Solvente usado no fabrico de plásticos pode causar cancro

Conclusão foi avançada por um grupo de trabalho da Agência Internacional para a Investigação do Cancro da OMS. Getty images

Um estudo da Organização Mundial de Saúde (OMS), no qual participou o Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto (ISPUP), mostra que o estireno, um solvente orgânico utilizado no fabrico de plásticos reforçados, pode causar cancro.

Segundo um comunicado do ISPUP a que a agência Lusa teve hoje acesso, os resultados deste trabalho demonstram que o estireno – usado no fabrico de polímeros e de plásticos reforçados -, a quinolina (solvente) e o 7,8 óxido de estireno são “provavelmente carcinogénicos para os humanos”.

Esta conclusão foi avançada por um grupo de trabalho da Agência Internacional para a Investigação do Cancro (IARC), da OMS, composto por 23 cientistas de 12 países, que, em Março passado, se reuniram em Lyon (França), para ajudar a identificar substâncias químicas, usadas na indústria, com potencial de aumentar o risco de cancro no ser humano.

Apesar dos benefícios associados à utilização do estireno, o grupo reconhece que o aumento da sua produção e utilização e a disseminação da sua aplicação, “poderão potenciar efeitos adversos na saúde humana, dadas as suas características físico-químicas e toxicológicas”, explicou o investigador do ISPUP João Paulo Teixeira, que integrou a equipa.

De acordo com o próprio, apesar da “limitada evidência científica”, resultados de estudos epidemiológicos em humanos, estudos laboratoriais com animais e outros dados relevantes apontam para a probabilidade de o estireno ser carcinogénico para os humanos, pertencendo, assim, ao grupo 2A da classificação da IARC (classificação que divide os agentes em diferentes grupos, desde carcinogénicos a não carcinogénicos).

João Paulo Teixeira, referido na nota informativa, indicou que se deve evitar ou reduzir a utilização desses agentes a nível laboral, substituindo-os por produtos, misturas ou processos que “não sejam perigosos” ou que “impliquem menor risco para a segurança e a saúde dos trabalhadores”.

De acordo com o investigador, a organização do trabalho, técnicas de concecção, utilização e controlo, bem como sistemas e equipamentos de protecção são outras das medidas preventivas (ou correctivas) que podem ser aplicadas.

Neste contexto, continuou, a monitorização biológica, que consiste na quantificação e avaliação do agente químico ou do seu metabolito em meios biológicos, tais como o sangue, a urina ou o ar expirado, “assume particular relevância”.

“A monitorização ambiental pode e deve ser complementada com a monitorização biológica para alguns dos agentes químicos”, frisou.

O investigador disse ainda que esta informação poderá ser utilizada pelas agências nacionais de saúde como suporte científico ou referencial de orientação das suas acções, no sentido de prevenir a exposição a agentes nocivos para a saúde.

Periodicamente, são analisados e discutidos novos dados acerca da exposição ao estireno e outras substâncias, os seus efeitos na saúde humana e animal, bem como os mecanismos que estão na base destes efeitos, sendo essa reavaliação “essencial para uma análise e gestão do risco em matéria de saúde”, acrescenta o comunicado no ISPUP.

Os resultados deste estudo, que deu origem a um artigo recentemente publicado na revista científica The Lancet Oncology, integrarão o volume 121 da Monografia da IARC.

As monografias da IARC identificam factores ambientais que podem aumentar o risco de cancro nos humanos, como compostos químicos, agentes físicos e biológicos ou misturas complexas, lê-se ainda na nota.

Desde 1971, a IARC avaliou acima de mil agentes, dos quais mais de 400 foram identificados como carcinogénicos, provavelmente carcinogénicos ou possivelmente carcinogénicos para humanos.

Fonte – Sábado.pt de 13 de junho de 2018

A inovação budista para se adaptar à mudança climática

Estupa de gelo perto do monastério de Phyang, Ladakh, em abril de 2016Estupa de gelo perto do monastério de Phyang, Ladakh, em abril de 2016 PROYECTO ESTUPAS DE HIELO.

Engenheiro cria geleiras artificiais inspiradas em monumentos para combater a seca no Himalaia

Índia sempre oferece exemplos de adaptação aos meios naturais mais adversos. Em junho, depois de oito longos meses de inverno, as estradas de Ladakh, no extremo noroeste do país, se livram de colossais blocos de gelo. A mais de 3.000 metros de altitude, a vegetação desaparece, e as rochas se exibem perante desafiadores precipícios. Os rugidos do vento são o único som nestas terras desoladoras e de exuberante beleza. As únicas notas de cor, em muitos quilômetros ao redor, são bandeiras de preces budistas e parcos monastérios brancos, erguidos de forma caprichosa entre penhascos. A cultura e paisagem de Ladakh são virtualmente idênticas às da terra do Dalai Lama.

Este pequeno Tibete se abre a turistas, alpinistas e místicos sedentos por paisagens de alta montanha, festividades budistas, meditação e esportes radicais. A maioria desconhece que os camponeses locais batalham contra os efeitos de uma acelerada deglaciação que põe sua subsistência em risco. Também ignoram as novas invenções locais para se adaptar aos efeitos da mudança climática. Entre as mais recentes estão as estupas de gelo, monumentos sagrados que servem como reservatórios de água congelada para a irrigação.

Jean Paul é um experiente viajante francês que conhece bem o Tibete e é um apaixonado pela região ladakhi. No verão passado, ao visitar o lago Tsokar, um dos lugares favoritos para a observação de aves migratórias, teve uma desagradável surpresa: o lago estava praticamente seco. Conforme lhe contaram os aldeões, era a primeira vez que o viam assim. A grua de pescoço negro, um ave mítica no budismo tibetano, estava ausente, e só alguns asnos selvagens rondavam o que era agora uma várzea seca. A surpresa de Jean Paul poderia se explicar pela combinação da redução das nevadas e de um aumento constante e intenso das temperaturas.

Enquanto as geleiras planas derretem em questão de dias, uma cônica pode levar semanas. SONAM WANGCHUNK, FUNDADOR DAS ESTUPAS DE GELO

Em Ladakh, um dos lugares mais afastados da industrialização no mundo todo, a temperatura subiu dois graus desde 1980. É o mesmo aumento que, comparado aos níveis pré-industriais, a comunidade internacional se comprometeu a evitar até o final deste século, na cúpula de Paris de 2016 – embora alguns dirigentes, como Donald Trump, tenham retirado seu país do acordo.

Sem água não há vida selvagem e, se ela não chegar a tempo, a agricultura tampouco é possível. Em Ladakh, os assentamentos humanos se adaptaram durante séculos para dispor da água do degelo das geleiras no começo da primavera. Assim, os camponeses têm o tempo exato para semear antes que chegue o tórrido calor do verão, e colher antes que as temperaturas desabem abaixo dos 30 graus negativos. Com o derretimento das geleiras, elas recuaram para cotas mais altas. Ali permanecem mais tempo refrigeradas, e só degelam no final da primavera. Tarde demais para os agricultores.

Tenzin é um dos camponeses de uma pequena aldeia de Markha, um estreito vale onde o caudaloso rio Zanskar, um afluente do Indo, serpenteia entre precipícios de rochas avermelhadas, e onde a única vida que aparece das alturas é a das vigilantes cabras azuis do Himalaia. Tenzin acha muito difícil que os jovens possam seguir a tradição agrícola se continuar nevando menos, e entende, com resignação, que os jovens abandonem as aldeias.

Trabalhador posa junto a uma estupa de gelo em processo de construçãoTrabalhador posa junto a uma estupa de gelo em processo de construção PROYECTO ESTUPAS DE HIELO

A vida em Ladakh exige uma capacidade extraordinária de adaptação, e as mudanças climáticas são extremas. Embora o aumento de temperaturas produza secas no começo da primavera, também acarreta um excesso de água no verão. Em junho, quando as temperaturas são mais altas do que o habitual, acelera-se o derretimento das geleiras. Enormes blocos de gelo se fundem com rapidez e transbordam o caudal dos rios, formando lagoas glaciares. Essa água estancada é muito perigosa: em 2010, uma tempestade repentina transbordou algumas lagoas e alagou 71 povoados, incluindo a capital regional, Leh. Pelo menos 255 pessoas morreram nessa catástrofe.

A solução: um cone gelado

A deglaciação e seu impacto na agricultura viraram a obsessão de Sonam Wangchuk, um engenheiro e pedagogo ladakhi. Não foi o primeiro: no final dos anos noventa, outro engenheiro local chamado Chewang Norphel já criava grandes lagos gelados nas encostas da alta montanha, desviando córregos. Mas Norphel tinha um obstáculo para ligar esses reservatórios às aldeias: a altura. Fascinado por essa inovação, Wangchuk se propôs superar o obstáculo.

Um pedaço de gelo debaixo de uma ponte em um dia ensolarado de maio deu a pista a Wangchuk: o gelo se conservava graças à sombra, apesar do calor. Essa imagem o inspirou a desenhar uma estrutura cônica onde o gelo faz sombra a si próprio. “A base larga de um cone permite que mais superfície de gelo faça sombra a si mesmo (…). Enquanto as geleiras planas se derretem em dias, uma cônica pode levar semanas”, explica Wangchuk no vídeo promocional The Monk, the Engineer and the Artificial Glaciar (“o monge, o engenheiro e a geleira artificial”).

Tecnologia e desenvolvimento sustentável

Às margens do rio Indo, escondido entre vastas esplanadas desérticas, perto do povoado de Phey, encontra-se o internato Secmol, fundado por Wangchuk em 1988. Seu critério de admissão é bem peculiar: ter sido reprovado em algum outro centro escolar. Entre edifícios tradicionais de adobe, fornos solares, estufas e hortas, muitos jovens ladakhis aprendem um ofício para desenvolver suas aldeias de forma sustentável.

A estupa gelada foi enfeitada com bandeiras de oração, e mantras foram entoados

Foi lá que Wangchuk desenvolveu com seus alunos as estupas de gelo. Em uma aula gravada para um documentário do canal Al Jazeera, o professor explica a seus alunos com uma mangueira e um balde d’água como se constrói uma estupa de gelo. O balde é colocado no alto de um morro, a mangueira funciona como sifão. Wangchuk dobra um pedaço da mangueira, e a água jorra para cima, “quando cai e entra em contato com o vento de 20 graus negativos, ela congela”, descreve o professor.

O balde com água representa um riacho a 60 metros de altura, o qual se bifurca através de tubos, representados pela mangueira. Os canos percorrem quase três quilômetros sob a terra, até a base da estupa; lá, sua única saída é através de tubos verticais de 15 metros, o pedaço dobrado da mangueira. Em seu extremo há um aspersor para que a água, ao cair, crie uma base ampla.

Quando as temperaturas caem sem piedade, entre dezembro e janeiro, o equipamento de Wangchuk começa a funcionar. Trabalham de noite, aproveitando as temperaturas gélidas e a escuridão para que o gelo se forme rapidamente. Em questão de semanas, as estupas alcançam os 25 metros de altura e uma capacidade superior a 150.000 litros. O objetivo é que possam fornecer água para a irrigação dos campos de março a maio, “meses críticos para a semeadura”, observa Wangchuk ao canal indiano Fator Daily.

Uma estupa de gelo, à noiteUma estupa de gelo, à noite PROYECTO ESTUPAS DE HIELO

Mas há outros objetivos: criar uma universidade alternativa, o Instituto de Alternativas do Himalaia de Ladakh. Um centro onde serão pesquisadas soluções científicas para os problemas de adaptação à mudança climática no Himalaia. Seu futuro campus já conta com 5.000 árvores, irrigadas pelo degelo das estupas e que foram plantadas em 2015 por mil pessoas, entre eles aldeões, monges e militares. O imenso e árido vale ao redor de Phyang começa a se vestir de verde.

Tradição local e desafios globais

A espiritualidade vibra nesta terra de lamas. O Dalai Lama passa seus verões em Ladakh, onde reúne multidões em seus ensinamentos espirituais. Os ladakhis e os 7.000 refugiados tibetanos vivem em seu cotidiano uma conexão mística com seu entorno. A cada ano as aldeias convocam um astrólogo para escolher o dia auspicioso para semear. Antes de começar, celebra-se uma cerimônia para apaziguar os espíritos da água e da terra, que podem se zangar quando se pica a pedra, ara-se ou se abrem os canais de irrigação.

Essa relação mística motivou o desenho das estupas de gelo. Assim explica Suryanarayanan Balasubramanian, matemático e membro da equipe de Wangchuk: “A semelhança com as estupas não é casual e permite integrá-las na paisagem e na cultura dos povos”. Uma integração também apreciada no Ocidente. Seu desenho inovador lhe valeu o prestigioso prêmio suíço Rolex de Empreendedorismo em 2016, e o catedrático da Universidade de Glasgow Sean Johnston, especializado em tecnologia e meio ambiente, opina que as estupas de gelo “são um exemplo de como a tecnologia pode ajudar a adaptação à mudança climática incluindo valores locais”.

À esquerda, destaca-se uma estupa de gelo em plena paisagem desérticaÀ esquerda, destaca-se uma estupa de gelo em plena paisagem desértica PROYECTO ESTUPAS DE HIELO

Uma dimensão sagrada é o que distingue essas geleiras artificiais de muitas outras adaptações à mudança climática. Em 2015, quando se construiu a primeira estupa, convidou-se para sua inauguração o lama Drikung Kyabong Chetsang Rinpochey, um dos mais importantes no budismo tibetano. A estupa gelada foi enfeitada com bandeiras de oração, e mantras foram entoados.

Chetsang Rinpochey estimula a exportação das estupas de gelo para onde puderem ser úteis. Na verdade, alguns monastérios não demoraram a tentar produzir estupas geladas com seus próprios meios, embora seja cedo, porque “ainda estão sendo feitos ajustes na fase piloto”, comenta Suryanarayanan. Além disso, a equipe de Wangchuk já levou as estupas aos Alpes e aos Andes para procurar aplicações dos novos lagos glaciares na drenagem de água e na geração de energia.

Entre 18 e 23 de março foram realizados o Fórum Internacional da Água e o Fórum Alternativo Internacional da Água, em Brasília, e as políticas de acesso à água monopolizaram os debates. Os desafios da mudança climática representam novas oportunidades, inclusive para aqueles que, como os camponeses ladakhis, não contribuíram para suas causas.

Fonte – Jordi Albacete, El País de 07 de maio de 2018

ONU pede mudança nos padrões de consumo para evitar seca e desertificação

Combater as mudanças climáticas e seus impactos é um dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável propostos para serem adotados em setembro. Foto: Flickr/Tobias Sieben (CC)Combater a degradação dos solos é uma meta do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) nº 15. Foto: Flickr/Tobias Sieben (CC)

Em mensagem para o Dia Mundial de Combate à Desertificação e à Seca, lembrado neste domingo (17), a diretora-geral da UNESCO, Audrey Azoulay, alertou que 120 mil quilômetros quadrados de terra se tornam inférteis todos os anos, por causa da desertificação. A área afetada por esse “desastre contínuo e silencioso”, segundo a dirigente, equivale a metade do território do Reino Unido. ONU faz apelo por mudanças na gestão dos solos e recursos naturais.

Em mensagem para o Dia Mundial de Combate à Desertificação e à Seca, lembrado neste domingo (17), a diretora-geral da UNESCO, Audrey Azoulay, alertou que 120 mil quilômetros quadrados de terra se tornam inférteis todos os anos, por causa da desertificação. A área afetada por esse “desastre contínuo e silencioso”, segundo a dirigente, equivale a metade do território do Reino Unido. ONU faz apelo por mudanças na gestão dos solos e recursos naturais.

“O fenômeno da degradação da terra ocorre nas áreas secas do planeta, que cobrem 40% da superfície do planeta e é onde habitam 2 bilhões de pessoas”, disse a chefe da agência da ONU. A iniciativa Economia da Degradação da Terraestima que são perdidas por ano 75 bilhões de toneladas de solo de terras aráveis. Sua preservação em nível global poderia liberar ganhos econômicos anuais de 400 bilhões de dólares.

Audrey ressaltou que a desertificação tem consequências drásticas para a natureza e para as pessoas que dependem dela: a destruição de ecossistemas inteiros, a aceleração da mudança climática, barreiras ao desenvolvimento e o aumento da pobreza.

“De acordo com o Secretariado da Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação (UNCDD), é provável que, até 2030, 135 milhões de pessoas migrem em todo o mundo, devido à deterioração da terra onde vivem”, acrescentou a autoridade máxima da UNESCO.

Dados da UNCDD revelam também que um terço de todas as terras do planeta já estão severamente degradadas. Ao longo dos últimos 30 anos, dobrou o consumo das reservas e recursos naturais do mundo. Atualmente, mais de 1,3 bilhão de pessoas já vivem em comunidades agrícolas onde o solo está degradado.

“Por meio do Programa O Homem e a Biosfera, do Programa Internacional de Geociências e Geoparques e do Programa Hidrológico Internacional, a UNESCO está trabalhando para promover a agricultura e os sistemas alimentares integrados, assim como os padrões sustentáveis de uso da terra, em mais de 800 locais em todo o mundo”, completou Audrey.

Escolhas individuais, consequências globais

Também por ocasião do dia internacional, a secretária-executiva da UNCDD, Monique Barbut, pediu compromissos de cidadãos e empresas para proteger os solos e preservar seu potencial produtivo. Segundo a especialista, o crescimento populacional e mudanças nos padrões de consumo têm aumentado a pressão do homem sobre os recursos “finitos” dos ecossistemas.

“Felizmente, com mudanças no comportamento corporativo e do consumidor e com a adoção de planejamento mais eficiente e práticas sustentáveis, pode haver o suficiente para todos. Terra suficiente para fornecer comida e água para todos”, afirmou Barbut.

“Então, eu gostaria de pedir a vocês: quando escolherem o que comer, o que vestir ou o que dirigir, pensem em como sua escolha tem impacto sobre a terra, para melhor ou pior. Somos todos tomadores de decisão. Nas nossas vidas diárias, nossas escolhas têm consequências. E nossas pequenas decisões podem transformar o mundo.”

De acordo com a iniciativa Economia da Degradação da Terra, a conservação dos solos também é um bom investimento. O combate à erosão que afeta 105 milhões de hectares poderia poupar 62,4 bilhões de dólares em recursos líquidos ao longo dos próximos 15 anos. Outra medida é melhorar os estoques de carbono por meio de solos agrícolas, o que poderia gerar um valor potencial no mercado de carbono de 96 a 480 bilhões de dólares por ano.

Uma das metas do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas (ODS) nº 15, sobre a proteção da vida terrestre, é alcançar zero degradação dos solos até 2030.

Fonte – ONU Brasil de 15 de junho de 2018

 

Derretimento acelera, e Antártida perde 2,7 trilhões de toneladas de gelo em 25 anos

Pinguim na ponta do iceberg em Yankee HarbourAntártida derrete e nível do mar sobe 3 vezes mais entre 2012 e 2017. REUTERS

A Antártida está assistindo a um derretimento acelerado. Segundo imagens de satélites que monitoram o continente gelado, ele está perdendo 200 bilhões de toneladas de gelo por ano.

O efeito imediato desse derretimento para o meio ambiente é o aumento global do nível do mar em aproximadamente 0,6 milímetros anuais – um número três vezes maior se comparado com os dados de 2012, quando a última avaliação foi feita.

Cientistas fizeram um levantamento da massa do manto de gelo antártico no período de 1992 a 2017 e divulgaram novos números na publicação acadêmica Nature.

As informações divulgadas, bem como a tendência de aceleração do derretimento, terão de ser levadas em consideração pelos governos à medida que planejam futuras medidas para proteger as comunidades costeiras de áreas de baixa altitude.

Os pesquisadores responsáveis pelo levantamento afirmam que a redução da camada de gelo está acontecendo principalmente no oeste do continente, onde águas sob temperaturas mais elevadas estão submergindo e derretendo as frentes de geleiras que terminam no oceano.

“Não podemos dizer quando isso começou – não coletávamos medições no mar naquela época”, explicou o professor Andrew Shepherd, que lidera a Pesquisa de Comparação do Balanço da Massa de Gelo (Imbie, na sigla em inglês)

GeleiraCientistas fizeram um levantamento da massa do manto de gelo antártico no período de 1992 a 2017. NASA

“Mas podemos afirmar que hoje está quente demais para a Antártida. Está cerca de meio grau Celsius acima do que o continente suporta. Sua base está derretendo cerca de cinco metros a cada ano, e é isso que está provocando o acréscimo ao nível do mar que estamos vendo”, disse ele à BBC News.

O levantamento indicou que, no total, a Antártida perdeu cerca de 2,7 trilhões de toneladas de gelo entre 1992 e 2017, o que corresponde a um aumento no nível global do mar de mais de 7,5mm.

Ajuda que vem de cima

Satélites de agências espaciais têm sobrevoado a Antártida desde os anos 1990. A Europa, em especial, observa a região há mais tempo, desde 1992.

Essas espaçonaves são capazes de capturar o derretimento medindo as mudanças na altura da camada de gelo e a velocidade com que ela se move em direção ao mar.

Missões específicas conseguem calcular, por exemplo, o peso do manto de gelo ao detectar mudanças na força da gravidade.

O trabalho da equipe liderada por Shepherd é organizar todas essas informações coletadas para explicar o que está acontecendo no continente gelado.

Glaciologistas que estudam a Antártida normalmente consideram três regiões distintas, pois elas se comportam de maneira ligeiramente diferente uma da outra.

Na Antártida Ocidental, dominada por geleiras de terminação marinha, as perdas estimadas subiram de 53 bilhões para 159 bilhões de toneladas por ano durante todo o período de 1992 a 2017.

ilustração de um satéliteDesde 1992, satélites europeus ajudam a monitorar o continente gelado. ESA

Na Península Antártica, o território em forma de “dedo” que aponta para a América do Sul, as perdas subiram de 7 bilhões para 33 bilhões de toneladas anuais.

Segundo os cientistas, isso aconteceu, em grande parte, porque as plataformas flutuantes de gelo desmoronaram, permitindo que as geleiras que ficavam atrás derretessem mais rápido.

O lado leste do continente é a única região onde há registro de crescimento da camada de gelo. Grande parte dessa região está fora do oceano e acumula neve ao longo do tempo. Por isso, não está sujeita aos mesmos níveis de perda de gelo detectado em outras partes do continente.

No entanto, os ganhos, mensurados em aproximadamente 5 bilhões de toneladas por ano, são considerados muito pequenos se comparados com as perdas.

Os cientistas responsáveis pelo estudo salientam que esse crescimento identificado no lado leste da Antártida não compensa o que está acontecendo a oeste nem na Península do continente.

Acredita-se ser provável que um grande volume de neve tenha sido acumulado no leste da Antártida pouco antes da última avaliação, em 2012, e isso fez com que a situação do continente parecesse menos negativa do que a realidade.

Lado leste da AntártidaLado leste do continente é a única região onde há registro de crescimento da camada de gelo. REUTERS

Globalmente, os níveis do mar estão subindo cerca de 3 milímetros ao ano. Além da perda de gelo na Antártida, esse aumento é impulsionado por vários fatores, incluindo a expansão dos próprios oceanos quando eles aquecem.

Mas o que ficou claro na última avaliação dos pesquisadores é que a Antártida está se tornando um dos principais responsáveis por essa elevação.

“O aumento de três vezes coloca a Antártida no cenário como um dos maiores responsáveis para o aumento do nível do mar. A última vez que a gente observou o gelo polar, a Groelândia era a que mais contribuía”, disse Shepherd, que é afiliado à Universidade de Leeds, no Reino Unido.

Reação

A última edição da revista acadêmica Nature traz uma série de estudos que avaliam o estado do continente gelado e como ele pode impactar nas mudanças climáticas.

Um dos artigos, que trata de uma pesquisa liderada por americanos e alemães, avalia a possível reação do leito rochoso à medida que a grande massa de gelo acima dele se afina.

Na avaliação dos cientistas, o leito rochoso deveria subir – algo que os cientistas chamam de reajuste isostático.

Novas evidências sugerem que houve restrição nas perdas de gelo onde esse processo ocorreu no passado. À medida que o leito rochoso sobe, ele se depara com frentes flutuantes das geleiras de terminação marinha.

Foto tirada em 2010 mostra fendas perto do glaciar Pine IslandPesquisadores divulgaram números que mostram a aceleração do derretimento na publicação acadêmica Nature. AFP/UNIVERSITY OF WASHINGTON/IAN JOUGHIN

“É como apertar os freios em uma moto”, disse Pippa Whitehouse, da Universidade de Durham.

“Atrito na base do gelo, que estava flutuando, mas afundou novamente, retarda tudo e muda todo o fluxo dinâmico. Acreditamos que o rebote (no futuro) será rápido, mas não rápido o suficiente para parar a perda iniciada com o aquecimento”, completou.

Na última avaliação dos pesquisadores da Imbie, a participação da Antártida no aumento dos níveis globais do mar foi considerada a partir do rastreamento de projeções do extremo inferior dos oceanos e de simulações computacionais que analisaram a possível altura do oceano no final do século.

A nova avaliação acompanha o limite superior dos oceanos nessas projeções.

“No momento, temos projeções até (o ano) 2100. A elevação do nível do mar que veremos é de 50/60 cm”, disse Whitehouse à BBC News.

“E isso não vai impactar somente as pessoas que vivem perto da costa. O tempo de repetição de grandes tempestades e enchentes será acentuado.”

Antártida perdeu três bilhões de toneladas de gelo entre 1992 e 2017

Particionamento de uma plataforma de gelo na Antártida / Ian Phillips, Divisão Antártica AustralianaParticionamento de uma plataforma de gelo na Antártida / Ian Phillips, Divisão Antártica Australiana

A camada de gelo da Antártida perdeu cerca de três bilhões de toneladas entre 1992 e 2017, de acordo com uma análise da revista Nature, publicou um total de cinco estudos esta semana sobre a evolução, estado atual e futuro deste continente. Este derretimento resulta em uma elevação média do nível do mar de cerca de oito milímetros. O processo acelerou nos últimos cinco anos.

O comportamento do gelo antártico, que contém água suficiente para elevar o nível do mar em 58 metros em todo o mundo, é um indicador-chave da mudança climática. O monitoramento atual, assim como o balanço de suas perdas e ganhos de massa, permitirão estimar as possíveis mudanças futuras deste continente.

Desde 1989, mais de 150 cálculos da perda de massa de gelo da Antártida foram feitos. Um estudo conduzido pela Universidade de Leeds (Reino Unido), com a participação de 84 cientistas de 44 organizações internacionais, combinou 24 avaliações de satélite para concluir que a perda de gelo na Antártida subiram os níveis globais do mar 7 6 mm desde 1992. Dois quintos deste aumento (3 mm) ocorreram nos últimos cinco anos. O trabalho é publicado na revista Nature .

“Há muito que suspeitávamos que as alterações no clima da Terra afectariam as camadas de gelo polar e, graças aos satélites, podemos agora controlar com confiança as suas perdas e a contribuição global para o nível do mar”, explica Andrew Shepherd, professor a Universidade de Leeds.

As conclusões são o resultado de avaliação climática conhecida como exercício de comparação do balanço de massa da calota de gelo (Imbie, por sua sigla em Inglês) e fornecer o quadro mais completo da mudança no gelo da Antártida ao namorar

Antes de 2012, a Antarctica teria perdido uma taxa constante de 76 bilhões de toneladas por ano, uma contribuição de 0,2 mm por ano para o aumento do nível do mar. No entanto, desde então, houve um aumento acentuado. Entre 2012 e 2017, o continente perdeu 219 bilhões de toneladas por ano, uma contribuição anual de 0,6 mm no nível do mar.

“De acordo com nossa análise, tem havido um aumento gradual em perdas de gelo na Antártida na última década, eo continente está causando níveis do mar a subir mais rapidamente hoje do que em qualquer momento nos últimos 25 Isso tem que ser motivo de preocupação para os governos em que confiamos para proteger nossas cidades e comunidades costeiras “, destacam os autores.

Um continente que pode afundar o resto

A Antártida armazena água congelada suficiente para elevar o nível do mar global em 58 metros. Saber quanto gelo está perdendo é fundamental para entender os impactos da mudança climática agora e no futuro.

“Este é o estudo mais forte sobre o balanço de massa do gelo da Antártida até à data,” diz Erik Ivins, um pesquisador do Jet Propulsion Laboratory da NASA, na Califórnia.

A perda de gelo acelerada no continente como um aumento inteiro é uma combinação do estado de geleiras no oeste da Antártida e da Península Antártica, e reduziu o crescimento da camada de gelo na Antártida Oriental.

Antártica Ocidental experimentou a maior mudança, com perdas de gelo de 53 bilhões de toneladas por ano na década de 1990 a 159 bilhões de toneladas por ano desde 2012. A maioria vem das imensas geleiras em Pine Island e Thwaites, Eles estão derretendo rapidamente devido ao derretimento dos oceanos.

No extremo norte do continente, o colapso da plataforma de gelo na Península Antártica provocou um aumento de 25 bilhões de toneladas por ano. A camada de gelo da Antártida Oriental permaneceu em estado de equilíbrio nos últimos 25 anos, com uma média de 5 bilhões de toneladas de gelo por ano.

Josef Aschbacher, Diretor do Programa de Observação da Terra da ESA, disse: “CryoSat e Sentinel-1 estão fazendo um elemento essencial para a compreensão de como as camadas de gelo contribuição responder à mudança climática e afetar o nível do mar, que é um grande preocupe-se.

“Os satélites nos deram uma imagem surpreendente do que está mudando Antarctica. Os satélites comprimento de registro agora nos permite identificar as regiões que sofreram perdas sofridas gelo há mais de uma década”, disse Pippa Whitehouse, pesquisadora da Universidade de Durham.

A próxima peça do quebra-cabeça é entender os processos que impulsionam essa mudança. “Para fazer isso, devemos continuar a observar de perto a camada de gelo, mas também devemos olhar para trás no tempo e tentar entender como ela respondeu às mudanças climáticas passadas”, acrescenta Whitehouse. Quatro outros estudos publicados na mesma edição da revista Nature analisaram diferentes períodos do continente congelado

Referencias bibliográficas

“Mass balance of the Antarctic Ice Sheet from 1992 to 2017”
https://www.nature.com/articles/s41586-018-0179-y

“Antarctic and global climate history viewed from ice cores”
https://www.nature.com/articles/s41586-018-0179-y

“The global influence of localized dynamics in the Southern Ocean”
https://www.nature.com/articles/s41586-018-0179-y

“Trends and connections across the Antarctic cryosphere”
https://www.nature.com/articles/s41586-018-0179-y

“Choosing the future of Antarctica”
https://www.nature.com/articles/s41586-018-0179-y

Fontes – Servicio de Información y Noticias Científicas (SINC) / EcoDebate de 19 de junho de 2018

Acorde antes que seja tarde demais

Com o título “Wake up before it is too late (Acorde antes que seja tarde demais)”, relatório da ONU com contribuições de 60 especialistas da Comissão das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD) convoca países para urgente transformação da produção de alimentos, pedindo a democratização do controle da produção na criação de um mosaico global de sistemas agroflorestais de cultivo e fortalecimento de pequenos produtores rurais.

Alerta que a transformação é inevitável e que o mundo precisa de uma verdadeira “intensificação ecológica” na produção de alimentos, listando a deteriorização acelerada dos ecossistemas com o modelo ultrapassado do agronegócio, o impacto ambiental, as mudanças climáticas e a escassez hídrica como as principais ameaças à segurança alimentar mundial.

O estudo mostra ainda que o fortalecimento de pequenos produtores é o melhor caminho para combater a pobreza e a fome.

“Wake up before it is too late – Make agriculture truly sustainable now for food security in a challenge climate” ONU, 2013

As perdas de massa da camada de gelo da Antártida aumentaram o nível do mar global em 7,6 mm desde 1992

Antártida

Perda de massa de gelo na Antártida aumentou

As perdas de massa da camada de gelo da Antártida aumentaram o nível do mar global em 7,6 mm desde 1992, com 40% deste aumento (3,0 mm) vindo nos últimos cinco anos sozinho. Na Antártica Ocidental, as perdas em massa hoje somam cerca de 160 bilhões de toneladas por ano.

Os resultados são de uma importante avaliação climática conhecida como o Exercício Intercomparativo do Balanço de Massa da Massa de Gelo (IMBIE), e são publicados em 14 de junho na Nature . É o quadro mais completo da mudança da camada de gelo da Antártida até hoje – 84 cientistas de 44 instituições combinaram 24 pesquisas por satélite para produzir a avaliação.

Martin Horwath, professor de Geodetic Earth System Research na TU Dresden, e dois membros de seu grupo de trabalho, Ludwig Schröder e Andreas Groh, contribuíram significativamente para este estudo.

Ludwig Schröder explicou: “Os satélites do altímetro medem a elevação da superfície da camada de gelo. Analisamos os dados de cinco missões satelitais consecutivas para obter mudanças ao longo de todo o período de 25 anos de 1992 a 2017”. Schröder foi um dos apenas dois colaboradores a fornecer um conjunto de dados tão abrangente.

Andreas Groh acrescentou: “Analisar minúsculas mudanças na atração gravitacional da Terra é outro método para inferir mudanças na massa de gelo. Analisamos dados da missão do satélite GRACE. GRACE significa Gravity Recovery and Climate Experiment. Os resultados, juntamente com avaliações completas de incertezas, foram acessível através de um portal de dados aberto por um tempo. Eles foram agora incorporados ao estudo. ” O portal está disponível em data1.geo.tu-dresden.de.

Um dos dois autores principais do estudo, Dr. Erik Ivins, do Laboratório de Propulsão a Jato da NASA em Pasadena, Califórnia, atualmente em uma estadia de pesquisa no Instituto Prof. Horwath em TU Dresden, comentou o estudo: “A duração adicional da observação No período, o maior grupo de participantes, vários refinamentos em nossa capacidade de observação e uma capacidade melhorada de avaliar incertezas inerentes e interpretativas, cada um contribuiu para tornar este o estudo mais robusto do balanço de massa de gelo da Antártida até hoje. ”

A Antártida Ocidental sofreu a maior mudança, com as perdas de gelo aumentando de 53 bilhões de toneladas por ano na década de 1990 para 159 bilhões de toneladas por ano desde 2012. A maior parte disso veio da aceleração das enormes geleiras Pine Island e Thwaites. Na ponta norte da península da Antártica, a aceleração da geleira após o colapso da plataforma de gelo causou um aumento na perda de massa de gelo de sete bilhões de toneladas por ano na década de 1990 para 33 bilhões de toneladas por ano na década de 2010. Para a Antártica Oriental, os resultados estão sujeitos a maiores incertezas, mas indicam um estado próximo do equilíbrio nos últimos 25 anos.

* * Uma massa de um bilhão de toneladas corresponde a um quilômetro cúbico de água.

Referência

Mass balance of the Antarctic Ice Sheet from 1992 to 2017. The IMBIE team. Nature, volume 558, pages219–222 (2018). http://dx.doi.org/10.1038/s41586-018-0179-y

Fontes – Technische Universitat Dresden / tradução e edição Henrique Cortez, EcoDebate de 19 de junho de 2018

Dia Mundial dos Oceanos: consciência é saída para evitar catástrofe

Beleza de recife no litoral de Honduras disputa espaço com as grandes quantidades de plástico: globalização da poluição (Foto: Luciano Candisani)Beleza de recife no litoral de Honduras disputa espaço com as grandes quantidades de plástico: globalização da poluição (Foto: Luciano Candisani)

De acordo com a ONU, se não houver mudanças no descarte de lixo, em 2050 planeta terá mais plástico do que peixes nas águas

Eles cobrem cerca de 70% da superfície da Terra e são um importante elo que permite o equilíbrio da vida em nosso planeta. Mesmo assim, têm suportado toneladas diárias de lixo em forma de desrespeito, falta de educação e consciência sobre o futuro. Tudo em nome de um progresso que busca a praticidade e o conforto. No Dia Mundial dos Oceanos, o site do Terra da Gente abre espaço para o fotógrafo brasileiro Luciano Candisani, que há duas décadas percorre o mundo registrando os incríveis pontos de resistência da natureza e os cada vez mais comuns problemas com a poluição das águas.

“Nosso mundo está sendo inundado por resíduos plásticos prejudiciais. As partículas de microplástico hoje presentes no oceano superam as estrelas de nossa galáxia”, António Guterres, secretário-geral da ONU

“Sou testemunha ocular de que não temos muito o que comemorar. Atualmente, não há lugar no mundo que não tenha problemas com o plástico, por exemplo”, afirma o fotógrafo. “Por outro lado, podemos enaltecer a resiliência dos oceanos que, mesmo com as graves consequências dos nossos atos, ainda apresentam lugares de grande riqueza natural que mantêm o seu cenário original. Gosto de registrar esses locais para mostrar que ainda podemos ter esperança em mudar essa história”, diz.

População de baleias jubartes que buscam a costa brasileira para a reprodução aumenta a cada ano: refúgio precisa ser protegido (Foto: Luciano Candisani)População de baleias jubartes que buscam a costa brasileira para a reprodução aumenta a cada ano: refúgio precisa ser protegido (Foto: Luciano Candisani)

O plástico é o principal vilão dos mares que banham os continentes e representam 97,5% do total de água existente no planeta, abrigando 29% da biodiversidade conhecida até o momento. Levantamentos da Organização das Nações Unidas (ONU) mostram que, por ano, são consumidas até 5 trilhões de sacolas plásticas em todo o mundo. Também anualmente, 8 milhões de toneladas de garrafas plásticas vão parar nos oceanos, prejudicando 600 espécies marinhas, das quais 15% estão ameaçadas de extinção. Para se ter uma ideia do problema, a cada minuto, são compradas 1 milhão de garrafas plásticas.

Mas o drama vai além da água, outro triste dado é que 90% das aves marinhas já ingeriram plástico pelo menos uma vez na vida, de acordo com o mesmo estudo internacional. O secretário-geral da ONU, António Guterres, é ainda mais enfático: “Se as tendências atuais continuarem, em 2050 nossos oceanos terão mais plástico do que peixes”.

“Cada clique é uma manifestação do meu encantamento por esses pontos nos oceanos que ainda possuem uma riqueza natural. Mas, como fotógrafo, vivo um questionamento: trabalho para falar de conservação, mas o meu próprio deslocamento pelo planeta gera impacto”, Luciano Candisani, fotógrafo de natureza

Barbeador no ninho

O fotógrafo Candisani viu de perto os efeitos maléficos da indústria do consumo. Até mesmo na Ilha da Trindade, localizada no Oceano Atlântico, a cerca de 1,2 mil quilômetros da costa brasileira, o lugar habitado mais remoto do País, ele encontrou resíduos de plástico na água. “A quantidade de lixo plástico vista ali, naquele lugar tão distante de tudo, foi impressionante. Ao ler os rótulos das embalagens foi possível perceber que aquilo vinha de várias partes do mundo. As pessoas descartam em qualquer ponto e não têm noção do quão distante o oceano pode carregar aquilo”, lamenta o brasileiro.

Vida silvestre no arquipélago dos Alcatrazes, no Litoral Norte de São Paulo: paraísos ameaçados  (Foto: Luciano Candisani)Vida silvestre no arquipélago dos Alcatrazes, no Litoral Norte de São Paulo: paraísos ameaçados (Foto: Luciano Candisani)

Outra experiência ruim foi na Reserva Biológica Atol das Rocas, também no Atlântico – localizada a pouco mais de 260 quilômetros de Natal (RN). O fotógrafo estava registrando andorinhas do mar quando percebeu algo de estranho nos ninhos desses pássaros. Eram objetos plásticos que haviam sido recolhidos para compor o lugar que receberia os ovos. Tubos de canetas esferográficas, canudos e até barbeadores descartáveis foram vistos ali.

“Não tem um lugar que eu tenha visitado, por mais remoto que seja, que não tenha os reflexos do nosso modo de vida. O primeiro passo para uma mudança é ver que todas as nossas atitudes têm impacto porque estamos inseridos nesse sistema de consumo constante. Precisamos estabelecer outra relação com a prosperidade. Muitos dos nossos confortos são insustentáveis. As pessoas estão muito dependentes de uma forma artificial de sobrevivência”, reforça o fotógrafo, levantando uma importante discussão.

“(A poluição nos mares) É o resultado do nosso modo de vida, são os efeitos colaterais. Todos fazemos parte do mesmo ecossistema e precisamos perceber que tudo o que é descartado vai para algum lugar. O que jogamos fora acaba indo para o estômago de muitas espécies”, Luciano Candisani.

Numa viagem a Honduras, Candisani registrava uma comunidade de pescadores que tiravam o seu sustento com muito respeito ao meio ambiente. Durante as fotos, porém, uma surpresa desagradável: uma onda de lixo espalhou pedaços de plástico pela praia. “Por mais que existam ações locais responsáveis (como a dos pescadores hondurenhos), de nada adianta se não mudarmos a mentalidade globalmente. Precisamos mostrar para as pessoas que uma reação precisa envolver a todos”, acredita o brasileiro.

Palestras

Na tentativa de dar a sua contribuição para essa mudança, o fotógrafo costuma apresentar palestras em escolas. Ali, ele repassa o seu encantamento pela natureza para os jovens estudantes e, ao mesmo tempo, planta sementes de boas práticas. Orientar as futuras gerações a respeitarem os oceanos pode ser a solução para minimizar os impactos que hoje ameaçam toda a vida dentro e fora deles. Candisiani tem dado a sua gotinha de esforço para oceanos mais limpos. Cabe, agora, a cada um de nós aumentar essa onda.

Fonte – Fábio Gallacci, Terra da Gente

Boletim do Instituto IDEAIS de 08 de junho de 2018

5 perguntas sobre o degelo da Antártida

Icebergs (Foto: Baron Reznik/Flickr/CC)Icebergs (Foto: Baron Reznik/Flickr/CC)

Estudo publicado nesta semana mostra que o ritmo do derretimento no sexto continente triplicou nos últimos cinco anos

O trabalho científico sobre mudança climática mais importante do ano foi publicado nesta quinta-feira (15) no periódico Nature. Nele um grupo de 84 cientistas de 44 instituições deschavou duas dezenas de séries de dados de satélite para produzir uma grande estimativa do estado de saúde do gelo da Antártida. As conclusões não são nada boas: o continente branco perdeu quase 3 trilhões de toneladas de gelo entre 1992 e 2017. E o ritmo de perda triplicou nos últimos cinco anos.

O estudo integra um conjunto de seis publicações, que avaliaram desde como a perda de gelo marinho ajuda a esfacelar as geleiras antárticas até o ritmo sem precedentes do acúmulo de gases-estufa na atmosfera hoje, comparado a amostras de gelo antártico de 800 mil anos de idade. Os artigos coincidem com a maior assembleia de cientistas polares do mundo, o Polar 2018, que começou nesta quinta-feira em Davos, Suíça, e reúne 2.500 pesquisadores.

Entenda as principais conclusões do estudo nas perguntas e respostas abaixo.

1 – E daí se a Antártida derreter?

E daí muita coisa. O manto de gelo que há 34 milhões de anos cobre o continente antártico é o maior estoque de água doce da Terra. Cerca de 80% da água do mundo está retida ali. Se toda a Antártida descongelasse, o nível dos oceanos subiria 58 metros, o que representaria essencialmente o fim das zonas costeiras – que, a propósito, abrigam a maior parte da população mundial.

O derretimento total por enquanto é muito improvável. Mas há uma região da Antártida, sua porção oeste (ou Antártida Ocidental) que é muito vulnerável ao colapso. Ela contém cerca de 3,3 metros de elevação do nível do mar equivalente. É pouco comparado ao total, mas o bastante para reconfigurar o mapa-múndi e produzir uma onda de refugiados jamais vista, da qual nenhuma região de nenhum país do mundo escaparia. Cidades como Rio de Janeiro, Recife e Santos já enfrentam problemas de ressaca e erosão marinha hoje, e cidades do litoral paulista que estão perdendo praia já começam a planejar sua adaptação.

2 – Mas a Antártida não estava ganhando gelo?

Hm… não. Há muita confusão sobre isso, porque o assunto é confuso mesmo. Ocorre que existem, grosso modo, três Antártidas e três tipos de gelo. Não vá embora: a gente explica.

Gelo marinho antártico (Foto: Science News)Gelo marinho antártico (Foto: Science News)

Existe o gelo marinho, que nada mais é do que mar congelado. A Antártida todos os anos ganha 18 milhões de quilômetros quadrados (mais de dois Brasis) de cinturão de gelo marinho no inverno e perde o mesmo tanto no verão. Como é formado a partir de água do mar, ele não afeta o nível do oceano. Há também o gelo de plataformas, imensas línguas glaciais flutuantes que escoam das grandes geleiras antárticas e boiam no mar. Este também não afeta o nível do oceano. E há o gelo continental, empilhado sobre o continente. Este sim, eleva os oceanos caso derreta.

O manto de gelo antártico está dividido em três grandes áreas: a Antártida Oriental, onde está o polo Sul, muito alta e fria, contém 60% da água doce do mundo em forma de gelo. É a maior porção do continente. A Antártida Ocidental, com 10% da água doce da Terra, é mais frágil, por ter suas geleiras ancoradas abaixo do nível do mar. E a montanhosa Península Antártica, porção mais próxima da América do Sul, é relativamente quente, portanto, também muito frágil.

P1050109Enseada Martell, na Ilha Rei George, Península Antártica (Foto: Claudio Angelo/OC)

Até 2016, o gelo marinho antártico crescia cerca de 100 mil quilômetros quadrados por ano no inverno, possivelmente devido a mudanças nos ventos causadas pelo buraco na camada de ozônio. Esse aumento foi usado por negacionistas do aumento global para dizer que a Antártida estava crescendo, o que é uma meia-verdade (e, como vimos, nada tem a ver com o nível do mar). Além disso, essa fase aparentemente passou.

O gelo continental da Antártida Oriental provavelmente está ficando mais espesso. Isso porque a região é tão alta e tão fria que, ao ganhar mais umidade (devido à elevação da temperatura dos oceanos), tem mais precipitação de neve. Além disso, o buraco no ozônio resfriou partes daquela região. Mas esse crescimento é muito incerto: o estudo desta semana, produzido pelo projeto Imbie (sigla em inglês para Exercício de Intercomparação do Balanço de Massa de Mantos de Gelo), mostrou que o leste antártico está ganhando 5 bilhões de toneladas de gelo por ano, mais ou menos 46bilhões. Ou seja, a incerteza é nove vezes maior do que o sinal.

Já nas outras duas Antártidas o sinal de degelo é claríssimo: o oeste antártico perdeu em média 94 bilhões de toneladas por ano entre 1992 e 2017. Essa perda triplicou nesse período (de 53 bilhões de toneladas em 1992 para 159 bilhões em 2017). A Península mais do que quadruplicou seu degelo: de 7 bilhões para 33 bilhões de toneladas perdidas por ano.

3 – A Antártida está elevando o nível do mar?

Muito pouco – por enquanto. Em 25 anos, a contribuição do continente austral para a elevação dos oceanos foi de tímidos 7,6 milímetros. É quase nada comparado ao degelo da Groenlândia, que aumenta o nível do mar em quase 1 milímetro por ano. O problema é que, no caso da Antártida, há uma aceleração brutal do derretimento, que tende a mudar esse quadro drasticamente: antes de 2012, a contribuição total do sexto continente era de 76 bilhões de toneladas de gelo, ou 0,2 milímetro por ano. Entre 2012 e 2017, ela saltou para 219 bilhões de toneladas, segundo o Imbie – ou 0,6 milímetro por ano. Um dos estudos publicados nesta semana na Nature afirma que, a persistir o ritmo atual de emissões de gases de efeito estufa, a Antártida terá contribuído com 27 centímetros para a elevação do nível do mar em 2070.

Isso, claro, se o manto de gelo ocidental não colapsar de repente. As grandes geleiras daquela região, como a Pine Island e a Thwaites (só a Pine Island tem o tamanho do Amapá e mede 50 km de uma ponta a outra de sua foz), estão aparentemente em modo de derretimento descontrolado devido ao aquecimento do Oceano Austral abaixo da superfície. O vídeo acima mostra a perda de elevação nessas duas geleiras, que traduz seu derretimento acelerado. É possível, embora pouco provável por ora, que elas sofram esfacelamento repentino neste século, o que causaria um aumento quase instantâneo de 3,3 metros no nível do mar.

4 – Como os cientistas sabem que isso é real?

Medindo. O Imbie comparou 24 séries de dados de satélite, que usam três abordagens diferentes: uma é a altimetria a laser, que consiste em lançar pulsos de luz sobre o gelo e medir com grande precisão a sua altitude. Repetindo as medições ano a ano, é possível detectar variações na elevação causadas pelo degelo. Outra forma de medir a massa do gelo é por meio de gravimetria: os satélites gêmeos Grace voam perfeitamente alinhados sobre a Terra; em lugares onde há menos gelo o puxão gravitacional é menor, e um deles sofre um ligeiro desalinhamento, que pode ser convertido em toneladas. Uma terceira forma é usando radares que medem a espessura e a velocidade do gelo.

Igualmente forte é a ligação entre aumento de temperatura e a concentração de gases de efeito estufa. As concentrações de gás carbônico (CO2), metano (CH4) e óxido nitroso (N2O) são maiores hoje do que as medidas no gelo antártico nos últimos 800 mil anos. Hoje há 17 lugares na Antártida de onde são extraídas amostras antigas de gelo – e todas contam exatamente a mesma história sobre a composição da atmosfera no passado.

Mas não apenas isso: um dos estudos publicados na Nature mostra também que a taxa de crescimento da concentração de CO2 na atmosfera hoje é 20 vezes maior do que em qualquer período nos últimos 800 mil anos – quando variações na órbita da Terra iniciaram e terminaram eras do gelo.

5 – E o que será dos pinguins?

Pinguins-de-barbicha (Pinguins-de-barbicha (“Pygoscelis antarctica”) (Foto: Penguin Place Post)

Vão se dar mal, coitados. E não apenas eles. Um dos estudos desta semana, liderado pelo australiano Steve Rintoul, aponta que duas espécies de pinguim, o pinguim-de-adélia e o pinguim-de-barbicha, terão reduções dramáticas em suas populações em 2070 a persistirem as emissões atuais. Uma terceira espécie, o pinguim-de-papua, vai prosperar num primeiro momento e depois declinar.

Mas não são apenas eles: o krill, camarão que é a base da cadeia alimentar antártica, vai colapsar devido à perda progressiva do gelo marinho, que pode chegar a 43% de redução; caranguejos subpolares invadirão o Oceano Austral; e grama nascerá onde hoje só existe rocha e gelo. O número de invasões biológicas será dez vezes maior do que hoje, desestabilizando um dos ecossistemas mais frágeis da Terra.

Fonte – Claudio Angelo, Observatório do Clima de 14 de junho de 2018