produtos – carne, soja, milho e café – o agronegócio brasileiro exportou o equivalente a 200 trilhões de litros de água, ou 100 anos de abastecimento de água aqui da região metropolitana de São Paulo. Só para ter uma dimensão desses números: foram mais ou menos 200 sistemas Cantareira exportados em 2013 só com essas quatro commodities. É absurdo tamanho consumo e a liberdade que se tem de exportar mercadorias que têm um alto custo ambiental e que com certeza trazem consequências para as populações da cidade e também para as populações indígenas e ribeirinhas. O agronegócio, quando faz o uso da água, não apenas a utiliza, mas a envenena. Logo, quem se serve dessa água acaba envenenado.

O custo ambiental do agronegócio é muito alto e o seu retorno é muito pequeno. A quantidade de emprego que gera é muito pequena. Só dizer que traz divisas para o país é mero artifício contábil. E daí que a balança comercial foi favorável? No meu ponto de vista, o agronegócio não é benéfico. Precisamos fazer uma discussão séria sobre o agronegócio, o que traz de benefícios e de malefícios. É importante para o país.

Correio da Cidadania: Quais as perspectivas para a população a médio prazo? Quais políticas devem ser empreendidas pelos governos, de quaisquer esferas, para que o problema da água seja contornado?

Marzeni Pereira: A curto prazo é o seguinte: a população vai ter de continuar economizando água. Apesar de o consumo doméstico girar em torno de 8% no Brasil, teremos que economizar. Agora, ninguém discute a economia da indústria ou da agricultura. Só se fala nos 8%; dos 92% restantes ninguém fala. Mesmo assim, acho importante que os 8% economizem. A região metropolitana de São Paulo, por exemplo, consegue preservar a água por mais tempo se economizar.

Outro fator é que temos de torcer para chover, pois se não vai complicar. Mas isso por si só não basta. É preciso uma política agressiva de coleta, tratamento e uso da água da chuva. Aqui em São Paulo temos um potencial de coleta de água de chuva de 15 mil litros por segundo (média anual, entre outubro e março conseguimos coletar muita água de chuvas, só que em períodos secos se coleta bem menos). É a cifra usada pelo Cantareira hoje.

Assim, imagine se há um programa de coleta de água de chuva liderado pela Sabesp – não adianta cada um fazer na sua casa, pode haver problemas de contaminação e epidemias. No curto prazo, poderia ser implantado o projeto de coleta e tratamento de água de chuvas, ou seja, o próprio governo teria de incentivar, com técnicos, grana, projetos, atendimentos. Daí seria possível fazer uma boa coleta no curto prazo.

Para termos uma ideia, o mês que menos chove fica em torno de 40mm. Em uma casa de 100 metros quadrados, é possível coletar por volta de 4 mil litros em um mês, o que daria água por uns 15 dias para os residentes. Infelizmente, tal projeto não é do interesse da Sabesp, afinal, como ficaria sua arrecadação? Dessa forma, a razão mercadológica impede que o governo faça uma campanha séria; prefere correr o risco de entrar em colapso do que tocar um projeto como esse.

No médio prazo, teremos de exigir a reestatização da Sabesp e colocar o saneamento sob o controle da população. Isso é essencial para a população. Sem dúvida, para nunca mais voltarmos a passar por uma crise como essa, mas o problema é: vamos continuar cometendo os mesmos erros? Arrecadando dinheiro com saneamento e entregando para os acionistas e para a iniciativa privada?

Esses recursos arrecadados com saneamento têm de ser reaplicados em saneamento. Está acontecendo na França, onde está se reestatizando e remunicipalizando o saneamento. Vários municípios franceses tinham o saneamento privatizado e eles retomaram uma parte significativa. Inclusive em Paris, onde a arrecadação do saneamento não era reinvestida. Retomaram e até reduziram a conta, o inverso daqui, onde, somando os reajustes que já tivemos em 2015, houve um aumento de 22,7% na conta de água. E a Sabesp está prevendo um novo aumento de tarifa. Isso com a inflação em torno de 10%.

Por outro lado, não podemos simplesmente reestatizá-la e colocá-la na mão de um governo financiado por grandes corporações, principalmente em períodos eleitorais, seja do partido que for. Precisamos, além de estatizar, criar mecanismos para que a população tenha acesso e controle à gestão da empresa. Não tem sentido a população pagar coleta de esgoto para ser jogado de qualquer jeito, sem tratamento, no córrego mais próximo. A população paga para coletar e tratar, não para afastar simplesmente. Nem metade do esgoto é tratado em São Paulo, mas pouca gente sabe. A médio prazo precisamos pensar nisso.

Também é preciso reduzir as perdas de médio prazo. Não é possível estarmos em pleno século 21 e termos perdas de 30%. É um número muito alto e é possível reduzir. Para isso, precisamos acabar com a terceirização no assentamento das redes de água e nas ligações. Esse é um serviço específico e precisa ter gente especializada para que não cause tamanhas perdas. As empresas terceirizadas não treinam a mão de obra, o que causa uma série de erros fatais para o sistema de abastecimento.

Além disso, há uma rotatividade muito grande dos trabalhadores terceirizados. Enquanto um técnico da Sabesp fica 15 anos trabalhando, os terceirizados têm um período de contrato, de dois ou três anos. É um período de experiência e, quando ele começa a entender a coisa, acaba o contrato. É necessário acabar com a terceirização.

Também é necessário que a Sabesp rompa com o cartel das empresas que vendem os materiais com os quais se constroem as redes, por exemplo, os fabricantes de PVC e Ferro Fundido. Existe um lobby para as compras, mesmo havendo materiais que vazam muito menos. Um tubo de PVC tem uma emenda a cada seis metros; já um tubo de PEAD tem uma emenda a cada 100 metros – e essa emenda ainda é soldada e apresenta menos chances de vazar.

Correio da Cidadania: Para finalizar, de que maneira esse momento de terceirização e toda a crise na gestão da Sabesp e no abastecimento de água pode ser relacionado com as demissões?

Marzeni Pereira: Fui demitido da Sabesp no último dia 16 de março. Agora, recebi o aviso prévio e não homologuei porque discordava da demissão. Eles justificaram a demissão pela redução do fluxo de caixa. Realmente, houve uma redução de arrecadação, mas não foram os trabalhadores que causaram a redução do fluxo de caixa. Ela ocorreu em função da redução do consumo, que o próprio governo incentivou, necessária, porque há uma crise abastecimento.

Só entre 2014 e 2015 foram cerca de 600 demissões. Como o ano passado foi eleitoral, praticamente todas as demissões aconteceram agora, em 2015.

Eu, particularmente, recebi meu aviso prévio e minha demissão extraoficialmente no final do ano passado. A justificativa era a minha militância e meu ativismo em função da crise da água, com críticas ao governo. Já existia uma disposição da direção da empresa para me demitir. Eu e mais algumas pessoas estávamos visados para a demissão. No final do ano passado, recebi um telefonema dizendo que seria demitido. Mesmo com a minha militância, era reconhecido na Sabesp como um trabalhador sério, que fazia um bom serviço, sem titubear, sem meios termos.

Tenho clareza de que fui perseguido pelos meus atos. Dei várias entrevistas para mídias “alternativas” e a Sabesp tem um canal de pesquisa no qual tudo o que sai na mídia é rastreado, divulgado internamente e arquivado. Da minha entrevista ao El Pais em fevereiro deste ano, por exemplo, praticamente todos na Sabesp ficaram sabendo. E quase um mês depois eu fui demitido.

A meta de reduzir o quadro de funcionários da empresa vem desde 1995. Há dez anos, a Sabesp tinha cerca de 18 mil trabalhadores; hoje, estamos com menos de 14 mil. Há uma contribuição também do próprio sindicato. Temos um sindicato cuja direção está há muito tempo e trabalha como uma espécie de aliada do próprio governo e dos acionistas. Todo ano é colocado em acordo coletivo a demissão de 2% do quadro de funcionários. Esse ano demitiram 2% além dos aposentados e não há reposição de quadros. Portanto, no momento de crise a Sabesp vem demitindo e repassando os serviços às terceirizadas, que são justamente as empresas que financiam as campanhas eleitorais.

Há uma visão desses administradores neoliberais de que quem faz o serviço bem feito é o setor privado e não o público. Na realidade, o setor público pode fazer bem feito, basta fazer com seriedade e sem se submeter aos parceiros privados. O serviço que a Sabesp faz sem dúvida é muito melhor do que o serviço executado pelos empreiteiros. E outra: o serviço terceirizado ainda é mais caro, além de ter qualidade inferior. Precisamos colocar no papel. A política tanto da empresa quanto do governo é de redução de quadros, cada vez mais vão terceirizando, inclusive, as áreas-fim da empresa.

Voltando à questão do sindicato: houve demissão de 604 trabalhadores este ano e não houve a paralisação de um único dia. Fizeram um “acordo de paz” no qual o sindicato não faria greve, mas a empresa não demitiria mais. Foi dada a liminar que afirmava que nenhum trabalhador seria demitido até o fim das negociações e o sindicato se comprometia a não fazer greve. Mas a empresa já tinha demitido. Há uma conivência.

No ano passado, o sindicato fechou o acordo coletivo antes da data-base para não desgastar o governo, pois havia a possibilidade de fazermos greve nas proximidades da Copa do Mundo e num ano eleitoral. Foi feito esse acordo rebaixado no mês de abril, antes da data-base, em maio. Isso nunca havia sido feito. Sempre se fecharam acordos depois de maio, nunca antes. E foi assinada novamente uma cláusula que prevê a demissão de mais 2% do quadro técnico. Com isso, mais demissões estão previstas para setembro. Significa comprometer ainda mais o abastecimento de água.

Fonte – Raphael Sanz, Correio da Cidadania / EcoDebate de 28 de agosto de 2015

Parabéns ao Marzeni Pereira pela coragem de expor a farsa do governo de que que não existe a crise da água.

El Niño deve ter o efeito mais devastador em duas décadas

A anomalia climática, que espalha secas e tempestades, já começou e deve se amplificar até 2016 — com força mais destruidora do que a de 1997, seu ano mais dramático

Histriônico, corpanzil à mostra, o humorista Chris Farley, estrela do programa Saturday Night Live, criou um dos esquetes mais falados de 1997, ano em que um fenômeno da natureza virou assunto de mesa de bar. “Todas as tempestades tropicais devem curvar-se diante do El Niño. Juro por Deus que o El Niño está vindo pegar vocês”, esbravejava. O tempo apagou a graça do personagem, mas o antigo sucesso, disponível no YouTube, ajuda a entender o impacto de uma alteração climática, batizada por pescadores do Peru e do Equador para lembrar o Menino (Niño) Jesus, em virtude de correntes marítimas quentes e inesperadas que despontavam próximo ao Natal.

Consequência do aquecimento brusco das águas do Pacífico tropical, o El Niño é um evento comum. Ocorre em intervalos que variam de dois a sete anos. Em 1997, ele mostrou toda a sua força ao elevar a temperatura das águas do Pacífico em até 5 graus. O resultado foi uma montanha-russa na pressão atmosférica, com mudanças bruscas na intensidade e no rumo dos ventos. Houve secas onde era para chover e tempestades onde devia apenas chuviscar. O ano seguinte, 1998, filho do El Niño, foi o mais quente desde o início das modernas medições. Os Estados Unidos presenciaram o período mais chuvoso em 104 anos e o norte do Brasil sofreu com secas e incêndios florestais, no avesso das chuvas e enchentes do sul. Calcula-se que os efeitos globais do El Niño de 1997 tenham levado à morte 23 000 pessoas e deixado 45 bilhões de dólares de prejuízo. A notícia preocupan­te: tudo indica que, neste ano, terá início um El Niño que pode superar o de dezoito anos atrás, mesmo em suas consequências negativas.

Há duas formas principais de identificar o estabelecimento de um fenômeno desse gênero (veja o quadro acima). Inicialmente, pela medição da temperatura das águas superficiais do Pacífico tropical. Se a elevação passa de 0,5 grau, configura-se um El Niño. Caso supere 1,5 grau, considera-se que ele é intenso. Hoje, o aumento está em torno de 1 grau. O El Niño chegou, porém não se estabilizou, e, pelas estimativas de climatologistas, isso só deve ocorrer quando ultrapassar os 2 graus. Há quem aposte que chegará próximo dos 3 graus. A outra forma de identificá-lo é por meio do chamado Índice de Oscilação do Sul (SOI). Trata-se de um número, neutro, positivo ou negativo, que mede a diferença da pressão atmosférica entre dois pontos da Terra, um na cidade australiana de Darwin e o outro no Taiti. Em situação normal, ambos têm a mesma pressão. Quando há um El Niño, cria-­se uma diferença negativa entre eles.

Um olhar cuidadoso sobre o clima ao longo deste ano e as previsões para 2016 demonstram que estamos na iminência de um El Niño crescido. Há similaridades evidentes entre 1997 e 2015. Além da alta possibilidade de a temperatura média do Oceano Pacífico novamente se elevar mais de 2 graus, nos dois casos a diferença apontada pelo SOI gira em torno de -15, o que evidencia uma disparidade radical entre a pressão atmosférica na Austrália e no Taiti. Por enquanto, não sentimos os efeitos mais drásticos deste El Niño, mas um comunicado da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (Noaa) alerta para o fato de que as piores consequências estão por vir. Há, segundo os especialistas, 85% de probabilidade de o fenômeno continuar ao menos até abril do ano que vem.

O El Niño deve espalhar anomalias climáticas pelo planeta (veja o quadro abaixo). O norte do Brasil, por exemplo, pode ficar ainda mais seco, vetor para incêndios naturais em florestas. O sul deve sofrer com tempestades e inundações. “O problema é que não conseguimos prever tudo com total certeza. Um El Niño nunca é igual ao antecessor”, afirma a americana Michelle L’Heureux, meteorologista do Centro de Previsões Climáticas do Noaa. Mas existem algumas pistas para indicar a dimensão do fenômeno.

Chove quase metade do usual no norte e no nordeste brasileiros desde março deste ano. Em consequência, o risco de incêndios em florestas e de perdas na agricultura e na pecuária nordestinas é maior, com evidente prejuízo para a oferta de energia de fontes hidrelétricas e para o abastecimento de água. No sul, houve 64% de aumento na quantidade de chuvas em julho em relação ao ano anterior. Culturas típicas da temporada de verão, como soja e milho, devem se beneficiar. Haverá enchentes, porém, o que deve levar a mortes e a números exponenciais de desabrigados. O El Niño, na trilha de seus estragos, mexe inapelavelmente com a economia mundial, sobretudo quando se verifica que os Estados Unidos estarão entre os países hipoteticamente mais afetados. Uma área ainda mais quente de águas do Pacífico Norte, conhecida como “a bolha” – inexistente no fenômeno extremo de 1997 -, tende a diminuir a quantidade de chuvas que rumam em direção à Costa Oeste americana. Em consequência, deve-­se intensificar a gravidade da seca no Estado da Califórnia.

Preocupa saber que se evoluiu muito pouco ou quase nada na tecnologia de detecção e combate à anomalia climática desde 1997. Para identificar a chegada do El Niño, ainda se usam os mesmos dois métodos do fim dos anos 90. Há boias meteorológicas espalhadas pelo Pacífico equatorial que monitoram a temperatura de águas em até 500 metros quadrados de superfície aquática, a intensidade dos ventos e as condições atmosféricas. Além disso, os climatologistas se apoiam em uma rede de mais de 100 satélites, quantidade pouco maior que a de 1997, afeitos a monitorar a temperatura dos oceanos, a formação de campos de vapor em áreas dos mares e a distribuição de ozônio na atmosfera.

Na verdade, apesar dos avanços tecnológicos, houve falhas no monitoramento do fenômeno nos últimos dezoito anos. Em 2012, o Noaa sofreu cortes de orçamento do governo americano, sendo forçado a desativar um navio encarregado da manutenção das boias no Pacífico. Resultado: quinze das antes setenta unidades não funcionam mais. Das 55 que sobraram, mais da metade apresentou falhas nos últimos dois anos. Em resumo, o Noaa vem trabalhando com 40% dos recursos que tinha para prever e combater os efeitos do El Niño. “É o fenômeno climático mais importante da Terra e nos despreparamos para ele”, reclamou o americano Michael McPhaden, cientista do Noaa que dirigiu o projeto das boias. Um editorial da revista americana Science, a mais prestigiada publicação de ciência do planeta, faz eco ao descuido: “Para economizar poucos milhões de dólares, o Noaa deixou o planeta parcialmente cego a um fenômeno que pode custar bilhões de dólares em danos”.

Soa exagero, parece profecia do acaso, mas é o que a ciência antecipa. No entanto, há um alento nesse cenário de contornos ruins: sabemos hoje muito mais sobre o que é o El Niño e o que ele pode causar. Estudos que surgiram na última década começam a associar o aquecimento global radical pelo qual a Terra tem passado no último século, em consequência direta da queima de combustíveis fósseis como o petróleo, com o gradual crescimento da força do El Niño. Ou seja, são os gases de efeito estufa emitidos pela humanidade que podem estar alimentando a anomalia. Se a teoria se confirmar, o setor privado poderá se tornar um grande aliado. Em fevereiro deste ano, a companhia americana de exploração espacial SpaceX, criada por Elon Musk, o Steve Jobs da hora (criador também do sistema de pagamentos on-line PayPal e da fabricante de carros elétricos Tesla), uniu-­se à Nasa para levar para os céus o primeiro satélite capaz de monitorar com apuro mudanças climáticas. Inovação que deve ser usada para prever efeitos do El Niño e, assim, se preparar para eles.

Fonte – Raquel Beer, Veja de 21 de agosto de 2015

São Paulo concede isenção fiscal para os setores de energia elétrica, eólica e solar

A medida visa fortalecer a produção de energia elétrica e de equipamentos para a geração de energia renovável em tempos de estiagem e crise econômica

O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, publicou dois decretos nesta quinta-feira, 20 de agosto, que incentivam a produção de energia elétrica por micro e minigeradores e de peças para os setores de energia solar e eólica.

Para o secretário de Energia, João Carlos Meirelles, neste momento de crise econômica que o Brasil passa é necessário incentivar outras fontes de produção de energia para que estimule também a criação de novos empregos. “Mais uma vez São Paulo dá o exemplo, com uma importante medida para incentivar a cogeração a partir de fontes alternativas de energia. E também para a produção de equipamentos que propiciam a utilização de fontes renováveis de energia”, disse.

O decreto nº 61.439/2015 concede isenção de ICMS sobre a energia elétrica fornecida para microgeradores e minigeradores na quantidade correspondente à energia elétrica injetada na rede de distribuição.

A medida é valida para os créditos de energia ativa originados na própria unidade consumidora e também para outras unidades do mesmo titular.

Os benefícios entram em vigor a partir do dia 1º de setembro e permanecem durante a vigência no Convênio ICMS nº 16/15.

Já o decreto nº 61.440/2015, concede isenção de ICMS para a produção de equipamentos destinados a geração de energia eólica e solarimétrica. A medida isenta o ICMS das partes e peças de aerogeradores, geradores fotovoltaicos e torres para suporte de energia eólica.

Também estão contemplados pela medida os conversores de frequência de 1.600 kVA e 620 volts; fio retangular de cobre esmaltado de 10 por 3,55 milímetros e barra de cobre 9,4 por 3,5 milímetros.

São Paulo e as energias renováveis

São Paulo já tem sua importância na geração de energia fotovoltaica, com a usina de Tanquinho no município de Campinas, com potência de 1.082 KWp e capacidade de gerar 1,6 GWh por ano. Essa energia é suficientes para suprir 657 residências com consumo de 200 KWh/mês cada.

O Estado também conta com empreendimentos vencedores do Leilão de Reserva da Aneel, em outubro de 2014, que estão sendo instalados em Dracena e Guaimbê com potência de 270 MWp.

Existem ainda no Estado de São Paulo, conectados ao sistema, 32 empreendimentos de micro e mini geração distribuída, que serão beneficiados pela medida.

Fonte – Secretaria de Energia de São Paulo de 21 de agosto de 2015

Infância acima do peso

Níveis de obesidade infantil no Brasil não param de subir, encostam nos números dos EUA e colocam a saúde de nossas crianças em risco. Excesso de influência da indústria de alimentos nas políticas de governo é obstáculo para frear avanço

Já faz tempo que a obesidade deixou de ser apenas um problema de “países ricos” e tornou-se uma epidemia global. Mais recentemente, essa mesma “globalização” aconteceu especificamente com a obesidade infantil, inclusive no Brasil. Por aqui, uma em cada três crianças já está acima do peso.

Aliás, se nos Estados Unidos, por exemplo, a prevalência de obesidade infantil é ligeiramente maior (34,2%) do que a registrada no Brasil, a tendência de alta já parece controlada por lá, segundo levantamento mais recente, de 2012. No Brasil, ao contrário, o crescimento ainda se mostra fora de controle (veja gráfico da próxima página).

Nas últimas três décadas, o total de crianças brasileiras acima do peso passou de cerca de 9% na década de 70 para aproximadamente 13% nos anos 80, e deu um enorme salto para 33,5% em 2009, quando foi realizado o último levantamento sobre o tema – a Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Mas o que levou a um aumento tão intenso nesse período? Em primeiro lugar, é preciso entender que a obesidade é uma doença multifatorial, isto é, é causada pela somatória de diversos fatores simultâneos. Assim, uma das grandes causas é a mudança no padrão de alimentação da população brasileira. “Trata-se da substituição de refeições e comidas feitas com alimentos frescos ou pouco processados por produtos ultraprocessados, como refrigerantes, salgadinhos, biscoitos e macarrão instantâneo”, explica a nutricionista e pesquisadora do Idec, Ana Paula Bortoletto.

Ela comenta ainda que, no caso específico das crianças, a baixa duração do aleitamento materno exclusivo agrava o problema. O leite materno tem propriedades que “protegem” a criança de se tornar obesa, devendo ser estimulado, no mínimo, até os seis meses de idade. A média nacional, contudo, mal chega aos dois meses.

A nutricionista Clarissa Fujiwara, coordenadora da Liga de Obesidade Infantil do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP), enfatiza também fatores do cotidiano. “Nos centros urbanos, a jornada de trabalho dos pais e a locomoção encurtam o tempo disponível para o preparo de refeições. E o decrescente estímulo à atividade física, determinado pelo maior ‘tempo de tela’ – televisão, computador, videogame, celulares e tablets –, é somado à escassez de espaços públicos que permitam à criança brincar e se exercitar”, aponta.

Na telinha e fora dela

Ao falar em “tela”, chega-se a outro ponto fundamental por trás do aumento assustador da obesidade infantil: a propaganda de alimentos direcionada às crianças. Seja na TV, seja nos próprios rótulos dos produtos, as técnicas são diversas. Pesquisa realizada pelo Idec identificou em supermercados alguns dos principais recursos usados pelos fabricantes em embalagens: excesso de cores chamativas, como azul e vermelho, uso de personagens do universo infantil, além de alegação de enriquecimento com algum nutriente, como “fonte de vitaminas” ou “fonte de energia”, o que pode levar os pais a acreditar que o produto é mais saudável do que realmente é.

De acordo com Michele Lessa, coordenadora de Alimentação e Nutrição do Ministério da Saúde, há uma preocupação da pasta em aprimorar o uso dessas alegações nos produtos industrializados para evitar confusão entre os consumidores. “No ano passado, foi lançado um refrigerante fortificado com vitaminas, o que é totalmente indesejável e injustificável do ponto de vista de saúde pública”, comenta.

Segundo Ekaterine Karageorgiadis, advogada do Instituto Alana, pesquisas já estabeleceram a relação entre publicidade direcionada às crianças e obesidade infantil. “Associar lanches a brinquedos colecionáveis e de personagens conhecidos, por exemplo, aumenta o consumo desses produtos. A consequência é a fidelização da criança às marcas e o estímulo excessivo e habitual desses produtos desde muito novas, que é um dos fatores da obesidade infantil e das doenças associadas”, diz.

A especialista informa que esse tipo de publicidade viola, a um só tempo, a Constituição, o Estatuto da Criança e do Adolescente, a Resolução 163 do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda) e o Código de Defesa do Consumidor, que proíbe qualquer tipo de publicidade abusiva.

Como explica Vanessa Anacleto, cofundadora do Movimento Infância Livre de Consumismo, toda e qualquer publicidade que dialoga diretamente com a criança é abusiva e, portanto, ilegal. “A criança não tem condições de defender-se do discurso do anunciante. Esta é tarefa dos adultos, por isso a publicidade desses produtos deve ser voltada para os pais”, argumenta.

Impactos na saúde

O peso excessivo na infância, se não tratado, é uma porta de entrada para a obesidade para o resto da vida. “Estima-se que aproximadamente 30% dos adultos com obesidade também foram obesos na infância”, afirma Fujiwara. A convivência com a obesidade aumenta o risco de desenvolver doenças como diabetes, pressão alta e colesterol alterado. Esses três problemas, por sua vez, elevam as chances de doenças do coração, como infarto, e da circulação, como acidente vascular cerebral (AVC), que podem ser fatais.

No caso de uma criança, o maior problema está no tempo estendido de exposição à obesidade. “Quanto mais tempo o indivíduo se mantém obeso, maior a probabilidade de manifestação das comorbidades”, explica a especialista.

E o risco não é só no futuro: são cada vez mais frequentes casos de crianças que desenvolvem essas complicações já durante a infância. “Não é incomum nos serviços de saúde que crianças e adolescentes necessitem de medicamentos não só para obesidade, mas também para controle das comorbidades [diabetes, hipertensão e colesterol]”, diz a nutricionista do HC.

Problema de saúde

• Cerca de 30% dos adultos obesos já tinham excesso de peso na infância.
• A criança obesa fica mais tempo “exposta” à obesidade e, por isso, tem mais risco de desenvolver comorbidades.
• A obesidade aumenta o risco de diabetes, pressão alta, colesterol alterado, entre outras doenças.
• São cada vez mais frequentes casos de crianças que desenvolvem complicações de saúde ainda na infância.

Hábitos alimentares

Tanto para tratar a obesidade infantil quanto para preveni-la, não resta dúvida de que é necessário formar um hábito alimentar saudável o mais cedo possível. Para isso, os pais devem ter um olhar atento sobre a alimentação da criança. Como regra de ouro, de acordo com o atual Guia Alimentar à População Brasileira, elaborado pelo Ministério da Saúde, deve-se sempre preferir alimentos frescos, ou pouco processados, aos “ultraprocessados”.

Como saber, na prática, se o alimento é ou não excessivamente processado? Uma dica da pesquisadora do Idec é ler a lista de ingredientes na embalagem. “Se a lista for muito grande [cinco ou mais ingredientes], com nomes que não conhece, evite comprar esses produtos”, recomenda Bortoletto. Esses nomes desconhecidos, muitas vezes, se referem a conservantes e aditivos, muitos deles ricos em sódio.

Outra dica é atentar à ordem da lista de ingredientes, apresentada de acordo com a quantidade adicionada no produto. Ou seja, o primeiro ingrediente da lista é sempre o mais abundante. Assim, fuja de alimentos cujas listas comecem com açúcar, xarope de glicose ou de milho, por exemplo.

Bons hábitos de alimentação exigem um paladar acostumado aos alimentos saudáveis. Fujiwara explica que o contato precoce e intensivo com industrializados durante a infância impacta negativamente na construção de hábitos que podem durar até a adolescência e a idade adulta. “Especialmente produtos com elevada quantidade de açúcar – refrigerantes, sucos artificiais em pó, achocolatados – condicionam o paladar a sabores demasiadamente doces.” O mesmo vale para o sódio e o sabor salgado, de acordo com a nutricionista.

Políticas públicas

Além de todo esforço e boa vontade dos pais, é necessário um ambiente na sociedade que favoreça a promoção da alimentação saudável. Para isso, algumas políticas públicas têm sido pensadas – mas nem todas vêm sendo postas em prática com sucesso.

O Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), por exemplo, estabelece que 30% das compras de alimentação escolar sejam provenientes da agricultura familiar e, portanto, livres de produtos processados. “Essa exigência representa o maior avanço das políticas públicas em alimentação e nutrição dos últimos anos. Porém, nem todos os municípios estão conseguindo cumprir o mínimo”, lamenta a nutricionista do Idec. Ela acrescenta que, nas escolas, ainda é possível fazer mais. “Garantir estrutura adequada para o preparo de refeições saudáveis, além de estabelecer regras para a venda de alimentos em cantinas, proibir qualquer tipo de publicidade infantil e incluir educação nutricional no currículo escolar são alguns exemplos.”

Medidas de regulação de alimentos ainda esbarram em dificuldades. Há um grupo de trabalho na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), do qual o Idec participa, sobre revisão das normas de rotulagem de alimentos – que poderia, por exemplo, obrigar a discriminação da quantidade de açúcar, hoje facultativa e raramente informada no rótulo. “A dificuldade é que as normas são harmonizadas com os países do Mercosul, o que torna o processo muito lento”, afirma Bortoletto.

A pesquisadora ressalva, no entanto, que nenhuma política será efetiva se o governo brasileiro não se dispuser a enfrentar os interesses das grandes transnacionais de alimentos. “A indústria de alimentos está usando as mesmas táticas da indústria do tabaco para frear o avanço das políticas de alimentação e nutrição”, diz.

O relatório anual de 2014 da Associação Brasileira das Indústrias de Alimentos (Abia), por exemplo, lista entre as “realizações” da entidade o lobby junto a parlamentares, que resultou no arquivamento de diversos projetos de lei de regulação de alimentos no Congresso; junto ao Executivo, influenciando grupos de trabalho do Ministério da Saúde de acordo com os interesses da indústria; e atuação no Judiciário, derrubando, por exemplo, resolução da Anvisa que disciplinava publicidade de alimentos.

Segundo Lessa, do Ministério da Saúde, medidas de proteção à criança – como a regulamentação da publicidade de alimentos dirigida ao público infantil, a regulamentação de cantinas escolares e a taxação de alimentos ultraprocessados – estão sendo discutidas pelo governo e pela sociedade civil. “A mobilização da sociedade para debater esses temas é de suma importância para avançarmos nesse sentido”, afirma.

Fonte – Revista do Idec de agosto de 2015

Blogs esmiuçam dados nutricionais em embalagens de alimentos

Quantos morangos existem num potinho de iogurte de morango? Quais são os outros termos usados para indicar a adição de açúcar em um produto? A versão light é sempre mais saudável?

A onda de blogs e páginas em redes sociais que desvendam letras miúdas e ingredientes de nomes difíceis nas embalagens de alimentos, iniciada na Inglaterra e nos EUA, está também se espalhando no Brasil.

Os criadores do sites fazem um trabalho de detetive, muitas vezes consultando artigos científicos e regulamentações internacionais, além de encherem de perguntas os SACs (serviço de atendimento ao cliente) das fabricantes.

Criado em julho de 2013, o blog e canal no YouTube “Do campo à mesa” foi um dos pioneiros no país e já acumula mais de três milhões de visualizações. Em vídeos curtos, a jornalista Francine Lima “traduz” para o público leigo as muitas vezes complexas informações nutricionais das embalagens de alimentos.

“São coisas às vezes simples, mas que as pessoas não se dão conta. Eu sempre digo: leia a lista de ingredientes e saiba que ela está em ordem decrescente. Se começou com açúcar, vá procurar algo mais saudável”, explica Francine, que grava os vídeos na cozinha de casa.

Entre os vídeos de maior sucesso estão a “investigação” sobre a quantidade de morango nos iogurtes e a diferença entre suco e néctar. Francine é mestre em nutrição e saúde pública pela USP, onde pesquisou rotulagem.

O site “Fechando o Zíper” (canal no YouTube Fechando o zíper) vai ainda mais fundo. Comandado por duas nutricionistas e um cientista da computação, faz uma avaliação detalhada de rótulos e embalagens, a maioria enviada pelos leitores, mostrando que muitos dos alimentos que se apresentam como opções mais saudáveis não são, na verdade, tão positivos assim.

Além de esmiuçar ingredientes, o grupo atribui uma nota de zero a dez para os alimentos.

“Não condenamos nada. O objetivo é que o público leigo consiga identificar se aquilo está de acordo com alguma necessidade”, diz Samantha Peixoto, criadora do site.

No exterior, a mais conhecida detetive de rótulos é a americana Vani Hari, mais conhecida como Food Babe. Com mais de 30 milhões de visitas em 2014, a morena foi eleita neste ano pela “Time”uma das 30 personalidades mais influentes da internet.

Com títulos chamativos como “o veneno que damos às nossas crianças”, Hari conquistou fãs, que costumam se mobilizar em petições virtuais para a retirada de componentes por eles considerados ruins. Pelo menos cinco marcas dos EUA já se renderam à mobilização do blog.

No Brasil, a pressão é menor, mas sites e campanhas estão tentando reproduzir a experiência americana. A especialista em vigilância sanitária da Anvisa Simone Coulaud afirma que a agência acompanha essas manifestações, e que a sociedade tem um papel importante na discussão.

Embasamento

De acordo com Mário Roberto Maróstica Junior, diretor do departamento de alimentos e nutrição da Faculdade de Engenharia de Alimentos da Unicamp, a discussão sobre alimentos é bem-vinda, mas é preciso estar atento ao embasamento e à formação de quem produz esse conteúdo.

“A gente tem de tomar contato com o que lê. Generalizar as coisas é difícil. É mentira que produtos industrializados são sempre ruins. Esse tipo de generalização têm de ser visto com cuidado”, diz.

Henrique Suplicy, endocrinologista da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, destaca que as informações dos rótulos no Brasil melhoraram, mas ainda deixam a desejar. Apesar disso, ele acredita que há certo alarmismo em muitos sites.

A Abia (Associação Brasileira das Indústrias da Alimentação) informou que alerta seus membros para o cumprimento da legislação vigente e a importância de manter canais de contato com o consumidor. A entidade ressaltou a importância dos blogs, mas disse se preocupar com algumas informações veiculadas nos sites.

“É fundamental que o consumidor seja bastante crítico sobre a origem das informações compartilhadas nesses canais. Alguns deles, sem o devido embasamento acadêmico e científico, propagam mitos equivocados sobre o que seria uma dieta e uma alimentação saudável e equilibrada, gerando, assim, desinformação e preconceitos infundados sobre determinados alimentos.”

De olho no rótulo

Dicas de especialistas para entender melhor o que dizem as embalagens

– Os ingredientes estão apresentados em ordem decrescente. Ou seja, se o açúcar é o primeiro da lista, isso significa que o alimento tem mais açúcar do que qualquer outra coisa

– Comida sem glúten não é sempre mais saudável. Muitos produtos compensam a ausência adicionando grandes quantidades de gordura e outros componentes

– Alimentos diet não têm necessariamente baixo valor calórico. Feitos para quem tem dieta com restrição de açúcar, muitos têm alta quantidade de gordura

Fonte – Giuliana Miranda, Folha de S. Paulo de 25 de agosto de 2015

José Goldemberg é nomeado presidente da FAPESP

O governador Geraldo Alckmin nomeou José Goldemberg presidente da FAPESP. O decreto de nomeação foi publicado no Diário Oficial do Estado de São Paulo do dia 22 de agosto de 2015.

Doutor em Ciências Físicas pela Universidade de São Paulo (USP), Goldemberg encabeçou a lista tríplice definida pelo Conselho Superior da Fundação e encaminhada para a escolha do governador em 12 de agosto, da qual também fizeram parte os conselheiros José de Souza Martins e Eduardo Moacyr Krieger, este, vice-presidente da Fundação.

Goldemberg foi presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e reitor da USP. Ocupou os cargos de secretário de Meio Ambiente do Estado de São Paulo e de secretário de Ciência e Tecnologia e secretário de Meio Ambiente no Governo Federal, tendo sido também ministro da Educação. Em 2008 foi agraciado com o prêmio Planeta Azul, concedido pela fundação japonesa Asahi Glass a personalidades que se destacam em pesquisa e formulação de políticas públicas na área ambiental.

Goldemberg substitui Celso Lafer, que presidiu a FAPESP por um período de oito anos, desde agosto de 2007, e cujo mandato no Conselho Superior da Fundação encerra em 7 de setembro. Professor emérito da USP, Lafer foi professor titular do Departamento de Filosofia e Teoria Geral do Direito da Faculdade de Direito da USP, ministro das Relações Exteriores e do Desenvolvimento, Indústria e Comércio.

Agência Fapesp de 25 de agosto de 2015

Arquivo de notícias

Parceiros