Pesquisas comprovam que nós estamos matando as abelhas

Dois estudos financiados pela indústria de pesticidas mostraram resultados não muito bons para os seus financiadores. As pesquisas forneceram provas sólidas de que pesticidas muito populares, chamados de neonicotinóides, são terríveis para as abelhas, animais polinizadores que mantêm nosso sistema de produção de alimentos funcionando.

Já suspeitava-se há algum tempo que esses pesticidas poderiam estar afetando as abelhas, mas esse é um assunto complicado de se estudar em laboratório, onde as abelhas podem receber doses de pesticida de forma irrealista. Agora, os cientistas realizaram os maiores testes de campo na Europa e no Canadá, e a notícia é ruim.

Os neonicotinóides são a classe mais utilizada de inseticidas no mundo. Eles são quimicamente semelhantes à nicotina, o composto que as plantas da família das palmeiras desenvolveram para protegerem-se das pragas.

Inseticidas sistêmicos

Inventados na década de 1980, os neonicotinóides rapidamente se tornaram um tratamento de colheita popular porque são sistêmicos, o que significa que eles circulam por toda a planta e matam os insetos logo que eles se alimentam. E uma vez que eles permanecem no sistema da planta, uma aplicação – às vezes apenas nas sementes – pode ser suficiente para oferecer uma proteção a longo prazo.

Mas essas propriedades atraentes para os agricultores são o que tornam os neonicotinóides uma preocupação para o bem-estar das abelhas. Um inseticida sistêmico faz facilmente o caminho até o néctar e o pólen de uma planta florida.

Para medir esse potencial dano, uma equipe de pesquisadores europeus estabeleceu 33 locais com plantações de colza, uma planta da qual as semenste são usadas para a produção de biodiesel, na Alemanha, Hungria e no Reino Unido. Estes foram aleatoriamente designados para serem tratados com um de dois nicotinóides ou com nenhum deles.

A equipe observou os efeitos em três espécies de abelhas. Os resultados diferiram entre locais e espécies, mas, em geral, eles descobriram que as colmeias eram menos propensas a sobreviver durante o inverno, enquanto as abelhas selvagens se reproduziram menos.

Não é que os pesticidas matem diretamente abelhas, observam os cientistas. Em vez disso, parece que a exposição de baixo nível as torna mais vulneráveis, especialmente se houver outros fatores ambientais ou doenças que já afetam a colmeia.

“As aplicações de neonicotinóides são, portanto, um tipo de roleta reprodutiva para as abelhas”, observa Jeremy Kerr, pesquisador em biodiversidade, em um artigo na revista Science.

Tiro pela culatra

O enorme estudo foi, na verdade, amplamente financiado pela própria indústria de pesticidas. As empresas Bayer Crop Science e Syngenta deram 3 milhões de dólares para a pesquisa, e ambas criticaram as conclusões dos cientistas de que seria melhor restringir o uso de neonicotinóides.

Mas estes são resultados importantes, e devem ser usados como base para a próxima decisão da União Europeia sobre uma potencial proibição geral destes pesticidas. Uma proibição temporária já está em vigor desde 2013.

“Nossos resultados sugerem que, mesmo que seu uso fosse restringido, como na recente moratória da UE, a exposição contínua a resíduos de neonicotinóides resultantes do uso generalizado anterior tem o potencial de impactar a persistência negativa de abelhas selvagens em paisagens agrícolas”, escrevem os pesquisadores.

E isso não é tudo.

Outro estudo de campo realizado por pesquisadores no Canadá foi publicado na mesma publicação da Science, mostrando também efeitos negativos nas abelhas.

A equipe estudou abelhas que viviam perto de campos de milho tratados com neonicotinóides ou longe da agricultura. Os resultados sugeriram que as abelhas expostas cronicamente apresentavam menor expectativa de vida e poucas condições de higiene na colméia.

Além disso, eles também descobriram que as abelhas recolheram pólen contaminado com os pesticidas, mas esse pólen não veio das próprias culturas tratadas.

“Isso indica que os neonicotinóides, que são solúveis em água, se espalham de campos agrícolas para o ambiente circundante, onde são absorvidos por outras plantas que são muito atraentes para as abelhas”, diz uma das pesquisadoras, Nadia Tsvetkov.

O trabalho realizado por ambas as equipes demonstra que realmente estamos contribuindo para o declínio mundial das abelhas, de forma mais dramática do que gostaríamos de admitir.

“Chegou a um ponto em que simplesmente não é plausível continuar negando que essas coisas prejudiquem abelhas em estudos realistas”, disse o pesquisador Dave Goulson, da Universidade de Sussex. “Eu diria que é o último prego no caixão”, sentencia.

 Fonte – Jéssica Maes, Science Alert / Hypescience de 05 de julho de 2017

Mundo vive a sexta extinção em massa (e a culpa é dos humanos)

tgraham / Flickr

A sexta extinção em massa de vida na Terra está a acontecer de forma mais rápida do que se previa, resultando numa “aniquilação biológica” da vida selvagem, alertam os autores de um novo estudo científico.

Segundo este estudo, desenvolvido por investigadores da Universidade de Stanford, na Califórnia, Estados Unidos, mais de 30% das espécies vertebradas estão em declínio, tanto em termos de população como de distribuição geográfica.

“Trata-se de uma aniquilação biológica que ocorre a nível global, mesmo que as espécies a que pertencem estas populações ainda existam em alguns locais na Terra”, afirma um dos autores da pesquisa, Rodolfo Dirzo, professor de biologia na Universidade de Stanford. O estudo foi publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences.

De acordo com a Agência France Presse, os investigadores traçaram a carta da distribuição geográfica de 27.600 espécies de pássaros, anfíbios, mamíferos e répteis – uma amostra que representa quase metade dos vertebrados terrestres conhecidos – e analisaram declínios de população numa amostra de 177 espécies de mamíferos entre 1990 e 2015.

Destes 177 mamíferos, todos perderam pelo menos 30% das suas áreas geográficas e quase metade perdeu pelo menos 80%. Cerca de 40% dos mamíferos, entre eles rinocerontes, orangotangos, gorilas e grandes felinos, sobrevivem com 20% menos de território do que seria desejável.

O declínio dos animais selvagens é atribuído sobretudo ao desaparecimento do seu habitat, ao consumo excessivo de recursos, à poluição e ao desenvolvimento de espécies invasivas e de doenças. As alterações climáticas também têm contribuído e este declínio tem-se acelerado, alertam os investigadores.

“Algumas das espécies que estavam relativamente seguras há 10 ou 20 anos”, como os leões e as girafas, “estão agora em perigo”, avisam.

Esta “perda massiva” em termos de população e de espécies “é um prelúdio do desaparecimento de muitas outras espécies e do declínio do ecossistema que torna a civilização possível”, lembrou o autor principal do estudo, Gerardo Ceballos, da Universidade Nacional Autónoma do México.

Os autores concluíram que a extinção populacional é mais notória do que tinham previsto anteriormente, argumentando que o mundo não pode esperar para enfrentar os danos feitos à biodiversidade pois a janela de tempo que nos permite agir é muito pequena, “provavelmente duas ou três décadas no máximo.”

“A sexta extinção em massa da Terra desenvolveu-se mais depressa do que a maioria gostaria de assumir”, diz o estudo.

No estudo, os investigadores observaram que as suas descobertas eram um pouco “limitadoras” uma vez que os fatores que influenciam a extinção de espécies e as perdas de população estavam a tomar proporções gigantescas, o que inclui perdas de habitats, sobreexploração, organismos invasores, poluição, alterações climáticas e uma potencial guerra nuclear a larga escala.

Ceballos considera que esta perda massiva de população e de espécies é um “reflexo da nossa falta de empatia” pela vida selvagem, acrescentando que o desaparecimento de espécies era também uma ameaça à rede ecológica de animais, plantas e microorganismos que poderiam causar problemas nos ecossistemas tornando-os menos resistentes, afectando a sua capacidade de sobreviver num mundo em rápida mudança.

Os investigadores apelam ainda a que se faça algo contra as causas deste declínio da vida selvagem, em especial a sobrepopulação e o excesso de consumo.

Numa entrevista ao jornal espanhol El Mundo, a professora catedrática de Biodiversidade e Ecossistemas na Universidade College de Londres, no Reino Unido, já tinha salientado em 2016 que “todas as evidências indicam que estamos perto da sexta grande extinção”.

E será “uma extinção em massa”, prevê a também directora do Centro para a Investigação da Biodiversidade e do Meio Ambiente da College de Londres, provocada não pelo “sistema terrestre ou por efeitos extraterrestres”, como no caso das cinco extinções que já se verificaram no nosso planeta, mas “pelas pessoas”.

Além disso, um estudo de 2015 já falava no desaparecimento de animais a um ritmo 100 vezes superior ao de uma normal extinção em massa e que os humanos poderiam estar entre as primeiras vítimas.

Fontes – ZAP / Lusa de 11 de julho de 2017

Quercus quer que Portugal diga um adeus definitivo aos sacos de plástico

Lixo

Depois da diminuição do consumo de sacos de plástico, os portugueses habituaram-se a pagar pelos sacos e o seu consumo está a aumentar.

A medida do anterior governo de taxar os sacos de plástico foi inicialmente positiva, mas rapidamente se revelou insuficiente. Depois de uma inicial diminuição do consumo de sacos de plástico, os portugueses acabaram por se habituar a pagar os sacos e o seu consumo está a aumentar novamente.

A Quercus defende que o Governo deve tomar medidas de forma a banir total e definitivamente o uso de sacos de plástico.

Estão comprovados e amplamente divulgados os efeitos nefastos dos sacos de plástico no ambiente, em especial no meio marinho, com envenenamento, asfixia e morte de peixes, animais e aves marinhas. Existe também, uma cada vez maior frequência de notícias que dão conta da entrada do plástico na cadeia alimentar do Homem, com presença dos plásticos no peixe consumido e até no sal de cozinha.

A medida de taxar o uso de sacos de plástico, nunca abrangeu os sacos que são utilizados dentro dos supermercados para embalar a fruta, os legumes, a carne, entre outros, o que faz com que na prática cada consumidor acabe por utilizar dezenas de sacos de plástico gratuitos sempre que vai fazer compras.

Em Portugal consomem-se anualmente 2 mil milhões de sacos de plástico.

De acordo com a Quercus, o controlo dos sacos nunca foi efetivo nas pequenas superfícies, no pequeno comércio, nas feiras e nos mercados.

Em 2016, Marrocos baniu oficialmente os sacos de plástico.
Sobre a sua visita a Marrocos durante a conferência das Nações Unidas sobre o clima COP 22 (2016), João Branco, presidente da Quercus, comentou: “Fiquei espantado com a facilidade com que a sociedade Marroquina vive sem utilizar sacos de plástico. Isso é visível nas ruas pela ausência de lixo relacionado com os sacos. Se Marrocos conseguiu banir os sacos de plástico não há qualquer motivo para que estes não sejam também banidos em Portugal. Haja vontade política”.

No dia 3 de julho de 2017, “Dia Internacional Sem Sacos de Plástico”, a Quercus reitera a necessidade de se acabar definitivamente com o uso deste produto tão prejudicial para o ambiente, já que como se percebeu, o consumo de sacos não diminui com a mera aplicação de taxas ou de políticas que continuam a permitir velhos hábitos.

Fonte – The UniPlanet de 03 de julho de 2017

Quatro fatos mostram que o homem se transformou numa força geológica

Há mais de 7 bilhões de pessoas na TerraHá mais de 7 bilhões de pessoas na Terra. Pavel Novak/ Wikimedia Commons

Tem gente que não acredita que o funcionamento geológico e biológico do planeta anda sendo profundamente alterado pela ação dos seres humanos. Para essas pessoas, o impacto do Homo sapiens pode até ser considerável em escala local, mas jamais seria significativo em escala global. Peço licença para discordar e apresento alguns números que deveriam ser mais conhecidos.

1) População: essa deveria ser óbvia, mas não custa ressaltar. Com mais de 7 bilhões de Homo sapiens caminhando pela Terra neste exato momento, alcançamos um nível populacional jamais sonhado por qualquer outra espécie de mamífero de grande porte. Os únicos bichos de tamanho igual ou superior ao humano que se aproximam da nossa exuberância demográfica são os que nós criamos (1,5 bilhão de bois, 1,1 bilhão de ovelhas, 1 bilhão de cabras).

2) Produtividade primária: eis um termo bem menos intuitivo do que “população”, mas igualmente importante. Produtividade primária é como os ecólogos designam a capacidade que certas criaturas têm de transformar energia derivada de fontes não vivas (em geral, a luz solar) em massa viva. É a mágica que as plantas e muitos micro-organismos fazem, e dela depende todo o resto da vida –eu e você, no fundo, não passamos de parasitas de plantas.

A invenção da agricultura e das demais atividades que fornecem comida e matéria-prima de origem biológica para a nossa espécie corresponde à capacidade humana de se apropriar da produtividade primária da Terra. Quão eficientes temos sido nisso? Muito –cálculos mais recentes indicam que hoje nós usamos 25% da produtividade primária do globo. Em outras palavras, um quarto de tudo o que a vida produz vai para a nossa conta bancária hoje.

3) Concreto “y otras cositas más”: a explosão da nossa capacidade tecnológica nos últimos dois séculos tem um subproduto curioso: a criação, em quantidades elevadas, de materiais que jamais foram produzidos por fenômenos naturais ou por outras espécies. É o caso do concreto, originalmente uma invenção dos velhos romanos, que a civilização global de hoje ama de paixão. Ama tanto que, nos últimos 20 anos, produziu concreto suficiente para cobrir cada metro quadrado do planeta com 100 gramas do material. Ou o alumínio na forma metálica pura. Ou o plástico, que você certamente é capaz de enxergar pra tudo quanto é lado. Se todos os humanos sumissem por um passe de mágica e uma nave alienígena pousasse aqui, seus tripulantes seriam capazes de deduzir a existência pregressa de uma civilização tecnológica só com base na presença de tais materiais.

4) Gases-estufa: feito um cobertor planetário, são os responsáveis por reter perto da superfície da Terra o calor trazido pela luz solar e, portanto, têm papel crucial no clima. O mais importante deles, o CO2, hoje tem uma concentração de 400 p.p.m (partes por milhão) na atmosfera.

Ocorre que essa concentração era de 280 p.p.m. antes que começássemos a bombear loucamente CO2 na atmosfera por meio da queima de combustíveis fósseis, a partir do século 19. Faz pelo menos 1 milhão de anos que não se via tanto gás carbônico no ar. É óbvio que isso fará a Terra esquentar –como temos visto.

Independentemente da sua coloração ideológica, os quatro pontos acima são fatos, não opiniões. Podemos discutir o que fazer a respeito –mas não fazer nada não me parece a melhor das ideias.

Reinaldo José Lopes é jornalista de ciência com graduação, mestrado e doutorado pela USP. É autor do blog “Darwin e Deus” e do livro “Os 11 Maiores Mistérios do Universo”. Escreve aos domingos, a cada 2 semanas.

Fonte – Folha de S. Paulo de 02 de julho de 2017

Dos limites do crescimento ao decrescimento da Pegada Ecológica

pegada ecológica e biocapacidade, Mundo: 1961-2013

“Acreditar que o crescimento econômico exponencial pode continuar
infinitamente num mundo finito é coisa de louco ou de economista”
Kenneth Boulding (1910-1993)

A economia é um subsistema da ecologia. Desta forma, a Pegada Ecológica gerada pela economia não pode ser maior do que a biocapacidade fornecida pela ecologia. Para manter a sustentabilidade e garantir o adequado padrão de vida da humanidade, sem degradar as condições ambientais, a Pegada Ecológica, no longo prazo, não pode ser maior do que a biocapacidade. Assim, é insustentável manter o crescimento da produção e consumo de bens e serviços acima da capacidade de carga do meio ambiente.

Essas lições foram antecipadas de maneira clara no livro “Limites do Crescimento, um relatório para o Projeto do Clube de Roma sobre o Dilema da Humanidade”, liderado pelo casal Meadows e publicado originalmente em 1972. Os autores constroem um modelo para investigar cinco grandes tendências de interesse global: o ritmo acelerado de industrialização, o rápido crescimento demográfico, a desnutrição generalizada, o esgotamento dos recursos naturais não-renováveis e a deterioração ambiental. Estas tendências se inter-relacionam de muitos modos e a obra busca compreender suas implicações num horizonte de cem anos.

A principal conclusão do livro está resumida neste parágrafo: “Se as atuais tendências de crescimento da população mundial, industrialização, poluição, produção de alimentos e diminuição de recursos naturais continuarem imutáveis, os limites de crescimento neste planeta serão alcançados algum dia dentro dos próximos cem anos. O resultado mais provável será um declínio súbito e incontrolável, tanto da população quanto da capacidade industrial” (p. 20).

Infelizmente o alerta do livro “Limites do Crescimento” não foi ouvido e a Pegada Ecológica da humanidade ultrapassou a biocapacidade do Planeta a partir do início da década de 1970, como mostra a figura acima. As reservas ecológicas (área verde) foram substituídas pelo déficit ecológico (área vermelha). E o mais grave é que o déficit aumenta a cada ano. Em 2013, a Pegada Ecológica Global estava 68% acima da Biocapacidade. Ou seja, a população mundial está utilizando cerca de 1,7 Planeta e caminha para o uso de dois Planetas até 2030.

Evidentemente, o modelo atual é insustentável e a humanidade marcha para uma situação catastrófica caso continue avolumando a Pegada Ecológica bem acima da biocapacidade. Por exemplo, a continuidade do efeito estufa pode ser o fator de “declínio súbito e incontrolável”, apontado pelo livro “Limites do Crescimento”. As constantes agressões antrópicas ao meio ambiente podem ter um efeito de retroalimentação com o derretimento do permafrost e das Tundras do círculo Ártico que liberam CO2 e o gás metano. Artigo de Uwe Branda et. al. (2016) traz uma afirmação preocupante: “O aquecimento global provocado pela liberação maciça de dióxido de carbono pode ser catastrófico. Mas a liberação do hidrato de metano pode ser apocalíptica”.

Portanto, os dados mostram que a natureza não aguenta mais a continuidade dos impactos do crescimento da população humana, do seu consumo e da sua decorrente poluição. A continuidade da perda da biodiversidade e da degradação dos ecossistemas apontam para um abismo que pode sugar o progresso e jogar a economia em um caos imprevisível, mas muito doloroso.

Para impedir o pior, é preciso evitar o crescimento econômico quantitativo que extrai volumes crescentes de recursos naturais e gera volumes ainda maiores de resíduos sólidos e poluição do solo, das águas e do ar. Não basta o desacoplamento relativo. A solução passa por uma mudança de paradigma e pelo decrescimento demoeconômico, como forma de reduzir a Pegada Ecológica. E como bem mostra o livro “Enough is Enough” (2010), não basta reduzir a pegada ecológica, também é preciso reduzir o número de pés.

O Japão é um exemplo de um país rico (com alto padrão de vida), que tem apresentado baixo crescimento econômico e que está em fase de decrescimento populacional. Embora o “país do sol nascente” apresente alto déficit ambiental, o resultado recente, mesmo que modesto, tem sido a redução das agressões à natureza. A Biocapacidade subiu de 85 milhões de hectares globais (gha) em 2003 para 89,6 milhões de gha em 2013, enquanto a Pegada Ecológica diminuiu de 696 milhões de gha em 2000 para 639 milhões de gha em 2013. Ainda existe um longo caminho para o Japão sair de uma situação de déficit para uma situação de superávit ambiental. Todavia, a notícia positiva é que o país é um dos poucos da comunidade internacional que está reduzindo sua dívida ambiental, fazendo convergir as tendências da Pegada Ecológica e da Biocapacidade.

Mudar o padrão de produção e consumo é fundamental. Porém, o decrescimento da população poderia dar uma grande contribuição para diminuir o impacto negativo sobre o meio ambiente. Porém, as projeções da ONU indicam que é quase certo que a população mundial vai passar dos atuais 7,6 bilhões de habitantes, em 2017, para cerca de 10 bilhões em 2055. Se houver queda mais acelerada das taxas de fecundidade, o declínio populacional poderá ocorrer ainda na segunda metade do século XXI.

Neste quadro, o que fazer então para evitar uma catástrofe ambiental?

Além da aceleração da queda das taxas de fecundidade (que vão possibilitar a futura estabilização demográfica) é preciso imediatamente modificar o modo de vida e reduzir o nível de agressão à natureza. Isto é, a Pegada Ecológica tem que abrandada.

Mas há grandes resistências à diminuição do consumo em qualquer sociedade, embora a redução do alto padrão de vida nos países ricos seja uma forma de mitigar os problemas ambientais e as desigualdades sociais. O decrescimento demoeconômico nos países desenvolvidos é uma bandeira que tem ganhado muitos adeptos, como mostra as publicações do grupo Research & Degrowth (R&D).

Mas há muita resistência em se falar em decrescimento demoeconômico nos países pobres e de baixo grau de desenvolvimento. Argumenta-se que as populações do Terceiro Mundo não atingiram um grau mínimo de bem-estar e que, portanto, estes países não têm “gordura” para queimar. Falar em decrescimento populacional também mexe com os interesses dos setores do fundamentalismo religioso, das forças militares, do conservadorismo moral, dos políticos populistas e do nacionalismo xenófobo. O pronatalismo sempre acompanha os sonhos da grandeza nacional, que tende a deixar o meio ambiente e a biodiversidade em segundo plano, em relação ao desenvolvimento das forças produtivas e ao egoísmo humano.

Contudo, quando se fala em decrescimento não se pode pensar simplesmente na lógica quantitativa e material. O decrescimento pode ser principalmente qualitativo, reduzindo as atividades mais poluidoras e fazendo crescer as atividades com menor impacto ambiental.

Por exemplo, o decréscimo da produção e do consumo de combustíveis fósseis, além de diminuir as emissões de gases de efeito estufa pode abrir espaço para o crescimento das energias renováveis (solar, eólica, geotérmica, ondas, etc.), contribuindo para a descarbonização da economia. As energias alternativas podem gerar emprego e democratizar o acesso à produção e consumo energético, criando a figura do prossumidor (produtor + consumidor).

Com base neste exemplo, podemos listar diversas maneiras de fazer decrescer as atividades mais poluidoras e degradadoras do meio ambiente, abrindo espaço para crescer as atividades mais amigáveis à natureza. Vejamos algumas alternativas:

Decrescer os gastos militares e reduzir a produção e uso de instrumentos de guerra e aumentar os investimentos em atividades de engrandecimento da solidariedade nacional e internacional, na promoção da paz e na ampliação do bem-estar social (com melhoria da saúde, da educação e cultura ecocêntrica).

Decrescer a produção e o consumo de fertilizantes químicos e agrotóxicos e aumentar os investimentos na agricultura orgânica, na permacultura e na agricultura urbana, produzindo alimentos saudáveis perto dos grandes centros urbanos (para decrescer os custos de transporte e o desperdício dos alimentos).

Decrescer as áreas de pastagem e a produção e o consumo de proteína animal, promovendo a transição para uma dieta vegetariana e vegana, além de aumentar as áreas de florestas e vegetação nativa.

Decrescer a produção e o uso de carros particulares (principalmente aqueles grandes, pesados e que demandam muita energia por quilômetro rodado) e aumentar os investimentos em transporte coletivo e no compartilhamento de automóveis.

Decrescer as desigualdades, o consumo conspícuo, os bens de luxo e investir em bens e serviços que permitam a universalização do bem-estar, aumentando as atividades da economia solidária, da economia colaborativa, de forma a diminuir os impactos das atividades antrópicas.

Decrescer a demanda dos serviços ecossistêmicos, reduzir a poluição e diminuir as áreas ecúmenas, aumentando as áreas verdes (florestas e matas), limpando os rios, lagos e oceanos para viabilizar a recuperação da biodiversidade, o aumento das áreas anecúmenas e o incremento do bem-estar ecológico.

Decrescer a economia material e aumentar a economia imaterial, a produção de bens intangíveis e a sociedade do conhecimento, da solidariedade e do compartilhamento.

O fato é que a humanidade precisa mudar o estilo de vida e o padrão de produção e consumo para fazer decrescer as atividades antrópicas. O alerta feito no livro “Limites do Crescimento” continua válido. Mas não basta mais limitar o crescimento. O desafio atual é promover o decrescimento demoeconômico, reduzindo a Pegada Ecológica e aumentando a Biocapacidade.

Os dinossauros viveram na Terra durante 135 milhões de anos. O Homo sapiens tem apenas 200 mil anos. Numa perspectiva de longo prazo, pouco importa saber se o “declínio súbito e incontrolável”, apontado pelo relatório, de 1972, do Clube de Roma, acontecerá em 50, 100 ou 200 anos. O certo é que o caminho atual é insustentável e, se nada for feito para um redirecionamento, a humanidade não terá futuro.

Indubitavelmente, não dá para tergiversar, pois é impossível garantir o enriquecimento da sociedade humana às custas do empobrecimento da comunidade biótica global. A insistência na manutenção do rumo historicamente insustentável da economia e do crescimento das atividades antrópicas pode levar a civilização ao precipício, ao ecocídio e ao suicídio.

Referências

ALVES, JED. População, Meio Ambiente e Desenvolvimento (in) Sustentável, Scribd, 10/05/2017
https://pt.scribd.com/document/347929768/Populacao-Meio-Ambiente-e-Desenvolvimento-in-Sustentavel

ALVES, JED. O decálogo da sustentabilidade ecocêntrica, Ecodebate, 13/11/2013
http://www.ecodebate.com.br/2013/11/13/o-decalogo-da-sustentabilidade-ecocentrica-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/

MEADOWS, D. et. al. Limites do Crescimento. Um relatório para o Projeto do Clube de Roma sobre o Dilema da Humanidade, Editora Perspectiva, 2ª ed., São Paulo, 1978
https://pt.scribd.com/doc/218016244/Limites-Do-Crescimento

O’Neill, D.W., Dietz, R., Jones, N. (Editors), Enough is Enough: Ideas for a sustainable economy in a world of finite resources. The report of the Steady State Economy Conference. Center for the Advancement of the Steady State Economy and Economic Justice for All, UK, 2010.
http://steadystate.org/wp-content/uploads/EnoughIsEnough_FullReport.pdf

Global Footprint Network: http://data.footprintnetwork.org/

Research & Degrowth (R&D): https://degrowth.org/

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

Fonte – EcoDebate de 28 de junho de 2017

Os oceanos estão se aquecendo rapidamente

A imagem mostra a taxa de aquecimento dos oceanos (Tendência de 0-2000m de calor do oceano) de 1960 a 2016 em unidade de W / m2, calculada pelos dados IAP Gridded. CRÉDITO: CHENG LijingA imagem mostra a taxa de aquecimento dos oceanos (Tendência de 0-2000m de calor do oceano) de 1960 a 2016 em unidade de W / m2, calculada pelos dados IAP Gridded. CRÉDITO: CHENG Lijing

Mais de 90% do desequilíbrio energético da Terra (EEI) no sistema climático é seqüestrado no oceano e, conseqüentemente, o teor de calor oceânico (Ocean Heat Content, OHC) está aumentando. Portanto, o OHC é um dos indicadores mais importantes do aquecimento global. Nos últimos 30 anos, muitos grupos independentes trabalharam para estimar as mudanças históricas da OHC. No entanto, grande incerteza foi encontrada entre as séries temporais globais da OHC. Por exemplo, durante o aumento de pesquisa atual sobre o chamado “hiato” ou “desaceleração”, diferentes estudos científicos desencadeiam conclusões bastante diferentes sobre a questão científica chave, como “Onde o calor é redistribuído no oceano?” Isso nos motiva a dar uma análise detalhada sobre mudanças globais e do OHC com base em vários conjuntos de dados oceânicos.

Um estudo [Consensuses and discrepancies of basin-scale ocean heat content changes in different ocean analyses] recentemente divulgado, liderado pelo doutorando D, WANG Gong-jie, da Universidade Nacional de Tecnologia da Defesa, colaborando com o professor LI Chong-yin e o Dr. CHENG Li-jing do Institute of Atmospheric Physics (IAP) / Academia Chinesa de Ciências, o professor John P. ABRAHAM, da Universidade de St. Thomas (EUA), examinou de forma abrangente a mudança de OHC nas escalas decadica e multi-decadal e em diferentes bacias oceânicas. Através de três diferentes conjuntos de dados oceânicos analisados objetivamente (Ishii do Japão, EN4 do Met. Office e IAP), eles descobriram que os oceanos são resistentes ao aquecimento, independentemente de quais dados foram utilizados. Além disso, o calor entre os oceanos globais experimentou uma redistribuição significativa nas últimas décadas.

Durante 1998-2012, famoso pelo período de abrandamento do aquecimento global, todas essas bacias haviam acumulado calor e não havia nenhuma indicação clara de qual bacia oceânica domina a mudança global da OHC. Em outras palavras, abaixo de 100 m de profundidade no Oceano Atlântico e Austral, e entre 100 a 300 m de profundidade no Pacífico e Oceano Índico, houve aquecimento estatisticamente significativo e todos contribuíram para o aquecimento global dos oceanos. Os resultados de discrepância de estudos anteriores são devidos à diferença de intervalos de profundidade utilizados no cálculo de OHC, bem como a incerteza em conjuntos de dados de temperatura subterrânea.

Por que há diferenças substanciais entre diferentes conjuntos de dados? Este estudo mostra que a análise de Ishii subestima a taxa de aquecimento no hemisfério sul no século passado. E a análise EN4 não pode reconstruir corretamente a temperatura da superfície do mar (SST) nos últimos 30 anos e subestima a taxa de aquecimento em ~ 90% em comparação com um conjunto de dados SST independente, como ERSST e OISST. Isso indica que as análises Ishii e EN4 podem subestimar a taxa de aquecimento do oceano.

“Em inglês simples, será importante que possamos manter sensores de temperatura de alta qualidade posicionados em todos os oceanos, então, no futuro, poderemos prever onde nosso clima se dirige”, explica o co-autor ABRAHAM. “Dizemos na ciência que uma medida não feita é uma medida perdida para sempre. E não há medidas mais importantes do que o aquecimento dos oceanos”.

Consensuses and discrepancies of basin-scale ocean heat content changes in different ocean analyses
Wang, G., Cheng, L., Abraham, J. et al. Clim Dyn (2017). doi:10.1007/s00382-017-3751-5
https://link.springer.com/article/10.1007%2Fs00382-017-3751-5

Fontes – Zheng Lin, Institute of Atmospheric Physics, Chinese Academy of Sciences, Tradução e edição Henrique Cortez, EcoDebate de 29 de junho de 2017

Fundação SOS Mata Atlântica lança o estudo ‘Unidades de Conservação Municipais da Mata Atlântica’

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A Fundação SOS Mata Atlântica acaba de lançar o estudo “Unidades de Conservação Municipais da Mata Atlântica”, o primeiro trabalho feito no país sobre essas áreas protegidas nas cidades do bioma. O levantamento, divulgado hoje no Fórum Brasil de Gestão Ambiental, em Campinas (SP), revela a existência de mais de mil Unidades de Conservação (UCs) municipais na Mata Atlântica e nos ambientes costeiros e marinhos.

As análises se concentraram em 934 UCs municipais, já que 153 têm lacunas de informação. As UCs analisadas estão distribuídas em 428 municípios, que equivalem a pouco mais de 3 milhões de hectares. Da amostra total, 914 UCs estão em áreas da Mata Atlântica e ecossistemas associados (2,8 milhões de hectares) e 20 estão em áreas marinhas (132,3 mil hectares).

Até esta etapa da análise, realizada entre fevereiro de 2015 e março de 2017, o estudo investigou 559 municípios da Mata Atlântica, que respondem por 20% das municipalidades totalmente inseridas no bioma e 16% dos municípios existentes em seu domínio. O ponto de partida foi o mapa da área de aplicação da Lei da Mata Atlântica (Lei nº 11.428, de 2006).

Foram consideradas as UCs em conformidade com o Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC), além daquelas com proteção oficial e características similares a alguma categoria de manejo, embora, por algum motivo, ainda não tenham sido adequadas ao SNUC.

“A Mata Atlântica possui 3.429 municípios e mais de 72% da população vive nesse bioma. As Unidades de Conservação municipais têm um papel muito importante para conservar a biodiversidade e prover serviços ambientais essenciais para a sociedade, como água em quantidade e qualidade e a manutenção do nosso microclima. Há um potencial enorme para fortalecimento da atuação local e, por este motivo, essa agenda é uma nova prioridade institucional”, afirma Marcia Hirota, diretora-executiva da SOS Mata Atlântica.

O levantamento da Fundação SOS Mata Atlântica indica seis fatores principais que motivam a criação de UCs municipais pelas prefeituras: proteção de remanescentes da vegetação nativa e da paisagem natural; uso público para lazer, recreação e ecoturismo; educação ambiental; pesquisa sobre a biodiversidade; proteção de espécies raras, endêmicas e ameaçadas de fauna e de flora e proteção de recursos hídricos.

O Parque Natural Municipal (PNM) Montanhas de Teresópolis é um bom exemplo da importância das UCs municipais para a preservação de remanescentes da Mata Atlântica. Criada em 2009 como contraponto à exploração irregular de granito na região, integra o Mosaico de Unidades de Conservação do Corredor Central Fluminense, uma das áreas mais ricas em biodiversidade da Mata Atlântica. Ao fazer conexão com outras duas importantes UCs, o Parque Nacional da Serra dos Órgãos e Parque Estadual dos Três Picos, esse PNM contribui para proporcionar um cinturão de proteção não só para Teresópolis, mas também para os municípios vizinhos de Petrópolis e São José do Vale do Rio Preto.

“Observamos muitas inovações e esperamos que outros municípios possam se inspirar nelas para avançar com esse mecanismo de proteção ambiental em seus territórios. Um aspecto importante é que mais da metade das unidades de conservação municipais registradas estão inseridas ou próximas da malha urbana dos municípios. Isso abre uma nova perspectiva para a reconexão entre as pessoas e os ambientes naturais e o fortalecimento do elo entre o meio ambiente conservado e o bem-estar da população”, diz Luiz Paulo Pinto, pesquisador responsável pelo estudo, mestre em ecologia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e mais de 25 anos de experiência em trabalhos com ONGs ambientais.

O estudo foi realizado com o apoio do Bradesco Cartões, do Bradesco Seguros, do Instituto Credit Suisse Hedging-Griffo e da Repsol Sinopec Brasil.

Unidades invisíveis

O estudo também faz um alerta para a precariedade do acesso e disponibilidade de informações oficiais sobre as UCs por parte do poder público. Isso porque somente 28% das UCs municipais contam com algum tipo de informação nos sites das prefeituras. Mesmo as unidades que fornecem dados o fazem de forma incompleta.

“Essas unidades estão praticamente invisíveis no sistema. É necessário ampliar o conhecimento sobre essa rede de proteção para que as UCs municipais possam efetivamente fazer parte da estratégia de proteção da biodiversidade da Mata Atlântica”, afirma a gerente de Áreas Protegidas da Fundação SOS Mata Atlântica, Erika Guimarães.

Esse gargalo no fornecimento de informações mostra a necessidade de um grande esforço para as prefeituras registrarem as UCs no Cadastro Nacional de Unidades de Conservação do Ministério do Meio ambiente (CNUC/MMA), pois apenas 211 das UCs, ou 23% do total levantado, estão cadastradas nesse sistema.

Foram registradas UCs municipais em 15 dos 17 estados da Mata Atlântica. Minas Gerais, Rio de Janeiro e Paraná, juntos, concentram 82,6% da área e 70,3% da quantidade total de UCs no bioma. Minas Gerais tem mais da metade da área total protegida (56%) e maior quantidade de municipalidades com UCs (156).

O Rio de Janeiro, por sua vez, tem a maior proporção e capilaridade da cobertura dessa rede de proteção. Segundo o estudo, pelo menos 83,7% dos municípios fluminenses abrigam 305 UCs municipais, ou o correspondente a 33,4% das unidades do bioma. Das 20 UCS marinhas, nove estão no Rio de Janeiro.

Os resultados desse trabalho contribuem para evidenciar a dimensão dessa rede de proteção local. Os números são surpreendentes e mostram a importância das unidades de conservação municipais para proporcionar mais capilaridade nas ações de conservação de uma região de grande complexidade socioeconômica e enorme riqueza natural. A expectativa é que possamos lançar as bases para o desenvolvimento de uma estratégia de conservação da Mata Atlântica amplificado e integrado, mais duradouro, valorizando e disseminando a experiência dos municípios na sustentabilidade do ambiente urbano e rural.

Fonte – EcoDebate de 14 de julho de 2017

“Colocam a humanidade no limite”. Para Vandana Shiva, Monsanto é culpada de ecocídio

Shiva pressionou o tribunal civil internacional que julgou a Monsanto e a considerou culpada de ecocídio. Ela pediu ao Supremo Tribunal a suspensão da Soja Intacta RR2da empresa Monsanto, pelos sérios riscos envolvidos.

Vandana Shiva pediu para ser considerada como amicus curiae para emitir opiniões sobre a soja da Monsanto.

“É um dia para lembrar que somos parte da Terra e que todos nós temos o dever de cuidar dela. Que dois séculos de desenvolvimento impulsionado por combustíveis fósseis estão colocando a humanidade no limite. E nós temos que mudar de rumo.”

Com esta decisão, a filósofa e ecofeminista indiana Vandana Shiva, ganhadora do Prêmio Nobel Alternativo de 1993, começou a carta reproduzida em todo o mundo a partir do Dia Mundial do Meio Ambiente, comemorado em 5 de junho. Mas o rumo de suas preocupações, cujo foco agora é os problemas ambientais que assolam o planeta, fica na Argentina.

Algumas semanas atrás, Shiva conseguiu que um documento judicial chegasse ao Supremo Tribunal, para participar no julgamento que a ONG Naturaleza de Derechos iniciou contra a empresa Monsanto e o Estado Nacional, tentando proibir a liberação e comercialização da soja transgênica RR2 em território argentino.

Tendo se tornado uma das principais referências mundiais dentro dos movimentos ambientais, Vandana Shiva foi uma das promotoras da criação do Tribunal Civil da Monsanto, que durante outubro de 2016 recebeu dezenas de testemunhos de todo o mundo sobre as implicações dos pesticidas e órgãos geneticamente modificadospara a saúde e o ambiente e, em abril do ano passado, declarou a Monsanto culpada pelo crime de ecocídio no Tribunal Internacional de Haia.

Depois de sua visita à Argentina no ano passado, durante o Festival de Cinema Ambiental, realizado na cidade de Buenos Aires, Shiva vinculou-se a organizações socioambientais locais, formando uma ponte para que no último 22 de maio pudesse recorrer ao Supremo Tribunal por escrito, declarando seu interesse em “apresentar-se no processo judicial como Amicus Curiae, a fim de opinar ao Tribunal quanto à necessidade de decretar a suspensão da Soja Intacta RR2 da empresa Monsanto Argentina SAIC, que representa um risco de dano grave e irreparável à agricultura tradicional, à saúde humana, ao ambiente e à biodiversidade”.

No mesmo documento, Shiva explica ao Supremo Tribunal a necessidade de uma audiência pública antes do tratamento do caso que acaba de chegar a suas mãos, consultando a opinião de especialistas independentes sobre os Organismos Geneticamente Modificados (OGM). Sem esse passo, para a filósofa hindu, é impossível determinar os efeitos sociais e ambientais dos agrotóxicos da Monsanto, cuja inocuidade alimentar e ambiental -alegada pela multinacional desde seu começo – nunca foi provada em estudos de longo prazo. Além disso, Shiva aponta que o cultivo transgênico do RR2 está preparado para um solo, dos mais de dez sub-biomas da Argentina, e que os efeitos que podem causar sobre o resto do território são desconhecidos.

Logo após receber uma menção especial em Nova Deli por sua “vida de serviço à Terra” durante o Dia Mundial do meio ambiente, Shiva participou do funeral de Madhav Dave, o ministro do Meio Ambiente hindu que havia sido ameaçado por desaprovar a mostarda transgênica da Monsanto na Índia e que foi encontrado morto em sua casa em 18 de maio. Ao chegar em sua cidade natal, Dehradun, Vandana Shiva concedeu a entrevista para discutir o cenário ambiental complexo no qual estamos imersos.

Quais são os problemas ambientais mais graves que a humanidade enfrenta atualmente?

O problema mais profundo é a continuidade da visão de mundo mecanicista, que vê a natureza como algo inerte, como matéria-prima a ser explorada, como um depósito para os nossos resíduos. Esta visão de mundo ganhou força com os combustíveis fósseis, e ganhou o mundo através do colonialismo, destruindo as culturas Bhoomi, Pachamama, Gaia, que veem a Terra como um ser vivo, e os seres humanos como parte da terra. Todas as várias expressões da crise ecológica – o caos climático, a erosão da biodiversidade, a extinção de espécies, o desaparecimento e poluição da água, a desertificação, a poluição tóxica – estão relacionadas a este paradigma mecanicista cristalizado.

Quais são as expressões materiais mais perigosas deste paradigma mecanicista?

Como ecologista e ativista, vejo a agricultura industrial como a fonte mais importante de destruição da saúde do planeta e da nossa saúde. Setenta e cinco por cento da destruição do solo, da falta de água, da erosão da biodiversidade relacionam-se com o impacto dos produtos químicos na agricultura. Estes produtos químicos são derivados de combustíveis fósseis e a agricultura industrial é responsável por metade dos gases de efeito estufa que poluem a atmosfera e causam instabilidade climática. Os alimentos desta agricultura também são responsáveis por 75% das doenças crônicas que afetam a humanidade. A pulverização de Roundup na Argentina, na soja Roundup Ready, levou a uma epidemia de câncer. A Monsanto sabia disso desde 1984. No entanto, eles mentiram que o glifosato do Roundup era seguro. Mas temos uma alternativa comprovada na agroecologia de cultivo de alimentos sem venenos. A agricultura livre tornou-se uma alternativa para o ambiente e a saúde. E acredito que está acontecendo uma grande mudança de consciência.

Que possibilidades abrem-se para proibir o cultivo transgênico depois que Haia condenou a Monsanto por crimes contra o meio ambiente?

Acredito que está se tornando inaceitável para as pessoas que empresas que cometem crimes e governos desonestos destruam a terra sem se responsabilizar de forma alguma, violando o princípio de que o poluidor deve pagar. Acho que o mundo está se abrindo para entender o ecocídio como um verdadeiro crime contra a natureza.

Há poucas semanas, depois de visitar a Argentina em 2016, a senhora enviou um documento ao Supremo Tribunal para testemunhar contra a corporação Monsanto. Quais são suas impressões sobre a situação no país?

Na Argentina e na Índia, a Monsanto está atacando as leis de patentes que reconhecem que somos parte da família da Terra, que as plantas e os animais não são invenções humanas e, portanto, não são patenteáveis. A ganância da Monsanto ao cobrar direitos autorais através de patentes sobre sementes está levando-a a atacar nossas leis nacionais e a soberania das sementes.

Que países já proibiram o uso de culturas geneticamente modificadas?

A maior parte da Europa é livre de OGM, a maior parte da Ásia é livre de OGM. Com exceção do algodão transgênico, a Índia não tem nenhum cultivo de alimentos geneticamente modificados. A Monsanto tentou empurrar a berinjela transgênica. Audiências públicas foram organizadas em todo o país e eles pararam. Por dois anos, a Monsanto-Bayer vem tentando empurrar uma mostarda transgênica que conseguimos deter até agora. O Satyagraha (um termo cunhado por Mahatma Gandhi para se referir à “força da verdade”) e a não-cooperação com o Cartel del Veneno são nossas últimas estratégias de organização para ter zonas livres de OGM e venenos.

As mudanças ambientais, sobretudo o aquecimento global, agora ameaçam erradicar a vida no planeta a curto ou médio prazo. Você acha que é possível reverter esta situação?

O mundo não vai acabar com o aquecimento global. O que vão terminar são as condições de vida humana na terra. Cientistas como Stephen Hawking dizem que vamos ser extintos em 100 anos ou devemos fugir para outros planetas. Mas há uma terceira opção, reconhecer que somos terráqueos, membros da família da terra. Podemos rejuvenescer este planeta, nosso lar, através da agroecologia, e criar condições para a continuação da vida humana e de outros seres vivos na Terra. A Agroecologia não é apenas a solução para a epidemia de veneno e de doença. É a solução para a mudança climática, porque através das plantas e da biodiversidade se extrai o excesso de carbono e nitrogênio do ar, que são devolvidos ao solo, como escrevi no livro Soil not Oil. Ficar aqui e cuidar da Terra também nos permite cuidar do nosso futuro. Esta é a nossa melhor opção. É um imperativo ecológico.

Fontes – Diego Fernández Romeral, Página/12, tradução Henrique Denis Lucas, IHU de 04 de julho de 2017

Captação de água da chuva economiza 60 mil litros por ano

Água da chuva é utilizada para banho e depois é aproveitada na irrigação do gramado – Foto: Divulgação ICMC

Pesquisador testa em sua própria casa sistema de automação que permite economia mensal de até R$ 300

O professor Eduardo Simões, do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP, em São Carlos, desenvolveu e instalou em sua casa um sistema inteligente de automação residencial para aproveitar a água da chuva. Com capacidade de armazenamento de 5 mil litros, o sistema tem como principal inovação o duplo reúso: é possível encher a banheira com a água da chuva aquecida por aquecedor solar e, após o banho, uma canalização leva a água do ralo da banheira para os sprinklers (dispositivos de irrigação) do jardim. A instalação do sistema teve custo aproximado de R$ 4 mil e permite uma economia de quase 60 mil litros de água durante o ano, além de uma redução mensal de até R$ 300 na conta de água.

Simões conta que o sistema é fruto de uma combinação de projetos de iniciação científica de mais de dez alunos de graduação que ele supervisionou. “Ele utiliza calhas coletoras da água da chuva nos beirais do telhado, sistema de filtração, cisterna subterrânea de 5 mil litros para armazenamento e uma bomba elétrica para elevar a água até a caixa d’água do telhado”, descreve. “A partir da caixa d’água, a água é distribuída para descarga nas privadas e para várias torneiras no jardim, na lavanderia, entre outros pontos da casa. Dá até mesmo para encher a banheira com a água da chuva.”

A água da chuva é armazenada em uma cisterna, uma caixa d’água normal adaptada para ser enterrada, de modo a reduzir custos, e coberta por uma laje de alvenaria feita com material que sobrou da obra da casa. “Como chove muito no verão e pouco no inverno, não é necessária uma capacidade de mais do que 5 mil l no verão e no inverno seriam necessários mais de 100 mil l se não fosse realizado o uso inteligente da água”, afirma o docente do ICMC.

O professor explica que a água da banheira, depois do banho, é utilizada para irrigação do jardim, pois o ralo da banheira leva direto aos sprinklers. “Isso consiste no duplo reúso da água da chuva”, ressalta. “Porém, a cidade de São Carlos, onde fica a casa, possui um clima de cerrado e chove muito pouco durante o inverno. Sendo assim, é preciso utilizar esses recursos com inteligência, e por isso o sistema inteligente de automação residencial é muito importante para economizar a água de irrigação do jardim.”

Irrigação

O sistema possui um computador central RaspberryPi , que utiliza o sistema operacional Linux, conectado a vários microcontroladores Arduino e uma câmera. “A câmera coleta imagens do gramado, que são analisadas por uma rede neural artificial embarcada, a qual detecta quais as regiões que precisam ser molhadas pela tonalidade do verde”, aponta Simões. “Os Arduinos, espalhados em diversos pontos estratégicos do jardim, para coletar dados dos sensores de umidade e controlar os motores dos sprinklers, verificam a umidade e a decisão de irrigar ou não o gramado é tomada.”

De acordo com o professor, antes dos sprinklers serem acionados, o sistema consulta na internet a previsão do tempo para os próximos três dias. “Com esses dados, analisa-se a situação: se a probabilidade de chuva é maior que 90%, o sistema não molha; se é baixa, a irrigação é acionada”, destaca. “Se é difícil prever se vai chover, o que acontece com frequência, o sistema irá molhar somente um pouco, para que a grama sobreviva mais alguns dias até que possa se saber com boa precisão se chove ou não.”

Teste do protótipo do chafariz robótico que usa água da chuva para irrigação – Foto: Divulgação / ICMC

Quando a irrigação é acionada, os sprinklers robotizados, desenvolvidos especialmente para o projeto, são controlados pelos Arduinos e direcionam o jato somente para a área que precisa ser irrigada, com precisão de um metro quadrado. “Isso faz com que a água coletada das escassas chuvas de inverno seja suficiente para manter o jardim em um ‘modo de sobrevivência’ até que volte a chover com abundancia em outubro”, enfatiza Simões. O funcionamento do dispositivo para irrigação é descrito no Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) de Tiago Vilela Tapparo, apresentado no ICMC em novembro do ano passado.

Como o sistema tem baixo custo de instalação, as despesas são cobertas por recursos do próprio professor. A calha custou R$ 500, a cisterna R$ 1.500 (mão de obra incluída), a caixa d’água extra para água da chuva R$ 300, os dispositivos eletrônicos e processadores R$ 400 (o computador central custou R$ 150), o encanamento R$ 400, os sprinklers e servomotores R$ 400, e o material de consumo e outros itens R$ 300. O sistema permite uma economia de cerca de R$ 300 na conta de água nos meses de inverno e de cerca de R$ 120 nos meses de verão.

slideCalhas coletoras da água da chuva ficam localizadas nos beirais do telhado da casa – Foto: Divulgação / ICMC

slideCisterna que recebe a água da chuva fica enterrada na frente da casa – Foto: Divulgação / ICMC

slideNa cisterna, entrada de água coletada no telhado é direcionada de baixo para cima, de modo a não perturbar a decantação – Foto: Divulgação / ICMC

slideCaixas d’água no telhado recebem a água que é bombeada da cisterna – Foto: Divulgação / ICMC

slideCircuito para coleta de dados do sensor de umidade (instalado no gramado) e controle da válvula de água – Foto: Divulgação ICMC

slideComputadores usados para configurar o sistema que controla o processamento de imagem da grama – Foto: Divulgação / ICMC

slideImagem do esquema elétrico do circuito para coleta de dados do sensor de umidade no gramado e controle da válvula de água – Foto: Divulgação / ICMC

Fonte – Júlio Bernardes, Jornal da USP de 05 de julho de 2017